Gritos guturais lamentavam sobre o zumbido em seus ouvidos enquanto o projétil estilhaçava o mastro de proa com um estrondo ensurdecedor. Ainda assim, além do pânico da tripulação desesperada, além da batida em sua cabeça e da aceleração de seu coração, Boldt manteve sua posição. Aquela era sua chance.
Através do caos e diretamente à sua frente, dois corsários aproximavam-se rapidamente de seu navio de passageiros menor. As únicas armas ao alcance estavam apertadas em suas mãos trêmulas: notas de incontáveis horas de estudo. E a estatueta de bronze de um sextante, sua recompensa de um instrutor, na esperança de grandes coisas por vir. Tudo por agora.
Ele segurou o sextante para fora como um foco, suas curvas e ângulos emoldurando os corsários como miras em uma besta.
Mago Pródigo | Arte de Eric Deschamps
Respiração profunda. Sob controle. Diga as palavras. Limpe o—
"Rompe-cascos!", gritou a capitã, seu cabelo emaranhado de sangue. "Tudo a bombordo! Preparem o—"
Cortada abruptamente, ela e vários outros desapareceram em uma nuvem espessa de estilhaços enquanto o mundo colapsava ao redor dele.
Não olhe para lá, olhe para cima. Veja.
Ele ergueu a voz acima do barulho e proferiu de suas notas uma declaração de poder — as palavras praticadas, ensaiadas mil vezes.
"Ashkara nix pulu..." O foco começou a brilhar suavemente em sua mão, sua adrenalina subindo a cada sílaba aperfeiçoada. "Sarko mar benosk..." Em seguida, um gesto orquestrado, como um grande maestro sinfônico. "Kahuga Duru..." Agora, a resolução. "Tanare!"
Instantaneamente, uma onda de distorção irrompeu do jovem e crestou sobre a água, uma imensa rachadura através do vidro, rastreando denteadamente em direção à embarcação inimiga. Seus olhos arregalaram-se com expectativa, agudeza através da ansiedade, esperando pelo impacto.
Mas tão rápido quanto o feitiço surgira para a vida, ele falhou, inutilmente impotente contra o casco do corsário. Um fracasso.
Dos piratas, um estrondo duplo soou — uma batida de coração de ferro e trovão. Num instante, ele os viu: duas balas de canhão ligadas por uma corrente de energia crepitante, girando uma ao redor da outra como um boleadeiras, tão rápido que ele mal conseguia distingui-las. Que tipo de magia era esta?
Com velocidade ofuscante, giraram acima da cabeça para fender o mastro principal como um graveto chamuscado. Mastro, cordoalha e tripulação vieram desabando no castelo de popa e através do convés, interrompendo vários gritos num silêncio doentio. Nada além de névoa e silêncio se seguiu.
E Kellan Boldt, mestre aprendiz e aspirante elite, primeiro filho e herdeiro do Ducado de Kelsh, educado na arte pelo Arquimago Ghavos, agora desabava de joelhos em derrota total.
Tudo estava quieto, abafado como o pátio de sua família após uma neve pesada.
"Vocês deveriam ter me terminado, cães!", cuspiu uma voz rascante e invisível.
De baixo do convés e através da fumaça, um velho emergiu, uma barba prateada ocultando parcialmente a cicatriz ao longo de sua mandíbula. Boldt já o vira antes. Notara sua túnica dourada e preta, outrora régia, desde então tornada surrada e baça — e agora rasgada da batalha.
Mago Pródigo | Arte de Douglas Schuler
Qual era o nome dele... Enthril? Sim, o mago do navio. Um marinheiro para feitiçaria de manutenção, consertando tecidos e ferimentos superficiais. Mas não havia nada de superficial no rosto ensanguentado e no porte ferido do homem.
Enthril murmurou uma praga sob o fôlego, apertou os olhos contra a névoa carbonizada e estendeu uma mão vazia. Conforme o vento soprava atrás dela, ele varreu o braço pelas ondas.
O mar saltou para responder, seguindo o movimento e ondulando com energia semelhante à de Boldt, mas mais poderosa, confiante. Uma vaga formidável, forte o suficiente para pegar o primeiro navio ereto, girou-o à força pelas ondas e contra seu irmão com um estrondo de madeira rangendo.
Os dois corsários, perfurados e emaranhados, cessaram o fogo. Boldt ouvia os piratas berrando uns com os outros, tentando entender a situação.
Enthril, por sua vez, aproveitou o momento para recuperar o fôlego.
"Isso vai segurá-los por enquanto", decidiu ele, então virou-se para notar o jovem. "Você aí! Em prontidão!"
Boldt olhou para a distância, as palavras desvanecidas em névoa. O velho mancou pelo convés para se aproximar dele.
"'Em prontidão' significa tirar o traseiro daí e me ajudar antes que afundemos."
"Mas a tripulação—"
"Nós somos a tripulação agora. Tudo o que restou."
Boldt olhou para cima, despertado de seu transe. Seriam eles realmente os únicos restantes vivos?
"Precisamos sondar o navio, consertar o que pudermos. Qualquer coisa que nos mantenha respirando ar em vez de oceano."
"Espere. Como o senhor fez aquilo?"
Enthril limpou um pouco de sangue da ponte do nariz.
Abaixo do convés, o cheiro pungente de fibra de cânhamo e alcatrão de pinho encheu as narinas de Boldt. Um malho de calafetagem de madeira jazia inutilizado aos seus pés enquanto ele empregava um feitiço de vinculação, um complexo de seu próprio design, contra as emendas no casco.
Estava grato pelo cheiro forte da calafetagem, pois o fedor de carne queimada que pairava no ar ameaçava quebrar sua compostura. A água salgada quase enchera o porão de proa, carregando os corpos submersos dos afogados. A cada balanço, chocavam-se implacavelmente contra a antepara.
"Ao trabalho", lembrou-se Boldt. "Ao trabalho..." Ele retomou seu feitiço.
Enthril logo se juntou a ele, carregando um braçado de madeira estilhaçada.
"Então descobri por que o leme não está funcionando", disse o velho.
"Por que não?"
"Ele sumiu."
O rosto de Boldt caiu.
Lançando a madeira para o lado, o mago ancião fez uma careta ao favorecer seu lado direito, logo acima do quadril. Boldt via o sangue ensopado através do tecido velho de sua túnica.
"O senhor precisa—?"
Enthril balançou a cabeça. "Estou bem. Bastardos espertos. Esperaram até o último segundo para mostrar suas cores, cores de Talas, e surpresa. E com isso, minha curiosidade em relação ao seu armamento sofisticado está permanentemente satisfeita."
O velho deu um passo à frente para olhar mais de perto o trabalho do aprendiz.
"Então escoramos o porão central aqui..." Enthril indicou uma mancha danificada na parede da câmara. "...e podemos isolar a inundação. Isso nos ganhará tempo. Mas temos um problema ruim e um problema pior. O ruim estamos resolvendo. O pior..."
