Kaladesh

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

29 de Agosto de 2016 | Por Chris L'Etoile

Saudades de Casa

Cinco Planeswalkers aliaram-se como as Sentinelas. De Kaladesh, a piromante Chandra Nalaar. De Theros, o hieromante Gideon Jura. De Zendikar, a animista élfica Nissa Revane. De algum lugar que ele não mais se recorda, o telepata Jace Beleren. De Dominária, a necromante Liliana Vess. Com o auxílio de Tamiyo, uma estudiosa soratami de Kamigawa, eles derrotaram a titã de outro mundo Emrakul, selando a entidade dentro da lua prateada de Innistrad.

Três meses se passaram.

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Ela bateu novamente, mais forte.

Do outro lado da porta veio um baque e um palavrão murmurado. Após longos segundos de tecido farfalhando para lá e para cá, acompanhados por imprecações em voz baixa contra aqueles cobertores em particular, roupas de cama em geral e toda a profissão de tecelagem por extensão, os sons de pés instáveis sobre a madeira avançaram e balançaram em direção à porta.

"É. O quê. O quê?", uma voz feminina pastosa de sono resmungou do outro lado.

"É quase meio-dia. Você precisa levantar."

"Não pode ser meio-dia. Ainda está pesado demais lá fora."

"Poderia abrir a porta?"

"Não." Um momento de silêncio, um suspiro, depois longos segundos de mãos desajeitadas tateando a fechadura da porta. Uma pausa final. "Espera. Não tranquei. Você abre."

Ela empurrou suavemente, e a porta rangeu ao abrir, o movimento do ar agitando a seda escura de seu vestido. A mulher que se desmoronava contra o batente da porta do outro lado era uma explosão de cabelos cor de cobre bagunçados pelo sono na altura do queixo, vestindo uma camisola folgada, com o decote desamarrado e escorregando por um ombro. A luz do corredor caía sobre uma bochecha sardenta e queimada de sol. Ela gemeu e apertou os olhos âmbar. "Bom dia, Liliana", resmungou contra o batente.

"Nossa," disse Liliana. "Você está terrível, Chandra."

Chandra limpou a remela de um olho com a mão na qual não estava se apoiando. "É mesmo? Bem, você está..." Ela baixou a mão e olhou para ela com os olhos semicerrados e turvos. Sua pálpebra tremeu. "...Ótima, na verdade." Havia um nítido "droga" implícito no final da frase.

"Ora, obrigada."

A única luz além do ombro de Chandra era um filete de sol cegante cortando entre as dobras pesadas das cortinas fechadas. O quarto parecia ter sido saqueado por goblins apressados. Ou possivelmente um urso fixara residência ali. Os cobertores da cama de dossel foram arrancados e se arrastavam pela madeira envernizada, deixando para trás apenas uma pilha-fortaleza desajeitada de travesseiros estufados no centro do colchão.

A escrivaninha estava coberta de frascos de tinta secos em várias cores berrantes, e um biscoito gigante meio comido. Havia pilhas de roupas emboladas em dois cantos diferentes. Na penumbra, Liliana não conseguia distinguir qual era a pilha limpa. Assumindo que alguma delas fosse. Em um terceiro canto jaziam os restos carbonizados de pelo menos dois cavaletes.

"Espero que a noite tenha valido a pena?", perguntou Liliana. Uma brisa soprou pelo corredor, trazendo os aromas de tijolos cozidos pelo sol e comida fritando, o sussurro de multidões e o tilintar de bandas na praça abaixo. Uma mecha de cabelo laranja rebelde balançou no vento de verão e caiu sobre o olho de Chandra. Liliana estendeu a mão e a colocou atrás da orelha da garota, fazendo um som de reprovação. Estava seco como palha, com as pontas duplas. Esperado, talvez, dada a sua tendência de irromper em chamas.

"Para com isso", disse Chandra, afastando as mãos dela. "Eu não estava fazendo nada ontem à noite. Só fui assistir..." ela hesitou, olhos âmbar semicerrados para a penumbra de seu quarto. "Uh, alguns menestréis. É. Uma taverna na — na Rua do Estanho. Eles tinham, tipo... violinos."

Liliana conhecera muitos mentirosos terríveis ao longo dos séculos, mas impressionantemente poucos podiam rivalizar com Chandra. Ela cruzou os braços sobre o peito e permitiu que um canto da boca se inclinasse para cima. "Você foi ver as corridas aéreas Izzet."

"Não! ... Sim." Ela bocejou. "Então você vai gritar comigo, ou o quê?"

Ela riu levemente. "Por que cargas d'água eu faria isso? Faça o que quiser." Ela acenou por cima do ombro, o gesto abrangendo o corredor banhado pelo sol, as salas silenciosas e repletas de livros do santuário de Jace e o bando bizarro de benfeitores freelancers que ela se vira caminhando dois passos atrás e balançando a cabeça. "Ninguém aqui tem o direito de lhe dizer o que fazer. Certamente não foi para isso que eu me inscrevi."

"Você não assinou nada."

"Nunca assino, querida. Melhor viver sem amarras." Ela tocou um dedo nos lábios. "Corridas aéreas são perigosas para a maioria. Mas depois de Emrakul, os perigos de goblins com foguetes amarrados às costas parecem distintamente... não perigosos para você."

Piloto de Teste Goblin | Arte de Svetlin Velinov

"Um deles tinha foguetes nas botas. Mas ele explodiu. Buuu! " As mãos de Chandra se juntaram e se separaram, descrevendo uma nuvem expansiva de nojeira. "Pedaços por toda parte. Super nojento."

"Encantador. Você aproveitou sua noite?"

A mulher mais jovem sorriu, as sardas em suas bochechas se enrugando em uma bagunça adorável. "Sim! Eu amo corridas aéreas. Não via uma desde —" sua boca ficou aberta por um momento, e ela piscou duas vezes, rapidamente. "Faz um tempo, de qualquer forma. Não é muito popular entre os monges", disse ela, com uma risada pouco convincente.

Liliana estudou a queda do sol do meio-dia sobre o cabelo de Chandra, lembrando-se da sensação quebradiça dele entre seus dedos. "O Pãozão quer todos lá embaixo em uma hora. Temos um convidado."

"Quem?"

"Tenho certeza de que não perguntei."

"O quê? Não, eu quero dizer... Pãozão?"

Liliana deixou o canto da boca deslizar para cima novamente, colocou uma mão no quadril e esperou.

"Ah! " Chandra soltou uma risada anasalada. "Gids."

Ela acenou com os dedos pálidos no ar e revirou os olhos, teatralmente. "Certamente você já pensou o mesmo? Sinto que tenho que pedir para ele colocar uma camisa dia sim, dia não."

Chandra esfregou o olho esquerdo e bocejou novamente. "Ei, eu não me importo com a vista. Quero tomar café no caminho. Almoço. Tanto faz. Você vem?"

Ela se moveu para passar por Liliana, que a parou com uma mão em seu ombro exposto. A pele estava radiante, anormalmente quente, como se ela estivesse deitada ao sol. Ela notara que, nas raras ocasiões em que Chandra ficava sentada quieta por cinco minutos, seu colo inevitavelmente atraía uma pequena pilha de gatos sonolentos.

"Antes de descermos, querida," disse ela, "você pode querer colocar as calças."

"O que você é, minha m— tia?", Chandra resmungou. Ela se virou e cambaleou em direção a uma das pilhas de roupa suja, os dedos dos pés encolhendo-se com o frio da madeira. Isso resolveu a questão de qual pilha era a limpa. Esperançosamente.

Liliana soltou uma risada prateada no ar. "Eu preferiria que você pensasse em mim como... uma irmã, digamos assim?"

Chandra puxou um par de leggings da pilha, cheirou e as jogou por cima do ombro com uma careta. "Eu não tenho irmãos. De qualquer forma, você não tem tipo duzentos anos ou algo assim?"

"Ah, mas duzentos caminhando para os vinte e nove."

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"Não vai usar armadura hoje?", Liliana perguntou enquanto caminhavam para as escadas.

"Pela casa? Nah. Você acha que talvez eu devesse para essa reunião?" Chandra estava olhando para o cadarço de sua camisa. Ela tentara desatar um nó, mas só conseguiu prender o polegar. "Deixei lá embaixo, naquela sala onde o Jace guarda todas as capas dele." Uma testa franzida de perplexidade curvou seus lábios. "Ele tem uma enormidade delas. Espera aí."

Ela parou diante de uma das portas de quarto abertas para soltar o polegar. Era o quarto de Nissa, teoricamente. As cortinas estavam totalmente abertas, deixando o sol do meio-dia cair sobre a cama arrumada e uma cômoda empoeirada. Chandra espiou para dentro. "Estamos aqui há uns três meses, mas mal vi a Nissa desde Innistrad."

"Você não a encontrará aí dentro. Deixe-me ver isso." Liliana virou-se e afastou a mão livre de Chandra dos cadarços da camisa. A outra mão agora estava conectada pelo polegar e por um dedo adicional. "Na primeira manhã em que todos vocês estiveram aqui, ela saiu tropeçando parecendo a própria morte."

Chandra animou-se e abriu a boca.

"Sim, sim," Liliana suspirou. "Eu saberia melhor como isso se parece."

"Ah..."

"Garota doce, confie em mim. Eu ouvi todas as piadas de necromante." Liliana sugou o lábio inferior enquanto enfiava a unha para desatar um nó. "Nissa murmurou algo como: 'Não consigo dormir. Muitos ângulos'. Ela tem ficado no jardim do telhado desde então."

"Estranho." Chandra observou partículas de poeira girando no ar. "E você?"

"O que tem eu?" Liliana puxou outro nó.

Com a mão livre, Chandra empurrou seus óculos de proteção mais para trás na testa. "O Jace ofereceu um quarto para você também. Certo? Como para o resto de nós? Mas você foi e arrumou seu próprio lugar, mesmo com tudo sendo tão caro aqui."

Um puxão final e firme, e a mão de Chandra estava livre. "Eu não gosto de depender da misericórdia de outros," Liliana disse, forçando leveza em sua voz. Tinha a virtude de ser verdade, se não a verdade completa. "Agora deixe-me amarrar isso para você corretamente."

Dormir sob um teto que o Jace pagava? Não apenas "não", mas "nem ferrando".

"Pronto." Ela deu um tapinha nos cadarços da camisa de Chandra. "Não toque nisso de novo. Da próxima vez você provavelmente vai prender um dedo do pé."

"Valeu," Chandra sorriu, então envolveu um braço quente ao redor dos ombros nus de Liliana e apertou. "Estou com tanta fome que poderia comer um Eldrazi. Talvez até um dos gosmentos." Ela lançou-se em direção às escadas. "Não se toma café da manhã em Ravnica de jeito nenhum. É como se eles fizessem tudo ao contrário. Jantares enormes, almoços longos, cafés da manhã ignorados. Pão cascudo com manteiga? Para o café da manhã?" Chandra fez uma careta de quem chupou limão. "Ah, me poupe."

"É por isso que você não consegue levantar de manhã aqui?", Liliana perguntou, suavemente.

Chandra deu-lhe um soco no armo. "Idiota." Ela foi pega tão de surpresa que cambaleou. Chandra caminhou distraidamente à frente enquanto Liliana esfregava o potencial hematoma. Seus passos aceleraram conforme ela se empolgava com o assunto e gesticulava para um público que só ela podia ver. "Escuta. Um café da manhã de verdade começa com methi thepla. Com gengibre, pimenta e um pouco de iogurte na mistura. Quando você acorda com esse cheiro —" ela parou; engoliu em seco; balançou a cabeça. "Com manga em conserva! Manga é o melhor. Qualquer um que diga o contrário deve ser lamentado por sua trágica e inescapável ignorância."

Liliana balançou a cabeça. "Não tenho ideia do que seja uma manga."

"Uma fruta", disse Chandra. "Nada mais tem esse gosto no multiverso. Pelo menos nas partes onde estive. Quando está perfeitamente madura e você dá uma mordida..." ela juntou as duas mãos sob a boca. "... o suco simplesmente escorre pelo queixo. Doce e picante ao mesmo tempo — e forte no fundo do nariz. Como o cheiro de zimbro, um pouco. Elas são como um amanhecer na sua boca. Tão grande e brilhante que transborda."

"Parecem... bagunçadas," Liliana admitiu.

"Acho que sim. Às vezes. Mas vale tanto a pena," Chandra sorriu. "Para o segundo prato, você sabe o que um grão-de-bico — oh." Elas haviam entrado em um corredor que se abria sobre um pátio de um lado, aberto para o céu e transbordando de verde. O ímpeto de Chandra diminuiu até parar enquanto ela se dirigia para a balaustrada.

"Temos tempo para mais uma rodada antes da reunião. Quando você estiver pronta." A voz trovejante de Gideon. "Vamos lá!" Um bater de palmas ecoante de mãos carnudas.

Ela se moveu para ficar ao lado de Chandra. Abaixo, o Homem-Bolo se posicionou no que era provavelmente uma postura de luta de Theros, firme como se esperasse um golpe. À frente dele, a esguia elfa de Zendikar permanecia com uma mão agarrando o ombro oposto, parecendo querer se encolher e desaparecer.

"Você tem certeza?", ela perguntou à grama. Sua voz estava irregular, rouca pelo desuso.

O riso dele ecoou na cantaria. Liliana tinha quase certeza de ter ouvido vidros distantes vibrando. "Se eu souber que está vindo, sou indestrutível. O objetivo é ver até onde você consegue ir. Confie em si mesma, Nissa. E se não confiar... confie em mim. Eu aguento perfeitamente."

"Mas..."

"Indestrutível ," ele repetiu alegremente, exibindo dentes perfeitos.

"Tudo bem." Nissa fechou seus olhos cor de sombra de pinheiro. "Não há muito aqui para trabalhar."

"Poderíamos fazer isso no jardim."

"Eu quis dizer... esqueça." Ela inspirou e ergueu uma mão.

Os arbustos explodiram em flores. Pétalas lavanda e brancas rodopiaram em um vento repentino, enchendo o ar com uma doçura densa. A hera subiu pelas paredes, folhas de esmeralda crescendo e se desdobrando, cobrindo cada superfície. A grama se esticou e se curvou, sussurrando na brisa, envolvendo-se amorosamente ao redor das botas de trilha de Nissa.

Chandra deu um passo involuntário para trás, inspirando bruscamente enquanto a vegetação abraçava a balaustrada.

Galhos incharam e se entrançaram, tecendo-se em uma única forma de quatro patas. Talvez alguma fera de Zendikar? Liliana visitara o plano algumas décadas antes, mas achara o lugar monótono demais para ficar por muito tempo. Os arbustos se arrancaram do chão, sacudindo a terra de seus pés-raiz como um gato meticuloso.

A fera-arbusto — mais uma árvore agora — empinou-se, rangendo e gemendo como a maior cadeira de balanço do mundo. Ela derramava pétalas pastéis em uma chuva constante, partículas de pólen girando no sol do meio-dia. Seus membros frontais se entrelaçaram em um único punho, que ela descarregou sobre Gideon como uma avalanche.

Sua pele brilhou com ouro líquido.

Então ele foi enterrado na terra, até o peito.

Nissa arquejou. Com um aceno de mão, a fera-árvore saltou para longe dele, aterrissando com um impacto reverberante que deixou Liliana agarrada ao corrimão coberto de hera para se apoiar. Em algum lugar da casa, ela ouviu porcelana se quebrar. Vários "alguns lugares", na verdade.

Gideon riu ruidosamente. "Isso foi incrível! " Ele apoiou as mãos em cada lado da cratera e, com um grunhido, arrancou-se do chão. Levantou-se de um salto e espanou a terra preta das calças, um sorriso iluminando seu rosto. "Você não consegue me machucar, mas eu nem pensei no chão."

A fera-árvore lamuriou para Nissa como um cachorrinho repreendido. "Shh," a elfa sussurrou, inclinando-se para encostar a testa contra a fronte de madeira do monstro. "Culpa minha, culpa minha."

"Muito bem," Gideon colocou uma mão maciça no ombro fino de Nissa. Ela estremeceu e inspirou bruscamente. A fera-árvore virou-se para ele e se sacudiu, as folhas emitindo um chiado felino.

Ele deu um passo para trás, com as mãos para cima. "Calma, amigão. Não estou atacando a mamãe."

Nissa colocou uma mão tranquilizadora sobre a fera. "Obrigada. Descanse agora." Ela enterrou seus dedos e dedos dos pés de madeira na terra, gemeu e voltou a ser apenas um jardim ornamental. Nissa estava sozinha novamente, as últimas pétalas pálidas da fera caindo ao seu redor.

Gideon esfregou o queixo espetado. "Espero que o Jace não se importe com a nossa jardinagem."

Liliana olhou para Chandra. Ela estava na ponta dos pés, inclinada para frente sobre o corrimão com um sorrisinho deslumbrado. "Cuidado para não cair."

Chandra saltou de volta e mostrou a língua. "Como se eu fosse. Vamos, estou com fome."

Liliana sorriu e a seguiu. Atrás dela, a voz de Gideon ecoava nos tijolos do pátio. "Nissa, antes de você ir. Aquela coisa que eu faço, de dar tapinhas no ombro das pessoas? Isso te deixa desconfortável?"

Liliana parou à porta, ouvindo. Se a elfa respondeu, suas palavras não foram audíveis.

"Sinto muito. Eu não tinha percebido. Não farei de novo." Liliana não conseguia imaginar sua expressão, mas seu tom destilava uma sinceridade de cão perdigueiro tão grande que seus lábios tremeram de irritação.

"Obrigada." Mal mais que um sussurro de vento nas folhas.

"Se algo te deixar desconfortável, me avise, está bem? Especialmente se for eu."

Liliana cerrou os lábios e seguiu atrás de Chandra, as botas estalando na madeira, a bainha de seda sussurrando em seu rastro. Se ouvisse mais alguma coisa, poderia vomitar. É claro que a elfa recebe desculpas e promessas. Duzentos anos atrás, ela tivera que aprender a quebrar dedos.

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Havia uma dúzia de maneiras de entrar na biblioteca de Jace, sem contar as passagens secretas que suas sombras haviam encontrado. Três andares de prateleiras transbordando do chão ao teto, todas em ordem alfabética por autor e organizadas por assunto. Depois de algumas semanas, ela começara a pegar livros aleatórios e colocá-los em outras prateleiras. Isso o deixaria louco quando percebesse.

A mesa de mármore no centro ficava normalmente coberta pelas pilhas de notas perfeitamente quadradas de Jace. Ele as mudara para um escritório particular; a biblioteca tornara-se uma sala comum porque a mesa era a única na casa grande o suficiente para acomodar a todos. Ele tremera visivelmente quando começaram a fazer refeições ali.

Santuário de Jace | Arte de Adam Paquette

Hoje a mesa continha apenas uma jarra de água e seis copos. Jace já estava aqui, é claro, andando de um lado para o outro, franzindo a testa, folheando um maço de notas e tentando manter distância de Lavinia, que se posicionara junto à porta externa e olhava pragmaticamente para o horizonte. Podia-se quase ver listas de tarefas e marchas de formação em sincronia por trás de seus olhos, consumindo ciclos enquanto ela esperava que algo importante acontecesse.

Liliana vira gente do tipo dela mil vezes. Obediente, observadora, inteiramente desprovida de imaginação. Se ela tivesse uma taverna favorita, o que parecia improvável, seu pedido habitual seria uma caneca de água à temperatura ambiente.

Lavinia estava quase certamente parada junto à porta para impedir que Jace saísse em disparada para alguma aventura. É claro que, se ele realmente quisesse partir, precisava apenas de alguns minutos sozinho. Ela sabia disso agora; com quatro Planeswalkers morando ali (e uma aproveitando-se das comodidades, muito obrigada), fora necessário explicar. Jace invocara algum regulamento do Pacto das Guildas, de uma subseção de um artigo conforme emendado e ratificado por quem-se-importa, para fazê-la jurar segredo.

Liliana sorriu para si mesma enquanto puxava uma cadeira de sob a mesa, imaginando a guarda batendo na porta do banheiro: "Você ainda está aí, Pacto das Guildas? Responda agora! "

Jace olhou para cima ao ouvir o barulho de sua cadeira. "Você chegou cedo?" Ele parecia horrorizado. Ela sentiu-se profissionalmente afrontada.

"Não. Todos os outros estão mais atrasados que eu." Ela lançou um olhar crítico de cima a baixo em sua forma. Firme, em forma, alerta, cabelo penteado. Ela mentalmente desmentiu aquilo. "Pode desfazer o glamour, querido. Ninguém se importa."

Ele suspirou e tremeluziu conforme sua ilusão caía. Ali estava o Jace real: mais pálido, cabelo desalinhado, olhos fundos pelas noites em claro, e o queixo tingido pela adorável penugem que quase contava como uma barba para-um-dia-talvez.

"Vaidade?", disse ela. "Isso não é do seu feitio."

Ele passou a mão pelo cabelo, o que não fez nada para acalmar seus ângulos aleatórios. "Eu deveria estar no meu melhor para as reuniões da equipe. Liderança de projeto. Confiança. A ideia de que eu sei o que diabos estou fazendo. E por que estou contando isso para você ?" Ele parecia irritado consigo mesmo.

Ela ergueu um ombro de marfim em um de descaso. "Quem mais o conhece bem o suficiente para entender?" Liliana recostou-se em sua cadeira e colocou os pés sobre a mesa, um tornozelo cruzado sobre o outro. A bainha de seu vestido caiu das botas em um farfalhar de seda.

"Isso é rude", Jace franziu a testa.

"Hum."

Suas sobrancelhas desabaram em perpendiculares felpudas de irritação. "E distrai."

Liliana o favoreceu com um sorriso preguiçoso e indolente. "Vou me lembrar disso." Ela voltou sua atenção para os títulos dos livros próximos e imaginou a fúria dele.

Gideon desceu as escadas ruidosamente, descendo de dois em dois degraus enquanto puxava uma camisa sobre suas várias protuberâncias, ondulações e partes pulsantes. "Ah, que bom. Você se lembrou hoje", disse ela.

Ele piscou para ela. "O quê?"

"Nada." Ela acenou em uma meia saudação descuidada em sua direção. "Prossiga, Senhor General senhor."

Jace pousou suas notas enquanto Gideon puxava a cadeira à frente dela. "Estamos quase todos aqui, então vou começar. Podemos atualizar a Chandra quando ela chegar."

Liliana piscou e varreu a sala com o olhar. E quanto a — ah. Nissa estava sentada de pernas cruzadas em uma cadeira sob a sombra das prateleiras, vários passos afastada da mesa. Ela se perguntou há quanto tempo a elfa estaria ali.

"O resumo é o seguinte," Jace continuou, "ainda estou enrolado com o trabalho do Pacto das Guildas, e estarei por um tempo. Quando voltei de Innistrad, minha mesa estava coberta. Na verdade, o escritório inteiro era um labirinto de papéis e livros empilhados. Levei cinco minutos para alcançar a mesa."

Um sorriso fraco surgiu no canto da boca de Lavinia. Liliana revisou sua estimativa da criatividade da mulher para cima.

Jace apoiou-se na mesa com as pontas dos dedos. "Eu espalhei a notícia através de —"

Pedaços de armadura tilintaram e ressoaram pela mesa. Jace lançou um olhar severo para Chandra. A piromante recolheu a pilha de seu equipamento espalhado. "Malshu," disse ela com a boca cheia de um doce. Ele pingava cobertura de canela no mármore. Ela desabou na cadeira ao lado de Liliana, deu uma mordida e começou a prender as peças da armadura. "O que 'cês tavam dizen'?", perguntou ela de lado.

"Eu estava dizendo," Jace disse, com paciência exagerada, "que espalhei a notícia através de Tamiyo de que as Sentinelas estão prontas para ajudar. Ela e outros Planeswalkers passam informações uns aos outros. Eles coletam notícias e histórias em suas viagens. Da mesma forma que os bardos trabalham, mas eles levam notícias de outros planos em vez da cidade vizinha."

"Quantos são eles?", Gideon perguntou, apoiando o queixo em uma das mãos. "Com que frequência se reúnem?"

Jace balançou a cabeça. "Eles não são organizados como nós. É informal. Praticamente fofoca. Mas eles se movem com frequência e falam com muita gente. Se alguém quiser ajuda, eles nos mencionarão. Se alguém precisar de ajuda, eles nos farão saber." Ele parou e olhou para cada um deles. "Isso já deu frutos. Alguém nos procurou. Ele está esperando lá fora."

Gideon sorriu e sentou-se mais ereto em sua cadeira, que rangeu com a mudança de peso. "Trabalho excelente, Jace."

Jace assentiu. "Nosso convidado é Dovin Baan. Ele é Ministro de Inspeções de algum tipo de festival de inventores em Kaladesh." Um calor floresceu à direita de Liliana. "Lavinia, poderia deixá-lo entrar, por favor?"

Ministro. Hum. Liliana tirou os pés da mesa, sentou-se ereta e cruzou as pernas, alisando as dobras de seu vestido. Uma ondulação passou por Jace; ele re-invocara a ilusão limpa e arrumada que usava quando ela entrou.

Do outro lado da mesa, Gideon observou os preparativos mútuos pensativamente.

Chandra afundou ainda mais em sua cadeira, puxou seus óculos de proteção sobre os olhos e cruzou os braços apertados sobre o peito.

Arte de Tyler Jacobson

O homem vedalke era alto, fino como uma lâmina de duelo, de pele azul e impecavelmente vestido. Seu traje estava parcialmente envolto em espirais e filigranas de latão, partes das quais sibilavam e tiquetaqueavam suavemente. Ele desceu as escadas com movimentos bruscos e precisos, mãos cruzadas atrás das costas, e Liliana se perguntou como ele conseguia aquilo. Certamente as peças de metal cobrindo suas mangas se enroscariam?

Ele parou ao passar por um quadro, franziu a testa e estendeu a mão para ajustá-lo um pouco para cima de um lado.

"Ministro Baan," Jace disse. "Estes são meus colegas Nissa, Gideon, Chandra e Liliana."

Ao ser apresentada, Liliana levantou-se da cadeira e aplicou um sorriso agradável. Ela fez uma mesura, mantendo os olhos fixos nos de Baan enquanto se abaixava. Os dele eram de um fúcsia febril e inquieto. Um contraste fascinante com seu comportamento frio. "Encantada, Ministro." Seus modos estavam enferrujados, mas ela duvidava que ele estivesse familiarizado com as particularidades da etiqueta da corte de Dominária.

Baan colocou um braço sobre o estômago e curvou-se para ela a partir da cintura, baixando os olhos para o chão à frente dela. "Igualmente, Senhorita Liliana."

"Espero que sua espera tenha sido confortável?", Jace perguntou, indicando uma cadeira vazia na ponta oposta da mesa.

Baan olhou para ela com perplexidade momentânea, mas não fez menção de se sentar. "As acomodações foram toleráveis."

O rosto projetado de Jace não dava indícios do desconforto que Liliana suspeitava estar por baixo. "Bom. Bem. O que as Sentinelas podem fazer pelo senhor?"

"Vim indagar a respeito do assunto discutido em minha correspondência anterior."

Após um momento de silêncio, sem dúvida gasto para decifrar a gramática barroca de Baan, Gideon limpou a garganta. "Desculpe-nos, Ministro. Nem todos aqui viram sua carta."

Baan inspirou lentamente. "Ah. Muito bem. Farei uma recapitulação." Cruzando as mãos atrás das costas, ele começou a andar de um lado para o outro na ponta da mesa.

"Tenho a honra de comparecer diante de vós como um representante oficial e devidamente designado do Consulado de Kaladesh. Naturalmente, instruí-me sobre os meios de governo em Ravnica; vosso sistema de 'guildas' rivais." Baan pronunciou a palavra com delicadeza, como se fosse algum doce raro que nunca encontrara antes. "Nosso Consulado apresenta um contraste. É unificado; centralizado; meritocrático. Todos os recursos são administrados e distribuídos pela aplicação racional e igualitária da lei. Alcançamos uma sociedade na qual ninguém passa necessidade ."

O braço direito de Liliana parecia queimado de sol. Ela olhou para Chandra. Uma névoa de calor dançava sobre a cabeça da mulher mais jovem. Mechas rebeldes de cabelo cor de cobre erguiam-se e balançavam na corrente de ar ascendente. Mas ela estava silenciosa, rígida, os músculos de sua mandíbula ondulando enquanto ela cerrava os dentes.

Liliana silenciosamente deslizou sua cadeira para a esquerda.

"Seis meses atrás," Baan continuou, "o Consulado agendou uma Feira de Inventores na cidade capital de Ghirapur. Ela deve começar na manhã seguinte. Haverá exposições de artifícios em uma variedade de campos. Concessão de bolsas para trabalhos excepcionais."

Baan permitiu que os cantos de sua boca se curvassem para cima, levemente. "Foi meu prazer inspecionar pessoalmente todas as submissões quanto à segurança dos visitantes. Se me permitem dizer, acredito que os juízes têm muitas escolhas difíceis a fazer. Estou confiante de que pelo menos um de nossos luminares conseguiu criar uma ordem inteiramente nova de artifício."

Ele parou diante dos livros empilhados ao longo da parede e tocou no metal de sua peça de ombro. Um conjunto de lentes girou para o lugar diante de seu olho esquerdo. Ele espiou através delas por um momento, franziu a testa e passou um dedo fino pela superfície da prateleira.

"Nas últimas semanas," ele continuou, tirando um lenço do bolso ao girar sobre os calcanhares, "os preparativos foram repetidamente interrompidos por vândalos e descontentes. Meus arranjos de segurança evitaram, até agora, quaisquer baixas." Ele limpou o dedo com o lenço, dobrou cuidadosamente o pano em quatro e o deslizou de volta para um bolso. "No entanto, os esforços para descobrir e eliminar a fonte desta agitação têm sido menos bem-sucedidos."

O conjunto de lentes de Baan voltou para uma posição de armazenamento sobre sua placa de ombro. "Isso é tudo."

Gideon limpou a garganta. "Então, para ser claro, o senhor quer que as Sentinelas forneçam... segurança?"

"Para erradicar a fonte desses ataques?", Jace sugeriu.

Baan olhou de um para o outro e inspirou como se tivesse sentido o cheiro de algo vindo da sola de um sapato. "Exatamente," disse ele. "Conforme declarado em minha correspondência original."

"Quem são essas pessoas?", Gideon perguntou. "Por que querem interromper um festival ?"

Baan inclinou a cabeça. "Uma pergunta lógica, Senhor Gideon. Lamento não haver resposta lógica para sua indagação. As queixas dos renegados existem em grande parte no espaço febril entre suas próprias orelhas. A objeção mais significativa que conseguem reunir é que a distribuição igualitária a todos pelo Consulado é, de alguma forma, 'injusta' para eles pessoalmente. Simplificando, eles sentem que têm direito a mais do que sua parte justa. Quando o Consulado se recusa a satisfazer seus desejos egoístas, eles recorrem à sabotagem de propriedade governamental e ao roubo de recursos apropriados para o bem comum."

A cadeira de Chandra tombou para trás enquanto ela se levantava num salto. Liliana esticou um braço e impediu que ela batesse no chão enquanto a piromante se afastava pisando forte, deixando um rastro de ar turvo pelo calor e faíscas.

"O que você está — ?" Gideon começou, mas esquivou-se das mãos trêmulas de Chandra quando ela passou por ele. Ela saltou as escadas de duas em duas, rosnando obscenidades de fazer os olhos arderem.

Os olhos de Baan a seguiram, suas sobrancelhas arqueando-se em direção ao céu. "Confio que ela esteja ciente de que isso não é anatomicamente possível?"

Jace limpou a garganta, alto demais. "Ministro Baan?" O vedalke voltou-se para a mesa enquanto as pesadas portas da biblioteca se fechavam com estrondo. "Algum de seus renegados é um Planeswalker ?"

"Não que eu saiba."

Gideon balançou a cabeça: "Então não vejo como podemos ajudar. Sinto muito, mas —"

"Espere." Jace inclinou-se para frente. "Ele disse que não sabe . Podemos provar de uma forma ou de outra."

Baan fechou seus olhos brilhantes de febre e apertou a ponte do nariz entre os dedos finos. "Cavalheiros, perdoem minha presunção. Qual de vocês toma as decisões por este grupo?"

Jace e Gideon olharam um para o outro.

"Bem..."

"Uh..."

"Gideon é o comandante de campo..."

"Jace é o administrador..."

"Mas nós dois..."

"Mas nenhum de nós..."

Baan estava segurando a cabeça como se tivesse uma enxaqueca.

"Ministro Baan," Liliana interrompeu. Ela levantou-se com um ostensivo farfalhar de seda e renda, e exibiu seu sorriso mais desarmante. "O que preocupa meus... colegas é o foco de nosso grupo. As Sentinelas foram formadas para impedir que pessoas como nós — Planeswalkers — interfiram com outros. Problemas de fora , em outras palavras. Parece que seus problemas vêm de dentro . Nesse caso," ela gesticulou com fingida impotência, "nossas mãos estão atadas."

Baan soltou um suspiro lento e aliviado. "Ah. Obrigado, Senhorita Liliana. Sua posição está abundantemente clara para mim agora. Eu não compreendia totalmente as restrições sob as quais vocês operam. Naturalmente, não posso esperar que violem as leis que regem sua organização." Ele curvou-se para ela novamente. "Minhas sinceras desculpas. No futuro, me esforçarei para ser mais minucioso em minhas pesquisas. Se me permitirem, partirei agora."

Jace encarou Liliana de boca aberta, irritação e espanto batalhando em seu rosto. Impagável .

"Uh, espere aí," Gideon levantou-se num salto. "Ministro, o senhor deve pelo menos ficar para o jantar."

Baan olhou para ele como se tivessem lhe crescido várias cabeças adicionais. "Senhor Gideon, mesmo que eu considerasse aceitável abusar ainda mais de sua hospitalidade, sou imensamente necessário em Kaladesh. Não tenho dúvidas de que, desde que parti, ocorreram vários atos de sabotagem."

Gideon sorriu para Baan. "Viagens entre planos podem ser exaustivas, e o senhor já fez uma hoje. Não poderíamos deixá-lo ir de estômago vazio. Regras de hospitalidade, digamos assim. Enquanto preparamos tudo, eu poderia lhe dar um tour pela casa do Ja— pelo nosso quartel-general."

Baan olhou-o de cima. "Garanto-lhe que minha condição física está dentro dos limites aceitáveis para alguém de minha idade e profissão, embora não acredite que o assunto seja de sua conta. Ainda assim. Se é vosso costume fornecer sustento a um convidado que parte, eu o respeitarei."

"Excelente!" Ele se moveu para dar um tapinha no ombro do Ministro, mas conteve-se e disfarçou o instinto como um alongamento desajeitado.

Lavinia limpou a garganta. "Pacto das Guildas. Antes que seus associados partam. O outro assunto?"

Gideon parou. "Outro assunto?"

Jace fez uma careta. "Enquanto eu estava fora em Zendikar e Innistrad, alguns membros influentes do Senado Azorius foram... eliminados."

"Certamente uma preocupação," Gideon disse. "Mas o que isso tem a ver com —"

"Você disse 'eliminados'," Liliana interveio. "Não 'mortos'."

Jace assentiu. "Eles foram petrificados. Transformados em pedra." Ele hesitou. Liliana ergueu as sobrancelhas. Jace sem palavras? Que intrigante. "Cerca de um ano atrás, havia uma assassina górgona operando em Ravnica. Uma górgona planeswalker, com rancor contra os Azorius. Eu a detive, mas... a irritei."

"Você tem tanto jeito com as damas," Liliana disse.

"O ponto é," Jace disse, "ela jurou que voltaria algum dia."

Gideon esfregou o queixo, os olhos desviando-se para Lavinia. "Hum. Alguma pista?"

"Ainda não," Lavinia disse.

Jace virou-se para Gideon. "Gostaria que você investigasse isso."

Ele balançou a cabeça. "Você é a melhor escolha, Jace. Verifique isso e relate para mim."

Os olhos de Liliana alternavam de um para o outro. Tão feliz por ter seu próprio lugar. Embora, se as coisas algum dia chegassem a uma votação em grupo, isso tornava mais fácil inclinar as coisas na direção que ela desejasse.

"Você não tem ideia de quanto eu gostaria de cuidar disso eu mesmo," Jace disse. Houve um leve ranger de couro enquanto a mão enluvada de Lavinia se apertava em sua bainha. "Eu tenho papelada." Ele cuspiu a palavra como uma obscenidade. "Gideon, eu não vou... não é uma ordem, está bem? É apenas algo que precisa ser feito. Eu não posso fazer isso sozinho, e acho que você trabalharia bem com os Azorius. Melhor do que Liliana, de qualquer forma."

"Oh, ele tem razão sobre isso," Liliana disse, suavemente. Ela tinha certeza de que eles ainda teriam seus cartazes de procurada de quatro anos atrás, quando ela e Jace trabalharam para o Consórcio criminoso de Tezzeret. Estranho considerar quanto as coisas haviam mudado desde então. Agora Jace era aquele a quem os Azorius recorriam em busca de ajuda, e ela era mais poderosa do que a guilda jamais poderia lidar.

Ela colocou a mão sobre o bolso oculto onde guardava o Véu de Correntes. Não que precisasse se certificar de sua presença. Podia sentir a frieza dele contra sua coxa e, quando sua concentração falhava, os sussurros dos espíritos Onakke que o possuíam vinham dos cantos mais escuros da sala.

"Faz sentido," Gideon disse, assentindo lentamente. "Tudo bem. Lavinia, gostaria de um resumo do que os Azorius sabem."

A guarda pareceu escandalizada. "Um resumo? Capitão Jura, os depoimentos das testemunhas somam vários milhares —"

"Sou novo aqui." Ele deu-lhe um sorriso fácil. "Preciso contar com sua experiência. Sei que é pedir muito, mas poderia conseguir algo para mim até hoje à noite? Mesmo um pouco seria ótimo."

Lavinia ficou desconcertada sob o olhar dele. "Com certeza, senhor."

"Obrigado, Lavinia," Gideon gesticulou para Baan e moveu-se em direção à porta no extremo oposto da sala. "A equipe da cozinha de Jace é incrível. Vantagem de ser o Pacto das Guildas, aparentemente. O que o senhor prefere?"

Jace abandonou sua ilusão de calma e lançou um olhar severo para o sorriso de Liliana.

"Fico satisfeito com um pedaço de pão ázimo, um corte fino de carne e água."

Uma risada ruidosa. "Podemos fazer melhor que isso!" Eles dobraram um corredor.

Lavinia saiu pisando forte, fazendo anotações em um pequeno bloco.

Estavam sozinhos novamente.

Liliana colocou-se entre a mesa e a porta do escritório de Jace enquanto ele recolhia sua papelada. Ele franziu a testa ao vê-la esperando, baixou o queixo e passou por ela olhando para o horizonte. Ela sorriu benignamente. Magnanimamente. "No futuro, meu querido, talvez você devesse deixar a fala comigo?"

"Eu odeio quando você faz isso," Jace disse, baixo e mais frio do que ela achava que merecia. "Quando você entra e assume o controle. Como se fosse dona de tudo e de todos. E depois espera que eu lhe agradeça." Ele virou o ombro para ela e passou por cima.

Suas palavras saíram por reflexo, espontâneas; dor por dor. Ela soprou no espaço que se fechava entre eles: "Eu me lembro de quando você gostava disso."

Então ele se fora, deixando para trás apenas suas palavras furiosas, cada uma um prego de gelo martelado em seu coração.

Bem, droga. Lá se fora seu bom humor. Ela passou a mão sob um dos olhos (apenas para ter certeza, nada estaria lá jamais), então empertigou os ombros e ergueu o queixo. Para Grixis com ele, então. Vamos ver para onde Chandra saiu tempestuosamente. Isso pode ser divertido.

Ela virou-se para as escadas e notou que a cadeira de Nissa estava vazia. A elfa partira tão discretamente quanto chegara.

Foi apenas quando estava na metade do caminho para o segundo andar que Liliana percebeu que Nissa não dissera uma única palavra durante toda a reunião.

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Continuo desferindo socos.

Os solavancos sobem pelos meus braços, irregulares, em staccato. O saco de pancadas de areia do Gids balança e vacila sob os golpes.

Se ele estivesse aqui, estaria me dizendo para controlar meu ritmo, manter meus braços retos, usar jabs curtos e controlados, então acho que é um azar meu que ele esteja ouvindo aquele idiota do Consulado em vez disso.

Feira de Inventores? Que porcaria. Eles mataram os melhores inventores de Kaladesh. Baan e o tipo dele. Os Cônsules e suas malditas regras estúpidas.

Agora eles estão tentando caçar outra pessoa. O filho de outra pessoa. Talvez a de outra pessoa —

A lona do saco de pancadas do Gids irrompe em chamas.

"Ah, porcaria!"

Deve haver — ele deve ter água aqui. Ele é tipo o rei dos oito copos por dia. Eu varro a sala com o olhar. Pesos. Almofadas de chão para luta. Aquela bola grande que eu não devo jogar no Jace de novo. Mais pesos. Um suporte de coisas esquisitas que ele nunca explicou. Mais pesos diferentes. Ali!

Eu deslizo pela mesa e agarro o balde abaixo da janela. Tem um cheiro estranho. Talvez ele mergulhe a cabeça nisso, não sei. Só preciso da água.

Atrás de mim, a lona estoura e a areia sibila pelo chão.

Ah, droga.

Eu despejo o balde sobre os retalhos de tecido flamejantes.

Isso é uma grande pilha de lama. Será que vai estragar o chão? Enfio a ponta da minha bota e traço uma linha na bagunça. Talvez eu devesse fazer um castelo de areia.

Eu odeio isso. Odeio a parte de mim que quebra as coisas de gente legal. Mesmo que o Gids esteja sendo legal com uma das pessoas que matou meus —

Meus olhos estão ardendo de novo. Lardo o balde e os esfrego. Faíscas e brasas flutuam para longe.

Talvez o Gids mereça totalmente. Que se dane o saco de pancadas dele.

Por que eu estou aqui? Eu não pertenço a este lugar.

Eu devia voltar para Regatha. Fazer aquele ritual estúpido onde você passa a noite inteira vendo uma tora queimar. Pouco a pouco ela começa a brilhar. Vermelho, laranja, amarelo, subindo pela casca. Brilhando e enfraquecendo de novo. Depois torna-se cinza e cai em cinzas. "Isto é o que significa ser consumido pela divindade," disse a Madre Luti. "Transformado." A vida antiga cai e blá blá blá.

Qual divindade? Os Eldrazi? Os caras que ferraram o Gids? Eu não consigo acreditar num deus que queima todo mundo que toca. Um deus tem que ser melhor que isso.

Eu me lembro do lago.

Por trás do poder que tirou a força das minhas pernas.

Estava lá. Eu vi. Eu juro que vi.

Ela estava flutuando no verde e eu conseguia respirar lá.

É onde eu quero estar.

Eu preciso estar lá.

É uma coceira que eu tenho que coçar. Subindo pela minha espinha e sob meu cabelo. Tenho que ir agora.

Meus pés já me levaram até a porta. Não, para. Não posso simplesmente entrar e... quer dizer, estranho, né? Rude. Eu não quero que ela pense que eu sou do tipo que entra e... tá, talvez eu seja do tipo que faz isso, mas estou tentando muito ser educada agora. Só preciso de alguns minutos para —

Droga, já estou subindo as escadas. E estou marchando pelo corredor como uma louca porque minhas pernas estão tremendo e meu cérebro está fervendo. Isso é estúpido. Vou parar de colocar um pé na frente do outro. Vou dar meia-volta. Vou descer as escadas na ponta dos pés, bem quietinha, como um ratinho bebê. A qualquer segundo agora. Droga, Chandra, não abre essa porta. Para de olhar boquiaberta para as flores gigantescas que não estavam aqui um mês atrás. Chandra má, nada de doce de canela. Dá meia-volta, volta lá para baixo e nunca mais pensa em fazer is —

"Chandra?"

PUUUUUUUUTZ...

"O-oi. Nissa? Você tá aí?" É, isso aí. Casual. Natural. Seja toda descontraída, como a Liliana. Nada afeta a Liliana.

"Quer dizer, hã, claro que você tá aí. Porque você acabou de falar. Quero dizer, uh, você tem um minuto? Talvez?" Tudo bem, você pode parar de falar agora.

"Sim. Estou atrás das kass— atrás das flores roxas."

Minhas mãos estão tremendo. Afasto os galhos e caminho em direção à voz dela. As folhas parecem lixa. Só mais um pouc —

Ela está sentada de pernas cruzadas sobre um pedaço de musgo. O cabelo escuro solto, caindo em ondas sobre os ombros, espalhando-se pelo colo. Ela teceu florzinhas ao redor do topo da cabeça. Borboletas dançam ao redor dela. Ela não lhes dá atenção. Um feixe de luz entre as folhas a pinta em um sol dourado. Ela cheira como a melhor lembrança de infância de qualquer pessoa.

Ela não tirou os olhos de mim. Apenas senta. Ouve. Espera. Isso está me dando coceira e acho que estou suando.

Quando foi a última vez que tomei banho? Os elfos não deviam ter super narizes de cachorro ou algo assim?

Além disso, estou parada curvada sob um galho, tirando folhas da cara como uma completa idiota. "Uh. Posso sentar?" Estou respirando pela boca, lutando por ar, tentando não fazer barulho.

"Por favor." Ela gesticula. O braço dela se move como água. Apenas flui.

Então eu consigo tropeçar e cair de cara no chão.

"Oh!" ela estende a mão, mas seus dedos parecem ricochetear em uma bolha invisível a um palmo de mim. "Tem uma raiz..." Ela puxa a mão de volta, aninhando-a com o outro braço.

"Tô bem!" eu solto contra a terra, depois rolo de joelhos e agarro minha cabeça para ter certeza de que realmente estou. Sangrar pela cara seria super embaraçoso durante esta conversa. "Você tá bem?"

Ela inclina a cabeça para o lado. "Eu..."

"Ha-ha-ha! Claro que tá. Desculpa. Eu sou a que caiu de cara." CALA A BOCA CALA A BOCA.

Tento sentar como ela, mas a armadura nas minhas canelas enterra nas minhas coxas. Eu me encosto numa árvore, estico as pernas, cruzo-as nos tornozelos.

Espera! Meus pés estão quase tocando os joelhos dela. Eu não devia fazer isso. Ela pode não gostar. Mudo o peso, aponto-os para o lado.

Ótimo. Agora tenho uma raiz me espetando a bunda.

Ela apenas me observa. Silenciosa. Paciente.

Eu dou uma risadinha e tento tirar o cabelo da testa suada. Estou fervendo sob o olhar dela, a pele derretida. "Acho que estou esmagando suas flores."

"Elas ficarão bem." Os olhos dela são tão profundos. Quando eu era criança, havia essa pedreira fora de Ghirapur. Ela tinha enchido de água, e musgo e coisas verdes flutuantes cresceram por toda ela. Profunda, preta, imóvel. Se você caísse, nunca chegaria ao fundo. Era o que diziam, de qualquer maneira. Estou parada na borda, com medo demais para pular.

Ela limpa a garganta. "Posso ajudar com alguma coisa?"

Eu engulo em seco, mas minha garganta secou e preciso de algumas tentativas. "Eu — eu só achei que... Sabe aquela vez em Zendikar, quando nossas mentes se tocaram? Eu senti a raiva de Zendikar, né? O poder de um mundo inteiro. O seu mundo. E foi incrível. A coisa mais sensacional de todas. Mas por trás de Zendikar, por trás da raiva e do poder, eu senti você. Sua mente. E era muito tranquila, sabe? Você meio que... me deu um centro, eu acho. Você estava toda calma e conectada."

Então meu cérebro desliga, mas minha boca continua andando sobre o penhasco.

"Quando toquei aquela sua parte, foi como quando você tá nadando, e você só deita e flutua, olhando para o céu. Nada embaixo. Só azul e ar em cima, e tudo tá fresco e parado. Você consegue ver até o fim, e não precisa se preocupar..."

O QUE ESTÁ SAINDO PELA MINHA CARA?

Passo a mão pelo meu cabelo suado. "Ha ha, nossa. Você deve achar isso idiota, né? Eu chego aqui e começo a soltar poesia ruim —"

O menor dos sorrisos. "Eu achei eloquente."

Agarro uma mecha do meu cabelo e puxo até doer. Isso vai me manter focada, aposto. "Enfim. Eu estava pensando que tem vezes em que eu fico super pi— uh, com muita raiva, e geralmente algo explode. Mas eu acho que preferia ser capaz de tocar aquele lugar de novo. Como sua mente parecia. Calma. Centrada . Quero dizer..." Cometo o erro de olhar para cima e os olhos dela estão ali, observando, e todo o ar na minha garganta entala e se recusa a se mover.

Luto para conseguir respirar. "Acho que o Jace preferiria isso. Para eu não detonar a casa dele. Quer dizer, ele tem essas coisas caras por todo lado."

"Posso te ensinar a meditar, se desejar."

"Uh, é." Vamos nessa. Parece bom.

As sobrancelhas de desenho dela ficam todas tortas. "Você não está bem? Parece ansiosa."

