06 de Setembro de 2017 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben
Jace, Sozinho
O homem abriu os olhos.
Ele jazia de costas, olhando através de uma copa de verde delicado em direção ao azul escurecido do céu. Caules de bambu sussurravam em uma brisa quente e sonolenta. Ele conseguia sentir através de seus hematomas (e de uma tremenda dor de cabeça) que o chão sob ele estava fofo com folhas caídas. Era calmo ali, sob o bambu. O ar tinha um leve gosto de sal, e ele conseguia ouvir ondas ao longe.
Algo estalou um galho à esquerda do homem. Ele assustou-se e girou a cabeça procurando a fonte do som, então congelou.
Arte de Jonathan Kuo
Era uma coisa parecida com um lagarto, coberta de penas azuis e amarelas brilhantes. Parado sobre as patas traseiras e agarrando um ovo entre suas garras avantajadas, a criatura brevemente virou seus olhos alaranjados para observar o homem no chão. Emitiu um pequeno pio antes de continuar seu caminho, chutando algumas folhas ao trotar. Um momento depois ela se fora, desaparecendo tão rápido quanto viera.
O homem levou um momento para processar o encontro. A coisa-lagarto era novidade, mas tudo o mais sobre sua situação atual manifestava uma curiosa sensação de déjà vu.
Ele ergueu a cabeça para olhar melhor para si mesmo. Vestia um manto azul, calças compridas e um peitoral de couro justo.
Nada daquilo parecia familiar.
O homem sentou-se e gemeu com o esforço. Levantou-se e começou a tropeçar para fora, seguindo o rastro da coisa-lagarto.
O bosque de bambu deu lugar a um grupo mais esparso de palmeiras e, da mesma forma, o solo rico do chão da floresta tornou-se mais fino e arenoso conforme o espaço entre as árvores aumentava. O homem ouvia as ondas ficarem mais altas e tropeçava mais rápido em direção à água.
Ele emergiu em uma praia interminável. A areia sob suas botas era macia como farinha. O ar era espesso e úmido — ele se sentia encharcado mesmo estando em terra seca. Algumas estruturas rochosas formavam um arco natural entre a praia e o mar, e a selva exuberante formava uma parede severa e imediata na borda da areia.
O homem olhou para cima. O sol começava a descer na distância, e ele ouvia os chamados de aves marinhas dardeando pelo céu acima.
Ele olhou em ambas as direções da praia.
"Olá?"
A maré suave lambia suas botas.
"OLÁ?!" Ele chamou, o medo insinuando-se em sua voz.
Conforme as explicações lógicas eram metodicamente riscadas de sua lista mental, o homem aproximava-se cada vez mais de um estado de pânico.
Ele não sabia como chegara ali. Não sabia seu próprio nome. Não sabia onde ficava esta selva, ou por que estava em uma praia, ou o que diabos era aquela coisa-lagarto. Por que estava coberto de hematomas? E por que sua cabeça doía? E o que diabos ele precisava fazer para sair dali?
Uma imagem de um lugar desconhecido reluziu na mente do homem — cor e luz e a ideia de longe. O homem sentiu um formigamento descer pela nuca — e em um fluxo de energia refrescantemente frio, sentiu todo o seu corpo tentar se desintegrar de si mesmo, partículas piscando e desaparecendo, sua forma física vacilando entre um lugar e outro. Era agradável, familiar . . . confortador. Ele já fizera aquilo antes. Seu corpo estava se dissolvendo e se partindo — deveria parecer terrível, mas em vez disso parecia ser ele. Ele pressionou em direção ao sentimento, orando para que se mais de seu corpo desaparecesse, então mais de sua mente retornaria — apenas para sentir-se arrancado para trás, puxado por alguma força massiva de volta através de qualquer porta metafísica pela qual começara a caminhar. Longe e para longe e para baixo e para baixo até se chocar de volta na mesma praia de onde tentara partir. Caiu no chão com o choque daquilo.
Arte de Chase Stone
Um triângulo brilhante cercado por um círculo apareceu no ar acima dele, e o homem arquejou através de pulmões recompostos.
O calafrio agradável recuou. Seu corpo estava inteiro, suas mãos estavam pegajosas de suor e seus joelhos afundavam na areia.
O homem puxou o ar em respirações em pânico e irregulares. Seu coração batia como um hematoma contra o interior de seu peito.
O homem cerrou os punhos em confusão, respirou fundo e gritou o palavrão mais ilustrativo em que conseguiu pensar. Uma única palavra longa e satisfatória, e nela despejou toda a confusão e frustração que conseguiu reunir.
Ele finalmente parou e só conseguia ouvir o ritmo das ondas lambendo a margem.
A noite estava se instalando.
Ele avaliou seu estado físico. Seus hematomas e músculos doloridos precisavam de descanso mais que qualquer outra coisa — comida e água poderiam esperar até a manhã.
Sentou-se na areia por algum tempo tentando recordar como chegara, mas a única coisa de que conseguia lembrar era o balançar do bambu quando abrira os olhos pela primeira vez.
Após tentar lembrar como chegara ali, tentou lembrar seu nome.
O homem lembrava-se de muitos nomes. Lazlo era um nome. Sam também. Mas não achava que nenhum daqueles nomes pertencesse a ele.
Decidiu então que poderia descobrir como chegara ali de outras maneiras.
Não havia pessoas por perto, então o homem tirou seu pesado peitoral de couro, manto e luvas. Removeu sua camisa e calças, dobrou-as ordenadamente e colocou-as na areia, suspirando ao sentir o alívio de uma brisa fresca em sua pele. Olhou para seus pertences, então parou ao olhar para sua mão direita sem luva pela primeira vez.
Uma cicatriz corria em uma linha perfeita pelo seu antebraço direito. Era reta como o corte de um cirurgião; alguém fizera aquilo intencionalmente.
O homem avaliou-se em busca de mais pistas. Estava machucado da batalha recente, mas conseguia sentir várias outras cicatrizes profundas e retas correndo por suas costas. Seriam estas tão antigas quanto a cicatriz em seu braço? Quem fizera aquilo com ele?
O homem colocou uma de suas luvas de volta sobre a cicatriz e fez uma nota mental para ruminar sobre esta evidência mais tarde. Olhou para as roupas estendidas na areia.
O homem tentou imaginar quem as vestiria.
Quem quer que fosse esta pessoa, vinha de algum lugar muito mais frio, disso tinha certeza. Os materiais eram pesados, feitos para chuva (ele lembrava-se da chuva!) e frio cortante. O manto era um pouco demais — não era uma coisa espalhafatosa, por si só, mas seu padrão desmentia qualquer semelhança de sutileza. A camiseta de baixo estava manchada de suor, então ele devia estar caminhando pelo calor há algum tempo. O mais curioso de tudo eram as botas. Alguns grãos de areia estavam presos lá dentro contra a sola, mas o tipo de areia de seus sapatos tinha uma granulação diferente daquela da praia ao seu redor. Esta evidência era mais grossa, mais áspera, de um amarelo dourado rico comparado ao branco macio sob ele.
O homem franziu o cenho. Não havia suprimentos. Nenhuma faca. Sem comida, sem corda, sem itens pessoais. Quem quer que fosse esta pessoa aparentemente não se dera ao trabalho de carregar armas.
Seria ele tão idiota, para viajar de forma tão insegura? Não achava que sim, mas a evidência era preocupante. Talvez suas armas tivessem sido tiradas dele? Improvável — não parecia haver ninguém perto.
O símbolo no manto capturou sua atenção.
Era . . . familiar.
Por que era familiar?
A lua estava alta no céu agora, e o homem precisaria dormir. Decidiu refletir sobre o significado do símbolo mais tarde.
Caminhou pesadamente até um tronco trazido pela maré e deitou-se na praia. Parte dele preocupava-se com o lagarto de antes — talvez ele comesse pessoas também? Não apenas ovos? Uma linha de raciocínio falha — se comesse humanos muito provavelmente teria atacado antes — mas talvez houvesse outros de sua espécie com apetites maiores.
O homem sentia-se terrivelmente exposto.
Jogou seu manto sobre si e apertou os olhos fechados, desejando desesperadamente dormir a noite toda sem ser detectado por qualquer outra coisa que pudesse viver nesta ilha.
O homem pegou no sono com um formigamento na nuca e encolheu as pernas. Revirou-se na areia da praia, completamente adormecido — e sem que soubesse, totalmente invisível.
O homem acordou com o sol na manhã seguinte e, ainda sem ideia de quem era, decidiu focar em cuidar de suas necessidades físicas.
Começou familiarizando-se com sua nova casa.
Arte de Titus LunterArte de Titus LunterArte de Titus Lunter
Tendo aprendido o tamanho da ilha (uma caminhada de um dia em circunferência), escolheu um ponto sombreado por um afloramento rochoso e protegido do vento para fazer seu lar. Construiu um abrigo onde as árvores encontravam a praia. O trabalho de erguer gravetos coletados e amarrar estacas com casca de árvore descascada fez o homem perceber quão pouco exercício ele devia estar fazendo antes de perder a memória. Seus músculos estavam flácidos por desuso, e o homem perguntou-se novamente como seu eu anterior pretendera sobreviver ali sem armas ou ferramentas. Ele ficou mais forte conforme trabalhava, no entanto e, apesar de bolhas e queimaduras de sol, conseguiu construir uma plataforma coberta sobre a qual dormir.
Comida exigiu um pouco mais de tentativa e erro, mas o homem estava animado para aprender quais eram seus gostos e desgostos. Fabricou uma faca simples de uma pedra afiada e pôs-se a testar sabores. Gostava de ostras. Gostava daquela fruta alaranjada que fosse. Gostava da fruta verde longa e das pequenas bagas vermelhas, mas não das raízes roxas. Aquelas deixavam sua língua pinicando, o que ele atribuiu a uma alergia recém-descoberta. Que fascinante!
O que ele realmente precisava aprender era como fazer fogo.
O sol estava descendo rapidamente, e algumas nuvens surgiam no horizonte.
Uma segunda bolha começou a se formar em sua palma direita. Ele grunhiu com o esforço, esfregando um graveto entre suas mãos cansadas o mais rápido possível, ignorando a dor e o pus, e a gota de chuva que acabara de cair em seu pescoço. Contou o bater das ondas atrás dele (seis quebras por minuto) e começou a replicar o ritmo em sua mente, para que o esfregar do graveto batesse num ritmo junto com as ondas. Suas mãos estavam quentes com o esforço, e sua testa franzida com a concentração.
Um fino fio de fumaça subiu do ponto onde seu graveto encontrava a madeira à deriva, e ele riu, tentando como podia manter o pequeno fogo aceso.
O graveto quebrou em dois.
E o minúsculo fiapo de fumaça desapareceu.
Seus olhos arregalaram-se em choque, e um choramingo de decepção que descendeu em um rosnado de frustração escapou de sua garganta.
"Ilha inútil!"
O homem recostou-se na areia, cotovelos nos joelhos, e encarou o graveto quebrado caído sobre o tronco. Uma triste pilha de gravetos e folhas secas jazia em cada lado.
O homem gemeu e inclinou-se para trás até ficar estendido na praia.
Um albatroz deslizava em círculos preguiçosos muito acima de sua cabeça.
O homem gemeu uma segunda vez.
"Por que eu sei o que é um albatroz?" perguntou em voz alta.
O albatroz não respondeu.
O homem sentou-se e olhou para baixo, estreitando os olhos para a pilha de gravetos.
Talvez ele pudesse desejar que o fogo passasse a existir.
Limpou a areia de suas calças e sentiu a picada de uma queimadura de sol ao inclinar-se para frente, seu olhar fixo na pilha à sua frente.
Concentrou-se e sentiu outro fio de chuva cair em suas costas nuas enquanto o frio do céu nublado se instalava em seus ossos.
O homem precisava de fogo. Ele precisava de fogo mais que absolutamente qualquer outra coisa no mundo —
O pelo na nuca arrepiou-se conforme um calafrio desceu por sua espinha.
Um pequeno fluxo de fumaça começou a subir do tronco.
Ele saltou de pé e recuou. Fumaça?! Fumaça!
Parte dele estava alarmada — isso era real?! — mas o restante dele estava extasiado demais para se importar. O homem riu em surpresa e gritou, "Eu consegui!"
A fumaça começou a jorrar para cima. O homem caiu de joelhos e começou a alimentar a chama com minúsculos gravetos e folhas, rindo o tempo todo. Poderia ter chorado; estava tão feliz.
O homem levantou-se às pressas e começou a despejar mais e mais galhos, folhas e pedaços de madeira à deriva. Não se importava se usasse todo o seu combustível, ele precisava de fogo.
A chama florescera em uma pequena e aconchegante fogueira agora. O rosto do homem abriu-se em um sorriso largo. Uma pequena risada escapou dele, e ele entrelaçou os dedos acima da cabeça. Deu um passo atrás para admirar seu trabalho.
O fogo era a coisa mais bonita que ele já vira. Assumiu que já vira coisas mais bonitas, mas como não conseguia lembrá-las, eram irrelevantes e incomparáveis à beleza atual à sua frente. Isso era mais adorável que qualquer pintura e mais precioso que qualquer joia.
O ronco do estômago do homem interrompeu o momento.
Certo! Comida! Ele precisava comer comida!
Encontrara um peixe trazido pela maré na praia mais cedo. Era uma coisa feia, de aparência antiga, com escamas chatas em forma de diamante e um olhar vago em seu rosto morto.
O homem espetou o peixe com um graveto e o segurou sobre a chama.
Sentou-se, pronto para girá-lo quando um lado estivesse pronto.
Mas o peixe meramente o encarava.
Suas escamas não queimavam. Não sibilava. Não carbonizava. O peixe estava banhado em chama, mas nem uma vez mostrou qualquer sinal de estar sendo cozido.
O homem estava confuso.
Estendeu uma mão para sentir o fogo e percebeu que não estava quente.
Sua confusão transformou-se em pavor, e ele enfiou a mão diretamente nas chamas.
O fogo estava tão frio quanto o peixe morto.
O homem puxou a mão contra o peito e afastou-se da fogueira em pânico.
"O quê?! Não! Não não não não não!"
A chama tremeluziu em um azul brilhante — azul?! — então desapareceu sem cerimônia.
Mas ele vira a fumaça! Ele vira o fogo consumir a lenha abaixo! E no entanto nem uma vez sentira seu calor antes de a evidência do fogo desaparecer.
O pavor do homem transformou-se em pânico absoluto.
Ele recuou contra uma palmeira e encarou o peixe no graveto em horror, peneirando rapidamente a evidência e chegando a uma conclusão razoável.
Estava preso, sem memória, sem comida, abrigo ou habilidade . . . e agora, para completar, estava perdendo o contato com a realidade.
Passara-se bastante tempo desde o incidente com o peixe, e o homem chegara a aceitar que as coisas eram muito mais simples agora que perdera o juízo.
Se era verdade que sua mente estava desconectada da realidade, então ele não precisava se preocupar com a logística de como chegara ou quem fora antes. Sua sanidade era irrelevante se a única verdade que ele podia vivenciar era sua realidade atual.
Quão libertador fora chegar a essa percepção!
E assim, o homem pôs-se a fazer coisas que uma pessoa que acredita estar presa em uma ilha faria.
Deliciava-se em construir novas ferramentas. Uma cesta tecida de gravetos, uma armadilha simples, até uma faca afiada para abrir ostras. O homem propunha-se a fazer uma nova ferramenta a cada dia, e tinha orgulho de cada uma delas. Era quase divertido ter quantidades infinitas de tempo com as quais construir novas soluções para seus problemas.
Conforme explorava e aprendia, acostumou-se com as visões que via pelo caminho.
Algumas tinham mais forma que outras. Geralmente eram humanoides, com rostos e vozes próprias.
Uma mulher com pele branca como a neve e cabelo branco elaborado que flutuava atrás dele, anotando suas ações em um diário. Um oficial de justiça, de rosto severo com uma capa azul e armadura prateada. Um leonino sem um olho.
Em seus momentos de solidão, às vezes via uma mulher de violeta na borda de seu campo de visão. Um aperto de ansiedade agarrava seu peito sempre que ela passava.
O homem sabia que aquelas eram alucinações, sabia que não eram reais.
Elas não tinham poder sobre mim. Certo?
Ele ignorava as visões conforme iam e vinham, mas às vezes elas recusavam-se a ser ignoradas.
"Você realmente se superou desta vez, não foi?"
Esta visão aparecia sempre que o homem estava com dificuldades em uma tarefa.
Seus ombros eram largos, e sua pele oliva tinha um brilho de suor sob o brilho de sua armadura. A alucinação olhava por cima do ombro do homem enquanto ele tentava esculpir um anzol de pesca.
"Escute, você não é realmente adequado para esta tarefa. Deixe-me cuidar disso." A voz da visão era ríspida, mas amigável.
Soou como condescendência.
O homem ficou irritado.
"Eu consigo fazer sozinho."
A alucinação suspirou. "Nós dois sabemos que você não é adequado para isso. Deixe-me cuidar disso, vá filosofar na outra ponta da praia."
"Eu disse que consigo fazer sozinho." O homem deixou sua irritação chegar à voz.
"Não, não consegue. Eu dou as ordens e executo, você fica de lado. É assim que funciona."
O homem respondeu atirando seu anzol na alucinação. Ele passou direto pelo olho da figura e caiu atrás dela na areia.
As alucinações apareciam com mais frequência conforme seu tédio crescia.
"Políticas e procedimentos, seção 12, item 4."
Ele arquejou de surpresa. Uma mulher de cabelo escuro e uma bengala o encarava a poucos metros de distância na praia. Ela vestia um vestido branco com um emblema de sol na frente. Um manto escuro pendia atrás dela e roçava a areia, e sua expressão deixava claro que ela estava em uma missão.
Ela batia impacientemente um dedo no cabo de sua bengala.
"Eu disse, 'Políticas e procedimentos seção 12, item 4. Representantes oficiais de guilda podem receber passagem de um local de residência ou negócio controlado por guilda para outro em virtude de um mandado oficial'. Você concorda ou não que essa é uma lei vigente?"
Ela o seguia de armadilha em armadilha, olhava por cima de seu ombro enquanto ele rearmava as ciladas, e o encarava o tempo todo enquanto ele carregava os lagartos que capturara de volta ao acampamento para cozinhar.
Ele enterrou os lagartos com brasas quentes, folhas de palmeira e raízes para cozinhar pelo restante da tarde. Com o tempo, a alucinação desapareceu, e o homem suspirou de alívio.
Sentou-se por um tempo, ouvindo as aves costeiras acima, e decidiu afastar o tédio construindo uma fogueira na praia.
Passou sua manhã arremessando tronco após tronco nas chamas, esperando que a fumaça subisse alto o suficiente para que um navio notasse. Não notara ainda, mas talvez notasse hoje.
Seu otimismo estava minguando.
Colocou seu chapéu de palmeira trançada na areia. O calor vindo tanto do fogo quanto do sol do meio-dia era avassalador. Caminhou para longe do fogo e entrou no mar.
A água estava quente no raso, mas um alívio do calor da mesma forma. Picava suas queimaduras de sol e, sob as ondas, ele conseguia ver pequenos peixes dardeando para lá e para cá.
Conseguia sentir o puxão da maré contra suas pernas.
Sentir o gosto do sal na borda de seus lábios.
Sentir o cheiro da fumaça da fogueira na praia misturando-se com o aroma de algas trazidas pela maré.
Tudo aquilo parecia . . . real.
Real de um jeito que sua insanidade não deveria permitir que sentisse.
O homem considerou sua percepção da realidade.
Havia outra explicação para tudo aquilo. Para o estranho desaparecer e reaparecer que seu corpo fizera mais cedo e para o fogo que não era realmente fogo.
E se minhas alucinações forem expressões de magia?
Sabia que magia existia. Sabia que existiam pessoas que podiam manipular o fogo ou invocar relâmpagos ou fazer crescer árvores onde nenhuma crescera antes, mas não sabia seus nomes. Não sabia seus rostos.
Esquecera tudo o mais sobre si mesmo . . . poderia ter esquecido uma parte tão crucial do que fazia dele ele?
O homem passou uma mão molhada pelo cabelo. Foi para mais fundo na água, deixando as ondas lamberem suas bochechas barbadas.
O pensamento parecia . . . correto. "Eu posso empunhar magia" era um pensamento que vinha ao homem tão simples e verdadeiramente quanto "Sou um homem" ou "Não gosto de crocodilos".
Fechou os olhos e forçou-se a encontrar aquela coisa, aquele calafrio na nuca e aquela onda de poder interior. Buscou dentro de sua mente e desejou criar.
O homem abriu os olhos e viu uma visão de si mesmo de pé sobre a água à sua frente.
A imagem tinha uma expressão vazia no rosto, mas era de resto idêntica ao próprio homem, parada calmamente — impossivelmente — na superfície da água.
O queixo do homem caiu em choque.
A ilusão parecia sólida como carne, e seus detalhes eram assombrosamente precisos. O homem achou engraçado não lembrar seu nome mas lembrar os detalhes exatos de seu próprio corpo: músculos tonificados, barba por fazer no rosto, queimaduras de sol com bolhas em seus ombros nus. Viu até suas cicatrizes — suas cicatrizes — os pequenos marcadores de uma vida bem vivida.
O homem estendeu a mão e tentou tocar a perna da ilusão. Seus dedos passaram através dela como passariam através do ar.
Incrível.
O homem empertigou-se, com a cintura ao nível da água e as mãos ao lado do corpo.
O homem abriu um sorriso de orelha a orelha.
Concentrou-se, sentiu aquele calafrio familiar no pescoço, e a ilusão desapareceu.
Seu sorriso explodiu em um grito de alegria.
O homem correu para a margem, chutando areia conforme ia.
"Eu estive manifestando fragmentos de memória! Não estou alucinando — estive criando ilusões! Eu sou um mago! "
Estendeu uma mão e desejou que um cavalo de tração ilusório passasse a existir. A coisa materializou-se através de uma névoa suave de azul, e correu em um galope pesado ao redor do homem. Ele estendeu a mão para tocá-lo e facilmente passou a mão através de seu flanco cinza malhado. A ilusão passou correndo, saltando através de seu fogo de sinalização e galopando praia acima e abaixo, um rastro gracioso de noite nublada contra o branco severo da areia.
O homem riu da loucura de tudo aquilo. Riu de sua própria habilidade, de sua tolice, mas acima de tudo naquele momento, riu que os outros habitantes da praia achassem que sua criação era real. Gaivotas levantavam voo quando o cavalo se aproximava, insetos voavam perto para tentar pousar em suas costas e, embora não deixasse marca na areia, esta criação parecia mais real do que qualquer fogo, lança ou rede jamais parecera. Sua imaginação era grande demais para conter, e sua mente era tão ilimitada quanto ele desejasse. O homem não tinha necessidade de um nome ou de um passado, pois naquele momento ele sabia exatamente quem era.
O homem dissipou o cavalo e criou um elefante, dissipou o elefante e criou um monstro marinho, dissipou o monstro marinho e transformou o dia em noite, preenchendo a praia com uma exibição infinita de estrelas delicadas.
Riu até chorar.
Após um momento de lágrimas felizes cercado por uma galáxia infinita de estrelas ilusórias, seu coração pesou.
Estava parado em uma noite interminável, um vácuo perfeito pontilhado com pequenos surtos de luz.
O homem estava incrivelmente sozinho.
Desvaneceu a ilusão das estrelas e da noite e encontrou uma praia igualmente vazia.
Veio vestindo as roupas com que chegara, e deitou-se na clareira nua onde acordara.
O homem encarou o céu azul acima.
Tentou desejar partir, mas nada aconteceu.
Fechou os olhos e tentou lembrar como eram amigos ou um lar, mas nada veio à mente.
"Por favor, deixe-me partir", disse para ninguém.
O vento sussurrou no bambu acima, e o homem choramingou, segurando o rosto nas mãos.
Ele poderia não estar louco. Talvez estivesse morto. Talvez esta fosse alguma vida após a morte horrível. Talvez nunca tivesse existido antes e estivesse condenado ao que quer que fosse isto para sempre.
Mesmo se não pudesse partir, ao menos queria alguém com quem conversar.
"Você parece péssimo", ronronou uma voz vinda de cima.
O homem moveu as mãos. Uma ilusão de uma mulher estava acima dele. Tinha cabelo de corvo, olhos cansados e uma expressão desdenhosa. Seus braços estavam calçados em cetim violeta e cruzados à sua frente.
"Os músculos são uma mudança agradável, mas você fica horrível de barba." Seus lábios curvaram-se em um esgar de desprezo.
O homem balançou a cabeça, lágrimas brotando no canto dos olhos.
"Eu não sei quem você é."
"É claro que não sabe, garoto."
Ela o observou de cima a baixo. "Você não sabia quem eu era então, e não sabe agora. Difícil construir confiança quando nenhum de nós confia no outro."
O homem decidiu parar de se importar que esta ilusão não era real. Precisava desesperadamente de alguém com quem conversar.
"Quem era eu, antes daqui?"
"Você não era quem pensava que era, disso tenho certeza. Ninguém mais via através de você, mas eu via. Você nunca foi um líder ou um detetive ou um estudioso; você era uma criança assustada brincando de faz de conta."
O homem engoliu um nó na garganta.
"Você pode enganar o restante do mundo com sua magia e ilusões, mas nunca conseguiu me enganar."
O homem quis soluçar. Quis voltar e dormir. Quis passar fome até que tudo isso fosse embora.
"Eu não sei quem você é", ele finalmente admitiu com voz quebrada.
A mulher ajoelhou-se e olhou-o nos olhos com um sorriso frio, crocodiliano.
"Sou a melhor coisa que já lhe aconteceu."
O homem disparou uma mão para empurrá-la para longe, e a imagem da mulher tremeluziu e sumiu em uma névoa azul. Ela se fora.
Seu coração estava acelerado. E sua testa franzida em desespero.
Aquele desespero começou a apertar-se em raiva.
Levantou-se de pé, cerrou os punhos e deu um soco em um caule de bambu. O choque ensanguentou seus nós dos dedos.
Mas ele não se importou. Caminhou de um lado para o outro e tentou acalmar seu coração acelerado.
"Chega de ilusões involuntárias! " disse ele, e algo no fundo de sua mente ressoou com afirmação mágica. Não aconteceria novamente.
Ele tinha controle sobre sua mente. Ele era o portador de seus talentos.
O homem deixou sua mente derivar, e perguntou-se se a ilusão que vira era a manifestação de algo dentro de si mesmo, ou uma memória quebrada de alguém próximo.
Ela poderia ter sido uma amante. Poderia ter sido uma amiga.
Ele perguntou-se se sequer tinha amigos.
Como poderia alguém próximo de uma pessoa daquela ser merecedor de amigos?
Então um pensamento ocorreu ao homem.
"Quem eu era não importa . . . porque eu posso aprender quem eu sou agora."
Dizê-lo em voz alta fez com que parecesse real.
"Quem quer que eu tenha sido é irrelevante, pois me tornarei quem eu quiser me tornar."
O homem sentava-se comendo frutas coletadas diante de seu fogo, e uma jangada pequena mas resistente repousava por perto sob o céu estrelado e sem nuvens.
Ele encostou-se em seus suprimentos e percorreu sua lista mental uma última vez: duas semanas de água fresca (e um destilador solar para uso depois disso), sua rede, sua lança e o que restava de seu manto para usar como proteção contra o sol. Duas cestas de frutas. Seu chapéu, sua faca, material extra para as velas, bambu e corda extras para reparos. O homem sabia que poderia estar navegando para sua morte na manhã seguinte, mas estava desesperado para saber o que havia do outro lado do mar. Tinha que haver alguém lá.
Estava animado. Estava aterrorizado. Estava deixando o único lugar que já conhecera para encontrar o que jazia do outro lado da água, e o pensamento o enchia de uma estranha elação. Ele tinha tanto ainda por descobrir.
O homem sorriu. Sentou-se novamente em frente ao seu fogo e abriu uma ostra com uma pedra afiada. Segurou a meia concha no alto como um brinde à ilha ao seu redor.
Seu primeiro dia no mar correu tranquilamente. A Ilha Inútil desapareceu no horizonte, e o azul infinito estendeu-se à sua frente.
O homem estava confiante. Se sobrevivera tanto tempo em uma ilha deserta, conseguiria sobreviver a uma viagem no mar.
Dormiu bem naquela primeira noite.
Sua segunda noite correu bem também.
Mas o mar tornou-se cinzento e agitado no terceiro dia.
E na quarta tarde, as ondas ficaram mais altas que seu mastro.
Gotas espessas de chuva batiam em sua pele, e o céu revolvia-se acima com a mesma ferocidade do oceano abaixo.
Paredes de água lançavam sua pequena jangada de um lado para o outro, espirrando água fria em seus olhos e derrubando seu equilíbrio. O homem agarrou-se às laterais de sua jangada e apertou os olhos, desejando ter sido presenteado com poder sobre os mares em vez de poder sobre a mente.
Relâmpagos arqueavam no alto, seguidos imediatamente pelo estrondo do trovão.
O homem estava aterrorizado. Amarrou um pedaço de corda em sua cintura e prendeu a outra extremidade à sua jangada.
O barco subiu, erguido pela crista de uma onda e, no horizonte, o homem pôde ver uma ilha escarpada, acidentada e rochosa.
Talvez existam pessoas nesta?
O homem puxou o lado de sua vela para tentar pegar o vento, bem a tempo de sua embarcação deslizar pelo lado da onda, mergulhando em um vale de água enquanto outra onda agigantava-se acima.
O homem olhou para cima, viu a onda iminente e arquejou logo antes de ela se chocar contra seu barco.
Ele acordou debruçado sobre a madeira de sua jangada quebrada. Era noite, agora, e o mar estava parado.
A outra ilha estava na distância. Era uma coisa rochosa e estéril, com topos que brilhavam em branco.
Neve? Pensou ele com otimismo. Olhou mais de perto. O homem gemeu. Pássaros.
Avaliou seu estado atual. Sua jangada estava em pedaços, mas felizmente, a cesta de seus pertences ainda estava amarrada ao pedaço de jangada a que ele se agarrava.
Os excrementos brancos na ilha rochosa brilhavam ao luar. Era quase bonito. Quase.
Exausto e derrotado, o homem impulsionou-se com os pés em direção ao seu novo lar.
Ele arrastou-se para fora da água e colapsou em um pedaço de rocha acima do nível da maré. Apesar do coro interminável de aves marinhas e lagartos-pássaros voadores, o homem dormiu um dia inteiro.
O homem oscilava entre o sono e a vigília. Não tinha energia para levantar-se e explorar, mas conseguia ver claramente que trocara uma ilha perfeitamente habitável por uma absolutamente terrível.
Tudo soava e cheirava a aves marinhas.
Em seu coração, sabia que deveria ter ficado na Ilha Inútil e vivido uma vida feliz com suas ostras e rede de pesca e imaginação inabalável.
Mas havia uma pequena parte dele que sabia de alguma forma que ele poderia simplesmente . . . ir.
O homem decidiu replicar a experiência que tivera em seu primeiro dia.
Talvez agora funcionasse.
O homem deitou-se junto às rochas e fechou os olhos. Precisava encontrar o que quer que fosse em si mesmo que estava lhe dando este sentimento de que poderia fazer algo impossível.
Respirou fundo, deixou o som das ondas ao seu redor e a picada do sol acima desaparecerem de sua percepção e, em sua mente, imaginou um poço.
Suas laterais eram de ardósia cinza lisa mas, conforme o homem passava a mão pela borda, conseguia sentir que ele outrora fora preenchido não com água, mas com objetos e lugares infinitos, aromas, gostos, pessoas, amigos, amantes, o valor de toda uma vida de memórias. E agora elas se foram.
Ele escalou a borda do poço e caiu mais fundo em sua mente. Sua descida era controlada e lenta, um afundar gracioso através de si mesmo. A profundidade do poço não mudara, ele percebia, mas apenas a parte superior dele estava forrada com evidências e memórias. Era uma selva exuberante e chuvosa, areia farinhenta e pássaros familiares. Logo abaixo daquilo, os muros eram revestidos de bambu, o brilho da luz do sol em escamas de peixe e um cavalo de tração cinza-chuva perfeito e ilusório. Estas memórias eram orgulhosas, cheias de aprendizado e realização.
O homem sorriu. Não era muito. Mas era ele.