"O pior sendo os piratas? Que o senhor afugentou com um aceno de mão? Achei que o senhor fosse apenas—"
"Apenas um humilde mago de navio? Seu treinamento imaculado pré-academia lhe disse isso?"
Boldt estreitou os olhos. "Como o senhor soube?"
"Você reservou passagem para as Ilhas das Especiarias e pagou caro demais. Sem dúvida o orgulho de uma família nobre, sem razão para navegar nestas águas a menos que esteja indo para Tolária Ocidental, para o instituto de lá. Muito prestigioso. Parabéns."
Academia de Tolária Ocidental | Arte de James Paick
O jovem irritou-se um pouco com isso. "Então o senhor ouviu falar de lá."
O velho mago assentiu em direção a um anel de sinete dourado em sua mão direita, ostentando o símbolo do olho onividente.
"Graduado com honras máximas."
"E o senhor acabou aqui?"
Enthril pegou uma trolha de ferro, cobriu a ponta com a calafetagem aos pés de Boldt e a espalhou sobre o ponto que o feitiço dele perdera.
"Rapaz, apenas use o maldito malho. Você torna as coisas complicadas demais."
Boldt pegou a ferramenta e passou alcatrão fresco sobre ela.
"O senhor acha que tenho medo de um pouco de trabalho?" Passou estopa ao longo das tábuas, ecoando o movimento de Enthril. "O senhor não sabe do que abri mão. Passei anos treinando para estudar com as grandes mentes da nossa era. Tenho planos, e eles não incluem terminar como um esqueleto no fundo do mar."
"Planos..." Enthril parou um momento para considerar, depois prosseguiu. "Estive observando você estas últimas semanas, com seus livros e notas..."
"Exatamente", afirmou Boldt, com não pouca dose de orgulho. "Livros e notas. A estrada para a grandeza, tão real quanto tijolo e argamassa. Foi por isso que a academia mandou me buscar."
"E o que você aprenderia lá?"
"Tudo: morfologia, controle, ilusão..."
"O controle é a ilusão."
O jovem virou-se para longe da antepara e olhou Enthril bem nos olhos.
"O que o senhor quer dizer?"
"Boldt...", o velho começou, com a leve rispidez que lembrou ao jovem aprendiz que ele nunca realmente se apresentara ao mago do navio — nem a qualquer membro da tripulação, aliás. "Isso é tudo o que eu queria fazer. Controlar os resultados, controlar o desfecho. Saí como um graduado da academia, confiante de que seria um grande mestre e encontraria minha fortuna — tomaria minha fortuna. Mas toda essa ambição, toda essa maestria, diante da verdadeira sabedoria? É como tentar amarrar ondas contra a praia."
Se havia algum arrependimento nos olhos de Enthril, ele não o demonstrou. Continuou trabalhando nas emendas do casco.
"Aqui fora, aprendi a deixar diminuir minha sede de poder e glória. A me ver como um conduto, um zelador de algo maior que eu mesmo. Um custodiante." Ergueu sua trolha, coberta de alcatrão preto, para pontuar o pensamento. "E aprendi que se pode conhecer o coração de algo sem precisar possuí-lo."
Subitamente, uma explosão distante ecoou por toda a cabine, trazendo a lição a um fim abrupto. Enthril deixou cair a trolha no chão.
Os dois magos emergiram do porão, apertando os olhos contra o sol brilhante em suas posições. Os piratas haviam se libertado da restrição e agora fechavam o cerco dentro do alcance de seus canhões — e haviam se juntado a outros.
"Quatro velas na água", notou Enthril. Voltou-se para o mastro derrubado, seu emaranhado de velas rasgadas e cordoalha enfunando com um vento forte. "E os panos, o que restou deles, estão pegando vento. Era disso que eu tinha medo. Estamos indo para o leste."
"Mas isso é para longe dos piratas, certo?"
Outra rajada de canhão detonou a estibordo. Mais perto desta vez, reverberando pelo convés. O velho mago sacou um sabre quebrado dos escombros e o entregou a Boldt, que o observou com cautela.
"Vou mantê-los ocupados", disse Enthril. "Você cuida disto."
"Vou lutar contra eles com isto?"
"Você vai nos libertar com isso. Corte as amarras do mastro principal, aquelas ali. Nada de feitiços, economize sua energia. Vá!"
Enquanto Enthril se empertigava para enfrentar os piratas, Boldt aproximou-se dos restos da vela principal, examinando as cordas e o tecido enquanto caminhava sobre um toco de mastro quebrado. Olhando por cima do ombro, via Enthril abrir os braços, palmas para baixo como se planasse com o vento, olhos fixos nos navios que avançavam.
Abaixo deles, o convés movia-se para cima e para trás com o oceano. A postura de Enthril acompanhava o balanço, um eco solto dele, em antecipação. Boldt aproximou-se da hélice emaranhada e caótica de engates e nós, erguendo o pedaço denteado de lâmina no ar.
Um estrondo rugiu do corsário. Corta-mastros a caminho, girando em direção a eles como relâmpagos esculpidos em pedra. Movendo-se com o convés, Enthril rapidamente ergueu os braços, como se saudasse o céu.
Com um clangor trovejante, os ferros pesados atingiram uma força invisível a uma curta distância antes da proa. O ponto de impacto ondulou em luz cintilante conforme ricocheteavam contra ele, caindo inofensivamente a trinta metros de distância.
De seu posto, Boldt via Enthril cambalear e cair de joelhos, a energia dissipando-se ao seu redor.
"Enthril?" chamou ele.
"Continue com isso!", gaguejou o velho.
Boldt cortou as cordas desgastadas e a cordoalha, descendo a lâmina repetidas vezes até que a vela esfarrapada se libertou. Ambos os magos foram lançados para frente conforme seu navio inclinou-se de volta contra o vento, desacelerando e forçando-os a ficarem prostrados contra a investida dos navios.
O jovem mago deixou cair a lâmina quebrada e correu de seu posto em direção a Enthril. O velho, quase exausto, pôde apenas assentir para ele e apontar para frente, voltando a atenção de Boldt para os corsários enquanto o jovem ocupava seu lugar à frente.
Boldt perscrutou os navios que se aproximavam. O que poderia possivelmente fazer?
Ainda recuperando suas forças, Enthril olhou para seu novo aprendiz. "Bem-vindo... à verdadeira academia, rapaz."
A inspiração atingiu Boldt como uma carga de adrenalina. Mergulhou em sua mochila, remexendo nela enquanto o convés balançava e subia sob seus pés.
Magia de fonte. O material subjacente das coisas. Adequadamente gerenciado, ele poderia comandar as próprias ondas, trazer uma tempestade de sua mão, atacar ou defender de inúmeras maneiras. Analisara isso por anos. Mas conseguiria manifestá-lo agora?
Boldt buscou em um livro encadernado em couro, conferiu um verso e o guardou de volta na mochila. Pedaços de notas soltas caíram enquanto ele recuperava o foco de bronze.