O jardim inteiro está cheio de coisas prateadas brilhantes e flutuantes, passei a última hora tentando não explodir a casa do Jace, e meu coração está batendo contra minhas costelas como se eu tivesse acabado de correr uma maratona. TÔ ÓTIMA OBRIGADA POR PERGUNTAR.

Em vez disso, solto: "É só que, você esteve me encarando esse tempo todo."

"Você está falando comigo. Não deveria prestar atenção?" Eu juro que o lábio dela treme. "Isso não é — não é educado no seu mundo?" Ela desvia o olhar pela primeira vez, e uma das mãos puxa uma orelha-haste de grama. O pálido de sua bochecha está tingido com a cor do pôr do sol.

QUE DIABOS EU ACABEI DE DIZER?

"O quê — uh, não! Quero dizer... Desculpa!"

Estou de pé, batendo a cabeça em um galho baixo. "Ai! D-desculpa. Isso foi idiota." Eu me afasto, agarrando a cabeça, encolhendo os cotovelos para esconder meus olhos ardendo, tropeçando na mesma maldita raiz, tremendo, ofegando por ar, estômago revirando. O que eu fiz, o que eu fiz, o que eu fiz?

Ela está de pé num piscar de olhos. "Espere."

"Eu te deixei desconfortável. Eu devia ir. Eu só vou embora. Desculpa. Tchau. Desculpa."

"Chandra, por favor..."

Eu me viro e corro, deixando faíscas para trás, árvores e flores borrando ao meu redor, batendo na porta ao sair.

... Acho que vou vomitar.

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"Que desastre," Liliana murmurou. Ela encostou o quadril na porta do ginásio do Pãozão. Após a cena lá embaixo, ela esperava danos por fogo. O castelo de areia foi uma surpresa.

A voz de Gideon trovejou das escadas atrás dela: "Aqui em cima é onde eu me exercito. Tenho tentado treinar a Chandra e o Jace, para que todos sejam capazes de manusear uma arma de verdade. Sabe como é. Só por precaução."

"Tenho plena confiança de que se provará igualmente fascinante quanto o resto de suas instalações," Baan respondeu, exausto.

ESTRONDO.

Ela assustou-se, virando-se a tempo de ver Chandra descer disparada por Baan e Gideon, um cometa de cabelos ruivos deixando um rastro de brasas pelos olhos.

"Malzporexplodirsuaparada ," ela disse ao passar, as palavras flutuando como se viessem de debaixo d'água.

Então ela se fora, o trovão de seus passos retumbando escada abaixo.

"Cuidado! Você pode cair!" Gideon gritou atrás dela.

Liliana entrou no vão da escada e olhou para cima. Nissa olhava para baixo com as mãos dadas e inquietas junto ao peito, lábios entreabertos em uma confusão muda, as orelhas longas caídas.

Liliana balançou a cabeça e começou a descer as escadas. Alguém tinha que limpar a bagunça. Chandra era fácil de ler. Fácil demais. No entanto, ela comandava um poder incrível. Uma combinação conveniente.

O sol estava se pondo, assentando-se em uma tarde longa e quente. Nuvens baixas de ardósia a leste prometiam chuva noturna, do tipo que tornaria o ar de verão mais denso em vez de mais fresco.

Não que o calor a incomodasse muito. Poderes necromânticos tinham benefícios raramente mencionados em brochuras. Por exemplo, uma temperatura corporal baixa o suficiente para alarmar curandeiros. Tornava os verões muito mais agradáveis, e sua respiração gélida em vez de quente. Jace fora sobrenaturalmente sensível a isso. O menor sopro de ar em seu pescoço fora suficiente para despertá-lo do sono.

Ela franziu a testa e firmemente afastou a memória da mente.

Chandra não foi difícil de encontrar. Deixando de lado o fato de que ela tinha tendência a esbarrar em pessoas e objetos quando corria a toda velocidade, seu cabelo estava fumegando, em uma cor sutilmente diferente dos carrinhos de comida espalhados pela praça. Liliana nem sequer precisou invocar uma sombra para ajudar na busca.

Ela estava agachada na metade de um beco a três quarteirões da casa de Jace, sua entrada escondida atrás de um vendedor de comida rouco cujo carrinho cheirava a porco barato e repolho cozido demais. Encolhida com os joelhos no queixo, de costas para uma parede de tijolos, ela puxava mechas de seu cabelo cor de cobre.

Sussurros sibilantes ecoavam na boca do beco: "Burra, burra, burra..."

Isso não serviria de jeito nenhum. Liliana virou a esquina imperiosamente, cuidadosa para erguer as saias e mantê-las longe das poças com tons de arco-íris. "Ora, Chandra, aqui está você."

Ela levantou-se num salto, limpando o nariz com as costas de uma mão trêmula. "Uh, oi. O que — o que você está fazendo aqui?"

"Eu estava a caminho de fazer umas compras," Liliana improvisou. Ela provavelmente acreditaria. Irmãzona Liliana, levando o estilo de vida glamoroso e tudo mais.

Ela fungou e lançou um olhar cético. "Num beco ?"

"Nem todos fazemos compras nos mesmos lugares," Liliana disse. "Quer me acompanhar?"

Chandra olhou por cima do ombro, para a outra extremidade do beco, onde as sombras da multidão tremeluziam e dançavam sob a luz da tarde. "Tem alguém com você? O Gids?"

"Céus, não. Ele não seria visto nem morto fazendo compras comigo."

Ela sorriu. "Mas se fosse , você o ressuscitaria para carregar suas malas!" Ela fez uma pausa. "Você acabou de me deixar fazer uma piada de necromante?"

"Só desta vez. Porque eu gosto de você." A rigidez nos ombros de Chandra relaxou, apenas um pouco. Bom.

Chandra limpou o nariz novamente, então distraidamente esfregou a mão para limpá-la no xale amarrado em sua cintura. "Então, o que você vai comprar, afinal?"

"Ah, nada de terrivelmente importante," Liliana disse, despreocupadamente. "Uma garrafa de vinho, meia dúzia de gatos mortos — com sete a dez dias de decomposição, de preferência — velas com aroma de lavanda, uma serra de ossos de trinta centímetros..."

A boca de Chandra moveu-se por um momento antes das palavras saírem. "Eu... não consigo dizer se você está brincando?"

"Então suponho que terá que vir comigo e ver. Podemos conversar no caminho."

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Tudo era escuridão. Frio. Silêncio. A umidade a envolvia. Um calor distante filtrava-se para baixo, o sopro mais leve na base de suas costas. Ela esperara uma eternidade, dormindo sob luas de gelo quebrando e chuva torrencial, sentindo a pressão de vidas rápidas passando por cima.

Era hora de se mover.

Lentamente ela se desenrolou, empurrando a maciez que a pressionava. Seus membros se esticaram, rangendo e tremendo de uma eternidade passada encolhida no escuro. Ao redor, ela podia sentir seus irmãos se agitando. O calor em suas costas estava batendo em todos eles, chamando. Era hora de se encontrar, finalmente.

... Nissa...

Ela empurrou o peso acima dela. Esforçou-se. Dedos dos pés pálidos e finos afundaram-se nas profundezas de veludo abaixo de seu ventre, onde o frio longo ainda espreitava e rosnava, estendendo facas de cristal claríssimo por espaços desconhecidos. Ela estremeceu com o esforço.

Talvez ela não conseguisse. Talvez ficasse aqui embaixo para sempre. Perdida, colapsando de volta em uma casca esquecida. Não morta, mas nunca-viva.

... Nissa?

A escuridão rompeu-se sobre ela.

Ela estremeceu, pernas doloridas e instáveis empurrando para cima, braços tremendo conforme se desdobravam de seu torso. Cada movimento era agonia. O calor batia, fazendo o sangue sufocado pelo frio fluir, enchendo seus membros de força e cor. Sua cabeça ergueu-se em direção à luz, o cabelo espalhando-se em radiância.

"Nissa?"

Arte de Zack Stella

A palavra estalou sobre ela vinda de mil léguas de distância.

Ela foi arrancada no intervalo de uma respiração.

O mundo passou velozmente. Amontoados de madeira e fungos crescendo uns sobre os outros e através de si, respirando juntos; terras desoladas de poeira sibilante, comendo pedra pacientemente; fileiras de nuvens murmurantes abrindo-se para a terra abaixo; fileiras de pedra em forma de lâmina de machado rasgando o céu; águas profundas, frias e vazias.

Ela piscou para Gideon, momentaneamente desconcertada por seus sons de fera grunhindo — palavras , alguma parte dela corrigiu — e pelas formas de clava — dedos — acenando diante de olhos que subitamente viam luz em vez de calor. "Eu..."

Eu não sou uma semente.

Nissa. Eu sou Nissa de novo.

Ele a olhou expectante. A chuva batia contra as janelas da biblioteca de Jace. Suas palavras saíram quebradas e rangentes: "Sinto muito, Gideon. O que você disse?"

Ele mostrou os dentes. Um sorriso. "Achei que você tivesse caído no sono por um minuto."

"Eu estava..." Uma flor lutando para sair da tundra primaveril a meio mundo de distância, deleitando-se com o primeiro toque do sol. Ela buscou em seu rosto gentil e aberto, mas não encontrou capacidade de compreensão. Nenhum contexto ao qual pudesse apelar. Nenhuma palavra que pudesse explicar.

"... Eu estava apenas pensando." Ela olhou para o colo, onde uma tigela de comida permanecia intocada.

Ele espetou um pedaço de carne em seu prato com um utensílio — garfo, ela lembrou — que quase se perdia entre seus dedos grossos e calejados. "Eu estava contando ao Ministro Baan o que você fez em Zendikar. Você e a Chandra."

Chandra. O sangue correndo quente por suas bochechas sardentas, os movimentos rápidos e nítidos de suas mãos. Elas se moviam como pássaros.

Nissa alimentava pássaros às vezes, no jardim. Eles espiavam as sementes em sua mão em concha, famintos e necessitados, mas voavam para longe quando ela se movia do jeito errado.

Ela se movera do jeito errado, e Chandra voara.

Todos os seus sentidos e instintos estavam desregulados.

Ravnica a golpeara desde que chegara, o hálito quente e constante de uma fera na nuca. O sol era de um branco cegante, os cheiros espessos e desagradáveis. Cada superfície parecia ter bordas feitas para cortar e rasgar.

Uma infinidade de rostos circulava pelas ruas, estranhos e aterrorizantes. Mais rostos do que ela imaginava que pudessem existir. Eles se fundiam uns aos outros, tornando-se uma única monstruosidade de mil cabeças que passava por ela aos encontrões. Uma caminhada ao redor do prédio a deixava suada e tremendo. Ela tinha que se agachar e estudar as flores solitárias que lutavam entre as pedras rachadas, tinha que ignorar as formas ruidosas que empurravam, chutavam e cutucavam.

Não havia silêncio. Bigornas discordantes ressoavam de dia. Banquetes intermináveis sibilavam e rugiam de mil fornos. O lamento de sirenes e o estalido de mana à noite. Um milhão de vozes gritando constantemente, chorando de dor e luto, luxúria e raiva, sobrepondo-se em um balbucio. Ela não ouvia o sussurro do vento entre as árvores há três meses. Ela não ouvia o nada.

Os rostos. O barulho. O milhão e um cheiros desconhecidos que se instalavam no fundo de sua garganta para sufocá-la. Quando era demais para suportar, ela se encolhia no jardim, cobria os ouvidos e as árvores a mantinham segura.

Tudo aqui era duro, brilhante e afiado.

Chandra. Olhos como amanheceres. Cada pensamento passageiro escrito em negrito em seu rosto. Destemida.

Oh, Zendikar, como eu a ofendi? O que eu fiz?

Mas seu amigo — seu melhor amigo, seu companheiro constante por quarenta anos — não podia responder. O canto de sua mente onde Zendikar vivera estava silencioso e vazio. Há tanto que não entendo. Eu queria que você estivesse aqui.

Ela nunca estivera entre tantos, e nunca estivera tão sozinha.

"Nissa?"

"Sim." Ela ergueu um pequeno fruto vermelho de sua tigela. Tomate, Jace o chamava. Pele esticada e cheia de água, com um leve cheiro de ácido. "O que o senhor queria saber?"

Baan depositou seus utensílios sobre as bordas do prato em um ângulo tão preciso que seus olhos doíam, então uniu as pontas dos dedos. "Satisfaça minha curiosidade, se me permite, Senhorita... Nissa." Ele franziu a testa conforme o título o fazia sibilar. "Tenho entendido que você possui a habilidade de perceber e manipular padrões naturais de magia. Através da terra, creio eu?"

A filigrana dourada sobre o casaco dele tiquetaqueava suavemente, um contraponto ao relógio no outro lado da sala. Ela podia ouvir a energia dentro dela fervendo e estalando, imperceptível para Gideon, e talvez para Baan; as orelhas dele eram tão pequenas quanto as de um humano.

"Linhas de força," disse ela. "Sim."

Suas narinas se contraíram conforme ele inspirou bruscamente. "Uma inversão fascinante. Em meu mundo, energias semelhantes fluem pelas camadas superiores do céu . Éter, é como chamamos. Sifonamos esse poder — em picos de montanhas ou de ornitópteros — armazenamo-lo dentro de dispositivos mecânicos e o liberamos para vários usos produtivos. As pessoas fazem o mesmo em seu mundo?"

Pedras em forma de adaga flutuando no ar, dobrando o mundo. Uma teia, uma gaiola... uma treliça.

Uma onda de náusea a percorreu.

"Não," disse ela para sua tigela, os ombros se encolhendo. "Alguns fizeram, mas eles..." Os contos amontoavam-se contra o fundo de seus dentes. Por onde ela poderia começar? "A terra não é — nós pedimos. Não tiramos."

"Pedir?" Baan ecoou, virando a palavra de lado em sua boca. "Pedir a quem ? Vossas linhas de força são fenômenos de ocorrência natural, certamente?" Sua voz afinou-se com um desprezo salino. A forma de seus olhos mudou, os tecidos se ajustando em ângulos duros. "Você pediria à montanha sua gentil permissão para moldar o ferro em sua raiz? Imploraria à árvore pelo fruto que a sustenta?"

"Sim," disse ela, e nada mais. Colocou o tomate na boca e mordeu. A água jorrou — a luz nítida de um sol branco batendo forte, fileiras de terra escura temperadas com os restos daqueles que se foram antes; caminhos gentilmente arados, o silêncio de elfos e dríades balançando entre eles; inclinando regadores para fazer chuvas breves e emprestadas tamborilarem e tremerem pelas folhas .

Uma vida inteira carregada em uma bocada de polpa doce. Meses de paciência. Obrigada, pensou ela, e engoliu.

Gideon mudou de posição na cadeira, inclinando-se para frente, colocando-se sutilmente entre eles. "Ministro, as coisas são... diferentes no mundo da Nissa."

A porta pesada no fundo da sala abriu-se, e Jace saiu caminhando pesadamente, parecendo exausto. Lavinia flutuou em seu rastro. Quando ele murmurou "Eu realmente precisava de algo para beber," ela colocou uma caneca de chá em sua mão, seu vapor fragrante com limão, hibisco e várias ervas que Nissa não reconheceu. Ele piscou. "Como você sabia...?"

"É meu trabalho antecipar-me ao senhor, Pacto das Guildas," disse ela, secamente. "Devo pedir para alguém reaquecer seu jantar?"

"Não. Obrigado, Lavinia." Ele puxou uma cadeira — carvalho antigo, escuro e gasto por anos de sol. Nissa se perguntou de onde a cadeira viera. Era muito mais velha que a casa. A vida que ela contivera era apenas um sussurro agora, uma sombra projetada em um dia nublado.

O prato de Jace continha alguma massa amarelo-esbranquiçada envolvendo queijo e grãos. Mesmo frio, ela conseguia sentir o cheiro do outro lado da sala. Ele franziu a testa. "Colocaram brócolis nisso?"

"O senhor precisa de ferro," Lavinia disse.

"Eu odeio —"

"O senhor nem vai notar que está lá." A voz dela não admitia discussões.

Baan o observava friamente. "Você sofria bullying quando criança."

Jace tossiu com sua primeira garfada de comida e lutou para engolir. "Eu, uh, não me lembro da minha infância." Uma dúzia de pensamentos não expressos tremeluziram atrás de seus olhos.

O kaladeshiano ergueu as sobrancelhas. "Não é necessário recordar conscientemente um evento para cair em comportamentos habituais determinados pela experiência. Não é inconcebível que alguém possa esquecer sua vida inteira. Eu apostaria com segurança que, se fosse esse o caso, o sujeito ainda tenderia a cometer lapsos de julgamento semelhantes e seria atraído a associar-se com os mesmos tipos de pessoas." Ele acenou com a mão, como a cauda de um boi espantando moscas. "A natureza dos mortais não é tão maleável quanto alguns supõem ingenuamente. Uma pessoa de inclinação religiosa sempre encontrará algo maior que si mesma para depositar sua fé. Um criminoso permanecerá para sempre um criminoso."

Jace pousou o garfo. "Esse é um ponto de vista muito... determinista, Ministro."

Baan piscou, primeiro um olho, depois o outro. Não uma piscadela, mas algum tipo de linguagem corporal única para ele, diferente de qualquer outra que Nissa tivesse visto antes. "O corpo mortal, até mesmo a mente, é meramente uma série de mecanismos sofisticados. É a própria simplicidade observar um mecanismo em ação e tirar as conclusões apropriadas."

Houve um momento de silêncio. Jace limpou a garganta. "Aproveitou o tour?"

Nissa olhou para baixo para sua comida. Retirou um pedaço de peixe no vapor com os dedos e deixou o sabor derreter em sua língua. Corpos de prata viva tremeluzindo sob sombras verdes. A areia da turfa em suspensão, o leve travo de metal. Não era sua primeira língua, mas estava lá do mesmo jeito. Obrigada, pensou ela, usarei o que vocês deram com sabedoria.

A cadeira de Baan rangeu conforme ele se acomodou. "Há uma série de deficiências estruturais e organizacionais das quais acredito ser melhor informá-los. As vigas de sustentação nos níveis inferiores estão rachadas. A aplicação de força suficiente as faria ceder. A disposição da mobília na maioria dos quartos é ineficiente, deixando muitos "bolsões" — se me perdoam a imprecisão do termo — de espaço no chão pequenos demais para terem uso prático. Há dezessete livros que foram devolvidos às prateleiras incorretas nesta biblioteca. Várias lâmpadas no segundo andar carecem de proteção adequada contra correntes de ar..."

"Talvez eu devesse anotar isso," Gideon disse, com um sorriso de lado.

"Eu me lembrarei de tudo," Jace disse.

Baan parou. "Tenho entendido que o incidente no ginásio do Senhor Gideon foi responsabilidade de uma piromante a vosso serviço?"

"'A serviço' pode ser uma expressão forte demais."

"Independentemente das particularidades de vosso arranjo, a falta de medidas de precaução adequadas é deplorável. Possuís uma biblioteca de escopo e seleção admiráveis. Para uma piromante, isso é apenas lenha. Se uma conflagração começasse aqui —"

"Eu tenho... diferenças com a Chandra, mas confio nela para..." Jace fez uma pausa. "Onde está a Chandra?"

Nissa olhou para cima. O lugar habitual de Chandra à mesa estava vazio.

Gideon deu de ombros. "Eu mesmo estive procurando por ela. Precisamos conversar sobre o cuidado adequado com o equipamento alheio. A última vez que a vi, ela estava correndo vinda do telhado —"

O fôlego dela parou.

"— e a Liliana estava seguindo ela."

Jace olhou para cima bruscamente. Lavinia, de vigia junto à porta, limpou a garganta. "Pacto das Guildas. Permissão para relatar?"

"O quê? Sim!" Jace virou-se inteiramente em sua cadeira. "Você sabe onde elas estão?"

Lavinia empertigou-se, quase imperceptivelmente. "Há algum tempo, o Capitão Jura solicitou que eu fizesse alguém seguir a Condessa Vess quando ela saísse."

Jace lançou um olhar severo para Gideon, que deu de ombros. "Necromante. Apenas prudência." Colocou outro pedaço de bife na boca.

Lavinia mudou o peso para o outro pé, fazendo sua armadura emitir um zumbido, um tom que ninguém mais na sala podia ouvir. "Ela contatou a Monja Nalaar —"

Baan inclinou-se para frente na cadeira. Seus olhos se estreitaram.

"Elas passaram a tarde vagando pelo distrito do mercado, depois, ah... caminharam entre os planos."

"Juntas? ", Jace perguntou.

"Sim, senhor."

Gideon pousou o garfo. "Para onde?"

"Não há como sabermos, senhor."

"Nalaar ," Baan disse, suavemente. Ele pronunciou o nome com a mesma enunciação que Chandra usava, e que nenhum dos outros jamais conseguira reproduzir perfeitamente. "Devem perdoar minha consternação. Esse é um nome que não ouço há muitos anos."

Jace empurrou seu prato para o lado e apoiou as mãos na mesa. "Preciso que me explique isso."

"Eu não diria que é um prazer fazê-lo, mas creio ser minha obrigação." Baan cruzou as mãos no colo. "Pia e Kiran Nalaar foram luminares precoces do movimento renegado. Eram criminosos, lamento dizer, envolvidos no roubo e na redistribuição ilegal de recursos de éter do Consulado."

"Eles são parentes da Chandra?", Gideon perguntou. "Eu nem sabia que ela era de Kaladesh..."

"Os pais dela, a menos que eu esteja muito enganado. Doze anos atrás, eles forçaram sua filha — o nome dela não foi registrado — a auxiliá-los em suas operações de contrabando. Não estou familiarizado com os detalhes, mas a garota escapou da custódia quando manifestou habilidades piromânticas perigosas. Os Nalaar tentaram se esconder no interior. Uma caçada humana os localizou em Bunarat, mas, durante a tentativa de prendê-los, a vila foi incendiada. Os três foram reportados como mortos pelo oficial encarregado."

"Doze anos?", Gideon disse, horrorizado. "Mas ela só tem —!"

"Ela seria uma criança ," Nissa disse, suavemente.

Baan abriu a boca, fechou-a novamente e olhou para dentro de si, tamborilando os dedos na filigrana que cobria sua manga. "Por favor, compreendam," disse ele finalmente. "Isso foi realizado sob a autoridade de uma administração anterior. Mesmo então, essas ações foram consideradas... extraordinárias. O oficial encarregado da investigação prosseguiu apesar de uma convocação oficial. Creio que acusações formais foram feitas contra ele pelos gastos."

"Pelos gastos —! ", Jace gaguejou.

"Eu não sei o que os pais dela fizeram," Gideon disse, com a boca cerrada. "Nem me importo muito. Quaisquer que tenham sido os pecados deles, não tiveram nada a ver com a Chandra." Seus olhos estreitaram-se. "Ela é impulsiva? Claro. Eu seria estúpido se não dissesse isso. Mas o coração dela é do tamanho da lua."

Baan entrelaçou os dedos e apoiou o queixo neles. "Senhor Gideon, o éter está no próprio ar que respiramos. Está na chuva que cai na terra e nas folhas das árvores. Só ousamos tocar em tal poder através das luvas do artifício; um milhão de peças de instrumentalidade, cada uma desempenhando com segurança sua função designada. Pela adesão rigorosa a este método, evitamos 87,4% dos acidentes provocados por magos que extraem mana diretamente. Se me perdoam por dizer, piromantes são particularmente propensos a... danos colaterais." Baan inspirou lentamente, os olhos fúcsia dardejando ao redor de alguma imagem que só existia em seus pensamentos. "No passado, piromantes precipitaram... tragédias terríveis. Nem sempre por sua intenção, mas universalmente por sua natureza."

"Então vocês proibiram os fósforos ?", Gideon perguntou, com uma severidade que Nissa não tinha ouvido dele antes.

Baan baixou os olhos. "Posso presumir, baseado em vossas reações, que a Senhorita Nalaar jamais lhes falou sobre isso?"

"Nem uma palavra," Gideon disse. Ele encarou sua refeição inacabada, uma das mãos cerrando-se em punho.

Jace olhou para ele com simpatia: "Ela não confiou em nenhum de nós."

Gideon balançou a cabeça levemente. "Mas ela deveria ter sentido que podia ."

"Essa foi uma escolha dela. Não nossa," Nissa murmurou. Ela apoiou a ponta do dedo na borda de sua tigela e o deslizou, fazendo a cerâmica ressoar. "Todos temos cicatrizes que não queremos que os outros toquem."

Chandra sentara-se à sua frente, com as bochechas ardendo, torcendo hastes de flores nos dedos, pedindo nada mais do que um momento de paz. Por algo que pudesse acalmar o gaguejo frenético, como o de um pássaro, de seu coração. Mas ela se movera do jeito errado. Chandra estremecera e voara.

"Se me permite indagar," Baan disse, "para onde supõe que ela possa ter ido? Certamente ela não poderia ser tão imprudente a ponto de partir para Kaladesh."

Nissa olhou para cima. Jace e Gideon trocavam um olhar. Ambos olharam para ela.

Eles se levantaram como um só.

Jace virou-se em direção à sala das capas. "Eu vou para Kaladesh. Deve ser fácil para mim —"

Lavinia apareceu em seu caminho, uma das mãos apoiada no pomo de sua espada. "De novo?", disse ela, em um tom exausto e decepcionado.

Ele franziu a testa para ela. "Você não pode esperar que eu fique aqui sentado fazendo papelada!"

Ela acenou para Gideon e Nissa. "Eles podem encontrar a Monja Nalaar. Eles não podem ser o Pacto das Guildas."

Gideon colocou uma mão carnuda no ombro de Jace. "Ela não está errada. Pense no quadro geral, Jace. Eu posso cuidar desta. Embora," ele fez uma careta, "não esteja ansioso por isso. Você sabe como ela fica quando alguém lhe diz o que fazer..."

Kaladesh. Ghirapur. Uma cidade de latão e indústria. Como Ravnica, um lugar que nunca dormia, onde o vento cheirava a metal e energias estalando, e marés incessantes de rostos mortais batiam para lá e para cá. Um oceano de estranhos, boquiabertos e sussurrando para ela. Encarando. Apontando. Empurrando.

"Eu vou." As palavras haviam voado antes que ela as pensasse.

Gideon virou-se para ela. "Você tem certeza?" Seus olhos baixaram para os dedos trêmulos dela. "Nissa, você não precisa ir sozinha."

Ela cerrou as mãos em punhos, aquietando-as. "Eu vou para Kaladesh. Baan pode me guiar. Eu vou..."

O quê?

Trazer Chandra para casa? Ela estava em casa.

Tirá-la de apuros? Ela era uma mulher feita. Podia fazer o que quisesse.

Protegê-la? O coração de Chandra era um baloth. Ela não precisava de campeão.

"... Eu ficarei ao lado dela."

Parecia certo.

31 de Agosto de 2016 | Por Kimberly J. Kreines

Tempo de Inovação

Em Kaladesh, a Feira dos Inventores — a interseção entre criatividade e gênio — começou. Inventores migraram para a cidade de Ghirapur para participar do evento de uma vida. Esta é a chance deles de ver e serem vistos, de conquistar os corações da população e dos juízes. A dedicada pesquisadora de éter Rashmi espera fazer exatamente isso; ela precisa que os juízes acreditem em sua criação se espera deixar sua marca e mudar o mundo.

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A esta altura, a cidade de Ghirapur e seus residentes já haviam se acostumado à presença do enorme inquirium semelhante a um besouro. A instalação de pesquisa sofisticada e ampla repousava com suas seis longas pernas de metal dobradas sob o corpo em um canto da praça central de Ghirapur. Onde antes o tráfego parava enquanto os motoristas olhavam boquiabertos para suas protuberâncias metálicas bulbosas e reluzentes e sua antena medidora de éter, agora os passageiros passavam rapidamente mal notando sua presença. O inquirium estivera parado por tanto tempo que uma família de pavões fixara residência ali, aninhando-se em um sulco no segmento que mais se assemelhava à cabeça do besouro. Mesmo quando, aproximadamente uma vez por hora, um chiado borbulhante subia das entranhas do laboratório, emitindo uma série de faíscas estalantes através da torre de exaustão, os pássaros nem se mexiam. A vida se adaptara; Ghirapur reivindicara o inquirium como parte de sua identidade, como tantos outros de seus marcos ecléticos. Quase ninguém mais parava para se perguntar sobre a brilhante pesquisadora que vivia lá dentro.

Rashmi também quase se esquecera deles. Ela quase esquecera tudo, exceto o dispositivo que estava projetando. Apenas alguns meses atrás, o assunto do transporte de matéria tornara-se um tópico quente dentro das sociedades de eterologistas, geralmente contidas. Dentro do pequeno círculo de inventores, passara de uma teoria sobre a qual as pessoas apenas sussurravam a uma obsessão. Mas apenas Rashmi possuía um dispositivo capaz de alimentar tal empreendimento. Seu inovador condensador de éter, que passara quase despercebido quando ela o apresentou pela primeira vez, seria agora lançado aos holofotes como a peça central do transportador. Era como se o condensador tivesse sido feito para esta mesma aplicação, como se ela, Rashmi, tivesse sido feita para este mesmo experimento. Os padrões de éter estavam alinhados, estavam colocando as coisas em seus devidos lugares, correndo com um ímpeto imparável em direção ao clímax.

Ela conseguiria. Ela completaria o dispositivo, bem a tempo para a Feira, bem a tempo para provar ao mundo o que era possível.

"Pinça." Rashmi estendeu a mão.

"Pinça." Seu assistente vedalke, Mitul, colocou a ferramenta em sua palma.

Ela torceu um fio fino para o lugar, ouvindo o padrão do éter enquanto trabalhava. Conhecer o éter permitia que ela apertasse o fio o suficiente para fixá-lo sem causar tensão no metal. "Calibrador."

Mitul trocou a pinça pelo calibrador. "Marca em 3.084."

Rashmi fez a marca. "Estamos definitivamente forçando o limite superior com isso."

"Ele aguenta. Eu realizei o cálculo. Três vezes." Mitul pegou o calibrador e entregou-lhe um punção ótico.

Ela furou a tubulação de metal dourado e, com o cuidado de uma cirurgiã, inseriu o novo filamento, conectando-o ao restante do circuito de éter. "Isso deve bastar." Rashmi levantou-se, alongando seu pescoço tenso, uma onda de emoção nervosa percorrendo seu corpo. Embora tivessem realizado centenas de testes, ela ainda sentia um frio na barriga cada vez que estavam prontos para outro; qualquer um poderia ser o teste que provaria sua teoria. Especialmente agora, com a Feira tão próxima.

"Vou preparar tudo." Movendo-se com um porte que Rashmi invejava, Mitul caminhou até um vaso que recebia a luz do sol vinda da janela em cúpula acima. Ele colheu uma flor viva do vaso e a depositou em uma jarra que esperava na mesa no centro da sala. "Objeto de teste número 848 pronto." Mitul recuou.

Rashmi tentou não pensar nas outras flores que vieram antes da 848.

Ela ergueu o transportador da bancada e o carregou até a área de teste. Tinha a forma de um grande aro dourado, quase do tamanho da roda de um cruzador do Consulado. Segurando-o acima do topo da flor, Rashmi deslizou um interruptor de filigrana dourada para ativar a válvula de éter. Vibrações ecoaram de dentro enquanto o éter azul brilhante corria pelo anel. Ela se abriu para o Conduto, forçando seus outros sentidos a se obscurecerem para que pudesse ver o éter. O padrão que ele fazia ao fluir através do transportador era primoroso. Os ajustes no projeto haviam alterado o fluxo o suficiente para adicionar um floreio repetitivo em intervalos ao redor do anel, um que a lembrava da cauda de um bandar. Ela tomou isso como um bom sinal; alguns elfos consideravam os bandares como sinais de boa sorte.

"Acho que pode ser desta vez, Mitul," ela sussurrou. "Consigo sentir no éter." Suas mãos tremiam.

"De acordo com meus cálculos, esta iteração parece promissora." A expressão de Mitul não mudou, seu comportamento permanecendo, como sempre, profissional. Ao contrário dela, ele nunca parecia nervoso ou animado antes de um teste; ele era uma força constante e firme no laboratório, sempre focado.

"Pronto?", perguntou ela.

Mitul assentiu. Ele estava de pé em uma escrivaninha alta repleta de equipamentos de medição de éter, seu lápis posicionado sobre seu diário de laboratório. "Estou preparado."

Você consegue, Rashmi encorajou silenciosamente o objeto de teste 848. "Tudo bem, vou soltar o transportador em três... dois... um..." Ela soltou o anel e, em resposta, o éter em seu interior expandiu-se, sustentando-o de modo que flutuasse no lugar logo acima da flor.

"Hora de início do teste capturada." Mitul estava escrevendo freneticamente. "Medições iniciais de éter registradas."

Com um suspiro suave, o anel começou sua descida, flutuando em direção às pétalas da flor. O nervosismo de Rashmi foi engolido pelo zumbido do éter. Ela era incapaz de desviar o olhar de seu fluxo pulsante que evoluía à medida que o transportador se aproximava cada vez mais da 848. O ritmo aumentava a cada batida de coração, até ultrapassar os limites de sua própria estrutura e começar a mudar. Rashmi conseguia ver as curvas geralmente suaves saltando e fazendo curvas fechadas; os floreios das caudas de bandar estavam se enrolando uns nos outros. Ela reconhecia esse comportamento. O éter estava formando os padrões que prometiam desafiar as leis do mundo.

Quando o anel ficou no nível das pétalas da flor, ela ouviu a voz de Mitul como se viesse de uma grande distância. "Hora de contato marcada."

Rashmi prendeu a respiração.

As pontas das pétalas tremeluziram conforme o anel passava sobre elas. O transportador dourado continuou a descer.

Outro tremeluzir.

E então, de repente, a integridade estrutural de toda a flor cedeu e, com um estalo suave, a flor inteira implodiu em um contorno persistente de poeira. Um suspiro depois, o contorno erupcionou, explodindo, cada pequena partícula de matéria zunindo para fora com velocidade extrema. Os projéteis em miniatura atingiram o anel, perfurando o metal e, em alguns casos, atravessando-o completamente. O transportador soltou faíscas e estalos, o delicado filamento de éter chiando e depois queimando antes que Rashmi pudesse erguê-lo e afastá-lo.

"Teste falhou. Objeto de teste 848 desintegrado," Mitul disse.

Rashmi suspirou, passando os dedos pelo metal do transportador, avaliando o dano. Ela realmente pensara que desta vez ia funcionar.

"Nota digna de menção," Mitul continuou, "as medições detectaram traços de matéria transmutada, indicando que a 848 respondeu bem à fase inicial de contato."

"Transmutações em preparação para o transporte?" Rashmi empertigou os ombros e seu ânimo se elevou.

"Parece que sim, sim."

"Bem, então, se for esse o caso, apenas precisamos fornecer um ambiente mais estável."

"Exatamente o que eu pensei," Mitul disse. "Sinto-me inclinado a sugerir que realizemos nosso próximo teste com um fluxo de éter menos turbulento. Se aumentarmos o diâmetro da tubulação—"

"Reduziremos a turbulência do fluxo inicial e diminuiremos a volatilidade!", Rashmi completou por ele. "Mitul, isso é brilhante!"

"Acredito que a hipótese seja bastante promissora, sim."

Era exatamente por isso que trabalhavam tão bem juntos. Nenhum dos dois ficava desanimado por muito tempo. Rashmi tinha o Grande Conduto para lembrá-la de que estava no caminho certo, e Mitul tinha sua crença no método iterativo de pesquisa. Embora ele nunca questionasse a relação dela com o Grande Conduto, Rashmi tinha a sensação de que Mitul não dava muito crédito a isso. Ela presumia que, como a maioria dos vedalken que conhecia, ele subscrevia ao processo interminável de trabalhar sucessivamente mais perto de uma solução, repetindo o método anterior com uma pequena variação. Embora não entendesse muito bem como alguém podia encontrar inspiração através desse tipo de iteração, ela nunca o questionava. Não a incomodava que a filosofia deles fosse diferente; o motivo de sua motivação não importava. Era o espírito otimista e o compromisso com a pesquisa que os unia. E não passava um dia sem que Rashmi não se sentisse afortunada por ter encontrado um parceiro de pesquisa e amigo tão talentoso em Mitul.

O vedalke levantou os olhos após consultar seu livro de registros. "Por acaso, temos exatamente a tubulação necessária no depósito. Vou buscá-la e volto em breve." Ele já estava no meio da sala antes de terminar de falar. E, de sua parte, Rashmi já estava com os cotovelos metidos no anel do transportador trabalhando nos reparos.

Já haviam passado da hora de ninharias. Embora Rashmi tentasse ignorar sua presença perturbadora, sabia que a data circulada no calendário estava se aproximando rapidamente. As eliminatórias da Feira dos Inventores estavam a menos de uma semana de distância. A Feira era sua chance de mostrar o transportador ao mundo, mas mais importante, aos juízes e benfeitores. Ela venceria, disso tinha certeza, e então teria patronos e patrocinadores para sua pesquisa. Teria o apoio do Consulado em vez de um suprimento de éter minguante. Talvez ela tivesse até mesmo sua própria força de trabalho de autômatos para preencher o inquirium. Mas isso era se antecipar às coisas. Era hora do objeto de teste número 849.

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"Objeto de teste número 887 pronto." A voz de Mitul estava rouca; nem ele nem Rashmi dormiam há dois dias. Era a tarde das eliminatórias da Feira dos Inventores, e eles ainda não haviam realizado um teste bem-sucedido. Esta era a última chance. Se este teste fosse um sucesso, eles teriam tempo suficiente para embalar o anel, carregá-lo em uma carroça e seguir para a arena a tempo de sua eliminatória. Se este teste fosse um fracasso, estaria acabado.

Rashmi segurou o anel sobre a flor levemente murcha. Seus braços tremiam, não de emoção, mas de fadiga. Por que o Conduto a trouxera até este ponto se não fosse para ela vencer a Feira? Por que a impulsionara em direção a isso apenas para que ela falhasse? Ela queria gritar. Mas não o fez. Naquele momento, viu Mitul abafar um bocejo, e isso despertou algo dentro dela. Ela não podia desistir, não ainda.

Ainda há mais uma chance, ela lembrou a si mesma. Fez um esforço para limpar sua mente de pensamentos cínicos. Disse a si mesma que talvez ela e Mitul devessem lutar até o último momento. Talvez tudo isso fizesse parte do padrão que o Grande Conduto estava tecendo. Talvez este fosse o momento deles. "Tudo bem, aqui vamos nós," disse ela, com tanta energia quanto pôde reunir. "Em três... dois... um..." Ela soltou o anel.

"Hora de início do teste capturada." Mitul fez uma marca no diário. "E medições registradas." Ele esfregou os olhos avermelhados.

Rashmi tentou assumir o papel de uma observadora objetiva, mas enquanto o anel baixava em direção às pétalas caídas da flor, ela se viu novamente prendendo a respiração e esperando. Tinha que funcionar desta vez, simplesmente tinha.

O anel passou sobre a pétala mais alta. "Hora de contato marcada," Mitul disse.

A pétala tremeluziu. Não imploda. Não imploda, Rashmi implorou.

Outro tremeluzir.

E outro.

O anel estava na metade da cabeça da flor. Um agito começou nas entranhas de Rashmi. Tinha que ser desta vez. Ela observou maravilhada enquanto os padrões abriam um caminho através do espaço. Olhando para o éter, ela quase conseguia ver o buraco se formando no tecido de seu mundo. Ela se arrependia de ter duvidado. Mal podia acreditar no que estava acontecendo diante de seus olhos. A flor inteira piscava, desaparecendo e reaparecendo; cada músculo no corpo de Rashmi se tensionou, e então—

POP! A flor implodiu.

O interior de Rashmi congelou. Não. O anel estalou e soltou faíscas. Não. Ela ouviu o filamento ceder e quebrar. Não! Não era isso que deveria acontecer. Não podia ser.

"Teste falhou. Objeto de teste 887 desintegrado," Mitul disse.

Rashmi nem se deu ao trabalho de tentar erguer o anel dos restos explodidos da flor. Não havia sentido em salvá-lo — estava acabado. Ela se virou, incapaz de continuar assistindo. Vagamente, ouviu o anel tilintar sobre a mesa, o som ressoando em sua cabeça como o sino final na academia. O teste terminara e ela falhara.

"Adendo: no tempo seguinte à conclusão registrada do teste envolvendo o objeto de teste 887, observação contínua revela que parece haver uma diferença na maneira como a matéria orgânica e a inorgânica são afetadas pelas ondas etéreas do espaço." A voz de Mitul lavou Rashmi como água sobre uma ferida exposta.

"Mitul, não há sentido em registrar mais nada." Ela olhou para os avisos vermelhos de atraso na escrivaninha distante. "Eu deveria ter lhe dito há muito tempo. Sinto muito, mas o inquirium está—"

"Rashmi," Mitul interrompeu. Era estranho ouvi-lo usar o nome dela; ele raramente a tratava assim. "Rashmi." Algo na voz dele a fez virar-se. "O-olhe." Ele apontava para o canto do laboratório, seus olhos piscando rapidamente.

Rashmi seguiu o dedo dele. Lá, encostada na parede dentro de um pequeno círculo inscrito, estava a jarra. Rashmi arquejou. Olhou de volta para a mesa no centro da sala; apenas o anel repousava ali. Seu primeiro pensamento foi que era um truque de ótica. Poderia ser uma jarra diferente. Mas não havia como se enganar; era a única jarra em todo o laboratório. Ela passara por duas barreiras de ferro, uma pilha de equipamentos e o próprio Mitul, e agora repousava suavemente contra a parede, perfeitamente dentro do círculo destinado à flor.

Rashmi riu. Foi uma risada estranha que a pegou de surpresa. Ela poderia ter continuado rindo, exceto que seu coração saltou para a garganta, quase a sufocando. Não conseguia formular sequer uma frase completa. "Mitul— Mitul— n-nós—"

"Sim." Mitul ainda piscava rapidamente. "Transportamos com sucesso matéria inorgânica através do espaço."

"Ha! Conseguimos!" Calor e umidade pressionaram o fundo dos olhos de Rashmi e ela correu para o amigo, envolvendo o pescoço do alto vedalke com os braços. Ela apertou. "Nós realmente conseguimos."

"De fato, conseguimos," Mitul disse, desvencilhando-se do abraço dela. "Agora, devo focar em registrar estes resultados. Não posso me permitir ser levado por emoções potencialmente perturbadoras quando há ciência em mãos."

Rashmi riu novamente; parecia a única reação de que era capaz no momento.

"Mas não confunda isto com falta de empolgação." Mitul ofereceu o menor dos sorrisos, o leve erguer dos cantos da boca. "Estou bastante empolgado. Oh sim, bastante." Mas ele se recompôs, pôs o lápis no papel e limpou a garganta. "Agora, aqui vamos nós: com relação ao teste mais recente, parece que a retroalimentação que estávamos observando foi gerada pela interação entre a matéria orgânica e o espaço transdimensional. Iteramos sobre nosso projeto, mas nunca mudamos a natureza do nosso objeto de teste." O foco de Mitul nos fatos parecia ter lhe devolvido o controle de suas pálpebras.

E o som reconfortante e familiar de sua voz devolveu Rashmi a si mesma também. "A Feira!", exclamou ela.

O foco de Mitul foi ininterrupto. "Vou proceder agora para documentar todas as características observáveis da jarra para garantir que o transporte foi compl—"

"Não, Mitul, não há tempo!" Rashmi agarrou o transportador da mesa. "Temos que ir para a Feira, para nossa eliminatória!"

"Oh!" Mitul virou-se, seus olhos brilhando. "Oh, sim, você tem toda a razão." Ele quase derrubou o diário. "Estou sentindo uma descarga de adrenalina tal que mal consigo pensar. Concluirei a documentação quando voltarmos. Se empacotarmos agora, devemos ter tempo suficiente para encaixotar o dispositivo na embalagem de segurança apropriada, carregá-lo na carroça e levá-lo pelo terreno, que com certeza estará lotado e exigirá uma velocidade reduzida de transporte, para uma chegada à arena na hora solicitada de uma hora antes da nossa demonstração classificatória agendada."

"Perfeito." Rashmi inspecionava o anel. "Mas precisaremos de um novo filamento primeiro. Este aqui já era."

"Deve ser devido ao contato inicial com matéria orgânica," Mitul disse. "Prevejo que não veremos esse comportamento quando transportarmos apenas matéria inorgânica."

"Esperemos que não." Rashmi estava na bancada retirando a filigrana para acessar o filamento. "Prefiro não entreter os juízes com um show de fogos de artifício."

"Não, não suspeito que isso seria bem recebido." Rashmi jurou ter ouvido Mitul rir enquanto ele corria em direção ao depósito.

Rashmi passou os dedos pela filigrana. Havia alguns amassados e arranhões, mas nada que devesse interferir na funcionalidade. A funcionalidade que movera matéria através da sala! "Nós realmente conseguimos," Rashmi sussurrou. Olhou por cima do ombro para a jarra. Parte dela não acreditava que estivesse realmente ali, mas estava. "Eu nunca deveria ter duvidado." Fechou os olhos. Lá estava o Grande Conduto, brilhando intensamente à sua frente. Seu calor a envolvia. Ela estendeu a mão para ele.

Arte de Magali Villeneuve

"Não temos outro filamento." Ao som da voz de Mitul, os olhos de Rashmi se abriram bruscamente. Ele entrava na sala aos tropeços. "Acabaram. Eu sabia que nosso estoque estava minguando. Eu deveria ter— mas não houve tempo para encomendar. As iterações continuavam vindo. Mas isso não é desculpa — esta responsabilidade é minha. Não espero que você seja capaz de perdoar meu erro." Seus doze dedos tremulavam ao redor de seu longo rosto azul.

"Mitul, está tudo bem." Rashmi colocou a mão no ombro dele. Sentia-se estranhamente calma. Conseguia sentir a orientação do Conduto e sabia exatamente o que deveriam fazer. "Encaixote o dispositivo," disse ela. "Vamos levá-lo ao mercado, comprar um filamento lá e depois seguir para a Feira. Ainda devemos chegar à arena a tempo para nossa eliminatória."

"Oh." Mitul piscou. "Oh, sim." Soltou um longo suspiro. "Isso pode muito bem funcionar."

"Vai funcionar," Rashmi disse. "Este é o nosso momento."

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Rashmi protegeu os olhos contra a claridade. Tudo brilhava à luz do sol poente: os autômatos de metal polido, a arquitetura reluzente e os estandartes, fitas e festões que cobriam a praça.

Arte de Jonas De Ro

A Feira dos Inventores fora construída ao redor do inquirium enquanto eles trabalhavam lá dentro nestes últimos meses, alheios a tudo. Era como se Rashmi tivesse se retirado para seu laboratório em um mundo e saído em outro, um que era um labirinto gigante de metal reluzente e celebração. Mas não havia tempo para nada disso agora. O Conduto a puxava com urgência. "Por aqui," disse ela a Mitul, apontando para as enormes penas de pavão ao longe que marcavam a entrada do mercado. Mas antes que pudesse dar um passo, um autômato rolou para o seu caminho.

"Bem-vindos à Feira dos Inventores!", disse ele alegremente. "A interseção entre criatividade e gênio."

Ela se virou para esquivá-lo, manobrando a carroça com o transportador, mas justo então um segundo autômato rolou para perto. "Não perca as corridas de propulsão de dragsters no Circuito Oval! Garanta seus ingressos agora."

Rashmi recuou, procurando uma saída.

"Visite o zoológico de cem acres! Construtos de animais em abundância!"

Ela estava sendo cercada.

"Talvez possamos encontrar um caminho alternativo por aqui." Mitul liderou o caminho e Rashmi o seguiu, mas um punhado de autômatos fez o mesmo.

"Maravilhem-se com a arquitetura de engrenagem viva projetada por alguns dos metalúrgicos mais lendários de Ghirapur. Não é incrível?"

"Sim, sim." Mitul afastou o autômato com um gesto. "Estamos com um pouco de pressa, sabe."

Ele não se desencorajou. "Confrontos de autômatos fazem mais o seu estilo?"

"Não. Com licença..."

O autômato recusou-se a deixar Mitul passar. "Por favor, lembrem-se de que não são permitidos gremlins nos terrenos da feira."

"Claro que não, isso seria absurdo. Agora, eu insisto—"

"Evitem carregar recipientes de éter externos. E se testemunharem qualquer atividade suspeita, por favor, relatem ao Guarda de Honra ou Autômato mais próx—"

"Por favor, saia da nossa frente!" Mitul empurrou o autômato. "Pronto." Ele acenou para Rashmi. "Acredito que agora podemos chegar ao mercado."

Rashmi apressou-se em empurrar a carroça passando pelo autômato cambaleante que lhes dizia para aproveitar o tempo na Feira dos Inventores. Nunca vira Mitul ser tão impositivo. Ela olhou para ele, analisando-o por um momento; seria possível que ele também estivesse sentindo o puxão do Conduto? Talvez algum dia ela ainda conseguisse convencê-lo de que existem forças que sua visão analítica não consegue explicar. Juntos, aceleraram o passo, correndo em direção ao mercado de filigrana dourada.