Continuou a cair.
O familiar desapareceu, e ele sentiu que estava se movendo em direção a um tipo diferente de conhecimento. O homem fez uma nota mental para um dia estudar as diferenças nos tipos de memória, pois aqui os muros tinham texturas, em um ponto veludo, em outro couro e, em outro ainda, uma mancha de espinhos de aparência severa. Conforme passava a mão de uma superfície para outra, sentia a vasta variedade de conhecimento que se acumulara ali de sua outra vida — conhecimento que ele nunca lembrava de ter aprendido mas pelo qual estava grato por ter retido. Aqui estava a linguagem, aritmética, como amarrar suas botas e como preparar uma xícara de café (oh, que atrocidades horríveis o homem cometeria por uma xícara de café quente). O homem deu uma risadinha. Havia tanta informação costurada nos muros e, no entanto, maravilhosamente, tanto espaço para mais.
O homem caiu mais ainda, e a ardósia do poço deu lugar a nuvens espessas de neblina.
O que quer que costumasse estar aqui desaparecera agora.
Mas havia uma parte que restava.
Estava ali, suspensa como uma joia prateada, uma luz brilhante incrustada no poço de sua mente.
O homem encontrou a parte que permitiria sua fuga.
A parte que fazia dele ele.
Não sabia o que era, mas sentira aquilo uma vez, e sabia que era sua última chance.
O homem ergueu a cabeça para o céu e ascendeu: passando pelas texturas de seu conhecimento, passando pela memória de sua amada Ilha Inútil, para fora do poço e de volta para seu corpo desperto.
Abriu os olhos e tentou ignorar os pássaros grasnando e batendo as asas nas rochas ao seu redor.
O homem respirou fundo e então acessou aquela parte brilhante de si mesmo que descobrira nas profundezas de sua mente.
O homem sentiu seu corpo dar um solavanco, e tentou suportar o pânico conforme seus membros piscavam para dentro e fora de vista. Pedaços de si mesmo tentavam partir, piscando em uma névoa delicada de azul. Mais uma vez, sentiu-se violentamente puxado para trás, caindo e debatendo-se, até que seu corpo atingiu as rochas de sua nova ilha. Aquele sigilo familiar de círculo e triângulo apareceu sobre sua cabeça, e o homem soltou o ar quando sua forma condensou-se novamente em carne.
Ele falhara.
O homem olhou ao redor. Estava cercado por nada além de ondas vazias, rochas cobertas de excremento e aves marinhas, e um sol escaldante.
A conclusão a que chegou foi simples. Não sobreviveria muito mais tempo.
"Eu consigo pensar em uma saída", disse através de lábios rachados e boca seca. "Vou pensar em uma saída para isso."
E assim o homem deitou-se nas rochas, fechou os olhos e descendeu mais uma vez em sua mente para buscar uma resposta.
Um imenso navio de madeira estava perto do afloramento rochoso infestado de pássaros. Suas velas estavam entrelaçadas com o que pareciam milhas de corda intrincada. Velas de cores brilhantes assaltaram sua visão com um matiz que ele não encontrara desde que acordara pela primeira vez na Ilha Inútil. Uma estátua de pedra estava amarrada sem cerimônia na frente do navio e, escrito em caligrafia graciosa na lateral da proa, estava o epígrafe: O Beligerante.
Ele fechou os olhos.
A exaustão o dominou e, minutos depois, ele ouviu o respingo de remos encontrando a água.
Uma voz feminina e rouca gritou sobre o estrondo das ondas.
"Eu lhe diria para não partir, mas a questão é um pouco irrelevante. É como caminhar entre os planos contra uma janela, não é?"
O homem estava cansado demais para olhar para a fonte da voz. Estava perto agora. Quem quer que fosse devia ter vindo remando.
"Meu navio precisa de uma nova carranca, Beleren! Diga-me para quem você está trabalhando e sua morte será indolor!"
Beleren? Esse é o meu nome? Perguntou-se em uma névoa sonolenta.
O respingo de pés caminhando pela água. O grasnar de gaivotas. Um grunhido, o baque sem cerimônia de uma âncora. A mulher deve ter pulado do bote para investigar por conta própria.
Ele a ouviu arquejar suavemente logo acima dele.
Eu pareço tão mal assim? O homem perguntou-se. Mentalmente admitiu, Eu me sinto assim. Devo parecer assim.
Os olhos do homem abriram-se trêmulos através de uma espessa crosta de sal e sono.
Ele travou os olhos com uma mulher majestosa que ele só podia assumir ser a capitã do navio.
Ela era notável.
Arte de Chris Rahn
A mulher era alta e ágil, com pele esmeralda brilhante e cabelos de tentáculos dançando curiosamente ao vento. Ele sabia, de alguma forma, que ela era uma górgona, mas não sentiu medo ao olhá-la nos olhos.
Seus olhos dourados arregalaram-se ao olhar para baixo para o homem nas rochas, e ela o encarou com uma expressão de choque.
O homem percebeu com partes iguais de excitação e pavor que esta mulher sabia exatamente quem ele era.
"Jace, que diabos aconteceu com você?"
13 de Setembro de 2017 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben
Uma Questão de Confiança
Arte de Anna Steinbauer
Huatli era excelente em exatamente duas coisas.
Ela era uma cavaleira, e era uma oradora.
Ao demonstrar qualquer uma delas, ela brilhava mais do que qualquer outro cavaleiro no Império do Sol.
Ela nunca precisara ser nada além disso. E ela tinha certeza de que finalmente seu imperador lhe concederia o título de guerreira-poeta após todos estes anos de ascensão e preparação.
"Deixe-me ver de novo", sussurrou seu primo.
Huatli abriu sua bolsa de sela. Um lampejo de aço brilhou de volta para os dois cavaleiros.
Inti espiou dentro da bolsa, o fantasma de um sorriso em seu rosto. "É horrorosa."
Seu primo era irritantemente calmo. Huatli aprendera ao longo dos anos a quantificar o entusiasmo dele, e inferiu de sua frase de duas palavras que ele estava radiante de orgulho.
"Quem quer que a tenha feito era desajeitado, e quem a empunhava era ainda mais." Huatli sorriu. Sua vitória final fora fácil. Nenhuma morte em nenhum dos lados, apenas habilidades marciais superiores e uma oferta muito convincente. A Legião do Crepúsculo recuara para seus navios sem armas ou orgulho.
Huatli olhou ao redor da praça enquanto ela e o primo passavam sob o arco na entrada de Pachatupa. Alguns assistentes preparavam a cerimônia de volta ao lar para mais tarde naquele dia. Alguns outros cidadãos caminhavam decididos, mas em geral a praça estava vazia. Apenas as montarias dos dois cavaleiros (dois patas-de-garra de olhos brilhantes) pareciam importar-se com a presença deles. O dinossauro de Huatli puxava as rédeas, ansioso para chegar aos estábulos para uma refeição.
Huatli e Inti estavam retornando da última grande campanha do Império do Sol na Costa do Sol. A maior parte do exército já retornara, mas seu esquadrão fora atrasado por uma batalha final contra a Legião do Crepúsculo. E, como todas as vitórias bem merecidas, esta rendera muitos despojos próprios.
Inti estendeu a mão, e Huatli passou-lhe a espada capturada. Ele girou o pulso para testar seu peso e a devolveu. "Você deveria ter visto o padre deles", disse ele.
"Hierofante", Huatli corrigiu.
"Hierofante? Eca. De qualquer forma, ele tinha unhas como as da vovó."
Huatli deu um aceno exagerado e um enfático hmm. "Os fatos coincidem. Dada a evidência, é mais provável que a vovó seja uma vampira."
Ela virou-se para Inti e contou cada peça de evidência na mão que não segurava as rédeas de seu dinossauro.
"Sem apetite, olhar vago, ainda viva apesar de todas as probabilidades — "
Inti deu um sorriso sarcástico. Huatli sorriu em retorno.
Os dois cresceram juntos, passaram de lutar um contra o outro com gravetos quando crianças a lutar contra inimigos do Império do Sol como adultos.
Inti tocou o ombro de Huatli. Várias pessoas caminhavam em direção a eles com olhares felizes e expectantes.
"Vou deixá-la com seus fãs", disse ele.
Huatli acenou em despedida para Inti.
"Huatli! Bem-vinda de volta!" gritou um dos estranhos.
Huatli sorriu e inclinou a cabeça em reconhecimento.
Uma menina de não mais de treze anos separou-se do grupo e correu até ela, de olhos arregalados e fôlego curto. "Guerreira-Poeta, você fará uma oração na cerimônia de volta ao lar?"
Huatli detestava quando as pessoas faziam aquilo. Assumiam que ela alcançara algo que ainda não conseguira totalmente.
"Vou falar hoje, mas não sou a guerreira-poeta ainda. Qual é o seu nome, amiga?"
"Wayta. Eu a vi falar no último festival do equinócio . . . você foi incrível."
"Você escreve poesia, Wayta?"
A menina olhou para baixo, visivelmente envergonhada. "Não é boa o suficiente para compartilhar."
Huatli inclinou-se para que o restante da pequena (e crescente) multidão não ouvisse. "Gostaria de saber um segredo?"
Wayta olhou para Huatli maravilhada.
Huatli deu-lhe um sorriso honesto em retorno. "Existem apenas dois tipos de poemas no mundo. Poemas que são bons, e poemas que são honestos. Poesia que é boa é esperta, e qualquer um pode ser esperto se tentar o suficiente. Mas poesia que é honesta tem magia nela; a habilidade de deixar outras pessoas sentirem o que você sente é de fato uma magia muito poderosa."
Huatli continuou. "Se você acha que seu trabalho não está pronto para compartilhar, não tente fazê-lo bom. Tente fazê-lo honesto."
Uma hora depois, a cerimônia de volta ao lar começou, e Huatli aguardou pacientemente o momento de sua entrada.
Embora sua missão tivesse sido pequena, representava o fim de um esforço maior para livrar a Costa do Sol de invasores. Para marcar esta ocasião alegre, o Imperador falaria a todos os cidadãos de Pachatupa, e esperava-se que Huatli fizesse uma oração.
O título de guerreira-poeta era concedido a apenas uma pessoa em uma geração. Eles guardavam as histórias e teciam eventos em palavras. Para ganhar esse título, era preciso demonstrar excelência em serviço ao reino. Tal responsabilidade deveria pesar muito sobre alguém tão jovem quanto ela, mas Huatli não era pressionada tão facilmente.
Todos os residentes do Império do Sol respeitavam seu imperador, mas todos os residentes do Império do Sol amavam seu guerreiro-poeta. Este seria certamente o último discurso que daria antes de o imperador lhe conceder o título de guerreira-poeta, e Huatli nada mais queria do que provar-se digna de tal admiração.
Não havia qualificações definidas para ganhar o título de guerreira-poeta, mas a crescente confiança do imperador nela parecia sinalizar que o anúncio viria em breve. Huatli conseguia sentir isso no ar como o cheiro de metal antes de uma tempestade.
Huatli girou os ombros e inalou o ar mofado. O dinossauro sob ela deslocava-se de um lado para o outro, ansioso por deixar as sombras escuras do estábulo. Huatli pousou uma mão na pele áspera de seu dinossauro e ordenou que ficasse quieto.
Espere, instigou ela, enviando a memória olfativa de comida através da conexão entre ela e a fera.
O dinossauro parou de se agitar assim que sentiu a promessa de um petisco. Huatli deu-lhe um tapinha no pescoço. A fera eriçou as penas e então imobilizou-se com simplicidade de sangue frio, pronta para o próximo comando de Huatli.
Huatli seria chamada para falar a qualquer momento. Huatli não se preocupava mais em atuar. Só se preocupava se já atuara o suficiente.
O ar do estábulo era abafado e quente.
Distantemente, ela ouvia o eco da voz do imperador enquanto ele falava aos cidadãos de Pachatupa. Todos que viviam na cidade estariam presentes na celebração.
Talvez ele anuncie após a minha oração, pensou ela. Talvez hoje seja o dia em que ele anuncia que fiz o suficiente para ganhar o título que a cidade já associa ao meu nome.
Uma figura espiou por trás da estaca do estábulo e travou os olhos com Huatli. Ele usava as marcações de um sacerdote — um dos organizadores desta cerimônia de volta ao lar — e assentiu para Huatli.
Você consegue fazer isso, Huatli lembrou a si mesma. Seu dinossauro grasnou em excitação compartilhada.
Ela apertou as laterais de sua montaria, e o pata-de-garra disparou para fora do estábulo.
O sol estava quente como uma forja, e os vivas da multidão eram mais ensurdecedores que qualquer rugido de dinossauro.
Milhares de cidadãos do Império do Sol abriram caminho, aplaudindo a aproximação de Huatli. A cidade ao redor deles brilhava com âmbar e a luz do sol do meio-dia. A multidão reunida na praça estivera voltada para o Templo do Sol Ardente para ouvir o imperador falar, mas agora todos se viraram para aclamar Huatli enquanto ela cavalgava a galope em direção à grande escadaria que levava ao estrado.
O dinossauro de Huatli correu em uma linha reta como lança através da multidão aberta, sob arcos altos o suficiente para que dinossauros de pescoço longo passassem desimpedidos, e sobre ladrilhos fortes o suficiente para suportar até o mais pesado dos caudas-de-espinho. À frente, Huatli via o imperador parado no topo das escadas do Templo do Sol Ardente. Sua mão estava estendida em boas-vindas e, mesmo de longe, Huatli distinguia o largo sorriso em seu rosto.
A multidão começou a entoar o nome dela.
Huatli radiou, e sentiu que aquele era o momento certo para tirar seu acessório.
Ela ergueu no alto uma espada capturada, e a multidão rugiu duas vezes mais alto.
A coisa era frágil e fina, feita para estocadas rápidas em vez de cortes suaves, e uma rosa negra cafona estava soldada em um dos lados. Pensar que estes artesãos inferiores se consideravam conquistadores.
Seu dinossauro parou diante dos degraus do templo, e Huatli desmontou, com a espada ainda erguida no alto.
Olhou para seu imperador e subiu as escadas do templo.
O próprio templo fora construído sobre a fundação de um templo mais antigo, que fora construído sobre várias ruínas ainda mais antigas que aquela. O próprio Império do Sol era muito parecido. Era a iteração mais recente de uma terra cujos governantes estavam constantemente disputando o poder, construindo sobre o antigo e alcançando cada vez mais alto com o novo. Enquanto os Arautos do Rio outrora controlavam o continente, sob a liderança de seu novo imperador, o Império do Sol cimentara seu domínio sobre a terra. Apatzec Intli III era responsável não apenas pela nova afirmação de controle, mas também pelo atual clima de expansionismo que se apoderara do império após a morte de sua mãe, vários anos antes. Enquanto a imperatriz anterior se ocupara com tarefas administrativas conservadoras, o novo imperador ansiava por provar-se como o portador de uma gloriosa nova era para o Império do Sol.
Huatli nunca conhecera a imperatriz anterior, mas admirava a determinação de Apatzec. Ele notara sua existência pela primeira vez enquanto ela subia as patentes em sua guarda e, após anos de serviço devoto, ela se tornara sua conselheira tática de maior confiança.
No topo da escadaria, Huatli virou-se e apresentou a espada da Legião do Crepúsculo à multidão abaixo. Eles aclamaram a exibição dos despojos de guerra. O Imperador Apatzec aproximou-se, ladeado por sacerdotes em ambos os lados, e Huatli entregou-lhe a espada.
Ele deu um tapinha no ombro de Huatli com um sorriso, e dirigiu-se ao povo de Pachatupa na praça lá embaixo.
"Cidadãos! Eu lhes dou a líder do esquadrão que impediu com sucesso os invasores da Costa do Sol. Ela e seus guerreiros repeliram a Legião do Crepúsculo de nossas margens e, ainda hoje pela manhã, retornaram em segurança para casa. Minhas palavras não podem fazer justiça à sua vitória. Escutem, e notem a valente graça de Huatli!"
A multidão rugiu.
Huatli sorriu, estendeu uma mão firme e baixou a palma com facilidade praticada. A multidão silenciou, e ela rapidamente lançou um feitiço para trazer sua voz a um volume de comando.
Exatamente como você praticou. Você consegue fazer isso.
Arte de Anthony Palumbo
"Kinjalli, ouça meu chamado!#linebreak Chegou a hora de despertar os dormentes,#linebreak De trespassar a sombra oriental#linebreak Que escureceria todos os nossos dias.
Tilonalli, ouça meu chamado!#linebreak Encha os corações de seus filhos com fogo#linebreak Para que possamos ser a alvorada que rompe#linebreak Para imolar o Crepúsculo.
Com o Sol Tríplice acima de nós#linebreak E estas preces em nossos lábios#linebreak Seus orgulhosos guerreiros trouxeram radiância terrível#linebreak Aos pagãos em suas margens.
Montados em nossos patas-de-garra, caudas-de-placas, chifres-de-folhos,#linebreak Cavalgamos para gloriosa reprovação#linebreak Para repreender o inimigo de olhos de tubarão#linebreak Que anseia por seu direito de primogenitura.
Nós os encontramos na areia,#linebreak Presas gotejando malícia, espadas erguidas,#linebreak Mas os presos à sombra não puderam resistir a nós;#linebreak Logo sua vileza fugiu de nossas margens.
Hoje retornamos e imploramos que lembrem:#linebreak Seu Império é a luz.#linebreak Nada enche o Crepúsculo de terror#linebreak Como o erguer do Sol."
A multidão rugiu com aplausos novamente.
O Imperador Apatzec olhou para Huatli com um sorriso de aprovação.
Huatli assentiu em gratidão.
O imperador deu um passo à frente e falou em um volume amplificado pela leve névoa de magia. "A pequena vitória de hoje também marca o início do próximo estágio de nossa expansão."
A audiência silenciou. Aquela era uma notícia importante.
Pretende ele me conceder o manto agora?
"Expulsar a Coalizão Brancal e a Legião do Crepúsculo de nossa costa oriental significa que estamos prontos para retomar o sul", anunciou Apatzec. Ele falava com a dicção praticada de um governante e a confiança de um conquistador. "Nossos guerreiros nunca estiveram tão preparados e, com a força do Sol Ardente, baniremos a Legião do Crepúsculo de nosso continente!"
A audiência aclamou, e Apatzec assentiu para Huatli. O coração dela minguou um pouco. Se houvesse um momento para anunciar seu novo título, teria sido agora. Ela acenou em despedida, virou-se e seguiu o imperador para dentro do templo.
Ele fez sinal para os outros sacerdotes partirem e despiu seu manto ornamental.
Huatli sentou-se em uma almofada no centro da sala. Ele sentou-se à frente dela e sorriu.
"Obrigado por compartilhar seu dom, Huatli. Nosso império precisa de sua voz."
"Fico feliz em servir, Imperador Apatzec."
Ele girou a espada da Legião do Crepúsculo ainda em sua mão e a ergueu, um olhar de desagrado repuxando suas narinas.
"Espalhafatosa, não é?" notou ele. "Pergunta-se como eles conquistaram um continente inteiro com estas coisas."
"Eles usaram os dentes também, senhor." Huatli abriu um largo sorriso. "Infelizmente para eles, os nossos são muito mais afiados."
"De fato."
O imperador sorriu para Huatli. Ela sentou-se em silêncio, esperando pacientemente que ele falasse.
Apatzec disse-lhe a última coisa que ela esperava ouvir.
"Não vou enviá-la para lutar no sul."
Huatli tentou não mostrar que estava ferida.
"Foi-me prometida mais uma missão antes que eu ganhasse o manto de guerreira-poeta", perguntou ela, compondo seu rosto em uma expressão neutra.
O Imperador Apatzec balançou a cabeça solenemente. "Eu sabia que você odiaria a ideia."
"Não odeio a ideia", disse a mulher com um aperto firme como aço em sua própria mão.
"O Império do Sol precisa de você aqui, em Pachatupa. Ainda pode haver invasores chegando às nossas margens orientais."
"O senhor sabe algo que eu não saiba?"
O imperador franziu o cenho. "Apenas rumores. Mas temo um ataque duplo tanto da Coalizão Brancal quanto da Legião do Crepúsculo no futuro próximo. Você e seu esquadrão continuarão a manter presença na costa e repelir quaisquer invasores que venham enquanto nosso exército estiver lutando no sul pelo próximo mês. Você partirá na próxima semana para sua missão."
"Entendido, senhor."
O imperador pausou e suspirou. "Odeio o que as instruções de minha mãe teriam sido."
"'Protejam as cidades e continuem a busca pela que perdemos', imagino?"
Apatzec assentiu, com um sorriso repuxando o canto da boca.
"Mais cedo encontraríamos uma pantera voadora do que uma cidade perdida inteira. É melhor focar no que é real, Huatli. No que podemos ver e ouvir. Perseguir fantasmas apenas nos levará a andar em círculos. Prepare seu esquadrão, e certifique-se de escrever outro bom poema enquanto estiver fora."
O coração dela saltou. Ela ainda estava sendo considerada afinal.
Batedores relataram que um navio da Coalizão Brancal aparecera perto da costa. Huatli selou sua montaria e saltou para dentro da selva ao lado de Inti assim que pôde.
Flores agigantavam-se acima, e bandos de dinossauros de pescoço longo abriam caminho conforme os dois guerreiros passavam em suas montarias pata-de-garra.
Arte de Zack Stella
"Relatos diziam que estavam acampados perto do afloramento", gritou Inti sobre o estrondo dos pés de seus dinossauros.
Videiras açoitavam a armadura de Huatli conforme ela rasgava pela selva. Empertigou-se na sela e iniciou um feitiço para invocar alguma ajuda.
Sentiu sua magia acender dentro de si, um pequeno farol que irradiava de seu peito. Segundos depois, ouviu o sapateado de dinossauros bípedes trotando em cada lado. Em instantes, um fluxo de dinossauros começara a cavalgar atrás de Huatli e Inti. Pequenos comedores-de-ovos juntaram-se a caudas-de-placas e chifres-de-folhos, todos os quais moviam-se com um senso de propósito, mantendo-se perto das montarias dos cavaleiros do Império do Sol. Huatli instruiu o bando a continuar seguindo, acalmou-os com sua magia e assegurou-lhes que não seriam feridos.
"Huatli! À frente!" Inti apontava para uma clareira adiante onde o delta do rio começava a encontrar o mar.
Velas vermelhas brilhantes formavam uma marca furiosa contra o céu azul, e uma grande pilha de caixotes e suprimentos estava empilhada na praia.
Eles pararam, bando e tudo, logo dentro da cobertura espessa da selva onde as árvores encontravam a areia. Huatli e Inti olharam para o navio com antecipação.
"Sem tripulação", comentou Inti, mantendo a voz baixa.
Huatli assentiu. "Devem estar fazendo reconhecimento. Eu destruirei o equipamento, você expulsa os piratas praia abaixo em direção ao barco quando vir os suprimentos deles pegarem fogo."
"Parece bom", disse Inti. Olhou para Huatli e assentiu. "Fique segura, prima."
"Você também."
Inti partiu para dentro da selva, e Huatli instigou sua montaria para fora na areia, instruindo o restante do bando a ficar para trás na selva.
O dinossauro caminhou silenciosamente na areia e, em um momento, Huatli posicionou-se perto da pilha de suprimentos. Abriu um frasco em seu quadril e derramou seu conteúdo de cheiro acre sobre as caixas de mantimentos. Tirou então uma pequena pedra escura de sua armadura e a golpeou contra o aço de sua lâmina. Faíscas voaram para a madeira seca dos caixotes e quase instantaneamente eles pegaram fogo.
Huatli guardou sua lâmina e correu de volta para a selva. Parou onde começara, na divisa oculta entre praia e selva. Alguns membros da tripulação emergiam agora, em pânico pela visão da fumaça subindo de suas rações e equipamentos. Mas não havia o suficiente deles correndo.
Expulsem-nos para a praia, instigou Huatli, olhos acesos com magia.
A selva sussurrou, e uma dúzia de vozes humanas, ogros e goblins da Coalizão Brancal gritaram conforme os dinossauros invocados expulsavam o restante da tripulação para a areia. Os piratas surgiram, tropeçando e piscando na luz, apenas para ganirem de surpresa diante da fogueira à sua frente. Correram para frente em desespero e começaram a golpear as chamas em uma tentativa de apagá-las.
Huatli sorriu e avistou Inti na distância. Ela assobiou, e ele veio trotando. Estavam escondidos da vista dos piratas por árvores costeiras espessas e samambaias, e ele aproximou sua montaria.
"Estamos bem aqui", disse Huatli, assentindo para a tripulação em pânico já tentando voltar para o navio. "Vá em frente e procure por água doce. Eu poderia beber algo."
Inti virou-se e partiu à frente selva adentro.
Huatli cutucou sua montaria para um trote e começou a fazer seu caminho ao longo da borda da praia.
Subitamente, algo arrancou os pés debaixo do pata-de-garra de Huatli. Huatli atingiu o chão da floresta com um baque doloroso.
Huatli levantou-se rapidamente a tempo de ver seu dinossauro, com os pés atados em correntes incandescentes, gritar de dor, suas pernas escamosas queimadas pelo calor das amarras.
A fonte das correntes surgiu à vista, e Huatli arquejou de medo.
Emergindo de trás de uma árvore estava um monstro imensamente alto.
Arte de Svetlin Velinov
Tinha o corpo de um ferreiro, mas a cabeça de um animal que Huatli só vira perto dos fortes da Legião do Crepúsculo — um touro? Pesadas correntes de ferro estavam enroladas em seu peito, e ele parecia brilhar por dentro como uma fornalha, um fluxo constante de vapor subindo de seu focinho.
Huatli mergulhou em direção à corrente em uma tentativa desesperada de ajudar sua montaria, mas seu oponente bufou em fúria desafiadora enquanto puxava a corrente de volta da perna do dinossauro. O metal ergueu-se por conta própria, então disparou novamente, enrolando-se no pescoço do dinossauro que gritava. Ele apertou a corrente com um estalo nauseante, e a fera morreu instantaneamente.
Huatli saltou de pé e sacou sua arma. Não se deu ao trabalho de esconder o nojo em seu rosto — ela conhecia aquela montaria há anos. Qualquer monstro que agisse com tal crueldade deveria certamente sofrer as consequências.
"Qual é o seu nome?!" gritou ela.
A fera estendeu as mãos. As correntes abrasadoras serpentearam de volta das pernas do dinossauro para ao redor de seus braços, enrolando-se prontas para outro golpe. Um fogo não natural ardia na garganta da fera, e vapor subia de suas narinas.
"Sou o temido pirata Angrath", disse ele, "e busco o Sol Imortal."
Huatli riu alto. "Você e todo o resto, tolo."
A voz dele tinha um sotaque que Huatli não conseguia identificar. "Se não me disser onde está o Sol Imortal, cavaleira, então você morrerá."
Uma corrente disparou de seu braço direito. Huatli esquivou-se, sentindo seu calor conforme passava pelo seu rosto.
Huatli recuperou o equilíbrio e correu em direção a Angrath, lâmina pronta e músculos tensos. Tentou aproximar-se dele, sua lâmina semicircular golpeando baixo buscando seus tendões, mas o pirata ardia com um calor abrasador que era demais para suportar a curta distância. Ela recuou, levantando uma nuvem de folhas secas e terra enquanto esquivava da corrente.
Recuara bem a tempo de evitar outro golpe de uma corrente. Uma segunda corrente foi lançada e fisgou seu pé, e Huatli foi arrancada para o chão com uma ferocidade que lhe tirou o ar dos pulmões.
A corrente estava em branco incandescente, e ela conseguia senti-la mesmo através da densidade de suas grevas de aço. Ela curvou-se para frente, golpeando com toda a força que conseguiu reunir para tentar quebrar a corrente com sua lâmina. Angrath caminhou casualmente para frente, um fogo furioso aceso em seus olhos.
Huatli lutou e se deslocou e, felizmente, a corrente soltou-se.
Nenhum pirata lutava com esse tipo de raiva insensível. Nenhum Arauto do Rio mataria com tal descaso. E nenhum inimigo da Legião do Crepúsculo era tão imprevisível. Huatli sentia-se desequilibrada e fora de seu elemento, pois este oponente era diferente de qualquer outro.
"Huatli?!"
Huatli girou a cabeça. Inti devia ter voltado quando ouviu a comoção que estavam fazendo, e olhava de volta em horror do meio da selva. Angrath virou a cabeça para notar o recém-chegado, e Huatli lançou-se para cima, investindo para o ataque.
Lâmina firme em uma mão, ela manteve seu peso para frente, passando a perna por baixo, para fora e longe, para tirar o pirata de equilíbrio.
Funcionou — Angrath atingiu o chão com um baque forte e, enquanto ele tentava se levantar, ela talhou uma linha limpa pelo seu peito com sua lâmina.
O homem com cabeça de touro rugiu de dor e lançou outra extensão de corrente diretamente contra Huatli.
Ela manteve o peso leve, dançando de pé em pé, e esquivou-se do ataque com facilidade sinuosa. Huatli seguiu o ímpeto de sua defesa, permitindo que a energia levasse seu peso para o outro pé, e desferiu um chute alto e agudo em seu queixo.
Angrath vacilou, e Huatli gritou para Inti, que observava de boca aberta de lado.
"Inti! Preciso de uma montaria!"
De trás dela, ela sentiu Inti começar a invocar um novo dinossauro para ela escapar.
Viu uma corrente em brasa voar em sua direção vinda de algum lugar no chão, e baixou-se rente ao solo, girando a perna e deslocando o peso para evitar a corrente lançada. Uma de suas grevas caiu no processo.
Inti gritou, "Atrás de você!", bem a tempo de Huatli ser atingida por trás, caindo de rosto no chão folhado da floresta.
Angrath estava de pé novamente, carrancudo o máximo que seu rosto permitia.
Huatli ouviu um grito e assistiu enquanto Inti era arrancado de cima de sua montaria. Uma segunda corrente subitamente enrolou-se na pele exposta de sua própria perna, e ela gritou acima do chiado de carne.
Ela subitamente percebeu que era assim que tanto ela quanto o primo morreriam.
Tentou se levantar e encarar seu oponente quando algo no fundo de seu peito faíscou.
Subitamente, sem dor, Huatli começou a sentir-se desfazendo-se.
Sua visão explodiu em um miasma de cor e luz, o som correu por seus ouvidos e ela sentiu seu corpo começar a se separar de si mesmo. Era brilhante e quente e deveria ter sido assustador, mas parecia a coisa mais natural do mundo — ela sentiu sua cabeça passar para frente, mais fundo na cor e luz, e ela viu.
Era uma cidade que brilhava com o calor do ouro.
Arte de Adam Paquette
Torres e pináculos brilhantes e reluzentes que se estendiam para o céu. Metal cintilante diferente de tudo o que vira antes e, acima de tudo, magia pulsante que fluía pelas nuvens como um rio.
Era lindo.
E então se fora.
Sua percepção foi arrancada bruscamente de volta, como se alguma força invisível a estivesse puxando para trás para a selva. Qualquer que fosse a porta pela qual espiara, ela se fechara, barrando sua entrada. Tudo voava novamente através de cor e luz, som e ruído, até que seu corpo se rearranjou no chão da floresta.
O sangue de Huatli pulsava, e sua visão fixou-se em um estranho símbolo de triângulo e círculo flutuando com um brilho estranho acima de sua cabeça.
Ela tentou recuperar o fôlego.
Seu medo solidificou-se, e ela parou de arquejar por ar.
Então percebeu que Angrath ainda estava à sua frente.
Ele a encarava maravilhado, correntes serpentando de volta para seus braços e olhos arregalados em choque bovino.
Inti estava atordoado, mas vivo, também encarando tanto Huatli quanto o símbolo brilhante que desaparecia acima da cabeça dela.
O pirata estendeu a mão e apontou para Huatli. "Você é um também!"
Huatli pôs uma mão no chão para equilibrar-se. O sigilo acima de sua cabeça desapareceu. Ela balançou a cabeça.
Palavras escorreram de sua boca sem graça ou plena consciência. "Não sei o que acabou de acontecer."
Angrath sorria o máximo que um homem com cabeça de touro consegue sorrir. "Nunca encontrei outro neste plano amaldiçoado! Podemos ajudar um ao outro a partir!"
Inti voltara para seu dinossauro e rapidamente fez a volta para ficar atrás de sua colega cavaleira.