Outra explosão irrompeu pela proa de bombordo, a meros metros de distância. Perto demais. Boldt agarrou-se à amurada, equilibrando-se contra o navio que balançava.
Quais eram as palavras mesmo? Avenkari era a raiz. Ele sabia, o que era?
Com o suor formando-se em sua testa, Boldt ergueu o foco para emoldurar o navio mais próximo. Miras em uma besta. Um brilho tênue apareceu no sextante quando ele começou a falar, vacilante e incerto.
"Avenkari katala nahota..."
Uma mão bloqueou sua visão enquanto Enthril, agora de pé, baixava gentilmente o braço de Boldt. O brilho deixou o foco.
"Nada de bugigangas", admoestou ele.
"Que diabos o senhor está fazendo?" Boldt exalou, mal escondendo seu pânico. "Estamos prestes a ser reduzidos a gravetos, e—"
"Não fale. Não comande. Peça."
"Mas—"
"Boldt, a essência disso está aí, esperando para ajudá-lo. Encontre o que está pronto. Quando vir, saberá o que fazer."
"Mas eu não vejo, é isso que estou tentando—"
"Você saberá."
"Maldição, eu não vejo!"
Boom.
Outra rajada, golpe direto ao longo do casco. Reflexivamente, Boldt cambaleou para trás, ecoando sua direção. E então, sem pensar, lançou-se para frente — emoção e alarme ganhando forma física.
E a energia brotou do seu âmago, não solicitada e verdadeira. Um surto voltaico de força açoitou através de braças de oceano para pegar a vanguarda ereta, atingindo-a violentamente de lado a bombordo.
O fogo de canhão parou. Tudo parou, enquanto o jovem mago permanecia imóvel, absolutamente chocado com o que fizera.
"Isso... isso..."
"Você saiu do caminho do feitiço", disse Enthril.
"Isso foi surreal!" Boldt brilhou. "Não consigo acreditar!"
Um rufar de tambores soou dos navios piratas. Com precisão ágil, cada uma das embarcações virou bruscamente, dando meia-volta com urgência crescente.
"Pelos deuses, velho, conseguimos!", exclamou Boldt com alegria exultante. "Fizemos eles fugirem!"
Virando-se para a popa e para o leste, Enthril balançou a cabeça e se afastou.
"Não. Não é isso."
Boldt seguiu-o rapidamente. "O quê? O que o senhor vê?"
"Ali." Enthril apontou para além do parapeito para uma série de boias aproximando-se do leste. "Estamos atrasados demais. O Perímetro."
Os marcadores estavam espalhados por centenas de metros, uma linha pontilhada que se estendia até o horizonte.
Depois dela, o caráter do mar mudava dramaticamente. Muito mais escuro, com cristas brancas espumantes. E embora as velas tivessem sido soltas, a corrente não diminuía, e o navio derivava cada vez mais perto.
"O que há além dele?" perguntou Boldt.
Sem resposta. Enthril observava a barreira que se aproximava silenciosamente, a cor drenando rapidamente de seu rosto.
Ilha | Arte de Adam Paquette
"Enthril?"
Finalmente ele proferiu: "As Ondas Terríveis. É assim que o pior se parece".
"Já esteve lá?"
"Estou aqui parado falando com você?"
"Sim."
"Então não."
Enthril moveu-se em direção ao centro do convés, sua mente correndo.
"Aqui, rapaz, bem aqui. O casco é mais forte."
"Espere, espere", protestou Boldt. "Não há algum modo de podermos..."
"Tarde demais. A corrente nos pegou."
"Ou usar algum tipo de feitiço para..."
"Passaremos o perímetro em segundos. Prepare-se."
"Para quê?"
Enthril olhou Boldt nos olhos, gravemente.
"Tudo."
O céu escureceu além dos marcadores conforme derivavam para a boia mais próxima. Aproximando-se dela por estibordo, conseguiram distinguir um detalhe inquietante.
Acorrentados ao marcador estava um emaranhado de esqueletos, congelados em posições desajeitadas e branqueados pelo sol. Os primeiros a saudá-los.
Conforme as órbitas vazias os seguiam ameaçadoramente, Boldt e Enthril cruzaram o limiar do perímetro.
"Tudo bem", disse Boldt, "agora o que nós—"
Instantaneamente, a boia iluminou-se com uma luz brilhante e profana. Uma após a outra, cada boia seguiu o exemplo, o brilho infernal de seus sinalizadores estendendo-se até o horizonte. Boldt inspirou bruscamente quando os esqueletos ganharam vida, estendendo braços ossudos para apontar diretamente para os dois homens, suas bocas sem dentes abrindo-se em uníssono para emitir um grito perfurante e acusatório.
Então algo irrompeu do mar pela proa de bombordo. A dupla olhou para a fonte e parou diante de uma visão impressionante. Um tentáculo enorme, marcado por chifres denteados, projetava-se a mais de quinze metros no ar.
O apêndice chocou-se contra o meio do navio, partindo-o pela quilha para enviar os magos pelo ar com o convés girando sob eles, deslizando como uma pedra atirada sobre um lago.
Agarrando-se desesperadamente a qualquer coisa ao alcance, os homens lutaram para permanecer acima da água enquanto o convés se despedaçava, reduzindo sua linha de vida ao tamanho de uma jangada. Pedaços do navio ondulavam de ponta a ponta, desacelerando e depois cedendo, afundando entre as ondas infinitas.
"Diga-me que o senhor tem algo sobrando!", suplicou Boldt, lutando freneticamente por algo para se manter à tona enquanto o mar chegava à altura do peito.
Mas antes que Enthril pudesse responder, os restos do convés rangeram e pararam contra algo sólido abaixo.
Boldt recuperou o fôlego enquanto Enthril encarava através dos destroços flutuantes.
"Encalhamos..."
O jovem olhou rapidamente ao seu redor.
"Poderia ser um recife ou um—"
Então algo ergueu-se para encontrar seus pés. Algo grande. E eles também começaram a subir, surgindo acima da linha d'água enquanto ascendiam do mar em um redemoinho estrondoso de borrifos e espuma.
Aquilo não era recife algum. Abaixo deles, a superfície incrustada de cracas de uma concha imensa, as costas de uma criatura cuja escala parecia não ter fim, materializou-se ao redor deles enquanto um dilúvio de salmoura e lodo caía contra ela como um caldeirão torrencial.
Flagelo de Frotas | Arte de Steven Belledin
Conforme subiam, o fragmento de convés começou a se despedaçar sob seus pés; logo tudo estaria acabado. Boldt olhou para Enthril suplicante. Enthril assentiu para ele.
"Você saberá."
O velho fechou os olhos em concentração, bloqueando o caos. Madeira e ferro dissolviam-se ao seu redor como palha frágil, no entanto Enthril permanecia imóvel.
Boldt observava o homem em concentração silenciosa, sem saber o que fazer exceto... aprimoramento? Sim, absolutamente. Os dois trabalhando em concerto, mar e céu.