Arte de Craig J Spearing

O sol estava baixando, logo abaixo das imensas penas do portão do mercado, enquanto eles corriam pela Nona Ponte e entravam na loja de Remi. As engrenagens intertravadas na porta guincharam e tilintaram enquanto Rashmi empurrava a carroça para dentro. Os aromas de metal polido, ferrugem doce e graxa penetrante os saudaram — geralmente um buquê que acalmava os nervos de Rashmi, mas agora apenas servia para aumentar seu senso de urgência. Ela pescou o filamento quebrado do bolso. "Estamos procurando a série WP," disse ela a Mitul. Ambos sabiam exatamente onde procurar. A parede de trás com os escaninhos perfeitamente organizados e codificados por cores. Haviam comprado a maioria de seus suprimentos na loja de Remi; ele tinha os melhores preços e os deixava ficar para assistir às batalhas de autômatos clandestinas.

"Deve estar bem..." Mitul puxou um escaninho verde. "Aqui."

Estava vazio.

Rashmi entrou em pânico, mas apenas por um momento. "Tenho certeza de que ele tem alguns no estoque. Remi!", chamou ela, avistando o alto lojista azul entre as prateleiras.

"É isso? Estou ouvindo...? Rashmi! Mitul! Quanto tempo!" Um Remi manchado de graxa atravessou a loja, limpando as mãos em um trapo. Jogou o trapo sobre o ombro antes de abraçar Rashmi. "Vocês vieram para—"

"Precisamos de um filamento," Rashmi o interrompeu. "Série WP." Mitul segurava o escaninho vazio.

"Hã?" Remi olhou para o escaninho. "Acabou esse também? Esses inventores são piores que gremlins, vão me levar à falência."

"Você deve ter alguns lá atrás," Rashmi disse, lutando para manter o sentimento crescente de pavor sob controle.

"Receio que não, amiga." Remi balançou a cabeça. "Lá atrás está tão limpo quanto a frente da loja. Tem sido um estouro de manada interminável desde que o primeiro trem chegou de Peema. Parece que estamos sob ataque. Todo mundo precisa de um isso reserva, ou um aquilo para reposição. Não poderei repor o estoque até a chegada da remessa de Lathnu."

"Uma remessa. Quando?"

"Oh, daqui a uns três dias."

A última reserva de decoro de Rashmi despedaçou-se. "Não, não, não. Remi, precisamos do filamento agora. Por favor, você tem que ter alguma coisa."

"Gostaria de ter. Vocês sabem que são meus inventores favoritos."

Eles não seriam inventores por muito mais tempo se não conseguissem um filamento. Imagens de avisos de atraso nadavam na mente de Rashmi. Suas palmas começaram a suar. De repente, a loja pareceu pequena demais.

"Ah, bem, então devemos fazer a próxima coisa lógica." A voz de Mitul era firme, mas seus doze longos dedos atrapalharam-se para colocar o escaninho vazio de volta no lugar. "Devemos verificar as outras lojas."

"As outras lojas." Rashmi engoliu sua histeria crescente, mas mal conseguiu. "Isso é lógico. Sim."

"Pelo que ouvi, todo mundo está seco como um recipiente de éter vazio," Remi comentou.

Mas Rashmi já estava na metade do corredor, empurrando a carroça. Apressou-se para fora da porta e entrou direto na próxima loja da ponte. Verificaria todas, se precisasse.

"Sinto muito..."

"Gostaria de poder ajudar mais, mas..."

"Sabe, você é a segunda pessoa a pedir uma série WP hoje..."

"Tem sido uma correria louca..."

"Volte amanhã..."

"Acabaram todos..."

Parecia que não havia um único filamento da série WP em toda Ghirapur.

A exaustão se instalou e Rashmi desabou contra a grade da ponte. Mitul caminhou vindo das lojas do outro lado, com os olhos baixos. Exalou. "A culpa é minha."

Não era, mas Rashmi não conseguia dizer o contrário. Não agora. Afastou o longo cabelo do pescoço enquanto observava o sol se pondo sob a água à distância. A demonstração deles estaria começando a qualquer momento, e eles a perderiam. Parecia impossível que estivessem ali com o transportador agora, tão perto, mas sem os meios para completá-lo.

Ela não estava mais em pânico, nem zangada, estava apenas com o coração partido. Era mais do que apenas o transportador de matéria; era o inquirium também. Sem os patronos e patrocinadores com os quais contava na Feira dos Inventores, eles perderiam tudo. Era hora de contar a Mitul.

O estômago de Rashmi apertou. Ela se viu encarando fixamente um autômato mensageiro de correio que passava para não ter que olhar para o amigo.

Arte de Craig J Spearing

"Mitul, teremos que fechar o inquirium. Nosso tempo acabou. A culpa é minha. Coloquei tudo o que tínhamos neste projeto e agora—" Sua voz falhou, ela não conseguiu terminar. "Sinto muito. Trabalhar com você estes últimos anos foi uma verdadeira honra." Antes que ele tivesse chance de responder, ela segurou a alça da carroça e se afastou, caminhando pela ponte em direção ao pôr do sol.

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O inquirium não era onde Rashmi queria estar agora, mas não queria estar em nenhum outro lugar da cidade também. O zumbido de excitação e a correria da celebração lá fora eram demais. Arrastou o caixote degraus acima e destrancou a porta. Deveria começar a empacotar; não havia sentido em adiar.

"Então você está viva!" O som da voz de sua amiga quase derrubou Rashmi escada abaixo.

"Saheeli?" A jovem e brilhante inventora estava parada no meio da oficina, praticamente brilhando na teia elegante de metal reluzente e colorido que estava enrolada de forma refinada em seus braços e cintura. Ela parecia o sol em um dia nublado.

Arte de Willian Murai

"Estive procurando por você em todo lugar." Saheeli observou Rashmi e franziu a testa. "Você está terrível. O que está fazendo aqui? Acabaram de chamá-la na arena."

Lágrimas brotaram nos olhos de Rashmi; ela foi incapaz de detê-las.

"O que foi?" Saheeli estava ao seu lado, com um braço sobre o ombro de Rashmi. "O que aconteceu?"

Rashmi balançou a cabeça. "Acabou. Um filamento quebrado, foi tudo o que bastou. E não há reposição. Em toda a cidade." Deixou as lágrimas caírem.

"Oh. Shhh, shhh." Saheeli esfregou as costas de Rashmi. "Vamos lá. Você tinha uma peça de metal danificada e não pensou em me chamar?"

Rashmi fungou. "Você?" E então ela percebeu. "Você! Você poderia consertá-lo." É claro que Saheeli podia. Ela era uma mestra do metal, trabalhando até com as peças mais delicadas em seus projetos; ela podia consertar quase tudo. No pânico de Rashmi, o pensamento de Saheeli sequer lhe passara pela cabeça. Seus meses de isolamento a haviam feito quase esquecer de tudo e de todos fora do inquirium.

"Bem, então, me dê aqui." Saheeli estendeu a mão, impaciente.

Rashmi procurou no bolso o filamento quebrado, mas parou antes de entregá-lo. "Não adianta. Terei perdido minha demonstração."

"Oh, eu não me preocuparia com isso," Saheeli sorriu conspiratoriamente. "Eu conheço Padeem bem o suficiente. Tenho certeza de que, se eu falar com ela sobre esse seu condensador de éter, ela ficará curiosa demais para não querer dar uma olhada."

"Você faria isso?"

"É como você disse, o condensador pode não ser chamativo, mas é o tipo de invenção sobre a qual outros podem construir. Quem sabe para que ele poderá ser usado algum dia."

"Na verdade, eu sei de pelo menos uma coisa," Rashmi disse, incapaz de conter sua empolgação. "Saheeli, eu consegui, nós conseguimos. Mitul e eu projetamos um transportador de matéria, e ele funciona! Movemos uma jarra de um lado da oficina para o outro." Ela andava de um lado para o outro, apontando para o lugar onde a jarra estivera. "Dá para acreditar? Eu nem sei exatamente como fizemos. As equações parecem indicar que estamos trabalhando com forças fora dos reinos deste mundo. Quando olho para o éter, consigo vê-lo se abrindo para formar um caminho, um caminho através do infinito. É brilhante. E é chamativo! Vai impressionar Padeem e o restante dos juízes. E é tudo graças a você." Ela ofereceu o filamento a Saheeli. "Estou em dívida com você, de verdade."

Mas Saheeli não pegou o filamento, nem sequer se moveu.

"O que foi?", Rashmi perguntou.

Saheeli baixou os olhos e deu um passo para trás. "Sinto muito. Eu não quero fazer isso. Não quero magoá-la, minha amiga. Mas não posso."

"Não pode o quê?" Rashmi estava confusa.

Saheeli balançou a cabeça, erguendo as mãos. "Não posso ajudá-la."

"Mas você disse—"

"Você disse que era um condensador de éter." Saheeli parecia estar ficando perturbada.

"Era. Mas então fizemos isto. Isto é muito melhor, muito mais."

"Você não sabe disso. Você nem sabe como funciona. Não conhece as possíveis consequências do que projetou. É perigoso demais."

Rashmi mal conseguia entender o que Saheeli dizia. "Claro que existem perigos, mas faremos mais testes, iteraremos sobre ele. É exatamente por isso que precisamos vencer a Feira dos Inventores. Preciso do apoio do Consulado para que possamos aperfeiçoar o projeto. Estamos no limiar de algo aqui, algo incrível que vai mudar o mundo."

"Você já considerou que talvez existam mudanças de que o mundo não precisa?", Saheeli retrucou. Ela passou por Rashmi e dirigiu-se à porta.

"Onde você vai?", Rashmi chamou, com a mente cambaleando, lutando para compreender o que estava acontecendo.

"Não quero magoá-la," Saheeli disse novamente enquanto ia embora. "Mas não posso ajudá-la."

"Espere." Pela segunda vez naquele dia, o pânico tomou conta de Rashmi. "Saheeli, por favor. Eu não entendo. Preciso da sua ajuda." Ela correu atrás da amiga e agarrou seu braço. "Por favor."

Saheeli virou-se, com as bochechas avermelhadas e os olhos endurecidos. "Eu disse, não posso ajudá-la. Talvez você esteja perto demais para ver, mas o que você fez aqui não é algo que deveria ser feito."

Rashmi encarou a amiga em choque. Sua confusão transformou-se em raiva. "Achei que você acreditasse em inovação sem limites. Achei que quisesse ver coisas notáveis acontecerem. Achei que quisesse ajudar a fazer coisas notáveis acontecerem."

"Não isto." Saheeli puxou o braço para se soltar. "Tenho que ir." Ela desceu as escadas.

A raiva de Rashmi transbordou. "Então, o quê? Você só acredita em inovação quando são coisas que você faz? Apenas quando você recebe toda a atenção?"

O pescoço de Saheeli retesou-se.

"Você vive sua vida sob os holofotes, Saheeli. Bem, agora é a minha vez. Você está com ciúmes? Está preocupada que sua invenção não seja a coisa mais brilhante da Feira?"

As mãos de Saheeli fecharam-se em punhos, mas ela não se virou, não diminuiu o passo. Rashmi observou a mulher que pensava ser sua amiga ir embora quando ela mais precisava.

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Saheeli estivera em duelos de autômatos com os renegados durante toda a noite. Não ajudara em nada.

Viera diretamente para a arena principal da Feira — local de julgamento durante o dia, duelos de ourivesaria rápida à noite — após deixar o inquirium de Rashmi. Felizmente, havia muitos inventores ansiosos por testar suas criações, porque ela não podia esperar mais um momento para cravar as garras de seu autômato em algo que pudesse estraçalhar.

Desde sua primeira partida, ela havia destroçado nada menos que duas dúzias de criações metálicas. Muitos dos restos ainda estavam sendo removidos da arena. Agora que o sol estava nascendo, ela controlava um de seus projetos favoritos, um pássaro aerodinâmico, que estava pronto para enfrentar um autômato verde e bruto. Na opinião dela, a invenção imponente do outro lado da arena parecia um pouco com um dos gigantes que ocasionalmente migravam pela cidade. Mais uma razão para esmagá-lo.

"Que comece a batalha!", chamou o locutor lá de cima.

A multidão nas arquibancadas aplaudiu quando Saheeli lançou seu pássaro em um ataque, mirando no pescoço do autômato gigante.

Arte de Victor Adame Minguez

Atingiu o alvo! Um golpe perfeito. Assobios e gritos ecoaram enquanto o bruto cambaleava. Mais um golpe direto daqueles e ela o derrubaria. Ela grunhiu de aborrecimento. Isso não estava funcionando. Se ao menos um desses inventores fizesse algo que realmente a desafiasse, algo que a fizesse parar de pensar em todo o resto. Viera aqui em busca de uma distração, mas durante toda a noite tudo o que conseguira pensar foi no transportador de matéria, no rosto de Rashmi e em suas palavras mordazes.

Saheeli deu um looping com o pássaro para uma segunda tentativa. Como Rashmi ousava acusá-la de estar com ciúmes? Inveja fora a coisa mais distante de sua mente quando a amiga lhe contara sobre o transportador de matéria. Como ela ousava? Saheeli enviou o pássaro para outro ataque ao pescoço — mas desta vez o bruto bloqueou. Uma espécie de saliência crescera no ponto fraco. Nada mal, pensou ela, elogiando silenciosamente o colega inventor pela previdência que pusera no projeto. Mas ela já sabia como contornar aquilo. Retirou seu pássaro do mergulho e o enviou para o alto a fim de ganhar impulso para um terceiro golpe.

Fizera a coisa certa, a única coisa que podia fazer. Tinha uma responsabilidade como Planeswalker, sabendo o que sabia sobre as Eternidades Cegas. Não havia dúvida em sua mente de que o dispositivo de Rashmi tinha um potencial muito além do que a elfa percebia. E isso não era seguro, nem para Rashmi, nem para ninguém em Kaladesh. Fizera a coisa certa.

Com um grasnido ecoante, o pássaro de Saheeli mergulhou por trás e cravou o bico na nuca do autômato gigante. A multidão arquejou, levantando-se. O bruto balançou como uma alta torre de éter em uma tempestade, mas não caiu. Tudo bem. Outro golpe, então. Saheeli puxou o pássaro e o preparou para um golpe final.

Rashmi admitira; não entendia sua equação. Estava rasgando buracos no espaço sem considerar as consequências. Cabia a Saheeli protegê-la, salvaguardar este mundo, mesmo que isso significasse afastar-se da amiga.

Enviou o pássaro em alta velocidade, esquivando-se dos braços verdes que se debatiam, e o chocou, de cabeça, contra o peito do autômato. Com um gemido longo e baixo, o gigante despencou no chão, caindo de costas com um estrondo retumbante. A multidão aplaudiu.

"Mais um ponto para a Inventora Saheeli!", o locutor trovejou. "O que a coloca em perfeitos vinte e cinco pontos na noite!" Mais aplausos.

Saheeli fez uma mesura, mas já estava vasculhando as alas em busca de seu próximo oponente.

"E parece que é tudo por hoje, fãs de batalha. A Feira abrirá seus portões em breve e não queremos ser pegos acampando em sua arena principal. Eu, por exemplo, não quero ver a cara do Inspetor Baan se ele descobrir que estávamos aqui."

Os aplausos cessaram, e houve um arrastar de pés coletivo e alongamentos enquanto os fãs, rígidos mas revigorados, seguiam para as saídas.

"Obrigado por nos acompanharem," disse o locutor. "Lembrem-se de olhar para baixo para descobrir onde será a batalha de hoje à noite."

Aquilo era uma alusão ao código secreto dos renegados usado para passar informações sobre batalhas de autômatos e afins. Saheeli podia facilmente descobrir para onde ir após o anoitecer, mas não queria esperar um dia inteiro. O que deveria fazer até hoje à noite? "Ah, vamos lá!", chamou ela do centro da arena. "Podemos espremer mais uma. Quem é o próximo?" Ela olhou ao redor, mas ninguém lhe deu atenção. Os outros competidores estavam saindo o mais rápido que podiam. A arena já estava quase vazia. "Covardes," murmurou ela.

Se fosse possível, sentia-se mais frustrada do que antes de chegar. Esta era a primeira vez que uma boa rodada de batalhas de autômatos não clareava sua mente. Irritada, saiu tempestuosamente pela saída mais próxima.

A multidão estava enchendo os terrenos da feira rapidamente. Os portões já deviam ter aberto. Saheeli não estava no clima para multidões. Não estava no clima para nada além de outra batalha. Talvez pudesse encontrar algo no Gonti. Contornou a via mais movimentada e seguiu em direção ao portão principal. Fizera a coisa certa. Não fizera? O transportador de matéria era perigoso demais. Não era? "Era," disse para si mesma. "É."

"É ela!", uma vozinha soou à esquerda de Saheeli.

Saheeli encolheu-se e esquivou-se simultaneamente. Reconhecia o teor de deleite borbulhante e sabia exatamente o que aconteceria a seguir se não tomasse uma ação evasiva. Um giro rápido e ela seguiu pelo outro caminho, mas dois passos depois foi bloqueada por um cordão de isolamento.

"Ali!", a mesma voz elevou-se acima do barulho da multidão que se reunia.

Saheeli girou apenas para encontrar outro cordão. Virou a esquina e praguejou; mais cordões, estavam por toda parte.

"Com licença. Com licença." Alguém tocou seu ombro. Saheeli inspirou profundamente, tentando organizar suas feições em algo que pudesse, pelo menos, passar por não assassino. Virou-se. "Sim."

Era uma anã vestida com uma saia e colete azul brilhante, segurando a mão de uma anã ainda mais jovem que usava óculos de proteção. "Minha filha diz que você é a Saheeli," disse a anã mais velha.

"Saheeli Rai, famosa inventora, brilhante ourives e a luminar mais renomada de nosso tempo," a anã mais jovem recitou os elogios.

Sua mãe corou. "Sim, bem, vamos descobrir se é ela primeiro."

"É ela!" A jovem anã sorriu radiante, apontando para uma foto de Saheeli em seu livreto de autógrafos da Feira dos Inventores. Leu a página: "'Mais conhecida por sua habilidade inigualável de criar réplicas realistas de qualquer criatura ou construto que vê'. O que é muito legal." Seus olhos se arregalaram quase saltando das órbitas enquanto olhava para Saheeli. "Vou ser uma inventora como você algum dia."

A mulher que estivera tentando silenciar a filha finalmente conseguiu. "Sinto muito," disse ela. "Zara está tão animada por estar aqui. Ela tem falado da Feira sem parar há meses. Você se importaria muito em dar um autógrafo para ela?"

A jovem anã segurou o livreto aberto na página com a foto de Saheeli. Saheeli suspirou; não podia dizer não. Pegou a caneta.

"Você pode assinar ao lado da sua frase," disse a jovem anã. "É a minha favorita de todas as frases."

Saheeli varreu a página com o olhar, encontrando a citação, e rabiscou seu nome. Mas seu garrancho parou no meio do caminho enquanto lia suas próprias palavras. Existem tempos para regulamentações e regras, mas esta era de inovação não é um deles. Temos que avançar sem medo. Temos que criar sem limites. É nosso dever como inventores fazer as coisas mais notáveis que pudermos, ajudar uns aos outros a alcançar o extraordinário, mudar o mundo. "Bem, isso não é algo para se esfregar na minha cara?"

"Como?", disse a anã.

"Oh," Saheeli piscou; esquecera por um momento onde estava. "Sinto muito. Eu estava apenas— aqui está." Devolveu o livreto de autógrafos à jovem anã.

"Obrigada." A jovem anã sorriu radiante. "Muito obrigada!"

Saheeli mal a ouviu. Seus pés a carregavam com determinação; sabia exatamente para onde a levavam. Esperava não ser tarde demais.

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Saheeli nunca vira um prédio com aparência desolada, mas o inquirium tinha. A antena parecia caída e a seção que se assemelhava à cabeça do besouro cedera para repousar sobre as duas pernas dianteiras. Saheeli subiu os degraus, preparando-se para bater na porta. Repassava mentalmente o que diria, como diria. Não era boa com desculpas e, na verdade, ainda não estava convencida de que deveria se desculpar, mas algo precisava ser dito — algo precisava ser feito — antes que fosse tarde demais. Bateu.

Passos do outro lado disseram que alguém estava vindo. A porta se abriu e ela viu o azul do rosto de Mitul. "Mitul. Preciso falar com Ra—" Mitul bateu a porta na cara dela.

"Tudo bem." Saheeli lançou um olhar severo. "Isso foi justo." Alisou as saias. Rangendo os dentes contra o impulso de descer as escadas furiosa, bateu novamente. "Justo, mas infantil." Elevou a voz na última palavra, batendo com mais força. "Vamos lá. Deixe-me entrar! Não vou ficar aqui parada para sempre."

Mais passos. Foi Rashmi quem abriu a porta desta vez. A elfa parecia pior do que antes. Círculos inchados e vermelhos contornavam seus olhos, e sujeira e suor haviam se acumulado em seu rosto e braços. O último resquício de ressentimento de Saheeli derreteu. Não conseguia suportar ver a amiga daquela forma. Ansiava por abraçá-la, por cuidar dela, mas conteve-se. Havia algo que precisava dizer primeiro. "Preciso explicar por que não a ajudei." Rashmi recusava-se a encontrar seus olhos. "Eu estava assustada. Insegura. O que você está fazendo é perigoso, e—"

"Eu já ouvi tudo isso, Saheeli." Rashmi empertigou-se. "Se veio me dar outro sermão, por favor, vá embora." Rashmi fez menção de fechar a porta, mas Saheeli mergulhou para mantê-la aberta.

"Você não me deixou terminar." Inseriu-se entre a porta e o batente. "É perigoso, sim. Mas ," continuou sobre o revirar de olhos quase audível de Rashmi, "também é empolgante. Eletrizante, até. Tem a chance de mudar o mundo... para melhor." Rashmi cedeu levemente na porta. "Se alguém pode fazer o próximo avanço na eterologia, é você. E quero estar lá para ver. Quero ajudar." Saheeli ergueu um filamento perfeitamente formado, que tecera com o metal mais resistente que conseguira conjurar. "Para você," disse ela. "Padeem prometeu-me que lhe daria uma audiência se funcionar."

Rashmi a encarou, depois seus olhos mudaram lentamente para o filamento.

"E então? O que está esperando?", disse Saheeli. "Você não tem que realizar um teste ou algo assim?"

Rashmi chamou Mitul e juntos os dois inventores operaram o anel dourado como se fosse o paciente mais importante que já tiveram. Saheeli observou silenciosamente do canto da oficina enquanto Rashmi carregava reverentemente uma jarra até a mesa no meio da sala e a colocava no centro do anel.

Mitul assentiu. "Objeto de teste número um pronto," disse ele.

Rashmi acionou um interruptor de filigrana e o anel transportador zumbiu ganhando vida. Saheeli retesou-se, prendendo a respiração. Não conseguia olhar, mas não suportava desviar o olhar. Contentou-se em observar pelo canto do olho.

"Hora de início do teste capturada," Mitul disse. "Medições iniciais de éter registradas."

O anel flutuou da mesa e, ao fazê-lo, a jarra desapareceu piscando.

Arte de Nils Hamm

Um momento depois, ela apareceu no outro lado da sala.

Saheeli arregalou os olhos, boquiaberta de espanto. Sua amiga fizera o impossível. Agora existia um dispositivo que podia transportar matéria através do espaço. Saheeli só podia esperar que tivesse feito a coisa certa.

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Enquanto eram levados ao andar superior dos apartamentos dos juízes, Rashmi olhou através da parede de vidro da plataforma do elevador. O sol estava se pondo sobre Ghirapur e a agitação do dia diminuíra para as notas tranquilas da noite. Um fluxo solto de éter serpenteava gentilmente através das cúpulas em espiral no topo dos edifícios mais altos. Uma garça voando baixo roçava as águas cintilantes do canal abaixo. Enquanto observava a cidade se recolher para a noite, uma calma se estabeleceu sobre Rashmi, algo que não sentia há muito tempo. Segurava o anel transportador dourado ao seu lado. Parecia impossível que tudo terminasse ali, com uma audiência privada com a Guardiã Iluminada Padeem. Às vezes, o Grande Conduto trabalhava padrões que nem Rashmi conseguia interpretar. Por todo o tempo que dedicara a estudar o fluxo do éter, todo o trabalho investido na tentativa de desmistificar sua influência sobre a vida, ela ainda achava que esses tipos de momentos eram os que mais valorizava: quando a vida a surpreendia, quando as pessoas a assombravam.

"Como você conseguiu?", perguntou ela a Saheeli. "Como fez Padeem aceitar?"

Um sorriso astuto espalhou-se pelo rosto de Saheeli enquanto as portas do elevador se abriam suavemente. "Um assento na primeira fila no duelo subterrâneo de artífices no mês que vem."

Rashmi quase tropeçou ao sair da plataforma. "A cônsul Padeem? Assiste a duelos?"

"Claro que assiste." Saheeli riu. "Quer atualizar nossa amiga, Mitul?"

"É algo que pouca gente sabe," Mitul disse. "Ninguém realmente espera isso de um vedalke, mas podemos ser bastante ágeis quando necessário, o que nos torna excelentes duelistas."

"Você está dizendo que Padeem era uma ourives-rápida clandestina?", Rashmi boquiabriu-se.

"A melhor de sua época," Saheeli disse. "Ela provavelmente ainda venceria a noite."

"Você— você duela?", Rashmi perguntou a Mitul.

"Oh, bem, você sabe... eu me aventuro." Mitul subitamente pareceu muito distraído pelas portas que se abriram para deixá-los entrar em um pequeno saguão. Ele apressou-se para dentro.

Rashmi estudou seu colega sob uma nova luz. Ele realmente parecia ágil e ela só podia imaginar que seu domínio do cálculo geométrico serviria para lhe dar vantagem em uma situação de batalha tática. O dia ainda não terminara suas surpresas, pelo visto.

"Inventores Rashmi e Mitul para ver a estimada juíza Padeem," Saheeli disse a um funcionário do Consulado com aparência oficial, atrás de uma mesa alta.

"Um momento." O funcionário escorregou por uma porta de correr, deixando os três esperando no saguão.

Saheeli virou-se para Rashmi, um olhar sincero em seus olhos arregalados. "Eu diria boa sorte, mas você não precisa."

"Graças a você." Rashmi inclinou a cabeça para Saheeli. "Obrigada. Por tudo o que fez. Agradecimentos infinitos."

Saheeli deu de ombros. "Provavelmente poderia ter sido tratado de outra forma. Eu— sinto muito." Olhou furtivamente para Rashmi por entre os cílios. "Amigas?"

"Sempre." Rashmi atraiu Saheeli para um abraço.

Saheeli apertou o braço dela. "Agora vá mostrar àquela vedalke duelista a invenção que está prestes a mudar o mundo."

"Certo." Rashmi segurou seu transportador firmemente enquanto a porta de correr se abria e o funcionário retornava.

"A cônsul os receberá agora."

Rashmi olhou para Mitul. "Pronto?"

Ele assentiu, segurando a jarra. "Estou preparado." Seguiram o funcionário através das portas. O corredor levava a uma pequena câmara onde Padeem repousava em uma poltrona estufada. Rashmi não conseguia olhá-la sem ver a audaciosa duelista artífice de aparente lenda. O pensamento a fez sorrir.

"Inventores Rashmi e Mitul, a cônsul," disse o funcionário.

Padeem assentiu. "Bem-vindos."

"Podem começar." O funcionário estendeu o braço para uma mesa que fora montada diante de Padeem, sem dúvida para fins da demonstração.

Mitul aproximou-se e colocou a jarra na mesa, cuidadoso para centralizá-la perfeitamente. Após ele recuar, Rashmi avançou, ergueu o anel transportador e o deslizou sobre o topo da jarra para repousar no tampo da mesa. Sentindo-se não inteiramente pronta para começar, ela exalou um suspiro longo e constante e olhou para o Conduto. A princípio, pensou que ele tivesse partido, mas então entendeu que estava dentro dele, sua luz por toda parte. Este era o momento que ela vinha perseguindo há tanto tempo. Agora que estava aqui, percebeu que não sabia o que viria a seguir. Tudo o que sabia era que após este momento não haveria volta. Uma vez que mostrassem a Padeem o que haviam feito, o mundo nunca mais seria o mesmo. Talvez isso fosse o bastante. Rashmi deu um passo para trás e voltou seu olhar para a juíza vedalke.

Arte de Matt Stewart

Padeem apoiou o queixo nas pontas dos dedos. "Muito bem, Inventora Rashmi, impressione-me."

05 de Setembro de 2016 | Por Doug Beyer

Tocha da Defesa

Um Planeswalker de Kaladesh visitou Ravnica para pedir a ajuda das Sentinelas. O consenso foi que as Sentinelas deveriam intervir apenas em caso de ameaças interplanares, no entanto, e uma possível ameaça à Feira dos Inventores de Kaladesh não foi considerada um assunto para os Planeswalkers. Para Chandra Nalaar, porém, o plano de Kaladesh é pessoal — é o seu plano natal, um mundo ao qual ela não voltava desde que sua centelha se acendeu e ela fez sua primeira caminhada entre os planos, há doze anos. Sem consultar os outros, ela viajou de volta para Kaladesh, de volta para casa.

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O lar era um músculo atrofiado. O caminho de volta para Kaladesh fora coberto pelo tempo da mesma forma que uma estrada é retomada pelas ervas daninhas e, por um momento, Chandra se perguntou se ainda se lembrava do caminho. Antes que pudesse dar uma respiração profunda e calmante, no entanto, ela chegara.

Chandra estava no centro de uma praça de tijolos quentes, cambaleando em uma familiaridade surreal. Cardamomo e incenso, cobre soldado e graxa de engrenagens, o almíscar de dorsos-de-arbusto passando, o travo de pelo de bandar. Havia os traços familiares de éter no ar, frescos e abertos como linho ensolarado, mas com uma pontada de ação. Foi o cheiro do éter que lhe disse, finalmente, que estava em casa — o potencial bruto que enrolava as nuvens no céu, surgia nos corações das aeronaves e corria pela cidade em grossos tubos de vidro.

Arte de Jonas De Ro

O último dia em que estivera neste mundo ficara suspenso no passado, interrompido e parcial. Aquele dia fora retomado, exceto que tudo parecia mais movimentado e — mais alto. Visitar a casa da sua infância não deveria fazer você se sentir maior?

As pessoas passavam por ela em uma pressa costumeira de Kaladesh. A melodia de suas vozes a sobressaltou. Ela ouviu pedaços de conversa que poderiam ter vindo diretamente de sua própria casa — previsões ansiosas sobre algum inventor famoso na Feira, opiniões rudes sobre os méritos deste ou daquele projeto de aeronave, trocas rápidas sobre prazos iminentes.

Chandra agarrou os próprios cotovelos. Ela ansiava por se encolher em sua rede de infância, suspensa nas passarelas da antiga mina de antes do boom do éter, acima da oficina mecânica onde seus pais se debruçavam sobre alguma nova invenção. Ela queria ficar pendurada ali, ouvindo suas vozes, enquanto moldavam metal. Ela ansiava por apenas ir para casa, exceto que ela estava em casa e não era mais o seu lar, e ela não tinha mais onze anos e nunca mais teria sua mãe envolvendo-a em seus braços—

Ela rosnou e bateu o pé. Encostou as mãos nas coxas e limpou um olho. Não.

Em algum lugar desta multidão estava o renegado que ela procurava, o inventor que estava em perigo — e o restante das Sentinelas não se importava. Sua família trabalhara contra o Consulado enquanto ela crescia, esquivando-se de patrulhas para fornecer éter a inventores brilhantes. Ela não sabia por que essa pessoa era tão importante para ela, ou por que essa missão fora o que a atraíra de volta a Kaladesh. Ela apenas sabia que precisava encontrar este inventor, e logo.

Ghirapur prosperava ao seu redor, uma cidade de milhares de rostos. Ela nem sabia como esse renegado se pareceria. Chandra sentiu um fragmento daquela sensação familiar — a sensação de ter se metido em algo sem qualquer plano de como sair. Sentiu um pequeno impulso de dar meia-volta para Ravnica.

Um par de agentes da lei do Consulado olhou para ela, avaliou-a e seguiu em frente — e o pico tranquilizador de desafio afastou seu impulso de fugir. Ela instintivamente escondeu um punho feito por reflexo e agarrou um punhado de um estandarte próximo. Colocou o pé em uma viga de cobre decorada, puxou uma bandeira do Consulado pendurada e içou-se para a varanda do nível superior.

Enquanto subia, a cidade se estendia diante dela. Veículos e pessoas surgiam pelas ruas, reunindo-se para a Feira dos Inventores. Jardins envidraçados no telhado giravam, voltados para o arco do sol. No centro da cidade, uma única torre enorme alcançava o céu, aeronaves movidas a éter orbitando-a como mariposas. Ela se perguntou se conseguiria algum dia explicar o emaranhado nó emocional que era Kaladesh para ela. Mas mesmo que tivesse um amigo ali, alguém que pudesse entender, ainda assim nunca conseguiria explicar—

"Então esta é a sua casa", disse uma mulher ao seu lado.

Chandra assustou-se, depois franziu a testa. Parada na varanda anteriormente desocupada ao seu lado estava Liliana, apoiando os braços cruzados em um corrimão e olhando para Ghirapur.

Arte de Jonas De Ro

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Um homem de cabelos grisalhos deslizava por Ghirapur com uma série de movimentos laterais. Ele evitava as vias principais e ficava fora do Expresso com bilhete, ziguezagues levando-o para dentro e para fora de lojas de peças, ao longo de artérias de éter e através de pátios sombreados. Puxou o capuz em volta das bochechas, mantendo o rosto escondido de patrulhas e ornitópteros. Ninguém pisava em sua sombra enquanto ele se aproximava cada vez mais da Feira dos Inventores.

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Chandra agarrou o corrimão da varanda e encarou Liliana. "Se você acha que está aqui para me convencer a voltar para casa, pode ir embora."

Liliana desdenhou. "Nem sonharia com isso. Você está em casa."

"Não vou voltar até encontrar quem quer que esse Baan estivesse procurando." Ela rangeu os dentes, ajustando o xale de sua mãe em volta da cintura. "Não importa o que você ou os outros queiram."

"É o que você quer que importa. Que se danem os outros, se eles não veem o que o seu lar significa para você."

"Eles têm boas intenções", rebateu Chandra. "Eles apenas... eles não entenderiam tudo isso." Cem explicações do que Kaladesh significava lutaram para vir à superfície de sua mente, mas nenhuma delas era grande ou complicada o suficiente. O que a casa da sua infância poderia significar, quando ela tirou a sua infância de você? Como o lar deveria significar qualquer coisa, quando você se tornou quem é ao deixá-lo?

"Diga-me", disse Liliana. "Talvez eu possa ajudar."

"Você também não entenderia", disse Chandra.

"Eu entendo que o lar pode ser uma fonte de dor", disse Liliana. Seu rosto era uma série de linhas ilegíveis. "Eu entendo que Baan é uma série monótona de regulamentos em um uniforme bonito."

"Baan é um deles. O Consulado. Eles mantêm a cidade funcionando, mas também odeiam qualquer pessoa ou coisa que ouse pintar fora das linhas. Excluídos. Renegados."

"Pessoas divertidas, em outras palavras."

"Eu só quero dizer, pessoas como eu. E meus pais." Chandra colocou as mãos no corrimão. Um fio de fumaça subiu da madeira.

Liliana conjurou um brilho violeta ao redor das pontas dos dedos e seus lábios se abriram em um sorriso. "Então acho que já passou da hora de celebrarmos seu grande retorno à sua cidade natal."

Chandra ergueu uma sobrancelha. "Estou aqui para realizar algo."

"Ainda podemos procurar por seu precioso renegado pelo caminho. Mas olhe para você! Você nem está aproveitando a festa gigante que está acontecendo lá embaixo. Além disso. Eu acho que você e eu, nesta cidade? Poderíamos nos meter em alguns problemas profundamente satisfatórios."

Arte de Mark Winters

O próprio sorriso de Chandra veio involuntariamente. "Liliana, você é dois séculos mais velha que eu. Exatamente qual de nós deve ser a responsável?"

"Vou te contar um segredo." Liliana colocou a mão em concha de forma brincalhona perto da orelha de Chandra. "Não precisa haver um responsável."

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O homem no capuz envolveu-se no zumbido da Feira dos Inventores e ouviu. Manteve o rosto e o braço direito escondidos, não mais para esquivar-se dos soldados do Consulado ou dos olhos curiosos dos ornitópteros de lentes brilhantes, mas para caminhar livremente entre os frequentadores da feira. Inventores o reconheceriam instantaneamente, é claro, e interromperiam seu trabalho. Ele não podia permitir isso. Precisava completar sua missão antes que alguém tivesse a chance de notá-lo.

Ele escorregou para o fluxo da multidão e ouviu, seguindo as palavras deles até seu alvo.

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Os rastros de éter no céu desapareceram de redemoinhos suaves de azul e branco para dourado e cobre, para salmão e violeta, e finalmente para turquesa luminosa contra o preto cintilante. Correntes de luzes movidas a éter piscaram ganhando vida, e luz e música transbordavam de cada porta da cidade. A busca de Chandra e Liliana pelo renegado tornara-se uma série de conversas com simpatizantes renegados, que se transformaram em horas de convívio com inventores em salões de sociedade e salões de baile, que se transformaram em, de alguma forma, dança. Chandra viu-se em rodas com giros e saltos acrobáticos, danças cerimoniais para saudar as conquistas de grandes artífices e pilotos, alguns meneios expressivos que pegavam emprestado de seu tempo como monja em Regatha.

As bochechas de Chandra brilhavam. Ela olhou para trás, para Liliana, que, tendo passado apenas um dia neste mundo, parecia irritantemente, perfeitamente em casa. Liliana encostava-se a uma parede da boate com uma bebida na mão, lançando silenciosamente um ataque total de carisma sobre um vedalke em uniforme do Consulado, parecendo algo como um leão brincando com um antílope ferido.

Quando o rosto azul do soldado vedalke subitamente ficou roxo e seu sorriso se inverteu, o reflexo de luta ou fuga de Chandra entrou em ação. Ela correu para ouvir o homem do Consulado entrar em modo acusatório.

Os olhos do vedalke eram frestas finas agora. "E mesmo que eu soubesse sobre ameaças à Feira", disse ele, "que assunto seria esse para você, senhora? Se você presenciou algo, é seu dever relatar."

O giro arrogante de Liliana em direção a ele foi elaborado. "Bem, eu acho que é o seu dever—" E então ela soltou um palavrão tão chocante que teria sido o equivalente a jogar sua bebida no rosto do vedalke — o que ela então também fez. O líquido escorreu do rosto surpreso do homem e pingou pelas linhas retas de seu uniforme do Consulado.

A boca de Chandra fez um O. Ela não sabia se arquejava de horror ou caía na gargalhada.

"Bem feito para ele, hein, Chandra?" Liliana piscou para ela. "Esta é minha colega Chandra. Uma orgulhosa simpatizante renegada."

Alarmes dispararam na cabeça de Chandra.

"Renegados", disse o soldado vedalke, da mesma forma que se pronunciaria o nome de uma espécie de praga ao encontrá-los residindo sob as tábuas do assoalho. Ele enxugou o rosto com um lenço e enfiou a mão no bolso em busca de algo. "Vocês duas", disse ele. "Vão vir comigo."

Quando Chandra viu o que o vedalke do Consulado produzira de seu uniforme — um simples par de algemas, como joias em sua arte de filigrana — a raiva surgiu. Seu cabelo tornou-se fogo. Seus dedos tornaram-se um punho. Ela tinha onze anos de novo e cavalgava uma onda crescente de fúria.

O soldado fez uma careta de susto diante da exibição do cabelo de Chandra, e isso poderia ter sido motivação suficiente. Mas foi quando ele zombou: "Estenda os pulsos", que o punho de Chandra descreveu um arco e colidiu com a mandíbula dele em um movimento fluido. O rosto do homem girou para encarar a parede da boate, um dente ricocheteou na parede e ele caiu no chão em um monte inerte.

Liliana riu como uma espécie de aplauso, como alguém assistindo a dominós caírem em sequência. Ela ergueu seu copo.

Chandra sentiu os rostos de todos na boate voltando-se para ela. "Vamos sair daqui", disse ela.

"Mas você não quer mostrar a essa multidão do que mais é capaz? Dar a esse capanga o que ele merece?"

"Vamos embora, agora!"

Chandra saltou um corrimão e esquivou-se pelos fundos da boate. Empurrou a porta dos fundos, com Liliana seguindo-a para o beco. Elas passaram correndo por dois inventores que faziam seus autômatos roncarem um para o outro — um dispositivo abria suas intrincadas penas de cobre enquanto o outro girava em uma roda giroscópica.

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Já estava escuro quando o homem no capuz encontrou os alvos que procurava. Uma fila de jovens saía apressadamente das arquibancadas sombreadas no Circuito Oval, as pernas e garras de cobre de seus autômatos não muito legais sobressaindo das mochilas em suas costas. Inventores renegados.

Ele os interceptou, tomando cuidado para parecer casual. Manteve as longas mechas de seu cabelo prateado escondidas sob o capuz, mas ofereceu a mão — não aquela, a outra — de forma a exibir um símbolo da Pináculo Vazante escondido na parte interna de sua luva.

Uma mulher anã notou a Pináculo Vazante e apertou a mão dele, retribuindo o sinal com o seu próprio. "Receio que estejamos drenados esta noite, amigo."

"Não procuro éter", disse ele. Usou um feitiço sutil para escanear o conteúdo da mochila dela. O autômato dela tinha um módulo de escuta em seu interior. Perfeito. Agora ele só precisava mantê-la falando. "Estou procurando uma associada. Esperava que soubesse onde a pequena demonstração dela está planejada para amanhã."

"Muitas demonstrações acontecendo. Você tem um nome?" Ela tentava manter contato visual, ver o rosto dele. Apropriadamente cautelosa.

Suas informações eram parciais, mas isso se ajustava à narrativa de que ele era um renegado cauteloso de qualquer maneira. "Ela disse para não usar nomes. Eu apenas deveria encontrá-la. Você não ouviu falar sobre isso?" Enquanto isso, seu próximo feitiço fazia o seu trabalho. O pequeno módulo de escuta metálico obedeceu aos seus comandos, soltando-se do dispositivo dela. Flutuou silenciosamente para fora da mochila e para o bolso do paletó dele.

"Sinto muito", disse a anã com um dar de ombros. "Não sei de quem ou do que você está falando."

Mas ele sabia que ela era uma associada de seu alvo. Sorriu amplamente em desculpa. "Sinto muito. Vou parar de incomodá-la."

"Sem problemas", disse a anã. "Como podemos contatá-lo se ouvirmos algo sobre sua amiga? Como você se chama—?"

Ele virou-se e acenou. "Tenha uma boa noite."

Ele reuniu seu capuz ao redor de si novamente e seguiu adiante. Olhou para a mão — aquela mão — na qual segurava o pequeno e ornamentado módulo de cobre. Enquanto caminhava, ordenou que ele ativasse e, enquanto suas engrenagens giravam, ele lhe contava tudo o que ouvira — conversas, horários, datas. E uma localização.

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Cada vez que Chandra e Liliana viam uma patrulha, elas dobravam uma esquina, e cada curva as levava em um passeio sinuoso pela cidade. Esquivaram-se por uma tenda de mercado e subiram correndo um conjunto de escadas elegantes. Olharam para baixo de uma janela e abaixo delas havia um beco tranquilo, fora das rotas da guarda.

"Lá embaixo", disse Chandra. A desaprovação de Liliana era evidente, mas elas escorregaram por um conjunto de escadas para o beco.

Recuperaram o fôlego, encostadas em paredes opostas. Raios de luz do dia raspavam o topo dos edifícios. As multidões começavam a reaparecer para o dia.

"Estou farta desse negócio de 'corrida ofegante pela cidade'." Liliana enxugou a testa com pesar. "Sou mais uma pessoa de 'caminhada dramática'."

Mas Chandra estava apenas olhando para o mosaico na parede ao seu lado.

Arte de Greg Opalinksi

O mosaico estava lascado e desgastado. O inventor retratado na moldura redonda olhava para o lado, com seus óculos na testa. Ele parecia gentil como sempre. Gentilmente divertido, da maneira como olharia para ela. Chandra encontrou uma lasca de cor na poeira da estrada, pegou-a e tentou pressioná-la de volta ao lugar, mas ela não grudava.

Liliana parou ao lado de Chandra, olhando para o mosaico.

"Este era meu pai", disse Chandra. "Kiran."

"Você tem o nariz dele. E os óculos."

"Ele e minha mãe eram ambos grandes inventores. Foram mortos quando eu era criança."

"Sinto muito. Por quem? Pelo Consulado?"

Chandra apertou os olhos por um momento. "Por um psicopata de uniforme. Baral. Meus pais morreram por causa dele. Porque ele me odiava. Porque eles tentaram me proteger."

Liliana olhava para ela com curiosidade. Chandra queria que ela não fizesse isso.

"A culpa não é sua. É dele."

"Eu não deveria ter voltado aqui. Por que eu voltei?"

"Porque você sente que deve isso a eles. Todos nós temos que enfrentar as escolhas que fizemos quando éramos mais jovens." Liliana olhou para o mosaico e limpou uma mancha de poeira do retrato. "Talvez devêssemos procurar este seu Baral."

"Este lugar... aqui foi onde aprendi a esperar a tragédia. Onde aprendi a suspeitar das pessoas."

"Também foi onde você aprendeu a se destacar. Onde aprendeu a ser perigosa."

"Você diz isso como se fosse algo bom."

"A maioria das pessoas se contenta em aceitar a vida como ela vem. O mundo lhes diz que são fracas, e elas concordam. Comem decepção, deixam-na apodrecer dentro delas e depois se deitam e morrem. O resto de nós? Aprendemos a recusar. A cuspir e atirar coisas. Aprendemos a sobreviver. Você é uma sobrevivente, Chandra."

Chandra olhou nos olhos de seu pai. Segurou a bainha do xale, o xale de sua mãe, que usava na cintura.

Liliana sorriu astutamente. "Se Baral odiava tanto sua família, deveríamos descobrir se ele ainda está por aí, apenas por segurança. E além disso, se o encontrássemos, você poderia olhá-lo nos olhos, em vez deste retrato, e dizer o que pensa dele. Você merece isso."

Arte de Cynthia Sheppard

"Não sei", disse Chandra. "Baral provavelmente pensa que morri naquele dia."

"Então imagine a cara dele quando perceber que você não morreu. Quando perceber que você sobreviveu."

Chandra animou-se um pouco, pensando nisso.

Liliana olhou-a nos olhos então, e seu rosto estava sério. "Quando você reduzi-lo a cinzas."

Chandra inclinou a cabeça para trás em choque, mas ao mesmo tempo, um calafrio sombrio ousou percorrer seu peito. Baral matara seu pai na sua frente. E ela sabia que Baral comandava os soldados que atearam os fogos que destruíram sua vila, que deviam ter matado sua mãe. Toda sua família perdida, por causa de um homem. Quão satisfatório seria vê-lo queimar.

"Se ele ainda estiver vivo", disse Chandra, "juro que ele vai pagar pelo que fez."

A voz de Liliana era um sussurro baixo. "É justo retribuir a dor que ele lhe causou."

"É justo", murmurou Chandra, e seu cabelo pegou fogo.

Arte de Magali Villeneuve

"São elas!", dois homens uniformizados gritaram de uma extremidade do beco e correram em direção às duas Planeswalkers. Localizadas.

Chandra fez menção de correr na outra direção, mas Liliana a agarrou. "Não precisamos correr", disse a necromante, olhando fixamente para os guardas. "Há outra maneira de encerrar esta perseguição."

"Não. Não fazemos isso."

"Fazemos o que for preciso", disse Liliana, suas palavras sublinhadas pelo apito de um trem a algumas ruas de distância.

Chandra soltou a mão de Liliana. Olhou para os dois homens e lançou uma rajada rodopiante de chamas. Mas em vez de atingir os guardas do Consulado, o feitiço espalhou-se no chão de tijolos, transformando-se em uma parede de fogo que abrangia a largura do beco. Os guardas pararam bruscamente.

Ela olhou para Liliana. "Não me diga o que fazer", disse ela. "Venha. Tive uma ideia."

Emergiram em uma via principal. O trem da alvorada de Aradara era enorme, mas equilibrava-se elegantemente em um único sulco nos tijolos, a luz do sol brilhando em seus flancos de madeira polida. Passageiros apressavam-se para entrar pelas portas ao longo de sua extensão sinuosa. Chandra correu e subiu, colocando a mão no caminho quando as portas tentaram fechar.

Ela e Liliana embarcaram enquanto o trem sibilava ao partir. Pelas janelas, podiam ver os guardas do Consulado desistindo da perseguição e recuando na distância.

Um mecanismo complicado na entrada estalou para elas pedindo passagens. Chandra golpeou o mecanismo com o punho, amassando-o. Ele parou de estalar.

Sentaram-se. Chandra encostou a cabeça no vidro, observando os prédios de sua infância passarem ruidosamente. Nenhuma das Planeswalkers falou.

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O trem deu um solavanco e os freios guincharam. Chandra agarrou seu assento e levantou-se, apenas para ser jogada contra os assentos à sua frente. O apito do trem soou repetidamente, e as rodas travaram abaixo delas, e luzes vermelhas de aviso piscaram no teto do vagão.