"Huatli, levante-se!", disse Inti, estendendo-lhe uma mão. Ela a ignorou, encarando Angrath em choque. Ele, também, estendia a mão para ela, palmas para cima em um convite.
Ela rapidamente golpeou Angrath com sua lâmina, subiu na montaria de Inti e fugiram enquanto o grito de dor de Angrath ecoava pela selva.
O diálogo mental de Huatli era um turbilhão interminável de maldições e confusão. Não era hora para uma agradável discussão imaginária. Era hora de perguntas ofegantes.
Meu corpo se PARTIU e havia cor e luz e foi aquilo um ataque epiléptico foi uma alucinação exceto que Angrath viu também, aquele PIRATA MALDITO, como ousa ele pensar que eu algum dia o ajudaria depois de ele matar meu dinossauro e tentar me matar, SOL SAGRADO ACIMA, MEUS PULMÕES SE DISSOLVERAM —
Inti verbalizou tantas perguntas quanto ela pensava.
"Seu corpo! Aquilo foi magia! Como você fez aquilo? Tem treinado secretamente?! E o que era aquele símbolo? Por que o pirata achou que você o ajudaria?!"
A resposta de Huatli foi tangencial, breve e sussurrada.
Tudo o que Huatli pensava ser verdade sobre o mundo ao seu redor parecia estar se desfazendo.
Não apenas fora atacada pela fera mais estranha que já vira, mas seu corpo se dissolveu e, por um momento, sua consciência espreitara por uma janela aberta apenas para ser puxada de volta para seu próprio mundo.
Era como tentar ficar de pé em um tronco no rio. Como se ela fosse uma criança girando em círculos e caindo no chão. O chão deixara seus pés, e a crença de Huatli no que era real fora subvertida.
A noite caiu quando ela retornou à cidade, e Huatli dirigiu-se diretamente à residência do imperador.
Precisava de conselho da única pessoa que ela sabia que não contaria a ninguém o que vira.
Os guardas a reconheceram imediatamente e conduziram-na ao edifício mais alto de Pachatupa com uma reverência profunda e respeitosa. A formalidade deles deixou Huatli ainda mais nervosa.
Um assistente conduziu o Imperador Apatzec a um espaço de reuniões formal. Uma escultura do sol dominava a maior parede, o luar brilhando no âmbar incrustado na pedra. O imperador parecia composto como sempre, embora sua capa habitual de penas de dinossauro estivesse ausente e um robe menos formal tivesse tomado seu lugar.
"Huatli, o que a traz a mim a esta hora?"
O coração de Huatli ainda batia como um hematoma contra o interior de seu peito. "Vi algo que não entendi."
"Um sonho?" disse o imperador. Seu rosto amargo traía a opinião que ele tinha a respeito de sonhos.
"Não. Eu mesma não acreditaria se não tivesse visto com meus próprios olhos."
O imperador levou uma mão à boca em pensamento. "Diga-me o que aconteceu."
Sentaram-se, como amigos sentariam, e Huatli relatou o incidente da melhor forma que pôde.
O imperador ouviu pacientemente.
Ocasionalmente tomava um gole da xícara de xocolātl que invocara quando sentiu que esta história seria notável, e assentia com compreensão a cada virada no conto de Huatli.
"Como foi a sensação?" perguntou ele.
"Parecia que eu não tinha permissão para partir. Como se eu tivesse aberto uma porta, mas só pudesse espiar com a cabeça antes de ser sugada de volta."
"Algo estava impedindo você de partir? E apenas Inti e eu sabemos o que aconteceu?"
"Sim, e sim, Imperador."
"'Apatzec', por favor. Não estou com a capa."
Huatli deu-lhe um olhar cansado.
O imperador balançou a cabeça e sorriu. "Você é notavelmente brava, Huatli."
"Com todo o respeito, Imperador, eu não me sinto assim."
O Imperador Apatzec pousou sua xícara e deu-lhe um olhar pensativo.
"O Sol se expressa em três aspectos. Criatividade, destruição e sustento. Seus dons foram acesos pelos dois primeiros, e parece que você deve explorar o último."
"Senhor, o que quer dizer?"
O imperador parecia excitado. "Minha mãe era obstinada e antiquada. Ela preferia perseguir fábulas na selva do que assegurar seu poder através de meios ativos. Embora eu acredite que seria tolice enviar todo o nosso exército para perseguir o poder que jaz em Orazca, não acredito que seria imprudente enviar nossa cavaleira mais talentosa, especialmente quando o destino a convoca de qualquer maneira."
". . . Imperador . . . ?"
"O que você viu é prova de sua dignidade para portar aquele manto. Huatli do Império do Sol, a cidade dourada que você viu só pode ser a cidade perdida de Orazca. Você deve ir e encontrar o meio de trazer crescimento ao nosso império com o poder que jaz lá dentro."
As mãos de Huatli estavam cerradas em punhos preocupados. "Mas o guerreiro-poeta não vai em expedições, vossa excelência. Eu não fui feita para ir em uma expedição!"
"Mas você foi. Portanto, o guerreiro-poeta vai."
Huatli arquejou. Pretendia ele implicar o que acabara de dizer?
O imperador levantou-se e caminhou até o outro lado da sala de reuniões. Puxou um elmo de um gancho na parede e o levou até Huatli.
Era o elmo do guerreiro-poeta.
O coração de Huatli começou a acelerar.
Apatzec radiou de orgulho. "Huatli. O título de guerreira-poeta é seu se você conseguir localizar a Cidade Dourada de Orazca."
Huatli soltou um suspiro trêmulo.
Tudo o que ela sempre quis dependia de encontrar um lugar que era mais mito que realidade.
O imperador girou o elmo na mão. A luz das lâmpadas da câmara batia no âmbar do elmo, salpicando o rosto dele com um brilho dourado quente.
"Esta é uma nova era para o nosso império. Nenhum outro guerreiro-poeta em nossa história previu a Cidade Dourada." Ele abriu um largo sorriso. "Isso torna o meu governo especial."
Huatli sorriu e levantou-se. Endireitou os ombros e olhou seu imperador nos olhos. "Encontrarei Orazca, Imperador, e recuperarei o Sol Imortal em seu interior para a glória do Império do Sol."
O Imperador Apatzec sorriu em retorno. "Amanhã é uma nova alvorada para o nosso império, Guerreira-Poeta."
A residência dos cavaleiros era isolada do restante da cidade por um muro modesto. Ali ela e os outros cavaleiros treinavam, comiam, dormiam e planejavam a defesa da cidade. Outros regimentos eram dedicados à conquista e à expansão do império, mas aqui, a preocupação era principalmente proteger o que o Império do Sol já controlava. Huatli crescera ali, com pais amorosos que foram cavaleiros antes dela. Este era o único lar que ela já conhecera, e Huatli memorizara seus cantos e passagens. Ela deslizou por uma destas passagens agora.
"Huatli?"
Inti olhava pelo canto. Sua testa severa estava franzida de preocupação. "Você contou ao imperador sobre o que viu?"
Huatli assentiu.
Seu primo, sem saber o que mais fazer, assentiu em retorno. "Isso é . . . bom. Você está bem agora?"
Huatli balançou a cabeça e deu de ombros, um aglomerado desesperado de gestos para refletir seu estado emocional.
"Sim. Não", confessou ela.
Inti pegou-a pelo ombro e a conduziu de volta para a sala comum dos guerreiros. Estava vazia e silenciosa, o restante do regimento tendo ido para seus beliches horas antes. Ele serviu-lhe uma bebida que cheirava forte e azedo e tinha uma aparência leitosa desagradável. Se era boa para a alma, como Inti insistia, Huatli estava convencida de que era só para isso que servia. Inti esperou até que ela tivesse bebido um pouco e recuperado o controle de sua respiração antes de começar a preparar um cataplasma para a queimadura em sua perna.
"Você tem certeza do que viu hoje mais cedo? Quando você . . . fez o . . ." Inti acenou uma única mão acima da cabeça, aludindo como pôde ao evento com o sigilo de antes.
Huatli assentiu.
"Vi uma cidade dourada." Ela engoliu em seco e olhou para Inti.
Ele deu-lhe um olhar inexpressivo enquanto espalhava o cataplasma em seu tornozelo. "Você viu uma cidade dourada?"
Huatli sentiu suas bochechas ficarem quentes. "Sim."
Inti amarrou uma bandagem limpa sobre o cataplasma e recostou-se, absorto em pensamento. Eventualmente ele quebrou seu próprio silêncio. "Era a Cidade Dourada?"
Huatli deu-lhe um balançar de cabeça de desculpas. "Ninguém sabe como é Orazca, então eu assumo que era a Cidade Dourada."
"Justo."
Inti emitiu um pequeno estalo com a língua. Enrolou a bandagem extra na mão. "O imperador mandou você encontrá-la?"
"Ele me disse que ganharei o título de guerreira-poeta se conseguir localizar a cidade."
Inti ficou visivelmente surpreso.
Soltou um longo suspiro e assentiu. "Essa é uma bela recompensa."
"Estou bem ciente."
Inti sentou-se novamente no banquinho. Huatli estendeu o pé e sentou-se diante dele. Ele começou a desamarrar seu tornozelo, revelando a pele curada por baixo. Toda a prática de Inti em magia medicinal lhe fizera bem.
Huatli respirou fundo. "Inti, este é um tipo de responsabilidade com que nunca lidei antes. Não quero ir sozinha."
"Você não precisa ir", disse Inti. "Pode levar Teyeuh e a mim. Nós a levaremos lá em segurança."
"Eu não sei como chegar lá?" A afirmação, novamente manchada por apreensão, saiu como uma pergunta.
Inti deu de ombros com um olhar conhecedor. "Os Arautos do Rio sabem. Por que mais seriam tão zelosos em manter seu território?"
Huatli baixou os olhos para o chão. "Treinei minha vida toda para ganhar isto, mas ir em uma viagem para uma cidade mais mito que realidade não fazia parte do trato."
"Você quer ir? Ou apenas quer o manto que vem com o seu sucesso?" perguntou ele.
A resposta parou na garganta de Huatli, e sua reação instintiva a surpreendeu, mas ela deu voz ao pensamento mesmo assim.
"Eu quero encontrar a cidade."
Seu coração palpitava. A ideia de exploradora era um conceito assustador, inteiramente alheio a tudo o que ela jamais pensara que poderia ser. E no entanto, não conseguia esconder a excitação que sentia quando pensava em fazer algo além do que lhe era confortável.
"Nunca pensei que pudesse ser nada além do que sou, Inti. Quero ser mais que apenas uma de duas coisas."
"Você já é, prima", disse Inti, levantando-se. "Vou encontrar Teyeuh e avisá-la. Estaremos prontos para partir ao nascer do sol para encontrar um Arauto do Rio para nos guiar."
Ele começou a caminhar em direção ao arsenal, parou e olhou por cima do ombro.
"Guerreira-Poeta-Adivinha?"
Huatli pensou por um momento. "Guerreira-Poeta-Viajante?" ofereceu ela.
Inti pesou a sugestão e rebateu com outra. ". . . Guerreira-Poeta-Líder-de-Expedição-que-Dissolve-o-Corpo?"
"Não fazem elmos para isso, Inti."
"Ainda não", disse ele com um sorriso.
Inti partiu, e Huatli ficou sozinha.
Estava aterrorizada. Estava animada. Estava diante do desafio mais assustador que já encontrara.
Então Huatli sorriu.
Ela caminhou, depois de um tempo, para seu beliche.
Enquanto jazia em sua rede e olhava para cima, tentava lembrar a cor, luz e som de antes. Sentira cada pedaço de si mesma brilhar e partir e, embora se visse dissolver, nenhuma parte dela tivera medo. Em vez disso, Huatli lembrava de uma sensação de elação naquele momento. Levou uma mão ao peito e fechou os olhos, lembrando quão vívida e claramente o sol brilhara contra o ouro dos telhados da cidade, quão brilhantes os rios de azul e nuvem pareceram enquanto se curvavam no céu acima. Era diferente de tudo o que vira antes.
Não era uma vidente, no entanto vira. Não era uma viajante, no entanto sua missão era viajar. Huatli era duas coisas, e nenhuma parecia conectada ao destino que a aguardava.
Huatli fechou os olhos e acalmou sua mente ocupada. Seus sonhos eram salpicados de ouro, brilhando com as cores de um lugar além de qualquer um que já vira. O sonho mudou, transformou-se, tornou-se mais profecia que sonho, e ela se viu como um dia seria.
Ela era uma guerreira, e era uma oradora.
E agora era uma exploradora.
Arte de Tyler Jacobson
20 de Setembro de 2017 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben
A Talentosa Capitã Vraska
CASA DOS OCHRAN, RAVNICA
Vraska encontrou o convite do dragão pela primeira vez enfiado em um exemplar do livro que estava lendo.
Seu nome estava escrito na frente em tinta dourada, e o papel tinha o aroma distante de sândalo, cinzas e magia. Quem quer que tivesse encantado aquilo ali tinha um toque delicado o suficiente para saber exatamente como alcançá-la.
A princípio, ela ficou irritada — aos Ochran fora designado um novo cliente, e ela já tivera sua dose de sombras e segredos nos lugares escuros de Ravnica por um dia. Estava ansiosa para se aninhar junto à lareira em seu apartamento com uma história que comprara em suas últimas férias. Mas aquela irritação desapareceu quando ela leu o que dizia o convite.
"PLANO DE MEDITAÇÃO"
Vraska estreitou os olhos. Segurou o papel diante dos olhos e inclinou o bilhete. A luz do fogo refletiu uma tênue névoa azul sobre as palavras, e ela percebeu que a tinta fora encantada com algum tipo de informação.
Colocou uma mão sobre as letras e soube imediatamente para onde deveria ir e o que precisava fazer quando chegasse.
Veio a ela num flash — um plano distante com uma textura artificial, águas azuis e colinas que voavam para cima e para longe de sua base, com sua localização no Multiverso delicadamente colocada em sua mente. E assim que chegasse, um feitiço para provar que era quem dizia ser para que lhe fosse concedida entrada.
Vraska estava intrigada. Todo o negócio parecia uma armadilha, então ela calçou seus sapatos baixos caso precisasse fugir.
Concentrou-se na localização em sua mente, seu quarto mergulhou em sombras e ela caminhou entre os planos através de uma fatia escura no ar.
Piscinas do Vir-a-ser | Arte de Jason Chan
Ela chegou em um pátio cheio de água rasa cercado por todos os lados por uma gaiola de arcos violetas de relâmpagos.
Era alarmante, mas Vraska lembrou-se do que a outra metade do bilhete transmitira. Fez o melhor que pôde para lembrar o feitiço para lhe conceder entrada.
Estendeu uma mão e traçou um amplo círculo no ar à sua frente. A outra mão executou uma série de gestos bruscos. Vraska canalizou mana suficiente para o feitiço para manifestar um leve brilho de energia escura conforme os dedos de sua mão estendida completavam o círculo.
O brilho sumiu e a gaiola de magia desapareceu. A senha funcionara.
E um dragão tremeluziu à sua frente.
Ele era dourado, vasto e sinuoso, com uma expressão ilegível e uma estranha calma em sua presença. Vraska caminhou com a água pelos tornozelos plano adentro com confiança.
Ela nunca vira um dragão tão imenso e, ao mesmo tempo, tão humano. Aquilo a inquietou, mas ela se recusou a mostrar qualquer intimidação.
"Vraska, assassina dos Ochran", disse ele em uma voz como trovão, "estou feliz que tenha recebido meu convite. Sou Nicol Bolas, e gostaria de contratá-la pelo uso de seus talentos."
Vraska cruzou os braços, indiferente. "Não estou procurando novos clientes", respondeu em tom entediado.
"Não estou interessado em suas habilidades como assassina."
Ela imobilizou-se.
Vraska nunca fora contratada para fazer nada além de matar antes.
Seus ouvidos começaram a zumbir, e ela teve a estranha sensação de que o dragão ouvira aquele pensamento.
Ele ergueu sua massa em toda a sua altura. Nicol Bolas agigantava-se sobre ela, um rastro dourado contra o céu, a postura tão distante de reptiliana quanto sua anatomia permitia.
"Você deseja liderar . . .", refletiu ele, para o horror de Vraska. ". . . Você anseia por um mundo melhor para aqueles que chama de seus. Você pagaria qualquer preço para entregar-lhes o respeito que merecem."
Você leu minha mente?
Estou lendo sua mente neste exato momento.
Os braços de Vraska haviam caído ao lado do corpo. Seus lábios estavam entreabertos em terror e seus ouvidos ainda zumbiam com a intrusão do dragão, e ela começou a carregar a magia necessária para petrificar um inimigo deste tamanho.
O dragão baixou a cabeça. Seus olhos eram grandes como pratos de jantar, seus dentes longos como adagas. Nicol Bolas sorriu.
"Posso torná-la Mestre de Guilda dos Golgari, Vraska."
O fôlego dela parou no peito.
Pensou em Mazirek, nos kraul, no restante dos assassinos Ochran e no maligno Jarad que reinava com ruína casual sobre os mais oprimidos dos oprimidos. Lembrou-se de seus anos de isolamento, e da crueldade hedionda dos Azorius, e de como nenhum grupo merecia sofrer tanto quanto aqueles que subjugariam os seus.
Eliminar aquele inferno era tudo o que ela sempre quisera.
Respondeu com apreensão. "O que o senhor deseja em troca?"
"Existe um lugar no continente de Ixalan em um plano distante. O lugar é conhecido como a Cidade Dourada de Orazca. Recupere o item que está lá, convoque meu associado para transportá-lo e eu lhe darei os meios para liderar sua guilda à glória que ela merece. Você terá um império, Vraska, caso sua missão prove ser bem-sucedida."
Ela sentiu-se humilhada, alarmada e animada de uma só vez. Ninguém a contratara para fazer nada além de matar antes.
Tudo naquilo parecia perigoso. Nada naquela besta era digno de confiança. Mas Vraska pensou em sua vida de contrato após contrato, morte após morte, desempenhando um papel designado para ela sem oportunidade de escapar.
O dragão estava encarando.
Ele queria uma resposta.
E ela queria liderar.
Contra todo o bom senso, ela curvou-se.
"Aceito seus termos", disse Vraska.
Posso traí-lo se isso der errado.
"Não", disse Nicol Bolas. "Você não pode."
Ele acenou uma garra, e Vraska sentiu o zumbido em seu ouvido desaparecer. O dragão partira de sua mente.
"Você precisará disto", disse ele, erguendo a garra novamente. Algo pesado caiu no bolso do seu vestido.
"É a bússola taumática", disse o dragão. "Ela a guiará até a Cidade Dourada. Também a presentearei com o conhecimento de dois conceitos."
O dragão estendeu sua garra erguida.
"Você usará este feitiço para chamar meu associado quando tiver alcançado o centro da Cidade Dourada . . ."
Uma enxaqueca aguda trespassou as têmporas de Vraska. Seus joelhos fraquejaram com a súbita avalanche de conhecimento. O feitiço era complicado, pretendido para passar através de mundos — mas para quem? Não importava; o feitiço fora desenhado para ter apenas um destinatário em apenas um lugar. Ela não tinha o privilégio de saber quem era.
Sentia-se tonta, mas maravilhada. Vraska não tinha ideia de que esse tipo de feitiço era sequer possível e, no entanto, o conhecia de cor. Uma única linha que podia estender-se entre mundos para um único indivíduo. Ela não seria capaz de transmitir uma mensagem, mas ao puxar a linha metafísica o destinatário saberia o que fazer. Era incrível e mais do que um pouco assustador.
Mas o dragão não terminara.
". . . Você também precisará saber como velejar."
O impacto do peso psíquico fez Vraska atingir o chão desta vez.
Caiu de mãos e joelhos e pousou na fina camada de água que cobria este plano. Arquejou com o influxo de conhecimento. Spinnaker barra de leme sotavento bolina castelo de proa emenda de mão joanete avanço por ante a ré — a mente de Vraska foi dominada por um oceano de conhecimento. Cerrou os dentes e baixou a cabeça latejante até que a testa tocou a água.
Inspirou. Expirou.
Levantou-se fracamente. O vasto catálogo de novos conhecimentos náuticos em sua cabeça parecia uma ressaca e uma sessão de estudos combinadas em um único pacote infecto. Conseguiu evitar o vômito com sucesso.
"Você se surpreenderia com o que se aprende ao longo de milênios de tédio", refletiu o dragão. "Nunca achei o conhecimento útil, mas você e sua falta de asas precisarão dele se pretendem cruzar os mares."
Vraska tremia e sua cabeça latejava. Lais de guia volta do fiel nó em oito volta da ribeira — os termos, as técnicas e bibliotecas de conhecimento chocavam-se contra as laterais de sua mente, atropelando-se enquanto ela tentava mentalmente catalogar tudo.
O dragão não se importava.
"Parta para sua viagem. Você não poderá retornar até que sua tarefa esteja concluída."
O fim vale os meios, disse Vraska a si mesma, sua mente ainda categorizando a soma de técnicas e termos que o dragão imprimira em seu cérebro. Se eu fizer isto, terei tudo o que sempre quis para mim e para os meus.
A área ao redor dela escureceu em sombras. Vraska caminhou através de um rasgo de noite no ar do meio-dia e transpôs os planos para casa.
O sol brilhante do meio-dia transformara o mar de cinza-ardósia em um ciano resplandecente. Uma brisa como um banho morno roçava as pontas de ondas turquesas suaves, e uma grande escuna deslizava sobre a superfície da água. Vozes gritavam sobre o sussurro da lona e, na palma da mão da Capitã Vraska, a luz maior da agulha de sua bússola encantada contraiu-se violentamente para o sul.
Ela ergueu uma mão esmeralda. "Navegador!"
O navegador, Malcolm, voou até o convés de popa e aproximou-se da Capitã Vraska. Ele era uma sirena, naturalmente dotado na arte da navegação, e membro de toda a vida da Coalizão Brancal. Como um celestialista, ele especializara-se em usar mapas, bússolas e astrolábios — combinados com feitiços — para adivinhar mais informações das estrelas.
Vigia Sirena | Arte de Chris Rallis
"O que houve, Capitã?"
Vraska estendeu a bússola taumática. "Precisamos ir para o sul."
Malcolm, sempre o navegador cuidadoso, emitiu um pequeno ruído de preocupação. "Tem certeza?"
Vraska assentiu. "Vamos para onde ela aponta, e o que precisamos é por ali."
Passou a bússola para Malcolm. Ele a segurou perto do rosto como se a proximidade pudesse de alguma forma iluminar o propósito do dispositivo. Suspirou e olhou de volta para sua capitã. "Seu patrono nunca lhe disse exatamente para onde esta coisa aponta?"
Vraska suspirou. "Lorde Nicolas não estava disposto a compartilhar essa informação. Suas instruções foram apenas encontrar e recuperar o objeto até o qual ela conduzisse."
A intendente subiu os degraus e olhou para Vraska. "Capitã, a tripulação aguarda suas ordens."
Amelia, a intendente do Beligerante, era alta como um mastro de proa e tão robusta quanto. A intendente era encarregada da gestão diária do navio e supervisionava a distribuição tanto do saque quanto do pagamento. Ela era também uma talentosa maga de leme, dotada na magia de navios. Seus feitiços erguiam a brisa tão bem quanto as velas, e nós se apertavam ao seu toque. Ela ganhou sua posição como intendente em uma votação esmagadora, e a tripulação sabia que era melhor não contrariá-la. Amelia tinha inclinação para usar suas habilidades com uma vela para propósitos punitivos, afinal, e cumprir quaisquer deveres envolto em uma lona de vela não era uma punição agradável.
Malcolm encarava a estranha bússola. "Mas a direção para a qual ela está apontando é para longe do continente de Ixalan. A Cidade Dourada não é uma ilha em sua costa . . . "
Vraska falou com segurança. "Com todo o respeito, Malcolm, você é o navegador. Se você não sente que deveríamos seguir nossa missão e, assim, a bússola, é sua a decisão a tomar. Imploro que confie em mim como confio em você."
O navegador comprimiu os lábios. Olhou para o cata-vento, assentindo para si mesmo.
"Definir curso rumo ao sul", disse firmemente a Vraska. Vraska olhou para a intendente e confirmou, "Definir curso rumo ao sul". Amelia assentiu e virou-se para o restante da tripulação abaixo. "Definir curso rumo ao sul!", ela transmitiu.
O comando da intendente ecoou por toda a extensão do navio conforme cada um de sua tripulação repetia a ordem. Soava como uma canção folclórica cantada em coro, refrão após refrão sobrepondo-se enquanto viajava pelo Beligerante. Vraska não pôde deixar de sorrir com o efeito.
A tripulação imediatamente pôs-se a içar a vela, ajustar a cordoalha e preparar-se para a mudança de curso. O navegador moveu-se em direção à cana do leme, sentou-se e moveu o grande leme para um lado. O Beligerante começou a girar. Trabalhavam diligentemente, uma coleção heterogênea de humanos, ogros e goblins. Todos capazes, todos qualificados, todos leais apenas uns aos outros.
Talvez nosso prêmio esteja mais perto do que pensamos, refletiu Vraska consigo mesma.
"Onde Lorde Nicolas encontrou essa bússola, afinal?" perguntou Malcolm. Ele movia a cana do leme de volta à sua posição de repouso, tendo o navio completado sua curva.
"Nosso cliente é um fornecedor de curiosidades raras. Esta está emprestada de sua coleção particular de ferramentas de navegação mágicas."
Amelia assentiu, acendendo um cachimbo que tirara de um bolso em seu casaco. "Já trabalhou para ele antes?"
"Não. Ele só me abordou pouco antes desta tarefa. A princípio, eu estava incerta se deveria aceitar, mas ele estava confiante de que eu era a pessoa certa para o trabalho."
"Ele é um bom juiz de caráter", disse Malcolm com um sorriso encorajador.
Vraska franziu o nariz. Bom é forçar a barra.
"Ele tem expectativas elevadas", respondeu ela. "Alto risco, alta recompensa."
Malcolm sorriu. "Essas são probabilidades com que consigo conviver. Vou garantir de dizer à minha amada para esperar um navio cheio de ouro em nosso retorno."
"E um navio cheio você terá, amigo", disse Vraska com um aceno de cabeça.
E ela falava sério.
A confiança implícita entre Vraska e sua tripulação transformara o que deveria ter sido um desafio assustador de suas habilidades não testadas no período mais satisfatório de sua vida. Passara os meses anteriores reunindo sua tripulação. Embora inicialmente tivesse sido difícil convencer estranhos a se juntarem à tripulação de uma capitã desconhecida, Vraska provara seu valor com pagamentos justos, um conhecimento verdadeiramente fenomenal de técnicas de navegação e uma proteção inigualável daqueles que via como seus. O povo deste plano era teimoso, propenso a palavrões e moralmente mercurial — e Vraska os adorava por isso. Ela assegurou seu próprio navio através de pagamentos vultosos e mais do que um pouco de negociação, e logo zarpou para começar sua jornada.
Gorgonas em Ravnica só podiam ser uma coisa. Mas aqui? Uma górgona podia ser o que bem entendesse. Vraska deleitava-se naquela liberdade recém-descoberta e brilhava de orgulho ao pensar em como lideraria os Golgari quando retornasse para casa.
Vraska, Malcolm e Amelia — capitã, navegador e intendente — puseram-se a discutir a logística de sua expedição, inspecionando seus mapas e cartas em busca da melhor rota terra adentro uma vez que alcançassem o continente de Ixalan.
A bússola provara ser difícil de interpretar. Mudava de direção ocasionalmente apenas para voltar horas depois, e suas várias agulhas apontavam em várias direções. Vraska raciocinara que a agulha maior apontaria para onde ela precisava ir, mas sua confiabilidade provava-se questionável.
Ela perguntou-se o que o dragão faria caso ela falhasse.
Mais tarde naquele dia, um dos tripulantes gritou lá do alto do cesto de gávea.
"Alto lá! Homem na margem!"
Edgar, o outro mago de leme do navio, cerrou os punhos e ordenou que as velas do navio descessem em um suave banho de luz azul. Pela segunda vez naquele dia, o Beligerante recolheu suas velas e parou.
Um bloco de rocha projetava-se da água ali perto, com os topos cobertos por uma espessa camada de branco e sua superfície pontilhada por centenas de aves marinhas fazendo ninhos. Caído naquela rocha estava um monte de roupas azuis e pele pálida queimada pelo sol.
Amelia olhou pela amurada e virou seu rosto redondo para Vraska. "Devemos enviar Malcolm?"
"Não", disse Vraska, irritada com a perspectiva de ter mais uma boca para alimentar na viagem, "Preparem o bote. Quero vê-lo bem primeiro." O patrão de bote, um homem de aparência sombria chamado Gavven, preparou uma pequena embarcação para resgatar o náufrago, e Vraska inclinou-se sobre o corrimão para ver quem fora encontrado.
Ele jazia de costas no único pedaço da coluna de rocha não coberto por excremento de pássaro. Era moreno, espantando moscas desesperadamente com qualquer energia que lhe restasse. Uma pilha de roupas azuis estava sob sua cabeça, mas mergulhando na água estava um pedaço de pano azul com símbolos brancos familiares bordados na frente.
O coração de Vraska parou no peito.
Não.
Era Jace Beleren.
Como diabos ele me encontrou?
Vraska não se deu ao trabalho de responder. Pânico e fúria acenderam sua mente, e ela se preparou mentalmente para matar o homem assim que pudesse olhá-lo nos olhos. Tomara cada precaução, cada medida, usara cada grama do talento de uma assassina para evitar ser vista. Ninguém de Ravnica sabia onde ela estava, e nenhum Planeswalker deveria ser capaz de encontrá-la. O que diabos Jace estava fazendo ali?
Vraska enfiou sua luneta na mão emplumada de Malcolm. "Deixe que eu cuido dele."
Ela subiu no bote e gritou para Gavven entrar e baixá-los. Edgar, o mago de leme, seguiu o exemplo e tomou os remos nas mãos.
Edgar anunciou sua intenção, "Baixando a embarcação de reconhecimento!" Os três tomaram seus assentos, e Edgar fez um gesto brusco com a mão fazendo o bote descer. O barco de reconhecimento atingiu a superfície do mar com um estalo, e Vraska rapidamente soltou os ganchos que haviam baixado sua embarcação.
Sentou-se enquanto Edgar remava e Gavven guiava seu bote em direção a Jace. A cada remada, ela ficava mais resoluta sobre o que precisava ser feito.
Ele deve ter me seguido desde o início. Assim que eu me aproximar, preciso petrificá-lo antes que ele possa se desvencilhar deste disfarce e apagar minha mente. É claro, de todos os intrusos irritantes no Multiverso, tinha que ser ele.
"Eu lhe diria para não partir, mas a questão é um pouco irrelevante. É como caminhar entre os planos contra uma janela, não é?" Vraska gritou.
Edgar e Gavven deram-lhe um olhar confuso, mas Vraska não se deu ao trabalho de traduzir o que era "caminhar entre os planos". Estava zangada demais.
"Meu navio precisa de uma nova carranca, Beleren! Diga-me para quem você está trabalhando e sua morte será indolor!"
Vraska recorreu àquele pequeno lampejo no fundo de sua mente e sentiu seu olhar carregar-se com a magia de petrificação que apenas górgonas possuíam. Levantou-se, sentindo sua própria magia como um calor morno atrás do rosto e, em um movimento rápido, virou-se para travar os olhos com seu inimigo.
Mas as pálpebras dele estavam fechadas, coladas com sal e sono, e suas bochechas encovadas estavam cobertas por uma barba espessa que obscurecia as tatuagens em seu rosto. Seus braços eram magros de músculo, mas Vraska conseguia contar as costelas sob seu torso queimado pelo sol.
Deuses do céu, o que aconteceu com ele?
Ele parecia devastadoramente doente. Não havia água doce à vista na ilha, nenhuma evidência de meios de sobrevivência. A aparência dele descarrilou seu curso de ação.
Ele bem poderia já estar morto.
Jace tossiu e abriu os olhos piscando. Vraska apagou o fogo em sua mente e olhou para baixo para ele sem magia em seus olhos.
Posso matá-lo depois de ele me dar algumas malditas respostas.
"Jace, que diabos aconteceu com você?"