Buscou sua mochila. Mas, para surpresa de sua memória muscular, sua mão encontrou nada além de uma alça rasgada. Os livros, as notas, a estatueta de bronze no formato de um sextante, tudo se fora agora.
A massa sob seus pés deu um solavanco para frente, para cima e para o lado, deixando Boldt arranhando o lodo estilhaçado em busca de apoio. À sua frente, Enthril mal se movia, perdido exceto para as energias que convocava.
Sem outra opção, Boldt ancorou-se entre o que costumava ser uma verga e a pele escamosa abaixo. Então ele fechou os olhos também.
Encontre. Veja. Ver o quê? Não importa, apenas—
E então a voz em sua cabeça, a voz do controle, subitamente, inexplicavelmente parou. Ou mais precisamente, mudou. Porque ele conseguia finalmente ver.
Conseguia ver a si mesmo, momentos antes. Com os navios, reagindo sem cálculo, presença verdadeira no momento, o primeiro brilho de entendimento. Todo o seu estudo e trabalho anterior, apenas uma parte. Um canal para a magia fluir, para encontrar sua própria forma e encontrá-lo em seu coração.
Começou a proferir palavras em voz alta, palavras ainda aprendendo sua forma. Materiais brutos captando a energia como uma maré. E o velho, agora banhado em luz azul, os guiava.
Mas Enthril parecia exausto, como uma ponte prestes a colapsar sob o peso de um exército. Exausto, flutuava dentro e fora da consciência, e sussurrava como se para outra pessoa.
"Sempre há... sempre mais para saber..."
Boldt abriu os olhos e rastejou até ele, e suas duas figuras se amontoaram uma contra a outra em meio ao turbilhão de destroços. Estavam fixados precariamente nas costas dele, deste beemote, e ele subia cada vez mais alto conforme o último resquício do navio esfarelava-se.
"Eu vejo agora. Eu vejo", disse Boldt para Enthril. "É incrível."
Enthril pareceu sorrir levemente com isso, enquanto retomava seu cântico sem palavras. Boldt começou novamente e juntou-se a ele.
A criatura emitiu um som, exalando como uma baleia. Um rugido de vapor monstruoso e ensurdecedor. Inabaláveis, entoaram silenciosamente como um só. Até que algo novo começou a acontecer.
Uma única prancha desafiadora do convés quebrado ergueu-se para encontrá-los, pairando ao nível dos olhos a não três metros de distância, esperando. E uma a uma, foi acompanhada por outras, até que uma mistura fragmentada de madeira, tecido e metal flutuava e rodopiava ao seu redor.
Do centro do tornado que se formava, Enthril abriu os olhos, subitamente em brasa com uma luz vibrante e resplandecente. Conforme a luz crescia em intensidade, Boldt olhou para cima em alarme.
"Enthril, o que—"
A luz explodiu para frente — engolfando os magos, os pedaços flutuantes de navio, a criatura, o mar, o mundo. Tudo num instante, e então tudo foi nada.
Boldt acordou, sua bochecha contra um convés de madeira. A sensação da superfície plana e lisa, como nova, fez com que ele se sentasse bruscamente.
Novos arredores o saudaram. O convés de uma embarcação de aparência estranha. Chamou por Enthril. Nenhuma resposta. Levantou-se cambaleante e olhou rapidamente em todas as direções. O velho se fora. Em seu lugar: este novo navio, embalado por velas reluzentes projetando-se em direções estranhas. Uma borboleta de tecido branco. Mas não conseguia ver a linha d'água além.
Então, ouviu o som da criatura exalando. Mas soava distante, como se estivesse muito abaixo. Aproximou-se da amurada. Ao redor dele, céu.
Estava em uma belonave de algum tipo, cuja fabricação ele só poderia ter imaginado. Flutuando muito acima de sua última posição, centenas de metros sobre as Ondas Terríveis.
Olhando para baixo, conseguia distinguir a forma total do leviatã bestial, facilmente do tamanho de uma frota inteira de navios, possivelmente maior. Agora, seus tentáculos estendiam-se debilmente para agarrá-lo, mas seu alcance era baixo demais para sequer arranhar o casco.
O vento soprou para encher as velas, e a nova embarcação deslizou suavemente passando pelo perímetro lá embaixo, mais rápido do que o vento deveria levá-lo. O tom do mar mudou para azul brilhante, puro como uma pintura.
Na distância conseguia ver os navios piratas virando para o sul, como se fossem brinquedos. E mais longe ainda, para o oeste, a extensão verde e ondulante das Ilhas das Especiarias. Nelas, a Academia Tolariana, seu destino, aproximando-se.
À popa, notou o leme, artisticamente esculpido e elegante — e sem direção, balançando de um lado para outro com o vento.
Algo logo abaixo dele refletiu a luz da manhã e captou seu olhar. Era o anel de sinete de Enthril. Pegou o anel e o observou por um longo tempo.
As Ilhas das Especiarias aproximaram-se. Mas logo, o leme moveu-se para estibordo conforme as velas captaram uma rajada de ar quente vinda do sul. E o navio desviou do arquipélago, seguindo para o norte.
Boldt olhou para o leme ao seu comando. Então, finalmente, virou as costas para ele e marchou para a proa do navio, deixando o curso dos ventos carregá-lo para frente. Colocou o anel de Enthril, como um lembrete. Serviu perfeitamente.
Muito abaixo e longe, a Academia Tolariana e as Ilhas das Especiarias recuaram para o plano de fundo, tornando-se menos significativas, até que sumiram.
E Kellan Boldt, antigo aprendiz e buscador aspirante, outrora filho e herdeiro do Ducado de Kelsh, humilhado na arte pelo vento e pela onda, agora voava sem contestação pelos céus. Para enfrentar um novo propósito, encontrar uma nova aventura e conhecer o coração do mundo.
Ilha | Arte de John Avon
01 de Junho de 2016 | Por Leah Potyondy
Tudo o que Veio Antes
Cho-Akhan é uma cuidadora dos mortos, vivendo com sua família em uma pequena aldeia Cho-Arrim nas profundezas de Rushwood. A vida na aldeia é quieta e pacífica, e o braço longo da Cidade de Mercadia parece impossivelmente distante...
A manhã começou exatamente como tantas outras antes: com uma pessoa morta.
Cho-Akhan estava acostumada com pessoas mortas. Sua mãe — bem, a mãe que a dera à luz, não a outra — era uma cuidadora dos mortos, acolhendo e cuidando de corpos Cho-Arrim abandonados para que suas almas pudessem ser enviadas ao descanso. Seu pai também fora um cuidador, antes de se juntar às fileiras de seus protegidos. 'Akhan vinha, de fato, de uma longa linhagem de tais pessoas. Então, quando seu dia começava levantando-se com o sol, lavando-se e vestindo-se, e juntando-se à sua mãe Cho-Fihad na preparação do corpo de uma mulher de sua aldeia, não era nada fora do comum.