Chandra olhou pelas janelas enquanto o trem sacudia. Do lado de fora — uma exibição de caos contido. Um esquadrão de inspetores especiais do Consulado acenava para as multidões entrarem em zonas designadas. À distância, canos de éter rompidos lançavam gases cintilantes no ar, e tripulações de aeronaves lançavam redes para cercar ornitópteros perdidos. Prédios inteiros haviam ficado escuros, cortados de seu suprimento de éter. Frequentadores da feira tagarelavam e apontavam para o céu com entusiasmo, mas o que quer que tivesse acontecido aparentemente já viera e partira.

Uma interrupção. O rescaldo de algum tipo de exibição aérea. Tinha que ser o trabalho do renegado — aquele com quem Dovin Baan estava preocupado.

Um anúncio ecoou pelos tubos do trem. "Este trem está fazendo uma parada não programada. Por favor, permaneçam em seus assentos—"

"Vamos lá", disse Chandra para Liliana por cima do ombro, e correu passando por vários passageiros sentados em direção a uma porta de saída.

"—até receberem instruções de um condutor da Aradara ou oficial do Consulado. Obrigado."

Chandra golpeou a maçaneta da porta com calor. O mecanismo da maçaneta desapareceu em uma explosão de fogo contida, deixando um buraco derretido brilhante. Ela deu um chute e a porta se curvou, abrindo-se. A rua ainda passava velozmente.

"Este pode ser o renegado", disse Chandra. "Tem que ser."

Liliana assentiu, e elas saltaram. Seus pés atingiram o pavimento antes que o trem tivesse parado completamente. Ao redor, guardas do Consulado tentavam afastar as pessoas da direção da interrupção. Chandra mergulhou na multidão, abrindo caminho através de uma maré constante de corpos que tentavam se afastar da emergência enquanto elas tentavam se aproximar.

"Chandra", disse Liliana. Algo chamara sua atenção.

"O quê?"

"Ali. No capuz."

Arte de Daarken

Chandra seguiu sua linha de visão. Uma figura cruzava a multidão com perícia, mantendo o rosto cuidadosamente escondido por um capuz escuro. Ele não as notara. Abriu um caminho ao redor da área restrita, mantendo a fonte da interrupção à vista.

"Conspicuamente inconspícuo, você não acha?"

Chandra assentiu firmemente. O renegado delas. Elas tinham que avisá-lo. "Ei!", gritou ela. "Ei, você!"

Ou ele não ouviu, ou "Ei, você!" era exatamente o que o inventor renegado que interrompera a Feira não queria que gritassem para ele em uma multidão cheia de oficiais. Em qualquer caso, ele saiu disparado delas, através de um grupo de espectadores e contornando um posto de controle do Consulado.

Chandra e Liliana o perseguiram, alcançando-o apenas quando ele parou para abordar uma mulher mais velha.

Arte de Raymond Swanland

O capuz do homem estava abaixado agora, revelando uma cabeça cheia de mechas grisalhas. Sua mão direita, emergindo de sua manga, era uma garra metálica, que ele apontava para a mulher.

Elas haviam alcançado o homem, emergindo da multidão atrás dele. Mas foi a mulher que comandou a atenção de Chandra. Ela tinha cabelos ruivos como os de Chandra, mas mais escuros e agora com fios de cinza. Usava óculos de soldador e carregava um soldador manual, e encarava o homem da mão de garra com desprezo.

O coração de Chandra parou e lágrimas quentes brotaram em seus olhos. Ela não conseguia descobrir como dizer nada.

"Finalmente encontrei você, Renegada Primordial", disse o homem, apontando sua mão de metal para ela como se apontasse uma arma. "Você acha que seu pequeno espetáculo vai importar para a minha Feira?"

A mulher zombou dele. "Nós vamos parar você, Juiz Chefe. Se não hoje, em um dia breve."

Liliana agarrou o homem e o girou para ela. Ela pronunciou um nome que Chandra não reconheceu, com um nojo que ela não compreendeu:

"Tezzeret."

E então, boquiaberta para a mulher com o cabelo como o dela, Chandra finalmente encontrou uma palavra própria. Ela a trouxe à superfície de sua mente vinda de um mar de choque, e finalmente conseguiu sussurrá-la em voz alta:

"...Mãe?"

14 de Setembro de 2016 | Por Mel Li

Renegada Primordial

Chandra Nalaar deixou seu plano natal de Kaladesh pela primeira vez quando sua centelha de Planeswalker se acendeu, lançando-a de uma perdição iminente pelas mãos do Tenente Baral para os monastérios de fogo de Regatha. Agora ela voltou para tentar salvar uma misteriosa renegada da prisão, apenas para encontrar alguém que pensava estar morto há anos — sua mãe, Pia.

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"Eu matei sua filha hoje, Pia." Uma voz baixa flutuou através de um pesado véu de sono e uma dor de cabeça lancinante.

Ela forçou as pálpebras a se abrirem, mas foi recebida apenas pela escuridão. Cordas vocais rígidas craquelaram palavras através de uma garganta seca. "O quê—?"

"Apenas uma coisinha de nada, aquela." As palavras dele eram estranhamente curtas e lentas, sua respiração pesada como foles de fornalha. "Mal mais alta que a minha lâmina." A voz riu sem humor — um estrondo baixo que Pia podia sentir através da porta entre eles.

A escuridão resolveu-se lentamente em borrões, depois em grossas manchas de luz. Suas mãos rígidas estenderam-se e encontraram as superfícies frias e curvas das paredes de filigrana. As tentativas de se levantar provaram-se prematuras.

"É claro que eu não me esqueci de você em meio a toda essa... animação. Aqui, trouxe isto para você."

CLANK. Uma peça de metal tilintou no chão em algum lugar à sua frente.

"Vá em frente. Uma lembrança do que você perdeu", disse a voz.

Ela estendeu uma mão hesitante para o objeto. Um fragmento plano, completamente derretido de um lado e profundamente gravado do outro. Leve. Frio, e aquecendo-se apenas ligeiramente sob o calor de seu toque, mas com entalhes profundos e precisos no lado intacto. Uma liga de titânio valorizada para uso nos motores de aeronaves renegadas por sua maleabilidade e resistência ao calor — embora esta peça não passasse de escória de um lado.

"Você reconhece?" a voz indagou com avidez excessiva.

Conforme seus olhos se ajustavam, ela conseguia distinguir alguns dos símbolos e traçava o restante com as mãos. Um redemoinho de movimento estampado sob uma agulha pontiaguda. Pia conhecia este símbolo — parecia ontem que ela e Kiran o haviam criado ao deixarem Ghirapur. Uma agulha vazando, um símbolo para os renegados, para a Ghirapur à qual desejavam poder voltar. Mas o que era esta peça? Seus dedos dançaram sobre as gravuras, examinando sua superfície. E pararam.

Abaixo da insígnia, as letras "K.N.", rabiscadas na mão bagunçada, mas deliberada, de um artesão que fora separado de suas ferramentas. Ela sabia exatamente o que era agora — uma peça do projeto final de Kiran Nalaar.

A mochila de ventilação de Chandra.

Os músculos entre suas costelas se contraíram, e uma súbita onda de sangue encheu seu peito de calor. Suas mãos fraquejaram e deixaram cair a insígnia.

"Oh, veja!" A voz radiou do outro lado da porta da cela. "É claro que reconhece."

"Não há muito que eu me importe em recordar sobre essas coisas", continuou a voz. "Embora eu me recorde do olhar dela. Mudando pela multidão, incapaz de me encarar de volta. Covarde. Desafiadora."

Seus sentidos agora haviam retornado quase completamente. As luzes borradas vinham dos tubos de éter no teto de uma cela de prisão austera com uma porta gradeada. Ela fora feita prisioneira quando o Consulado emboscara sua família na vila nos arredores de Ghirapur. Esta não era a realidade na qual ela esperava despertar. Volte. Seja um sonho. E aquela voz — a voz era tão familiar...

"Mas então eu percebi", a voz continuou com entusiasmo genuíno, "ela estava procurando por algo. Ou alguém, talvez?"

Oh, sim. Ela conhecia aquela voz. A voz do homem que caçara sua família: Capitão Baral.

"Ela estava procurando por você, Pia."

O ar em seu peito saiu dela em um brado de indignação, embora por quem ela não soubesse dizer. Suas mãos voaram para a grade, agarrando a silhueta de Baral, embora ele estivesse facilmente fora de seu alcance. Ombros e punhos chocaram-se contra a porta da cela. Baral a encarava de volta, seu rosto mascarado impassível.

"Sou eu quem merece seu desprezo?", perguntou ele. "Não foi você quem deveria ter chegado para salvá-la? Para oferecer-lhe algumas palavras finais de conforto?"

Claro. Por que eu não estava lá?, algo exigiu dentro dela.

Ele partiu sem dizer mais nada, como faria todas as vezes.

Enquanto seus passos desapareciam, ela ficou subitamente muito, muito sozinha. Seu Kiran, sua Chandra, os fios de todas as suas vidas outrora tão firmemente ligados agora se afastavam inexoravelmente dela no tempo e no espaço. O mundo deles, outrora tão grande e cheio de vida, era agora esta cela.

Baral voltou no dia seguinte, e no seguinte. Logo uma semana se passou.

"Ela estava procurando por você, Pia."

As palavras haviam se tornado apenas sons para ela agora — reconhecíveis, embora voluntariamente tornadas sem sentido. Ela reuniu coragem para falar com ele pela primeira vez.

"Você não tem nada melhor para fazer do que perseguir uma viúva em luto? Não tenho mais nada para você levar. Você venceu — não pode me deixar em paz?"

"Nalaar, nossa cidade sempre se definiu através de seu progresso. Todos fazemos sacrifícios para colocar seu bem-estar acima do nosso", disse Baral.

"Todos nós", continuou ele com um tom afiado entrando em sua voz, "exceto os poucos egoístas que ousam colocar seus interesses acima da cidade. É... um prazer para mim trazer os de sua laia à justiça. Fazer você se arrepender de cada fragmento desse desafio fátuo."

Pia ergueu o queixo para ele com um sorriso frio e piedoso. "Então você me provou que estou errada, Tenente. Eu tenho algo sobrando, e nunca será seu."

Ele riu, embora houvesse uma agudez ali que não existia antes, e partiu pelo corredor de portas de celas.

Passara-se quase outra semana antes que ele voltasse novamente.

"Ela estava procurando por você, Pia", disse Baral, como já fizera tantas vezes.

Pia respondeu lentamente, recusando-se a retribuir o olhar. "E eu voltarei por ela, por todos aqueles lá fora, para que saibam o que você fez. Por você, Tenente."

Suas mãos estavam fortes e firmes agora, fortes o suficiente para arremessar a pequena lâmpada de éter de filigrana de sua cela com velocidade e precisão alarmantes, direto através da grade da cela em direção ao rosto de Baral.

Ele ergueu um cotovelo com um grunhido instintivo enquanto a lâmpada atingia seu rosto e deslocava sua máscara com uma reverberação metálica. Um brilho azul brilhante explodiu ganhando vida e circulando seu corpo, enchendo o corredor de Dhund com luz. Desapareceu meros segundos após se formar, deixando uma série de pontos dançantes na visão de Pia. Era brilhante e volátil demais para ser qualquer forma de éter. Não — era algo inteiramente diferente.

"Você é... um mago?" Pia arquejou. Deixando de lado a piromancia de sua própria filha, ela nunca conhecera outro mago. Magia e usuários de magia não eram apenas escassos, eram regulados e vigiados mais de perto do que o próprio éter.

Um sibilo longo e baixo emanou do outro lado da porta. Era um som muito menor, muito mais humano do que fora dentro daquela máscara. Pia correu para a grade da cela e espiou para fora.

O olhar de Baral, agora sem máscara, disparou para cima e seus olhos se encontraram. Sob a máscara, uma massa de tecido cicatricial espesso serpenteava por suas feições, partes dele ainda vivas e vermelhas. As linhas fortes, alguns diriam até "bonitas", de seu rosto haviam se espalhado e derretido.

"Seu... o que aconteceu com você?"

Arte de Anthony Palumbo

Baral parou enquanto prendia novamente os fechos de sua máscara. "O destino raramente é justo, Nalaar." Ela observou os músculos tensos e distorcidos de seu rosto trabalharem as palavras com uma fascinação relutante. "Os materiais que moldam o que nos tornamos são fixados no momento em que somos trazidos a este mundo. Os afortunados de nós nascerão heróis. Mas há vários de nós que nascerão malformados — aberrações perigosas para o curso da natureza. Talvez possam até parecer e agir como o restante que pode nos ameaçar das sombras."

Máscara segura, ele cuidadosamente cobriu a cabeça com o capuz. "Eu aceito minha natureza — não vou me esconder nem deixar que outros se escondam das sentenças que receberam. Este é o meu destino, erradicar esses perigos ocultos, expô-los e trazê-los à justiça."

Qualquer vestígio de preocupação desapareceu. "Destinado a lutar com seus próprios demônios caçando crianças?"

"Crianças?" Ele soltou uma risada sem humor. "Claro. Quem melhor para usar indevidamente suas habilidades para propósitos egoístas ou equivocados. Além disso, os anos mudam pouco as disposições criminosas naturais, como você mesma evidencia."

Sua voz tornou-se baixa e ele se inclinou em direção à grade em um sussurro acusatório. "Você perguntou o que aconteceu. Sua filha. Sua filha aconteceu, Nalaar. Isto —" ele pressionou o rosto mascarado contra a grade e arrastou os dedos pelas laterais da máscara, "isto é o trabalho de sua filha."

Pia inclinou-se o mais que pôde para a grade. "Uma mãe não poderia estar mais orgulhosa."

Baral bateu a grade com uma força que fez Pia recuar cambaleante. Uma determinação fria domou sua fúria. Agora sozinha na escuridão aveludada da cela de Dhund, ela fechou os olhos e ouviu o compasso de seu coração desacelerando...

... E começou a planejar.

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Arte de Tyler Jacobson

Anos depois e longe de Dhund, Pia Nalaar abriu os olhos e piscou sob a luz do sol enquanto limpava seus óculos na parte de trás de uma luva bem gasta.

Aqueles anos haviam voado enquanto Pia reunia um contingente crescente de inventores, funileiros, artistas — cidadãos de toda Kaladesh — dedicados a expor e protestar contra o controle cada vez mais apertado do Consulado sobre a cidade e seu vital éter. "Renegados", como o Consulado os chamava, nascidos de uma paixão obstinada para defender e celebrar o espírito do lar que haviam construído juntos.

Um grupo selecionado desses renegados reunira-se hoje em um dos muitos telhados ornamentados e sinuosos do distrito, bem acima do solo. Abaixo deles, a cidade era algo vivo e em movimento, cheia de fluxos cintilantes de movimento formados pelo latão brilhante dos construtos que passavam apressados. Estandartes e locutores anunciavam ruidosamente a Feira dos Inventores logo abaixo, cujas exibições se espalhavam pela praça em uma gama deslumbrante de formas e cores. E em questão de minutos, os renegados também revelariam sua própria exibição não autorizada nos terrenos da feira.

Um POP alto e o cheiro acre de fumaça chamaram sua atenção. Pia olhou por cima do ombro bem a tempo de ver a jovem aprendiz de inventor Tamni gritar e quase perder o equilíbrio na borda do telhado.

Pia agarrou o braço de Tamni para estabilizá-la e olhou para baixo — o ornitóptero quase terminado da aprendiz estava consumido por chamas alaranjadas, o latão cedendo e empenando.

Pia rapidamente cobriu as chamas com sua luva e jogou-a para o canto mais distante da borda para esfriar. "Nada mais que um foguinho. Algo em que eu possa ajudar?", perguntou ela a Tamni com uma sobrancelha erguida.

Tamni desenrolou apressadamente plantas e atrapalhou-se com uma série de ferramentas de medição dispostas à sua frente. "Tudo está no lugar certo, não está? Eu verifiquei tudo antes, prometo! Eu sei que estamos ficando sem tempo... mas eu consigo fazer isso!" Ela mordeu o lábio inferior enquanto examinava freneticamente o diagrama.

Escória, ela tem razão — está quase na hora!, Pia disse para si mesma. Mas ela afastou o pensamento e colocou um braço tranquilizador ao redor de Tamni. "Está tudo bem — eles pediram para você estar aqui. Tenho certeza de que você já fez isso cem vezes antes!"

"... Eu, uh, você não quer dizer cem de verdade, não é? Quero dizer, eu consigo descobrir..."

Pia encarou-a inexpressivamente.

"Tenho certeza de que consigo! Quero dizer, eu tinha certeza?" Tamni arrastou os pés, envergonhada. "Eu talvez tenha... exagerado minha experiência para chegar aqui."

Arte de Ryan Pancoast

Pia aplicou mentalmente a palma da mão na própria testa.

"... Eu ouvi dizer que a Renegada Primordial estava liderando isto! Eu tinha que ver!"

Pia ouvia os outros ao redor mudarem de posição impacientemente. Ela lançou-lhes um sorriso confiante e fez o sinal — vamos passar por isso, deem-nos apenas um momento.

Pia ergueu o queixo de Tamni e canalizou a memória do melhor olhar parental de aço de seu pai. "Você ficará bem, mas precisaremos ser rápidas. Lembre-se do que aprendemos antes — as criações de um ourives-rápido não podem nos dizer o que está errado a menos que prestemos atenção nelas."

"Estas ferramentas", ela apontou para o eterômetro, medidores de pressão, palhetas de periodicidade, "dão-nos apenas uma parte do que precisamos saber. Estas ferramentas", ela tocou as mãos de Tamni, "conhecem muitas partes diferentes da máquina por experiência e intuição. Elas sentem pressão, calor, movimento, tamanho, tudo de uma vez. Vá em frente, dê um pouco de energia."

Tamni aplicou nervosamente um pouco de éter à máquina — as hélices laterais ganharam vida, mas o rotor traseiro permaneceu imóvel.

"Escute. O que você ouve?", disse Pia.

O som do rotor era um zunido agudo familiar e um clique regular de engrenagens. Tamni pressionou o ouvido contra o lado de filigrana. Sob os ritmos normais, um tom grave desconhecido espreitava ao fundo. "Algo está errado lá dentro, girando fora de sincronia."

Tamni colocou a palma da mão na abertura traseira. Algo bateu de volta lentamente, fora de sincronia com o restante das vibrações. Um tubo de éter perdido havia se prendido na caixa de engrenagens e quebrado, vazando éter volátil para fora da máquina, o que causara o superaquecimento dos rotores.

"Agora, quando reformamos o metal", ela encorajou Tamni, "devemos prestar muita atenção aos seus movimentos; a filigrana formada pelo desabrochar do éter sobre o metal é uma reação complexa e levemente volátil." Pia abriu a válvula de sua luva de éter e guiou a mão de Tamni com a sua.

"Mas você aprenderá os padrões dele, mesmo que não o entenda completamente", disse-lhe Pia. "Escute seus movimentos e curve-se a ele enquanto ele se curva a você. As coisas nem sempre serão como você quer ou precisa que sejam, mas devemos continuar a moldá-las o melhor que pudermos, e elas nos revelarão suas melhores formas."

Tamni balançou a cabeça ansiosamente. "Claro, sim — eu gostaria que tivessem nos ensinado essas coisas na oficina!"

Essas são lições duramente aprendidas, ensinadas pelo tempo, Pia pensou consigo mesma, irônica.

O metal fosco e oxidado curvava-se e retorcia-se ao redor do brilho intenso do éter. Ele se dividiu em uma rede de gavinhas azuis brilhantes, pulsando como algo vivo, revelando uma superfície nova e brilhante à medida que esfriava.

Tamni observou uma peça do latão curvar-se para dentro sobre si mesma e um movimento hesitante de sua tocha de éter a levou ao seu lugar correto. O rotor zumbiu ganhando vida, elevando o minúsculo novo ornitóptero do chão em asas recém-formadas.

A jovem inventora soltou um longo suspiro.

Quase pronto, agora era a vez de Pia.

Óculos abaixados, válvula de éter aberta, o formigamento frio do éter entrou nas pontas da luva de ourivesaria rápida de Pia. Do outro lado do telhado, um cilindro de latão foi lançado em sua direção e pousou com um baque satisfatório em sua luva. Um cilindro de motor recuperado — isso serviria perfeitamente.

Suas mãos destras voaram sobre sua superfície com uma pressão suave enquanto o éter era liberado lentamente das pontas de seus dedos enluvados, o latão envolvendo-se famintamente ao redor do éter exalado em formas geométricas intrincadas. Os movimentos do metal eram rápidos e imprevisíveis enquanto o éter se enrolava nele.

A mente de Pia corria, seus projetos mudando e se ajustando a cada segundo aos movimentos selvagens do éter. Logo ela formara uma cavidade central, envolvendo um frasco de éter que alimentaria múltiplos rotores, depois asas diáfanas de filigrana e barbatanas para navegação e, finalmente, apêndices que poderiam segurar sua carga. Ao completar sua construção, ela começou a inflar e se solidificar de dentro para fora, como as asas de um inseto após emergir de sua crisálida. Logo o ar vibrou com o zumbido furioso das batidas de asa de um novo ornitóptero.

Arte de Svetlin Velinov

Um relógio da cidade tocou as horas abaixo deles e os telhados em agulha ao redor dela giraram silenciosamente para suas novas posições para acomodar de forma ideal o tráfego de pedestres do final da tarde.

Bem na hora.

Uma mão pesada e calejada agarrou seu braço. Pia virou-se para ver um homem mais velho, de constituição pesada, no uniforme de latão e ouro brilhantemente polido de um tenente do Consulado. Ou, pelo menos, o que passava por um à primeira vista.

"Venkat!", exclamou ela, acertando um soco no ombro direito dele. "Pelas — você não pode sair por aí surgindo de fininho atrás das pessoas quando está com isso!"

"Significa que o uniforme funciona, não diria?", disse Venkat, sem se dar ao trabalho de suprimir um sorriso travesso enquanto tentava afastar o formigamento do braço. Outrora um comandante de alto escalão das forças de guarda do Consulado, seu dissabor contra as regulamentações cada vez mais rígidas sobre os cidadãos de Weldfast que ele fora encarregado de proteger levara sua obediência ao limite. Ele aparecera inesperadamente à porta da oficina de Pia há quase um ano — um local que ele mantivera escondido durante seus muitos anos de serviço ao Consulado.

"Além disso, sou apenas um entre muitos sábios o suficiente para depositar sua confiança em você", acrescentou Venkat, inclinando a cabeça em direção à multidão reunida no telhado.

"E minha confiança em malandros como você", disse Pia com um sorriso. Uma onda de orgulho percorreu-a enquanto observava os rostos familiares na multidão — como ela, eram artesãos respeitados, visionários, criadores. Por tudo o que parecia, poderia ter sido uma tarde passada conversando ao redor das mesas da oficina, o ar cheio de conversa e o cheiro de chá sendo preparado. Haviam compartilhado o peso das restrições cada vez mais severas do Consulado juntos, reunindo seus suprimentos minguantes de éter vital do Consulado que mantinham as movimentadas oficinas, cozinhas e enfermarias de seu distrito funcionando.

Os renegados ergueram as mãos para ela no sinal de prontidão — era a hora.

"Meus amigos e vizinhos!", chamou Pia para eles. "Hoje estamos aqui com um propósito — falar abertamente sobre o que vimos e buscar respostas para o que foi feito."

Os rostos à sua frente assentiram solenemente. Embora todos tivessem carregado o fardo do éter escasso, compartilhavam a indignação pelo "o que foi feito" a Pia e sua família.

"Hoje é um dia de celebração para muitos", disse ela, varrendo o horizonte da cidade com a mão. "Desde que foi criada, a Feira dos Inventores sempre colocou o espírito inovador de nossa cidade na vanguarda. Mas para muitos de nós, a celebração deste ano tornou-se algo muito diferente. Encontramos a Feira cheia de cada vez mais projetos favoritos do Consulado em roteamento de éter, segurança... armamento!" Rosnados brotaram da multidão e punhos foram erguidos.

"E ao mesmo tempo, nos vimos visados pelo próprio governo que jurou nos proteger!" Cabeças assentindo a encaravam da multidão.

"Eles cercaram os próprios céus para impedir que vocês, Nadya e Kari, coletem nosso próprio éter!" As duas engenheiras aéreas travaram olhares e ergueram os punhos juntas em uníssono.

"E quanto à fundição dos Mãos-de-Malho? O Consulado tomou o éter deles e a fundição agora jaz sem energia e vazia!" Três renegados pesadamente equipados ergueram seus martelos para Pia.

"Viprikti, sua família foi forçada a deixar sua casa quando o éter foi removido de quarteirões inteiros da cidade em Weldfast!" Um homem idoso e esguio puxou os óculos sobre os olhos solenemente.

"As missões de nossos líderes desviaram-se de ajudar os cidadãos para sustentar seus próprios interesses. Mas agora, meus amigos, meus renegados, entregamos nossa resposta. Todos vocês deram generosamente suas contribuições para tornar isto possível e tenho orgulho de apresentá-lo ao restante da cidade. Sejamos tão orgulhosos, destemidos e inabaláveis quanto aqueles que acreditam que podem extinguir nossos espíritos!"

Pia desceu a mão bruscamente e quatro renegados de óculos retribuíram o sinal. Agachados sobre a borda de filigrana, lançaram seus ornitópteros para a praça abaixo.

As máquinas mergulharam pelo ar para extremidades opostas da praça, quase uma centena em número. Alinharam-se em uma coluna maciça de metal cintilante sobre as tendas dos terrenos da feira que rivalizava com a altura dos edifícios mais altos da cidade.

Um zumbido musical de asas mecânicas encheu o ar e os rostos nas tendas abaixo voltaram-se para a cena. Frequentadores da feira sorriam e apontavam para o espetáculo, enquanto autômatos do Consulado e guardas humanos surgiam nas ruas.

Conforme o metal dos ornitópteros esquentava, suas cores mudavam de amarelo para verde, para roxos e azuis intensos, uma orquestração de cor e forma como uma aurora mecânica. Eles espiralaram uns ao redor dos outros e reformaram sua coluna em um cone afilado sobre uma linha sinuosa — a agulha vazando.

Inventores e cidadãos na multidão aplaudiram sua aprovação — uma exibição deslumbrante digna até de ser notada pelos juízes. Os ornitópteros começaram a descer suavemente em direção ao solo, como atores de palco fazendo uma reverência final. Abaixo deles, dezenas de autômatos do Consulado se reuniram, com as mãos estendidas.

Do telhado acima, Tamni agarrava a borda da balaustrada com os nós dos dedos brancos.

"Tudo parte do plano", tranquilizou-a Pia, colocando a mão no ombro dela e lançando um sorriso para Venkat.

Pairando logo acima dos autômatos, a massa de ornitópteros emanou um flash azul brilhante ao liberarem seu éter em um longo pulso. A súbita onda de energia inundou os autômatos idênticos, criando faíscas de éter concentrado. Eles caíram juntos em fileiras circulares, como tantos dominós.

"Perigos da produção em massa...", sussurrou Venkat para Pia com um sorriso.

Uma voz animada e impessoal ressoou pelos alto-falantes abaixo: "Boa tarde, cidadãos! Este é um teste de rotina do sistema de notificação de emergência. Este nível dos terrenos da feira está agora oficialmente fechado. Todo o tráfego de pedestres e trens será desviado desta área enquanto realizamos nossa manutenção. Agradecemos sua presença e esperamos que tenham aproveitado seu tempo aqui hoje!"

Pia assentiu para seus companheiros de telhado.

"Vocês devem ter tempo mais que suficiente para retornar a Weldfast antes que os guardas voltem. Fiquem seguros e, se houver qualquer problema, usem seu sinal de socorro e Venkat estará aqui para ajudá-los."

Os outros sorriram e assentiram de volta para ela, trocando abraços e parabenizações ao partirem. Escalaram as laterais da torre para baixo, mas não antes de deixarem sua marca.

Arte de Viktor Titov

Pia balançou-se do telhado para o parapeito de uma janela, suas mãos ágeis de artesã encontrando facilmente apoios nas paredes ornamentadas. Com um salto voador, ela transpôs o espaço de um edifício para o outro antes de descer por uma treliça de jardim para as ruas abaixo.

Algo selvagem e imprudente corria em seu sangue enquanto ela corria pela cidade, faixas verdes e cabelos grisalhos flutuando atrás dela.

Nas sombras das altas agulhas do outro lado da praça, um homem alto de manto começou subitamente a abrir caminho rapidamente pela multidão, com dois outros logo atrás.

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As solas macias das botas de Pia carregaram-na sem ruído sobre o pavimento quando ela alcançou os degraus do Núcleo de Éter na borda de Weldfast. Ali ela não teria problemas para desaparecer nas muitas ruas laterais do bairro e nas altas esculturas sinuosas que decoravam seus espaços públicos. Seu rosto abriu-se em um sorriso orgulhoso.

Atrás dela, uma mão pesada agarrou seu braço. Mesmo através da manga, parecia emanar um frio gélido que sugava o calor de sua pele.

"Venkat, por favor, eu lhe pedi—"

Ela virou-se para ver não Venkat, mas um homem alto de manto cujas marcas laranja no rosto o identificavam como o Juiz Chefe da Feira. A mão que agarrava seu braço era uma garra maciça de metal escuro que nem ela reconhecia, desaparecendo na manga do homem. ladeado por dois autômatos do Consulado, sua armadura ornamentada ecoava os padrões e cores deles: ouro e latão brilhantes e polidos do Consulado. Ao lado dele, o próprio e imponente Ministro de Inspeções vedalke, Dovin Baan. E uma elfa, alta e de olhos verdes, olhando de um lado para o outro em total confusão.

"Finalmente encontrei você, Renegada Primordial", disse o homem de manto, apontando sua mão de metal para ela como se apontasse uma arma. "Você acha que seu pequeno espetáculo vai importar para a minha Feira?"

A Feira dele?! Pia fervilhava. Esta é a nossa cidade!

"Nós vamos parar você, Juiz Chefe. Se não hoje, em um dia breve", ela retrucou.

Atrás do Juiz Chefe apareceu uma mulher pálida vestida com sedas escuras e fluidas e um adorno de cabeça dourado cintilante. "—Tezzeret", ela sibilou.

A cabeça dele ergueu-se bruscamente. Dentes apareceram. "Vess", ele devolveu, baixo e ardendo de raiva.

Então outra figura, pesadamente blindada e sem fôlego, apareceu ao lado da mulher. Ela afastou uma juba de cabelos selvagens cor de chama do rosto—

Uma maré de memórias lavou Pia.

... Chandra?

Mais velha, mas inconfundível. Sua filhinha, agora até mais alta do que Kiran fora. Escalando com risadas borbulhantes e agilidade de macaco os ombros dos pais enquanto passeavam pelos jardins do Cinturão Verde. Sua palma quente pressionada contra a de Pia no mercado, antes de sair correndo para explorar por conta própria. Tão ansiosa para fazer parte das causas às quais sabia que seus pais haviam dedicado suas vidas apesar do—

Apesar do perigo.

"... Mãe?" Uma voz, minúscula e frágil, nada parecida com ela mesma. Uma brasa inchou no canto de seu olho, foi pega pelo vento e rodopiou para longe.

Uma cela de prisão. Uma máscara caída. Uma insígnia de metal derretida. Um estrondo de riso sem humor.

Pia balançou a cabeça, como para desalojar as memórias de sua mente.

Ela poderia partir agora. Fugir e desaparecer nas ruas familiares.

Mas e quanto a Chandra?

E se a levassem de volta para qualquer que fosse o inferno que ela vira na arena, com aquele homem que de bom grado despedaçara a vida de ambas?

Soldados do Consulado se materializaram entre elas, formando uma parede de carne e metal com Pia, Dovin e Tezzeret de um lado e a mulher pálida, a elfa e Chandra do outro.

Chandra avançou contra a parede de soldados blindados, gritando algo que Pia não conseguiu entender direito em meio ao barulho de passos metálicos. Sua filha esquivou-se casualmente de um golpe vindo de um autômato de filigrana e inundou uma multidão de máquinas com um generoso banho de chamas. O calor lavou o rosto de Pia como uma onda quebrando.

Um véu de feroz orgulho materno borrou a cena. Ela enxugou os olhos ardidos pelo calor.

"A piromante", Baan franziu a testa, sua voz curta e precisa. Apontou um dedo longo e fino para o contingente de guardas ao seu lado: "Cuidem disto, por favor. Isolem e contenham. Mecatitãs na linha de frente — não quero ver ferimentos sob meu comando. Estejam atentos, ela é impetuosa."

Não! Pia gritava dos confins de sua mente para Chandra. Recue! Não deixe que levem você de novo. Por favor!

Chandra berrou um palavrão familiar e desferiu um soco que lançou um mecatitã para trás em chamas.

"Ah, sim." Baan inclinou a cabeça para o lado. "Ela também gosta de... descrições anatômicas criativas."

O queixo de Pia caiu. Teria ela ouvido Kiran dizendo aquilo...?

Uma linha de guardas pesadamente armados separou-se do lado de Dovin e começou a fechar o cerco ao redor de Chandra enquanto ela avançava mais para o meio deles. Vários deles tombaram, com os pés emaranhados em um turbilhão sibilante de videiras floridas que pareciam ter surgido de lugar nenhum.

Ela tinha que agir agora. Pia desviou os olhos de Chandra e voltou-se para encarar Tezzeret, com os olhos brilhando. "Meu nome é Pia Nalaar, líder dos renegados. Estou preparada para entrar sob a custódia do Consulado."

Dovin arqueou uma sobrancelha lisa e sem pelos e uma onda de murmúrios surpresos surgiu do grupo de soldados. "Deveras?", disse ele. Seria esta a temível Renegada Primordial para a qual haviam se preparado? "Você irá, confio eu, desculpar a necessidade de tomar as precauções apropriadas para uma prisioneira de sua... reputação."

Imperturbável, Tezzeret gesticulou para os soldados do Consulado avançarem, seu rosto iluminado por um sorriso feroz que de alguma forma nunca alcançava seus olhos calculistas. "Certamente. Mostrem à criminosa sua nova residência", disse ele, acenando na direção de Pia. Mãos seguraram cada um de seus pulsos e algemas de filigrana prenderam cada um deles.

"Segurança máxima?", perguntou Baan, esperançoso.

"Como achar melhor", disse Tezzeret impacientemente. "Agora, quanto aos outros..."

Arte de Tyler Jacobson

"Pia Nalaar", entoou um soldado, "você está por meio desta colocada sob a autoridade do Consulado pelos seguintes crimes: difamação de propriedade governamental, liderança de uma conspiração contra o governo, perturbação da paz, conduta desordeira, violação da Lei de Distribuição de Éter—"

Os gritos de Chandra aproximavam-se ainda mais — logo ela estaria cercada pelas fileiras crescentes de soldados. Ela tinha que parar seu avanço de alguma forma.

"Você esqueceu agressão!", disse Pia com um chute lateral rápido no estômago do soldado ao seu lado. "E a Lei do Éter era uma farsa abominável!", acrescentou ela, batendo as mãos algemadas como um martelo contra outro soldado.

Imediatamente as mãos em seus braços apertaram-se como tornos e começaram a puxá-la para longe.

Através da parede de soldados, Pia ouviu a mulher pálida gritar para Chandra: "Eles a pegaram! Você não pode arriscar agora; temos que ir!"

Pia deixou seu corpo amolecer enquanto assistia às agulhas de Weldfast, os renegados que haviam se tornado sua nova família e a filha que ela pensara ter perdido, tudo desaparecer de vista.

Arte de Tyler Jacobson

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Recuar nunca fora a opção favorita de Liliana.

Haviam perdido a massa de guardas do Consulado nas ruas lotadas e viram-se quase sozinhas em uma das ruas laterais de Ghirapur. Ali havia apenas alguns vendedores de curiosidades e uma mulher idosa vestida com mantos verde-azulados vibrantes examinando pacientemente suas mercadorias. O caos da briga fora suavizado como água.

Chandra sentou-se ao pé de uma escadaria de apartamentos empoeirada, agarrando os joelhos contra o peito, com o rosto enterrado no velho xale que costumava usar na cintura. Silenciosa. Liliana não a vira silenciosa por tanto tempo em muito tempo — geralmente significava que ela estava dormindo.

Nissa permanecia a uma distância que provavelmente considerava respeitosa, sem dizer nada, seus dedos delgados massageando sua testa tatuada.

Liliana andava de um lado para o outro ao lado das duas, os nervos mais tensos que a corda de um carrasco. "Aquele homem com o braço de metal — eu conheço aquele homem. Ele é—"

Uma memória abrasadora brilhou por trás de seus olhos. Jace, com as costas costuradas com feias cicatrizes brancas de uma lâmina de mana. Estremecendo no escuro enquanto ela traçava os dedos sobre elas, com os olhos ardendo.

Ela saltou quando seus próprios anéis de joias tilintaram juntos, uma discórdia de metal. "Ele é... perigoso", murmurou ela, forçando os punhos a se desenterrarem. "A presença dele aqui é — não pode ser coincidência."

Nissa voltou o olhar para a necromante, olhos verdes transbordando de uma acusação fria. "Por que você partiu sem nos avisar? Colocar-se em perigo daquela forma — você tem sorte de eu ter encontrado vocês!"

Os lábios de Liliana curvaram-se enquanto ela balançava o pulso com desdém na direção de Nissa. "Tezzeret é uma ameaça maior do que você poderia imaginar." Ela ergueu os olhos imperiosamente para encontrar os de Nissa. "E vigie seu tom — não sou de pedir permissão nem perdão."

Os olhos de Nissa estreitaram-se, vestígios de fogo verde aparecendo nas pontas de seu cajado. Isso não passou despercebido por Liliana, que imediatamente suavizou o rosto em uma máscara de indiferença desinteressada.

"Por que você está sequer aqui?" Liliana girou o pulso no ar quente da tarde, o gesto abrangendo todo o plano reluzente de Kaladesh. "Os outros fizeram uma votação enquanto estávamos fora? 'Regra das Sentinelas número sei-lá-qual, nada de ir para casa sem permissão por escrito'?" Ela olhou para a piromante com expectativa, mas Chandra não deu sinal de ter sequer ouvido.

Nissa ouvira. "Você esteve provocando ela o tempo todo?", disse ela, horrorizada. "Eu pensei que você — é isso que você considera amizade? Sua... monstra. Espero que isso a agrade!" A elfa ergueu-se em sua altura total diante de Liliana e bateu a extremidade de seu cajado no paralelepípedo, inconsciente dos vestígios de fogo verde aparecendo em suas pontas.

Faziam séculos que alguém usava aquele tom com ela — muitas vezes fora a última coisa que fizeram. Mas Liliana tinha planos, planos que precisavam de aliados poderosos. Em vez disso, ela de alguma forma se vira encarando uma elfa furiosa, matadora de monstros interdimensionais, e o que fora um delicioso barril de pólvora ambulante que se desarmara em um monte de desânimo.

A necromante deu de ombros diante do olhar acusatório de Nissa. "Somos todas mulheres aqui. Chandra pode fazer o que quiser."

Monstra, eu sou?

As palavras brotaram em sua mente. Exatamente o que dizer para ferir mais profundamente.

"Ela fugiu de você", sussurrou ela para a elfa. "Você não a seguiu — então ela veio até mim."

O vermelho nas bochechas de Nissa destacou-se nitidamente contra suas tatuagens verdes. Seus lábios se abriram, mas nada saiu.

Ela sempre tivera o dom.

"Se isso é tudo o que você tem a dizer, tenho questões importantes a tratar." Liliana deu meia-volta com um impecável balanço de cabelo, deixando o aroma de lavanda e o rodopio de saias em seu rastro.

De seu lugar nos degraus, Chandra ergueu a cabeça e tentou limpar o rosto com as costas de uma manopla. Suas mãos cerravam-se e descerravam-se em punhos enquanto ela se levantava.

"Eu-eu queria ter ficado...", disse Chandra ao erguer o rosto do xale. Nissa ofereceu-lhe a mão, mas Chandra cambaleou até ficar de pé por conta própria.

"Vou dar uma caminhada", murmurou ela para o chão e tropeçou em direção aos vendedores de rua. Nissa apressou-se atrás dela.

A mulher de manto na banca do vendedor completou sua compra e colocou uma mão reconfortante no ombro blindado de Chandra.

"Parece que você teve um dia difícil, minha querida", disse ela suavemente, exibindo um sorriso acolhedor para as duas Planeswalkers.

Chandra balançou a cabeça para ela e fungou ruidosamente. Conseguiu um sorriso pálido e apertou a mão da mulher de volta. Havia algo de reconfortante e familiar em seu rosto.

A mulher de manto tirou um lenço elaboradamente bordado de um de seus bolsos e o pressionou nas mãos da piromante. Chandra enterrou o rosto nele, limpando as lágrimas. Tinha cheiro de chá de rosas com um toque de óleo de máquina... como... casa.

"Oh, pronto agora, seque suas lágrimas...", disse a mulher mais velha, baixando a voz enquanto Chandra terminava de enxugar os olhos e assoar o nariz no lenço.

"Precisamos que você seja forte", continuou ela, sua voz subitamente tornando-se firme e clara, "quando encontrarmos sua mãe e a tirarmos daqueles soldados do Consulado, Chandra."

Chandra olhou para um rosto que agora reconhecia. "Sra. Pashiri?"

Arte de Magali Villeneuve

"Faz um tempo desde a última vez que a vi, criança", disse Oviya Pashiri enquanto alisava as mechas rebeldes de cabelo da testa de Chandra e encostava a piromante em seu ombro. Juntas, as três seguiram pelas ruas sinuosas de Ghirapur, adentrando as passarelas secretas que a Sra. Pashiri conhecia melhor.

21 de Setembro de 2016 | Por Alison Luhrs

Nascido do Éter

Os nascidos do éter de Ghirapur são uma raça de buscadores de prazer e viciados em adrenalina. Com uma expectativa de vida de até quatro anos, eles consideram a cidade seu habitat natural e as festas seu parquinho. Embora suas vidas sejam curtas, eles também possuem habilidades empáticas que lhes permitem experimentar as energias daqueles ao seu redor.

Yahenni, um investidor, filantropo e socialite, sabe que sua vida está perto do fim. Quando ele organiza uma de suas festas fabulosamente exageradas antes da Feira dos Inventores, três convidadas inesperadas chegam em busca de conhecimento perigoso.

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Arte de Jonas De Ro

I

Eu adoro me vestir no meio da tarde. Há algo a ser dito sobre se preparar para uma noite inteira acordado no meio do dia, um nível de previsão e preparação que pode ser perdido ao comparecer a uma festa de última hora. Não estou me vestindo para daqui a duas horas — estou me vestindo para daqui a dois dias.

Que tipo de anfitrião parece uma bagunça desleixada dezesseis horas depois do início de sua própria festa? Anfitriões que são fracassos. É quem.

O meio da tarde brilha através das cortinas de meus aposentos particulares, iluminando a penteadeira de ouro maciço que domina minha maior parede. A luz cintila filtrada e dourada nas joias, bugigangas e tesouros abundantes que espreitam de cada gaveta e brilham em cada superfície do imenso móvel. Sou um nascido do éter; sei quando vou morrer e sei exatamente como passarei meu tempo chegando lá, e nada desse tempo será reservado para idiotas que não acham que eu mereço estar bonito.

Enquanto me adorno com meus segundos broches favoritos, quase consigo ouvir a comoção da equipe da festa lá embaixo. Os b buffet estão fazendo bom uso da minha cozinha — seres orgânicos são tão exigentes com sua comida. Felizmente meu buffet, Nived, nunca me falhou. Ele está atualmente trabalhando duro na cozinha preparando-se para as pessoas com estômagos; uma fonte de vinho de palma, bandejas e mais bandejas de samosas, pani puri, curry de berinjela e uma mesa enorme de sobremesas (o shrikhand sempre tem uma fila na frente, então deve ser bom). O restante da minha equipe agora está ocupado montando o dossel no telhado. Muito depois que as massas de festeiros carnais e cansados descerem para descansar, meus irmãos de éter e eu dançaremos pela noite, pelo dia e pela noite seguinte, perdidos no êxtase da celebração.

Mas isso virá depois. Após dois segundos e um quarto de consideração e vasculhando minha penteadeira, decido pelo attar infundido com jasmim e éter para a noite. É um favorito pessoal. Meu reflexo chama minha atenção. Eu me pavoneio. Não pareço ter um dia a mais que três anos!

Mesmo daqui de baixo consigo sentir a excitação feliz e a antecipação com cheiro de sândalo da equipe da festa lá no telhado. Passei a ter pena de outras espécies por sua incapacidade de sentir o que nós podemos. "Ressonância empática" foi como chamaram quando minha espécie rastejou pela primeira vez para fora das primeiras refinarias de éter, cinquenta anos atrás. "Uma habilidade curiosa de sentir com precisão o estado emocional de seres em um perímetro próximo." Eles levaram grande crédito pela nossa invenção sem considerar por um momento que nós inventamos a nós mesmos. Solto uma risada triste. A única coisa que inventamos desde então foram maneiras de nos entretermos.

Enquanto passo o attar nos pulsos e no pescoço, observo um minúsculo pedaço da minha derme se dissipar em um fiapo de fumaça suave. Quanto mais minha derme dura desaparece, mais próximo estou do meu fim. Consigo ver o azul do meu éter fluindo por baixo da fenda. Sou atingido por sua beleza. É adorável. Um lembrete gentil para me apressar. Cubro-o com uma pulseira extra.

Minha espécie tem consciência inata da passagem do tempo e exatamente quanto cada um de nós ainda tem. É como esperar por um trem. Cada barulho faz você levantar a cabeça e cada rajada de vento desloca seu assento, mas ele ainda não chegou.

Estou vestido, cintilante e pronto. Tenho cinquenta e quatro dias de vida restantes.

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II

Devidamente dourado, subo os degraus para o telhado e atinjo uma parede de som. Não há sensação melhor do que ser esbofeteado no rosto pela mão firme da música de festa.

O dossel projeta uma sombra acolhedora no tapete luxuoso que minha equipe arrastou lá de baixo. Os decoradores colocaram magnólias nas mesas, penduraram-nas pelas laterais do prédio, e belas sedas forram os corrimãos e decoram a filigrana cintilante sob o sol do final da tarde. Enquanto caminho, encho facilmente copos vazios, esquivo-me de dois humanos se beijando (sorrio para aquele par. Eu os juntei na última festa — é sempre bom usar meus poderes para o bem), direciono anões ao banheiro e ajusto o volume no pan-harmônico de modelo doméstico.

Esqueça substâncias e adrenalina — festas são o melhor vício. Saboreio a sensação do prazer de meus convidados. Não tenho ideia de como é comer um animal assado, mas imagino que seja algo parecido. Entrego-me aos meus deveres de anfitrião, e meus convidados florescem em elogios.

Minha querida amiga e piloto de elite Depala ( a Depala!) está sentada relaxada e à vontade em um sofá mais reservado. Sua hiena repousa ao seu lado, roendo alegremente um osso enquanto Depala brinca com uma coleira dourada.

Arte de Greg Opalinski

"Depala, querida, minhas festas são sempre mais brilhantes com você aqui", eu a abraço sinceramente e me inclino para dar um carinho amoroso atrás das orelhas da hiena. A hiena se aninha em minha mão.

"Ela gosta de você, Yahenni", diz Depala com um sorriso de confiança. "Encontrando tempo para relaxar agora que se aposentou?"

"Alguém acompanha as notícias bem de perto", eu a repreendo enquanto encho seu copo.

"Geralmente apenas os resultados das corridas, mas eu também dou uma olhada nas notícias de negócios."

Minha linhagem familiar fez fortuna como investidores. Anunciei minha aposentadoria assim que soube que tinha menos de sessenta dias restantes. Estratégias de investimento ousadas são muito mais fáceis de fazer quando você não vive para ver o resultado.

Sento-me ao lado dela. "Você comparecerá à minha penúltima festa daqui a um mês, então, presumo? Seria um tédio infernal sem a melhor piloto de Ghirapur."

Depala sorri, a mão acariciando distraidamente sua hiena. "Não perderia por nada. Os costumes dos nascidos do éter são os melhores."

"Concordo plenamente. Simplesmente não temos tempo para nada menos, querida."

A boca de Depala se aperta. Sua testa se franze enquanto seus olhos buscam alguém que possa estar ouvindo: "Então... você não vai adiar?"

Não consigo evitar me eriçar.

"Eu sei o que você pode fazer, Yahenni", diz ela com um olhar significativo.

"Não estou disposto a chegar a esses extremos, Depala." Cutuco a derme esfarelada em meu braço. Sei há algum tempo que sou capaz de drenar essência, mas não estou disposto a usar isso. É um dom raro que é melhor manter inexpressado. Eu não poderia roubar a força vital de outro ser senciente apenas para me agarrar à vida além da minha data de expiração. O que meus amigos pensariam de mim?

"É uma opção", diz ela com indiferença. "Não sei como funciona, quanto tempo você ganharia de... outra pessoa. Não tinha certeza se você consideraria."