Suas palavras saíram mais como fato do que pergunta. Ela deveria tê-lo matado à vista, mas o que a lógica dizia que deveria ser direto estava turvado pelo fato de que . . . era ele.
Jace terminou sua primeira tigela de mingau em exatos dois minutos, e seu caneco de água doce em ainda menos tempo. Não dissera uma palavra desde que chegara. Olhava ao redor da cozinha do Beligerante com um interesse curioso, porém sobrecarregado. Em um exame detalhado, Vraska ficou impressionada com o quanto ele mudara desde a última vez que o vira. Não havia como ele estar escondendo aqueles músculos sob aquele manto todos estes anos.
Sentavam-se agora na cozinha com uma tigela vazia aos pés de Jace. Vraska acenou para que sua tripulação a deixasse sozinha, e puxou um banco diretamente para a frente do mago mental.
Os tentáculos de Vraska contraíram-se contra seu rosto. "Você tem dois minutos para explicar como me encontrou antes que eu o transforme em pedra e o use como peso de papel, Jace."
Ele piscou uma vez.
Ela ergueu as sobrancelhas.
Jace balançou a cabeça. "Não estava procurando por você porque não sei quem você é."
Ambas as sobrancelhas de Vraska ergueram-se o mais alto que ela conseguiu.
"Está tentando fazer uma piada, Beleren?"
Ele fechou a boca e balançou a cabeça novamente. "Não lembro de nada de antes de acordar na primeira ilha."
A primeira ilha?
Vraska pegou a colher dele e a atirou em seu peito. Ele tentou rebatê-la e errou.
"Ei!"
Deselegância como aquela não podia ser fingida. "Não é uma ilusão", concluiu ela.
A irritação de Jace evaporou em uma surpresa feliz. "Você sabe que eu consigo fazer aquelas coisas?" Seus lábios erguiam-se em um pequeno meio sorriso.
Vraska não conseguia acreditar naquilo. Por que diabos ele estava tão animado? Onde estava o Pacto das Guildas pálido e temperamental que ela conhecia e detestava?
Ela comprimiu os lábios. "Você é um ilusionista. Não um ator. Por que ainda está mentindo para mim?"
"Você sabe mais sobre mim do que eu. O que eu teria a ganhar mentindo para você?"
"Muito", retrucou Vraska secamente. "Acho que você está fingindo."
"Qual é o seu nome?"
Isto é o inferno. Estou realmente no inferno.
". . . Meu nome é Vraska."
"Vraska." Jace sorriu um pouco. "Seu nome soa como se tivesse uma raiz linguística diferente do meu. De onde você é?"
"Você sabe muito bem de onde eu sou, seu babaca."
Jace pareceu visivelmente ferido.
Ah.
Vraska sentiu-se . . . mal?
Ele é como um cachorro, pensou Vraska. É um perdigueiro em forma humana. O que aconteceu com ele?
Seria melhor se Jace estivesse morto, mas ele estava claramente inofensivo em seu estado atual. Ela tinha uma regra pessoal de não matar aqueles que não merecessem de alguma forma, e ali sentava um homem sem passado em sua mente, sem pecado em seu coração, e com um pé na cova.
Ela levantou-se desajeitadamente e dirigiu-se ao fogão. Tudo naquilo era estranho, inesperado, um desvio do que esta missão deveria ser.
Vraska estava inteiramente incerta sobre o que fazer, então fez a única coisa que sabia que aliviava a sensação de desamparo.
"Você aceita açúcar, Jace?"
"Vamos descobrir", disse ele com um olhar brincalhão.
Vraska suspirou. Aquilo ia cansar.
Jace ocupou-se e ela o observou enquanto preparava o chá.
Não havia mistério em seus movimentos; ele existia inteiramente no presente. Fora-se o tenso Pacto das Guildas que Vraska conhecera, que escondia a incerteza com inquietude e envolvia-se em melancolia. Ali sentava uma variação magra, fervorosa e perturbadoramente amigável do segundo psíquico mais perigoso do Multiverso.
"Como nos conhecemos?" Jace perguntou, transbordando de curiosidade.
Vraska recordou a memória distante de matar pessoas terríveis com nomes convenientes para atrair a atenção do Pacto das Guildas todos aqueles anos atrás.
Fora, reconhecidamente, desastrado.
"Pedi que trabalhasse comigo e você recusou."
"No que estava pedindo para eu trabalhar com você?"
Vraska escolheu suas palavras com cuidado. "Eu esperava que pudéssemos trabalhar juntos para nos livrarmos de algumas pessoas muito ruins em lugares muito importantes." Ela então despejou o chá em uma caneca e a entregou a Jace.
Jace sorveu o chá cautelosamente. "O que essas pessoas ruins fizeram?"
A boca de Vraska apertou-se e ela deu as costas a ele. Prenderam-me. Espancaram-me. Trancafiaram-me quando eu não fizera nada de errado.
Jace arquejou. "Está falando sério?"
Vraska girou a cabeça em alarme.
Ele lera a mente dela . . . mas não percebera. Jace devia ter pensado que ela falara em voz alta.
Ele olhava de volta com um choque genuíno e empatia nos olhos.
"Isso nunca deveria ter acontecido com você, Vraska."
Sua expressão era transparente, a emoção em sua voz gentil e honesta.
Vraska cantarolou alto uma canção em sua mente para abafar quaisquer outros pensamentos que pudesse estar projetando e, eventualmente, encontrou as palavras. "Meu passado é uma parte de mim, mas não é quem eu sou."
Jace sorriu.
"Conheço esse sentimento muito bem", disse ele com humor seco.
Vraska ficou surpresa. O homem tem senso de humor, afinal.
"Qual a primeira coisa de que você se lembra, Jace?"
Seus lábios entreabriram-se como se fosse dizer algo, mas sua mandíbula fechou-se rapidamente. Olhou para ela timidamente.
"Posso mostrar a você?"
Vraska moveu-se desconfortavelmente. "O que quer dizer com mostrar?"
"Quero praticar, se estiver tudo bem para você."
Vraska tinha a sensação de saber o que viria a seguir. "Sim. Está tudo bem."
A cozinha ao redor deles dissolveu-se. Vraska permaneceu sentada em sua cadeira, mas agora estava em um bosque de bambu mais alto que os mastros de seu navio. Jace sentava-se em sua cadeira, olhos acesos, e iniciou um resumo ilusório de seus últimos quarenta dias. Vraska assistiu enquanto o bambu mudava para areia intocada. A chuva caía sobre um fogo imaginário e um peixe muito morto. Viu-o aprender a caçar e coletar, construir e sobreviver. A górgona sorvia seu chá e maravilhava-se tanto com a beleza da ilha de Jace quanto com a pletora de coisas que Jace aprendera enquanto estivera lá. Ele sorria conforme lhe mostrava o que aprendera e construíra. Ele claramente deleitava-se em preencher as lacunas vazias em seu conhecimento, e seu entusiasmo era contagiante. Era incrível que ele tivesse construído anzóis, uma plataforma, uma jangada. Vraska terminou seu chá ao final do passeio e a ilha desvaneceu de volta para a madeira familiar da cozinha.
A magia de Jace recuou. Vraska deu-se conta balançando a cabeça. É claro que ele, de todas as pessoas, aproveitaria estar abandonado em uma ilha sem memória. Mas esta série de ilusões não respondia como ele viera parar ali em primeiro lugar.
"Você realmente não lembra de nada, não é?" perguntou ela.
Ele deu a Vraska um olhar agridoce e ecoou as próprias palavras dela: "Meu passado é parte de quem eu sou, mas não é quem eu sou hoje."
Jace redescobrira os talentos de projetar ilusões que possuía, mas nenhum dos verdadeiramente assustadores. Era inquietante. Neste plano, apenas ela sabia do que ele era capaz.
Olhou para o chá em sua mão e suspirou. Iria mantê-lo vivo. Os talentos dele seriam úteis para ela, por ora. Ingenuidade não era um mandado de morte, especialmente sob o código de um assassino. Mas este caso era diferente . . .
O homem à sua frente não era Jace. Não realmente. O Pacto das Guildas como ela o conhecia se fora.
Se não me pagam para fazê-lo, não mato estranhos.
Sua mente estava decidida.
"Prepararemos uma rede para você no castelo de proa", disse Vraska. "Quando chegarmos ao nosso próximo porto, você seguirá seu próprio caminho."
Jace assentiu e pousou sua caneca vazia aos pés.
Olhe o estado dele, pensou Vraska. Ele está indefeso. Estou cometendo um erro ao deixá-lo viver?
"Você disse algo?" Jace perguntou.
O coração de Vraska parou no peito; ela balançou a cabeça e Jace franziu o cenho.
"Estranho", murmurou ele, "deve ter sido o navio."
Jace passara oito dias a bordo do navio e estava tendo dificuldades em agir como um convidado no Beligerante.
Embora o médico do navio tivesse ordenado que ele descansasse abaixo do convés, Jace ganhara a reputação de ser incapaz de ficar em um lugar por muito tempo.
Em um dia sem vento, Vraska observou-o desmontar e remontar um telescópio.
Todo o processo levou cerca de quinze minutos.
Começou estudando o exterior da coisa, encontrando suas frestas, então usando uma ferramenta emprestada para desmantelá-lo gentilmente. Ele estava organizando as peças conforme ia, dispondo os pedaços em uma grade meticulosa no convés do navio. Uma vez desmontado, trabalhou de trás para frente, colocando cada peça de volta na ordem inversa de como a retirara.
Uma pequena multidão reuniu-se para assistir fascinada. Vraska ficou atrás, tão impressionada quanto perturbada. Sussurrou no ouvido de sua intendente transfixada, que apressadamente se desculpou e deu um pito na tripulação para voltarem ao trabalho.
Jace levantou-se, envergonhado, e entregou o telescópio remontado para Vraska.
"Estarei na cozinha. Senhor." Seus olhos estavam baixos em pedido de desculpas.
Vraska girou o telescópio na mão. Olhou de volta para Jace e gritou para atrair sua atenção.
"Ei!"
Ele olhou para cima. Vraska atirou-lhe um segundo telescópio. Jace o pegou e olhou de volta, confuso. Caminhou até ela. "O que quer que eu faça com isto?"
"Pode consertar o meu também?" perguntou Vraska.
Jace abriu um sorriso largo e deu um tapinha nas costas de Vraska.
"NÃO FAÇA ISSO!" ela gritou com um forte sobressalto.
Jace congelou. Amelia aproximou-se com pernas longas e grossas e olhou para o mago mental com seu melhor olhar de intendente. "Ninguém toca na capitã!", rosnou ela.
"Está tudo bem", disse Vraska, tentando acalmar os próprios nervos. "Ele não sabia, Amelia."
O coração de Vraska estava acelerado de pânico e ela respirou fundo para afastar o alarme. Não tocara fisicamente em ninguém em anos. A tripulação não precisava saber o porquê. Ela escondia aquelas velhas cicatrizes de prisão por um motivo.
"Capitã, sinto muito", disse Jace, com os olhos nos próprios sapatos.
"Não sinta", disse Vraska, com um tom cortante na voz. "Apenas não faça de novo."
O céu lá fora estava nublado e o ar parecia espesso com a ameaça de chuva. O vento era constante e vigoroso; Malcolm estimara que eles chegariam em terra firme em Seco e Esturricado em um dia. A maior parte da tripulação estava abaixo do convés, fazendo suas refeições e passando o tempo.
O tripulante no cesto de gávea gritou e Malcolm voou para encontrá-lo. Parou no topo do mastro e voou para o céu muito acima. Retornou em um mergulho rápido, pousando imediatamente ao lado de Vraska.
Sussurrou asperamente. "Navio logo no horizonte. Ostenta velas negras."
Vraska cerrou a boca em uma linha firme. A Legião do Crepúsculo.
Dreadnought da Legião do Crepúsculo | Arte de Titus Lunter
O navio inimigo começava a despontar no horizonte, emergindo lentamente de uma névoa escura de magia. Suas laterais eram de madeira densa e escura, desgastada pelo tempo e pelas viagens. As velas do navio eram tão escuras quanto a fumaça que o seguia e sua cabine tão grande e imponente quanto uma catedral.
Vraska sobrevivera a coisa pior.
Lembrou-se do primeiro encontro que tivera com os vampiros da Legião do Crepúsculo. Fora nas primeiras semanas em que possuíra o Beligerante e sua tripulação era tão pouco familiar entre si quanto ela era com seu inimigo. A aproximação do vampiro transformara o meio-dia em entardecer e o navio fora envolto em uma nuvem escura. Vraska ficara inicialmente confusa sobre por que um navio maior alcançaria o deles, mas ficou claro que sua tripulação, e não seu saque, era o objetivo. Os conquistadores não precisaram usar suas armas. Clamaram por seus santos e banquetearam-se com uma ferocidade que Vraska nunca vira antes. Perdera quatro companheiros de tripulação naquele dia, todos drenados em fervor piedoso antes que ela pudesse petrificar seus assassinos.
Lâmina Celeste da Legião | Arte de Daarken
Malcolm estava lá naquele dia. "Estavam quebrando seu Jejum de Sangue", dissera ele. A Legião do Crepúsculo justificava sua sede de sangue matando apenas criminosos pecadores. Não fora acidente que vissem a Coalizão Brancal como uma aliança de pecadores.
Lembrou-se também de como Amelia lhe contara o que os vampiros buscavam. "Eles buscam um fim para seu vampirismo", dissera ela. "Anseiam pela vida eterna sem precisar de sangue. O Sol Imortal foi roubado de seus monastérios e então eles se aventuraram ao mar para recuperá-lo. Tomaram nossas terras ancestrais em Torrezon e tomam todos os lares no fim."
Marchador dos Céus de Crepúsculo | Arte de Seb McKinnon
Vraska trouxe-se de volta ao momento presente.
Estreitou os olhos e avaliou suas opções.
Poderia tentar ultrapassar o navio e reabastecer em Seco e Esturricado . . . ou poderia evitar drenar os cofres do navio e roubar dos conquistadores em vez disso.
Vraska decidiu ir com a opção divertida.
"Todos ao convés!", gritou ela para sua tripulação abaixo.
Eles responderam imediatamente ao seu chamado, subindo rapidamente a escada dos alojamentos da tripulação e saltando para seus deveres conforme Vraska os anunciava.
Seu coração acelerava com a empolgação de comandar.
Avaliou os céus acima. As nuvens estavam pesadas com a chuva iminente e o Beligerante estava em orça. As velas do outro navio estavam recolhidas e, se Vraska atacasse rápido, seriam capazes de aproveitar sua posição a barlavento.
"Postos de combate! Afastar-se e içar cores!"
Conforme Vraska gritava ordens, ouvia sua tripulação ecoar os comandos por todo o navio. Malcolm voou para a cana do leme e a moveu com força para um lado enquanto a tripulação ajustava os estais lá no alto. Amelia e Edgar ficaram de costas um para o outro e ergueram tanto o mastro grande quanto o de mezena com uma forte explosão de magia. O navio começou a girar bruscamente para o lado de boreste, suas velas enchendo-se com uma breve brisa invocada.
Jace surgiu no convés, maravilhado com a comoção e visivelmente incerto de onde deveria estar.
Um momento de inspiração atingiu Vraska.
"Jace! Aqui em cima!" Chamou-o do convés de popa e fez sinal para que subisse a pequena escada até onde ela e a intendente estavam. Os olhos dele estavam arregalados de excitação e inquietação.
Vraska olhou para ele. "Jace, pretendemos abordar aquele navio e capturar suprimentos. Você consegue camuflar a aproximação do Beligerante?"
Um sorriso repuxou os lábios de Jace, mas ele rapidamente o suavizou em um olhar de determinação. "Sim, Capitã."
Vraska assentiu. "Então proceda."
Jace olhou para o céu, seus olhos acesos e, como água vertendo sobre uma superfície curva, sua magia fluiu para baixo ao redor do Beligerante, aparentemente apagando-o da existência conforme avançava.
A tripulação conseguia ver uns aos outros e o navio abaixo. Jace manteve a concentração e assentiu bruscamente para a capitã. Vraska sorriu e voltou-se para seus companheiros de navio.
"Tripulação! Prosseguiremos silenciosamente até que o navio esteja posicionado para abordagem imediata! Assim que estivermos ao alcance, Jace desfará a camuflagem e nós abordamos. Recuperem apenas suprimentos e comida."
Vários membros da tripulação gemeram audivelmente.
"Estou brincando, caros amigos", Vraska sorriu, "peguem o que quiserem daquelas pegas sugadoras de sangue."
A tripulação aclamou e pôs-se a ajustar a cordoalha para apressar sua aproximação.
Jace olhou para Vraska. "O que quer dizer com 'silenciosamente'?"
"É uma especialidade do nosso navio." Vraska aproximou-se do sino do navio e tirou um feixe de pequenas bandeiras de uma caixa perto da amurada. "Ainda não cheguei a um bom nome para esta tática."
Ela ergueu no alto uma das pequenas bandeiras para que a tripulação treinada soubesse o que viria a seguir, e levantou uma mão para começar seu feitiço.
Fez uma série de gestos sutis e o volume do trabalho intenso do navio começou a desvanecer em silêncio. Era um velho encantamento de assassina que aprendera enquanto trabalhava para os Golgari e que usara em inúmeras tarefas desde então. O feitiço em si não tinha som, era invisível e seu efeito era imediato. Mesmo que ela gritasse a plenos pulmões, o feitiço sufocaria seu grito.
O Beligerante era agora imperceptível para qualquer um fora de suas amuradas.
Vraska usou suas bandeiras de sinalização para comunicar suas ordens à tripulação na ausência de som. Ao seu comando, o navio fez uma curva ampla ao redor da trajetória da embarcação inimiga. A Legião do Crepúsculo certamente os avistara no horizonte antes de o Beligerante desaparecer, mas estavam agora navegando em uma direção equivocada, seu alvo perdido de vista.
Vraska sorriu para Jace e voltou-se para o navio. Excelente trabalho, pensou ela.
Jace sorriu e respondeu um reflexivo "Obrigado, Capitã", seu volume cancelado pelo feitiço de silêncio.
Vraska fez uma nota mental silenciosa para ser mais cuidadosa. Não queria que ele estivesse conscientemente ciente de suas habilidades mais assustadoras ainda.
A Legião do Crepúsculo baixou suas velas. Vraska ergueu duas bandeiras ao mesmo tempo e o Beligerante girou bruscamente em sua aproximação à embarcação parada.
O Beligerante aproximou-se a uma distância de um navio da Legião do Crepúsculo. Vraska tocou o ombro de Jace e ergueu uma mão como um maestro faria para uma orquestra. Ele entendeu seu significado e assentiu, mantendo a ilusão que ocultava o navio de vista.
Vraska simultaneamente fechou a mão voltada para Jace e ergueu uma bandeira negra com a outra.
De uma só vez, o feitiço de silêncio cessou, o navio tornou-se visível e um terço da tripulação soltou um grito de guerra enquanto balançavam em cabos de abordagem em direção ao convés do navio dos conquistadores.
Os vampiros foram pegos completamente desprevenidos.
Fanfarronice | Arte de Josu Hernaiz
O silêncio explodiu em caos e ruído conforme a tripulação do Beligerante balançava para o navio da Legião do Crepúsculo. A tripulação do navio vampiro sobressaltou-se em surpresa com a investida. A maioria dos companheiros de tripulação foi facilmente subjugada, de olhos arregalados e guardas baixas enquanto os piratas caíam sobre seu navio. O clangor do aço contra aço ressoou no ar e o convés tornou-se um turbilhão movimentado de pânico e piratas.
Trapaça | Arte de Deruchenko Alexander
Os vampiros emergiram debaixo do convés. Sua armadura era reluzente e brilhante, meticulosamente limpa e de qualidade superior à usada pela tripulação do navio. Estes conquistadores eram matéria de lenda e mito, sofisticados porém selvagens, eternamente amaldiçoados. Seus olhos claros espreitavam de sob elmos dourados e seus dentes brilhavam à luz do sol.
"Que tipo de vampiros são eles?" Jace perguntou, gritando acima da multidão.
Vraska olhou para ele com um olhar de você-está-brincando-comigo. "Você lembra de vampiros mas não lembra do próprio nome?"
"Lembro das coisas que importam", respondeu ele com um rastro de sorriso.
De seu ponto de observação, Vraska ouvia um chamando acima do restante.
"Santa Elenda! Conceda-me a vontade de purgar este mar de pecadores!"
Ela não está ouvindo, refletiu Vraska consigo mesma. Mas eu estou.
Desceu correndo pela lateral do convés de popa e atravessou a prancha de abordagem, abrindo caminho entre vampiros e humanos igualmente, empunhando uma cutela, os tentáculos de seu cabelo enrolando-se de excitação. Jace saltou para a batalha atrás dela, invocando várias cópias de si mesmo para correrem desenfreadas pela multidão de conquistadores confusos da Legião do Crepúsculo.
As ilusões distraíam e esquivavam-se, perturbando os vampiros o tempo suficiente para que os piratas os subjugassem.
Após abrir caminho através de vários vampiros atacantes, ela gritou acima do caos: "Tragam-me o capitão!"
Seu chamado foi respondido pela emergência de um vampiro de armadura dourada e reluzente. Sua armadura era elaborada e sufocante, uma afronta ao clima tropical ao redor deles. Ele travou os olhos com Vraska e investiu, espada desembainhada e dentes à mostra. A górgona sorriu.
Vraska esquivou-se da espada do vampiro e começou a reunir a energia mágica necessária para petrificar. Ganhou tempo desferindo golpes contra o capitão com sua própria cutela.
O homem sibilava e cuspia, respondendo a cada golpe da espada de Vraska com um clangor próprio.
Vraska sobressaltou-se em surpresa quando Jace apareceu à sua esquerda e também à sua direita, as ilusões gêmeas enganando o capitão vampiro o suficiente para que Vraska desferisse um golpe. Um dos Jaces conseguiu acertar um soco e Vraska percebeu que ele estava fisicamente ao seu lado.
O vampiro esquivava-se, parava e golpeava com a prece de um zelote nos lábios, observando o tempo todo cada um dos clones de Jace atentamente, visivelmente tentando discernir qual era a versão física.
A voz de Jace soltou um grito no ar e o vampiro agarrou seu pescoço físico. O outro desapareceu num flash enquanto o Jace real apertava os olhos e tentava livrar-se com as garras. O vampiro abriu a boca no exato momento em que Vraska o agarrou. Ela enfiou-se entre ele e Jace, travando os olhos com o capitão enquanto liberava o controle da magia que estivera reunindo.
A pele e roupas do vampiro transformaram-se em pedra em seu aperto.
Desprezo de Vraska | Arte de Clint Cearley
Ela baixou o olhar para o chão por um momento, evitando os olhos de sua tripulação conforme o último resquício de sua magia recuava, então olhou para Jace.
Ele se livrara do aperto do vampiro petrificado e agora encontrava o olhar dela com uma expressão de surpresa. Vraska sentiu-se desequilibrada, não porque se deixara ser vista pelo que era, mas porque o que olhava de volta para ela não era um rosto contorcido de horror, mas um iluminado de admiração.
Jace não estava com medo. Estava maravilhado.
Os vampiros sobreviventes ajoelharam-se em submissão sob os olhos vigilantes de Malcolm e Amelia, que trabalhavam rápido para amarrá-los magicamente com cordas e velas rasgadas.
"Limpem o depósito deles, afundem todas as armas e carreguem este aqui para o Beligerante", chamou ela, chutando o capitão de pedra com o pé. "Acho que poderíamos usar uma carranca nova."
A tripulação riu e Vraska sorriu brevemente. Virou-se e começou a fazer o caminho de volta para o convés de seu próprio navio enquanto a tripulação começava a empacotar seus despojos.
O mago mental provara ser absurdamente útil.
Caminhou pela prancha que unia os dois navios e Jace a seguiu. Na privacidade de seu próprio navio, ele se aproximou dela.
"Não sabia que você conseguia fazer aquilo!", comentou ele.
"Bem . . . surpresa", disse Vraska com um de dar de ombros.
"Vraska", disse Jace fervorosamente. "Eu estava em apuros e você me salvou. Obrigado."
A górgona olhou de volta em confusão. "Você não ficou assustado?"
Jace balançou a cabeça.
"Acho que você é talentosa."
Vraska não soube o que dizer àquilo.
Elogios para ela eram tão estranhos quanto voar.
Jace era absurdamente útil. Talvez fosse melhor mantê-lo por perto para fazer uso de suas habilidades.
E assim, Vraska falou com certeza. "Pensei uma vez que faríamos uma boa equipe, Beleren, e parece que eu estava certa. Gostaria de ficar com minha tripulação e me ajudar em minha missão?"
O sorriso de Jace alcançou seus olhos, um sorriso encorajado pela curiosidade de um viajante. "Eu adoraria."
Jace, Náufrago Astuto | Arte de Kieran Yanner
27 de Setembro de 2017 | Por Alison Luhrs, Gregg Luben & Kelly Digges
Os Moldadores
KOPALA
Estávamos aqui no princípio.
Antes do primeiro sapateado de pés sem membranas sobre a terra, meu povo nadava nas águas de Ixalan e escutava. Os Nove Afluentes nos ensinaram seus nomes secretos e, em troca, prometemos invocá-los apenas em caso de necessidade. Sussurramos para as raízes conforme caminhamos entre elas, e elas se enrolam para abrir caminho — não porque sejamos seus mestres, mas porque apenas nós sabemos como pedir. Falamos com o vento e as ondas e os galhos emaranhados. Nós os moldamos para atender às nossas necessidades, e eles nos moldam para atender às deles.
Os mestres das feras esquecem que estávamos aqui antes deles, embora um dia soubessem. Os sugadores de sangue e os salteadores, talvez, nunca tenham sabido — embora eles, também, tenham esquecido muitas coisas que apenas nós lembramos.
Somos poderosos, mas costumávamos ser muito mais.
Kopala, Guardião das Ondas | Arte de Magali Villeneuve
Pergunto-me, às vezes, como era antes de os mestres das feras terem sua vez. Governávamos estas terras e outrora controlávamos seu destino. Pergunto-me que tipo de Moldador eu seria se tivesse vivido naqueles dias, se tivesse conhecido o que eles fizeram.
É inútil especular, é claro. Meu presente é tudo o que posso verdadeiramente conhecer. Tishana fez o melhor que pôde para me ensinar isso. Os "porquês" e "e se" não podem mudar o curso de um rio.
Somos nove Moldadores que lideram as nove grandes tribos. Os Afluentes gentilmente compartilham seus nomes conosco, cada um de nós falando por um deles, cada um deles guiando um de nós. Eu era chamado de outra coisa, não faz muito tempo, quando eu era apenas outro xamã nadando nestes rios. Mas o rio Kopala me escolheu, como escolhera Kopala antes de mim e, por isso, sou Kopala, e Kopala sou eu.
Kopala é um riozinho lânguido que serpenteia descendo das terras altas, parando para reflexão em pequenos lagos pelo caminho. Somos do mesmo tipo. Eu estava meditando quando suas águas me encontraram, rastejando em minha direção, preenchendo a pequena clareira na qual eu me sentava. Abri meus olhos e me vi refletido em águas paradas, o rio e eu nos tornando um só.
Não adianta "e se". Sou um Moldador, e é o único caminho que jamais conhecerei. Tenho orgulho de portar este manto. Sou o mais jovem dos Moldadores, o menor dos maiores de meu povo. Ainda tenho muito a aprender. Minha tribo depende de mim. Os outros Moldadores dependem de mim. A própria Ixalan depende de mim.
É por isso que estou flutuando aqui, nas águas místicas da Nascente Primal, meditando. Tishana, minha mentora, está aqui comigo, guiando-me, embora seu corpo esteja sentado na copa das árvores muito acima.
Nascente Primal | Arte de John Avon
Consigo sentir tudo — o Grande Rio, os Nove Afluentes, o balanço da distante Árvore de Raiz-funda, os movimentos gentis das marés e dos ventos. Emanando de um lugar que nenhuma alma viva viu, sinto o batimento cardíaco de Ixalan, o pulsar constante da Cidade Dourada de Orazca.
O poder de Orazca é diferente de qualquer outro. É separado do vento e das ondas, dos esforços efêmeros da vida e do moer profundo e lento da terra. É muitas coisas para muitas pessoas — suas verdades permanecem ocultas de nossa visão. Mas o que ele é está além das palavras. É um pulso constante, um ritmo, que pode ser ouvido por todo o mundo por aqueles que sabem escutar.
O pulso pula um batimento.
Meus olhos se abrem.
Então Tishana está ali comigo, guiando-me de volta, lembrando-me sem palavras para ver a estranheza, para senti-la, para refletir sobre ela — e, como a água no Grande Rio, deixar que ela flua sobre mim, canal abaixo, até o mar, para onde todas as coisas devem eventualmente retornar.
Meus olhos se fecham. Meditamos mais. Não consigo evitar esperar na expectativa de outro batimento perdido. Ele não vem. Logo depois, a presença de Tishana minguou, e nossa meditação chega ao fim.
Meus olhos se abrem e meu corpo retorna para mim. Nado até o fundo do rio, dou um impulso em uma nuvem de lodo e movo-me de baixo para cima. O ar na clareira ao redor da Nascente é tão úmido que sinto que mal preciso de meus pulmões, embora é claro que o sopro de névoa que cruza minhas guelras não seja suficiente para me sustentar. Respiro, para dentro e para fora — um foco para meditação no Império do Sol, ouvi dizer. Nossas técnicas, que devem nos servir tanto acima quanto abaixo, focam no batimento cardíaco.
Tishana desce por um caminho de galhos curvos, que se dobram para depositá-la gentilmente na margem. Sua postura é curvada, suas feições envelhecidas. Ela é a mais velha de nosso povo, velha o suficiente para lembrar quando muitas das árvores nesta clareira eram mudas.
Tishana, Voz do Trovão | Arte de Anna Steinbauer
"Você sentiu", diz ela.
"Sim", digo eu. "O que foi aquilo?"
"Uma perturbação do intangível", diz ela. "Como um golfinho tentando romper a superfície da água do rio, embora não consiga saltar. Não sei o que significa. Mas . . . "
Ela pausa, dando-me a chance de falar. Quando comecei a treinar com Tishana, eu esperava através destes silêncios por deferência mas, eventualmente, percebi que se ela achasse que eu sabia a resposta, seu silêncio continuaria indefinidamente.
"Mas envolve Orazca", digo eu.
Orazca. A Cidade Dourada. O lugar que nosso povo jurou manter em segredo, até de nós mesmos.
"E o que envolve Orazca envolve o mundo inteiro", diz Tishana.
Tishana vira-se, e então eu sinto também — um surto de magia vindo do norte. Uma ondulação move-se pela selva, um grande grupo em movimento, aproximando-se.
Então eles estão na borda da clareira, um grupo de cerca de vinte Arautos do Rio. Estão em formação, cercando algo que não consigo ver, guardando-o. À frente deles está Kumena, o Moldador deles. Ele é magro e ágil, com olhos penetrantes e uma atitude de comando.
O rio Kumena corre rápido sobre rochas denteadas. É um obstáculo cruel para nossos inimigos, e um perigo até para nós. O Moldador Kumena não é diferente, e ele é talvez o mais poderoso entre nós, exceto por Tishana.
"Moldadora Tishana", diz ele, sua voz ressoando pela clareira. Ele acena para mim, como um pensamento tardio. "Moldador Kopala."
O povo de Tishana e o meu, dispostos ao redor da Nascente, estão observando e escutando.
Tishana inclina a cabeça. Eu me curvo.
"Moldador Kumena", diz Tishana. "Que sorte o Grande Rio tê-lo trazido aqui."
Visão Transbordante | Arte de Lucas Graciano
"Como ele guia a todos nós", diz Kumena, automaticamente. Não há deferência em sua voz, nem ao Grande Rio que nos guia, nem à Moldadora que nos lidera.
"O que o traz à Nascente, Moldador Kumena?" pergunta Tishana.
Kumena aponta um dedo para seu povo, e eles se abrem, revelando um fardo no chão. Não, não um fardo — um homem. Um soldado do Império do Sol, maltrapilho mas inteiro, amarrado com um emaranhado de videiras. Seus olhos estão cheios de ódio.
"Capturei isto", cospe Kumena, "no lado oeste do Grande Rio, com uma companhia de seus companheiros e suas feras. E vocês sabem o que estavam procurando."