A mulher, uma batedora chamada Cho-Hanni, estivera doente. Algo devorara seu interior enquanto a vida ainda pulsava através dela, e o fedor de seu corpo quando a receberam era, 'Akhan supunha, incomum. 'Fihad passou a mão pelo rosto acinzentado de Cho-Hanni e disse a 'Akhan para sair e buscar mais ervas doces para preencher o corpo antes de enviá-lo em seu caminho. Cho-Hanni não quereria seguir seu curso pelo rio sabendo que seu corpo fora deixado com aquele cheiro, embora fossem queimá-lo no final.
'Akhan revirou os olhos quando 'Fihad não estava olhando. 'Fihad tinha muitas ideias sobre o que os mortos queriam e não queriam. Muitos adultos na aldeia tinham. Como se um morto estivesse em posição de querer qualquer coisa. 'Akhan cuidava dos mortos, mas não achava — como sua mãe claramente achava — que os mortos se importassem de volta.
"Você vai ao menos pensar no jardim desta vez?", perguntou ela enquanto agarrava sua bolsa de coleta. "Seria muito mais fácil para nós cultivarmos as ervas aqui. Há bastante espaço no nosso terreno, e eu poderia trazer algumas extras para plantar."
'Fihad balançou a cabeça, sorrindo um sorriso complacente. "Minha filha persistente. Você sabe que essas ervas se dão melhor na mata. Ervas crescendo no jardim sentiriam falta da selvageria. Sentiriam falta das árvores e do rio."
'Akhan forçou um sorriso e ajeitou sua bolsa. Aos dezesseis anos, sabia que era melhor não discutir.
Mas ela queria. Oh, como queria. 'Akhan ensaiou em sua cabeça enquanto seguia pela estrada de terra que levava para fora da aldeia. Era ridículo que tivesse que ir tão longe para buscar algo que poderiam simplesmente cultivar em casa. Ela era boa com plantas. Seu irmão, Cho-Ran, também era. Sabia que ele a ajudaria com o jardim sempre que não estivesse fora com os outros batedores. Nem era como se 'Fihad tivesse que fazer qualquer trabalho...
Chegou ao rio e o seguiu por um trecho, ouvindo os ruídos que fazia enquanto serpenteava seu curso lento passando por rochas e raízes. 'Fihad achava que ele estava cheio de almas, indo para onde quer que Cho-Hanni estivesse se dirigindo. É claro que achava. 'Akhan cortou para o norte, afastando-se do rio e em direção ao emaranhado de bosque onde as ervas doces cresciam. Pensou em plantar o jardim de qualquer maneira. O que 'Fihad faria, arrancaria as ervas pelas raízes quando as encontrasse crescendo atrás da casa?
Ela remoeu isso por todo o caminho até seu local de coleta, perdida completamente na espiral apertada de seus próprios pensamentos. Teria continuado remoendo, também, não tivesse um grande troll de chifres vindo rompendo as árvores na sua frente, bem no seu caminho.
Troll de Chifres | Arte de Christopher Moeller
Ela tropeçou para trás em surpresa, prendendo o pé em uma raiz grossa e descendo aos trambolhões por um declive íngreme que, constrangedoramente, ela ignorara. O declive tinha um tipo de cavidade côncava na base, no entanto, e ela se pressionou firmemente no espaço de esconderijo que ele proporcionava, esperando desesperadamente que o troll não a tivesse notado.
O troll era grande, e muito irritado. Torrões de terra espalharam-se pelo declive e caíram da pequena saliência de terra sobre a cabeça de 'Akhan. Ela enterrou o rosto nas folhas mortas. Vá embora, pensou insistentemente. Vá embora, vá embora, vá embora.
Após o que pareceram uma eternidade ou duas, o som dos passos do troll recuou, batendo forte pelas árvores e matagal. Provavelmente pisoteou todas as minhas ervas, também. Seria a cara dele. 'Akhan moveu-se para um agachamento, limpando o pior da sujeira de suas roupas. Tinha acabado de reajustar a bolsa no ombro quando algo lhe chamou a atenção.
Ela fora coletar ervas muitas vezes antes. Aquele era o lugar mais próximo da aldeia onde cresciam, e ela raramente caminhava mais longe na floresta densa. Não passara, no entanto, muito tempo no fundo daquela queda em particular, escondendo-se de trolls irritados, então podia se perdoar por nunca ter visto o pilar de pedra cinzelada que parecia suspeitamente com metade de um portal. O pilar era mal mais alto que ela, coberto por vinhas grossas e rastejantes. E além dele...
Ela estava puxando as vinhas antes mesmo de perceber o que estava fazendo. Seus esforços revelaram mais pedras desmoronadas, encaixadas imperfeitamente e acentuadas com rabiscos entalhados que ela presumiu serem algum tipo de escrita. Aquilo era um portal, com certeza. Um portal com uma parede encaixada bem sobre ele.
Insuportavelmente curiosa, ela puxou pedra após pedra até que a abertura fosse larga o suficiente para permitir que ela se espremesse através dela. Lá dentro havia um mofo seco, mal agitado pelas correntes de ar passando pela porta recém-deslacrada. 'Akhan tateou seu caminho pela passagem, os dedos roçando em terra que esfarelava. Logo, a luz tênue da porta desapareceu completamente. Desejou ter algo para iluminar seu caminho, mas era tarde demais para voltar. Estava comprometida.
A passagem abriu-se abruptamente em uma sala pequena. Ela sentia as paredes recuarem, o espaço abrindo-se ao seu redor em uma sombra ainda mais profunda. E ali, no meio da sala, conseguia distinguir uma forma, destacando-se apenas ligeiramente contra o escuro. Como um plinto, e algo em cima dele...
Um corpo.
'Akhan aproximou-se furtivamente. Um corpo antigo, percebeu ela. Um corpo inacreditavelmente antigo, envolto em um lençol dessecado. E o que era aquilo por todo o seu rosto? Parecia estar emitindo uma luz mal perceptível. 'Akhan aproximou-se mais, estendendo a mão cautelosamente...
Uma massa brilhante irrompeu ao redor de seus dedos exploradores. Ela saltou para trás, com o coração batendo forte contra a caixa torácica. Mariposas, percebeu ela. Um turbilhão de mariposas brilhando suavemente, subindo do objeto sob suas mãos.
Mariposa do Brilho Dourado | Arte de Howard Lyon
Cercada pelo bater seco de dezenas de asas plumosas, ela perscrutou o rosto novamente, iluminado agora pelo lado de fora.
Uma máscara, percebeu ela. O corpo estava usando uma máscara, estilhaçada em pedaços.
Não... não estilhaçada. Os pedaços da máscara estavam incrustados na carne mumificada do rosto. Imaginou como seria ter pele crescendo sobre pedaços de cerâmica, integrando, acolhendo-os...
Subitamente, ela não conseguia sair da caverna rápido o suficiente. As mariposas ergueram-se num redemoinho ao seu redor.