"Passou pela minha cabeça, mas quero partir à moda antiga", forço-me a dizer.

Nesse momento, Nived, meu buffet, traz uma garrafa da bebida favorita de Depala. Tão atencioso — ele é quase tão bom quanto eu.

"Você é uma boa pessoa, Yahenni", diz Depala quando estamos sozinhos. "Alguns dias extras não valem a culpa de agir assim."

Não tenho certeza se ela está certa.

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III

Três mulheres estão paradas do lado de fora da entrada do meu apartamento. A Sra. Pashiri eu reconheço instantaneamente (uma das inventoras mais famosas do mundo, bem como a entusiasta de jogos de tabuleiro mais feroz que conheço). À sua direita está uma jovem ruiva com um xale fora de moda (aquele estilo é de anos atrás — ela sai de casa?).

Do outro lado está a pessoa mais fascinante que acho que já vi.

Arte de Willian Murai

Seus olhos são infinitos, um verde brilhante do centro à pálpebra, uma beleza vívida que é traída por uma postura desconfortável. É trágico para alguém que parece tão interessante estar tão tensa. Seu vestido é decorado com flores brilhantes (serão reais?) e cortado de uma forma que só poderia servir nela. Tivesse eu qualquer interesse em romancear pessoas, eu seria tentado, mas para mim seu fascínio é estritamente em termos de ganho social. Meus objetivos como anfitrião são fazer meus convidados felizes, é claro, mas ser visto confraternizando com pessoas interessantes é sempre um bônus.

"Yahenni, meu amigo", diz a Sra. Pashiri, "estas são Chandra e Nissa. Chandra, Nissa, este é Yahenni. Ele é um investidor para jovens inventores necessitados e um dos filantropos mais generosos que conheço. Podemos nos juntar às festividades?"

"Com certeza, Sra. Pashiri." Que introdução. Estou corando internamente.

Seguro a porta aberta para a elfa. "Olhos deslumbrantes, querida", elogio enquanto Nissa entra. Ela sorri forçadamente.

A ruiva fica sem jeito do lado de fora. Olho para ela com dúvida e me volto para a Sra. Pashiri.

"Esta é a filha de Pia Nalaar, Chandra", diz ela.

Afasto-me e deixo a filha da pessoa mais perigosa de Ghirapur entrar. "A festa é lá em cima, então vamos conversar onde é mais calmo", digo.

Eu as guio para o meu pátio nos fundos, no térreo. A Sra. Pashiri chama minha atenção enquanto caminhamos.

"Pia Nalaar foi capturada, você sabe." Eu não sabia. Isso é incomum para mim.

"Pia não comete erros assim. Diga-me o que você sabe."

Caminhamos, e a Sra. Pashiri explica a situação. Vasos de plantas e uma fonte alegre contornam o exterior do espaço de estar, e quatro assentos desgastados estão cercados no meio. O som da festa no telhado desce e fornece uma boa cobertura para nossa conversa. Deixo-as sentar e aceno para um funcionário fornecer bebidas para minhas convidadas enquanto a Sra. Pashiri termina de me colocar a par. Reflito sobre a prisão de Pia Nalaar.

"Receio estar perdido", digo, "não sei para onde o Consulado levaria prisioneiros do nível de Pia."

Sra. Pashiri assente, "Entendo."

"Peço desculpas. Tenho muito orgulho em fazer uso das minhas conexões, mas esta é um beco sem saída para mim."

Sinto uma onda quente de raiva esfumaçada à minha direita. "Se fosse seu pai você nos ajudaria", Chandra dispara.

"Eu não tenho um desses", digo com um dar de ombros indiferente. O cenho de Chandra se fecha. Ela se sente tola. Realmente não deveria — isso não me incomoda.

Meus garçons retornam e distribuo uma taça de vinho de palma para a Sra. Pashiri e um copo de álcool de madeira para a elfa. Descobri em minha experiência que elfos tendem a apreciar as coisas mais fortes — um traço que admiro e invejo grandemente.

"Pode ainda haver pessoas úteis para nós aqui", acrescenta a Sra. Pashiri, pegando sua taça com mãos gentis e envelhecidas.

Penso nos convidados lá em cima e começo a repassar minhas conexões.

De repente, há uma confusão na porta da frente. Nissa pula, Chandra olha com curiosidade. Do nosso lugar no pátio, consigo ver um grupo de nascidos do éter irromper pela porta da frente carregando uma cadeira com um nascido do éter se dissolvendo rapidamente no topo. O nascido do éter no topo da cadeira brilha com o esplendor da proximidade da morte. Sua derme está se dissipando, e eles são mais fumaça do que forma a esta altura. É embaraçoso. Desvio o olhar.

"É a minha penúltima festa!", gritam com entusiasmo. O grupo heterogêneo ergue a cadeira e move o velório vivo escada acima em direção ao telhado.

Chandra olha para mim com diversão, "Você sabe quem é?"

"Preferiria não saber", digo, cutucando o lugar no meu pulso que cobri mais cedo no dia. Um minúsculo fiapo de fumaça escapa. Odeio me ver morrendo assim.

Chandra coloca as mãos na mesa com determinação e se levanta. "Bom. Vou começar a perguntar por aí. Nissa—"

"Estou bem", a elfa responde suavemente. Sua energia está fria e amarga com inquietação. Ela não está bem, então decido intervir.

"Nissa, não é? Siga-me; você precisa me dizer onde encontrou esse conjunto."

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IV

Subimos as escadas até chegarmos ao andar logo abaixo do telhado. Guio Nissa até a varanda. Que tipo de anfitrião eu seria se tivesse uma convidada desconfortável em minha própria festa?

"Você parecia querer uma escapatória", comento.

A elfa cruza os braços. "Estou bem", repete ela. Ela ainda não está bem, mas sua curiosidade transborda, "O que é uma penúltima festa?"

"A última coisa que nós, nascidos do éter, fazemos é morrer, então a penúltima coisa que fazemos é dar uma penúltima festa com presença obrigatória. Se alguém não tem amigos suficientes, sequestra a celebração de outra pessoa." Aponto para o telhado, o som da festa e o nascido do éter moribundo comemorando lá em cima. "Este perdedor é, infelizmente, bem-vindo para ficar."

A elfa não responde. Ela pode não falar muito, mas sua energia é incrivelmente fácil de ler.

"Agora vejamos. Em uma escala de um a desejar a morte, o quanto você odeia festas? Seja honesta."

"Oito. Nove. O que quer que um baloth roendo minha perna signifique."

Faço um ruído vago. "Tão ruim assim, hein?"

Aqueles olhos incríveis perdem o foco. Ela se lembra de algo, e a aura ao seu redor tem um toque de agridoce.

"Costumávamos ter festas em casa."

Encho silenciosamente sua taça, "E o que vocês faziam nelas?"

"Conversávamos, nos reconectávamos. Às vezes fazíamos caminhadas até algum lugar especial."

"Você ainda vai a festas nesses lugares com frequência?"

Garganta Calcinada | Arte de Jung Park

Nissa está em silêncio. Sinto que esses lugares não existem mais. "Bem, então. O que posso fazer para tornar esta festa em particular mais fácil para você?"

"Poderíamos nos sentar em algum lugar separado?"

"Querida, eu iria aos confins da cidade por você. Platonicamente. E apenas se você me pedisse gentilmente. E apenas se não estiver chovendo nem nada." A elfa se diverte com isso. Sinto-a relaxar um pouco. Sua energia aumenta com a mudança na música lá em cima. Que doce. Ela gosta de música. Ignoro a lufada da minha própria derme que se dissipa na parte de trás do meu pescoço. "Vamos para o telhado. Você fica comigo — observar as pessoas é requintado."

Sinto o receio de Nissa e gentilmente abro caminho pela multidão. No caminho para cima, cumprimento um novo convidado e rapidamente passo um lenço para outro convidado com algumas migalhas de samosa no rosto. A festa atingiu um intervalo natural e os participantes conversam agradavelmente uns com os outros. Guio a elfa para a extremidade do dossel, isolada por uma barreira estrategicamente colocada de vasos de plantas.

Um atendente se aproxima de nós quando nos sentamos. Aceito o frasco de attar que me passam e chamo sua atenção, "Peça para alguém abaixar o volume do pan-harmônico para minha convidada e fiquem nas músicas lentas." Não há tesouro maior do que uma equipe de garçons prestativa.

"Isto pode soar presunçoso, mas você não me parece ser uma garota da cidade", digo suavemente. A elfa deixa escapar um pequeno sorriso. Recosto-me no sofá, "Você nunca encontrou nascidos do éter, não é?"

"Não. Fale-me sobre sua espécie", Nissa diz suavemente, com sinceridade. Ela é a ouvinte mais ativa que já vi ouvindo ativamente. Seu olhar é apenas levemente desconcertante.

"Somos um subproduto senciente do ciclo do éter. Nossas famílias reivindicam áreas onde os jovens surgem e então adotam quem quer que saia tropeçando. Desde o primeiro dia somos totalmente formados e temos uma vida útil de quatro semanas a quatro anos."

"O que você descreve me lembra seres elementais que encontrei", diz Nissa, franzindo a testa.

"Você encontrou mais do que eu, nesse caso. Tudo o que sei é o que sou."

"Eu não entendo."

"Entende o quê?"

Ela tenta um gesto, mas o significado me escapa.

Sinto-me um pouco desajeitado. "Há algo errado?"

Ela tenta outro meio gesto, depois pausa, pensando em suas palavras. Finalmente chega a uma frase. "Eu não entendo como algo da natureza pode ser nativo de uma cidade."

"Nós somos a cidade. Sou feito de éter e, um dia, retornarei a ele. A natureza está ao nosso redor, apenas pode parecer diferente do que você está acostumada."

Nissa faz um pequeno ruído. Ela claramente nunca tinha pensado dessa forma.

Durante a pausa na conversa, aponto silenciosamente para outro convidado a direção do banheiro.

O silêncio persistindo, observo Nissa fechar os olhos. O que ela está fazendo? Seu rosto parece confuso. A orelha inclina-se como se estivesse ouvindo. Será que ela ouve algo que eu não ouço? Um canto de sua boca se eleva em um sorriso.

Arte de Wesley Burt

"Eu sinto. Este mundo é estruturado. Cíclico."

De alguma forma, esta elfa consegue sentir a natureza do meu lar.

Recosto-me, à vontade. "O Grande Conduto está sempre presente, mesmo aqui em Ghirapur. Meu povo é prova disso. Nossa natureza não se importa se esta cidade está lotada, seu ritmo continua da mesma forma."

Um sorriso completo sobe pelo rosto de Nissa.

Ergo um jarro élfico próximo. "Mais?"

"Sim, por favor", Nissa responde automaticamente. Encho sua taça novamente. Ela pode não estar disposta a revelar muito, mas posso senti-la vibrando de admiração. Devo estar cheio de revelações esta noite.

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V

Ouço uma confusão lá embaixo e me levanto. Nissa pousa sua taça e olha para mim com uma pergunta em seus olhos infinitos. A idade aguçou minha habilidade de sentir e sei imediatamente o que está errado e onde.

Impeço-me de descer as escadas correndo (eu me desfaço mais com o esforço exercido) e sigo propositalmente para o banheiro no andar abaixo de mim. Os convidados abrem caminho e percebo que Nissa e agora Chandra estão me seguindo.

No final do corredor, em frente ao banheiro, está um membro imponente da força de segurança do Consulado. A porta do banheiro está claramente trancada e ele está tentando forçar sua entrada. Este executor é alto — quase a altura da árvore em vaso ao lado da porta. Suas roupas são velhas, mas a bainha é nova; este homem não é estranho ao confronto físico. As armas ao seu lado não são adequadas para patrulha de rua, mas o tilintar de chaves contra sua armadura trai sua posição. Ele deve trabalhar no sistema prisional.

Faço sinal para Chandra e Nissa se esconderem atrás da esquina enquanto me aproximo do homem sozinho.

"Posso ajudá-lo, senhor?"

O executor solta a maçaneta da porta e me olha de cima a baixo. "Um condenado procurado está atualmente barricado atrás dessa porta. Ele virá comigo, independentemente de como você se sinta."

"Então você entrou na minha festa — minha casa — sem um convite?"

O executor dá meio passo à frente e olha para baixo, para mim.

"Você quer que sua festa viole os regulamentos de ruído?"

"... Não..."

"Então não interrompa os assuntos oficiais do Consulado."

Não duvido que este executor fechará minha festa apenas para chegar a quem quer que esteja atrás daquela porta. O Consulado é mesquinho assim. Eu desprezo a mesquinharia.

Dou as costas para o porco do homem e encontro Chandra e Nissa. Há uma solução fácil para isso. Estas duas são de constituição firme — sabem lutar — e por seu favor posso fornecer-lhes algo em troca. "Eu lhe darei a informação que você precisa se me ajudar."

"O que você precisa?", Nissa pergunta suavemente.

"Nissa, preciso que você escolte este convidado indesejado para fora."

A elfa sorri. "Com prazer", diz ela com convicção calma. Ela levanta uma mão e uma luz suave brilha naqueles olhos infinitos.

Algo em meu peito canta um pouco, mas a canção não é para mim. Minha mente desperta me diz para ignorar o estranho zumbido que sinto à distância. Volto-me para Chandra.

"Chandra, preciso que você me ajude a derrubar a porta quando ele sair."

A filha de Pia Nalaar olha para mim com surpresa genuína. Ela diz em uma voz estranhamente pequena, "Sério?"

"Sim, sério. Meu corpo está enfraquecendo e não consigo atravessar sozinho. Você está disposta, querida?"

A única resposta de Chandra é uma risadinha levemente alarmante e mal contida. É muito desconcertante ouvir esse som saindo de uma jovem mulher humana.

Um baque na esquina — eu me inclino e não consigo evitar soltar um pequeno ruído de alarme. O vaso de planta ao lado da porta está inexplicavelmente enrolado na perna do executor e o homem está atordoado no chão. Pode ser melhor eu apenas... não pensar na logística de como tudo isso aconteceu. De qualquer forma, não tenho tempo para me importar — contorno a esquina e me inclino ao lado do rosto do homem.

"Tudo bem", sussurro. "Pia Nalaar. Em qual prisão ela está sendo mantida?"

O executor geme. Acho que ele quebrou um dente na queda. Não importa — ele não precisa falar para me dizer onde ela está. Abro meus sentidos e falo rapidamente.

"Prisão de Kohali?"

O homem geme e sua energia fede a irritação.

"Penitenciária Gupha?"

Impaciência.

"Prisão de Dhund?"

Um alarme distante de especiarias e sal, transformando-se em pânico quando ele encontra meus olhos. Tivesse eu a incapacidade de ler sua energia, eu nunca teria sido capaz de adivinhar a resposta pelo seu rosto. Ele é bom. Dou um tapinha na cabeça do homem. "Obrigado pela sua cooperação."

Volto-me para a elfa. "Nissa, se você puder?"

Ela caminha até lá e facilmente ergue o homem sobre os ombros em um carregamento de bombeiro e calmamente o leva para fora. Bem, caramba.

"Quanto deste lugar devo deixar de pé?", Chandra interrompe, puxando seus óculos de proteção.

"Idealmente todo ele, exceto por esta porta específica?"

Chandra assente, sorrindo de orelha a orelha, e rapidamente derrete as fechaduras com um dedo incandescente no metal. Balanço a cabeça. Humanos e seus truques de festa.

Sinto Nissa surgir atrás de mim enquanto Chandra termina. O fedor de attar-em-excesso vaza do espaço entre a porta e a parede.

"Quem tiver pulmões volte para a festa", anuncio para o restante dos espectadores, voltando minha atenção para as convidadas. A Sra. Pashiri juntou-se a elas e olha com preocupação. Aproximo-me delas.

"A Prisão de Dhund é onde você encontrará Pia", sussurro.

Sra. Pashiri arqueja. "Lá não", diz ela, "por favor, me diga que ele não estava dizendo a verdade."

Balanço a cabeça. A Sra. Pashiri volta-se para Chandra, "Baral está estacionado lá."

O ar ao meu redor sobe instantaneamente de temperatura. "Precisamos ir agora", diz Chandra rispidamente. A Sra. Pashiri assente e as duas descem as escadas para partir. Nissa hesita e trava seu olhar no meu.

"Obrigada, Yahenni, pela conversa."

Eu assinto. "Sem problemas, querida. Se estiver livre em um mês, você deve voltar. Vou dar a maior festa da minha vida. Nem você iria querer perder."

Ela sorri e, em um momento, se foi.

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VI

Abro a porta agora destrancada e sou recebido por uma onda de fedor perfumado. A porta se fecha atrás de mim e me viro para ver quem se trancou aqui. Eu sentira uma angústia enjaulada anteriormente e, com certeza, aqui está a fonte. No fundo do banheiro, sentado no chão com as costas contra a parede, está o nascido do éter moribundo de antes. Sua derme desapareceu quase inteiramente, e o brilho azul de sua essência mistura-se estranhamente com a luz do sol poente filtrada pela janela. Frascos vazios de perfume estão espalhados a seus pés.

Arte de Ryan Yee

"Bela maneira de guardar as coisas boas só para você", digo como um bálsamo descontraído. Estou plenamente ciente de que minha piada é um pedaço de seda em uma ferida aberta e sangrenta.

"Tenho cerca de um minuto restante", eles arquejam, "eu estava sendo seguido pelo Consulado e não queria partir na frente de todos."

"Você escapou da prisão ou algo assim?", pergunto, meus olhos captando uma tornozeleira de segurança quebrada em sua perna. O nascido do éter apenas geme.

Sento-me ao lado deles. Sei que se fosse eu, quereria companhia. "Alguém lá em cima sabe o seu nome?", pergunto.

"Não. Eles estão aqui apenas pela festa."

"Essa é a única razão pela qual qualquer um de nós está aqui, querida."

Inalo as baforadas de perfume que pairam no ar. Enquanto o outro nascido do éter continua a se dissipar, sua energia mistura-se com o attar derramado. Vi muitos dos meus semelhantes em seus momentos finais, e é quase sempre com um ar de triunfo. Eles lutaram, chutaram, arranharam e se deleitaram na glória da vida, e aqui estão na linha de chegada.

Seguro o que resta de sua mão.

Consigo sentir sua energia pulsando sob minha palma.

"Você teve uma boa jornada?"

O outro nascido do éter vira a cabeça para mim e me observa. Eles se esforçam para falar, mas conseguem soltar uma única afirmação. "Pode apostar que sim."

Naquele instante sou preenchido por inveja. Tenho tão pouco tempo restante. Minha vida, a vida deste nascido do éter, todas as vidas da minha espécie são passadas perseguindo e espremendo o máximo de experiência que podemos em um intervalo de tempo pateticamente pequeno. Não é justo termos que queimar tão rápido.

Não é justo eu ser o próximo.

O outro nascido do éter convulsiona e emite uma fumaça escura. Sua derme se esfarela e o éter contido escapa e sobe em um vapor suave até o teto.

Sento-me em silêncio sob a névoa de éter acima de mim. É adorável.

Após um momento, levanto-me e abro a janela. O fedor e a energia escapam para o ar, para o mundo, para o Conduto. Volto-me para a pilha de roupas deixada para trás no chão e as recolho junto com suas joias e acessórios. Uma bolsa de moedas, um relógio, um maço de documentos do Consulado. Dou uma olhada rápida neles — uma infração menor por furto trivial. Eles não deveriam ter sido mandados para a prisão em primeiro lugar.

Amasso os documentos com raiva. Aqueles bastardos do Consulado estão apenas nos matando mais rápido.

Enquanto separo as joias do estranho e coloco uma de suas pulseiras, sou atingido por um pensamento súbito.

E se eu saísse da festa e fosse para a rua? E se eu caçasse a escória do Consulado que deteve este nascido do éter e lhes desse o que mereciam? Eu já drenara essência (uma vez, acidentalmente) antes; foi uma sensação incrível. Eu poderia fazer isso de novo. Eu poderia fazer isso de novo cem vezes, se alguém merecesse.

Observo um minúsculo fiapo de fumaça subir da minha pele em direção à janela aberta.

Penso no executor do Consulado inconsciente deixado na rua em frente à minha casa.

Ele ainda estará lá em algumas horas.

Eu poderia dar uma escapada por alguns minutos.

Ninguém notaria.

Não. A hora virá para isso. Quando for eu no chão de um banheiro cercado por perfume vazio e estourando pelas minhas costuras... talvez então eu faça isso.

Tenho outras coisas para fazer com o tempo que me resta.

Pego um dos frascos meio vazios de attar infundido com éter e me ensopo com ele. Cedro andrico vívido e determinado. O solavanco de energia percorre meu ser, o brilho do ouro recém-emprestado reluz no meu pescoço, e o estrondo da festa ecoa do telhado.

Subo as escadas furiosamente e surjo para um sol recém-posto e o brilho das lanternas em suportes de filigrana. A multidão se abre, respeitosa à minha posição de poder no ecossistema de minha criação, e o pan-harmônico silencia. Caminho propositalmente até o dossel principal, braços erguidos com intenção. Meus convidados calam-se e voltam sua atenção para mim.

Grito: "Marquem em seus calendários daqui a um mês, convidados ilustres e ralé não ilustre!"

Meus amigos e convidados comemoram. Eles são como eu. Saboreiam sua classe alta e seus padrões baixos.

"Vou dar a festa da minha vida aqui após a conclusão da Feira dos Inventores. Espero que cada um de vocês esteja presente, e digam a todos que conhecem que seriam tolos se perdessem."

Eles comemoram. Sinto que poderia viver por mais dez anos.

"Chega disso, no entanto. Vocês não querem ouvir mais sobre mim, certo?"

A festa grita: "Claro que queremos!"

"Pois que pena! Estou cansado de falar! Vão para a pista, aumentem a música e que alguém abra outro barril para todos aqui que têm fígado!"

A multidão perde a cabeça. O calafrio coletivo de folia percorre-me e perco-me em suas correntes. Corro para a tempestade de pessoas dançando e sou atingido por um jato de éter-attar que alguém jogou no ar. A música aumenta e a batida da canção impulsiona o movimento dos corpos ao meu redor e tudo parece vivo. O brilho dos nascidos do éter reflete fracamente no suor da massa dançante, gavinhas suaves de éter dissipam-se no céu acima, e eu estou vivo, estou vivo, estou vivo e, neste único momento singular, estou me afogando na folia da existência.

28 de Setembro de 2016 | Por James Wyatt

Enclausuradas

Atraída para seu plano natal de Kaladesh por relatos de que o Consulado procurava uma renegada disruptiva, Chandra descobriu, para seu choque, que a renegada em questão era sua mãe! O reencontro delas foi interrompido, no entanto, por soldados do Consulado que levaram Pia Nalaar sob custódia. Enquanto Liliana seguia uma pista diferente, Chandra e Nissa encontraram uma velha amiga dos pais de Chandra, Oviya Pashiri, e começaram a procurar pela cela de Pia. Através dos muitos contatos renegados de Oviya, elas souberam que ela está sendo mantida em Dhund, um complexo secreto administrado pelo cruel mago Baral — o mesmo Baral que caçou uma jovem Chandra e matou seu pai.

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A cabeça de Nissa girava enquanto a Sra. Pashiri guiava ela e Chandra para longe do barulho e dos cheiros da festa de Yahenni e de volta à escuridão das ruas, onde a excitação explosiva da Feira dos Inventores havia diminuído para o movimento alegre da noite.

Ghirapur não era tão ruim quanto Ravnica, com seus ângulos agudos e ruas cinzentas. Na verdade, a cidade fora claramente projetada com um olhar voltado para o fluxo de magia — de éter — através das ruas e ao redor dos prédios. E a estética do lugar era toda feita de curvas graciosas e linhas delicadas, mais parecida com as florestas de Zendikar do que com as bordas duras de Ravnica.

Ainda assim, estava apinhada de pessoas.

Era tudo o que Nissa conseguia fazer para acompanhar — os eventos do dia, a agitação palpável de Chandra, todo o amontoado caótico do plano.

"Dhund", disse a Sra. Pashiri, balançando a cabeça. "Logo lá."

Oviya Pashiri, Sábia Moldadora de Vida | Arte de Magali Villeneuve

Chandra rosnou. "Baral! Por que ele? Ele não deveria estar morto ou... ou aposentado ou algo assim a essa altura?" Ela fez uma pausa. "Preferencialmente morto." Mais alguns passos, enquanto minúsculas chamas lambiam seus dedos, que estavam cerrados em punhos apertados. "Em um incêndio."

"Em um mundo justo, ele estaria", disse a mulher mais velha.

"Bem, quando eu puser as mãos nele..." Chandra pareceu morder a língua, talvez literalmente. "Desculpe, Sra. Pashiri."

Nissa franziu a testa. Até agora, ela vira a ira ardente de Chandra direcionada apenas contra os Eldrazi, ou as criaturas retorcidas e corrompidas em Innistrad que bem poderiam ser Eldrazi. A ideia de ela desencadear aquela raiva contra uma pessoa era inquietante. Quanta dor ele deve ter causado a ela?, ela se perguntou.

"Liliana me disse que eu deveria caçá-lo", disse Chandra. "Encontrá-lo e me vingar. Eu deveria ter ouvido ela."

Nissa queria estender a mão para ela, colocar a mão em seu ombro, oferecer algum tipo de calma através de seu toque. Mas estava com medo — de quê? De causar dor, como tocar uma queimadura? Ou de sentir a dor de Chandra de forma mais poderosa do que já sentia, correndo entre elas como fogo?

"E onde diabos está Liliana, afinal? O que diabos é mais importante do que encontrar para onde levaram minha mãe?"

A agitação de Liliana fora menos... acalorada quando as deixou, mas não menos palpável. Fora a primeira vez que Nissa vira a necromante em um estado que não fosse de calma imperturbável, e ela suspeitava que, o que quer que Liliana estivesse fazendo, era muito importante.

Chandra parou bruscamente, bateu o pé com uma pequena lufada de chama sobre o paralelepípedo e disse: "E para onde diabos estamos indo?"

"Precisamos atravessar o rio", disse a Sra. Pashiri.

Chandra franziu a testa. "O que tem do outro lado do rio? As antigas usinas de energia?"

"Sim. E o segredo mais mal guardado de Ghirapur." Ela baixou a voz. "O Gonti."

"O que são gontis?", Chandra perguntou.

"Gonti é outro nascido do éter. Acho que fez fortuna como contrabandista — lidei com ele uma ou duas vezes, tempos atrás. O mercado noturno de Gonti é uma espécie de centro para éter de contrabando e inventores renegados."

Chandra agarrou os cabelos nas têmporas em exasperação, acendendo mais línguas de fogo que lamberam sua cabeça e mãos antes de minguarem em fumaça. "Por que estamos indo para lá? Onde está minha mãe?"

"Sinto muito, querida. Estou seguindo a melhor informação que tenho. Disseram-me que Dhund fica em túneis sob o mercado noturno."

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Chandra parecia fisicamente sofrida por ter que permanecer sentada enquanto um pequeno esquife as levava pelo rio, impulsionado por um jovem que fingia indiferença enquanto seu rosto traía um interesse aguçado em cada palavra que Chandra proferia. Ela descarregava sua energia batendo os pés furiosamente. Suas mãos estavam em movimento constante e ela parecia morder a língua para evitar dizer qualquer coisa que pudesse incriminá-la.

Mas por aqueles poucos minutos, longe das luzes, do barulho e das pessoas da cidade, Nissa olhou para as estrelas e para os tons de azul girando e mudando na eterosfera e sentiu calma... temperada apenas pela preocupação persistente de que Chandra, em sua raiva e impaciência, pudesse incendiar o pequeno barco delas. A corrente de éter mais forte no céu espelhava o caminho do rio quase perfeitamente e Nissa conseguia sentir a concordância entre eles, como se éter e água fossem companheiros ligados na mesma jornada.

Ilha | Arte de Johannes Voss

Ela pensou em Ashaya então, sua companheira elemental, um fragmento da alma-mundo de Zendikar, e se perguntou — não pela primeira vez — por que concordara em deixar seu plano natal e embarcar na loucura desta jornada com esses humanos. Haviam feito um trabalho importante juntas, com certeza, e ela descobrira que podiam batalhar de forma muito eficaz em conjunto. Cada uma contribuía com forças únicas para a equipe como um todo e ajudava a cobrir as fraquezas das outras. Ela gostava de fazer parte disso, de algo maior e melhor do que ela mesma. De certa forma, era como estar conectada à alma de um plano, unidas em um propósito maior.

Mas no turbilhão de lutar contra os Eldrazi, ela encontrara pouca oportunidade de organizar os relacionamentos emocionais entre os outros. Aqueles relacionamentos eram evidentemente... complicados. E encontrar seu próprio lugar dentro daquela rede de relações era exaustivo. Era tudo tão completamente diferente da comunhão simples e sem palavras que compartilhara com Ashaya — tão natural quanto um toque.

Quando tocava Ashaya, energia... mana... não, vida fluía entre elas, unindo-as — ligando Nissa à essência natural de Zendikar. O mais próximo que chegara disso com qualquer outra pessoa fora a comunicação sem palavras de Jace, a franqueza de seus pensamentos em sua mente. No calor da batalha com os outros Planeswalkers, com Jace facilitando a comunicação, ela podia controlar o fluxo de mana entre eles. Podia perder-se naquele fluxo e deixar-se ser parte de seu esforço maior. Ela e Chandra haviam compartilhado um vínculo poderoso naqueles momentos, abertas juntas ao fluxo de magia através dos planos.

Nissa, Voz de Zendikar | Arte de Raymond Swanland

Cara a cara, no entanto — com Chandra ou com qualquer um deles — era muito mais difícil. As pessoas esperam conduzir suas interações cotidianas em um nível superficial. Assim como Jace não usava sua magia mental para substituir a conversa diária, ela não podia esperar forjar aquela mesma conexão profunda durante o café da manhã no santuário de Jace. E quando Chandra estava tão chateada e agitada, Nissa temia que abrir-se para a piromante seria como abrir uma comporta para soltar uma onda de fogo.

Ela suspirou e deixou-se tornar parte do fluxo ao seu redor, abraçada entre o éter acima e a água abaixo. Sentiu o coração pulsante de Kaladesh, e todo o resto derreteu.

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Nissa tentou se apegar àquela conexão enquanto Oviya as guiava para a multidão do mercado noturno de Gonti, mas ela era arrancada a cada passo que dava passando por inventores apregoando seus últimos dispositivos e contrabandistas oferecendo ótimas ofertas em suprimentos ilegais de éter. O barulho pressionava seus ouvidos, o cheiro de corpos aglomerados assaltava seu nariz, e Chandra era uma fornalha de emoção criando sua própria bolha pessoal de calor intenso em meio à pressão dos corpos.

Enquanto a Sra. Pashiri falava com mais um contato — um anão ranzinza com um pedaço suspeitamente em forma de mordida faltando em uma orelha — sobre como ganhar acesso a Dhund, Nissa estendeu hesitante a mão em direção ao ombro de Chandra. Ela queria... não tinha certeza. Confortar Chandra, de alguma forma. Tomar um pouco de sua ansiedade para si mesma, se pudesse, para compartilhar o fardo que Chandra estava lutando para carregar. Mas o calor irradiava da armadura de metal de Chandra e Nissa recuou a mão, imaginando as comportas segurando o fogo furioso.

"Chandra", disse ela, em vez disso. "Em Ravnica, você me pediu... você queria que eu ajudasse... você estava procurando por calma."

Chandra girou sobre ela, olhos brilhando. "Eu não quero me acalmar", disse ela, com a garganta e o rosto tensos. "Eu quero encontrar minha mãe." Seus olhos percorreram o rosto de Nissa por um momento — o que ela estava procurando? — e então ela se virou. "Você simplesmente não entende", murmurou ela.

Acho que não entendo mesmo, pensou Nissa. Fechou os olhos e tentou bloquear o barulho e o cheiro e a balbúrdia de cores enquanto respirava fundo.

Interessante, pensou ela. O éter traçava caminhos sinuosos através de sua percepção, soprado por rajadas de vento perdidas, carregado por sistemas de ventilação. Eu me pergunto...

Nissa, Força Vital | Arte de Clint Cearley

"Nada", disse a Sra. Pashiri enquanto o anão desaparecia de volta na escuridão de um beco. "Todos suspeitam que Dhund fica por aqui em algum lugar. Mas ou ninguém sabe como chegar lá ou todos sabem que é melhor não me contar. Se ao menos eu pudesse encontrar..." Sua voz sumiu enquanto ela examinava a multidão.

Os olhos de Nissa se abriram. "Eu sei", disse ela.

Os olhos da Sra. Pashiri arregalaram-se de surpresa, mas Chandra franziu a testa. "Por que você não disse antes? Droga, Nissa, eles podem estar torturando ela lá embaixo. Ou ela já pode estar morta."

"Eu sei." Ela sabia — sentia o medo e a preocupação de Chandra quase tão intensamente quanto sentira Zendikar protestando contra a presença violadora dos Eldrazi. "Eu não estou escondendo nada de você; acabei de descobrir agora. Tem a ver com a maneira como o éter flui pela cidade. Se eu conseguir me concentrar..."

"Eu não me importo", latiu Chandra. "Apenas nos leve até lá!"

"Se eu conseguir me concentrar", repetiu Nissa, "acho que posso nos guiar até lá. Talvez até nos ajudar a navegar nos túneis."

Chandra agarrou seus ombros e quase a sacudiu — embora o calor de sua agitação, empurrando contra as comportas, fosse ainda mais chocante. "Então concentre-se!"

"Chandra, querida", disse a Sra. Pashiri, pousando uma mão suave nas costas de Chandra. "Acho que sua amiga precisa de um pouco de espaço."

Nissa piscou. Sua amiga? Eu não sou...

Ashaya fora sua amiga. Com Ashaya ela podia estender a mão e fazer uma conexão, perfeitamente casual, perfeitamente natural. Sem esforço. Com Chandra — ou Gideon, ou Jace — nada era sem esforço, nem mesmo um simples ato de tocar, como a Sra. Pashiri acabara de fazer.

Chandra removeu as mãos e deu meio passo para trás. "Ah, desculpe." Ela encarou Nissa com expectativa.

Nissa encontrou seu olhar e, subitamente, toda a dor, raiva e frustração de Chandra arderam dentro dela. Lágrimas arderam em seus próprios olhos e ela desviou o olhar. "Vou tentar." Ela se virou, fechou os olhos com força e afastou suas emoções, pressionando os dedos nas têmporas.

O mundo subitamente se estendeu vasto através de sua percepção, como um mapa desenrolado e espalhado sobre uma mesa. O éter fluía pelo plano como uma vasta rede de rios, pairando pelo céu aqui, descendo para beijar a terra ali; espelhando os caminhos de riachos às vezes, serpenteando pelas ruas da cidade em outras. Éter refinado, um sabor diferente, corria por dutos acima e abaixo da rua. Pequenos nós de éter concentrado aninham-se no subsolo em alguns lugares, onde não conseguia fluir tão facilmente.

Sintonizar com o Éter | Arte de Wesley Burt

Mas através de um sistema de túneis, o éter conseguia se mover. Não os fluxos que corriam alto na eterosfera, mas fiapos e afluentes perdidos. Nissa o sentira sob seus pés — um mero filete comparado à torrente ao redor e acima delas, mas estava lá. Focando sua mente naquela parte do fluxo, ela começou a procurar pelos pontos onde o éter entrava e saía das passagens.

"Por aqui", disse Nissa finalmente, apontando para sua esquerda.

Sra. Pashiri inclinou a cabeça. "Como você..."

Mas Chandra já estava se movendo na direção do dedo indicador de Nissa. "Mostre-me", disse ela. "Qual caminho?"

Nissa apressou-se para alcançá-la e a conduziu em direção a um pequeno tipo de construção erguida contra o interior da sala cavernosa que abrigava esta parte do mercado. Um olhar por cima do ombro confirmou que a Sra. Pashiri ainda estava com elas, e elas abriram caminho pela multidão até alcançarem a porta de aço.

Chandra sacudiu a maçaneta. "Trancada", disse ela.

Sra. Pashiri começou a vasculhar as dobras volumosas de suas roupas. "Deixe-me pegar minhas ferramentas..."

Uma rajada de fogo incandescente saltou da mão de Chandra para envolver a maçaneta da porta e, presumivelmente, seu mecanismo de trava. Nissa teve que proteger os olhos do flash brilhante e sentiu o calor intenso em seu rosto.

"Você está atraindo atenção", disse a Sra. Pashiri baixinho.

Chandra chutou a porta e ela se abriu. "Que se metam no meu caminho", rosnou ela.

Como se aceitasse o convite de Chandra, um homem corpulento aproximou-se, apoiado por um volume ainda mais maciço de placas de metal, filigrana e engrenagens. Ele empurrou Chandra para o lado e interpôs-se entre ela e a porta meio derretida. Ou ele não vira a rajada de fogo de Chandra ou não era sábio o suficiente para ter medo dela — Nissa suspeitava da segunda opção. Ou talvez seu senso de dever o levasse a desconsiderar sua própria segurança pessoal.

"Ei, ora", disse ele. "Onde pensam que vão?"

Brutamontes de Embraal | Arte de Sidharth Chaturvedi

O cabelo de Chandra e ambos os seus punhos se incendiaram quando ela encontrou o olhar severo do homem. "Para Dhund", disse ela. "É por aqui?"

Nissa viu uma sala atrás da porta, bagunçada mas em desuso, e uma escada que levava para baixo. Ela conseguia praticamente saborear o filete de éter subindo dos túneis lá embaixo.

"Isso é propriedade privada", disse o homem, aparentemente destemido diante da exibição flamejante de Chandra. Embora compartilhasse o físico de Gideon, este bruto carecia de qualquer carisma ou bom humor dele. Ele lembrava Nissa mais os ogros de Murasa — e ela sentiu uma pontada de saudade de sua amada Zendikar.

"Por que não discutimos isso com um pouco mais de privacidade?", disse a Sra. Pashiri calmamente, pegando o homem pelo braço e atraindo-o para dentro da pequena construção.

Claramente, ele também carecia da inteligência de Gideon, ou talvez tenha sido pego desprevenido pela aparência gentil da Sra. Pashiri. Enquanto ele baixava a cabeça para passar pelo portal, Chandra desferiu um chute em seu traseiro e o enviou estatelado no chão. Sua cabeça bateu com força e ele não a levantou novamente. Enquanto Chandra agarrava a mão de Nissa e a puxava para dentro, o autômato do homem tentou vir em seu socorro. Grande demais para passar pela porta, ele se inclinou e estendeu os braços para dentro. Acenando para Chandra e para a Sra. Pashiri em direção às escadas, Nissa recorreu à magia pulsando através da terra sob a criatura. Videiras romperam o chão de concreto e se enrolaram em suas pernas enquanto outras se ergueram bem na frente de Nissa e agarraram seus braços que se debatiam. O éter sibilou para fora dele em dúzias de minúsculos jatos enquanto as videiras começavam a desmontar o autômato.

Nissa seguiu as outras escada abaixo, para as profundezas do subsolo, e viu-se no meio de um longo túnel.

Chandra envolveu a elfa em um abraço. "Você conseguiu!"

A armadura de Chandra, ainda quente ao toque, espetou o peito de Nissa, e uma mecha do cabelo da piromante — com cheiro de fumaça — roçou seu nariz. E um tipo diferente de calor, o fogo furioso da energia sem limites de Chandra, pressionou-a também — o mais leve indício de uma conexão real. Então Chandra se afastou e virou-se de um lado para o outro, olhando para o túnel em ambas as direções.

"Qual caminho?", disse ela novamente.

"Eu... não tenho ideia", confessou Nissa.

"O que você quer dizer? Você nos trouxe até aqui!"

"Estávamos procurando pelos túneis sob o mercado noturno. Eu os encontrei rastreando o fluxo de éter sob nossos pés. Encontrar sua mãe aqui embaixo é outro assunto inteiramente diferente."

"Siga-me", disse a Sra. Pashiri, começando pela direita da escada. "E rápido; aquele autômato vai ser notado."

"E depois depenado por peças, se eu conheço bem mercados noturnos", disse Chandra, lançando um sorriso irônico para Nissa.

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Mais uma vez, Nissa sentiu sua cabeça girar. O movimento frenético de Chandra, impulsionado pela necessidade desesperada de encontrar sua mãe, deixou Nissa sem fôlego com a jornada. Cada vez que a Sra. Pashiri parava para considerar uma passagem ramificada, Chandra andava de um lado para o outro no corredor, suas mãos liberando lufadas de chama conforme ela as flexionava em punhos. Nissa se perguntava se as teria guiado para uma rede inútil de túneis de acesso construídos para as antigas usinas de energia, já que nada ali sugeria um complexo prisional secreto. Pessoas que pareciam renegados suspeitos ligados ao mercado noturno mantinham uma vigilância muito casual sobre algumas das passagens, e eram facilmente distraídas quando Oviya enviava um pequeno animal de moldagem de vida ou um servo correndo por um corredor.

"Este não pode ser o lugar certo", disse ela. "É fácil demais. Eles são ineptos demais para serem policiais secretos altamente treinados."

Chandra riu. "Nunca subestime a estupidez humana."

"Eles estão nervosos", acrescentou a Sra. Pashiri. "Nervos à flor da pele. Então saem correndo atrás de cada barulho na escuridão."

Ambas as explicações pareciam plausíveis, mas Nissa não estava convencida. Fechou os olhos por um momento e respirou fundo, tentando recuperar a calma que sentira no rio.

Chandra a arrancou disso com um puxão em seu braço. "Sem tempo para meditar", disse ela.

Nissa franziu a testa. "Você também poderia tentar respirar fundo", disse ela, o mais gentilmente que pôde.

"Talvez depois."

"Apenas uma respiração. Abra-se para o fluxo de energia através do mundo. Sinta a vastidão disso."

"Eu disse depois!" Chandra seguiu pisando forte pelo corredor.

Nissa apressou-se para alcançá-la enquanto a Sra. Pashiri as seguia.

"Você está tão fechada, Chandra. É como se estivesse encolhida ao redor de toda a sua dor e medo, agarrando-os contra o peito."

A dor e a raiva de Chandra irromperam em chamas novamente. "É claro que estou!", gritou ela. "Eu não consigo relaxar, não consigo me acalmar, não enquanto eles estiverem com a minha mãe!"

"Mas você estaria melhor equipada para encontrá-la—"

Chandra girou sobre ela e chamas surgiram perigosamente perto do rosto de Nissa. "Esta é minha mãe! Por doze anos eu pensei que ela estivesse morta. Você não entende? Você sequer tem mãe?"

Nissa parou bruscamente. Algo apertara seu peito e o espremia, tirando o fôlego de seus pulmões.

A raiva súbita de Chandra pareceu minguar, ao ver o efeito de suas palavras. "Sinto muito..."

"Você já viu Bala Ged", disse Nissa, "quando esteve em Zendikar?"

Chandra balançou a cabeça, piscando.

"Era o lar dos Joraga, meu povo. E quando Ulamog... escapou de sua prisão, foi o primeiro lugar que ele destruiu." Ela engoliu em seco com dificuldade. "Poeira."

"Então seus — seus pais...?"

"Eles não se foram, ou assim os anciãos nos ensinam. Os espíritos das gerações passadas vivem entre nós. Espero que estejam ajudando aqueles que buscam reconstruir..." A voz de Nissa falhou. A última vez que vira sua mãe fora muito antes de Ulamog despertar. Ela sabia que alguns dos Joraga haviam sobrevivido. Mas nunca procurara por sua mãe.

Antes que percebesse o que estava acontecendo, Chandra a puxou para outro abraço, prendendo seus braços contra os lados. Estranhamente, a pressão em seu peito pareceu diminuir.

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Sra. Pashiri parou em uma interseção de quatro vias de túneis idênticos e sem marcação em algum lugar nas profundezas do labirinto sob o mercado noturno de Gonti.

"Sei que não pode ser por ali", disse ela, apontando para a direita. "E não é o caminho por onde viemos." Ela apontou o polegar sobre o ombro. "Mas pode ser qualquer uma destas outras."

"O que sequer estamos procurando?", disse Chandra. "Algum destes túneis vai para algum lugar?"

"Se não fossem", disse a Sra. Pashiri, "qual seria o ponto de guardá-los? Tenho tentado descobrir para onde estamos indo vendo quais túneis eles acham importante o suficiente para guardar. Mas eu acho que estamos apenas dando uma grande volta ao redor da borda. Não consigo encontrar um caminho para o meio."

Lançando uma rajada de fogo pelo túnel à direita, Chandra rugiu: "Não!" Os rugidos gêmeos das chamas e de sua voz ecoaram nas passagens pequenas. "Você esteve nos guiando em círculos enquanto eles estão com a minha mãe?" Ela girou e agarrou os ombros de Nissa novamente. "Nissa! Faça a sua coisa. Sinta o fluxo de éter ou o que seja. Descubra!"

Represália Furiosa | Arte de Svetlin Velinov

"Vou tentar", disse Nissa, estremecendo com o calor das mãos de Chandra sobre ela. "É... diferente aqui embaixo."

Chandra recuou para lhe dar espaço.

Nissa parou no centro da interseção e tentou ouvir — sentir — despertar-se para o sopro de ar movendo-se ao seu redor, a terra abaixo e acima e ao seu redor, o fluxo de éter, as linhas de força, a magia permeando tudo. Mas nenhum sopro de vento se movia, os mais leves átomos de éter pairavam imóveis no ar, e a terra recusava-se a ceder seus segredos.

"Dutos", soltou Chandra. "Eles precisarão de éter refinado em seu pequeno esconderijo secreto ou prisão ou o que quer que seja aqui embaixo. Existem dutos?"

"Sim", disse Nissa, e ela focou sua atenção na sensação distinta de éter refinado, uma corrente concentrada logo acima dos túneis. "Por ali", disse ela, apontando na direção do fluxo — a passagem à esquerda.

Chandra disparou por aquela passagem, deixando Nissa e a Sra. Pashiri para trás até que se alcançaram na próxima interseção... Espere.

"Chandra, aqui atrás!", chamou Nissa. O duto mudara de curso, fizera uma curva repentina à direita, mas não havia túnel seguindo seu curso. Apenas uma parede de pedra nua—

"Sim", disse ela em voz alta. As paredes do túnel eram todas de pedra, mas decoradas com as intrincadas curvas e espirais comuns a toda a arquitetura que vira na cidade. Pilares — provavelmente apenas decorativos, em vez de estruturais — emergiam das paredes como baixo-relevo em intervalos regulares ao longo do túnel, e filigranas sinuosas estendiam-se de cada um deles e ligavam-se ao próximo, formando arcos decorativos, com pedra nua abaixo.

Seria uma coincidência que o duto dobrasse exatamente sobre um daqueles vãos em arco?

"O quê?", disse Chandra. Ela voltara correndo para onde Nissa e a Sra. Pashiri estavam e estava simultaneamente batendo os dedos e o pé — criando de fato um ritmo interessante, Nissa notou, estivesse ela ciente disso ou não.

"Poderia haver uma porta escondida aqui?", disse Nissa, apontando para a parede.

Chandra aproximou-se e pressionou as palmas contra a parede — e tropeçou para frente, desaparecendo através da pedra como se fosse uma parede de água. Ou uma ilusão.

Ela colocou a cabeça para fora novamente, dando a impressão macabra de uma cabeça montada na parede como um troféu.

"Nenhuma porta escondida", disse ela. "Mas nenhuma parede também. Venham!"

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A rede de túneis estava completamente transformada. Em vez de túneis de acesso aparentemente abandonados, viram-se movendo-se por passagens limpas, bem mantidas e bem iluminadas de construção mais recente. Portas estavam espaçadas ao longo dos corredores, a maioria delas entreaberta e revelando o que pareciam ser escritórios de burocratas — estranhamente semelhantes ao escritório apinhado de papéis de Jace em Ravnica.

Quem poderia trabalhar em um escritório aqui embaixo?, Nissa se perguntou.

Não poderia haver dúvida agora de que estavam no caminho certo, e Nissa esperava a qualquer momento encontrar um complexo prisional cheio de guardas policiais furiosos. Mas não havia como voltar atrás. Ela as guiou através de cada interseção, seguindo o caminho dos dutos de éter. Logo chegaram a uma junção onde um duto de éter descia do teto, contornava graciosamente o lado da passagem e desaparecia sob seus pés.

"Devemos estar perto", disse Nissa. "Outros dutos estão convergindo bem por aqui... ao nosso redor, na verdade."

"Uh, Nissa?", disse Chandra.

Nissa olhou para cima e viu figuras blindadas fechando o cerco sobre elas de todos os lados, o brilho azul vindo do duto de éter cintilando nas armaduras de metal e nas lâminas sacadas.

Arte de Victor Adame Minguez

Uma das figuras estendeu a mão e retirou uma máscara de filigrana que cobria seu rosto. Nissa viu primeiro seus olhos azuis incandescentes, como janelas para alguma eternidade cheia de luz. Eles estavam cercados por uma pele severamente cicatrizada que parecia quase tão azul quanto seus olhos no brilho estranho.