Tishana acena com a mão.
"Eles há muito buscam Orazca", diz ela. "Uma patrulha no lado distante do rio dificilmente significa que a encontraram. Como os sugadores de sangue, seu zelo não se traduzirá em sucesso."
Kumena volta-se para seu cativo. Seus olhos se travam, ódio mútuo perfeitamente refletido neles.
"Diga-lhes o que me disse."
O homem sorri com desprezo, mas fala. Não sei o que Kumena fez com ele, ou com seus amigos, mas há medo sob o ódio.
"Forças estão convergindo para sua Cidade Dourada", diz o homem. "Nossos espiões nos falam de dois capitães piratas . . . as histórias são incríveis, mas parecem ser verdadeiras. Um é um homem com cabeça de touro. A outra é uma mulher com cabelo como videiras retorcidas que pode matar com um olhar. A mulher tem um dispositivo, uma bússola, que ela diz apontar o caminho para a Cidade Dourada. Ela estava discutindo isso abertamente em sua cidade flutuante."
Um murmúrio surge entre os Arautos do Rio reunidos. Eles têm seus próprios espiões e ouviram temores semelhantes. Mas Kumena olha furioso para o homem.
"E?", exige ele. O homem recua.
"Uma dos nossos, uma campeã do sol, executou um feitiço que revelou a Cidade Dourada", diz o homem. Ele não consegue manter um tom de orgulho fora da voz. "Ela irá até seus portões."
Kumena abre os braços amplamente, virando-se para longe do homem.
"A situação mudou", diz ele. Ele está falando com Tishana, mas alto — alto o suficiente para todos na clareira ouvirem. "Orazca está ameaçada. Você quer que a protejamos sem nem saber onde ela está."
Os olhos de Tishana se estreitam. Ela não aumenta o tom de voz, mas ela é mais alta que a dele. Chamam-na de a Voz do Trovão. Até seus sussurros podem derrubar árvores, se ela desejar. Ela está deixando uma minúscula rajada desse poder escapar.
"Eu quero que salvaguardemos Orazca de todos que a abusariam", diz Tishana. "Até de nós mesmos."
"É tarde demais para isso", diz Kumena. "Já sabemos que os sugadores de sangue têm uma visionária guiando-os. Agora os cavaleiros de feras têm uma também, e os saqueadores têm este dispositivo. Estamos em vasta desvantagem numérica, e eles estão mais zelosos do que nunca. Se esta corrente continuar fluindo, Orazca será descoberta."
"E o que você quer que façamos, Moldador Kumena?" pergunta Tishana. "Por favor, agracie-nos com sua sabedoria."
Kumena nada em águas tumultuosas e certamente sabe disso. Ele prossegue.
"Chegou a hora", diz Kumena. "Devemos empunhar o poder do Sol Imortal nós mesmos, ou o veremos cair em mãos inimigas. O sol despencará do céu, as águas correrão frias e esta terra que nos embalou se tornará nossa sepultura. A menos que ajamos agora, decisivamente. Não temos escolha!"
A clareira está em silêncio.
Tishana permanece calma. Ela é firme, sem medo, sem vacilar. Outro "e se" cruza minha mente. E se fosse eu o único de pé contra Kumena? E se eu deva fazê-lo agora?
"Lembre-nos, Kumena, por que forasteiros encontrando Orazca seriam nossa perdição."
Pináculos de Orazca | Arte de Yeong-Hao Han
A voz de Tishana só faz crescer. Seus olhos são estrelas, e sua voz uma onda quebrando. Dou um passo atrás, mas Kumena não recua.
"Eles o usariam mal!" sibilia ele. "O Último Guardião o confiou a nós, e se o deixarmos cair em mãos de forasteiros, então seremos negligentes em nosso dever. Eles destruirão a nós e a todo o mundo conosco!"
"Ele nos confiou a tarefa de mantê-lo oculto", diz Tishana, com a inevitabilidade de um furacão. "Para mantê-lo sem uso, Kumena. Você esqueceu o seu lugar. Você esqueceu o nosso dever."
A água na Nascente começou a girar ao redor de Tishana. O ar move-se sobre minhas guelras cada vez mais rápido. Agora Kumena dá um passo atrás, mas ele se volta para os Arautos reunidos. Para mim.
"Certamente você deve ver isso!" diz ele, para mim. "Esta filosofia de inação não tem sentido se a cidade se tornar uma arma nas mãos de nossos inimigos! Você me ajudará a defender nosso povo?"
Ele está encarando para mim. Tishana está olhando para mim também.
Meu jogo de "e se" deve ser falado em voz alta. Sei que devo fazer a convocação, desempatar, ser a voz decisiva. Um líder é decisivo e justo, e eu devo ser assim também.
Minhas palavras são como eu mesmo. Fluidas e equilibradas, constantes e justas. "Não posso negar a verdade nas palavras de Kumena. Se forasteiros tomarem a cidade, apenas miséria pode resultar. O Sol Imortal trouxe a ruína a esta terra uma vez antes, e mal sobrevivemos. Para qualquer um usá-lo novamente significaria o fim de tudo o que construímos e o fracasso de nossa vigília.
"E no entanto. Se o Último Guardião pretendesse que nós o empunhássemos, ele poderia tê-lo confiado diretamente aos nossos cuidados. A história do Sol Imortal é a história de seu mau uso por mortais. Não sou tão arrogante a ponto de pensar que apenas nós poderíamos carregar com segurança o peso desta responsabilidade.
"A Moldadora Tishana está certa", digo com confiança. "Devemos fazer tudo em nosso poder para evitar que qualquer um reivindique a Cidade Dourada. Isso inclui a nós. E não posso confiar em ninguém que esteja tão ansioso para pôr as mãos em tal poder."
Sinto o orgulho do meu povo em minha voz. Vejo o orgulho de Tishana em seus olhos. Mas pressinto que escolhi o lado errado.
Os olhos de Kumena faíscam, e então tudo acontece de uma vez.
Kumena acena com uma mão. O guerreiro do sol é puxado para baixo da superfície da Nascente com um grito sufocado. O povo de Kumena hesita, relutante em juntar-se a ele em sua rebelião. O povo de Tishana e o meu correm para a clareira. Vento e água giram ao nosso redor.
Tishana subitamente se imobiliza, assim como Kumena um momento depois.
Sinto um puxão em algo no meu peito: uma conexão, um fio de aranha dedilhado como um arco. Por um momento todos esperamos, sentindo, sabendo em nossos corações que alguém está se aproximando das margens.
Tishana coloca sua mão na superfície da água. Seus olhos se abrem bruscamente. "Embarcações aproximam-se de nossa costa. Kumena, se estes são seus intrusos — "
Kumena faz uma careta.
"Lidarei com eles, mas esta estratégia não nos servirá pelos próximos cem anos. Não nos servirá por um só. Todos vocês foram avisados."
Kumena profere uma última palavra, e uma concha de água e videiras passa a existir ao seu redor. Há um lampejo de magia, um redemoinho de água, e então ele se foi da clareira, rasgando pela selva em uma onda de raízes emaranhadas e correnteza impetuosa.
Busco sob a superfície com minha magia, procurando pelo guerreiro do sol, mas seu corpo está imóvel e encharcado.
"Ele está indo para Orazca?"
Tishana balança a cabeça.
"Se Kumena pudesse encontrar Orazca por conta própria, acho que já o teria feito", diz ela. "E mesmo que consiga, ele buscará incapacitar seus rivais primeiro."
"Você acha que ele buscará estes outros que parecem saber o caminho", digo eu.
"Sim", diz Tishana. "Vou atrás dele."
"Você? Mas Moldadora, você é — "
"Velha", diz ela, com um brilho no olhar. "Eu sei. Mas não estou decrépita, Moldador Kopala. Ainda não. Eu irei. Apenas eu posso esperar sobrepujá-lo."
"Irei com você", digo eu.
"Fique aqui", diz Tishana. "Preciso que você reúna nosso povo e esteja pronto para se mover. Se Kumena tomar Orazca — se qualquer um tomar — pode ser que precisemos de todos nós para ganhá-la de volta."
Santuário dos Moldadores | Arte de Zezhou Chen
"Não", digo eu. "Moldadora, por favor. Vocês a mantiveram em segredo por um motivo."
Tishana pousa uma mão em meu ombro.
"Kumena está certo sobre uma coisa", diz ela. "Não acho que possamos manter a Cidade Dourada oculta por mais tempo. E se não podemos mantê-la oculta, então devemos esperar que o Grande Rio nos conceda a todos a sabedoria para guardar a cidade sem usar seu poder."
"Sabedoria que falta a um dos maiores entre nós", digo eu. "Não consigo me convencer a chamar isso de esperança."
"Chame do que quiser", diz ela. "Temos um caminho à frente e uma corrente em nossas costas."
Então água e videiras a envolvem, as árvores se curvam em deferência para deixá-la passar, e ela se foi.
Nosso povo está olhando para mim.
"Descansem", digo eu. "Meditem sobre o que aconteceu aqui. Pela manhã, enviarei mensageiros a todas as tribos. Faremos como diz a Moldadora Tishana."
A maioria deles murmura concordância. Alguns resmungam. O povo de Kumena já se esgueirara para longe.
Abaixo de mim, deixo que as raízes e videiras recolham o corpo do guerreiro do sol e o puxem para baixo do fundo da piscina para descansar, e para nutrir as árvores que crescem aqui. Não é o fim que ele teria esperado, mas é o melhor que posso fazer.
Afundo sob a superfície da Nascente. Consigo sentir tudo — o Grande Rio, os Nove Afluentes, o balanço da distante Árvore de Raiz-funda. Nossos dois maiores campeões correm para longe de mim, curvando a selva diante deles e repondo-a atrás deles, indo para leste.
O vento açoita as membranas das minhas barbatanas e a fragrância da maré baixa enrola os meus dedos do pé conforme me aproximo do único aluno com quem mais falhei.
Rastreio Kumena rapidamente, simplesmente — uma linha reta de onde estávamos para onde estamos. A imaturidade de Kumena é tão evidente quanto seu ego. Ele é um Moldador poderoso, sim, mas é sem arte, ingênuo, tão impetuoso quanto seu homônimo. Em seu melhor, aqueles escolhidos para portar o nome de Kumena são livres, apaixonados, inclinados à ação. Este Kumena é todas estas coisas, mas com um gume afiado que o torna perigoso. Quando era meu aluno, ele testava cada limite.
Tenho lembranças queridas da maioria de meus alunos, mas minhas lembranças dele estão transbordando de dores de cabeça e ressentimento. Não iria tão longe a ponto de dizer que falhei como mentora, mas sim que tive sucesso apenas o quanto se poderia ter tido. Maturidade não pode ser ensinada; deve ser desenvolvida.
À minha frente estende-se a grande vastidão do oceano. É belo, funesto, evitado — nossas águas preferidas são turvas e doces e sem o sal agressivo da costa. Ele está parado à minha frente, braços erguidos, agitando o céu e as ondas em um turbilhão espumante.
"Podemos conjurar mil tempestades mil vezes, ou podemos erguer uma cidade apenas uma vez", diz Kumena acima do rugido do mar. "Qual é o melhor gasto de nossa energia? Qual é a melhor zeladoria, Tishana?"
"Despertar Orazca não é uma opção."
Subsumo o feitiço dele com magia própria. Minhas ondas puxam os navios inimigos para perto, e minha chuva açoita suas velas.
Repulsa do Rio | Arte de Raymond Swanland
"Não deixarei que você coloque mais vidas em perigo. Não deixarei que você responda a contingências com contingências e a ultrajes com ultrajes."
Sinto-o escorregar para fora do feitiço, dar um passo atrás, olhar adiante com admiração para como minha magia agora faz os navios na distância tombarem como folhas em um rio de águas brancas.
"Você sempre teve mais perícia que eu", diz ele, em voz baixa.
Choco um dos navios contra a lateral de uma coluna de rocha no mar.
"Você se acha mais sábio que seus anciãos", digo eu. "Isso será sua ruína."
"E sua idade será a sua."
Olho por cima do ombro bem a tempo de ver o punho de Kumena atingir meu rosto.
E tudo escurece.
04 de Outubro de 2017 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben
Algo Inteiramente Diferente
Jace passou os dias seguintes em uma névoa feliz. Agradavelmente ocupado e ativo, mas constantemente distraído pelo puro ruído de tudo aquilo.
O Beligerante rangia e gemia enquanto navegava. A tripulação cantava e ria e transmitia ordens. Mas acima, ao redor e dentro de cada som, havia uma corrente subterrânea de conversa.
Mesmo quando seus ouvidos não conseguiam ouvir nada, Jace ainda conseguia ouvir conversas intermináveis.
Tripulação Barulhenta | Arte de Steve Prescott
Era irritante e Jace acabou decidindo que a melhor solução era abafar o ruído com atividade.
Pôs-se a criar um lugar para si entre a tripulação e deliciava-se em aprender novas tarefas e técnicas. Amelia, intendente e uma das duas magas de leme, ficava mais do que feliz em demonstrar. Ela ajustava as velas mestras e as cordas com facilidade mágica e então mudava brevemente de direção com rajadas de vento para desafiar Jace a ajustar o curso.
Intendente Olho-de-boi | Arte de Josh Hass
Kerrigan, o orc corpulento que servia como cozinheiro do navio, mostrou-lhe como manter o fogo da cozinha sem incendiar o navio. Gavven, o patrão de bote, mostrou-lhe o conteúdo do porão do navio (apenas após horas de insistência).
E o tempo todo, Jace dedicava uma hora a cada dia para praticar seus próprios talentos. Ao longo de seu mês no navio, suas ilusões tornaram-se mais detalhadas, mais convincentes.
Cinco dias após o saque bem-sucedido, a tripulação desembarcou em Seco e Esturricado sem necessidade de suprimentos caros. Por ordens da capitã, a tripulação do Beligerante desembarcou para descanso, relaxamento e uma quantidade nada insignificante de folia.
Jace nunca poderia ter imaginado um lugar tão diferente ou emocionante como o que viu ao pisar no cais.
As ruas tabuadas de Seco e Esturricado eram os restos de milhares de navios quebrados da Coalizão Brancal. A própria cidade, construída sobre uma série de plataformas flutuantes, era um terreno neutro onde piratas podiam se encontrar e trocar mercadorias, ferramentas, tesouros e histórias. Era um pequeno império de favores e obrigações, um lugar onde viajantes podiam encontrar o que precisavam, satisfazer seus prazeres e forjar alianças duradouras. Fora dito a Jace que, antes da chegada da Legião do Crepúsculo em Ixalan há dois anos, este fora um lugar intocado pela guerra em Torrezon.
Amelia deu um tapinha no ombro de Jace.
"Jace! Estamos indo para o Porto Ardente para cerveja e cartas! Você vem?"
Jace deu de ombros e sorriu. Sentiu um toque em seu ombro e virou-se para encontrar Breeches, um goblin tão talentoso em dar nós quanto era em gritar. "CERVEJA E CARTAS! CERVEJA E CARTAS!" ele entoava com fervor.
Amelia cutucou o goblin com a perna. "Ei, você me deve do último porto, Breeches, então nada de cantoria ainda."
"CERVEJA E CARTAS!"
A maga de leme balançou o dedo. "Dívida e cerveja e cartas, Breeches."
Breeches parou e puxou duas moedas debaixo do seu chapéu.
"DÍVIDA E CERVEJA E CARTAS!"
Amelia guardou as moedas e assentiu em aprovação.
Vraska aproximou-se e acenou para sua tripulação. "Desculpem, Breeches, Amelia, mas Malcolm e eu precisamos consultar nosso mais novo tripulante."
Amelia e Breeches assentiram em compreensão. Vraska continuou: "Mas nos juntaremos à tripulação mais tarde para as festividades."
Breeches ergueu um punho no ar. "DÍVIDA E CERVEJA E CARTAS E FESTIVIDADES!"
Malcolm esvoaçou para o lado deles, um olhar travesso em seu rosto aviário. "Capitã, Beleren, por aqui, se me permitem."
Disseram adeus e seguiram Malcolm.
A sirena liderou Jace e Vraska por uma das ruas estreitas e meio inclinadas de Seco e Esturricado em direção ao seu boteco favorito. O ar fedia a maré baixa e gaivotas riam nos telhados de zinco. As lojas e tabernas pelas quais passavam fervilhavam com o riso de piratas, e a luz do fogo de lâmpadas de óleo penduradas nos beirais tremeluzia um caminho para eles caminharem.
Malcolm apontou para um edifício comum pendurado na lateral de uma das docas. Uma placa esfarrapada estava pendurada na frente.
Em letras descascadas lia-se "POPA DO PATRÃO DE BOTE".
"É uma joia", disse ele com orgulho açucarado.
Abriu a porta (uma velha mesa de cozinha com uma faca ainda fincada nela) e marchou alegremente em direção ao balcão.
Vraska e Jace o seguiram e encontraram uma mesa. Jace olhou ao redor e ficou impressionado com a estranheza do lugar.
As paredes estavam cobertas de manchas de fumaça, e tristes lamparinas de óleo iluminavam uma série mais triste ainda de mesas apinhadas e cadeiras meio quebradas, cada uma ocupada pelos vilões mais degenerados que se pudesse imaginar. O barman goblin olhou para os recém-chegados com seu único olho restante e cuspiu com força em um chapéu virado para cima.
Patifes Procurados | Arte de Volkan Baga
Vraska deu a Jace um olhar incerto, sem saber o que ele acharia do estabelecimento. "Você está bem com este lugar?"
Jace olhou de volta maravilhado. "É fascinante."
Malcolm chegou com bebidas para os três e cada um levantou um copo em celebração ao seu trabalho em equipe.
No meio da rodada, Vraska tirou uma bússola de seu casaco e a colocou sobre a mesa.
"Você deve saber, Jace, que estamos atualmente engajados em uma tarefa especial."
O coração de Jace saltou. Ele estivera morrendo de vontade de saber o que esta missão envolvia.
"Começou há cerca de cinco meses. Fui contatada por um patrono rico do outro lado do mar, que não faz parte da Legião do Crepúsculo. Seu nome é Lorde Nicolas, e ele me contratou para recuperar um item de grande poder."
Jace pegou a bússola. Não havia marcação para direção, apenas várias agulhas feitas de uma luz laranja tremeluzente que apontavam resolutamente em várias direções — nenhuma das quais era o norte. Entregou-a de volta para Vraska, que continuou com entusiasmo.
"Ele me disse para rumar para o continente de Ixalan." Ela inclinou-se para frente e falou em tom privado. "A bússola taumática está encantada para encontrar um lugar de poder: a cidade esquecida conhecida como Orazca."
Não!
Jace sobressaltou-se e virou-se bruscamente. Ele travou os olhos brevemente com um tritão de barbatanas verdes sentado no lado oposto do bar. O tritão olhou de volta surpreso.
Jace franziu o cenho. Poderia jurar ter ouvido um protesto.
Voltou-se para seus amigos, que olhavam de volta buscando uma explicação.
"Pensei ter ouvido algo. Sinto muito." Entrelaçou as mãos e esperou Vraska continuar.
"Não houve dano algum", disse ela.
Malcolm assentiu. "O objeto que buscamos está em Orazca, e é conhecido como o Sol Imortal. Costumava ser mantido nos monastérios de Torrezon, no reino que eventualmente se tornaria a Legião do Crepúsculo. Por gerações, permaneceu sob a proteção de seus santos guardiões nas montanhas do continente oriental.
"Sua presença dava aos antigos governantes um poder incrível", continuou Malcolm. "Invejas floresceram, e as forças de Pedron, o Perverso, invadiram o monastério onde o Sol Imortal era mantido em segurança e o roubaram. Conforme partiam do santuário, um ser alado desceu do céu. Ele tomou o Sol Imortal, carregando a relíquia através do mar para o oeste. Nenhum ser vivo conhece sua localização exata, mas esta bússola deve nos ajudar."
Vraska terminou sua bebida. "Só não sabemos como."
Jace estendeu a mão e Vraska colocou a bússola em sua palma.
"Ela muda de direção frequentemente. Foi como encontramos você, sabe."
Jace deu-lhe um olhar inexpressivo. "Não sou uma Cidade Dourada."
"Obviamente", ela sorriu. "Mas talvez você consiga descobrir como ela funciona, para não sermos desviados por uma distração novamente."
"Gosto de pensar que também não sou uma distração."
"Não." Vraska tinha um olhar conflituoso nos olhos que Jace não conseguiu identificar bem. "Você é algo inteiramente diferente."
Malcolm tossiu propositalmente. "Eu cuido desta rodada, então. Vejo vocês de volta no navio."
Malcolm retornou ao balcão para pagar, e Jace e Vraska levantaram-se para partir. Jace deu uma última olhada para o tritão no canto, que desviou os olhos bruscamente quando ele passou.
A noite estava quente e densa com o aroma de mercadorias trocadas. O doce aroma de especiarias exóticas pairava no ar, e Jace caminhou de volta pelas ruas de tábuas de madeira em direção ao navio com sua capitã.
"Vraska, você sabe se eu consigo ler mentes?"
A pergunta soou tão estúpida quanto parecia, mas fez Vraska parar no caminho.
Ela soltou um suspiro de duas toneladas. Sua resposta foi silenciosa, mas sua voz era clara na mente dele.
Sim, você consegue.
O queixo de Jace caiu. "Por que você não me disse?!"
Porque eu não queria você sendo rude e lendo minha mente sem perguntar, pensou ela com um olhar cansado.
Ele parou, afastou sua mente dos pensamentos dela e olhou rua abaixo para as dúzias de estranhos em Seco e Esturricado.
Era como se uma corrente em sua mente tivesse se soltado de sua engrenagem e subitamente voltado ao lugar. Os sons e as vozes eram tão óbvios agora.
As pessoas que passavam, os pássaros que voavam no alto — cada um deles tinha uma mente tão frágil e preciosa quanto cristal. Apareciam nos sentidos de sua mente como estruturas requintadas e, se desejasse, sabia que poderia virá-las e inspecionar seu interior como uma estátua feita de vidro soprado.
"Mentes tão delicadas", disse ele, saindo do caminho conforme um pequeno grupo passava por eles na avenida. "Sua estrutura é forma, mas também som. Como uma orquestra contida em cristal."
"Como é ouvi-las?" perguntou Vraska.
Jace não conseguia colocar em palavras.
"É . . . barulhento. Como um mar de taças de champanhe e cada uma delas soando um tom diferente."
Dobraram uma esquina e rumaram para o porto.
Agora que ele estava ciente do que os trechos de voz e conversa eram . . . sentiu que podia desligar o ruído.
Jace concentrou-se.
E as vozes mentais silenciaram.
Ainda conseguia sentir a estrutura diáfana, elaborada, porém quebrável, das mentes pelas quais passava, mas elas estavam silenciosas agora.
"Nada de ler minha mente ou as mentes da minha tripulação", disse Vraska, "mas todo o resto é jogo justo. Exceto nosso empregador, mas acho que ele pode ser um telepata melhor que você."
"Eu o conheço?" Jace perguntou.
Vraska silenciou-se por um momento enquanto caminhavam.
"Não", disse ela finalmente.
"Você hesitou."
Vraska cruzou os braços. "Somos de uma cidade grande."
Distantemente, ele poderia jurar que ouviu o processo de pensamento dela e soube de alguma forma que, na verdade, ela não tinha ideia se eles se conheciam ou não.
A rua por onde caminhavam abria-se para o ar do porto que cercava Seco e Esturricado. As linhas e amarras de dúzias de grandes navios entrecruzavam o céu noturno à frente, e uma lua crescente brilhava prateada acima.
"Como se chama a cidade?" Jace perguntou.
Ele captou o rastro de um sorriso nos lábios dela. "Ravnica."
"E eu era um político lá?"
Vraska riu baixo. "Você era horrível."
"Imagino. Devo ter sido forçado ao trabalho."
Um sorriso astuto repuxou os lábios dela.
"Você não foi forçado a nada. Você teve uma grande campanha!", disse ela. "Panfletos, discursos em palanques, banquetes para arrecadar fundos. 'Jace é o Ás!' era o seu slogan."
Jace estava cético.
"'Jace é o Ás' é um slogan de campanha terrível."
"Pois é. Era totalmente seu."
O ceticismo de Jace aprofundou-se, mas ele sorriu mesmo assim.
Ele propositalmente diminuiu o passo. Não queria chegar ao navio ainda. Vraska acompanhou sua velocidade e o coração dele acelerou um pouco.
"Como era nossa antiga cidade?" Jace perguntou.
Vraska inclinou a cabeça em pensamento. "É massiva. Torres altíssimas e pontes que cruzam camadas e mais camadas de cidade. É mais frio que aqui e neva no inverno."
Jace desejou poder vê-la. Em sua mente, tinha uma vaga impressão e, na periferia de sua visão, sentiu uma imagem dominando a superfície da mente de Vraska e viu.
Jace parou e Vraska parou ao lado dele.
"O que houve?" perguntou ela.
Ele tentou encontrar uma palavra, mas pousou apenas no silêncio. Em vez disso, Jace olhou para cima, com os olhos iluminados, e mostrou a ela.
As estrelas acima mudaram de posição.
A lua começou a minguar e moveu-se para o outro lado do horizonte.
Os navios cresceram, revestiram-se de pedra escura, e seus mastros e postes alcançaram o céu até ficarem altos como torres, com pináculos que arranhavam as estrelas. Os edifícios precários de Seco e Esturricado estrondaram uns contra os outros e ergueram-se para formar basílicas e catedrais, arcos ogivais e abóbadas nervuradas.
Flocos fofos e gentis começaram a cair de um céu cinza como lã.
Planície | Arte de Eric Deschamps
"É isto?" Jace perguntou, voz quieta como a neve.
A resposta de Vraska foi igualmente suave. "Sim. Isto é Ravnica."
Jace sorriu e observou a neve cair. Olhou para Vraska e viu-a encarando para cima maravilhada.
Ela cruzou os braços firmemente à sua frente. Sua guarda estava erguida.
"Você estava projetando isso alto", disse ele, "peço desculpas por ouvir sem querer."
"Apenas não faça de novo", disse ela asperamente, com o olhar ainda travado na majestade da cidade-ilusão ao redor deles. A acerbidade de seu aviso não condizia com o olhar triste de saudade de casa pesado em seus olhos.
Exigiu cada gota do autocontrole de Jace não tocar a mente dela para ver o que estava sentindo.
"Eu gostaria de poder lembrá-la", disse Jace. "Parece o melhor lugar do mundo."
"É o melhor lugar em todos os mundos", murmurou Vraska.
Jace suspirou. Melhor não encarar uma ilusão por muito tempo.
Fez a paisagem urbana desaparecer, observando as torres dissolverem-se de volta em grandes navios e os edifícios colapsarem de volta em barracos.
A ilusão sumiu. Mas o olhar de maravilha guardada no rosto de Vraska permaneceu.
Ela era linda.
E então, à sua maneira, Jace disse a ela.
"Você me ensinará mais sobre Ravnica?" perguntou ele.
Ela virou-se, ainda de braços cruzados, a boca em uma linha firme.
Retornaram a um navio vazio e sentaram-se no convés em cadeiras que Vraska arrastara de seus aposentos. Falaram brevemente de voltar à cidade para "dívida e cerveja e cartas e festividades", mas decidiram que a combinação soava um tanto avassaladora e optaram por ficar em casa.
Jace aprendera até agora a não pressionar por respostas, mas o impulso nunca realmente ia embora. Havia tanto que ele não sabia, e ansiava por qualquer coisa que pudesse lhe dar uma pista sobre seu passado.
Vraska recostou-se em sua cadeira luxuosa e colocou os pés na amurada do navio. Jace puxou sua própria cadeira para o lado da dela e fez o mesmo.
"Então, como é saber que você é um telepata?" perguntou ela, encarando as estrelas.
"Perceber que sou um ilusionista foi encantador. Telepatia tem mais . . . dentes."
"Dentes?"
Jace cruzou os braços e encarou o céu acima. "Mentes são absurdamente delicadas. Tudo o que faz uma pessoa quem ela é é tão frágil quanto uma teia de aranha."
"Você é uma marreta cercada por teias de aranha", disse ela sem rodeios. "Você percebe isso, certo?"
"Uma maldita marreta", refletiu Jace, um pequeno vazio de pavor abrindo-se em suas entranhas.
Vraska riu baixo. Foi a primeira vez que ela o ouviu praguejar.
Pela primeira vez desde que chegara, uma meia memória coçava para vir à tona.
Um leão massivo com rosto de homem, olhos arregalados de horror, lamentando como um bebê no chão chuvoso enquanto arquejava por ar e suas asas batiam debilmente no solo.
Aquilo assustou Jace.
Um sonho? Uma impressão? Não importava. Não parecia real. Uma expressão aleatória de imaginação para guardar para si mesmo.
"Pergunto-me quantas mentes já quebrei antes", disse ele em voz alta.
Vraska subitamente imobilizou-se.
O fôlego de Jace parou no peito.
"Vraska . . . você sabe se eu já fiz isso?"
Olhou para ela. Seus olhos olhavam para cima, seus lábios em uma linha firme.
Ela respirou fundo. Jace explicitamente não se permitira ler a mente dela, mas quase conseguia senti-la girando em torno de um sentimento antigo e assustador.
"Você poderia se redimir se tivesse feito?" ela perguntou em resposta.
A pergunta foi cautelosa, atipicamente pequena para alguém tão audaz.
Jace ficou surpreso.
"Arruinar uma mente é entregar um destino pior que a morte, imagino", disse ele. "Você está perguntando se há redenção para aqueles que matam."
"Suponho que sim."
Jace escolheu suas palavras com cuidado.
"Existência é adaptação a circunstâncias que mudam. O eu é um acúmulo do que se aprendeu com essas circunstâncias mutáveis . . . Nossa agência nos dá os meios para alterar nosso próprio caminho. Você é quem você decide ser. E quem você se tornará depende apenas de como você escolhe se adaptar."
Jace percebeu que Vraska o estivera observando.
Sentiu seu rosto corar e ficou grato por seu rubor não aparecer sob a luz das estrelas.
As ondas batiam contra a lateral do navio.
"Seu passado é verdadeiramente tão sem importância?" perguntou ela.
Jace deu de ombros. "Tem que ser. Se eu posso fazer o que acho que posso, já feri muita gente. Mas é o futuro que me faz quem eu sou, porque minhas escolhas influenciarão quem eu me tornarei."
Vraska ficou muito quieta.
O silêncio não incomodou Jace. Decidira que conversa fiada era um ritual social em grande parte superestimado, o que tornava ainda mais adorável passar tempo com alguém que abraçava os silêncios naturais de uma boa conversa.
"Eu gostaria de poder esquecer como você esqueceu", disse Vraska, em voz baixa e pequena.
"O que você gostaria de poder esquecer?" perguntou Jace.
O olhar de Vraska estava distante, travado no horizonte.
Jace soube imediatamente que dissera tanto a coisa errada quanto a certa.
Sua resposta foi ríspida. "Prisões."
Prisões no plural. O olhar de Vraska estava distante. Ela claramente não desejava revisitar as memórias que ele despertara.
Ele levantou-se, mas Vraska permaneceu imóvel em seu assento.
Jace foi atingido por uma ideia.
"Vamos para a cozinha", disse ele.
Jace liderou Vraska para fora do convés e desceu a escada para a cozinha. Fez sinal para ela sentar em um banco próximo e jogou alguns troncos nas brasas do fogo da cozinha. Pegou a chaleira de seu lugar no armário, encheu-a com água fresca e a colocou no fogão.
Ele fez chá para ela.
Foi desajeitado e levou um momento, mas Jace o fez na ordem precisamente correta.
Despejou o produto final em uma caneca e a entregou a Vraska.
Ela sentou-se por um momento e olhou para o chá como se Jace tivesse lhe dado uma joia preciosa.
Vraska envolveu os dedos ao redor da caneca e soltou o ar. Deu um pequeno gole, e Jace viu seus lábios contraírem-se em aprovação.
Ela ainda olhava para a xícara com admiração.
Após um momento, ela falou.
"Viemos de uma cidade distante." Vraska entrelaçou os dedos atrás dos tentáculos em sua cabeça. "Muito distante. O restante da tripulação nunca ouviu falar dela."
Jace fez o melhor que pôde para não fazer seis perguntas de uma vez. Pousou na mais premente. "Por que não ouviram falar dela?"