'Akhan retornou para casa com uma bolsa cheia de ervas e, enquanto a mãe Cho-Shadi possa ter erguido as sobrancelhas enquanto polia sua longa lança, a mãe 'Fihad nada disse sobre o atraso. Em vez disso, ela simplesmente sorriu e orientou 'Akhan a ajudar a preparar as ervas.
"Vi um troll hoje", disse 'Akhan, mantendo a voz casual enquanto empacotava as ervas em pequenas bolsas de linho. 'Fihad já removera os órgãos enegrecidos de Cho-Hanni, e as bolsas de 'Akhan logo ocupariam seu lugar.
A mãe 'Shadi, que não tinha medo de nada, moveu-se quase imperceptivelmente. A mãe 'Fihad suspirou e pegou uma bolsa de 'Akhan. "Eles têm estado inquietos. Muito mais..." Sua fronte franziu-se. "Algo ruim está vindo. Rushwood está com medo." Narinas dilatadas. "Isto cheira à Cidade de Mercadia."
'Akhan cerrou a mandíbula. Era uma discussão antiga, esse assunto sobre a Cidade de Mercadia. "Nada de ruim está vindo, Mãe." Ela entregou outra bolsa de ervas fragrantes. "Mercadianos não vêm aqui. Eles apenas sentam em sua grande cidade brilhante, e nunca enviam soldados."
Mercado do Penhasco | Arte de Matt Stewart
A mãe 'Shadi bufou. "Ouça nossa filha crescida, 'Fihad. Tão conhecedora em assuntos de império. Tão certa de que aquela grande gaiola polida não se move."
'Akhan sentiu a mandíbula tencionar. "Gente da cidade gosta de suas cidades, e cidades não se movem. Mercadia não virá, e nem nada mais virá. Se houver algo, você deveria se preocupar em me fazer caminhar tão longe para coletar ervas quando há terra perfeitamente boa lá atrás. 'Ran me ajudaria a trabalhá-la, e eu não correria o risco de ser comida por trolls!"
'Fihad sorriu o sorriso de sombra que significava que estava pensando no pai de 'Akhan, lembrada por algo no rosto ou voz ou movimento de 'Akhan. Talvez fosse por isso que escolhera 'Shadi depois que seu marido estava há seis anos no rio. A rústica 'Shadi, rápida com uma lança, econômica com as palavras, tão diferente do pai de 'Akhan quanto um jaguar era de um cordeiro. 'Akhan, sentindo o desconforto pinicante que sentia toda vez que via aquele sorriso, deu por si desabafando:
"Encontrei uma pessoa morta, também."
'Fihad olhou para cima de Cho-Hanni, preocupada. "Não alguém da aldeia?" perguntou ela. "A doença está se espalhando?"
'Akhan balançou a cabeça rapidamente. "Não, não. Não assim. Alguém morto há muito tempo, escondido em uma caverna. Ela tinha uma máscara —" e aqui ela ergueu as mãos ao rosto para dar ênfase "— construída direto no rosto dela."
Os olhos de 'Fihad aguçaram-se. "Parece que você encontrou uma de nossas antigas xamãs. Não restam muitas — Rushwood tende a engoli-las."
'Akhan ergueu uma sobrancelha. "Xamãs? Xamãs apenas leem a colheita e abençoam a caçada. Leem palavras bonitas quando as pessoas morrem. Esse tipo de coisa." Eles não empurram pedaços de cerâmica para dentro da pele.
"Talvez não as nossas xamãs. Mas minha mãe costumava me contar histórias. Ela me disse que há muito tempo, nossos ancestrais honravam seu povo com máscaras. Não apenas seus próprios ancestrais, mas as pessoas que estavam vivas, também. Seus pais e irmãos e filhos que partilhavam sua mesa." Ela olhou para baixo para Cho-Hanni, esperando para ser costurada e envolta. "Os vivos junto com os mortos."
"Hum-hum." 'Akhan passou agulhas finas de osso para sua mãe, afiadas o suficiente para atravessar um dedo de ponta a ponta antes que se pudesse sequer sentir. "Vivos e mortos. Entendi." Ela não queria parecer interessada. 'Fihad sempre tomava aquilo como um convite para puxá-la para divagações sobre misticismo antigo e rios antigos carregando almas antigas. Mas ela estava interessada, e aquilo era quase mais irritante por si só do que qualquer coisa em que 'Fihad acreditava.
'Fihad pegou as agulhas oferecidas pela filha e enfiou a linha em uma, curvando-se para a tarefa de recompor o corpo de Cho-Hanni. "Soa estranho, não soa? Mas aquelas xamãs, faziam suas máscaras de todas as peças diferentes. Como um quebra-cabeça, ou um mosaico. Cada peça era destinada a representar ou canalizar um aspecto diferente de seu povo. Tipo uma imagem de quem eram e do que podiam fazer. Há grande poder nesse tipo de união. É uma pena o que esquecemos."
"Uma imagem, claro." 'Akhan fez questão de balançar a cabeça, completando seu trabalho em silêncio. Mas, no fundo de seu ser, sentiu um pequeno frisson.
Longas horas haviam passado desde que o corpo de Cho-Hanni fora levado ao rio, repousando num esquife de cedro fragrante e envolto nas cores do luto. O xamã deles — o xamã normal com seu rosto normal — dissera suas palavras sobre o corpo enquanto a mãe 'Fihad cobria os olhos. Ela dizia que as cuidadoras deveriam cobrir os olhos para que a alma pudesse deslizar do corpo para dentro do rio sem que todos estivessem observando, e 'Akhan fizera o gesto também sem realmente querer dizer nada. Fazia aquilo desde que era pequena. O rio era pacífico e belo, um bom lugar para um funeral. O que não era, era algum tipo de estrada mágica das almas. Cho-Hanni se fora. Fim da história.
Agora estava escuro, e uma chuva pesada de verão batia contra o telhado. Por sobre a chuva, ela ouvia 'Ran roncando pesadamente do outro lado da parede de pano que os dividia. Seu irmão mais velho retornara para casa do patrulhamento logo após o corpo de Cho-Hanni ter sido queimado até virar cinzas e espalhado no rio. Sem surpresa para 'Akhan, ele não trazia notícias de soldados mercadianos aproximando-se ou de máquinas de guerra construídas na cidade, embora tivesse uma história improvável sobre um ataque de urso que fez a mãe 'Shadi bufar e dar-lhe um tapa na nuca. Julgando pelos seus roncos, ele dormiria profundamente e acordaria cedo, pronto para estar de pé e movendo-se. Ele até concordara em ajudá-la com seu jardim de ervas, oferecendo uma piscadela conspiratória quando a mãe 'Fihad não estava olhando. Seria um bom dia.
Os ruídos noturnos deveriam tê-la embalado para dormir, mas em vez disso aguçaram seus sentidos. Ela continuava pensando na mulher xamã morta e sua máscara de imagem de xamã morta, coberta e esquecida naquela sala de terra desmoronando.