Chandra irrompeu em uma fogueira furiosa, e uma tempestade de fogo varreu o túnel em direção ao homem cicatrizado — dando uma imagem bem clara de como ele poderia ter adquirido aquelas cicatrizes. Mas as chamas desapareceram ao alcançá-lo, e Nissa viu as últimas línguas de fogo serem sugadas para a mão do homem — presumivelmente engolidas por algum dispositivo movido a éter em seu braço.

"Desta vez não, Piromante", disse ele. Ele estendeu a mão para a parede e manipulou algo e, no momento em que Chandra começou sua investida contra ele, ela chocou-se contra uma parede que subiu do chão.

Presas! Nissa ouviu seu próprio pulso latejando.

Paredes semelhantes agora as cercavam de todos os lados, formando uma pequena câmara que parecia estar hermeticamente selada. Um dos lados continha o que parecia ser uma porta, incluindo um vidro grosso — cercado, é claro, por uma filigrana ornamentada.

Até a morte aqui é bela. O pensamento estranho flutuou pela mente de Nissa.

Chandra golpeou a porta com o punho, criando uma rajada de chama alaranjada que foi instantaneamente transformada em faíscas azuis cintilantes, espalhando-se inofensivamente. Ela pressionou o rosto contra o vidro e gritou: "Baral!"

Então este é Baral, pensou Nissa.

Ela recuou surpresa quando o rosto do homem apareceu do outro lado da janela. Nissa podia ver melhor suas cicatrizes — metade do nariz, uma bochecha e a testa estavam todos cheios das cicatrizes características deixadas por queimaduras terríveis. O desprezo curvava seu supercílio e retorcia sua boca.

"Piromante." Ele cuspiu a palavra, mal audível através da porta espessa. "Baan disse que você estava de volta. Eu não pude acreditar. Não sei como escapou de mim da última vez, ou onde esteve se escondendo todos estes anos, mas isso não acontecerá novamente."

Chandra atirou-se contra a porta novamente, esmurrando o vidro com ambos os punhos envoltos em chamas, produzindo apenas mais faíscas azuis — algum tipo de magia de anulação, deduziu Nissa. "Eu vou matar você!", gritou Chandra. "Seu bastardo!"

Baral não estremeceu com o surto. "Você é patética, pequena Nalaar. Uma aberração patética da natureza."

Nissa duvidava que Baral pudesse notar, mas ela viu — as palavras dele feriram Chandra, atingiram algum ponto sensível de sua infância. Ela aproximou-se para apoiar Chandra e retribuiu o olhar fixo de Baral.

"Eu chutei sua bunda quando era apenas uma criança!", gritou Chandra. "Espere para ver o que posso fazer agora!"

"Queime o quanto quiser. Você morrerá mais rápido se queimar todo o ar. Suas amigas também."

Chandra lançou um olhar de olhos arregalados e desamparado sobre o ombro para Nissa. Sua dor e raiva eram tão ferozes, tão quentes, que parte de Nissa quis recuar, mas sua mão estendeu-se e sua palma pousou nas costas de Chandra — exatamente como a Sra. Pashiri fizera.

Um canal abriu-se entre elas, e Nissa sentiu o fogo de Chandra surgindo nas profundezas de sua alma. Ela retirou a mão e deu um passo para trás.

"Rápida ou lentamente", continuou Baral, "vocês morrerão aqui. Esperei muito tempo por isso, Piromante." Ele virou-se, recolocando sua máscara no lugar e dando alguns passos de volta pelo caminho por onde viera.

"Espere!", gritou Chandra. "Minha mãe. Deixe-a ir. Seu rancor é contra mim. Nissa, Sra. Pashiri, você pode deixá-las ir também. Mate-me, apenas a mim."

Baral não se virou e sua voz era mal audível. "Não."

Chandra rugiu, todas as palavras banidas de sua mente, e uma onda de fogo irrompeu de seu corpo e chocou-se contra a porta. Como o mar lavando contra a grande represa de Portão Marinho, ela enviou uma grande chuva de faíscas azuis e então voltou-se contra ela.

Chandra em Chamas | Arte de Steve Argyle

Nissa mergulhou para longe, lançando seu manto sobre a Sra. Pashiri e tentando proteger a mulher mais velha com seu corpo o máximo que podia. O calor atingiu suas costas, derrubando-a no chão, mas passou em um instante. Ela rolou sobre as costas para abafar qualquer fogo que pudesse ter se acendido em seu manto, então sentou-se.

Sra. Pashiri parecia ilesa. Chandra estava de joelhos, com os ombros caídos e a cabeça baixa, todo o seu fogo apagado.

Minha vez, pensou Nissa.

Ela passou por Chandra e apoiou as mãos na porta. Hermética — ela pôde sentir isso imediatamente. E não era apenas magia de extinção de fogo que prejudicava os feitiços de Chandra, era o encantamento distorcido de um contrafeitiço, aparentemente trabalhado na substância da porta.

Não a porta, então.

Ela apoiou um dos joelhos no chão e tocou o solo, estendendo sua percepção, procurando por raízes e gavinhas que pudessem romper o chão em resposta ao seu chamado. A menor muda, com tempo, poderia estraçalhar concreto — e sob sua mão guia, o tempo necessário para uma planta arrancar a porta das dobradiças seria quase nenhum.

"O que é este cheiro?", perguntou a Sra. Pashiri.

Chandra cutucou o ombro dela. "Nissa, olhe."

Nissa virou-se e deixou seu olhar seguir o dedo indicador de Chandra para o topo da parede. Uma grade fina, uma de várias colocadas em intervalos ao redor da sala, emitia minúsculas cascatas de vapor esverdeado que desapareciam de vista ao se dispersarem. Ela o sentia agora também — acre e nauseante, um cheiro químico totalmente não natural. "Veneno", disse ela. "Ele pretende que sufoquemos mais rápido, afinal."

Chandra desabou de volta ao chão, abraçando os joelhos contra o peito.

"Está tudo bem", disse Nissa, retornando à sua posição ajoelhada junto à porta. "Eu nos tirarei daqui..."

Mas não estava funcionando. O chão estava imbuído com a mesma magia amortecedora que a porta e as paredes. Ela não conseguia estender seus sentidos, sua vontade, seu chamado para dentro da terra. Nada vivo crescia ao seu alcance.

O aperto em seu peito retornou. Ser pega como um animal na armadilha de um caçador já era ruim o suficiente. Mas apenas uma vez antes ela se sentira tão completamente sozinha, tão cortada da vida e da alma do mundo ao seu redor: quando o demônio Ob Nixilis interrompera as linhas de força em Zendikar e arrancara Ashaya dela.

Ela sentou-se, encostando-se na porta, engolindo o ar enquanto tentava acalmar seu pulso acelerado.

"Está ficando mais difícil respirar", disse Chandra baixinho.

Nissa encontrou seu olhar. "Eu não sei o que fazer", disse ela.

"Jace teria um plano." Chandra tentou forçar um sorriso, mas ele morreu em seus lábios.

"Aquele... Baral? Ele construiu uma bela armadilha para nós. Cancelando nossos feitiços, enviando-os de volta contra nós..."

"Ele construiu sua carreira perseguindo pessoas como a Chandra", disse a Sra. Pashiri. "Faz sentido que ele tenha armado uma armadilha em seu covil para se proteger de retaliações."

"Gideon provavelmente apenas derrubaria a porta", disse Chandra. "Ela provavelmente quebraria antes dele."

Nissa balançou a cabeça. "Estou completamente isolada, Chandra. Não consigo alcançar nem mesmo as plantas mais próximas. Não consigo evocar um elemental. Não sei o que fazer."

"Talvez Liliana apareça e nos salve. Como fez em Innistrad."

O desespero de Chandra estava tão evidente em seu rosto que Nissa sentiu vontade de abraçá-la e segurá-la contra o peito. Mesmo que isso significasse ser apanhada no fogo do tumulto de Chandra, mesmo que isso significasse queimar...

É claro.

"Tente algo comigo", disse ela, levantando-se e estendendo a mão para ajudar Chandra a se levantar.

Chandra pegou sua mão e o sangue de Nissa ferveu. Em vez de fechar a comporta, ela deixou o fogo percorrê-la. Sentiu tudo — toda a raiva, o desespero, o tumulto de encontrar sua mãe e perdê-la novamente... e o menor fragmento de esperança. E ela buscou fundo dentro de si e encontrou algo para oferecer em troca: uma respiração profunda de calma, uma abertura, um sabor da alma deste plano. Os olhos de Chandra se arregalaram.

"Deixe-me alimentar seu fogo", disse Nissa. "Talvez juntas possamos sobrepujar o contrafeitiço de Baral."

O rosto de Chandra iluminou-se. "Vale a pena tentar!", disse ela. "Aquela conexão..."

"Uma chama focada", disse Nissa. "Não outra grande onda de fogo — perigoso demais. Pequena, mas tão quente quanto você conseguir, bem na borda da porta. Talvez possamos derreter as dobradiças."

"Vamos nessa! Me abasteça!"

A excitação de Chandra era tão palpável quanto o restante de suas emoções. Nissa respirou fundo, puxando mana da terra viva ao seu redor. Isso funcionou, pelo menos — ela não conseguia estender sua magia para fora, mas pelo menos conseguia atrair magia para dentro.

Seus pulmões começaram a arder. O veneno. Ela tossiu, afrouxando seu controle sobre a mana que estava segurando. "Vá", arquejou ela.

Chandra tentou uma respiração de centragem semelhante, acompanhada por uma tentativa desajeitada de uma postura que provavelmente aprendera com os monges em Regatha. Querida Chandra, pensou Nissa. Foco realmente não é a sua praia.

Mas uma chama como uma adaga apareceu na mão de Chandra, pequena e controlada. Nissa começou a canalizar sua mana para Chandra, e a lâmina brilhou mais forte e mais quente até ficar de um branco ofuscante. Sorrindo, Chandra virou a lâmina contra a prisão delas, tentando cravá-la na vedação ao redor da porta.

Átomos azuis voaram de volta para Chandra como faíscas de um soldador, e Chandra parecia estar exercendo cada músculo para manter o fogo aceso e forçá-lo fisicamente para dentro da vedação.

Por apenas um momento, pareceu que estava funcionando — o braço de Chandra moveu-se para frente... mas então uma luz branco-azulada brilhou com um estalo como o de um chicote e Chandra cambaleou para trás nos braços de Nissa, as últimas chamas minguando em sua mão.

"Droga!", gritou ela. "Maldito seja você, Baral! Maldito Consulado! Maldita Kaladesh! Por que diabos eu voltei para cá? Maldito-maldito-maldito-maldito-maldito!" Ela acentuava cada palavrão golpeando a porta com o punho, criando uma pequena chuva de faíscas azuis a cada vez.

Armadilha de Impasse | Arte de Jason Rainville

Ela virou-se e sentou-se de volta ao chão, olhando para Nissa, toda a raiva em seu rosto derretendo-se em tristeza.

"Como tudo deu tão errado?", disse ela.

"Por que você veio para cá?", Nissa perguntou. "O que esperava encontrar?"

"Dor. Eu não sei. Liliana disse... eu não sei." Ela mordeu o lábio por um momento. "Por que você se juntou às Sentinelas, Nissa?"

"O quê?"

"Você é tão conectada a Zendikar, certo? Por que sair? Por que vir com nós humanos e lidar com todas as nossas porcarias?"

"Somos mais fortes juntas", disse Nissa. "Podemos usar essa força para ajudar outros mundos, da mesma forma que ajudamos Zendikar. Não quero ver outro plano sofrer como Zendikar sofreu."

"Mais fortes juntas. Foi o que Liliana disse, não foi? Não acho que seja isso."

"O que você quer dizer?"

O olhar de Chandra pousou na Sra. Pashiri, que estava sentada contra a parede oposta, conservando suas forças. "Somos Planeswalkers, certo? E isso significa que é muito fácil se sentir sozinho — isolado, como você disse antes. Sempre significará deixar nossas famílias para trás. Deixar as pessoas que amamos. Eu encontrei minha mãe, e a Sra. Pashiri, mas não acho que conseguiria ficar em Kaladesh para sempre. Somos Planeswalkers — e as Sentinelas são sobre não estarmos mais sozinhos."

Nissa piscou. "Fazer parte de algo maior do que nós mesmos..."

"Não. Apenas fazer parte de algo. Juntos. Ter uma família, não importa em qual plano estejamos." Ela sorriu fracamente. "Ter amigos."

Zendikar Ressurgida | Arte de Chris Rallis

Nissa tentou se lembrar da última pessoa que chamara de amiga. Não Ashaya, a alma de Zendikar, mas uma pessoa.

Mazik? Lá atrás, antes de eu deixar Zendikar pela primeira vez, antes—

Chandra estava de pé novamente, cara a cara com ela. "Não é apenas salvar o Multiverso. É salvar uns aos outros. Ajudar uns aos outros. Como você vindo para cá... por mim. Me ajudando a encontrar minha mãe."

"Eu nunca tive isso de verdade..."

Chandra colocou a mão em seu ombro. "Isso significa muito para mim, Nissa. Obrigada."

Enquanto Nissa tentava formular algum tipo de resposta, Chandra passou por ela e ajoelhou-se ao lado da Sra. Pashiri.

"Como está se sentindo, Sra. Pashiri?"

"Estou bem, criança."

"Você não parece bem." Ela olhou para Nissa, com a testa franzida de preocupação. "Você deveria ir."

"O quê?"

"Somos Planeswalkers, dã. Você deveria simplesmente ir embora."

"E quanto a você?"

Chandra sorriu enquanto lágrimas brotavam em seus olhos, e balançou a cabeça. "Vou ficar aqui com a Sra. Pashiri. Acho que a Mamãe ia querer isso."

"Bobagem, criança", disse a Sra. Pashiri. "Se você tem algum jeito de sair daqui, mesmo que não possa me levar, ambas deveriam ir."

"Não. Não posso deixar você morrer aqui sozinha."

Sra. Pashiri pegou ambas as mãos de Chandra nas suas. "Vá, Chandra. Vá. Vivi uma vida longa, plena e maravilhosa. Enterrei meu próprio parceiro anos atrás. Estou pronta."

Chandra continuou balançando a cabeça. Mantendo as mãos da Sra. Pashiri presas às suas, sentou-se ao seu lado.

"Chandra, você deveria encontrar sua — sua mãe", disse Nissa. "Salve-a. Eu ficarei aqui com a Sra. Pashiri."

Chandra sorriu e balançou a cabeça. "Você é uma boa amiga, Nissa."

Não faz sentido nenhum, pensou Nissa. Somos Planeswalkers. Somos parte das Sentinelas. Prometemos ajudar a proteger o Multiverso — há tanto bem que podemos fazer por tantas pessoas.

Mas eu só quero ficar aqui.

Ela sentou-se ao lado de Chandra e da Sra. Pashiri.

Com minha... minha amiga.

05 de Outubro de 2016 | Por Chris L'Etoile

Libertação

Doze anos após assistir à morte de seus pais, Chandra Nalaar retornou para seu lar em Kaladesh. Ela descobriu que sua mãe sobrevivera... mas Pia Nalaar, agora uma líder do movimento renegado, foi presa pelo Consulado governante sob o comando do Planeswalker Tezzeret. Chandra rastreou sua mãe com o auxílio de Nissa Revane e da Sra. Pashiri, mas as três viram-se presas pelo cruel Baral.

Seladas em uma câmara à prova de magia que está se enchendo de veneno, a única escapatória possível é caminhar entre os planos. Mas Chandra não deixará a Sra. Pashiri... e Nissa descobre que não consegue deixar Chandra.

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Ele ainda estava se acostumando com as mãos. Foi por isso que quase caiu do último telhado.

Os dedos mecânicos que a Vovó fornecera eram fortes e surpreendentemente responsivos. Quase como usar luvas. Mas, como uma mão em uma luva, a pegada era diferente. Ele tinha que se lembrar conscientemente de usar menos pressão ao segurar um copo, e mais ao saltar pelos telhados dos becos.

Depois que o vento de sua passagem silenciou, depois que seus pés o fizeram parar sem ruído contra a poeira desbotada dos tijolos, ele sentiu seu peso mudar perigosamente. A borda estava escorregando. Seus dedos — os reais — cerraram-se dentro das manoplas que os envolviam. Com eficiência silenciosa, os dedos mecânicos se tensionaram, cravando-se na alvenaria. Ele sentiu o equilíbrio se estabilizar e balançou as pernas para cima da borda do telhado com um farfalhar de tecido fustigado pelo vento. O céu azul e as imensas nuvens de um claro-escuro vespertino giraram diante de sua visão.

Levou apenas um suspiro.

Ele parou, ouvindo, sentindo o cheiro do vento. Uma dúzia de especiarias aromáticas para as quais ele não tinha nomes há cinco meses flutuavam das cozinhas abaixo. Agora ele as conhecia como cardamomo, cúrcuma, cravos, cominho e outras. A maioria das pessoas não sentiria o cheiro de mais nada além dessas, avassaladoras como eram. Abaixo delas, ele captou pedra aquecida pelo sol e latão, o cheiro de mofo de óleo velho e o suor de uma dúzia de inspetores do Consulado.

O zumbido de beija-flor das asas de thopters de vigilância pulsava do alto. Um filete de cascalho caiu dos buracos que seus dedos de metal haviam deixado, tilintando pelo chão do beco.

Um farfalhar de tecido. "Este lugar está caindo aos pedaços." Uma das inspetoras, sua voz ecoando nas paredes de tijolos e no pavimento de paralelepípedos. "Os Cônsules deveriam derrubar isso e construir por cima."

Outra voz, masculina: "Talvez o façam. Ouvi dizer que os fundos urbanos foram destinados à construção de locais para a Feira..."

Satisfeito por não terem encontrado nada de errado, ele caminhou silenciosamente até o lado oposto do telhado e examinou a parede abaixo. Varanda, varanda, calha, toldo — será que aguentaria seu peso? Talvez o poste de luz, em vez disso. Depois a parede, finalmente a rua. Estava no chão em poucos suspiros, dedos revestidos de metal fechando o manto emprestado.

Ele olhou para as manoplas de latão cintilantes. Apenas as mãos eram visíveis das mangas fluidas de seu manto, mas estendiam-se para além de seus cotovelos. Haviam sido fabricadas pelos Mangas-Brilhantes, um grupo especializado em tais anexos corporais. Vovó as mandara fazer para ele. Não seriam questionadas ali. O manto ela mesma fizera, usando dispositivos astutos que giravam e tiquetaqueavam. "Esse que você usa é um tédio! Isso faz você se destacar na multidão ainda mais, sabe." Ele segurara os rolos de seda para ela, respondendo a perguntas sobre cor e padrão com um desinteresse respeitoso.

Ajeitou os ombros, curvou-se e deslizou para dentro da multidão murmurante, ouvindo, ignorando o forte fedor de suor nervoso.

"... o que estão fazendo...?"

"... estão lá dentro há muito tempo..."

"... disseram que os renegados têm armado armadilhas..."

"... papai, quando podemos voltar...?"

"... nunca vi tantos..."

Das sombras de seu manto, ele observava os padrões de relógio dos thopters em órbita e o passo irregular de humanos e vedalken em uniformes de inspetores do Consulado. O prédio da Vovó estava cercado.

Ele escorregou para outro beco e subiu de volta aos telhados. Encostou-se em um barraco repleto de ferramentas de jardinagem para revisar a memória. O dourado passava por trás a cada vigésimo segundo suspiro, o laranja passava por trás do prédio rumo ao pôr do sol a cada quadragésimo... Os aromas do jardim de especiarias dos residentes enchiam suas narinas.

Poderia ser feito.

Ele esperou, ouvindo as batidas de coração dos thopters caindo do alto.

Agora.

Ele rolou, lançou-se pelo telhado, impulsionou-se.

A aterrissagem expulsou o ar de seus pulmões.

Correndo agora, desviando de uma claraboia, ziguezagueando por uma chaminé.

A pulsação das asas trovejava na alvenaria, ecos se espalhando. Momentos restantes.

O prédio da Vovó era o mais alto do quarteirão. Ele saltou para cima, estendendo as manoplas de latão sobre a cabeça, o azul e o dourado brilhantes de seu manto estalando atrás dele...

Seus dedos de latão travaram sobre a borda do telhado. Suas botas grandes tocaram suavemente o tijolo.

Ele grunhiu — tão alto! — enquanto se puxava para cima e para o outro lado.

Ficou ali por batidas de coração, respirando pela boca, forçando o ar a passar lento e silencioso, ouvindo por uma mudança nos padrões dos thopters, ou um grito da rua.

Nada.

Vovó tinha um terraço no lado oposto do prédio, de frente para a imponente Pináculo de Éter do Consulado. Ela tinha seus próprios nomes para a edificação, o mais gentil dos quais era "trampo para os olhos", e o mais rude dos quais envolvia uma série crescente de referências escatológicas chocantemente específicas. Ele farejou sobre a borda. Apenas suas orquídeas; nada que sugerisse a presença imediata de inspetores.

Ele desceu silenciosamente entre as plantas e deslizou para dentro da casa dela. Perdoe esta intrusão.

Ele agachou-se, ouvindo, enquanto o vento dobrava as cortinas de linho desbotadas dela ao seu redor. Duas vozes. Não... três. Uma com um tom de comando nítido. Todas no fundo do corredor, em seus aposentos de dormir. O apartamento fora revistado rudemente, o conteúdo das velhas gavetas de madeira espalhado pelo chão de ladrilhos pintados, as almofadas do sofá desvisceradas.

Ele moveu-se silenciosamente pelo ladrilho, cuidadoso para evitar remexer o conteúdo das gavetas entornadas, ouvindo a conversa no outro cômodo.

Uma mulher, sua voz profunda e séria: "Você checou aquele armário?"

Um homem jovem, queixoso: "De claro que eu chequei o armário. Nada."

A terceira voz, masculina e aguda: "Tem que haver algo. Alguma prova. Ela esteve ao lado do coração do movimento por mais de uma década. Ela não poderia guardar todos aqueles segredos na cabeça dela. Por que vocês dois não... não sei. Vão revistar a sala de estar de novo."

Passos no corredor. "Soube que a Rashmi passou para a próxima fase?", o jovem disse. O aroma de metal rachado de ar carregado de éter flutuava em seu rastro. Armados, é claro. Sua voz baixou de tom com dúvida; "Não parece haver muito uso para um teletransportador de vasos."

"Você tem que pensar nas implicações a longo prazo", a mulher respondeu, despreocupadamente. Vidro estourou e espalhou-se sob sua bota, e ela praguejou baixinho. "Hoje vasos, amanhã mecatitãs..."

Ele posicionou os pés com precisão, rolando-os para evitar qualquer som, deslizando pelo corredor e entrando na sala de estar. Os inspetores estavam um ao lado do outro, vistoriando a bagunça que haviam feito em uniformes combinando de vermelho e laranja. Artefatos de metal negro sibilantes pendiam de seus cintos.

"Você viu o bicho de estimação dela?", o jovem perguntou.

"Não tem um", a mulher respondeu. "Ela é uma moldadora de vida. Faz os dela." Suas mãos cicatrizadas descreviam formas de pássaros no ar.

Ele moveu-se rápido e silencioso pelo ladrilho, estendendo os braços como se para abraçar os intrusos, o vento se acumulando sob o capuz de seu manto.

O rapaz começou a se virar, sobrancelhas franzidas. "... mas tem pelos brancos por todo o sofá."

A sombra dele caiu sobre o rosto do rapaz. Ele teve um espasmo, as mãos movendo-se para sua bainha, olhos arregalando-se conforme focavam.

Suas mãos envoltas em metal pegaram e chocaram as cabeças deles.

Ele estremeceu com o impacto de osso contra bone conforme os inspetores desmoronavam em um amontoado de fôlego e membros. A dor de cabeça que vocês compartilharão não é de se invejar.

A voz do supervisor deles flutuou pelo corredor. "Basani? O que foi aquilo?"

Ele deslizou para uma posição perto da porta.

"Basani?" Passos trovejaram pelo corredor.

Sedas vermelhas e laranjas. Metal dourado. Linho marfim. Antes mesmo de ele montar o borrão de cores em um homem, os dedos de latão fecharam-se em seu pescoço e o ergueram do chão. Velhos instintos.

O homem arquejou, dedos agitando-se nos instrumentos em seu cinto.

Ele afastou os artefatos com um tapa de sua mão livre, girou o homem, bateu suas costas contra a parede mais próxima. "Boa tarde."

O homem agarrou sua garganta, a boca movendo-se silenciosamente.

"Desculpas", disse ele, afrouxando ligeiramente o aperto. "Estas não são minhas mãos habituais." O homem arquejou um momento, o fedor dele aumentando. "Você cheira a medo", ele continuou, inclinando a cabeça para o lado. "Assustado?"

"Sim", o supervisor engasgou, olhos arregalados buscando as sombras de seu capuz.

"Bom", ele trovejou. Deixou o homem suar por dois suspiros antes de perguntar: "Onde está a Vovó Pashiri?"

"Custódia. A esta altura", ele boquiabriu-se como um peixe tirado do deserto insuportável acima de seu mundo. "Armadilha. Ela é renegada."

Ele esperara que ela tivesse escapado, que tivessem vindo aqui procurando por ela. Mas não; eles a tinham, e vieram em busca de algo para justificá-lo. "Que tipo de armadilha?", disse ele.

"Estava procurando. Por alguém. Espalhamos a palavra. Que a tínhamos. Eles."

Evasivo. Ele ergueu o supervisor mais um punho acima do chão. "Quem?"

"Renegada. Primordial." O homem estremeceu em seu aperto, engasgando, a necessidade frustrada de tossir superando-o.

Vovó falava frequentemente da Renegada Primordial, mas apenas pelo nome falso que ela adotava. Ele a conhecera apenas uma vez. Uma mulher de semblante nobre, com olhos distantes e uma espinha feita de tal ferro que quase escondia os pesos que dobravam seus ombros.

"Onde fica esta armadilha?"

O supervisor balançou a cabeça de um lado para o outro. "Não — não sei!"

"Uma pena."

Seus olhos se arregalaram, pupilas inchando como poços negros. "Vai. Me matar?"

"Eu não mato." Ele atingiu o homem na cabeça com sua mão livre, deixando-o inconsciente, e o deixou cair sobre os ladrilhos. "Não mais."

Ele retornou ao terraço da Vovó e cuidadosamente deslizou as orquídeas em vasos para o lado. Se eles buscaram atraí-la, ela teria deixado o prédio por livre e espontânea vontade. Isso era algo que ele podia usar. Ele fechou os olhos e respirou.

O ar era uma cacofonia. Ele se concentrou, sintonizando-se além das especiarias, dos metais, das multidões preocupadas, do onipresente cheiro de fumaça de éter estalando como relâmpago que girava pela cidade.

Ali.

Apenas um sussurro vindo da rua abaixo; frutas de verão, rosas, jacinto e mel. O attar distintivo que a Vovó usava. Quase impossível de encontrar mais, ela lhe dissera, com orgulho obstinado. Ainda mais fraco, o óleo de máquina e o latão quente do pássaro mecânico que pousava em seu protetor de ombro para cantar mensagens codificadas.

O beco dos fundos estava livre, por enquanto. Sem saber por quanto tempo ficaria assim. Ele saltou o corrimão, deixando o ar inflar o manto da Vovó, e rolou na aterrissagem.

O sussurro-aroma levava em direção ao sol que baixava. Ele moveu-se rapidamente pelas ruas sinuosas, narinas dilatando-se a cada respiração, pombas e pássaros-alfaiates esvoaçando à sua passagem.

Era um tipo diferente de selva, mas ele era um rastreador.

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Seis Meses Atrás

O menino apertou os olhos, colocou as mãos sobre o rosto e contou. "Ichi, ni..."

Risadinhas por toda parte, e o chão vibrava com o barulho de corpos se espalhando em todas as direções. Ele se concentrou nos sons, ouvindo o toque de pés descalços em madeira e junco. Seus ouvidos eram melhores que os da maioria. "... san, shi..."

Ele era ruim no jogo. O menor e o mais lento. Mas ele só precisava pegar um. Apenas um, e isso seria o suficiente. Apenas um, e os outros ririam de eles em vez disso. "... go, roku..."

Um respingo? Parecia que alguém estava no lago. Aquilo era trapaça. Ele não podia ir ao jardim. Não como os outros. Quando os demais saíam para rir ao sol, ele tinha que sentar no pórtico e observar, balançando seus pés pesados nas névoas frescas da primavera. "... shichi, hachi..."

Tiveram que fazer a regra só para ele, quando ele era o pegador. Mas ele era o menor e o mais lento. Ele era o pegador com frequência. "... kyu, ju! "

Abriu os olhos para a biblioteca iluminada, o sol brilhando quente e dourado através das telas de papel, incidindo sobre pilhas de livros e montes sussurrantes de pergaminhos. "Lá vou eu!", gritou. A primeira coisa que fez foi passar pela porta de correr para o pórtico, olhando para o lago trapaceiro e apertando os olhos contra a claridade.

Oboro, Palácio nas Nuvens | Arte de Rob Alexander

Apenas um grou passando, erguendo a cabeça da água para observar seu barulho. A névoa do jardim agitava-se e ondulava com o vento. Carrilhões de vento de madeira tilintavam e estalavam no telhado, grandes amuletos de chuva balançando. Pétalas rosadas de flores giravam em torno de seus dedos.

Virou-se e voltou para dentro de casa, coçando o lado do corpo, tentando pensar nos sons de passos. Estava na Sexta Biblioteca. Parecia que a prima Umeyo fora para a Terceira Biblioteca, mas Ume era legal. Ela o deixava dar mordidas que faziam os dentes doer em suas raspadinhas e esfregava sua cabeça antes de ir dormir. Então ela podia ficar com a Terceira Biblioteca, e ele iria para qualquer outro lugar. Como talvez a Décima Biblioteca, onde o irmão mais velho Hiroku costumava ir, porque lá era onde ficava seu livro mais favorito, aquele sobre os ratinhos do campo e os corvos, e Hiro não ligava muito para esconde-esconde de qualquer maneira.

Caminhou pelo corredor através de raios de ouro inclinados, tentando ser a versão mais silenciosa de si mesmo.

Uma rajada de vento inundou pela direita, esticando as paredes de papel. A sala de entrada! Alguém deve ter aberto a porta externa.

Ele girou e escancarou a porta de correr. "Te peguei !", gritou.

A porta externa ainda estava fechada. Um gigante pálido olhava para baixo para ele. Um olho azul piscou. "Pegou mesmo, pequeno caçador", ele trovejou.

Ele deveria dizer olá agora.

Disseram-lhe que deveria se curvar e dizer "Bem-vindo à nossa casa."

Qual o seu nome. Posso anunciá-lo. Você viajou de longe. Precisa de chinelos.

Os pés do gigante eram maiores que sua cabeça inteira e terminavam com garras do tamanho de dedos.

O gigante agachou-se diante dele e ainda tinha o dobro de sua altura. Ele cheirava a grama de verão e árvores estranhas. Seu olho azul estava contornado de vermelho, como o de Hiroku quando ficava acordado até tarde lendo. Onde o outro olho deveria estar, havia apenas uma cicatriz. "Acho que não nos conhecemos", disse ele. Seus dentes eram muito pontudos e havia muitos deles.

Havia passos atrás dele, fazendo as tábuas do corredor rangerem, mas ele não tirou os olhos do gigante, pois e se ele se virasse e os dentes tivessem chegado mais perto?

O olho cor de céu do gigante o olhou de cima a baixo. "Você está tremendo."

"SENHOR GATO!" Ambos pularam com o grito atrás de sua orelha. A voz da irmã mais velha Rumiyo. Pés bateram fugindo pelo corredor. "Ma-mããããã! O Senhor Gato voltou!"

O gigante sorriu por cima de seu ombro. "Rumi continua barulhenta como sempre." Ele recuou um passo e sentou-se de pernas cruzadas, apoiando os pulsos nos joelhos. Curvou a cabeça. "Nenhum mal virá a você destas mãos."

Ele deu um passo para trás de qualquer maneira.

"Nashi?"

Ele não ouvira passos, porque ela era grande e não tocava mais o chão, a menos que quisesse. Mas ele podia sentir a queda da sombra dela no corredor e correu para trás das pernas dela. "O que é — ah. Bem-vindo de volta a Kamigawa, meu amigo", disse ela.

Ele espiou por trás da seda turquesa do robe dela. O gigante pálido havia se levantado de sua posição sentada e curvou-se com grande respeito. "É bom ver você de novo, Tamiyo."

Ela virou-se do gigante para sorrir para ele, prendendo uma orelha longa sobre o ombro. "Este é Ajani. Ele faz parte do nosso círculo de histórias." Sua voz era como um dos vasos de porcelana, fria e brilhante. "Como a Narset? Ele consegue caminhar por trás do ar também."

Narset contava histórias que se moviam em círculos longos e divagantes, e se esparramava no telhado para observar as nuvens com ele. Ela ria de todas as piadas dele, e de nenhuma de suas palavras. Narset gostava mais de histórias sobre dragões.

Tamiyo colocou uma mão em sua cabeça. "Ajani, este é Nashi. Ele faz parte da nossa família agora."

O gigante — Ajani — curvou-se novamente. "Honra a você."

Ele ficou atrás das pernas de Tamiyo, mas curvou-se de volta, do jeito que ela o ensinara. "E a vo—"

"SENHOR GATO!" um borrão marfim passou voando pelo seu nariz.

Ajani girou e quase conseguiu pegá-lo em seus braços maciços. "Oof! Olá, Rumi."

O sorriso de dentes separados dela iluminou a sala. "Você ficou longe tempo demais." Atrás dele, as tábuas do corredor trovejaram enquanto irmãos e primos vinham correndo, pulando, saltando e ocasionalmente flutuando. Rumi estendeu a mão para bagunçar o pelo de Ajani. "Aposto que você tem histórias estupendulásticas !"

"Ajani voltou!"

"Conte sobre o dragão de novo!"

"Quero ouvir sobre o buraco no mundo!"

Crianças moonfolk fervilharam ao redor das pernas de Ajani, tocando seu pelo pálido, seu machado vasto e reluzente, o longo manto branco que ele usava. Hiroku era o mais alto, mas chegava apenas ao peito do gigante. Rumi, ainda empoleirada no braço dele, olhou para baixo e repreendeu os outros.

Tamiyo bateu palmas duas vezes. "Basta!"

"... e por isso que vocês todos têm que me ouvir! — oh." A voz de Rumi surgiu conforme o clamor morria.

"Ajani é um convidado. É indelicado fazer exigências a ele." Tamiyo entrelaçou as mãos no ventre enquanto ele baixava Rumi ao chão. "Ele viajou de longe para nos visitar. Rumi, diga ao seu pai para preparar uma refeição de boas-vindas. O restante de vocês pode ajudar."

"Bem, ele não pode ir embora antes das histórias", disse Rumi. Ela cruzou os braços e empinou o queixo. "Essa é uma regra de ferro, mamãe. Se você sai para ter aventuras, tem que contá-las quando volta."

Tamiyo olhou para Ajani, lábios pressionados em uma linha severa, olhos sorridentes. "Ela puxou ao pai."

"É claro", disse o gigante, educadamente. Olhou para baixo para a multidão e colocou uma mão sobre o peito. "Não haverá partida sem uma história."

Todos ainda resmungaram enquanto saíam aos poucos.

"Venha, Nashi." A prima Ume pegou a mão dele na dela, olhos lilases enormes e animados. "Você pode enrolar bolinhos de arroz comigo."

"Tudo bem", disse ele, e deixou que ela o puxasse. Deu uma última olhada sobre o ombro enquanto corriam pelo corredor juntos.

Tamiyo colocou a mão no armo de Ajani. Ela usava um rosto que ele só vira ela mostrar para Genku, tarde da noite, quando todos deveriam estar dormindo. "Você esteve fora por meses", disse ela, quase abaixo da audição. "Onde está Elspeth?"

O pescoço do gigante curvou-se como um salgueiro na chuva. O brilho de seu olho fechou-se. "Ela... não virá."

Ume o puxou para dobrar a esquina.

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O aroma levara Ajani a ainda mais inspetores.

Ele empoleirou-se na borda de uma torre de latão reluzente enquanto eles se moviam lá embaixo, desmontando cuidadosamente cada pedaço de maquinário que podiam encontrar. Como formigas, fervilhavam nas bordas de coisas muito maiores que eles mesmos, cortando cuidadosamente porções minúsculas para levar e colocar em algum lugar onde ninguém jamais olharia para elas novamente.

O miasma de uma batalha ainda flutuava; o cheiro onipresente de éter como um estalo de relâmpago e a fuligem de metal queimado.

Uma leve pressão pousou contra as costas de seu manto, com força suficiente para ele identificá-la como a ponta de uma lâmina. "Perdeu-se, então?" Uma voz feminina musical, levemente divertida.

Notável. Ele não ouvira nem sentira cheiro de nada. Quem quer que fosse, não era uma perseguidora amadora.

Ele mudou o peso, lenta e ligeiramente— "Planejando pular?" A ponta da lâmina o cutucou de brincadeira. "Maneiras mais fáceis de morrer, se quer minha opinião sobre isso. Se você dançar entre as correntes de éter, só vai encaracolar seu cabelo."

Ele relaxou. Era uma frase que os amigos da Vovó usavam para se identificarem, uma referência velada à heráldica usada pelos Cônsules. Ela lhe contara a resposta correta. "Melhor tirar os sapatos", ele trovejou, "e deixá-lo encaracolar os dedos dos pés." Uma referência à inversão do símbolo pelos renegados.

"Ah, excelente!" a lâmina recuou. "Peço perdão, amigo. Pode ver que tivemos um dia ruim."

Ele estava prestes a se virar quando uma elfa sentou-se ao seu lado, balançando as pernas sobre a borda do telhado. Parecia estar no final da adolescência, mas um elfo poderia ter tal aparência e ainda ser muito mais velho que ele. Suas vestes eram uma névoa de violetas e cinzas escuros, adornadas com um número tremendamente excessivo de bolsas e cintos. Faixas de metal escuro continham uma cascata de tranças negras que provavelmente caíam até a cintura quando soltas. Ela cheirava a amêndoas, chá preto forte e suor.

"Belo show, não é?" ela espiou os Inspetores, batendo os pés para frente e para trás como uma criança inquieta. Meia dúzia de minúsculos insetos de metal agarravam-se aos ombros de seu manto; borboletas de latão abanando asas de seda em uma imitação astuta de vida; aranhas de aço temperado escuro que ficavam perfeitamente paradas, exceto por seus olhos inquietos. Flores vivas, violetas e índigo, brotavam de entre suas costelas de metal.

"O que eles procuram?", perguntou ele.

"Quem pode dizer?", disse a elfa, despreocupadamente. "Armadilhas, talvez?" Ela soltou uma risada de pássaro canoro. "Isso seria divertido, não seria? Todo esse tempo, procurando por algo que nenhum de nós jamais usaria?" Ela voltou alegres olhos cinza-prateados para ele. "Pode me chamar de 'Lâminassombreada', a propósito. Com Y em 'lâmina'."

"Shadowblayde?" ecoou ele, incredulamente.

Ela radiante. "Não é um codinome maravilhoso?"

"Eu... vejo que você gosta", disse ele, diplomaticamente. Vovó mencionara uma jovem moldadora de vida talentosa, uma das elfas Vahadar que viviam na cidade. Uma prodígio, disse ela, cujos insetos mecânicos capturavam e desmontavam os thopters de vigilância dos Cônsules. Mas quando ele perguntara o nome da prodígio, Vovó apenas revirara os olhos.

"Inventei eu mesma, sabia. Acho que soa terrivelmente arrojado." Ela espiou as sombras de seu capuz, e ele rapidamente se virou, puxando o capuz para baixo com suas mãos de latão. "Ah, um homem de mistério, hein?" ela o cutucou com o cotovelo. "Brilhante truque."

Ele limpou a garganta. "Onde está a Vovó?"

O sorriso dela desapareceu. Após um momento, ela falou novamente, e sua voz era mais quieta — mais velha. "Não saberia dizer. Vim aqui procurando pela Renegada Primordial. Ela estava atrasada." Uma mão foi à boca e ela roeu uma unha já bastante curta. "Se ela estava aqui, acho que... os Cônsules podem tê-las pego."

"Você está certa. Perguntei a um inspetor que ocupava a casa dela."

Uma de suas sobrancelhas flutuou para cima. "Você perguntou ?"

"Persuasão foi necessária", disse ele, fechando uma das manoplas de metal em um punho. "Esperava ver para onde a Vovó fora levada a partir daqui. Os inspetores confundiram a trilha."

"Hum, hum, hum", disse Shadowblayde, pensativamente. Ele piscou. Ela realmente dissera as palavras? "Há um esconderijo renegado por perto. Qualquer um que tenha saído da confusão desta tarde provavelmente foi levado para lá. Vamos perguntar por lá."

Ele inclinou a cabeça. "Eu ficaria grato."

Ela saltou de pé e limpou a parte de trás das calças. "Consegue acompanhar se eu pular por telhados e coisas do tipo?" A voz dela brilhara novamente, sua preocupação uma nuvem alta passando rapidamente pela face do sol.

Sob o capuz, ele sorriu. "Tente-me."

"Brilhante." Ela virou-se para uma das borboletas mecânicas em seu ombro e assobiou seis notas. Para outro ouvido, poderia ter soado como um canto de pássaro. O inseto de metal esvoaçou, seguindo um curso de voltas e errático sobre os Inspetores amontoados. "Só para ficar de olho nas coisas aqui", ela piscou. "Vamos lá." E ela disparou como um alce, saltando graciosamente para o próximo telhado.

Quando ele se levantou, ela já saltara dois prédios e estava unsuccessfully abafando risadinhas. Ele semicerrou o olho para os vãos, cuidadosamente. Com um olho, julgar longas distâncias era uma questão de intuição, inferência e experiência. Tomou impulso, impulsionou-se e aterrissou ao lado dela.

Seus olhos de luar curvaram-se para cima em um sorriso. "Pernas fortes, vejo."

Ela o guiou através de telhados escaldados pelo sol, sob varais de linho secando, ao redor de chaminés, subindo pilhas de detritos e escadas desmoronando, e sobre ruas entupidas com mil vidas agitadas. Era um caminho tortuoso, espiralando para fora e de volta. Bom. Isso significava que ela não confiava plenamente nele; qualquer pessoa sem sua memória e senso de lugar não seria capaz de encontrar o destino novamente.

Desceram para as sombras de um complexo de apartamentos, seu telhado um buraco estilhaçado, seu andar superior um lago cintilante de água rasa e salobra. As paredes lá embaixo estavam manchadas com colunas pretas e verdes de vida que consumia lentamente. As luzes de éter nas escadarias estavam escuras e frias. Seu olho não teve problemas com a penumbra, mas Shadowblayde produziu um bastão azul brilhante de um de seus muitos bolsos.

"Eu não sabia que tais lugares existiam", murmurou ele no silêncio de funeral. "De cima, toda Ghirapur parece brilhar."

"Harrumph", disse ela, ranzinza.

Ela realmente dissera harrumph. "Você lê muito?", perguntou ele.

Ela olhou para ele intrigada. "Um pouco demais, minha mãe costumava dizer. Por quê?"

"Por nada."

O caminho deles foi bloqueado por uma porta, mantida fechada por um artefato complicado e zumbinte. "Seis meses atrás, todo este quarteirão ainda tinha energia." Shadowblayde parou, olhos piscando fechados, e rapidamente mimou uma série de movimentos no ar antes de aplicá-los aos controles do mecanismo. O zumbido silenciou e a porta cedeu. "Então o Consulado decidiu que era um 'bairro subutilizado'. Cortaram o éter para alimentar a construção da Feira dos Inventores." Sua boca torceu-se enquanto fechava a porta atrás deles. "Engraçado como todos os 'bairros subutilizados' calham de ser justamente aqueles onde vivem os renegados. Mas eles juram que vão ligar de volta no final do mês", ela revirou os olhos.

Ele sentiu o cheiro do medo e do estresse antes de ouvir o murmúrio da conversa. Quando dobraram a esquina, o som parou.

"Sou só eu", Shadowblayde acenou. "Alguém viu a Sra. Pashiri hoje? Achamos que ela estava com a Renegada Primordial."

Um menino vedalke apareceu de lugar nenhum e agarrou-se ao braço de Shadowblayde. "Va—!" começou ele.

"Lâminassombreada!" sibilou a elfa.

O vedalke recuou um passo, olhos alternando entre a elfa e seu companheiro encapuzado. "Hm, sim. Senhorita Lâmina. Digo, Sombra. Senhora. Estou... feliz que você esteja bem." Seus olhos jovens brilhavam com admiração.

A elfa empertigou-se e colocou as mãos nos quadris. "Nenhum inspetor atrapalhado do Consulado poderia pegar a astuta Lâminassombreada!", declarou.

"Com licença?" uma mulher humana em vestes douradas e azul-celeste chamuscadas levantou-se, estremecendo ao colocar peso na perna esquerda. Ela tinha uma juba magnífica ou cabelo — não liso e caído, não preso em nós. Erguia-se alto e orgulhoso. "Eu estava com a Renegada Primordial. Nós nos separamos, mas eu estava a caminho de encontrá-la quando..." Ela parou, agitada, cheirando a exaustão amarga e medo acre.

Ele deu um passo em direção a ela, baixando os ombros e curvando-se. "Por favor. Pode me dizer o que viu, Senhorita...?"

"Tamni", disse ela. "Eu, uh... quando cheguei lá, o Consulado a tinha cercado. Um deles a segurava pelo braço. Ele tinha um membro falso. Não um acessório, uma substituição. Apenas três dedos. Metal escuro. Brilhava em violeta em vez do azul do éter. Parecia... primitivo."

Nas sombras de seu capuz, onde ninguém podia ver, sua mandíbula retesou-se. "E a Vovó Pashiri?"

Tamni engoliu em seco. "Ela estava lá também, de um lado. E outras três mulheres que não conheço. Uma tinha cabelo ruivo, uma vestida de preto, outra de verde. Os inspetores levaram Pia — levaram a Renegada Primordial embora. As estranhas discutiram por um minuto, então a de preto foi embora. Pashiri levou as outras duas. Em direção a Kujar."

Kujar. Um bairro rico, amplo e verde, lar de muitos dos próprios Cônsules. Difícil de entrar, pesadamente patrulhado. Sua presença seria questionada.

Os olhos de Tamni transbordaram. "Eu apenas... eu apenas observei." Ela cuspiu as palavras em seus próprios pés.

"Você é uma guerreira?", perguntou ele.

"Uma gue— não! Não, eu... eu apenas construo coisas." Ela encarou seus dedos chamuscados e desgastados.

Ele considerou colocar a mão no ombro dela, em apoio. Mas não — ele não a conhecia bem o suficiente para presumir tal familiaridade. "Lançar-se precipitadamente na batalha, despreparado, não é coragem. É tolice. Gera apenas mais morte." Ele manteve a voz baixa, mas firme. "Este é um conhecimento arduamente adquirido. Por favor, confie nele."

"Eu deveria ter feito... algo", sussurrou ela, enxugando os olhos com as costas de uma mão.

"Você testemunhou. Contou a história dela. Agora outros sabem o que devem fazer." Ele curvou-se para ela. "Obrigado por isso."

Tamni nada disse, e virou-se rapidamente para as sombras.

"Isso é um problema, não é?" disse Shadowblayde. "Kujar é todo espalhado. Gramados grandes e árvores e tal. Muitos muros e guardas. E você se destaca, amigo, embora ande curvado o tempo todo." Ela virou-se para o menino vedalke. "Dayal! Reúna as tropas."

O sorriso dele foi cegante. "Imediatamente, Senhorita Lâmina!"

"O que você está fazendo?", perguntou ele.

"Sou a melhor moldadora de vida que você jamais conhecerá", disse ela, alegremente. "Mas não sou a única moldadora de vida." Dayal correu pela sala, escolhendo pessoas com feras mecânicas empoleiradas nelas ou sentadas por perto. "Eu tenho meus insetos. Outros têm pássaros, ratos, gatos, cobras, sapos e até alguns cachorrinhos barulhentos. Existe apenas um gigante como você. Mas existem milhares de pequenas criações como as nossas em Ghirapur."

Ele não planejara envolver mais ninguém nestes problemas. "Eu posso seguir a trilha dela sozinho."

A elfa riu. "Sem dúvida. Mas nós podemos encontrá-la mais rápido. Como é o ditado? Muitos olhos fazem busca rápida, ou algo assim? E não se preocupe", ela gorjeou, envolvendo o braço dela no dele, "eu me aventurarei ao seu lado. Vou guiá-lo longe de problemas. Er..." ela parou e apertou o bíceps dele. "Se tivermos que derrubar alguma porta no soco, suponho que deixarei isso com você, então."

O espaço diante deles encheu-se de jovens portando maravilhas de latão e madeira verde que se pavoneavam e tiquetaqueavam. Nenhum dos amigos dela parecia ter mais de vinte anos.

"Como você conhece a Sra. Pashiri, de qualquer maneira?", perguntou Shadowblayde.

Ele considerou. Quanto dizer? "Ela está me ajudando a encontrar um homem. Perigoso por si só. Possivelmente trabalhando com alguém ainda mais perigoso."

"Homem misterioso!", ela riu. "Vamos lá, então."

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Seis Meses Atrás

Nashi se contorcia sob as tábuas, os quadris raspando nas vigas do assoalho.