"É assim tão longe." Ela olhou brevemente para ele. "Você vai ter que apenas confiar em mim nesta."
Há mais aí, mas tudo bem. Jace assentiu, e Vraska continuou.
"A cidade funciona como cidades funcionam, e guildas diferentes são encarregadas de funções diferentes. Os Orzhov cuidam do banco, os Azorius fazem as leis, e assim por diante. Existem dez guildas no total. Os Golgari tecnicamente cuidam de resíduos e fazendas de podridão, mas é na verdade um refúgio para aqueles que caem pelas frestas. Párias e patifes e tudo o mais.
Portão da Guilda Golgari | Arte de Eyatan Zana
"Quando eu era muito mais jovem, os Azorius emitiram um mandado de prisão em massa para membros da guilda Golgari. Os Golgari não haviam feito nada; eles simplesmente existiam, e os Azorius decidiram que eram criminosos. Assumiram que eu era Golgari porque eu era uma górgona, e me prenderam também. Enfiaram-nos em uma prisão. Estive lá por . . . um tempo. Não tenho certeza de quanto. Os Azorius faziam piada que vivíamos no subsolo como toupeiras, então por que precisaríamos de janelas para ver o sol? Não havia camas, pouca comida. Violência era nossa ferramenta de negociação, e oh. Como eu gostaria que tivesse sido eu a liderar aquelas revoltas. Nós nos amotinaríamos e eles nos mudariam de lugar, depois nos machucariam. Motim, mudança, ferimento: era um ciclo sem fim e, eventualmente, mantiveram uma venda em mim para que eu não pudesse petrificar meus captores."
Jace odiou tudo naquilo. Não havia nada que ele pudesse consertar. Por mais que odiasse, não havia lógica no trauma. Não sabia, se estivesse na posição dela, a que conclusão chegaria para dar paz à sua mente, que teorias contaria a si mesmo para arrazoar seu caminho até o conforto.
Os olhos dourados de Vraska tinham um olhar distante. "Você perde a noção do tempo em um lugar como aquele. Eventualmente me levaram dali. Trancafiaram-me sozinha em uma sala sem catre e com água até os tornozelos. Os espancamentos continuaram e quaisquer feridas que deixassem federiam com infecção por semanas após o fato. Quando eventualmente tiraram a venda, pensei em tentar me petrificar para fazer aquilo parar. Mas eu queria sair mais do que queria terminar."
Jace sentiu-se mal. Não a interrogou, nem exigiu provas, nem pediu clareza. Agora não era o momento. Seu trabalho era ouvir.
Vraska fazia o melhor que podia para não fazer contato visual.
"Lembro da noite em que quase morri. Estava ensanguentada e quebrada, e sabia que mais um golpe na cabeça acabaria comigo. Meu corpo soube o que fazer e usei uma magia que nunca usara antes para escapar. Mas o lugar para onde escapei era uma prisão também. Estive presa lá, sozinha, por bastante tempo. Apenas eu e todas as minhas memórias da fonte de toda aquela crueldade."
Vraska terminara seu chá. Alguns pedaços de folha estavam grudados no interior de sua xícara. "'Uma pessoa deve morrer a morte que merece'. Vivi por aquelas palavras por bastante tempo. Elas me deram conforto."
"Ainda dão?" Jace perguntou.
A boca de Vraska era uma linha dura. "Sim."
Sentaram-se em silêncio por um momento.
"A parte que ainda não descobri é se todos eles merecem morrer", disse Vraska depois de algum tempo. "Minha magia pode residir na morte, mas não tenho prazer em matar. Antes, eu o fazia porque não tinha outra escolha. Agora tenho que fazer o que é certo para outros como eu."
"Liderando uma expedição?"
"Não", disse ela. "Liderando os Golgari quando eu chegar em casa. Nosso empregador me prometeu o cargo de líder de guilda em meu retorno."
Jace sorriu. "Você já provou que tem o que é preciso. Os melhores líderes entendem as comunidades que estão tentando proteger. Acho que você estava destinada a ser uma grande líder."
Vraska pareceu estranhamente triste com aquilo.
"Vraska . . . ?"
"Ninguém nunca me disse isso antes."
Como ela não conseguia ver o que já realizara? Jace franziu o cenho. "Você acha que não merece?"
Ela suspirou. "Não sei como os Golgari me verão quando eu retornar."
Jace deu de ombros. "Você decide como eles a verão."
Ela olhou para ele com incerteza. Jace continuou. "Como nos envolvemos com o mundo depende de como nos apresentamos a ele. Estamos continuamente nos ajustando à mudança porque, se falharmos em mudar, falhamos em sobreviver. Pela natureza de você ter sobrevivido ao inferno que passou, você mudou para alguém mais sábia que antes. Pela natureza de você comandar este navio, você se transformou na líder que sempre soube que poderia ser.
"O que faz de você você não são suas circunstâncias ou seu passado, mas as escolhas que você faz no futuro. Sua habilidade de aprender e se adaptar é o que faz de você quem você é hoje, e isso é o que dita quem você continuará a se tornar. Vraska, sua maior vingança é o fato de que não apenas você está viva, mas reinventou-se em alguém mais forte do que seus captores jamais pensaram ser possível. Você percebe quão incrível isso é?"
Vraska sorria um pequeno sorriso atipicamente tímido. Ele alcançava os vincos de seus olhos.
"Obrigada", disse ela suavemente.
Jace sorriu de volta. "É verdade. Ter passado por tudo aquilo e saído do outro lado é algo que duvido que eu pudesse ter feito."
"Não sei", respondeu Vraska. "Não é óbvio a princípio, mas acho que você tem mais fibra do que se dá crédito."
"Mesmo que tenha, esqueci quando a demonstrei." Jace deu-lhe um olhar sério. "Obrigado por compartilhar sua história comigo. Tenho orgulho de conhecê-la."
Ele viu o contorno da mente dela, mas não ousou espiar para dentro. Eram curvas e recantos e redemoinhos de delicados fios vítreos. Vraska não tinha ideia de quão frágil sua mente era, assim como ele não tinha conceito de quão facilmente ela poderia transformá-lo em pedra.
Vraska abriu um sorriso largo. Jace sentiu suas bochechas aquecerem.
Ambos perceberam no exato momento que nenhum deles queria ferir o outro.
O sorriso dela era sincero e aberto. "Também tenho orgulho de conhecê-lo, Jace."
As semanas passaram agradavelmente para a tripulação e, quanto mais o Beligerante aproximava-se do continente, mais excitados eles ficavam.
A história de Vraska ainda corria pela mente de Jace. Ele fizera outra xícara de chá para ela naquela noite e falaram de coisas mais felizes. Ela confiara nele o suficiente para contar aquela história. Aquela confiança aquecia o peito de Jace como uísque.
Aquele calor suave impeliu-o a desvendar o mistério da bússola taumática o mais rápido possível.
Por semanas ele a encarou, folheou livros de navegação e testou a paciência de Malcolm para coletar informações. Eventualmente chegou a uma percepção: se a bússola mudara de direção no dia em que fora resgatado, devia ter reagido a alguma forma de estímulo perto dele. E houvera apenas uma coisa memorável que acontecera nas horas antes de ser resgatado.
Certa tarde, horas antes de chegarem a terra firme, Jace pegou a bússola em mãos e dirigiu-se à carceragem. Fedia e havia água até os tornozelos. Mas ele precisava de privacidade.
O navio começou a balançar de um lado para o outro. Pensou que o mar devia ter ficado tempestuoso desde que descera.
A bússola taumática estava provando ser mais envolvente do que inicialmente esperado. Era uma coisa tão complicada, com várias luzes apontando em várias direções diferentes.
Bússola Taumática | Arte de Yeong-Hao Han
Ele a sacudiu um pouco e uma das luzes tremeluziu.
Um mau funcionamento? Um quebra-cabeça!
Era intrigante o suficiente para Jace decidir fazer algo imprudente.
Pegou uma pequena ferramenta de um caixote de armazenamento próximo e começou a desmontar o único dispositivo de que sua expedição mais precisava.
Foi fácil, como o telescópio várias semanas antes. Ele o dispôs peça por peça, montando uma grade simples de componentes conforme trabalhava para o interior. No centro da bússola viu uma pequena engrenagem solta em seu eixo. Ele a apertou e então remontou a bússola.
Uma única luz brilhava de um dos lados agora, radiante e clara em uma única direção.
E agora, para o teste mais importante.
Jace colocou a bússola sobre um caixote plano, fechou os olhos e concentrou-se.
Buscou no fundo de sua mente aquela parte estranha de si mesmo que fazia dele ele.
Respirou fundo e a alcançou.
E sentiu seu corpo partir-se em pedaços e para longe e chocar-se de volta, com o triângulo familiar aparecendo acima de sua cabeça mais uma vez.
Jace piscou, levemente atordoado, e olhou para a bússola com antecipação. Quase gritou de alegria. A agulha apontava diretamente para ele.
Sua teoria era a seguinte: a bússola taumática funcionava apontando para um tipo muito específico de expressão mágica. Pequenas ilusões não moviam a agulha, mas o que quer que fosse que Jace conseguia fazer (com esforço) sim.
Se sua teoria fosse verdadeira, então a Cidade Dourada teria que ser um centro massivo de energia mágica — e esta bússola apontaria diretamente para sua fonte.
Maravilhoso!
Jace recolheu a bússola taumática e apressou-se para fora da carceragem e subiu dois conjuntos de escadas para o convés.
"Vraska! Eu entendi a bússola!" O grito de Jace foi abafado por um estrondo súbito de trovão na distância. O céu era de um cinza furioso e a tripulação corria para se preparar para uma tempestade.
Vraska estava no topo do convés de popa, encarando para cima. Malcolm estava lá no alto, conseguindo uma visão melhor de algo na distância. Ele mergulhou de volta e conferenciou com Vraska.
Jace não quis interromper, então esperou por uma chance de perguntar o que estava acontecendo.
Um momento depois, Vraska o avistou.
"Jace! Vá para baixo do convés. Um navio da Legião do Crepúsculo está se aproximando e há uma tempestade à frente."
"Pensei que fôssemos chegar a terra firme hoje?"
"Sim. Isso também. Todas essas três coisas. Preciso garantir que não aconteçam ao mesmo tempo."
Subitamente o céu se abriu e uma chuva torrencial começou a cair em lençóis sobre o convés do Beligerante. Vraska agarrou os ombros de Jace. "Vá para baixo do convés!"
Relâmpagos caíram e o navio guinou violentamente para o lado.
Uma onda subiu alto na distância e Jace viu o navio da Legião do Crepúsculo deslizando sobre a água. Era massivo, maior até que o de várias semanas atrás, com dois botes suspensos de cada lado.
A onda em que o Beligerante navegava subiu por sua vez e Jace olhou para a distância para uma parede massiva de verde. As margens de Ixalan estavam ali, uma baía intocada cercada por areia que levava a um grande afloramento projetando-se no mar. Nuvens escuras revolviam-se no céu e ondas cada vez maiores ameaçavam virar o navio.
Arriscar relâmpagos e conquistadores, ou chocar-se contra as rochas na costa. Estavam presos entre duas opções desfavoráveis.
Jace enfiou a bússola na segurança de seu bolso enquanto Vraska gritava ordens.
"Prendam os canhões e apaguem o fogo da cozinha! Colher a vela mestra e pôr à capa!"
O navio sacudiu mais uma vez e um tripulante caiu no mar.
Jace observou enquanto Vraska pesava suas opções. Ela olhou para a margem e então para o restante da tripulação.
"Abandonar navio!", gritou ela, "Abandonar — "
Uma parede de água subiu pela lateral do navio e chocou-se contra Jace e Vraska.
Eles tentaram agarrar um ao outro conforme a água começava a varrê-los do convés.
E o Beligerante chocou-se contra as rochas.
Repulsa do Rio | Arte de Raymond Swanland
11 de Outubro de 2017 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben
A Corrida, Parte 1
Adanto, o Primeiro Forte | Arte de Svetlin Velinov
A guarnição no Forte Adanto acostumara-se com ataques regulares, tempestades violentas e todo tipo de desagradabilidade das terras selvagens ao seu redor, mas nunca poderiam saber quem tropeçaria em sua barricada altiva vindo da costa.
Guardas e sacerdotes igualmente espreitavam sobre os muros altos e espessos do Forte para a figura encolhida e de aparência ensandecida lá embaixo. Era um hierofante, um clérigo vampiro, coberto de areia e com as bochechas encovadas pela fome. Seus olhos eram selvagens e sua barba era áspera com a ambivalência de um louco. Ele berrou para cima, para os rostos que o observavam: "Conquistei as ondas e a própria morte, louvada seja Santa Elenda!"
Os guardas entreolharam-se incertos. O homem lá embaixo rasgara sua túnica e caíra de joelhos, com as mãos de unhas compridas unidas em bênção. Suas orações eram altas, ausentes de qualquer autoconsciência. Os guardas mortais recuaram em desconforto — quem quer que fosse aquele, perdera-se para o Jejum de Sangue.
"Milagres maravilhosos! Artérias vazias e línguas ávidas, ela nos deu vida! Alegrem-se, seus tolos mornos!"
Os guardas humanos não ousaram abrir a porta. Um vampiro no meio do Jejum de Sangue era tremendamente perigoso. Um perdido para si mesmo não seria capaz de discernir entre o sangue dos fiéis e o sangue de um pecador. Em vez disso, um dos guardas buscou uma sacerdotisa para ajudar.
O vampiro faminto fora do forte tornou-se mais fervoroso em sua oração. "Abandonei o sustento para me aproximar da abençoada Santa Elenda, e aqui estou!"
Enfiou a mão em uma bolsa mofada pendurada ao seu lado e atirou uma confusão de metal no chão. Os guardas conseguiram distinguir um sextante esmagado, uma bússola quebrada e um conjunto de outras ferramentas de navegação arruinadas.
"EU SABIA QUE NÃO PRECISÁVAMOS DESTAS FERRAMENTAS DE ENGANO!", gritou o vampiro. "Minha fé em Elenda nos trouxe aqui!"
A sacerdotisa do Forte Adanto chegara à porta. Chamou através da madeira espessa para o vampiro do outro lado. "Nenhum navio chegou hoje. Que embarcação o trouxe aqui?"
"A flutuabilidade sacrossanta da fé inviolável!", uivou o vampiro. "O melhor navio da Legião do Crepúsculo! Cheguei no Coragem de Sua Majestade!"
A sacerdotisa vampira arregaçou as mangas e assentiu para os guardas abrirem o portão. Os guardas ergueram as trancas e puxaram as correntes maciças da porta, e o vampiro faminto tropeçou para dentro.
A sacerdotisa arquejou. "Hierofante Mavren Fein?"
"Santa Elenda foi a primeira!", delirou Mavren Fein. "Seu sacrifício é nossa sobrevivência, seu desprendimento o modelo do nosso sucesso! Tomei o rito há duzentos anos e, sob a orientação de Santa Elenda a Primeira, encontraremos o caminho para a imortalidade sem a necessidade de sangue!"
A sacerdotisa estava ajoelhada agora, recolhendo as peças quebradas do equipamento de Fein. Olhou para Mavren Fein com choque. "Eram estas as ferramentas de navegação do seu navio?"
"Eu sabia que não precisávamos delas!", Mavren Fein cuspiu em resposta.
Ele imobilizou-se, subitamente farejando o ar, e olhou para os guardas no topo dos muros do Forte.
Os guardas recuaram da borda, mas não rápido o suficiente.
Mavren Fein sibilou e correu em direção à parede com os olhos fixos nos humanos acima. Começou a escalar as laterais do Forte Adanto, pedaços de madeira voando em lascas denteadas enquanto ele subia ferozmente. Seu rosto era uma máscara terrível, dentes à mostra e olhos arregalados. Ele rosnou e subiu apressado, agarrando o guarda humano mais próximo com unhas afiadas como facas.
O homem gritou em surpresa e Mavren Fein mordeu loucamente a cobertura de metal entre a mandíbula e a clavícula do guarda. Embora ninguém pudesse reagir a tempo de parar o vampiro louco de sangue, o ataque foi em vão — seus dentes não conseguiram perfurar a armadura antes que os outros guardas corressem para frente, chutando-o para fora da borda. Ele atingiu o chão com um baque e, em um momento, a sacerdotisa do Forte Adanto estava sobre ele, prendendo-o ao chão para evitar outro surto.
"Sua piedade é aparente, Mavren Fein", a sacerdotisa grunhiu com esforço, "mas seu Jejum de Sangue deve terminar se deseja permanecer no Forte Adanto. Quebre seu Jejum de Sangue, Hierofante. Sua reverência é manifesta, mas sua missão exigirá sua plena consciência."
A sacerdotisa levantou Mavren Fein e começou a conduzi-lo em direção às celas da prisão.
Clériga Inspiradora | Arte de Randy Gallegos
A Legião do Crepúsculo tinha pouco uso para prisões de longo prazo, mas celas de detenção temporária eram necessárias para recuperar a saúde plena dos prisioneiros antes da sentença.
Mavren Fein foi levado para os porões sob a igreja no centro do Forte. As paredes eram de terra revestida de madeira e iluminadas com delicadas lâmpadas de óleo. A sacerdotisa abriu uma porta de ferro ao final e guiou Mavren para dentro. Os ruídos de um único homem ganindo escapavam pela fresta entre as paredes.
"Manuel matou um compatriota em uma briga por um jogo de cartas", a sacerdotisa disse a Mavren Fein, apontando para a cela ao lado. "Ele será quem quebrará o seu jejum ao anoitecer de hoje. Prepararei o necessário para a cerimônia."
A sacerdotisa fechou e trancou a porta, e partiu para o andar de cima.
Mavren vagava pelo perímetro de sua cela, estômago roncando e dentes batendo de excitação.
"Você conhece Santa Elenda, criminoso?" perguntou ele através da parede.
Um ganido foi ouvido do outro lado. Mavren Fein fechou os olhos e ergueu as mãos.
"Santa Elenda, a mais devota dos devotos, a Primeira e a Fiel. Ela nasceu mortal, uma freira guerreira encarregada com seus irmãos e irmãs de fé de guardar o Sol Imortal nas montanhas de Torrezon. Escute!"
O ganido tornou-se um guincho.
"Pedron, o Perverso, matou a todos eles. Culpado, ganancioso, traidor imundo dos seus próprios!", Mavren cuspiu. "Mas ela, ela sobreviveu; ela tinha quase três metros de altura! Cabelo como as asas de um corvo e unhas como o gume de um relâmpago! Ela correu para fora para lutar contra Pedron, mas o Sol Imortal fora roubado do vilão por uma besta alada no céu!"
Os ganidos ao lado pararam. Manuel aparentemente estava ouvindo.
"A besta levou o Sol Imortal para o oeste, e Santa Elenda a seguiu! Piedade inabalável! Bendita Santa Elenda!"
" . . . Como ela se tornou a primeira vampira?" Manuel murmurou da cela adjacente. Ele guinchou quando Mavren Fein chocou seu corpo contra a parede divisória.
"Ela foi um gênio! Foi uma visionária! Voltou-se para a magia negra e assumiu o fardo da imortalidade até que o Sol Imortal pudesse ser recuperado mais uma vez! Bendita maravilhosa brilhante Santa Elenda, a Primeira e a Fiel. Ela procurou por séculos e retornou, sim, retornou a Torrezon, e ensinou seu Rito aos nobres para que pudéssemos assumir o sacrifício e nos juntarmos a ela em sua busca. Gênio! Visionária! Abençoada pela própria Noite!"
Mavren Fein raspou as unhas ao longo da parede de madeira.
"Fui um dos primeiros. Assisti enquanto ela navegava de volta para o oeste e esperei pelo meu dia de segui-la. Paciente paciente paciente. Sou muito bom em esperar."
Mavren Fein silenciou-se. O único ruído era o da respiração pesada de Manuel vindo da cela adjacente.
O vampiro ajoelhou-se, mãos tremendo com a mania do Jejum de Sangue.
Ele enfiou os dedos sob a fresta das paredes que o separavam do humano.
E Manuel gritou.
Em um movimento, Mavren Fein puxou de volta e arrancou a parede de seus apoios. Rasgou as tábuas de madeira, mergulhando através das tábuas quebradas sobre sua presa.
Um fôlego depois, seus dentes estavam no pescoço do criminoso, e o cheiro metálico de sangue preencheu o ar.
Mavren Fein consumiu com abandono.
Alarmados pelo ruído súbito, a sacerdotisa e os guardas correram para as celas e pararam diante da visão à frente. Observaram reverentemente enquanto Mavren Fein banqueteava-se. O vampirismo era uma maldição, um fardo colocado sobre si mesmo para o bem maior. A condição deste vampiro era autoimposta, triste, mas necessária. O que era deles não seria devolvido sem sacrifícios como o dele.
Mavren Fein arquejou e limpou a boca com a manga. A autoconsciência retornara ao seu rosto e seu corpo imobilizou-se.
"Sacerdotisa, diga-me seu nome." Sua voz era calma e comedida. O oposto completo do vampiro que delirava e berrava antes.
"Mardia", disse a Sacerdotisa. Ela baixou a cabeça. "Sinto muito por não ter sido capaz de realizar a cerimônia completa para a quebra do Jejum de Sangue — "
"Está tudo bem, piedosa Mardia", disse Mavren Fein. Ele terminou de se limpar e ficou de pé com as mãos unidas à frente. "Minhas desculpas pela bagunça que fiz."
"O restante da sua tripulação está morto, então?" Mardia perguntou. Suas mãos rapidamente fizeram um sinal de bênção.
Mavren suspirou e assentiu. "Sim. Encalhamos quando os instrumentos de navegação foram destruídos. Uma pena. Mas pretendo continuar nossa missão da mesma forma."
"Que recursos podemos lhe fornecer, Hierofante?"
Mavren Fein sorriu gentilmente. "Uma muda de roupas. Um cajado. Não tenho necessidade de uma bússola."
Vona de Iedo, Ceifadora de Pecadores, Açougueira de Magan, ganhara sua reputação através de séculos de guerra. As Guerras Apostasinas forneceram entretenimento suficiente para garantir que sua espada estivesse sempre úmida — e sua sede sempre saciada. Reino após reino no continente de Torrezon caiu perante a Igreja e a Coroa unificadas, e Vona deliciava-se com cada conquista.
E agora, no convés de seu navio, aproximava-se ansiosamente do navio da Coalizão Brancal no horizonte.
O maior dia da vida de Vona foi, naturalmente, o dia de seu segundo nascimento, passado ajoelhada em uma igreja, operando o feitiço que vincularia sua vida para servir à coroa e à igreja perpetuamente. Pensava frequentemente naquele primeiro gosto do sangue de um herético e no voto que fizera ao conjurar o feitiço: "Nossa sede será nossa penitência. Nosso serviço será nossas vidas. Agora e para todo o sempre, o sangue dos culpados nos sustentará até descobrirmos a verdadeira imortalidade." Vona lembrava-se do ímpeto da nova vida, da pontada de fome em suas entranhas. Seus dons eram incríveis; conseguia caminhar com o silêncio de um predador e matar com a mesma perícia. Nunca tivera medo de caminhar sozinha à noite, pois a alma da noite batia em seu coração, corria em seu sangue. Por que diabos a igreja algum dia iria querer parar de ter sede de sangue?
Ela guardava aquela opinião para si mesma ao longo dos séculos, é claro. Quando Torrezon esteve finalmente sob o controle da Legião do Crepúsculo, Vona teve dificuldade em fazer a transição para um estilo de vida pacífico. Tornara-se uma nobre com terras próprias, mas o território era pobre e rochoso, e tornou-se rapidamente aparente que ela não era uma administradora capaz. Seu tédio durou uma década. Certa noite, em um acesso de tédio, decidiu quebrar a monotonia. Foi divertido, mundano como uma brincadeira de criança, uma maneira rápida de passar o tempo. Espreitou cada um de seus servos humanos em suas camas e em seus campos e, ao longo de uma semana feliz, matou cada um deles como parte de um jogo agradável. Vona regozijou-se com o esporte daquilo e abandonou sua humilde propriedade.
Isso fora há cinquenta anos.
Assim que a Rainha Miralda anunciara que estava montando uma frota para viajar em busca de Santa Elenda — A Santa Elenda! — Vona voluntariara-se para liderar o primeiro navio que partisse do porto. Estava com sede. Muita sede. Fosse sua presa culpada ou não, ela teria sua dose pelo caminho.
Só funcionava se ela não contasse a ninguém o quanto se importava pouco com as regras que a vinculavam. O segredo mantinha a coisa emocionante.
Dreadnought da Legião do Crepúsculo | Arte de Titus Lunter
E agora, um navio da Coalizão Brancal estava na mira de Vona.
Vona estava na proa de seu navio, olhando sobre o mar com olhos aguçados e inumanos. Sua missão agora mantinha aquela mesma excitação, mantinha o tédio à distância.
O Beligerante estava rabiscado em sua lateral, e a tripulação daquele navio estava distraída com a margem à frente. Uma sirena voando alto acima do mastro já avistara o navio de Vona, mas eram um pequeno ponto contra um céu que escurecia rapidamente.
Vona estava com fome e, pela natureza de suas alianças, o Beligerante estava cheio de traidores culpados prontos para consumo. Abordar o navio pirata era irônico, mas necessário para mantê-la saciada.
Uma onda súbita inclinou o navio violentamente para frente e Vona agarrou a amurada para recuperar o equilíbrio.
"De onde veio esta tempestade?!" gritou ela para o seu navegador.
O humano apontou seu sextante em direção à margem. "Deve ter sido invocada! Os Arautos do Rio de Ixalan são famosos por seus elementais — "
"Não me importa pelo que são famosos! Foque no navio da Coalizão Brancal — estamos quase perto o suficiente para abordá-los!"
Vona observou enquanto seu sacerdote erguia o cajado no ar, conjurando uma fumaça negra e revolta que engoliu o navio deles. O Beligerante estava tentadoramente perto (e, céus, Vona estava faminta).
Mas o céu mudara de um cinza chuvoso para um negro furioso e o mar ergueu o navio de Vona bem alto para encontrar a crista de suas ondas antes de despencar de volta. Tripulantes trabalhavam para erguer as velas e virar o navio contra o vento, mas as ondas incessantes ameaçavam virar a todos eles.
Vona viu a linha branca onde a praia encontrava um afloramento de rochas. Seus olhos arregalaram-se e ela os apertou com força no exato momento em que seu navio chocou-se contra a lateral da coluna de rocha.
Caiu ao mar e tombou pelas ondas, com o corpo frouxo como uma boneca de pano no violento empurra e puxa do mar e, eventualmente, ela subiu à superfície.
Liquidar os Destroços | Arte de Dimitar
Atrás dela estava o naufrágio de seu navio, ao seu redor estavam os corpos de sua tripulação pontilhando o branco severo da areia intocada e, à sua frente, havia uma parede de selva densa e escura.
Vona tropeçou para frente através do raso que chegava à cintura e sentiu o pé escorregar nas rochas abaixo antes de encontrar apoio.
Caminhou pela praia e tropeçou em pedaços de madeira quebrada emaranhados entre algas encalhadas. O respingar atrás dela sinalizava que ela não era a única sobrevivente e, de fato, alguns membros maltrapilhos de sua tripulação estavam arquejando e caminhando com dificuldade ao seu lado. Importavam no sentido de que estranhos em um mercado importavam — estavam vivos e tinham seus focos e seus propósitos e suas tarefas, mas sua função era periférica à dela.
A tripulação de Vona era um meio para um fim. Haviam alcançado as margens de Ixalan e haviam, assim, atingido seu fim. Mas a dela? Seu propósito era um tocado pela divindade e entregue pela própria rainha.
Um sentimento antigo agitou-se em seu coração. Vona de Iedo, Açougueira de Magan, estava agora mais perto de Santa Elenda do que jamais estivera em sua vida.
Um sorriso bárbaro espalhou-se pelos planos de seu rosto. Finalmente.
Caminhou metade do tempo, nadou na outra metade, saindo do raso. Alguns de sua tripulação pediam ajuda ou batiam pateticamente nas ondas, mas Vona os ignorou. Ela e sua tripulação vinham perseguindo a embarcação da Coalizão Brancal por dias. Vona instruíra seu navegador a preparar a abordagem para alimentar os vampiros em preparação para a expedição terrestre à frente. Seus parentes precisariam de força, afinal. Agora, conforme Vona olhava para o navio pirata que jazia encalhado ao lado do seu, compreendia que aquilo era serendipidade.
Vona estava exultante. Se os rumores forem verdadeiros, então a estrangeira que porta a bússola é a sua capitã.
A vampira parou e pesou suas opções. Poderia esperar pela líder surgir . . . ou poderia emboscar a capitã no meio da selva. O sorriso de Vona retornou. Fazia tempo demais desde sua última caçada.
Alguns piratas tombaram na praia atrás dela. Vona farejou o ar.
Um homem, maltrapilho pelo trauma, sentava-se embalando um braço recém-quebrado na areia. Suas roupas traziam os trapos típicos de um indigente da Coalizão Brancal e seu rosto era vincado como linho amassado. Ele travou os olhos com Vona e caiu para trás na areia, empurrando-se cada vez mais para longe com pernas cansadas.
"Por favor, não! Não sou um criminoso!"
Vona caminhou para frente e olhou o pirata de cima. "Você reconhece a soberania da Rainha Miralda?"
"S — sim! Reconheço!"
A vampira desdenhou. "Então você deveria saber o que sua majestade pensa de mentirosos. Considero-o culpado de engano e um criminoso aos olhos da Igreja."
Um borrão de ruído e areia pontuou seu decreto e Vona silenciou eficientemente o grito que emergia da garganta do pirata.
Bebeu avidamente e sentiu o sangue do pecador enchê-la de propósito justo. Distantemente, sabia que estava fazendo uma bagunça, mas aquilo não a incomodava. O mar levaria sua desordem.
A vampira arquejou com satisfação saciada e pegou uma espada que fora trazida pela maré na praia ao seu lado.
Vona marchou em direção à espessa parede de verde.
Não era do tipo paciente. Sabia que sua tripulação seguiria o exemplo quando conseguissem acompanhar.
Além disso, não precisava deles para a tarefa à frente. Ela era a Açougueira de Magan e o Sol Imortal era seu por direito.
Paladina do Batismo de Sangue | Arte de Bastien L. Deharme
Jace estava grato por de alguma forma lembrar como nadar.
No caos da tempestade, saltara ao mar ao lado de Vraska. Jace agarrou um pedaço de madeira flutuante para conservar energia e começou a impulsionar-se para a margem. Suspirou de alívio através de um bocado de salmoura quando avistou Vraska subindo à tona. Ela nadou até ele com braçadas firmes e confiantes e os dois começaram a fazer o caminho para a margem.
"Alguém começou aquela tempestade", notou Jace, cuspindo água salgada.
"Havia uma elementalista na margem, em cima daquela rocha ali", disse Vraska. "Não consigo mais vê-la."
Jace olhou para o afloramento próximo. À sua esquerda estava o navio da Legião do Crepúsculo que os estivera perseguindo. Estava estilhaçado contra as rochas, mas uma de suas embarcações menores sobrevivera. O barco menor flutuava em um ângulo torto no raso perto de um delta amplo.
"Vê aquele bote? Podemos navegar com ele rio acima para o interior do continente", disse Vraska. "Vou voltar para buscar a tripulação. Não morra."
Jace assentiu relutantemente e fez o caminho para a praia. Tendo acabado de sobreviver a um desastre náutico, não tinha intenção de morrer agora.
A praia aqui era mais acidentada do que a Ilha Inútil fora. Estava salpicada de pedras perdidas e algas depositadas e a maré que baixava fazia tudo feder ao mar. O ar estava carregado com o peso da tempestade conjurada e a brisa que trazia estava pesada de umidade.
O efeito era desconfortável. Era hora de partir antes que as coisas inevitavelmente ficassem sangrentas. Sentia-se como se estivesse no portão de largada de uma corrida, como se alguma porta fosse abrir e um coelho fosse solto para ele perseguir.
Começou a fazer o caminho em direção ao bote encalhado. Agora que estava fora da água, conseguia ver o estrago tremendo que a tempestade causara. O Beligerante estava esmagado contra a lateral do navio da Legião do Crepúsculo. Pedaços de cada navio projetavam-se do outro e suas massas de madeira estavam emaranhadas uma na outra. Jace conseguia distinguir corpos na água, mas não ousava olhar de perto o suficiente para discernir quais eram seus amigos e quais eram seus inimigos.