Ao menos ela tem mariposas estranhas para lembrá-la. Dê a ela uma luz para ver por...
Antes de saber bem o que estava fazendo, 'Akhan estava totalmente vestida e saindo furtivamente pela porta, confiando na chuva e nos roncos abundantes de 'Ran para encobrir o som de sua passagem. A chuva fustigante chocou sua pele e achatou seu cabelo preto contra a cabeça num instante.
Ela partiu em direção ao rio.
Refez seus passos do dia anterior, seguindo a curva da água impetuosa. O rio corria largo e selvagem, transbordando suas margens, exultando com a chuva. Estava prestes a embrenhar-se nas árvores quando algo a parou bruscamente.
Aquele algo era a mãe 'Shadi, encharcada pela água da chuva, longa lança na mão. Estava imóvel como uma estátua, olhando para alguma grande massa que jazia aos seus pés. A água que caía da ponta da lança estava tingida de vermelho.
"Morta por dentro", murmurou 'Shadi conforme 'Akhan aproximava-se. Inclinou a ponta da lança para baixo para apontar. Fascinada, 'Akhan seguiu a linha da lança até o cadáver do troll de chifres estirado na lama. 'Shadi abrira a barriga dele, e entranhas fétidas e enegrecidas transbordavam do corte.
"Como Cho-Hanni", sussurrou 'Akhan. O cheiro da doença subia através da chuva fustigante.
Mais pessoas na aldeia ficaram doentes. Não demorou muito. Cho-Annu, a fabricante de lanças. Cho-Biaal, que levava o dia todo para lavar suas roupas para poder ouvir toda a fofoca nas margens do rio. Cho-Tunni, que mantinha três cães e nenhum marido. Pessoas que 'Akhan conhecera por toda sua curta vida, derrubadas uma a uma. Os curandeiros tentaram tudo o que sabiam, artes antigas e novas medidas igualmente, mas ainda assim os doentes ardiam em febre. Um a um, seguiram o caminho que Cho-Hanni trilhara. Cho-Annu, Cho-Biaal, Cho-Tunni, todos estendidos na casa de 'Akhan e suas mães, cinzas para o grande rio.
'Ran com seu cabelo de penas de corvo, filho mais velho dedicado, irmão amado de 'Akhan, sentiu seus pulmões curvarem e enegrecerem em seu interior. Morreu em sua casa, e mal tiveram que movê-lo um metro para prepará-lo para sua jornada.
Sua jornada. As palavras amargaram no fundo da língua de 'Akhan, não ditas e rudes. Não haveria jardim agora. A mãe 'Fihad acariciou o cabelo do filho, ainda úmido de suor antigo. "O rio o guiará fielmente", disse ela. "Ele o levará ao descanso."
Uma mariposa marrom e peluda, presa dentro da casa, batia contra o teto, procurando uma saída. 'Akhan observou-a lutar, sentindo-se impotente e irada. "Não há nada de especial naquele rio", disparou ela. "'Ran está morto." E então, mais baixo: "Ele não vai voltar".
'Fihad nada disse, e 'Akhan fingiu que não via que sua mãe estava chorando enquanto preparava o corpo de seu filho. Cerrou a mandíbula, dentes rangendo, e contou as bolsas de ervas. Fizera tantas, ultimamente. Pela primeira vez, invejou a crença de sua mãe. 'Fihad encontraria paz em algum lugar naquilo tudo, mesmo com seu filho morto nos braços. Mas para si mesma, 'Akhan tinha certeza de que não haveria paz.
A mariposa continuava a lutar, seu pequeno corpo chocando-se contra o teto repetidas vezes. 'Akhan queria gritar. Há uma janela, pensou ela. Está bem ali. Apenas voe para baixo, e estará livre.
Apenas voe para baixo.
A máscara saltou em seus pensamentos. A máscara da xamã morta, lá embaixo, lá embaixo, lá embaixo da terra, iluminada com conhecimento antigo e um sussurro de asas empoeiradas. Ela teria visto isto, pensou 'Akhan. Se ela realmente tivesse poder, se a Mãe estivesse certa, ela teria visto isto vindo. Não teria?
'Akhan passou a mão pelos olhos e encontrou um véu de lágrimas.
'Ran estava há nove dias no rio quando 'Shadi trouxe notícias. Batedores Cho-Arrim, estimulados no rastro da morte de 'Ran, haviam circulado os olhos com suas cinzas e desaparecido nas matas de Rushwood, 'Shadi entre eles. Retornaram no pré-amanhecer com relatos de mercadianos, pequenos bandos de soldados portando o brasão de sua cidade brilhante. Os soldados viajavam leve. Carregavam poucas armas. Mas em seu rastro, as árvores estremeciam e gemiam. Raízes contorciam-se na terra, e saguis caíam de seus lares altos para apodrecerem em leitos de folhas mortas.
Remanso Sombrio | Arte de Sam Burley
Estavam trazendo doença para Rushwood.
"Nada além de carniceiros", murmurou 'Shadi enquanto limpava a sujeira de seus braços nervosos. "Vão nos matar a todos sem sequer pôr um dedo num único Cho-Arrim, então limparão nossos ossos pelo que restar."
Rushwood está com medo.
Mercadia não vem aqui.
'Akhan nunca se sentira tão culpada na vida. O sentimento assentou-se em seus ossos, pesado e escuro. Ela teria apostado sua vida que os medos de 'Fihad eram coisa de superstição, uma adulta que não entendia que o mundo mudara. Em vez disso, 'Fihad estava certa, e 'Ran pagara pelo erro de 'Akhan com a própria vida.
Ele estava morto por causa dela. Porque ela não acreditara na mãe. Porque ela apenas sabia como preparar um corpo, não salvar um. Porque, porque, porque.
Naquela noite, quando a lua estava alta sobre a copa das árvores, 'Akhan deixou sua casa e seu desfile de parentes mortos. Mariposas marrons esvoaçavam no ar ao seu redor, asas captando a luz do luar. Observaram-na partir.
Caminhou furtivamente pelo frio úmido, derivou ao lado do rio, fez seu caminho até aquele túmulo antigo e sua máscara xamânica. Seu corpo parecia oco. Seu coração parecia cheio de mariposas esvoaçantes. Mariposas ao luar. Mariposas sob a máscara. Sentia que se abrisse a boca, elas viriam borbulhando de sua garganta.
Encarou para baixo a xamã, há muito morta e inescrutável. Encarou, e então abriu a boca. As mariposas preenchendo seu corpo verteram para fora. As mariposas preenchendo a máscara ergueram-se e dispersaram-se.
Ela gritou, e gritou.
A princípio, foi sem palavras. Uma vida inteira de confiança, estilhaçada. Um irmão mais velho que vivera a vida nas matas selvagens, morto no chão da casa deles. Um pai que não acordara, e uma mãe que chorava cada noite enquanto seus filhos pequenos tentavam não ouvir. Uma película espessa de cinzas cobrindo as águas do rio impetuoso. Mercadia.