Encontrara uma fresta na parede de seu quarto, escondida atrás do baú onde guardavam suas roupas. Seus irmãos e primos não cabiam, e se Tamiyo e Genku sabiam da existência dela, nada diziam. Dali, ele podia rastejar silenciosamente entre os andares inferiores da grande biblioteca, espiando por buracos de nós, respirando e ouvindo, sentindo a madeira pressionar próxima e segura por todos os lados. Ninguém podia vê-lo nessa escuridão pessoal. Às vezes passava horas ali dentro, trazendo brinquedos e livros consigo, ouvindo enquanto as outras crianças corriam procurando por ele.

Às vezes era bom ser o menor e o mais lento.

Deslizou em direção à sala de jantar, onde Tamiyo e Genku sentavam-se com o gigante. Os cheiros da comida eram estranhos. Não apenas os marrons secos e verdes agudos que normalmente comiam. Havia também vermelhos gordurosos, com traços preto-poeira. Isso coalhava em seu peito, fazia o fundo de sua garganta saltar para frente, embora ele não pudesse imaginar o porquê. Apertou o nariz, respirou pela boca e seguiu em frente.

Havia um buraco de nó no canto que lhe permitia olhar por toda a sala. Tamiyo sentava-se em sua almofada habitual na cabeceira da mesa baixa, com Genku à sua direita. O gigante — Ajani — pairava sobre a outra extremidade, pegando educadamente em um prato coberto por cubos marrons marmorizados. Carne. Ele se lembrava de carne. Ela o deixava enjoado agora.

Genku levantou-se e curvou-se para Ajani. "Há assuntos que devo atender. Se me der licença?"

O gigante piscou. "Oh. É claro. Por favor."

Genku inclinou-se para beijar a testa de Tamiyo. Ela sorriu e fechou os olhos, apoiando brevemente a cabeça contra o peito dele, seus braços e dedos se entrelaçando como hera. "Cuide dos seus negócios", disse ele. "Vou manter as crianças ocupadas."

"Obrigada", disse ela. "Tenho certeza de que elas já cansaram meus pais." Genku recolheu os pratos e saiu, fechando a porta de correr com um pé.

O gigante sentou-se desconfortavelmente. Os carrilhões de vento soavam e tilintavam. No canto da sala mais próximo a ele, o fogão a carvão de cerâmica ainda fumegava. Mas quando Nashi olhava para ele, seu coração batia rápido demais e seus dedos se enterravam na madeira, então observava Tamiyo observando Ajani. Os sigilos violetas na testa dela estavam enrolados em espiral de preocupação.

Quando os passos de Genku desapareceram, ela falou. "Você foi a Theros procurar por Elspeth. Você a encontrou?"

"Sim." Ajani parecia que diria mais, mas depois não disse. Em vez disso, olhou ao redor da sala e apontou para uma pilha de bagagem com um diário grosso no topo. "Vim em um mau momento? Parece que você está se preparando para uma jornada."

"Você conhece o plano de Innistrad?", perguntou ela. O gigante balançou a cabeça. "Passei alguns meses lá no ano passado, estudando a lua. É fascinante. Toda a magia do plano se curva em direção a ela, é moldada por seus ciclos. Até mesmo muitas das criaturas nativas..." Ela parou e mexeu no punho da manga. "A última vez que verifiquei com Jenrik — um local com quem trabalho — ele relatou observações anômalas. Mudanças nos padrões de mana, no curso das marés. Gostaria de observar os efeitos na vida nativa."

"Entendo." Ele apoiou suas mãos maciças na mesa e ficou olhando para elas.

"Ajani", disse ela, "se você não fala comigo, por que veio?"

O gigante respirou lentamente, pesos imensos movendo-se por trás de seu rosto. "Eu... eu não vi Nashi da última vez que visitei. Ele não é como seus irmãos."

Tamiyo suspirou, do jeito que fazia quando ela e Genku estavam discutindo e ele tentava deixá-la com seus livros. "Nashi é um nezumi. Um dos ratos dos pântanos."

Nashi se contorceu no teto, querendo ouvir, temendo escutar.

Tamiyo disse: "Alguns anos atrás, a vila dele foi queimada por Planeswalkers."

O fôlego parou em sua garganta.

"Queimada? Mas por quê?"

O fogão a carvão respirava ao lado do gigante, monstruosamente.

"Não sei. Não precisamente. Foi a mando de um criminoso planeswalker chamado Tezzeret. Ele queria que eles dobrassem seus pescoços. Que servissem ao consórcio dele."

O carvão incandescente cuspia luz vermelho-dourada pelo chão, dançando e queimando e comendo e crescendo e escurecendo tudo o que não era ele. Ele coçou o lugar em seu lado onde o pelo crescia em falhas. Onde a pele permanecia vermelha e irregular.

Tinha que ir embora.

"Tezzeret? Já ouvi falar deste homem. Elspeth... ela o conheceu em Mirrodin."

Tinha que ir embora agora.

Fechou os olhos. Empurrou-se para longe do buraco de nó. Arrastou-se para trás no escuro. Rolou de lado, certo de que o martelar de seu coração no teto seria ouvido. Bum, bum, bum, bum—

"Ele trabalhou com os inimigos dela. Isso foi... dois anos atrás?"

Noite e estrelas. Calor e dor em ondas rolantes. O telhado está pegando fogo! Pegue o menino! Saia!

As cabanas estão em chamas. Tudo está quente e brilhante, um amarelo como vômito. Mamãe o ergue. Corre. Onde está o papai? Pare, onde está o papai? Não posso deixar o papai!

Um estrondo. Mamãe para bruscamente. Ele espia por cima dos braços dela. As cabanas desabaram. O caminho para fora está bloqueado. Há fogo atrás deles. Ele se ergue sobre duas pernas, urrando para as estrelas. Telhados explodem em chamas conforme ele avança pela viela, deixando rastros de faíscas.

Elemental do Fogo | Arte de Slawomir Maniak

"Dois anos? Impossível, Ajani. Tezzeret morreu... três anos atrás, eu acho? Traído por seus camaradas. A vila de Nashi, aqueles que sobreviveram, eles o mataram. Um dragão barganhou pelo cadáver."

"... um dragão?"

Você vai correr e não olhar para trás. O pelo da mamãe fumega em volta das palavras. Não importa o que você ouça, você corre.

Ela envolve os braços ao redor dele e salta através das chamas. Empurra-o para frente. Cambaleia. Vá! Corra!

Ele corre. Sua pele racha a cada passo doloroso. Ele quer se deitar, cavar na terra. A lama é fresca. Ficará tudo bem se ele puder se enterrar.

Um grito. Ele olha para trás—

Mamãe está pegando fogo, mantida no alto por um homem de chama viva. Ela está gritando, contorcendo-se no ar—

Ela cheira a carne queimada.

Ele soluçou. Apenas uma vez. Não conseguiu evitar.

A conversa silenciou. Colocou as mãos sobre os olhos e encolheu-se sobre si mesmo, estremecendo no segredo escuro.

Um farfalhar de seda abaixo. A voz quieta de Tamiyo, logo do lado de fora de seu esconderijo; "Por favor, saia, Nashi." Ela empurrou um painel do teto ladrilhado, abrindo um espaço para ele.

Deveria correr. Se esconder. Ir para o menor e mais distante canto dos túneis até não ser mais o menor e o mais lento, e ninguém o fizesse ser o pegador no esconde-esconde, e ninguém risse, e ninguém cutucasse seu pelo em falhas e sua pele acidentada, e dissesse que ele era apenas uma aberração sarnenta.

A senhora moonfolk murmurou para dentro do túnel, uma voz só para ele. "Lembra o que eu lhe disse? Pode vir sentar comigo se quiser."

Ele caiu nos braços dela e enterrou o rosto contra o seu peito. O mundo balançou enquanto ela se movia e sentava, acomodando-o em seu colo. Braços quentes envolveram-no. Ele mordeu o lábio e tentou ficar parado. O gigante estava lá fora. Ele era alto e forte e tinha dentes grandes e provavelmente nunca tivera que—

Ela aninhou o queixo sobre a cabeça dele e começou a balançá-lo. "Está tudo bem deixar sair agora. Eu tenho você."

As lágrimas vieram quentes e rápidas, e não paravam.

"Ações têm consequências", Tamiyo disse a Ajani. "Às vezes pessoas como nós... esquecem quão grandes são nossos pés."

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Um pássaro-alfaiate mecânico, uma simulação fantástica de vida, desceu sobre a fumaça gordurosa de um carrinho de comida. Seu núcleo era de madeira musgosa, pontilhado de flores; a armação de metal ouro-branco; as asas de seda tingida com cores vibrantes. Ele esvoaçou, estendeu pernas de latão astutas e pousou delicadamente no ombro largo de Ajani.

Ele olhou para a pequena criatura redonda intrigado enquanto ela piava para ele em ritmos regulares e em staccato, como o pássaro de latão da Vovó fazia. "Isso é... fala?"

"Hm?" Os olhos de luar de Shadowblayde voltaram-se para ele, suas bochechas estufadas com aves assadas. "MM! MMF!" ela apontou para o pássaro com seu palito de espetinho limpo e engoliu parte do que estava mastigando. "Mihir!", disse ela em torno do resto. Engoliu novamente com esforço, bateu no peito e jogou o palito em um balde com outros vazios perto do carrinho onde o comprara.

Embora "comprara" pudesse estar forçando a definição da palavra. O dono do carrinho, um elfo venerável e inescrutável, observara com um brilho nos olhos enquanto uma das aranhas mecânicas de Shadowblayde pescava uma moeda da bolsa de um inspetor do Consulado que passava, e a depositava em sua mão com uma reverência rígida e tiquetaqueante.

Estavam nas bordas de Kujar, em um mercado movimentado que o dividia de um bairro menos atraente. Um lugar, Shadowblayde disse, onde as pessoas vinham para se misturar com a plebe ou para socializar com a elite, dependendo de qual lado entravam. Ela parecia infinitamente fascinada pelas multidões que passavam, apontando pessoas que conhecia e contando-lhe cem histórias encantadoras e esquecíveis sobre a história da rua.

Ele tinha uma dor de cabeça latejante. O dispositivo musical instalado no lado oposto da praça estivera apitando e fazendo ruídos loucamente desde que chegaram, suas luzes lançando cores berrantes pelo paralelepípedo. As notas altas agudas e o baixo que fazia o estômago vibrar machucavam seus ouvidos.

Pan-harmônico | Arte de Volkan Baga

"É um dos pássaros do Mihir. Os códigos que todos criamos juntos. Brilhante, não?" Shadowblayde sorriu, dentes brancos contra sua pele escura. "Pashiri foi avistada há vinte minutos. O Dhund."

"Bom", disse ele, tentando não gritar sobre a barulheira. "O que é o Dhund?"

"Você conhece o mercado noturno de Gonti?"

Ele assentiu. Um segredo aberto; um mercado ilegal extenso, funcionando na carcaça de uma antiga usina de energia — uma relíquia do tempo antes do éter. Invenções de segurança questionável e moralidade duvidosa podiam ser obtidas ali, pelo preço certo ou pelos favores adequados.

"O Dhund é um quartel-general que os Cônsules construíram sob e através do mercado de Gonti. Um labirinto de túneis e salas remendados. Dutos e esgotos e coisas do tipo. Eles operam seus espiões lá fora e mantêm prisioneiros importantes lá. Tudo terrivelmente secreto, entende", ela piscou.

Uma guilda de lei operando em esgotos, escondida sob os pés de cidadãos desrespeitáveis. Tudo neste mundo estava de cabeça para baixo. Ele olhou para o pôr do sol. "Eu sei como chegar ao mercado noturno daqui. Como posso encontrar um caminho para o Dhund?"

Shadowblayde pareceu ofendida. "Eu te mostro uma porta. Conhecemos algumas delas. Não será um problema."

Ele balançou a cabeça. "Você não vem."

A boca dela desabou em uma linha reta, sobrancelhas caindo. "Você não vai —!"

"Lâminassombreada", ele interrompeu, "isso foi uma armadilha armada para a Vovó. Será mais difícil sair do que entrar. Ajuda do lado de fora será necessária. Consegue encontrar um meio de escape para nós? Algo rápido. Secreto."

Ela inspirou bruscamente, olhos dardejando sobre os tijolos da parede próxima, sem realmente vê-los. "Thopter", disse ela, olhando para cima. "Os do Consulado são todos produzidos em massa. Mesmas forças, mas as mesmas fraquezas. A Renegada Primordial me mostrou como roubar um."

Ele a observou criticamente. "Ela ensinou você a pilotar um?"

"Digamos que quase?"

"Quase servirá."

"Aqui", disse ela, e tocou no pássaro mecânico em seu ombro. Ela assobiou e gorjeou uma longa série de notas que soavam como dois pássaros discutindo. Ele bateu as asas e retribuiu um pio alegre. "Ele é seu agora. Quando você estiver perto de uma entrada do Dhund, ele voará para ela."

"Obrigado." Ele virou-se para partir, mas a mão dela pousou em seu ombro.

"Você é amigo da Sra. Pashiri. Ela não lhe contaria nossas palavras de código se não fosse. Agora você está entrando nas mandíbulas dos Cônsules por ela." Ela empinou o queixo e colocou um punho no quadril. "Digo que você é um renegado agora. Quem disser o contrário tem que me enfrentar na ourivesaria rápida. Mas você nunca me disse seu codinome. Terrivelmente indelicado, se me perguntar." Ela cruzou os braços sobre o peito e bateu o pé zangada.

Ele piscou para ela, sem saber o que dizer. "Eu não tenho... alguns me chamaram de 'Gato Branco'?"

Shadowblayde lançou-lhe um olhar crítico. "Isso não é nem um pouco arrojado. Por que o chamaram assim?"

Ele parou. A ideia era tola. Mas a elfa o ajudara, confiara nele e nunca pedira nada em troca.

Ele puxou o capuz para trás.

Seus olhos de luar ficaram largos como pires. Ele podia ver cada traço seu refletido neles; o pelo branco, o olho azul e o perdido, os bigodes e o nariz largo.

Então ela sorriu. "Uma pena manter um rosto tão nobre escondido."

Curvou-se para ela; não como faziam em Kaladesh, mas como faziam na Naya de sua juventude. Essas pessoas eram gentis, mas tão estranhas. "Eu me coloco em suas mãos, Lâminassombreada." Puxou o capuz de volta sobre a cabeça.

"Vatti."

Ele voltou-se para ela. "Perdão?"

Ela deu-lhe um sorriso torto. "Esse é meu nome mundano. Vatti. Você me deu um segredo. Apenas justo. Agora mantenha esse pássaro inteiro. Mihir estará esperando ele de volta e eu não gostaria de ficar devendo a ele." Ela virou-se e subiu correndo por um cano de escoamento.

Ele virou-se e inspecionou a parede mais próxima, flexionando as mãos dentro das manoplas de latão.

Parapeito de janela. Tijolos soltos. Calha de chuva. Atravessando o tubo de éter azul opaco que ligava ao próximo prédio.

O caminho estava claro para seu olho, tão claro quanto uma samambaia quebrada, quanto uma pegada na margem do rio.

Ele arremessou-se para cima, saltando na ponta dos pés, dedos de metal firmes prendendo-se em frestas de tijolos, travando em torno de ferro forjado. O pássaro mecânico soltou um suave squark e agarrou seu ombro com mais força.

Correu pelo tubo de éter, a fumaça dos espetinhos do velho elfo girando e revolvendo-se à sua passagem.

Então houve vento.

Os aromas da cidade pressionavam seu nariz. Frescores de sombra e calores atingidos pelo dia piscavam sobre e além. Seu movimento tornou-se impensado, instintivo.

Ele desviou de uma chaminé — ou talvez uma árvore.

Os espaços pelos quais passava eram um borrão de latão e mármore branco. Ele não os conhecia. Não precisava.

Saltou sobre um beco — ou talvez um abismo.

Sabia como correr. O calor em suas pernas, a nitidez em seus pulmões, o sol em seus ombros — eram velhos amigos. Uma longa juventude correndo por planícies e através de selvas, rápido e silencioso como um relâmpago de calor.

Chocou-se contra as costas de um grande pássaro — ou talvez um thopter — e usou-o para saltar para um penhasco mais alto — ou talvez um telhado.

O pássaro mecânico soltou um curto e suave perp. Ele parou de correr, respirando fundo e compassadamente. "Onde?", perguntou ao exalar. Ele abriu asas de seda e esvoaçou para longe.

Haviam chegado à borda do mercado noturno, os cheiros da cidade minguando para graxa, éter, ferrugem e papéis há muito tempo ociosos em um porão. Além da fileira de prédios mais próxima, o rugido confuso e abafado de uma multidão ressoava.

O pássaro pousou em uma pilha de vigas lascadas e manchadas de óleo, virando a cabeça para um lado e para o outro. Ele fez perp novamente.

Atrás da madeira, uma porta. Estava selada com um dispositivo de trava, não muito diferente daquele no refúgio renegado.

Ele saltou para baixo, levantando uma nuvem de terra ressecada pelo sol. A criatura mecânica piou para ele — não como um pássaro, mas no código que usara antes. Esvoaçou diante da trava, asas minúsculas borradas e estalando, e usou seu bico fino para pressionar uma série de blocos em sua superfície. O zumbido fraco da carga de éter sumiu e a porta cedeu.

"Obrigado", murmurou para o pássaro. Ele piou novamente e saiu disparado.

Empurrou para dentro das sombras frescas.

Uma figura em carmesim deslizou para longe da parede, a luz do sol brilhando branca no gume de uma lâmina. "Onde pensa que—"

Dentro das manoplas, suas mãos cerraram-se como patas. Ele atingiu o guarda com as costas da mão contra a parede e estremeceu com o cheiro súbito de sangue. "Desculpe", murmurou para o corpo inconsciente.

Avançou mais fundo nos túneis iluminados de azul, longe do guarda, narinas dilatando-se. Puxou o capuz do manto da Vovó para trás e deixou suas orelhas girarem de um lado para o outro, ouvindo passos.

O Dhund estava cheio de cheiros desagradáveis. Suor velho e pesado, urina enjoativa, pessoas demais confinadas em um espaço pequeno demais. Cheirava a desespero e aos desaparecidos. A dentes no escuro.

Ali. Fracamente, de um túnel à esquerda. Frutas de verão, rosas, jacinto e mel.

Atravessou os túneis, perseguindo o aroma da sala de estar ensolarada dela, esquivando-se de bolsões de passos e murmúrios.

Um espaço aberto adiante. A luz branco-azulada do sol da tarde.

Parou suavemente, ouvindo, saboreando o ar. Murmúrios, dobrados e estilhaçados por ecos demais para serem compreendidos. O lamento profundo de metal e um chiado desconhecido. Botas sobre pedra. Batidas abafadas.

Moveu-se cautelosamente.

A sala era feita de círculos. Anéis de latão estendiam-se do chão ao teto abobadado, conectados por arcos amplos de passarelas. Janelas ovais logo abaixo do beiral deixavam entrar luz do alto.

A sala cheirava a Vovó, mas ela não estava lá.

Perto do centro da sala, dois guardas em carmesim e ouro ignoravam escrupulosamente algum tipo de... caixa. Metal escuro e agachado, bufando e sussurrando desagradavelmente para si mesmo. Havia um cheiro que ele não reconhecia, uma doçura biliosa que cobria o fundo de sua língua. Podia ver uma porta em uma extremidade, com uma pequena janela inserida.

Um punho golpeou o vidro. Depois uma mão, fracamente.

Não conseguia ver os rostos daqui. Não precisava.

A mão deslizou para baixo.

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Cinco Meses Atrás

Haviam fechado a maioria das portas. As nuvens estavam imponentes e cinzas, uma pilha de algodão encharcado carregando o cheiro de chuva.

Ajani estendera suas posses no chão. Manto branco, armadura de bronze, sua arma enorme. Nashi observava tudo da porta enquanto o gigante enrolava cuidadosamente seu futon pela terceira vez. Todos os dias ele levava várias tentativas; suas mãos eram grandes demais, os movimentos ainda estranhos para ele. Ume e Hiro se ofereceram para ajudar. Rumi jogara as mãos para cima e correra para o jardim dos fundos. Ela estava dando cambalhotas pela névoa exatamente do jeito que Tamiyo dissera para não fazer, seu robe um amontoado ensopado, pérolas de água pingando de seu nariz e orelhas enquanto ela ria.

Tamiyo partira na semana passada, dizendo para cuidarem de Ajani enquanto ela observava a lua de outra pessoa.

Ainda assim o gigante ajoelhava-se, pacientemente dobrando, amarrando, enrolando.

"Pode entrar se quiser, Nashi", disse ele.

Deslizou pela sala, em direção ao machado do gigante. Era estranho, escuro em uma extremidade e claro na outra. Perguntou-se se isso significava algo.

Cautelosamente, pressionou um dedo contra o gume da lâmina brilhante. Parecia grosso. Inofensivo. O gigante olhou para cima.

"Não deveria ser mais afiado?", perguntou Nashi.

"Não precisa ser. Velocidade o faz cortar. Peso."

Pressionou com mais força.

"Cuidado. Não é completamente rombo." O gigante pegou o futon enrolado e o colocou no armário.

Sentou-se e olhou para o rosto esculpido na parte plana da lâmina, um rosto de gato com dentes à mostra e uma barba longa e fina. "Você vai embora, não vai?"

"Sim", disse ele.

"Para onde você vai?"

O gigante observou-o. "Encontrar o homem que matou sua família. Nossos amigos o encontraram em um lugar chamado Kaladesh. Alguém lhe deu dinheiro e segredos. Ele os usou para comprar seu caminho até o poder."

Nashi coçou seu lado, onde o pelo crescia engraçado. "Eu vi ele, sabe. Quando os xamãs mataram ele? Estávamos todos na floresta. Olhando."

O gigante suspirou. "Eles não deveriam ter feito você olhar."

Ele piscou. "Disseram que era impro-tante."

"Importante?" Ajani começou a prender as placas de sua armadura.

"É. Porque ele fez mal pra nós. Tínhamos que ver ser feito o certo. Era sobre honra, então tínhamos que ver. Foi o que disseram." O céu trovejou. Esfregou o nariz. "Ele tinha um braço estranho. Outro homem cortou fora. Quando aquele homem falava, não fazia sentido e minha cabeça doía."

O gigante ergueu sua arma e a deslizou nas tiras sobre suas costas. O gume da lâmina escura brilhou friamente.

"Você vai matar ele?", perguntou Nashi.

O vento soprou, fazendo os carrilhões do pórtico chacoalharem e estalarem. "Eu... não sei." O gigante olhou para o terraço, sua mão pousando no manto branco. O mundo todo cheirava a água suspensa, ansiando por cair. "Talvez esse seja o caminho certo, afinal. Existem muitos que não olham por onde andam."

Ajani pegou o manto branco com ambas as mãos. Havia manchas desbotadas nele, sem cor, rosadas como pétalas de flor de cerejeira. Levou-o ao rosto e respirou fundo.

Arte de Volta Creation

"Isso te deixa triste?", perguntou Nashi.

"O quê? Não." O gigante piscou e empertigou-se, limpando sob o olho com o polegar. "Isto pertenceu a uma amiga. Elspeth. É um lembrete dela."

"Onde ela está?"

"Ela está..." o gigante passou a mão pelo tecido. O olho dele era como o céu, Nashi notou. O azul ficara cinza, nublado. "... eu a perdi."

Ah. "Como perdi meus pais, você quer dizer."

O gigante fechou seu único e grande olho brilhante. "Sim."

Nashi engoliu em seco e olhou para as nuvens imponentes. "Ela morreu."

Um tremor percorreu o gigante. "Sim", disse ele, suavemente. Vidro quente desceu de sua cicatriz. "Elspeth morreu."

O céu trovejou. Rumi estava gritando algo no jardim dos fundos. Tentou lembrar o que os xamãs disseram quando mamãe e papai morreram, mas não conseguia lembrar de muita coisa. Tudo parecera como a névoa do jardim naquela época, entorpecido e frio e próximo. Observara o homem que o fizera tossindo sangue e limo, e não sentira nada. Enjoado, talvez.

Não sentira nada por muito tempo. Bravo, às vezes. Como quando as pessoas diziam que ele tinha que chamá-las de mãe ou pai. Havia muita gente assim. Não se lembrava muito delas. Até que a senhora moonfolk viera da biblioteca, para pedir a história dele e contar a dela em troca. "Chame-me de Tamiyo", dissera ela. "Nada mais."

O vento girou as pétalas de flores no pórtico. Esticou o pé e prendeu uma sob o dedo. "Tamiyo diz que quando você perde alguém, é como se machucar. Quero dizer, como quando você cai e se machuca? Quando você esfola o joelho, tem que sangrar para melhorar. E ela disse que as lágrimas são como o seu coração sangra. Você tem que deixá-las sair para melhorar."

A mandíbula do gigante ondulou. "Tamiyo é sábia."

"Quando fico triste, ela senta comigo. Talvez eu possa sentar com você?"

"Acho que eu gostaria disso."

O gigante encolheu as pernas sob si na borda do pórtico, onde a biblioteca terminava e o céu começava. Deitou seu machado na madeira ao seu lado. Nashi sentou-se do outro lado, balançando os pés nas nuvens. O azul do céu quase desaparecera agora. A distância murmurava.

Apoiou a cabeça no ombro de Ajani. Os braços dele eram grandes como troncos de árvore. "Quer me contar sobre sua amiga?"

O gigante nada disse.

"Não precisa."

As nuvens de chuva brilharam e resmungaram. Ele abriu seus bigodes ao vento.

"Ela nasceu em um lugar de trevas", disse o gigante. "Nunca falava muito sobre isso. Uma terra devorada pelo mal, governada por criaturas monstruosas. Do tipo que não matam. Do tipo que tornam você um deles. Eles a feriram até que ela fizesse parte da maneira como feriam os outros. Ela resistiu, chorou e sonhou. Até o dia em que vieram buscá-la. Estava nas garras deles quando desejou estar longe."

"Ela conseguia caminhar por trás do ar", disse Nashi. "Como você e Tamiyo."

O gigante assentiu. "Ela acordou em uma terra diferente. Era mais brilhante, com um céu cheio de estrelas que corriam e giravam com cores. Mas ela era muito jovem, e aquele mundo... não é tão gentil quanto poderia ser com os diferentes. Ela caminhou, até chegar a um lugar onde o sol era ouro quente e as pessoas eram gentis. Deram-lhe pão, envolveram-na em cobertores e a seguraram até que os tremores passassem. Ficou lá por muitos anos. Ensinaram-na a se proteger, depois a proteger os outros e, então, a curar aqueles que não haviam sido protegidos."

Uma mão pálida pousou no outro braço do gigante. Hiroku entrara silenciosamente, como era seu jeito, e olhava para as nuvens que se acumulavam.

"Eu a conheci então, pela primeira vez, enquanto o mundo estava mudando. Ela salvou minha vida. Era o meu mundo também, de certa forma, e lutamos juntos para salvá-lo. Mas a terra que se tornara o lar dela estava marcada e doente pela batalha, e tudo o que ela conseguia ver era o que fora. Ela seguiu em frente, até ter esquecido a melhor versão de si mesma..."

O gigante calou-se, seu único olho buscando o horizonte. A distância desaparecera na névoa, cinza e sem forma. "Ela foi procurada. Por mim e por outros. Os monstros de sua infância haviam retornado. Haviam deixado seu próprio reino sombrio. Outro mundo estava sendo transformado, um lugar brilhante, limpo, fresco e belo. Ela foi para lutar contra eles."

Ajani parou. Olhou para o machado deitado ao seu lado na madeira. "Não consigo imaginar", disse ele, "enfrentar os pesadelos de sua infância. Vê-los com olhos adultos e saber que são reais, afinal. Reais e famintos. Ela caminhou para os dentes deles com o coração trêmulo e mãos firmes. Lutou até não haver nada mais para dar, nenhuma razão para lutar, pois tudo naquela terra brilhante fora manchado de preto. Os monstros venceram. E ela fugiu deles novamente."

A prima Ume ajoelhou-se graciosamente, em um farfalhar de seda, dobrando-se como um cisne de origami. Pousou uma mão no joelho do gigante, olhos lilases brilhando com estrelas empáticas.

"Retornou para a terra dos céus coloridos. Foi onde nos encontramos novamente. Naquela terra, ela se tornara uma heroína renomada e uma vilã infame, portadora de uma arma forjada por — por aqueles que se consideram superiores a nós." Uma sombra cruzou o supercílio do gigante, veio e se foi. "Algo acontecera. Algo quebrara dentro dela. Nunca falava sobre isso, mas dava para ver que a puxava pelos calcanhares. Caminhava como se contra o vento, ombros curvados, olhos nunca totalmente para frente.

"Aquela terra estava chegando ao fim. Por seus supostos mestres, viajamos até o fim do mundo e pisamos entre as estrelas. Lutamos contra um monstro e vencemos. E como agradecimento —" ele cerrou as mãos sobre os joelhos, as grandes garras pretas cravando-se. "Como agradecimento, outro monstro a abateu. Bem — bem na minha frente. E eu nada pude fazer. Nada."

Atrás deles, Rumi fungou. Estava lá com seu robe encharcado de jardim, parecendo envergonhada, mexendo em uma de suas orelhas. Balançava-se sobre as laterais dos pés, olhando para a porta e para a fuga. "Boba", sussurrou para si mesma, ou talvez ele tivesse imaginado, e abruptamente debruçou-se sobre os ombros largos do gigante, apertando o pescoço dele com força, enterrando o nariz em seu pelo pálido.

Ajani não olhou para cima, mas colocou uma de suas grandes mãos sobre as dela, pequenas e esguias. "Fui entre o povo", disse ele. "Contei a história dela, como a presenciei. Eles tinham que saber. Tinham que lembrar. Tinha que importar. Caminhei e falei, e não descansei até que as palavras tivessem criado raízes e estivessem crescendo por conta própria. Era importante. E significava... que eu não precisava pensar."

Estavam todos ao redor dele agora, ouvindo a história em silêncio. Prima Ume. Irmão mais velho Hiro, irmã mais velha Rumi. O céu brilhou e dividiu-se, rachou.

"Nas histórias que meu povo conta — as antigas, as que importam — a heroína perde seu mentor. Ela vive, sofre e segue em frente para salvar o mundo."

As nuvens resmungaram. Amuletos de chuva rodopiaram e dançaram em seus fios. Nashi não sabia o que Tamiyo diria, então nada disse. Às vezes Tamiyo nada dizia, e isso era o certo.

Finalmente, Ajani sussurrou: "Deveria ter sido eu. Não ela."

Suas mãos grandes tremiam. As garras afiadas e escondidas, os dentes longos, os braços como troncos de árvore.

"Minha heroína está morta", disse, rouco. "E tudo o que ela queria, tudo por que lutou tanto... era apenas um lar. A coisa mais simples. A menor."

Nashi colocou os braços em volta do gigante, mas não alcançava nem a metade. "Está tudo bem deixar sair", disse ele. "Todos nós temos você."

Os ombros de Ajani curvaram-se e estremeceram. Cobriu os olhos com uma mão.

A chuva começou a cair.

As crianças sentaram-se com ele, ao redor dele, uma floresta de mãos em seus ombros e braços e costas e joelhos. Nada dizendo. Apenas respirando.

Choveu por muito tempo.

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Um punho golpeou o vidro. Depois uma mão, fracamente.

Não conseguia ver os rostos daqui. Não precisava.

A mão deslizou para baixo.

Eles estavam matando elas.

Como

Fazendo isso lentamente.

Ousam

Deixando-as sofrer.

Eles

Ajani saltou sobre o corrimão, dentes à mostra.

O manto de presente da Vovó deslizou de seus ombros em pleno voo, revelando o branco por baixo.

Acionou controles dentro das mãos falsas. Elas se desencaixaram e caíram.

Deslizou pelo ar como um relâmpago de verão, brilhante e silencioso.

Era como se o machado nunca tivesse deixado suas patas.

Correu sobre as pontas dos pés, uma queda interminável para frente.

Em algum lugar atrás dele, as manoplas tilintaram no chão.

Um homem olhou para ele em horror. Cabelo escuro. Bigode fino. Olhos castanhos. Uma onda de medo fedorento e ensopado rolou dele.

Ajani golpeou em direção à garganta.

Às vezes pessoas como nós... esquecem quão grandes são nossos pés.

Magia antiga brotou, percorrendo sua espinha. Como acontecera com Tenoch, tantas luas atrás; em uma vida tão distante que agora parecia o conto de outro homem. Os olhos do guarda abriram-se, poços negros de medo, e Ajani saltou através deles, buscando a luz titânica que jazia além.

Por um instante interminável, ele segurou o palácio brilhante da alma do homem na palma da mão e tomou sua medida.

Uma juventude passada sentindo-se deslocado, vendo cinza onde outros viam cores brilhantes. Os suspiros de um pai desapontado; "Simplesmente não é um inventor, suponho." Uma vida de ficar em segundo plano para os outros, esperando algo acontecer. Amor por uma esposa com uma trança longa e dedos perpetuamente queimados por relâmpagos. Um bebê que solta gargalhadas quando ele faz caretas. Manhãs de folga, acordando com o sol, ele enche uma cozinha apertada com os cheiros de pão e especiarias.

Um floco de neve com um bilhão de facetas cintilantes. Aqui e ali, enterradas em fendas profundas de vergonha, havia formas retorcidas, sim, momentos sombrios... manchas que não sairiam com uma vida inteira de esfregação.

Mas muito menos do que na própria alma de Ajani.

Não um Planeswalker. Não um vilão.

Apenas um homem.

Ajani deslizou o pé, mudando o ângulo da queda da lâmina de seu machado.

Ele esmagou a placa peitoral do guarda, espalhando fragmentos de metal retorcido pelo chão de mármore. Ele tombou no chão, girando com a força do golpe.

Sincronismo Impecável | Arte de Chris Rallis

Sem sangue.

O outro guarda tropeçou para trás, dedos nervosos chacoalhando sua espada para fora da bainha. Girando, Ajani lançou-lhe um longo olhar de um olho só, deixando a lâmina escura de seu machado repousar sobre o mármore com um modesto clink.

O homem deixou cair a espada e correu para a porta. Ele soaria o alarme. Não havia muito tempo.

Ajani olhou para os controles do contêiner. Alavancas e botões, partes giratórias e luzes piscantes. Não fazia sentido para ele. Não importava.

Ele bateu a lâmina brilhante de seu machado na fresta entre a porta e o contêiner. Com um grunhido, inclinou-se sobre ele e pressionou. Suspiro a suspiro, passo a passo, braços e pernas rígidos e estremecendo com o esforço, ele abriu a máquina estridente.

A porta caiu das dobradiças com um estrondo reverberante, uma lufada de fumaça verde subindo em direção ao teto.

Uma elfa de olhos esmeralda estava sentada de pernas cruzadas diante dele, aninhando uma garota ruiva inconsciente em seu colo. "Sra. Pashiri?", perguntou ele.

A elfa assentiu por cima do ombro: "Lá." Ergueu a garota ruiva como se ela não pesasse nada e afastou-se para deixá-lo entrar. Seus olhos desviaram-se dos dele. "Eu... fiz o que pude."

Vovó jazia de olhos fechados e mal respirando. Mas sua expressão era pacífica, as mãos entrelaçadas sobre o estômago. Como em qualquer outra tarde em que ele a encontrara cochilando no sofá da sala. O restante de uma vida bem vivida.

Quando ele saiu da câmara com ela, a garota ruiva estava se agitando nos braços da elfa. Tossiu fracamente e piscou. "Nissa", coaxou ela. "Me põe no chão?"

Ele deitou a Sra. Pashiri cuidadosamente no chão de mármore, tranças prateadas espalhando-se ao redor dela. Pousou uma mão em seu estômago e fechou os olhos. Veneno salobro se assentara em seus pulmões e veias, coagulando o sangue, secando-o até virar cinzas. Ele enviou fios brilhantes de magia através dela, queimando o preto, enchendo seu sangue de ar limpo.

Suas pálpebras tremeram e ela tossiu. Ele a ajudou a sentar. "Você está bem?", disse ele, baixinho.

"Ajani", ela sorriu. Então semicerrou os olhos e fez sua melhor cara de desaprovação. "Você parece magro." Deu um tapinha na bochecha dele. "Tem comido direito?"

Ele ronronou no fundo da garganta, apesar de si mesmo. "Sim, Vovó."

"Inferno", a garota ruiva arquejou, e tossiu novamente, seco e cortante. Ele olhou para cima e viu-a agarrar-se ao braço da elfa conforme seus joelhos cediam, a tosse aumentando de intensidade até que ela estava dobrada quase ao meio. Uma gota de sangue tremeu na borda de seu lábio.

Nissa inspirou bruscamente ao ver aquilo e esfregou as costas dela. "Você deveria sentar", disse ela, seus olhos estranhos curvados de preocupação. "Por favor, Chandra."

"Só garganta seca", a garota ruiva raspou. "Fico bem em um—" Explodiu em tosse novamente, salpicando o chão de vermelho. "Oh. Isso não é bom..."

Ajani ergueu cuidadosamente a Sra. Pashiri. "Com licença", disse a ela, e voltou-se para as outras duas mulheres. "Segurem-na." A elfa assentiu e puxou Chandra para cima.

"Uau, gatinho grande", Chandra ofegou. Sua respiração cheirava a cobre quente. "Tem braços como o Gids."

Ele se perguntou o que eram gids. Pousou uma mão no ombro dela e fechou os olhos.

O trovão do coração dela era ensurdecedor. Forte, urgente. Não era de admirar que o veneno tivesse queimado seu sangue tão rapidamente. Gavinhas prateadas de magia curativa percorreram-na, limpando as impurezas, acalmando mil pequenas rupturas. Sua respiração silenciou e desacelerou.

Ele abriu os olhos. "Você precisará ir com calma por um tempo", disse ele. "Limpei o veneno, mas seus pulmões—"

"... vão ficar bem", disse ela, desvencilhando o ombro de sob a mão dele. Forçou um sorriso e limpou o sangue dos lábios com as costas da mão. "Valeu. Digo sério."

Nissa nada disse, mas assentiu para ele com uma gratidão frágil. Não retirara a mão das costas de Chandra.

Havia gritos ecoando pelo corredor. Os guardas estavam se reunindo.

"Você agora", disse ele à elfa, embora ela não parecesse muito afetada pelo veneno.

Mas ela balançou a cabeça, olhando em direção ao trovão de botas se aproximando. "Estou bem por enquanto. Você conhece um caminho para fora?"

O ar em seus ouvidos vibrou com a pulsação intermitente de asas de thopters se aproximando. No canto distante da sala, uma das janelas estilhaçou-se e caiu em uma cascata de carrilhão de vento de vidro quebrado. O pássaro-alfaiate de latão esvoaçou pela sala, fazendo perp urgentemente, e pousou em seu ombro. Nissa olhou para a criatura mecânica perplexa, talvez incerta se deveria julgá-la um milagre ou um horror.

"Temos transporte", Ajani disse a ela enquanto um rolo de corda deslizava da janela.

"Ajani, você ia simplesmente deixar estas aqui?" Vovó o repreendeu do outro lado da sala, curvando-se para pegar suas manoplas caídas. "Gan Ghaheer passou semanas nelas."

Ele... explicaria depois.

O guarda que ele atingira gemeu a seus pés e rolou sobre as mãos e os joelhos. Ele congelou ao ver as botas e, lenta e relutantemente, olhou para cima.

"Vá para casa, para sua família", Ajani disse-lhe.

O homem olhou para ele com terror e admiração. "Você não vai me matar?"

"Eu não mato", Ajani disse. "Não mais."

12 de Outubro de 2016 | Por Doug Beyer

Nesta Mesma Arena

Chandra e Nissa foram procurar a mãe de Chandra, Pia, usando os contatos de Kaladesh da Sra. Pashiri. Mas em vez de encontrar Pia, elas se viram presas em uma instalação prisional subterrânea do Consulado. Apenas a chegada oportuna do Planeswalker leonin, Ajani, salvou-as de terem que fazer uma escolha mortal. Liliana partiu sem os outros, preocupada com a presença de Tezzeret em Kaladesh, enquanto o restante das Sentinelas, Jace e Gideon, permanecem em Ravnica.

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RAVNICA

O carnarium estava lotado, barulhento e cheio de mentes. Artistas balançavam-se em longas correntes presas ao teto, dentes e espigões brilhando. Jace sentou-se em uma fileira do meio, fora do alcance dos acrobatas e engolidores de fogo, mas no centro do riso e do barulho.

Mestre de Cerimônias Rakdos | Arte de Jason Felix

O mago Izzet que se sentou ao seu lado usava uma manopla de mizzium que disparava arcos com listras de energia. Jace sentiu a preocupação por trás da aura elétrica de Ral Zarek. Abriu um ouvido mental para a mente do mago.

"O Pacto das Guildas é um—" foi o pensamento principal na mente de Ral, seguido por uma torrente visualmente chocante e coloridamente vulgar de frases.

Jace suspirou audivelmente.

Ral abafou uma risada. "Só testando se você realmente conseguia ler meus pensamentos."

"Teste bem-sucedido," pensou Jace. Ele encarava o palco, olhos nos artistas Rakdos. Apenas um membro regular da plateia, camuflado pelo barulho. "Poderíamos ter feito isso lá no Salão do Pacto das Guildas, sabe. A menos que você realmente quisesse assistir a um show ."

"Todos os seus visitantes oficiais lá são registrados e rastreados," pensou Ral. "Não é seguro."

Então Ral não estava ali como um membro preocupado da guilda Izzet. Ele queria falar com Jace como um Planeswalker. "O que é, então?"

"Uma caminhada entre planos irregular." A mente de Ral fez uma pausa, fosse para deixar aquilo ser absorvido ou para pensar em como formar o próximo pensamento. "Alguém caminhou para fora de Ravnica de uma maneira que foi... anômala. "

"O quê? Quem? Como você sabe disso?"

"Você viu as nuvens lá fora, Beleren. Não me faça fazer todo o trabalho."

" Projeto Vagalume?"

"Isso mesmo."

Jace franziu o cenho. "Achei que tivessem encerrado isso depois que sabotamos os resultados."

"Foi, oficialmente." Os pensamentos de Ral se enrolaram sobre si mesmos. Imagens de tempestades de raios criadas magicamente e mecanismos de sensores sensíveis nadaram por sua mente, junto com memórias de conjurar meias-verdades cuidadosas enquanto o hálito quente de Niv-Mizzet pesava sobre ele.

Jace não pôde deixar de inclinar os olhos para o lado, para ver a expressão de Ral. A preocupação marcava a testa do homem.

A mente de Ral continuou. "Os detectores ainda disparam quando alguém caminha entre os planos. Dou uma olhada nos resultados de vez em quando, mas na maior parte do tempo os mantenho escondidos de Niv-Mizzet e da maior parte da minha guilda. Entrei em contato quando vi a caminhada de Vraska."

Jace ficou profundamente descontente ao ouvir o nome da górgona.

"Ela deixou Ravnica," pensou Ral, "sem destino."

"Sem destino?"

"Ela não caminhou para um plano. Apenas de um."

"Isso não faz sentido."

"Exatamente."

"Uma falha nos detectores?"

Ral deu um aceno impaciente com a mão. "O experimento funcionou perfeitamente. O padrão da partida foi autêntico, mas o ponto final foi registrado como anômalo. Vraska não foi vista desde então. É como se ela tivesse caminhado para um vácuo."

Jace viu o padrão eletrostático na mente de Ral, a caminhada registrada que desaparecia em uma mancha distinta de lugar nenhum. Sentiu o quanto aquilo perturbava Ral. Nenhum outro achado em seu experimento mostrara aquele padrão.

Relâmpago Teleguiado | Arte de Slawomir Maniak

"Isso é fascinante," Jace pensou para ele. "Espere. Você está dizendo que ainda consegue ver quando eu deixo Ravnica?"

"Primeiro para Zendikar, depois para Innistrad, não foi?" Ral ainda observava os artistas, mas suas sobrancelhas elevadas eram todas para benefício de Jace. "Então, vai ficar muito tempo desta vez? Ou devemos esperar que você deixe Ravnica sem seu Pacto das Guildas de novo em breve?"

"Isso é... Uh... Ral, escute—"

Ral levantou-se para sair. "Enfim, achei que você gostaria de saber. Vraska não gostava nem um pouco de você, da última vez que ouvi falar."

"Eu—Obrigado. Ral, espere."

Jace atrapalhou-se passando por membros irritados da plateia, seguindo Ral enquanto ele saía do teatro. "Ral..." Ele seguiu o mago Izzet até a rua e o alcançou.

"Pare de se preocupar", disse Ral, gesticulando com sua manopla. "Não vou entregar todos os seus segredos. Apenas lembre-se de que existem aqueles que adorariam estar na posição em que você se meteu por acaso. Talvez considere fazer um pouco de esforço enquanto ainda está aqui, está bem?"

"Eu farei", disse Jace. Ele pensou então em Lavinia, que estava convencida de que Jace ainda estava em seu escritório agora, debruçado sobre um maço de papéis, cumprindo obedientemente o trabalho árduo de manter o delicado equilíbrio entre as guildas. Ou talvez ela já tivesse descoberto a ilusão estudiosa que ele deixara para trás e estivesse no meio de gritar "PAAAAAC-TO DAS GUIIIIIL-DAS!" para o teto daquele jeito que ela fazia.

Um dedo tocou o ombro de Jace. Jace virou-se, e Liliana estava diante deles, com um leve perfume de outro mundo sobre ela.

Ela olhou rapidamente para Ral e olhou para Jace, sombria como o túmulo. "Você. Kaladesh. Vamos lá."

Ral cruzou os braços e ergueu aquelas sobrancelhas de julgamento o mais alto que pôde.

Jace rangeu os dentes e disse em um resmungo baixo, "Esta não é uma boa hora."

Arte de Dave Kendall

"Não me importa", disse Liliana. "Isso tem precedência." Ela manteve os ombros para trás imperiosamente, mas Jace notou que ela mudava o peso de um pé para o outro. Suas provocações habituais e levemente cruéis haviam sido substituídas por exigências curtas.

"Você encontrou a Chandra?"

"Encontrei outra pessoa", disse ela. "Tezzeret. Vivo e bem."

Jace subitamente viu-se incapaz de engolir a saliva e teve um acesso de tosse.

Liliana lançou olhares para o céu, para os paralelepípedos e para as rodas da carroça de um vendedor que passava, olhando para todo lugar menos diretamente para o rosto de Jace. Falou em tons baixos. "Eu sei. Estou tão descontente em pedir a você quanto você está. Se eu tivesse qualquer outra escolha — olhe. Venha para Kaladesh. Traga os músculos."

Antes que Jace pudesse responder, a forma dela começou a tremeluzir. Não era do feitio dela caminhar entre os planos no meio da rua, na frente de alguém que não conhecia. Quando ela se foi, Jace e Ral olharam um para o outro. Jace teve dificuldade em encontrar as palavras.

"Deixe-me adivinhar, Pacto das Guildas", disse Ral. "Você..." Jace deu de ombros levemente, as mãos espalmadas em total falta de desculpa. "... tem que ir embora." A cabeça de Jace afundou levemente nos ombros.

Ral lançou um olhar para Jace, balançou a cabeça bruscamente e foi embora. O cérebro de Jace conjurou uma série de explicações possíveis, mas nenhuma delas parecia adequada. Em vez disso, recompôs-se, respirou fundo e desviou-se por um beco para buscar Gideon.

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KALADESH

Nissa procurava pelas autoridades. Parecia que estavam seguras no momento, ela e Chandra, paradas sob uma ponte com a Sra. Pashiri e o homem-gato alto. Nenhum soldado do Consulado, nenhum agente de Dhund — apenas o zumbido da cidade ao redor delas. Um daqueles veículos enormes e pesados chacoalhou pela ponte acima delas, a luz do sol tremeluzindo pelas frestas nos trilhos. Nissa estremeceu com o emaranhado de luz e som, mas pelo menos estavam livres da armadilha de Baral.

"Foi algo muito bom o que você fez, Ajani." A Sra. Pashiri sorriu radiante, franzindo as bochechas, apoiando-se com um punhado do pelo do bíceps dele. "Obrigada."

"Você me deu um susto, Vovó", Ajani trovejou gentilmente.

"Obrigada, Ajani", disse Nissa. Ela não vira outros como ele em Kaladesh e imaginava como formular a pergunta delicada. "Você está... aqui há muito tempo?"

"De onde eu venho, sou menos... incomum", disse Ajani, ajustando um manto ao redor de seus ombros consideráveis. "Estamos seguindo os movimentos de Tezzeret aqui há semanas."

Sra. Pashiri deu um tapinha na grande pata de Ajani. "Chandra está procurando por alguém também. Sua querida mãe, Pia. Levada pelos soldados de Tezzeret."

Nissa olhou para Chandra com preocupação furtiva. A piromante andava de um lado para o outro como um cavalo de exibição ansioso, chutando os padrões de mosaico da rua.

"Vou levar a Vovó Pashiri para um local seguro", disse Ajani. "E então acho que deveríamos nos espalhar, ampliar nossa busca pela cidade."