Seu coração apertou no peito. Malcolm. Breeches. Gavven. Amelia. Estas eram as únicas pessoas que ele lembrava de ter conhecido.
Jace ouviu uma frase murmurada crescer em sua mente. Soava faminta, furiosa, como algum tipo de animal. Olhou para a sua direita e viu um vampiro de armadura brilhante correndo a toda velocidade em sua direção pela areia.
O pânico percorreu a mente de Jace mas, conforme o instinto o dominava, sua percepção desacelerou quase até parar.
A mente do vampiro apareceu para ele, vidro enrolado e fiapos de energia frágil. Jace estendeu a mão e, sentindo a imensidão de seu próprio poder, fez um esforço significativo para permitir que apenas uma minúscula picada dele alcançasse seu alvo. Carregou aquela pequena expressão de poder com um comando simples: durma.
O tempo retomou. Jace arquejou. O vampiro à sua frente tropeçou na areia e desabou no chão, roncando.
Jace parou onde estava e olhou para baixo com surpresa agradável para o vampiro aos seus pés.
"JACE!"
Vraska corria em sua direção.
FECHE OS OLHOS — ela gritou mentalmente alto o suficiente para que ele ouvisse.
Jace apertou os olhos e ouviu um baque na areia atrás dele.
Olhou para trás e para baixo. Um vampiro petrificado jazia aos seus pés. A coisa parecia ter caído de um museu. O vampiro estava congelado no meio da corrida, suas roupas solidificadas em uma finura impossível de esculpir, seus detalhes capturados até os poros de seu rosto. Se Jace não soubesse do contrário, teria pensado ser uma estátua esculpida pela mão de um mestre. Era quase bonita.
Vraska parou na frente dele.
"Perdemos o Edgar", disse ela asperamente, voltando-se para o navio. Jace a seguiu, deixando para trás tanto o vampiro adormecido quanto seu companheiro de pedra.
A tripulação sobrevivente do Beligerante estava se recuperando do impacto e preparando-se para uma luta. Vários vampiros nadavam para a margem com facilidade apesar do peso óbvio de sua armadura. Seus dons eram bons para mais do que apenas banquetear, ao que parecia.
Breeches correu facilmente pela areia em direção a Vraska, com a cauda flutuando atrás dele conforme corria.
"Nós lutar, você ir!", gritou ele. Vraska ajoelhou-se ao nível dele.
Breeches apontou para Jace. "Seguir ilusão chique!"
Vraska assentiu. "Jace fará algo alto quando descermos daquele barco rio acima. Peça para Malcolm checar o céu a cada hora para nos procurar", disse Vraska, assentindo resolutamente para Breeches.
O goblin assentiu e caminhou de volta para os sobreviventes em duas pernas, balançando duas faquinhas em cada uma de suas mãos como uma boneca de pano assassina.
"Breeches!" Vraska chamou uma última vez. O goblin virou-se e o restante da tripulação atrás dele ouviu atentamente sua capitã.
"Não estamos aqui para ficar. Deixem os locais em paz", disse a górgona, "mas matem cada vampiro que encontrarem."
O goblin sorriu e a tripulação do Beligerante sacou suas armas e investiu contra os vampiros restantes.
Jace estremeceu apesar do calor do verão. Estava contente por estar do lado dos piratas.
"Beleren! Comigo!" chamou ela antes de sair correndo em direção ao pequeno navio no rio.
Jace e Vraska correram com passos pesados pela areia da praia em direção ao pequeno navio perto do delta do rio. O chão sob eles gradualmente passou de uma superfície lisa e úmida para areia seca e irregular que subia em seus sapatos enquanto corriam. Passaram pelo corpo de um pirata ensopado em seu próprio sangue e Vraska praguejou. Rastros sangrentos levavam para longe do corpo para dentro da espessura da selva.
Vraska olhou de volta para Jace enquanto corriam. "Jace, você precisa nos camuflar."
Ele fechou os olhos e obedientemente desejou um véu de invisibilidade sobre si mesmo e Vraska. Escondeu seus movimentos enquanto corriam pela praia e lançou uma ilusão para disfarçar suas pegadas.
Vraska chapinhou pela água rasa do estuário e subiu no barco. Jace içou-se e tentou recuperar o fôlego.
Segura sob o véu da ilusão de Jace, Vraska ocupou-se em preparar as velas.
O barco era pequeno, provavelmente destinado a viagens de pesca e reconhecimento. Suas velas escuras flutuaram e uma brisa súbita para o interior empurrou-os rio acima, selva adentro.
"Melhor usar o vento enquanto podemos. Temos muito para remar pela frente", comentou Vraska.
Observaram enquanto a batalha iminente na praia começava, mas conforme passavam para dentro de um labirinto de árvores, perderam o Beligerante de vista para sempre. O ruído da luta e o puxão das ondas foram substituídos pelo cricrilado de insetos e pelos chamados de pequenos répteis voadores acima.
A selva aqui era diferente da de Ilha Inútil e Jace maravilhou-se com o tamanho das árvores. Em sua ilha, eram atrofiadas por restrição espacial, mas aqui as árvores espalhavam-se largas e altas. Sentia-se encolhido, uma versão em miniatura de si mesmo jogada em um jardim massivo.
Vraska ocupava-se tentando capturar a brisa minguante em suas velas. Desistiu depois de um tempo e puxou os remos de sob seu assento. Sua testa estava franzida em preocupação visível.
"Você está preocupada com o restante da nossa tripulação", notou Jace conforme começava a remar. Vraska assentiu.
"Sim. Mas eles conseguem cuidar de si mesmos", disse ela. "Sou a capitã deles, não a mãe. Eles nos encontrarão depois de eliminarem a ameaça."
A copa das árvores começou a se fechar sobre eles.
Floresta | Arte de Min Yum
Sombras e verde cercaram sua embarcação e o rio começou a estreitar em um canal profundo. Galhos cruzavam-se no alto e o sol desapareceu inteiramente. O ar era espesso, úmido e perfumado com o almíscar da terra molhada.
Ele olhou pela lateral do barco. Um cardume de peixes nadava alegremente abaixo. Conseguia apenas distinguir suas formas na água turva.
Jace olhou para cima e Vraska lhe dava um olhar estranho com uma intenção que ele não conseguia interpretar apenas pela expressão. Ela parecia quase doente de hesitação.
"O que houve?" perguntou ele.
Ela respirou fundo.
"Nenhum de nós é daqui", ela soltou de uma vez.
Jace piscou. "Bem, obviamente. Você disse que éramos de Ravnica — "
Ela fazia uma careta, relutante em falar, mas ainda mais relutante em guardar para si. "Ravnica não fica neste plano."
As sobrancelhas de Jace ergueram-se o máximo que puderam. "Este plano?"
Vraska tentava visivelmente encontrar uma maneira de colocar em palavras o que estava tentando dizer. Guardou a bússola que Jace lhe devolvera e falou com as mãos.
"Você me disse que seu corpo desapareceu e reapareceu quando você chegou pela primeira vez, e houve um símbolo que apareceu sobre sua cabeça, certo?"
Jace assentiu.
Vraska soltou o ar e acalmou-se. Uma sombra estranha escureceu o barco e o corpo dela desapareceu de vista.
Jace saltou de pé tão rápido que quase caiu do barco na correnteza do rio.
Ouviu um baque súbito e girou — Vraska reaparecera na outra extremidade do barco — o mesmo lugar de onde partira se o barco não estivesse viajando rio acima — e o mesmo símbolo de triângulo e círculo aparecera acima da cabeça dela.
A mandíbula de Jace estava inteiramente caída.
Vraska acenou as mãos em um pequeno "tchan-rã". "Sou um também. E geralmente, quando nós — " apontou para ambos, " — fazemos isso — " gesticulou para todo o redor, " — podemos viajar para outros planos de existência. Somos Planeswalkers."
Aquilo era informação nova demais para absorver de uma só vez. Jace começou a fazer a primeira das trinta perguntas que imediatamente lhe vieram à mente.
Vraska parou-o com a palma da mão estendida. "Espere eu terminar! Agora, sempre que tentamos caminhar entre os planos, algo nos puxa de volta e não temos permissão para partir. Certo? Acredito que Orazca não contém apenas o Sol Imortal. Também contém o encantamento que nos mantém aqui. Foi-me dito para realizar um feitiço para contatar outro plano quando encontrássemos o Sol Imortal, e depois de fazermos isso acho que seremos capazes de partir."
"Isso é possí — "
"Um dragão me ensinou como velejar, Jace. Quem sabe o que é possível agora?"
Jace estava absurdamente animado por juntar as peças. Travou os olhos com Vraska e pensou alto com entusiasmo. "Pensamos que a bússola estava apenas apontando para a cidade, mas ela aponta para fluxos de magia poderosa." Assentiu para o bolso de Vraska. "Em vez do norte magnético, ela aponta para o norte etéreo e também aponta para grandes focos de magia similar. É por isso que ela apontou para mim quando você me encontrou, e é por isso que provavelmente está apontando para você agora. Tentei lhe dizer no navio antes de batermos."
Ela tirou a bússola. Estava apontando para ela, mas voltando lentamente conforme a marca acima de sua cabeça sumia.
Jace assentiu em confirmação própria, mexendo em um interruptor lateral para que a segunda agulha apontasse para o que ele sabia agora ser o norte etéreo. Alternou-o ligando e desligando, com o ponto em direção a Orazca permanecendo estático. "Podemos usá-la para mapear com precisão nossa rota calculando o ângulo entre o norte etéreo e Orazca . . . ou podemos apenas seguir a direção que aponta para grandes expressões de magia como você vem fazendo. Uma é um pouco menos elegante, mas funciona."
"Isso é . . . incrível", disse Vraska, piscando para a bússola taumática. Sorriu, riu. "A barreira deve depender da mesma magia que usamos para transplanar! É por isso que a bússola aponta para lá! Você descobriu!"
Jace disfarçou seu olhar tímido com um de dar de ombros bem coordenado. Vraska continuou: "Eu estava tão certa de que a pessoa que me enviou aqui ia acabar com a minha vida se eu não encontrasse o que a bússola apontava. Mas agora temos uma chance, graças a você!"
"Ambos temos nossos talentos", Jace respondeu com humildade.
Vraska abriu um sorriso largo. "E os seus são incríveis!" Ela parou por um momento. Algo no rosto de Vraska mudou. Suavizou. "Jace, sinto muito por ter escondido o caminhar entre planos de você. Não sabia se podia confiar em você quando o encontrei. Chega de esconder coisas." As ondas batiam gentilmente na lateral do barco conforme ela remava. "Nunca tive a chance de agradecer pelo que você disse naquela noite quando estávamos ancorados em Seco e Esturricado. Ninguém nunca ouviu minha história como você ouviu. Obrigada."
Jace sorriu. "Sua história vale a pena ser contada. Obrigado por compartilhá-la comigo."
O sorriso gentil que ela deu em retorno o fez parar. Era vulnerável e honesto. Olhos travados nos dele.
Ela parara de remar.
Tudo nesta selva era brilhante e supersaturado. Tudo parecia carregado de significado. Jace tinha dúzias de perguntas alinhadas, todas severamente diferentes umas das outras em tom, uma mistura de indagações tanto mundanas quanto fantásticas. Ela gostava de livros? Quais eram as propriedades metafísicas do espaço entre os planos de existência? Como o transplanar era diferente de lançar um feitiço normal? Qual era a sobremesa favorita dela?
Mas algo no fundo da mente de Jace captou sua atenção.
Ele sondou as margens do rio. Sentou-se em silêncio por vários segundos, estendendo seu poder para ver se estavam sendo seguidos. A invisibilidade lançada sobre o barco estava mantendo-se. A milha circundante estava em grande parte vazia, mas havia algumas impressões na borda externa. Concentrou-se o máximo que pôde para ampliar seu alcance de percepção.
Vraska olhou para ele atentamente. "Você sente alguém?"
Jace assentiu. "Um humano, um vampiro, um tritão . . . e um minotauro."
A testa de Vraska franziu-se em confusão. "Um minotauro?"
Manguezais espessos deram lugar a areia fofa e Huatli sentiu sua montaria afundar levemente a cada passo na praia intocada lá embaixo. Virou-se e fez um breve sinal com a mão para seu segundo em comando — esta era a área onde o tritão fora avistado pela última vez.
Era aqui que ela encontraria seu guia para liderá-la à Cidade Dourada.
Huatli, Cavaleira de Dinossauro | Arte de Anna Steinbauer
O ânimo de Huatli subiu ao contemplar o desafio.
Sua montaria pata-de-garra soltou um pequeno grito de excitação em resposta.
A conexão entre dinossauro e cavaleiro era próxima. Alguns cavaleiros preferiam criar suas montarias desde o momento em que saíam do ovo. Outros capturavam as selvagens e faziam uma impressão mágica nelas. Huatli era profundamente prática. Suas montarias não eram seus filhos ou animais de estimação. Eram ferramentas a serem tratadas com respeito, uma extensão de seu eu-guerreiro.
O céu além era de um cinza furioso e ondas agitadas chocavam-se contra um afloramento de rocha que se projetava no mar. Perto da pedra, Huatli conseguiu distinguir dois navios quebrados e castigados. Um ostentava as cores da Coalizão Brancal e o outro tinha as velas negras esfarrapadas da Legião do Crepúsculo agarradas aos seus mastros quebrados.
Uma pessoa captou seu olhar. Ela deve ter sido uma pessoa, mas era diferente de qualquer um que Huatli já vira antes.
Sua pele era verde-esmeralda, mais reptiliana do que qualquer outra coisa, e seus olhos dourados brilhantes estavam arregalados, procurando por outros sobreviventes. Um emaranhado de videiras erguia-se de sua cabeça e tateava o ar, e ela vestia um casaco de capitão e calças.
Huatli sabia que era melhor não se aproximar dos navios. Qualquer que fosse a tempestade que o tritão conjurara, fora o suficiente para encalhar os navios, mas provavelmente não o suficiente para eliminar todos dentro deles. Enquanto seu treinamento de guerreira a instigava a combater os invasores, Huatli sabia que era melhor não se distrair.
Inti aproximou-se à direita de Huatli. Montava um dente-de-lâmina — uma montaria robusta significativamente maior que o pata-de-garra menor e mais ágil de Huatli. Inti olhou para baixo para sua capitã e apontou em direção à rocha projetando-se perto dos navios afundados. Sua outra mão bateu na rede que estava amarrada na lateral de sua sela.
Huatli assentiu. Ele deve ser capaz de ver o Arauto do Rio que moldou aquela tempestade.
Ela virou-se para Teyeuh. "Retorne à cidade e convoque nossas forças para deter os sobreviventes."
Teyeuh assentiu e instigou seu chifre-de-folhos de volta para o verde escuro da selva.
Huatli e Inti viraram-se paralelamente à linha da praia e cortaram a floresta espessa logo por dentro de onde a selva encontrava a areia. Fizeram seu caminho através dos manguezais e água salobra em direção ao afloramento onde Inti avistara seu alvo.
Na praia atrás deles, ouviram o grito de um homem. Huatli não se virou para observar a empolgação — sabia que não devia perder o foco. Em vez disso, impeliu seu ágil pata-de-garra à frente e irrompeu da selva para a luz brilhante do sol. O grito parou abruptamente atrás dela e ela viu um corpo deitado na rocha adiante. Huatli instigou sua montaria para mais perto para ver melhor.
Ali, deitado na rocha com vista para o vasto e interminável oceano, estava uma tritã inconsciente.
Tishana, Voz do Trovão | Arte de Anna Steinbauer
Parecia velha; suas barbatanas eram longas e desbotadas nas pontas e amuletos de jade pairavam no lugar ao redor dos planos de seu rosto. Quem quer que fosse, deve ter sido quem invocou a tempestade que afundou os dois navios e, se ela fosse tão importante quanto Huatli sentia que era, saberia a localização de Orazca.
A ansiedade dobrou no peito de Huatli. Este plano parecera horrível a princípio, mas ver a tritã à sua frente tornava-o muito mais impossível.
Como vou convencer o inimigo mais antigo do Império do Sol a me ajudar?
Sua coragem inchou e sua testa baixou em determinação. Encontrarei um caminho!
Huatli aproximou-se e desmontou. Conforme caminhava para frente, a tritã começou a se agitar e a se mover, levantando-se grogue do chão. A tritã mais velha estabilizou-se visivelmente, travou os olhos com Huatli e Inti ao seu lado, e as barbatanas em seu rosto recuaram bruscamente de surpresa.
"Não tenho a intenção de atacá-la", disse Huatli com firmeza.
A tritã fechou os olhos.
Huatli eriçou-se. O que ela estava fazendo?
A tritã inspirou, expirou e então encontrou o olhar de Huatli. "Ele está fazendo o seu caminho para lá. Saia do meu caminho ou eu a farei sair."
Do que diabos ela está falando? Huatli apertou sua lâmina com força. Os Arautos do Rio eram famosamente obtusos. Sabia que negociar com um para garantir um guia seria difícil, mas seu instinto dizia que negociar com esta poderia ser como pedir conselho a um dos xamãs do Império do Sol sobre que comida comer naquele dia. Nenhuma resposta seria direta.
"Meu nome é Huatli, futura guerreira-poeta do Império do Sol. Diga-me o seu nome."
"Sou Tishana dos Arautos do Rio", a tritã respondeu cautelosamente, "e Ixalan está em perigo."
Ela moveu uma mão para cima e uma onda quebrou na rocha sob eles.
Uma técnica de intimidação. Huatli não se assustava tão facilmente. Manteve-se firme. "Por que Ixalan está em perigo?"
As barbatanas de Tishana agitaram-se em inquietação contra as laterais de seu rosto. "Um Arauto do Rio traiu minha causa e está viajando para lá agora. Kumena pretende desequilibrar dependências radicais."
A tritã lembrava Huatli do que poderia acontecer se cruzasse um dos xamãs do Império do Sol com uma tia ligeiramente maluca. Uma mística sábia e perceptiva com o vocabulário da excêntrica residente.
"Quero ir a Orazca, mas preciso de um guia."
As barbatanas da tritã contraíram-se. "O quê?"
"Ela a viu", interveio Inti, olhando para Huatli.
As barbatanas da tritã abriram-se.
Huatli escolheu suas palavras com cuidado: "Empunhei uma magia estranha e vi uma cidade dourada."
Tishana deu um olhar inexpressivo. "Você viu uma cidade dourada."
"Sim."
"Não a Cidade Dourada?"
Huatli franziu o cenho, envergonhada. Esta conversa era familiar demais. "Vi Orazca", respondeu firmemente.
Inti interveio com voz comedida. "A Cidade Dourada precisa ser encontrada se quisermos proteger ambos os nossos povos." Ele apontou para o caos da praia.
Tishana voltou-se para Huatli e inclinou-se para frente em interrogação. Seu rosto era severo e direto, com o foco de um predador. "E você simplesmente precisa ir lá? Não possuí-la? Não reivindicá-la para si ou em nome de seu Império?"
A boca de Huatli era uma linha dura e severa. Ajoelhou-se e colocou sua arma no chão, olhando para a tritã com total respeito nos olhos.
"Algo dentro de mim me fez ver a cidade. Estou certa de que é prova de que minha missão é crucial para a sobrevivência tanto do Império do Sol quanto dos Arautos do Rio igualmente. Não somos o inimigo um do outro."
A tritã parou e estudou o rosto de Huatli. Parecia olhar através dela e Huatli sentiu-se incrivelmente jovem retribuindo o olhar de Tishana enquanto ajoelhava-se no chão em subordinação.
Tishana baixou as pálpebras e moveu os lábios para um lado enquanto pensava em sua resposta. Baixou uma mão e a colocou em frente à testa de Huatli.
Huatli sentiu-se estranhamente aquecida, como se alguém tivesse cutucado um fogo dentro de seu peito.
Tishana abriu os olhos. "Senti você, dias atrás", disse ela.
Huatli não pôde evitar seu olhar de repulsa surpresa.
A tritã afastou-se, ignorando sua resposta. "Senti um puxão tremendo na energia do nosso mundo, como um golfinho tentando saltar para fora de um rio."
Tishana era mais do que um pouco inquietante. Huatli não era estranha a metáforas, mas a tritã operava em um nível inteiramente diferente.
"Você sabe o que foi?" Huatli sussurrou com urgência.
As pupilas da tritã afinaram-se. "Sei apenas que a superfície do nosso mundo é intransponível por baixo. Alguns podem cair para dentro, mas uma vez submersos, não conseguem saltar para fora."
Huatli não tinha ideia do que Tishana queria dizer com aquilo.
"Senti um puxão semelhante esta manhã", disse ela, "na direção do mar. E novamente, dois meses antes, muito além do horizonte. Mas aquela energia não pertencia a você."
A tritã ajoelhou-se e olhou Huatli nos olhos. "Se você diz que viu uma cidade quando roçou as bordas do nosso mundo, então eu acredito em você."
Inti olhou para baixo para Huatli e sorriu de orgulho. Huatli estava grata por ele estar ali como apoio.
"Mas quero sua palavra, Huatli." Tishana a encarou. "Vamos para a cidade para manter Kumena fora, porque a presença dele ameaça você tanto quanto a nós. Se você tentar reivindicar Orazca para si mesma, não hesitarei em matá-la."
Huatli sentiu-se profundamente incerta sobre como a exploração se desenrolaria. Esta seria uma viagem muito interessante, mas ela não tinha outras opções.
"Obrigada, Tishana."
Huatli subiu em sua montaria e ofereceu uma mão para a tritã juntar-se a ela.
Tishana olhou para a mão como se fosse feita de insetos. "Viajarei de forma independente", disse ela carrancuda.
A tritã tirou um pequeno item de jade de uma bolsa ao seu lado e o colocou no chão.
Totem de Sentinela | Arte de Anthony Palumbo
Ergueu uma mão e o jade iluminou-se por dentro, um brilho de vaga-lume envolto em verde manchado.
A rocha e as videiras que forravam o afloramento de rocha em que estavam começaram a vibrar, movendo-se em direção ao totem de jade como ferro em direção a um ímã. A rocha e a madeira curvaram-se e expandiram-se, colhendo o totem enquanto o faziam, e começaram a formar a forma de um elemental. Em instantes, onde antes havia uma bela escultura agora havia um elemental feroz que era tão alto quanto o pata-de-garra de Huatli.
Caminhante do Crescimento Pródigo | Arte de Ryan Alexander Lee
Tishana estendeu um pé conforme parte da madeira formava um apoio. Subiu e agarrou o topo de sua nova montaria elemental.
"Siga-me", disse ela.
Huatli engoliu em seco. Aquela era uma mulher de imenso poder.
Virou seu próprio dinossauro e olhou para baixo sobre a areia para ver uma cena de caos absoluto. Alguns sobreviventes remavam para fora dos destroços dos dois navios e uma grande mancha de sangue manchava o branco da praia. Um vampiro corria para dentro da espessura da selva.
Huatli apontou em direção ao conquistador em fuga. "Inti, siga-os! Rastreie-me na floresta tropical quando terminar de expulsá-los."
Inti partiu encosta abaixo pelas rochas e entrou na selva.
Huatli assobiou uma melodia rápida, esperando que Teyeuh ainda não estivesse fora do alcance dos ouvidos. Agradeceu silenciosamente a Teyeuh por lembrar-se de seu treinamento; Teyeuh ouviu o comando e imediatamente virou-se para seguir Inti e o vampiro selva adentro.
Tentando uma corrida para Orazca, sem dúvida, Huatli riu para si mesma. Sanguessuga patético.
O começo de um poema floresceu em sua mente enquanto ela trotou seu pata-de-garra pelo outro lado do afloramento. Olhou sobre os navios naufragados e refletiu sobre como seu poema sobre esta expedição começaria.
Um navio tripulado por sanguessugas perseguiu um navio tripulado por pulgas . . .
"Pare. Vire em direção ao rio", Tishana ordenou. A tritã virou o elemental que montava e saltou em direção ao rio. Huatli seguiu o exemplo e parou ao lado de Tishana.
Tishana suspirou com a impaciência de uma estudiosa ocupada. "Alguém está lançando uma ilusão ali, na água."
Huatli olhou além da mão da tritã para a distância onde a água do oceano misturava-se com a do rio e viu-se transfixada. O rio era de movimento lento e gentil. Nenhuma onda perturbava sua corrente, mas ali, uma esteira suave cortava a água. Não havia fonte rastreável e claramente não havia nada nadando embaixo.
"É . . . estranho. Tem certeza de que é uma ilusão?" Huatli perguntou.
Tishana desdenhou. "Lançou ilusões antes mesmo de você ter nascido."
"Mas você acha que um dos sobreviventes da Legião do Crepúsculo fez aquilo?"
A tritã balançou a cabeça. "Tais ilusões estão além de sua maestria. Preocupo-me que isto seja uma ameaça maior."
Sem aviso, a tritã virou seu elemental e saltou para dentro da floresta tropical.
Huatli grunhiu com frustração e instigou sua montaria a viajar mais rápido para segui-la. Correram selva adentro, mantendo a estranha esteira do rio à vista.
Folhas e videiras açoitavam o rosto de Huatli e seu coração cantava com esperança. Talvez aquilo fosse o que ela deveria fazer afinal. Tudo nesta situação era novo e desconfortável, e Huatli relutava em admitir que estava ansiosa, mas as coisas pareciam estar funcionando bem até agora. Até onde sabia, nenhum Arauto do Rio jamais trabalhara voluntariamente com um guerreiro do Império do Sol.
A assistência de Tishana ainda parecia extraordinariamente estranha. Huatli não pôde deixar de imaginar se a tritã planejava tirar vantagem dela. Não ajudava o fato de ela não conseguir ler Tishana.
O pata-de-garra de Huatli piou de excitação. Seus pés batiam um ritmo constante contra a vegetação do chão da selva.
"O Império do Sol ouviu os sussurros?" Tishana gritou acima do bater de folhas e do ímpeto do ar úmido da selva.
"Você quer dizer sussurros reais, ou rumores?"
A tritã ignorou seu pedido de esclarecimento. "Um dos nossos ouviu uma conversa no posto avançado de Seco e Esturricado. Mais tarde corroboramos com a palavra de um dos seus. Há uma capitã da Coalizão Brancal que possui uma bússola que pode localizar a Cidade Dourada", disse Tishana. "Ela tem pele esmeralda e — "
" — e cabelo que parece videiras?" Huatli completou.
A tritã ficou em silêncio. Apenas o bater dos pés de rocha e madeira de seu elemental contra o chão da selva quebrava o silêncio.
"Vi-a nos destroços", disse Huatli. "Se ela possui o que você diz que possui, então aquela esteira certamente é ela."
"Deve ser uma ilusionista habilidosa." Os olhos de Tishana estavam treinados na esteira no rio.
Huatli apertou as rédeas de seu dinossauro. "Então precisamos estar prontos. Quando o rio estreitar e não puderem ir mais longe, nós atacamos."
"Precisamos da bússola deles mais do que precisamos deles mortos", disse Tishana.
"Não tenho a intenção de matá-los", disse Huatli com irritação ofendida.
Tishana estalou a língua. "As névoas essenciais da manhã", disse ela com um aceno de cabeça sábio.
Huatli mordeu o interior do lábio em frustração. "Por favor, esclareça que névoas — "
"A localização de Orazca é um segredo até para nós."
A confiança de Huatli desmoronou.
"Você não sabe onde fica . . . de jeito nenhum?"
A tritã a encarou de volta. "Sabemos sua localização geral."
Huatli fechou a boca. Respirou fundo e fez o melhor que pôde para esconder sua frustração crescente. "Fica além do território do Império do Sol, no entanto, sim?"
"Fica além da cordilheira que separa Pachatupa e Quetzatl, e depois do lago adiante."
Huatli consultou sua topografia mental. "Norte ou sul do Vale Perdido?"
"Sul."
"E isso é tudo o que você sabe?"
"Sim."
Huatli assentiu. Sentia-se sobrecarregada.
Vamos precisar daquela bússola.
18 de Outubro de 2017 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben
A Corrida, Parte 2
VRASKA
O rio estava ficando estreito demais para o conforto. Vraska olhou pela borda e viu o leito do rio a menos de um corpo de distância abaixo.
Duas rochas maciças erguiam-se como pilares de portão em cada lado da água adiante. O barco deles caberia, mas apenas por pouco.
Suas bolhas ardiam.
Ela diminuiu a força no remo esquerdo e começou a manobrar em direção à margem do rio.
Jace desistira de manter a invisibilidade deles várias horas atrás. Ao cair da noite, insetos brilhantes e outras luzes mais estranhas que Vraska não conseguia identificar iluminavam a selva de novo. As margens de cada lado eram íngremes demais para levar o barco à terra. Não fossem os dinossauros massivos que sem dúvida espreitavam na floresta, ela teria achado a atmosfera bastante adorável.
Pântano | Arte de Christine Choi
"Dormiremos no barco", disse Vraska. Ela soltou os remos e sibilou ao tocar em uma de suas bolhas.
A bússola taumática repousava na tábua entre os dois Planeswalkers. Jace a pegou e olhou para onde ela apontava. "Essa coisa seria mais útil se nos dissesse quão longe temos que ir", disse Vraska enquanto alongava um braço, depois o outro. Entrelaçou os dedos e suspirou de alívio.
Jace não respondeu.
Ele olhou para cima e a magia em seus olhos iluminou os contornos de seu rosto. Um grande cavalo de tração materializou-se acima deles, brilhando em um azul delicado contra o céu noturno, e correu para cima em direção à copa das árvores.
O cavalo espectral serviria de farol para Malcolm.
Espero que o restante da tripulação chegue logo.
O ar estava espesso e sem vento. Cheirava a coisas crescendo. Seiva, podridão, coisas morrendo e comendo e crescendo por cima de todas as outras coisas morrendo e comendo. Vraska lembrou que sua tripulação cantava em noites sem vento como esta quando ficavam presos no mar. Ela amava aqueles momentos comunitários acima de tudo. Ela e sua tribo, inimigos de todos exceto uns dos outros.
"Um castelo cresce na Velha Subterrânea", cantou ela.
Jace olhou para ela como se ela tivesse criado uma segunda cabeça. Vraska sorriu e terminou o verso.
"Suas janelas brilham com um brilho ancestral,Alguns vagam por seu labirinto, uma confusão de decadência — "
Vraska parou. Jace estava ouvindo atentamente.
"Quer que eu continue?" perguntou ela com um sorriso cansado. Jace sorriu.
Ela sentou-se e manteve a voz baixa. Talvez a música detivesse quaisquer dinossauros que pudessem estar ouvindo.
". . . e o Reino da Podridão um dia se erguerá."
Jace emitiu um pequeno ruído cansado de aprovação. "Música alegre."
"Os Golgari têm pouco sobre o que serem alegres." Vraska recostou-se com os olhos fechados.
A voz de Jace estava lenta de sono. "Breeches me ensinou uma música."
"Aquela sobre figos?"
"É uma música obscena. Muito obscena. Ele é um goblinzinho obsceno."
Jace silenciou-se depois disso e, um momento depois, entregou-se ao sono. Vraska perguntou-se se ele conseguia fazer aquilo sob comando.
Pequenas criaturas aladas chilreavam no alto e pássaros noturnos cantavam nas profundezas da selva.
Ela abriu um olho dourado e contemplou Jace. O segundo telepata mais perigoso do Multiverso.
Ele poderia quebrar minha mente tão facilmente quanto eu canto uma música.
E no entanto . . . ele não o faria. Ele nunca o faria. Não quando ele ouvia como ouvira (como ninguém ouvira).
Vraska soube naquele momento que, com memória ou sem ela, este era um homem em quem ela podia confiar — e um que confiaria nela em retorno. Ela não precisava de outra pessoa para ser completa, nem precisava de validação de quem ela era. E se ele não estivesse interessado, tudo bem — ela tinha um livro de história em casa para terminar. Mas se ele estivesse interessado, Vraska imaginava que ele faria chá para ela se estivesse chateada. Ele ouviria quando ela precisasse ser ouvida, torceria por ela em suas próprias vitórias. Em suma, não era uma má perspectiva. Talvez ela o convidasse para um encontro quando tudo aquilo terminasse. Não ia a um desses há algum tempo. Por ora, no entanto, Vraska estava feliz como as coisas estavam. Uma corrida simples e direta com um bom amigo ao seu lado — isso era o que ela precisava.
Vraska não via a hora de petrificar quem quer que tivesse roubado as memórias dele.
O brilho das plantas ao redor e das estrelas acima fazia seu barquinho frio parecer quente na sombra da selva e, conforme Vraska fechava os olhos, sentiu a brisa fresca da invisibilidade cobri-la mais uma vez.
Jace dormiu profundamente após seu turno de vigília. O silêncio e o ar livre foram mudanças bem-vindas em relação aos meses que passara dormindo em uma rede cercado pelo restante da tripulação.
Vraska e Jace abandonaram o barco na manhã seguinte. Remaram até a margem e deixaram a embarcação nas beiras do rio.
Massas de rocha e o chão da floresta pareciam projetar-se em ângulos estranhos e qualquer semelhança de um caminho perdia-se no ruído e caos da selva à luz do dia. Vraska sacou sua espada como um facão improvisado para abrir caminho.
Eventualmente, os dois chegaram a um caminho largo e limpo. Vraska guardou a espada com alívio.
"Já era hora. Bolhas de espada surgem no mesmo lugar que bolhas de remo", gemeu ela.
As sobrancelhas de Jace franziram-se. "Podemos não querer caminhar por aqui."
Ele apontou para cima, para como a clareira corria pela copa das árvores. "Este caminho provavelmente foi feito por dinossauros."
Vraska suspirou. "Então todo este caminho foi gasto por dinossauros cruzando-o?"
"Não, foi cortado por dinossauros lenhadores", Jace explicou melhor em um tom sério e perfeito, sem sarcasmo. Vraska soltou uma risada.
Jace balançou a cabeça gravemente. "Não insulte o nobre ofício da silvicultura de dinossauros."
A risada de Vraska foi interrompida por um cheiro estranho no ar.
Uma espessa nuvem de fumaça escura subitamente inundou o bosque ao redor deles.
A fumaça era enjoativa, uma névoa cor de tinta com o vago aroma de mirra que envolvia as árvores, obscurecendo a pouca luz que rompia a copa acima e transformando subitamente o dia em noite.
Jace gritou em surpresa, então buscou sentir o que podia com sua mente.
Vraska estava parada no centro do caminho, lutando com um inimigo mal visível. A névoa era espessa demais para a visão — ele buscou a mente do inimigo, sentiu o feitiço que lançava a escuridão e o cortou.
A fumaça escura dissipou-se, deixando uma conquistadora exposta. A vampira rosna, com o queixo coberto de sangue encrustado, e sua armadura de ouro e preto brilha. O sigilo de uma rosa estava em relevo em seu peitoral e as pontas de seu elmo agigantavam-se denteadas e afiadas sobre a górgona. A crosta de sal seco em sua armadura levou Jace a acreditar que esta era uma das sobreviventes do outro naufrágio.
Jace ergueu uma mão e criou a ilusão de uma tempestade massiva e desorientadora.
Chuva espessa caía da copa acima, o verde vibrante do caminho tornou-se escuro e um estrondo de trovão ressoou no alto.
Vraska parecia imperturbada, mas a vampira sobressaltou-se. Saltou, levemente, mas recuperou-se a tempo de bloquear um golpe da espada de Vraska com seu ombro blindado. A vampira deixou sua espada embainhada, aproximou-se e atacou em um frenesi de chutes e golpes. Vraska tentou balançar sua espada em resposta, mas foi interrompida por um golpe agudo em seu queixo. Começou a reunir a magia necessária para petrificar a vampira.
Jace novamente lançou sua mão, buscando a mente da vampira, mas o caos da briga era demais — ele estava desacostumado — e uma manopla desferiu um golpe em sua testa. Ele caiu de costas no chão, a concentração estilhaçada.
A tempestade ilusória desapareceu e a luz do sol salpicada voltou à vista.
Jace observou grogue conforme a vampira baixou-se ao chão da floresta e tateou ao redor, agarrando a bússola taumática do chão aos pés de Jace, e correu para dentro da espessura da selva.
Vraska praguejou e levantou-se com dificuldade, com uma mão sobre os próprios olhos e sibilando de dor. Piscou para afastar sua própria magia e rosnou de frustração.
Chutou uma árvore.
Jace fechou os olhos e concentrou-se.
"Podemos segui-la."
Abriu os olhos e olhou para cima, enviando outro cavalo massivo galopando no ar como um sinal para a tripulação.
Vraska ainda fervilhava. "Aquela maldita vampira deve ter aprendido o que fiz com aquele outro capitão. Não deveríamos ter deixado a tripulação viva."
Jace suspirou. "Objetivamente, você não está errada."
Vraska chutou a árvore novamente.
"Eu consigo encontrá-la e podemos recuperá-la. E então você poderá chutar todas as árvores que quiser", disse Jace com determinação.
A górgona respirou fundo, levou um momento e assentiu. Olhou para Jace com um leve vinco entre as sobrancelhas.
"Tem certeza de que consegue rastreá-la?"
"Absoluta certeza."
Jace fechou os olhos e concentrou-se.
Escutou em busca da mente da vampira.
O que ouviu em vez disso foi um par de monólogos internos furiosos.
Tishana está longe demais à frente, como aquele elemental se move tão rápido? Instigar para a esquerda, desviar da videira, ali — à frente — homem da Coalizão Brancal de costas para nós — será aquele o pirata de pele verde?!
— Lento e tolo, desleixo típico do Império do Sol. Mulher de pele verde à frente, há rumores de que ela possui a bússola. Seguir a ilusão, invocando uma serpente para repeli-los . . . —
Seus olhos abriram-se bruscamente de surpresa e, em um movimento fluido, Jace girou com os braços cruzados à sua frente.
Uma imensa cobra voadora ilusória chocou-se contra seus braços e dividiu-se em cada lado da defesa psíquica de Jace.
A fonte da ilusão era uma tritã parada precariamente nas costas de um elemental massivo.
Olhou para a fonte da outra voz mental, uma mulher vestindo armadura de aço plaqueada com o mesmo padrão de penas do dinossauro que montava. Uma lâmina semicircular pendia ao seu lado e sua longa trança chicoteava no ar conforme ela avançava contra ele.
Golpe de Garras | Arte de Magali Villeneuve
O processo de pensamento de Jace saltou da ideia para a conclusão. Ergueu uma mão para a humana que vinha, um formigamento desceu pelo seu pescoço e a mulher puxou as rédeas de seu dinossauro bruscamente. A fera derrapou até parar. A mulher sobre ela olhou freneticamente para cada lado.
"Para onde eles foram?!"
As barbatanas da tritã agitaram-se. "É uma ilusão!"
Ela estendeu uma mão e videiras chicotearam do chão da floresta para se enrolarem nas pernas de Jace.
Ele caiu no chão em um monte e a invisibilidade que projetara desapareceu.
Vraska deu um passo à frente e parou diante dele. Chamou a cavaleira e a tritã. "Esperem!"
"Por que estão nos perseguindo?", perguntou ela.
Jace deu-se permissão para varrer a superfície da mente da tritã.
"A tritã sabe da bússola."
As barbatanas da tritã abriram-se em surpresa e raiva.
O lábio de Vraska curvou-se. "Quem são vocês?"
Jace levantou-se e as videiras ao redor de seus pés recuaram. Tomou seu lugar ao lado de Vraska e encarou seus oponentes.
O elemental de Tishana preparou-se para atacar. A tritã pousou uma mão tranquilizadora em seu flanco. "Meu nome é Tishana, uma anciã dos Arautos do Rio e protetora de Orazca. Um dos nossos ouviu um rumor frutífero sobre você, pirata."
Jace recriminou-se silenciosamente. Aquele tritão no canto no Seco e Esturricado ouvira a conversa deles afinal.
A cavaleira ao lado da tritã empertigou-se. "Sou Huatli do Império do Sol, Guerreira-poeta e vencedora de intrusos."
Jace não pôde deixar de notar o tique no olho de Huatli às palavras "guerreira-poeta".
Tishana olhou furiosa para Vraska. "Ninguém pode possuir a cidade ou o que jaz em seu interior. Entregue a bússola ou morra onde está."
"Se você insiste", ronronou Vraska, seus olhos começando a brilhar com intenção mágica.
Jace estendeu uma mão para bloquear o olhar dela.
"Nós não estamos com ela", soltou ele.
Vraska soltou um ruído de frustração e gentilmente afastou a mão dele de seus olhos. Cruzou os braços em impaciência.
A tritã deve tê-lo ouvido, mas seu rosto não traiu seus pensamentos. Em vez disso, ela inclinou a cabeça para um lado como se estivesse ouvindo.
Curioso, Jace mergulhou de volta na superfície da mente da tritã. Através de alguma conexão invisível ela sentia uma intrusa mover-se pela selva adiante. Seu vínculo com as árvores e o solo sob os pés era delicado e cada passo da intrusa deixava um rastro pela floresta tropical. Vivenciar aquilo em primeira mão era exultante — Jace não sabia que tal poder era possível.
A tritã olhou para Jace. "Uma vampira está perto. Ela tirou o dispositivo de vocês e fugiu?"
A cavaleira em cima do dinossauro tinha uma névoa âmbar sutil ao redor de si e seu dinossauro soltou um rosnado profundo. Jace começou a ouvir o movimento de outros dinossauros ao redor deles.
Ele centrou seu peso e fechou os punhos. "A vampira tirou a bússola de nós."
Algo estalou as mandíbulas na selva atrás deles. Tanto Vraska quanto Jace pularam com o ruído.
A cavaleira sorriu e virou seu dinossauro para o lado. Abriu um sorriso cativante. "Obrigada por sua cooperação."
A tritã subiu rapidamente no topo de seu elemental e as duas mulheres saltaram selva adentro.
Assim que partiram, Vraska girou a cabeça para Jace.
"Consegue rastrear a vampira?"
Jace assentiu, escutou brevemente a mente da vampira.
Ele sorriu.
"Consigo rastrear mais do que apenas isso."
Vraska assentiu e os dois partiram para dentro da floresta espessa. Enquanto Jace corria, enviou outro sinal para o restante de sua tripulação — e o cavalo de tração ilusório investiu pelo mesmo caminho de seu conjurador lá embaixo.
Huatli pousou uma mão em sua montaria conforme corriam e enviou uma curta carga de magia através da conexão deles.
Um dinossauro percebe através do olfato o que um humano vê com seus olhos e anos de treinamento ensinaram Huatli como melhor se comunicar com sua montaria.
Encontrar. Sangue. Decadência. Vampira.
O dinossauro farejou o ar, baixou a cabeça para a caçada e aumentou sua velocidade.
Folhas chicoteavam ao passar e Huatli permitiu que seus olhos se ajustassem conforme os galhos acima começavam a dar lugar a árvores mais largas com uma copa mais fina. Criaturas menores esquivavam-se conforme ela passava e Huatli ouvia pássaros e dinossauros na copa acima guinchando avisos uns aos outros enquanto ela e seu predador moviam-se abaixo.
"Isto pode levar algum tempo", disse Huatli.
Levou nove horas.
Território Não Reivindicado | Arte de DimitarIlha | Arte de Raoul Vitale
Passaram por encostas íngremes e por vales vazios e, em certo ponto, atravessaram seus dinossauros pelo raso de um lago. Toda vez que chegavam perto, a vampira avançava mais para longe e toda vez que paravam para respirar, maravilhavam-se com a tenacidade de seu inimigo.
"Ela é rápida para uma mulher morta, não é?" Huatli arquejou, massageando uma cãibra na coxa enquanto seu dinossauro bebia sedento do lago.
Tishana parecia não se impressionar. "As intrincabilidades do universo não se importam com quão rapidamente a tapeçaria é feita, apenas com a conexão final de suas fibras."
Pela sexta vez naquele dia, Huatli revirou os olhos.
Floresta | Arte de Raoul VitaleBosque de Pétalas Solares | Arte de Dimitar
A tritã e a cavaleira eventualmente emergiram no outro lado do lago.
Huatli sentiu a alegria do dinossauro — a presa estava quase ao alcance. Com certeza, logo viu uma figura vestida de ouro adiante, encostada em uma árvore e arquejando de exaustão.
"Deixe-a para mim, Tishana!", gritou Huatli. A tritã diminuiu o trote de seu elemental e manteve-se atrás.
O dinossauro abaixou-se mais rente ao chão para o ataque conforme se aproximavam. A vampira virou a cabeça para ver o que se aproximava, mas não teve tempo de responder quando o dinossauro abriu as mandíbulas e a agarrou pela cintura.
A vampira gritou de surpresa quando o dinossauro de Huatli a arremessou de lado contra o tronco de uma árvore massiva.
Huatli desmontou e caminhou em direção à vampira.
Sua inimiga era mais alta que ela e uma faixa furiosa de sangue manchava seu colarinho. A renda que aparecia de sua armadura estava úmida de suor e ela tinha o visual de uma criança que se recusava a vestir qualquer coisa além de sua roupa favorita, não importava quão inconveniente pudesse ser.
"O que lhe falta em sangue você compensa em suor", disse Huatli, desferindo um chute certeiro no peito da vampira. A vampira tropeçou de volta na árvore com um grunhido sem fôlego. Ela arquejou e puxou o colarinho de sua armadura.
Huatli sorriu. "O quê, não havia selvas em Torrezon? Você está desconfortável?"
Seus olhos iluminaram-se com um brilho âmbar e seu dinossauro soltou um rosnado baixo.
Agarrar, instruiu Huatli. O dinossauro deu um solavanco para frente e pegou a vampira mais uma vez com suas mandíbulas.
A mordida não foi forte o suficiente para perfurar a armadura, mas foi suficiente para erguer a vampira do chão. A vampira debatia-se em protesto, tentando sacar sua espada enquanto batia e arranhava o couro grosso do dinossauro.
"Sacuda", disse Huatli em voz alta.
O dinossauro sacudiu a vampira para cima e para baixo e a conquistadora uivou em resposta.
Uma bússola de aparência estranha voou de seu bolso e atingiu o chão.
Huatli ajoelhou-se e a pegou. Era bela e elaborada, zumbindo com uma energia que ela conseguia sentir pela palma de sua mão.
Soltar, instruiu Huatli.
A vampira, encharcada de saliva, atingiu o chão com um baque gosmento. Huatli buscou o predador carnívoro mais próximo e o invocou com um surto de magia e um convite — Banqueteie! Sentiu o raptor saltar em sua direção na selva. Huatli subiu rapidamente em sua sela e sua montaria partiu selva adentro.
Os maiores guerreiros do Império do Sol nunca matavam, mas nunca deixariam uma fera faminta sem uma refeição.
Huatli trotou em direção a Tishana com um sorriso no rosto. "Corra, antes que a vampira consiga nos alcançar! Consegui a bússola!"
A tritã sorriu em resposta. Seus dentes eram como faquinhas em uma fileira bem organizada. "Maravilhoso!"
Tishana pegou a bússola e a examinou, virando-a nas mãos e investigando-a tão cuidadosamente quanto se faria com um texto sagrado.
Ela estreitou os olhos para o objeto, então deu a Huatli um olhar astuto.
A bússola começou a emitir uma luz âmbar pulsante diretamente à frente.
As barbatanas na lateral do rosto de Tishana agitaram-se e ela fechou os olhos.
Huatli fechou a boca e esperou. Sabia que a Arauto do Rio estava sentindo algo que ela não conseguia ver. Após um momento, os olhos da tritã abriram-se trêmulos com um maravilhamento atônito.
"O fim de nossa peregrinação está perto."
Huatli estava excitada demais para revirar os olhos desta vez. "Sério?"
"É parte da terra ao seu redor, porém separada, para mantê-la oculta. Ela não se move, mas o caminho até ela é encantado para mudar . . . " Tishana fechou os olhos novamente e apontou. Seu dedo estava paralelo à linha da bússola. "É meio dia de viagem naquela direção."
Huatli assentiu resolutamente. "Então não devemos esperar!"
Tishana parou.
Sua montaria deslocou-se quase imperceptivelmente para longe de Huatli. Seus olhos dardejaram para a bússola.
O humor de Huatli tornou-se defensivo. "Tishana, tínhamos um acordo de que iríamos juntas."
"Sim", disse a tritã, "nós tínhamos."
Huatli lançou-se em direção à bússola, mas justo quando a agarrou, foi interrompida pelo tapa de uma grande aba de lona cobrindo seu rosto e derrubando-a de sua montaria.
Huatli atingiu o chão, seu corpo inteiramente envolto em um lençol massivo de tecido. Tentou se contorcer para se libertar, mas a lona ao seu redor ficava mais apertada. Além do tecido, ouvia seu dinossauro guinchar e gritar antes de ser subitamente silenciado. O silêncio foi quebrado pelos vivas de cerca de uma dúzia de pessoas.
A Coalizão Brancal.
Uma voz feminina familiar riu. "Deixe-a sair, Amelia."
O tecido ergueu Huatli de volta aos pés e a girou até que estivesse livre, tropeçando de tontura com a liberação.
Uma maga de leme pirata estava com as mãos prontas e a lona — ela arrastara aquela vela desde a praia? — amarrou-se ao redor das mãos de Huatli.
Huatli arquejou. Seu pata-de-garra estava à sua frente, agachado para um ataque, mandíbulas bem abertas . . . e inteiramente envolto em pedra.
A pirata de pele verde de antes passou a mão pela lateral da estátua recém-petrificada. Ajoelhou-se ao nível de Huatli e sorriu.
"Vou levar essa bússola de volta agora." Os tentáculos e videiras do cabelo da mulher contorceram-se em prazer presunçoso. Ela pegou a bússola caída dos pés de Huatli.
"Como vocês nos alcançaram?!" Huatli cuspiu.
A mulher verde fez um som de desdém e balançou a cabeça. "A vampira que vocês estavam rastreando seguiu a bússola em linha reta. Através deste terreno acho que isso não é terrivelmente eficaz. É muito mais fácil encontrar atalhos com um olho no céu e um telepata no chão."
A sirena atrás dela empertigou-se e o homem de azul educadamente baixou a cabeça com um sorriso.
"Mais alguma pergunta?" perguntou a capitã.
Huatli concentrou sua fúria e canalizou tanta energia quanto pôde em um feitiço. Seus olhos iluminaram-se com um brilho âmbar e de trás dela uma manada de patas-de-garra guinchou na selva. Ela nunca ficaria sem uma montaria nestas selvas.
Conforme os dinossauros faziam o caminho em direção a ela, os piratas fugiram na outra direção. Huatli debateu-se para se livrar das cordas e procurou por Tishana. Maldita tritã! Para onde aquela traidora foi?!
Sua resposta veio com um estrondo distante.
Huatli não quis esperar para descobrir o que era.
Correnteza Agarradora | Arte de Yongjae Choi
Atrás dela viu Tishana, parada com os braços estendidos, e as árvores gemiam com madeira dobrada e o choque da água conforme ela invocava uma inundação para avançar pela selva.
Huatli teve tempo apenas de ordenar os dinossauros para longe novamente e suspirou de alívio quando o rio invocado por Tishana passou correndo por ela em direção aos seus inimigos em fuga.
Os piratas gritaram e dispersaram-se e Huatli poderia jurar que viu a mulher de pele verde e o homem de azul escaparem.
"Você está por conta própria, Guerreira-poeta", Tishana disse dramaticamente. "Preciso parar Kumena sozinha."
Huatli revirou os olhos mais uma vez justo quando Tishana desapareceu na espessura da selva.
Fine! Se ela quer quebrar nosso vínculo, então a responsabilidade é dela! Huatli soltou uma praga colorida.
Começou novamente um feitiço para invocar uma nova montaria. Precisava seguir o rastro da mulher de pele verde. O guia tritã de Huatli podia ter partido, mas ela estava perto o suficiente de seu objetivo para não precisar mais de Tishana.
Uma voz a fez arquejar de surpresa.
"PLANESWALKER! PARE!"
Angrath era tão alto quanto uma árvore e tão largo quanto um chifre-curto. Sua cabeça era a de uma fera chifruda e seu corpo ondulava com poder mal contido. Correntes em brasa estavam drapeadas sobre seus ombros e ele arquejava de exaustão.
Angrath.
Tudo aquilo começara quando o pirata a atacara antes. Tudo aquilo viera do que quer que aquele pirata fizera que a fez ver o que vira. Huatli fez uma careta e correu na mesma direção que os piratas haviam fugido.
Angrath a perseguiu.
"ESPERE! QUERO FALAR COM VOCÊ!"
"NÃO QUERO OUVIR!", gritou Huatli de volta.
Huatli olhou para a sua direita. Angrath estava logo atrás.
Acelerou o passo, mas uma corrente atingiu e enrolou-se em seu tornozelo, arrancando Huatli para o chão da floresta.
Mascarou seu medo com um rosto bravo, ergueu uma mão e começou a carregar um feitiço para invocar tantos dinossauros e feras quanto conseguisse.
"Pare!", disse Angrath.
Ele caminhou para frente e ajoelhou-se, pousando suas correntes frias e escuras no chão da floresta.
O coração de Huatli estava acelerado. Estava mais aterrorizada do que jamais estivera. O que este assassino estava tramando?
"Você é como eu", disse ele.
"Nunca serei como você!", Huatli gritou desafiadoramente, dramaticamente.
"Não, idiota, não desse jeito", Angrath respondeu, seus olhos severos de impaciência. "Não lhe farei mal, colega Planeswalker." Angrath levantou-se, olhando-a de cima.
Huatli estava prestes a exigir respostas, mas Angrath falou calma e resolutamente. "O que quer que nos impeça de partir deste plano está trancado naquela cidade. Podemos ajudar um ao outro a escapar para mundos diferentes se a encontrarmos."
Um pequeno lampejo de maravilhamento rompeu a confusão de Huatli.
Angrath continuou, " . . . E tudo o que temos que fazer é matar todos que tentarem roubar Orazca de nosso alcance."
A esperança de Huatli desapareceu e um mal-estar enjoativo encheu suas entranhas.
Espetacular, pensou consigo mesma, o monstro assassino quer ser meu amigo.
A bússola taumática começou a vibrar na mão de Vraska.
Seu coração saltou conforme corria, Jace ao seu lado e sua tripulação às suas costas.
A inundação da tritã fora uma distração inteligente, mas a tripulação do Beligerante não era lavada tão facilmente.
Malcolm voou para o alto e à frente e retornou arquejando. "Está nas colinas à frente!"
"Continuem correndo!", gritou Vraska para sua tripulação. Estavam tão perto, tão incrivelmente perto.
As árvores cresciam de forma diferente nesta parte de Ixalan. Vraska e sua tripulação haviam passado por uma cordilheira e corriam agora por um labirinto de névoa e plantas. Ocasionalmente passavam por uma árvore com belas folhas amarelas e, nas rochas ao lado deles, veios de ouro precioso brilhavam sob o líquen e o musgo.
A própria terra parecia ansiosa para trair os segredos que guardava.
A tripulação do Beligerante chegou a uma clareira e todos pararam no caminho. Brilhando como faróis dourados acima do verde, os pináculos de Orazca perfuravam o céu.
Pináculos de Orazca | Arte de Yeong-Hao Han
As pontas comandavam o horizonte. Suas massas estavam escondidas sob uma barreira interminável de árvores, seu volume tão imenso que Vraska se perguntou se as próprias colinas eram a cidade enterrada, revestida por um emaranhado impenetrável de selva.
Ela guardou a bússola taumática, que pulsava e brilhava para espelhar a imensidão da magia que os cercava agora.
"É o lar de mais do que apenas o Sol Imortal. Qualquer que seja o encantamento que nos mantém aqui está lá dentro também", ouviu ela de trás de si.
Vraska virou-se. Jace a alcançara enquanto o restante da tripulação fazia uma pausa antes da última etapa de sua jornada.
Ela assentiu. "Ainda não descobri bem o que o Sol Imortal realmente faz. Há rumores demais para elevar uma teoria sobre outra."
"Pode ser literalmente a chave para partirmos."
"Pode ser", disse Vraska. "Pode também dar vida eterna sem necessidade da ingestão de sangue. Pode tornar o Império do Sol invencível. Pode ser uma fonte de poder inimaginável, precária demais para qualquer pessoa controlar."
"Acho que é algo que não deveria estar aqui", disse Jace. "Algo introduzido neste mundo."
Jace levou a mão ao queixo em pensamento. "Pode também ser apenas um pedaço de rocha. E não fazer nada. Talvez o Lorde Nicolas seja um colecionador de pedras?"
"Sinceramente, eu não duvidaria", Vraska deu de ombros. "Ele me parece um homem com hobbies estranhos."
Jace deu de ombros enquanto Amelia o chamava de perto. Ele foi até o restante da tripulação e começou a conversar.
Ele parecia tão diferente sem o capuz. Vraska nunca o vira sem ele antes de resgatá-lo da ilha.
Ela distanciadamente imaginou se o cabelo dele era tão macio quanto parecia.
"Você vem, Vraska?"
"Apenas recuperando o fôlego. Reúna a tripulação."
Jace chamou o restante deles e Vraska rapidamente recompôs sua expressão em algo mais autoritário.
Conforme Vraska aproximava-se da tripulação do Beligerante, o chão sob ela guinou para um lado.
Sua tripulação soltou gritos de surpresa. Malcolm alçou voo e Breeches escalou para o ombro de Amelia. Vários tripulantes começaram a olhar freneticamente ao redor em busca de algo onde se segurar, mas não havia como escapar do movimento brusco. A clareira começou a tremer mais violentamente e uma longa rachadura apareceu na rocha sob eles.
"Olhem!" Amelia apontava para os pináculos na distância.
Estavam começando a subir, cada vez mais alto no ar. A própria cidade emergia da selva a cada solavanco do terremoto. Videiras arrebentavam, árvores eram violentamente arrancadas do chão, bandos de asas-do-sol subiam ao céu e mais e mais da cidade surgia à vista.
Arte de Titus Lunter
Malcolm pousou ao lado de Vraska, com um olhar de pânico nos olhos.
Vraska agarrou o ombro dele. "Ela fez isso porque nos aproximamos?"
"Alguém deve ter chegado à cidade primeiro."
Ele apontou para a bússola taumática na mão de Vraska. Com certeza, todas as suas agulhas brilhavam com uma ferocidade que ela nunca vira antes.
O bramido de alguma fera gigante soou acima do tremor da terra.
Vraska congelou, o ruído primordial enviando um choque de terror através de seu coração. Seu pavor apenas intensificou-se quando ouviu um som semelhante de igual volume . . . depois outro . . . e outro.
Algo despertara.
A água começou a infiltrar-se pela clareira e Vraska olhou para a fonte. Uma fenda abrira-se ali perto e a água desviada do rio jorrava para baixo no imenso cânion recém-formado na base da cidade.
A terra tremeu sob os pés de Vraska e a Cidade Dourada de Orazca ergueu-se mais e mais do chão.
Agora que estava livre de séculos de crescimento excessivo, ela tinha uma visão clara. Era incrível.
A própria cidade abrira-se como as pétalas de uma flor. Fiel ao seu nome, a própria estrutura era de um ouro perfeito, intocado, ornamentada com turquesa, âmbar e jade. Suas rampas e passarelas levavam sobre rios revoltos e cachoeiras e, no alto, havia símbolos e motivos estranhos esculpidos com cuidado.
Vraska foi tomada de excitação unida a um desejo audaz de enfrentar e conquistar o que quer que tivesse despertado na distância. Chamou o restante da tripulação para segui-la mas, ao começar a caminhar para frente, outro terremoto ocorreu e ela caiu no chão.
"Vraska!"
Ela virou a cabeça e arquejou. A borda da clareira onde estavam fora fendida em duas e Jace agarrava-se a uma pedra que se deslocava, tentando não cair pela borda.
Os outros piratas afastaram-se conforme a água do rio próximo começava a abrir seu caminho para mais perto. A água aumentou de volume e logo uma torrente começou a ameaçar levar o que restava da saliência.
Vraska entrou no rio o máximo que pôde, então nadou com a correnteza em direção à posição de Jace. Cuspiu água do rio e alcançou sua mão estendida.
Assim que seus dedos roçaram os dele, o chão deu um solavanco lateral mais uma vez e Jace perdeu o apoio.
"JACE!"
Vraska assistiu enquanto Jace tombava pela encosta, olhos arregalados de terror e mãos estendidas em desespero.
Vraska gritou em fúria e luto, pois não conseguia ver o fundo da cachoeira.
Arte de Wesley Burt
Ela deu um solavanco para frente para tentar avistar a descida dele e a pedra sob ela cedeu.
Vraska caiu, a névoa picando seus braços enquanto ela se debatia, suas mãos buscando desesperadamente por um apoio.
Não teve tempo para gritar — apenas tempo suficiente para rearranjar seu corpo para que seus pés atingissem a superfície da água primeiro.
Vraska foi engolida pela piscina ao fundo.
Tateou e agarrou a água ao redor, tentando puxar seu caminho até a superfície.
A água revolta apertava seus flancos e o impacto da cachoeira ousava empurrá-la mais para baixo, mas Vraska não morria tão facilmente. Não quando o objeto de sua busca estava tão perto.
Sentiu seus dedos romperem a superfície e impulsionou-se para cima, sedenta por ar. Emergiu, sugando o ar e cuspindo água do rio. Seus pés ardiam através dos sapatos com o impacto e ela sentia um hematoma começando a se formar em suas pernas conforme chutava. Vastas paredes de pedra e ouro irromperam através da terra em cada lado da água e a cidade erguida de Orazca agigantava-se muito acima.
Subitamente, uma dor lancinante, perfurante, cortante através de suas têmporas — ela gritou — e uma imagem apareceu em sua mente com um flash.
Ilha | Arte de Richard Wright
A imagem desapareceu e Vraska arquejou de surpresa e dor.
O pânico inundou suas veias mais uma vez e ela desesperadamente impulsionou-se para a margem, esticando o pescoço para se orientar enquanto nadava. Vraska ainda estava em Ixalan, mas a imagem em sua mente fora de Ravnica.
O que foi aquilo?!
Estava alarmada e confusa, remando desesperadamente para onde o rio recém-formado encontrava a pedra recém-exposta da cidade.
Vraska avistou Jace. Ele agarrava-se a uma rocha perto da margem do rio, sangue jorrando de um ferimento em sua cabeça e seus olhos iluminados de magia. Seu rosto estava corado de confusão e dor, um olhar distante nos olhos.
Ele viu também — ?!
"Jace!", uivou ela, nadando para mais perto, puxando a si mesma e suas roupas pesadas e encharcadas através da água turva, remando para ficar fora da correnteza veloz trazida pela cachoeira. "Jace, sua cabeça — AHH!"
Selo do Pacto das Guildas | Arte de Franz Vohwinkel
Vraska arquejou.
Ela vestia um manto azul e capuz, e jazia no estrado central do Fórum de Azor. Niv-Mizzet, o parun dos Izzet, olhava para baixo para ela e ela conseguia distinguir os rostos dos corredores do labirinto de cada guilda de Ravnica. Isto é uma memória, percebeu Vraska. A memória era colorida com significado, pertencimento, responsabilidade. Era o dia em que Jace se tornou o Pacto das Guildas Vivo.
Subitamente a imagem dissipou-se, desapareceu, e Vraska nadava no rio mais uma vez.
Ele está lembrando de tudo, percebeu Vraska com pavor.
A memória de Jace estava retornando toda de uma vez, retornando como uma inundação e transbordando pelas laterais e ele logo lembraria de tudo sobre o que Vraska era. Logo lembraria do rancor deles, lembraria da guilda dela, lembraria de seu trabalho, e então nada do que aconteceu nos últimos meses importaria. Ele lembraria que era o Pacto das Guildas e ela era uma assassina e a amizade deles certamente se dissolveria.
Vraska engasgou com a água do rio enquanto nadava freneticamente em direção a Jace na margem. Ele estava sangrando, quebrado, com os olhos iluminados e perdido na agonia de lembrar.
Acabou, lamentou Vraska com o coração pesado enquanto caminhava pelo raso em direção ao mago mental. Uma pontada de dor de cabeça avisou que outra memória estava prestes a inundar sua percepção e ela apertou os olhos com força para se preparar conforme o passado de Jace escapava de seu controle e chocava-se contra a mente dela.