"Bom", disse Nissa. "Com todos trabalhando juntos, tenho certeza de que seremos capazes de ter alguma noção de para onde eles — para onde poderiam ter.... Chandra, o que foi?"

Chandra tornara-se um pilar de fogo. Ela estava estática, de frente para o lado oposto da rua. Seu cabelo estava em chamas. Eles seguiram seus olhos para cima, para cima pelas laterais das torres.

Estandartes se desenrolaram, descendo pelas espirais através de algum tipo de mecanismo de desenrolamento. Eram enormes e idênticos, impressos em tamanho maior que o real, imagens desenhadas em linhas exageradas. Um Juiz Chefe Tezzeret estilizado erguia-se alto, cercado por linhas de luz. Letras enormes faziam um arco sobre sua cabeça: "INVENTORES! VENHAM TESTEMUNHAR O CONFRONTO DO SÉCULO."

Carrancuda em um canto do estandarte, cercada por linhas denteadas feias, estava uma caricatura de Pia Nalaar.

As letras na parte inferior gritavam: "O JUIZ CHEFE TEZZERET ENFRENTARÁ A CRIMINOSA RENEGADA PIA NALAAR. A BATALHA DEFINITIVA DE ENGENHOSIDADE. A GRANDE EXPOSIÇÃO."

Finalmente dizia: "AMANHÃ AO MEIO-DIA!"

"Chandra", disse Nissa suavemente.

"Ele está me chamando para o confronto", disse Chandra. "Eu tenho que enfrentá-lo."

"Ele está. Mas acabamos de sair de uma armadilha..."

"Minha mãe está viva. É tudo o que importa."

Nissa olhou de um lado para o outro entre a Sra. Pashiri e Ajani.

Ajani assentiu. "É tudo o que importa. Mas nós quatro não seremos suficientes para..."

Três soldados armados em uniformes do Consulado atravessavam a rua em direção a eles. Um deles apontou diretamente para Nissa: "São elas — ali!"

Nissa instintivamente estendeu a mão para sentir as raízes vivas sob a estrada, preparando-se para alimentar seu crescimento para emaranhar as pernas dos soldados. Perguntou-se, com um olhar para cima, se conseguiria derrubar toda esta ponte para cobrir uma fuga. Ajani rosnou e alcançou o cabo do enorme machado duplo em suas costas. Chandra já estava em chamas, mas seus dedos se curvaram enquanto ela os enfrentava, preparando pequenos cometas de fogo. Até a Sra. Pashiri agiu — produziu um pequeno autômato, que girou um conjunto de rodas interconectadas e ganhou vida.

Mas enquanto os soldados se aproximavam, suas formas flutuavam e suas silhuetas oscilavam. Seus próprios corpos pareciam escorrer em riachos como aquarelas, revelando algo mais na tela por baixo. Conforme a distorção clareava, seus rostos tornaram-se familiares: Jace, Liliana e Gideon.

"Parece que este é um assunto para as Sentinelas", disse Jace.

Nissa abandonou seu feitiço e limpou a mão no rosto. "Os disfarces de vocês funcionam um pouco bem demais. Estávamos prestes a ferir vocês seriamente."

"Apenas tentando nos misturar", disse Jace. "Ouvimos dizer que Tezzeret está aqui?"

"Ele está aqui e está com a mãe da Chandra", disse Ajani.

"O que um leonin está fazendo com você?", Liliana perguntou, avaliando Ajani.

"O que é uma Sentinelas?", Ajani perguntou, olhando para baixo para ela.

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Ao contrário das centenas e centenas de thopters patrulhando a cidade, um thopter em particular pairava no ar.

Era idêntico aos outros centenas e centenas, com seus rotores zumbindo e sua lente girando dentro de sua córnea de vidro. Este, porém, mantinha-se no ar, tendo pausado sua rota. Apontou sua lente para baixo para vários humanoides na rua abaixo, e um minúsculo obturador de latão estalou rapidamente. Uma série de engrenagens e prismas internos pressionou as imagens de luz refletida em éter cristalizado, congelado em pequenas placas de cobre fixadas a um tambor dentro do chassi do thopter.

Satisfeito, o thopter em particular inclinou seus estabilizadores, acelerou seus rotores auxiliares e ganhou altitude.

O thopter zumbiu passando pelos telhados e continuou, contornando um V de garças migratórias. Angulou abas para evitar o padrão de voo de um dragão excessivamente curioso e voou até apontar para uma forma escura no céu. Uma pequena porta redonda abriu-se na enorme carenagem de madeira da aeronave Soberano dos Céus. O Soberano dos Céus aceitou o thopter e o engoliu inteiro, e a abertura fechou-se suavemente atrás dele.

O thopter pousou de barriga sobre um conjunto de garras mecânicas presas a uma correia transportadora, e os rotores pararam de zumbir. As garras embalaram o thopter enquanto a correia os carregava por um duto mecânico sem luz no abdômen do Soberano dos Céus. As garras soltaram-se subitamente, deixando o thopter rolar para a luz, e ele percorreu uma correia mais rápida através da baia de reconhecimento do Soberano dos Céus. Seguiu ali, caindo de uma correia para outra até encaixar-se em um carrossel de metal ornamentado. O carrossel girou, entregando o thopter em mãos humanas.

O Cônsul Kambal colocou o thopter sobre uma mesa. Abriu a tampa de uma ferramenta, girou a ferramenta na barriga do thopter e abriu um painel. Removeu o tambor de imagens e segurou as placas contra a luz. Com cada placa, murmurava para si mesmo. Selecionou uma em particular, uma que mostrava o alvo, Nalaar, filha da Renegada Primordial. Ela e seus compatriotas haviam visto os estandartes.

"Onde está o mensageiro?", Kambal disparou.

Uma jovem apareceu, com as mãos ao lado do uniforme. "Mensagem, senhor?"

"Alerte o Inspetor Baan. A isca está armada. Preparem o confisco."

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Pia olhou para os elos em seus pulsos e pensou em sua filha. Algemas como joias mordiam a pele de Pia assim como haviam mordido a de Chandra, exatamente como naquele dia em que Chandra tinha onze anos. Pia encostou o ombro na parede à qual estava fixada, em um dos túneis de serviço atrás da arena. "Bastidores."

Deve ter sido exatamente assim para ela , pensou. A espera. A humilhação ardente crescendo. Exatamente como naquele dia, um homem sorriria para a multidão, preparando um braço metálico para um espetáculo de violência. Esta era até a mesma arena, o que Pia imaginava ser um insulto especial apenas para ela. Este era o lugar onde Chandra procurara por sua mãe nas arquibancadas antes de ser arrancada do mundo.

A maior esperança de Pia era que ela também não visse Chandra nas arquibancadas hoje. Apenas fique longe, querida filha, pensou ela. Fique segura. Fique viva. Os estandartes alegavam que esta seria uma exposição de ourivesaria rápida — um duelo de inventores usando materiais improvisados, entre o Juiz Chefe e a infame Renegada Primordial. Mas ela sabia como as mentiras funcionavam. Tezzeret não a exibiria apenas para a Feira dos Inventores. Ela era isca.

Ela conseguia ouvir o alto-falante filtrar-se pelas paredes vindo da arena lá fora. Um locutor proclamava que Rashmi ganhara o prêmio principal na Feira, sob uma explosão de vivas. A voz do Juiz Chefe era um estalido de exibicionismo enquanto ele descrevia todos os benefícios do privilégio de trabalhar ao seu lado. Mais vivas, embora os sons fossem sem alegria e abafados pelos corredores.

Um oficial chegou com o tilintar de dois conjuntos de chaves. Pia não olhou para cima até o homem falar, porque reconheceu sua voz — cheia de aspereza e malícia.

"Pronta para fazer a sua parte, Nalaar?", disse Baral, retirando sua máscara. As cicatrizes de queimadura pálidas em um lado de seu rosto puxavam seu sorriso, tornando visíveis seus dentes posteriores de um lado.

Pia debateu-se contra seus grilhões, mas acalmou-se. Uma onda de repulsa a percorreu, mas ela ergueu o queixo e olhou além dele. "Qualquer que seja a obsessão que você tenha com minha família", disse ela, "qualquer fragmento doente de seu cérebro que lhe diga que nos punir pode de alguma forma torná-lo digno — não importa. Porque nada do que você faça poderá jamais feri-la."

"Oh, mas é claro que você deve não ter ouvido", Baral a repreendeu. "Elas vieram procurar por você. No lugar inteiramente errado, infelizmente. Uma tentativa de resgate de filha que infelizmente deu errado."

Ela lançou-lhe um olhar de horror, mas lembrou-se de que o dele era um rosto de mentiroso. Encarou de volta para a arena e disse as palavras entre os dentes, uma de cada vez. "Se você tocou em um fio.. ."

"Teremos que ver, não teremos?", perguntou Baral. "Será que ela estará aqui? Quando Tezzeret humilhar você lá fora, será que ela virá por você?"

Apenas fique longe, filha, pensou ela. Por favor, faça o que sua mãe diz, desta vez.

"Está na hora, Renegada Primordial", disse ele. "Se puder vir comigo?"

Ele pegou as algemas dela e puxou, mas ela arrancou os pulsos e caminhou com suas próprias forças.

Eles pararam em um curto lance de degraus que levava ao brilho da arena iluminada pelo meio-dia. Guardas do Consulado escoltavam a elfa Rashmi e vários outros inventores escada abaixo, passando por eles. Estavam absortos em discursos ofegantes. A excitação flutuava com eles como perfume, ao ponto de nem sequer notarem Baral removendo os elos dos grilhões de Pia, nem os guardas gentilmente separando-os de suas invenções premiadas enquanto passavam.

"E agora, amigos e cidadãos", sussurrou o locutor. "Pedimos que permaneçam em seus assentos para o ato final da exposição de hoje. A partida de ourivesaria rápida que certamente será o comentário da Feira. Anunciando o primeiro competidor, seu honrado diretor da Feira, Juiz Chefe Tezzeret!"

Pia nem ouvia as vivas agora — sua mente corria. Através da porta, ela examinou as arquibancadas. Não conseguia ver renegados na multidão, nenhuma Chandra, nenhum sinal de qualquer pessoa que conhecesse. As pessoas de Tezzeret devem ter mantido uma segurança rigorosa nos ingressantes, eliminando todos os seus aliados — talvez ela não fosse isca, afinal. Sua única esperança era ser o mais divertida possível, conquistar a multidão — fazer o que pudesse para ficar fora de celas e algemas.

"Tão feliz por poder estar aqui para vê-la partir", disse Baral, com os dentes posteriores à mostra. "Eu nunca perderia a chance de dizer adeus."

O que aquilo significava? Uma sensação fria girou em seu estômago.

O locutor a chamava ao chão. "E agora, amigos e cidadãos, sua oponente", a voz trovejou. "Ela é a criminosa do éter condenada que falhou em destruir a sua Feira dos Inventores... Pia Nalaar!"

Baral cutucou suas costas com uma lâmina e ela avançou sob um coro de vaias e apupos. Caminhou até sua marca, encarando Tezzeret. Ele estava do outro lado da arena, sem se dar ao trabalho de incitar a multidão. À frente dela estava um contêiner coberto por um pano bordado. Um contêiner idêntico estava diante de Tezzeret.

A voz do locutor começou como um sussurro e subiu a um tom maníaco. "Agora, nesta arena histórica, chegamos ao desafio final. Agora decidimos quem será o maior destes dois famosos inventores. Mantenham seus olhos nesta partida, cidadãos de Ghirapur, pois ela verdadeiramente definirá o futuro de nossa cidade e de nosso mundo. Que o confronto... comece!"

Confronto Fatídico | Arte de Chris Rallis

Pia arrancou a cobertura do contêiner e rapidamente avaliou seu conteúdo. Uma variedade de engrenagens e placas de metal. Alguns pedaços de vidro soprado. Uma linha básica de combustível de éter. Algumas ferramentas rudimentares. Não muito com que trabalhar. Não muito que emocionaria uma multidão.

Ela olhou para cima. Tezzeret já estava vasculhando suas peças. Ele já tinha algo com pernas meio construído. Tão rápido!

Ela meteu as mãos no contêiner de suprimentos e, ao toque das peças de metal, suas intuições de inventora ganharam vida. Jogou com suas forças, encaixando, ajustando e soldando. Deixou que os componentes lhe dissessem o que queriam ser, como em seus antigos dias de invenção... e um design básico de quatro asas começou a emergir. Deu-lhe um chassi leve para velocidade e um ferrão no nariz. Se ao menos Kiran estivesse aqui, ele poderia trazer alguma manobrabilidade adicional, talvez para agradar um pouco a multidão...

Foco. Apenas faça-o voar.

Ela conectou a linha de éter no conjunto do pinhão e o thopter ganhou vida, sob um "Ohhh!" audível da multidão. Enviou-o zumbindo em direção a Tezzeret, esperando distraí-lo enquanto trabalhava em seu próximo projeto.

Tezzeret já havia construído algum tipo de rastejante prateado. Ele se desenrolou, erguendo-se mais alto que ele, exibindo uma parte inferior de pinças e pernas afiadas. A multidão aplaudiu furiosamente. Como ele fez aquilo a partir das peças fornecidas? Ele sequer está tentando não trapacear? O thopter orbitava Tezzeret, cortando ao redor de sua cabeça com o ferrão. Ele o afastou sem esforço enquanto enviava o rastejante em direção a ela.

Arte de Izzy

Ela fabricou rapidamente um servo rudimentar, soldando suas placas no lugar mesmo enquanto ele se afastava em direção ao rastejante. O rastejante avançou e despedaçou o servo, rasgando-o. Mas Pia havia embutido uma surpresa — um pequeno detonador. O servo estourou em uma pequena esfera de fumaça e pedaços, e arrancou as pernas do rastejante. Uma enorme reação da multidão. Talvez eu possa fazer mais do que adiar o inevitável. Talvez eu possa vencer.

Pia saltou para frente para recuperar peças do rastejante de Tezzeret. Com certeza, ele estava cheio de peças às quais ela não tinha acesso — e até metais que Pia não conseguia identificar. Ela rasgou seu chassi e começou a colhê-lo para outra criação, esperando que seu thopter continuasse a distrair seu oponente.

Batalhou, dobrando componentes para criar designs radicais novos. Mas não importava quão inteligentes fossem seus dispositivos, Tezzeret retribuía com algo impossivelmente mais rápido, mais forte, mais durável. Ela tinha certeza de que o estava superando na engenharia, no entanto os dispositivos dele começaram a devorar os dela, consumindo seu suprimento de peças.

Ela virou-se para correr de volta ao seu contêiner, mas um membro de metal pontiagudo cravou-se no chão ao seu lado e ela caiu. Olhou para cima e viu um autômato recém-criado semelhante a um caranguejo, com seu thopter espetado em sua perna. O thopter bateu as asas fracamente e morreu.

Arte de Izzy

Ela olhou para Tezzeret. Ele caminhava em direção a ela, erguendo sua mão direita metálica. Bandas de metal curvavam-se de forma não natural à sua vontade, enrolando-se sobre si mesmas para se tornarem um pequeno esquadrão de outros autômatos de pernas afiadas. Eles se levantaram, um exército sem rosto e de ombros prateados, e começaram a cercá-la.

A multidão entoava o nome de Tezzeret, celebrando sua vitória.

"Você perdeu, Pia Nalaar", disse Tezzeret, alto o suficiente apenas para Pia ouvir. "E agora, no exato lugar onde sua filha enfrentou a justiça por seus crimes, eu aplicarei a justiça devida pelos seus."

Ergueu o braço e o exército de autômatos cromados marchou em direção a ela. O metal do peito do autômato mais próximo rearranjou-se, formando um membro cortante afiado. Tezzeret manteve o braço erguido, olhando para ela com um brilho nos olhos.

Ele não está apenas jogando para a multidão , pensou. Ele vai me matar .

Tezzeret golpeou para baixo com o braço e sua criação de metal atacou. Pia tentou rolar para fora do caminho, ou desviar o golpe inevitável...

O autômato amassou, depois deu um solavanco para o lado e caiu de lado, fumegando por uma ferida incandescente. A multidão arquejou, voltando-se para a origem. O raio de fogo saíra da plateia, originando-se de uma jovem mulher de cabelos de fogo e aparência furiosa.

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"Ainda não! "

"Quantas vezes já te disse, Jace?" Chandra pensou de volta. "Palavras. Que. Menos. Gosto! "

Chandra saltou das arquibancadas para o chão da arena. O feitiço de ilusão fizera o seu melhor para ocultá-la, mas caiu em farrapos cintilantes quando ela começou com a piromancia.

"Temos que entender o que está por trás da presença dele aqui," vieram os pensamentos urgentes de Jace. "Mantenha-o ocupado!"

Sua mãe parecia surpreendentemente severa. "Chandra, saia daqui agora mesmo", disse ela. "Isto é uma armadilha!"

"Uh, sim, eu sei?", disse Chandra, reunindo mana para um novo feitiço de fogo. "E estou aqui para tirar você dela."

"É exatamente o que ele quer!", sua mãe retrucou. "Deixe-me e vá. Agora, mocinha."

"Não sou mais uma menina", Chandra retrucou de volta. "E não vou perder você de novo!"

"É você, a Nalaar menor?" Tezzeret pressionava suas mãos assimétricas uma na outra. "Juntando-se à competição na qual sua mãe acaba de falhar? Mas que tocante."

Chandra via espectadores ao redor sentando-se na ponta dos assentos, encantados com o drama familiar. "Não vou construir contra você, Tezzeret", disse ela. "Mas vou derrotar você."

"Mas aqui ?" Tezzeret arrulhou. "Nesta mesma arena? Você ousa me enfrentar no mesmo lugar onde uma vez esteve prestes a ser—"

"SIM", insistiu Chandra. "Eu entendi. Onde eu estava prestes a ser executada. Muito poético. Agora podemos por favor lutar ?" Ela focou em um ponto na palma da mão e uma bola de fogo cresceu em sua mão.

Sussurros percorreram a multidão. Soldados do Consulado apressaram-se para cercar Chandra, para prendê-la. Mas Tezzeret ergueu uma mão para detê-los. Conferenciou brevemente com um dos soldados, depois o dispensou e virou-se para encarar Chandra sob uma nova luz. Seus autômatos viraram-se junto com ele em uma marionetagem inconsciente.

"Eu enfrentarei você, criança", anunciou Tezzeret, agora jogando para a plateia. Seus autômatos deram um passo à frente. "Mas apenas você contra mim não seria uma luta muito justa."

Chandra rasgou a bola de fogo em duas e ambos os seus punhos se incendiaram. "Ninguém falou nada sobre uma luta justa."

Uma multidão de ilusões dissolveu-se atrás de Chandra e, um a um, uma equipe de Planeswalkers emergiu.

Reviravolta Dramática | Arte de Eric Deschamps

Seus compatriotas sacaram armas e prepararam feitiços. Chandra notou que Tezzeret, por sua vez, deu um passo quase imperceptível para trás.

Após um momento de silêncio, a multidão levantou-se com uma cacofonia de gritos. Pelo que sabiam, pensou Chandra, aquilo fazia parte do show, o final dramático da exposição. "Acabe com eles, Juiz Chefe!", alguns gritavam. "Chuta a bunda dele, renegados!", outros retrucavam. Algumas vozes gritavam: "Tezzeret trapaceia!"

"Chandra," veio a voz de Jace em sua cabeça. "Acho que os autômatos dele ainda estão bloqueando minha telepatia de alguma forma. Você tem que nos levar para mais perto. "

"Explodir coisas de metal ", pensou Chandra. "Entendido ."

Arte de Raymond Swanland

Assim que viu Ajani e Gideon correrem para proteger sua mãe, Chandra desencadeou seu poder. Fogo voou, atingindo as máquinas de Tezzeret como punhos, derrubando uma após a outra. Um autômato derreteu no ato. Outro chegou perto o suficiente para cortar seu flanco, roçando sua bochecha, mas imediatamente tornou-se a peça central enferrujada de um jardim de videiras de crescimento espontâneo.

Ao comando da garra de metal curvada de Tezzeret, sucata de metal dobrava-se e se reformava em novos mecanismos, rastejando sob as rajadas de fogo de Chandra e livrando-se das videiras de Nissa. Conforme avançavam, Chandra desferia socos que se tornavam jatos de fogo, vagamente consciente de Gideon e Liliana cobrindo seu flanco, e de Nissa e Ajani esmagando um autômato perdido que ameaçava sua mãe.

A plateia levou um momento para decidir exatamente como reagir. Exibições abertas de conjuração de feitiços sem dispositivos eram raras em Kaladesh. Mas Chandra podia ouvi-los optando por torcer pelo espetáculo.

Tezzeret cambaleou para trás e, pela primeira vez, Chandra achou ter visto uma hesitação antes de seu próximo ataque. Pensou em direção a Jace. "Já o leu? "

"Não," pensou Jace, seu estado mental transparecendo como um palavrão. "Algo ainda está me bloqueando ."

"Rápido! "

"Ele está fechado demais ", respondeu Jace. "Estamos com sua mãe. Acho que deveríamos ir embora. "

Chandra olhou para sua mãe e de volta para Tezzeret. "Acho que eu deveria encerrar isso. Bem aqui. " A chama em seu punho estendeu-se por seu braço e sua visão borrou com o fogo.

Os pensamentos de Jace tinham um tom de aviso. "Chandra, se ele soube como bloquear a mente, significa que estava preparado para isso. Ele sabia que todos nós estávamos vindo. Cometemos um erro... "

O punho de Chandra fechou-se, comprimindo o fogo em um minúsculo ponto de calor cego e fervilhante. Seus dentes cerraram-se e ela tremeu. "Eu poderia simplesmente..."

O pensamento de Liliana atravessou a telepatia, claro e agudo: "Acabe com ele ."

Uma sombra nítida passou sobre a arena e Chandra olhou para cima para ver a aeronave Soberano dos Céus eclipsar o céu. Seu vulto majestoso abrangia a totalidade da arena, pairando com um ronco surdo de motores internos. Uma torre enorme girou em sua parte inferior, estalando com éter, seu canhão apontando para baixo — não atirando, mas ameaçando atirar.

Com um sorriso largo, Tezzeret anunciou para toda a arena: "E isto conclui a Feira dos Inventores, pessoal. Aos brilhantes inventores deste mundo, digo sinceramente — obrigado." Ele fez uma pequena reverência graciosa e elevou-se do chão em uma coluna de aço de filigrana.

Um pan-harmônico tocou um hino e alguns fogos de artifício celebrativos estouraram nas torres ao redor do estádio. Os sons eram berrantes e estranhos contra o silêncio absoluto da multidão.

Os olhos de Chandra baixaram para o ponto quente de fogo em sua palma, e subiram para o rosto ascendente de Tezzeret. Ele estava recuando. Depois de ameaçar sua mãe, ele estava escapando.

"Acabou", disse Nissa baixinho, ao seu lado, e Chandra assustou-se com o quanto desejava desesperadamente que alguém lhe dissesse aquilo. "Em outro momento. Acabou."

Chandra assentiu para ela, segurando uma onda transbordante de gratidão e alívio. O ponto de fogo comprimido em seu punho dissipou-se no nada, esquecido.

Como uma criança de onze anos, Chandra olhara através desta arena, procurando nas arquibancadas, apegando-se à pequena esperança de que pudesse ver o rosto de sua mãe. Ela nunca viu. Agora, neste momento, olhou através da arena novamente e a encontrou simplesmente parada ali.

Sua mãe abriu os braços. Chandra correu e caiu neles.

Chandra se permitira imaginar um momento como este mil vezes, enquanto olhava para as planícies vulcânicas fumegantes de Forte Keral. Se pudesse ter apenas mais um momento com a Mamãe — como seria a sensação? Sua mãe ainda cheiraria levemente a composto de solda e pétalas de rosa? O que ela diria? Que coisa grandiosa ela poderia dizer que pudesse resumir seu afeto, sua gratidão, seu anseio de estar em casa e segura com ela novamente?

Abriu a boca e seus olhos borrataram, e tudo o que saiu dela foi: "Mãe... me desculpe."

Sua mãe murmurou algo confortador em seu cabelo, puxou-a para perto e a apertou com força.

Reencontro Catártico | Arte de Howard Lyon

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Acima delas, Tezzeret subia e subia, a filigrana se desdobrando para esticá-lo no ar. O Soberano dos Céus o acolheu em seu casco e fechou-se novamente com ele lá dentro. O pan-harmônico continuou tocando em uma celebração vazia. A multidão estava silenciosa enquanto o Soberano dos Céus girava lentamente e se afastava, e o céu voltava a brilhar.

Foi apenas quando as pessoas começaram a sair que Chandra as ouviu começar a gritar em protesto. Moveu-se através da multidão, com o braço ao redor de sua mãe, e os outros os seguiram para fora da arena. Estava começando a notar os novos fios de cinza-ferro no cabelo escuro de sua mãe, e as linhas em seu rosto, quando a multidão tornou-se densa com rostos angustiados, barulhenta com um pânico crescente.

Uma mulher com ornamentação dourada ornamentada ao redor de seu vestido surgiu, encarando Chandra e sua mãe diretamente. "Meu nome é Saheeli Rai", disse a mulher, "e preciso falar com você, e com a senhora." Seu rosto era mortalmente sério.

"O que foi?", perguntou Chandra. "O que está acontecendo?"

"As invenções. Elas sumiram."

"O quê?", disseram Pia e Ajani simultaneamente.

"Acho que levaram Rashmi e os outros", Saheeli continuou, "junto com cada dispositivo que foi inscrito na Feira. As invenções vencedoras. Os projetos de paixão. O avanço de Rashmi. Todos sumiram. Levados. Vi o que vocês fizeram na exposição... Podem ajudar?"

Agora Chandra conseguia ouvir sobre o que todos ao seu redor estavam gritando. Eram inventores, competidores na Feira. "Minha criação!", "Gastei tudo naquele projeto!", "Como puderam simplesmente levá-los?" Soldados e autômatos do Consulado estavam em massa nas ruas. Não se lembrava da segurança estar tão apertada quando entraram na arena.

"Este era o plano de Tezzeret", disse Pia com uma carranca. "Tudo isso foi uma distração gigantesca."

"Temos que sair do estádio e nos reagrupar", disse Jace. "E então temos que detê-lo. Ele está planejando algo."

Ajani rosnou baixo. "Ele está construindo algo ."

19 de Outubro de 2016 | Por James Wyatt

Um Consulado Grato

O mago do metal Tezzeret pretendia fazer de Pia Nalaar um exemplo ao enfrentá-la em um concurso público. Mas os Planeswalkers das Sentinelas, atraídos a Kaladesh pela presença de Tezzeret aqui, interromperam o concurso e libertaram Pia Nalaar da custódia do Consulado. Mas os esquemas de Tezzeret nunca são diretos, e mesmo o espetáculo público tinha outro propósito — como Dovin Baan está aprendendo agora.

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Dovin Baan balançou a cabeça, irritado. Ao seu redor, um plano profundamente falho estava se desenrolando em caos absoluto.

Por todos os terrenos da feira, os soldados do Chefe de Executores Ranaj estavam apreendendo invenções em sua maneira caracteristicamente desajeitada, com autômatos oferecendo uma ameaça nada sutil para respaldar a autoridade legal dos executores. Discussões haviam surgido em todos os lados, brigas estavam começando aqui e ali, e os inventores expressavam ruidosamente a gama esperada de emoções, de fúria indignada a desespero esmagador. E através de tudo isso havia uma corrente subjacente de pânico, uma pressão da multidão para longe da arena, onde Tezzeret deveria estar realizando sua demonstração contra a renegada Pia Nalaar. Mas Tezzeret fora levado para a Pináculo de Éter em uma capitânia do Consulado, então era para lá que Dovin tinha que seguir caminho — através de todo este caos.

Se Tezzeret tivesse apenas me consultado antes de colocar os executores para trabalhar, pensou Dovin, tudo estaria correndo de forma muito mais suave.

"Você!", latiu ele para uma executora próxima cuja faixa a identificava como oficial. "É necessário dispersar aquele aglomerado de cidadãos antes que optem por uma expressão mais violenta de sua frustração." A oficial seguiu sua mão apontada e assentiu em reconhecimento. Abriu a boca para repetir suas instruções, mas ele não terminara.

"Além disso, aquele homem deve exercer mais cautela ao manusear aquela espada, ou decepará um membro — o seu próprio ou o de outro cidadão. Aquela carroça não consegue suportar o peso do chamado 'cofre de mana' que está sendo carregado nela, e você deve garantir que nenhum de seus executores se sinta inspirado a colocar os pés dentro dele." Fora ele quem garantira que o dispositivo, um produto da Sociedade Eterológica, fosse cercado por uma grade na feira, para a segurança de todos os observadores. Estremeceu quando um eixo quebrou sob seu peso e seis soldados fortes cambalearam, tentando evitar que tombasse sobre qualquer um deles.

A oficial correu em direção àquele desastre, esquecendo todos os seus outros avisos em sua pressa, e Dovin suspirou. Cabia a ele, então, prevenir o próximo desastre. Apressou-se em direção ao grupo de inventores inquietos, agarrando dois executores pelo cotovelo ao se aproximar.

"Sigam seu caminho, cidadãos", disse ele. "Para sua própria segurança." Empurrou os dois soldados à sua frente e eles começaram a guiar as pessoas para longe. Bom. Próximo.

Ah, tarde demais de novo! O brutamontes com a espada já se cortara. Felizmente, o ferimento era muito menos sério do que poderia ter sido, e alguém já estava ajoelhado ao seu lado, amarrando um torniquete acima do corte em seu braço. Dovin assentiu, satisfeito por o cuidado ser suficiente — mas ainda irritado por ele ser necessário.

Perto dali, uma inventora aninhava um elegante dispositivo thopter nos braços como se fosse um filho. Quando um executor deu um passo em direção a ela, Dovin viu imediatamente como tudo terminaria: o executor o arrancaria de seus braços, a inventora gritaria sua raiva e tentaria pegá-lo de volta, e o autômato Bastião que se aproximava pesadamente atrás do executor teria que contê-la. Levaria tanto tempo assim a mais para fazer do jeito certo? Mostrar seu distintivo, explicar seu propósito, prometer tratá-lo com o maior cuidado, garantir que o nome do inventor estivesse afixado a ele.

Mas aparentemente aquilo era pedir demais. Antes que ele pudesse chegar lá, a cena desenrolou-se exatamente como Dovin sabia que aconteceria, e o autômato teve que manter a inventora à distância até que ela se soltasse e saísse tempestuosamente na outra direção, claramente preparada para agir.

Golpe de Confisco | Arte de Joseph Meehan

Era um plano falho, mal executado. Passara a esperar melhor do Consulado que amava. Mas, por outro lado, também se acostumara a ser consultado, a ter a oportunidade de refinar tais planos antes de serem colocados em prática, em vez de correr para limpar a bagunça deixada para trás. O Consulado reconhecera seus talentos, o que explicava sua ascensão ao cargo de inspetor sênior, supervisionando novos designs e estabelecendo padrões de segurança. E Tezzeret vira seu potencial também, sua habilidade de detectar falhas não apenas em invenções, mas nas intrincadas complexidades da burocracia do Consulado, da Feira dos Inventores e da própria ascensão de Tezzeret ao poder. Sim, Dovin vira aquilo também, e sutilmente ajudara o mago do metal a corrigir uma falha ou duas em seus esquemas. E Tezzeret o recompensou por isso.

O que aconteceu? perguntou-se ele.

Teria ele perdido o favor de Tezzeret, de alguma forma? Teria Tezzeret se voltado contra ele devido à chegada desses outros Planeswalkers? Dovin sentiu-se ficando defensivo. Contatar esses Planeswalkers — estas "Sentinelas" — fora o melhor curso de ação possível dadas as circunstâncias, considerando as informações disponíveis para ele na época. Tezzeret não podia culpá-lo por isso.

Bem, o estrago estava feito. Os Planeswalkers estavam aqui e os executores estavam fazendo o que Tezzeret lhes dissera para fazer, e cabia a Dovin Baan consertar — como de fato lutava para consertar tudo o que podia, por toda a cidade, dentro dos limites de sua habilidade. Seus talentos tinham seus aspectos negativos, dado quão difícil era para ele deixar sem correção as falhas que via. Não podia ficar parado e assistir sua cidade, seu Consulado, descender ao caos.

Ao se aproximar da espiral, um estrondo como um trompete soou sobre a praça. Logo adiante, um requintado construto de moldagem de vida à semelhança de um elefante — o inventor chegara ao ponto de reproduzir seu som ensurdecedor — balançava a cabeça de um lado para o outro, derrubando executores no chão com suas presas enormes e em espiral. Os soldados tentavam esquivar-se ou cutucar a fera de moldagem de vida com suas próprias lanças, mas as pontas de metal das lanças tilintavam inutilmente contra seu revestimento de metal. Dovin cerrou os lábios enquanto apressava-se em direção à confusão.

Não posso estar em todos os lugares necessários, pensou ele, para amenizar as repercussões desta tomada de decisão inadequada.

Agarrou o braço de um executor e o puxou para trás bem a tempo de evitar a tromba chicoteante do elefante. "Escute", disse ele.

"Estou um pouco ocupado!", o executor retrucou.

"Se você está ocupado sem plano algum, bem poderia estar ocioso", disse Dovin. "Escute e observe."

O executor piscou para ele, confuso, e Dovin aproveitou a oportunidade para explicar. "Observe. Quando uma lança é golpeada em direção à garganta do animal de moldagem de vida, ele se empina nas pernas traseiras. Sem falta. Ele então chuta com os pés dianteiros. Aqui, diga a eles."

"Vá na garganta!", o executor gritou, e um de seus companheiros obedeceu.

Com um trompeteio, o elefante empinou-se e golpeou com ambos os pés dianteiros, enviando o executor obediente estatelado no pavimento. Dovin suspirou.

"Olhe ali", disse ele, apontando para sua barriga. "A qualidade do trabalho é medíocre, típica de construção renegada. Um cabo perto dos quadris fica exposto sempre que ele se empina dessa forma. Tudo o que é necessário é cortar o cabo e todo o autômato colapsará."

Mastodonte do Bastião | Arte de Victor Adame Minguez

O executor assentiu e voltou-se para a briga, tentando chegar perto o suficiente para fazer como Dovin instruíra. Dovin cruzou os braços, mantendo um olho no elefante enquanto examinava a multidão em busca do moldador de vida renegado responsável por aquela desordem.

"Ah", disse ele, avistando um elfo na multidão.

Deu um passo à frente e segurou os ombros de uma executora diferente. "A tarefa de cortar o cabo cabe a você", disse ele nos ouvidos dela. Deslocou-a um pouco para a esquerda, no momento em que seu aluno mais recente provocou o elefante a se empinar novamente.

"Vá agora", disse ele, empurrando-a gentilmente para frente.

O elefante virou-se ligeiramente ao se aproximar, golpeando com a tromba. Ela se esquivou — bem feito, pensou Dovin — e conseguiu enganchar o cabo exposto em sua arma de haste. Mudando sua pegada, ela puxou, a lâmina cortou o cabo, o elefante caiu —

E sua tromba enviou o elfo moldador de vida estatelado no chão.

Dovin o apontou para os executores. "Levem o elfo sob custódia para responder por este distúrbio." E ele seguiu em frente — Chega de distrações! — para a Pináculo de Éter, para encontrar Tezzeret.

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Dovin alcançou a espiral e viu Tezzeret caminhando por um corredor, gritando ordens. Apressou-se para alcançar o juiz chefe e colocou a mão no braço de Tezzeret.

Puxou a mão de volta ao sentir metal irregular sob a manga. É claro: anteriormente assumira que a garra brilhante na extremidade da manga fosse um dispositivo distinto, talvez montado no braço de Tezzeret, mas agora percebia que era parte do braço — baseando-se em seu breve toque, podia extrapolar a forma dele sob o tecido solto. Um membro de substituição? E longe de elegante em sua estética, embora parecesse altamente funcional. Interessante, e estranho que Dovin não tivesse notado aquilo antes. Estaria Tezzeret escondendo-o?

"O que é, Baan?", disse Tezzeret. Sua postura gritava impaciência, mesmo enquanto seu rosto tentava projetar uma calma inabalável.

"O que é isto ?", Dovin rebateu, varrendo o braço atrás de si, para abranger todo o caos da Feira dos Inventores sendo desmantelada. "Que circunstâncias possíveis poderiam tornar estas medidas draconianas necessárias?"

Tezzeret apontou por cima do ombro de Dovin com sua mão de metal. "Presumo que você não viu o que aconteceu na arena", disse ele.

"Seu concurso de invenção com a renegada? Um movimento excessivamente dramático com potencial infinito para o desastre, o qual acredito ter trazido à sua atenção assim que manifestou sua intenção para mim."

"Eu me referia especificamente ao bando de seis Planeswalkers que interrompeu aquele duelo e desapareceu com a renegada." O rosto de Tezzeret mostrava claramente sua frustração agora. "Não me lembro de você delinear esse desastre possível."

Dovin contou nos dedos — havia a Nalaar mais jovem, é claro, que vinha complicando a gama de resultados potenciais desde sua chegada ao plano. O telepata, a elfa, o guerreiro, a necromante... segurou seu dedo mindinho. Quem era o sexto?

Reviravolta Dramática | Arte de Eric Deschamps

"Eles encorajaram os renegados", disse Tezzeret. "A situação está fugindo do controle."

"Mas tudo isso era necessário? Por que confiscar as invenções deles, e de uma maneira tão desajeitada e pesada? Uma rápida vistoria na praça deveria deixar claro que estas ações servem apenas para provocar e, como você diz, encorajar ainda mais aqueles que resistiriam à autoridade do Consulado."

"Relaxe, Baan. Não é como se estivéssemos roubando as invenções deles. Estamos protegendo-as. Não quereríamos invenções tão inestimáveis danificadas em um ataque renegado."

"Não há necessidade de tentar mudar minha opinião sobre o assunto, é claro, mas—"

"E estes dispositivos não foram exaustivamente testados, como você bem sabe. Não são seguros. Não podemos deixar tanta tecnologia não licenciada apenas jogada pela cidade."

"Tal coisa seria irresponsável, é claro", disse Dovin. "Mas teria sido mais produtivo explicar essa lógica. Em vez de enviar os executores de Ranaj para arrancar dispositivos das mãos de seus proprietários angustiados, poderíamos ter enviado burocratas com formulários para preencher, garantias complicadas, palavras relaxantes sem sentido."

"Não há tempo, " rosnou Tezzeret entre dentes.

Interessante, pensou Dovin. Toda a postura de Tezzeret mudou, apenas por um momento — como se um acesso de raiva o tivesse tomado, apertado seu corpo e o libertado tão rapidamente quanto.

Dovin adotou um tom calmante. "Tenho certeza de que dedicar um tempo extra para preservar a paz e a segurança pública vale inteiramente a pena. É certamente verdade que alguns destes dispositivos têm um potencial enorme para causar danos a pessoas e propriedades —"

"Sim, potencial tremendo. Não vê? É muito melhor que os inquiriums do Consulado peguem esta tecnologia e explorem seu potencial, em vez de deixar esse trabalho nas mãos de quem-sabe-quem. Podemos desenvolvê-la, refiná-la, aperfeiçoá-la."

Dovin pausou por um momento. "Sim, é claro. Tal desenvolvimento era essencial para o plano da Feira dos Inventores desde o início. O avanço da tecnologia para a melhoria da sociedade, sob cuidadosa supervisão do Consulado. Então por que —"

"E quem melhor do que você para liderar esse esforço?"

Dovin piscou, momentaneamente sem fala. "Eu?" É claro que aquela era a escolha lógica. Mas há um momento atrás, ele estivera pensando que perdera o favor de Tezzeret de alguma forma. Agora Tezzeret lhe oferecia uma posição de importância tremenda.

"Mas antes que eu possa lhe confiar uma tarefa tão monumental, você precisa esclarecer algo. Estes outros Planeswalkers. Você os trouxe aqui?"

"Bem, em um sentido estritamente técnico, eu não o fiz, não. Convidei alguns deles para cá como uma salvaguarda contra uma falha potencial que identifiquei nos planos para a Feira dos Inventores — especificamente o perigo renegado, personificado em Pia Nalaar. Mas os Planeswalkers recusaram meu convite. Só então a jovem Nalaar teve notícia de meu convite e veio para cá por conta própria. Eu trouxe apenas uma — a elfa, Nissa."

"E aqui está minha causa de preocupação, Baan", disse Tezzeret, colocando sua mão de carne e osso no ombro de Dovin. "Eu valorizo sua previdência. Sua interação com estes Planeswalkers parece um erro fora de personagem."

Um erro? Dovin eriçou-se. "Na verdade, minha decisão foi a ideal, dadas as informações que você optou por compartilhar comigo. Apresentado com o perigo de uma ameaça renegada, quem melhor para enfrentar tal perigo do que um grupo de autoproclamados heróis com tamanho poder monumental à sua disposição? As chances de que eles realmente se aliassem aos renegados eram infinitesimais — não fosse pela existência do que parecem ser rancores pessoais, dos quais eu não tinha conhecimento prévio."

"E este é o resultado", disse Tezzeret. "Eles me desafiam na arena. Sou forçado a me mover mais rápido — tão desajeitadamente, como você disse corretamente. Eles forçaram minha mão." Ele flexionou sua mão de metal e Dovin deu um passo involuntário para trás.

"Você precisa consertar isso, Baan. Você tem razão que estes eventos vão agitar os renegados. Então pare-os. Preciso de um inquirium seguro onde eu possa trabalhar sem medo de ataques renegados. Você precisa das invenções confiscadas armazenadas e catalogadas com segurança para suas próprias explorações. Precisamos do Bastião em alerta máximo, pronto para enfrentar qualquer ameaça que surja. Precisamos lembrá-los de quem está no comando aqui."

"Você precisa de um inquirium?", perguntou Dovin. "Para quê?"

Rashmi, Artífice das Eternidades | Arte de Magali Villeneuve

"Tenho minha própria pesquisa para prosseguir", disse Tezzeret, continuando a caminhar pelo corredor. Dovin apressou-se para acompanhá-lo. "O trabalho de Rashmi para a feira teve implicações assombrosas. Maiores do que esta pequena rebelião, maiores até que Kaladesh. Esse será o meu foco. O restante das invenções são suas."

Sério? pensou Dovin. Ele não vira mais nada na feira capturar a atenção de Tezzeret dessa forma. "Muito bem", disse ele.

"Depois que você limpar o restante desta bagunça."

"Certamente." Primeiro, pensou ele, os Planeswalkers.

Tezzeret virou-se e saiu sem mais uma palavra, e Dovin acenou para o oficial executor mais próximo.

"Reúna um esquadrão veterano de soldados", instruiu ele, "com um pouco de perícia, se me permite, e persiga os... os estranhos, os renegados da arena. Ouça-me: eles têm falhas que garantirão seu fracasso se devidamente exploradas." Ele os contou nos dedos. "Eles carecem de um líder claro, então podem ser puxados em direções diferentes. A jovem Nalaar é volátil e facilmente provocada a ações imprudentes. A mulher de cabelos pretos não tem a total confiança de alguns dos outros, especialmente do soldado. Eles têm uma crença triste de que são heróis e pode-se contar com eles para agirem como tal. Eles tentarão proteger seus associados mais fracos, como Oviya Pashiri. E eles esperam vencer com um mínimo de custo ou sacrifício. Explore essas fraquezas de todas as maneiras que puder. Vá!"

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No momento em que voltou para o lado de fora, a cabeça de Dovin girou. A praça estava ainda mais lotada agora, presumivelmente com membros da plateia da arena — muitos dos quais eram inventores que agora descobriam que os executores estavam reivindicando suas preciosas invenções, ou já as haviam removido. Dovin novamente balançou a cabeça diante da falta de jeito de tudo aquilo. Ele nem precisava olhar ao redor da praça para sentir todas as coisas que estavam dando errado — ou que estavam prestes a dar. Era uma bagunça, como Tezzeret dissera, e sem culpa sua. Mas Tezzeret lhe confiara a tarefa de limpá-la, e ninguém — em sua humilde mas precisa estimativa — estava melhor qualificado para o trabalho.

Ele seguiu caminho pela praça novamente, desta vez sem pressa, reunindo um punhado de oficiais do Bastião ao seu redor enquanto avançava. Depois de tudo o que já fora feito, o ponto de falha mais provável agora era a virada da opinião pública contra o Consulado, e aquilo não era um único ponto de falha potencial, mas dúzias, ameaçando a integridade de toda a delicada máquina que era Ghirapur. Pequenos grupos de inventores descontentes registravam-se em sua atenção como moscas picadoras — um problema para os executores lidarem, sob sua orientação. Dispersá-los gentilmente com garantias agradáveis era provavelmente o suficiente a esta altura, mas algumas prisões estratégicas também seriam necessárias. Ele enviou oficiais para cada ponto problemático.

Outros problemas eram mais adequados para intervenção individual. Dirigiu-se à cena de um surto emocional, um inventor humano de sangue quente manifestando ruidosamente seu desagrado a uma executora anã enquanto um par de autômatos do Bastião tentava erguer um dispositivo elaborado cujo propósito não era imediatamente aparente.

"Talvez eu possa ser de ajuda", disse ele, interpondo-se entre o inventor e a executora. Em tais situações, Dovin descobrira, a característica calma vedalke podia desarmar as emoções poderosas exibidas tão proeminentemente por outras raças.

"Você não tem direito !", gritou o inventor, trazendo seu rosto avermelhado inteiramente perto demais do de Dovin e cutucando seu esterno com o dedo.

"Posso certamente entender seu apego a este dispositivo maravilhoso", disse Dovin, passando a mão pelo intrincado trabalho em metal da invenção. Entendia seu propósito agora — fora projetado para fabricar thopters. Astuto. É claro que suas muitas falhas também se tornaram imediatamente aparentes, mas aquele não era o momento para enumerá-las. "Um trabalho verdadeiramente incrível. Sua aplicação do princípio de Dujari aqui é engenhosa." Era; ele fez uma nota mental para examinar o dispositivo mais a fundo assim que estivesse armazenado com segurança em um laboratório. Depois que o vazamento de éter perigoso, com certeza atraindo gremlins, fosse fechado. "Potencial tremendo."

A carranca do inventor suavizou-se e seus ombros se empertigaram com orgulho. "Obrigado."

"Eu lhe asseguro, senhor, que seu dispositivo será tratado com o máximo cuidado enquanto permanecer em mãos do Consulado."

"Mas —"

"Certamente você está familiarizado com o processo de submissão de invenções ao Consulado para revisão de segurança e inspeção cuidadosa. E certamente você reconhece que sob circunstâncias tão extraordinárias como estas" — ele fez um gesto vago mas abrangente que poderia significar qualquer coisa, da própria Feira dos Inventores até este momento de confisco do Consulado — "o processo deve ser um tanto alterado. Mas o resultado será o mesmo. E seu trabalho pode muito bem ser a base para o próximo avanço na tecnologia de fabricação. O Consulado é grato."

Fabricante de Turbilhões | Arte de Victor Adame Minguez

Sem esperar por uma resposta do inventor, Dovin voltou-se para a executora, que estivera assistindo à conversa com uma carranca. "Agora, recomendo que você solicite os serviços de pelo menos mais um autômato para mover este dispositivo com o cuidado que ele merece. Se você esperar, eu os enviarei para você."

A executora anã parecia que esperar era absolutamente a última coisa que queria fazer, mas Dovin fixou nela um olhar severo para esclarecer que sua frase polida não deveria ser tomada como permissão para recusar.

Este era o tipo de sutileza que faltava aos executores de Ranaj, e Dovin temia muito que o resultado pudesse ser desastroso.

Trocas semelhantes retardaram sua jornada da Pináculo de Éter até a instalação de armazenamento para onde as invenções estavam sendo levadas. Acalmou meia dúzia de inventores, dispersou outros três grupos de futuros renegados e ajudou uma equipe de contenção a lidar com um grupo de gremlins que descera sobre o elefante de moldagem de vida quando ele começou a vazar éter de seu cabo cortado.

Em contraste com a ansiedade e tensão da cidade, porém, um tipo muito diferente de energia preenchia a instalação de armazenamento, e aquilo imediatamente acelerou o pulso de Dovin. Cientistas e inventores de elite de cada inquirium do Consulado na cidade haviam sido enviados para cá com um único propósito: realizar a tarefa monumental de catalogar, armazenar com segurança e investigar todas estas invenções. Contido nestas paredes estava o potencial para um salto à frente na tecnologia na mesma escala do Grande Boom do Éter que lançara a atual era de inovação, seis décadas atrás.

E ele estava no comando de tudo. Quaisquer dúvidas que ele alimentara sobre a boa vontade de Tezzeret desapareceram.

Mal podia esperar para começar. Assim que os Planeswalkers fossem levados sob custódia e os renegados se aquietassem. Em breve.

Aumento da presença do Bastião. Toques de recolher, talvez. Se necessário, uma restrição do suprimento de éter para reduzir a atividade renegada. E dadas as falhas das Sentinelas como grupo, seriam capturadas e confinadas em pouco tempo. A segurança e a ordem seriam restauradas.

E então tudo isso seria dele para explorar.

Dovin Baan | Arte de Tyler Jacobson