Mercadia.
Mercadia.
Ela desabou contra a parede de terra, exausta. "Por quê?", sussurrou entre lábios secos. Por que isto aconteceu? Por que estamos morrendo? Por que você está aqui com sua máscara e seus segredos, observando meu mundo desmoronar?
Ela fechou os olhos.
"Os Cho-Arrim não lembram", disse uma voz em sua cabeça. "Eles souberam, um dia. Como ser muitos."
"Mas... como?", murmurou ela. Sabia que estava adormecendo, falando com uma sala vazia. Não a incomodava. Ela já estivera errada sobre tanta coisa.
"A máscara tem poder", veio a voz novamente. "Você a faz com pedaços do seu mundo. Você se torna um reflexo do seu povo." Uma hesitação. "Você perde a si mesma, no entanto. Você faz de si mesma uma imagem de todos os outros, mas ela cobre você."
Lágrimas escorreram por entre as pálpebras fechadas de 'Akhan.
"Hum-hum. Ela cobre você. Entendi." Sugou uma respiração estremecida. Sentia o peso esmagador da razão da mãe 'Fihad, da lança sangrenta da mãe 'Shadi, da cidade capital que acenara com a mão e matara 'Ran a um milhão de milhas de distância. Todas aquelas mortes, enchendo o ar de cinzas.
"Não me importo de ser coberta", disse ela. "Se salvar meu povo, não me importo. Não ajudei minha família. Não pude salvar meu irmão. Não é uma perda tão grande, perder a mim."
A voz soou triste quando falou novamente. "É sempre uma grande perda quando uma família perde um filho."
'Akhan sentiu-se sorrindo. "Então vou garantir que nenhuma família mais precise passar por isso."
A decisão estava tomada. Mariposas castigavam o ar ao seu redor, uma tempestade crescente de asas e luz. 'Akhan sabia que não teria tempo de construir uma máscara antes que a onda do império desabasse sobre eles... mas talvez não precisasse.
'Akhan sentia o sangue em seu rosto, descendo em cascata pelos lugares onde sua pele fora aberta. Sob a luz do que pareciam ser centenas de asas macias, ela arrancara os pedaços da máscara do rosto da xamã morta. A xamã não oferecera muita resistência. Sem se permitir hesitar, 'Akhan começara a empurrar os fragmentos de cerâmica empoeirada em seu próprio rosto.
Por 'Ran. Por minhas mães. Pelos Cho-Arrim.
A dor a rachou como fruta madura. Flores vermelhas sangrentas desabrocharam nas fendas de sua pele.
Havia poder, também. Surtos dele, crescendo atrás de seus dentes e contra os pulsos, sacudindo em grandes faixas pelos músculos delgados de suas costas. Por breves momentos, conforme fazia seu caminho tropeçante de volta à sua aldeia, poderia jurar que seus pés deixavam o solo para trás. Por um batimento do coração, ela flutuava, apenas para enganchar o pé no passo seguinte e por pouco evitar cair de joelhos. Uma grande força inundava seus membros, depois drenava e a deixava lutando para colocar um pé à frente do outro. Piscou os olhos e Rushwood foi substituída por fileiras sobre fileiras de militares mercadianos, o sol brilhando em seus elmos. E à frente deles, a mãe 'Shadi à frente de guerreiros Cho-Arrim reunidos. Prontos.
Outro piscar, e ali estava a floresta novamente, os exércitos desaparecidos.
Mercadia está vindo, pensou através da névoa de poder oscilante. Mercadia está vindo, e a mãe 'Shadi tentará repeli-los.
Precisava alcançá-los. Precisava chegar à aldeia e encontrar 'Shadi. Encontrar seus guerreiros. Precisariam da arma que ela trazia, a arma—
Com um solavanco nauseante no ventre, percebeu que não chegaria a tempo. Pensara em trazer uma grande arma, algo para lançar de volta contra os invasores, para mostrar a força dos Cho-Arrim, mas seu corpo e mente estavam se despedaçando sob a pressão da máscara da xamã morta. O poder era emprestado, e não conseguia encontrar um caminho para criar raízes dentro de 'Akhan.
Sua pele parecia úmida.
O rio. Estava no rio.
No momento antes de submergir, pensou ter visto a superfície da água brilhando suavemente. Rio cheio de almas, pensou ela. A mãe 'Fihad quereria que eu cobrisse os olhos.
Passou sob a superfície brilhante, sentindo a água fresca preencher as lacunas entre sua carne e os fragmentos da máscara. Alívio. Alívio da dor, alívio dos vestígios cintilantes do poder há muito enterrado. Abriu os olhos.
Os mortos olhavam de volta para ela.
Estavam por toda parte. Pessoas Cho-Arrim, como ela, e pessoas mais velhas que os Cho-Arrim, rodopiando na correnteza. Supunha que devesse sentir medo. Ou, talvez, transcendência.
Oh, aí estão vocês, pensou em vez disso. Desejou que 'Fihad pudesse ver. Todas aquelas cinzas vertidas no rio, todos os ritos... não estava vazio de forma alguma.
Um nó formou-se em sua garganta. Achei que tivessem partido. Todos vocês, achei que tivessem partido.
Sinto muito.
Uma das almas estendeu a mão e tocou a pele ferida de 'Akhan. Um frescor separado da água a inundou. Um pedaço de cerâmica soltou-se de seu rosto e derivou em direção ao leito do rio.
Máscara Ancestral | Arte de Magali Villeneuve
Não, eu preciso daquilo... pensou ela. Mais almas roçaram contra ela, unindo sua carne e expelindo a máscara. Parem, vocês não podem...
A esperança para os Cho-Arrim caiu dela em lascas de cerâmica. Perguntou-se vagamente se era possível chorar sob a água.
O último pedaço caiu.
A água ao seu redor começou a zumbir.
A alma mais próxima dela estendeu a mão e acariciou seu rosto. 'Ran, percebeu ela. Este é o 'Ran. Era como lembrar de alguém de muito tempo atrás, ou olhar para eles de uma grande distância. Seus dedos roçaram o traçado de cicatrizes frescas, e 'Akhan sentiu seu corpo inundar-se de luz. Onde antes sentira explosões incontroláveis e refluxos de poder imprevisível, agora sentia um pulso constante, conectando-a com cada alma no rio. Estavam vinculados, amarrados uns aos outros, viajantes na última longa estrada.
Uma única imagem perfeita.
Subitamente, 'Akhan sentiu-se sendo arrancada para cima. As almas ao seu redor dispersaram-se como uma nuvem de mariposas enquanto ela rompia a superfície do rio. Alguém agarrava seu braço e gritava seu nome. Um rosto, de algum modo familiar. A mãe 'Shadi, olhos selvagens de preocupação, puxando-a para a margem do rio.
"Conheço você..." disse 'Akhan. Seus pensamentos estavam lentos. "Você é uma das minhas mães."
'Shadi soltou uma risada rascante. "Ouça esta minha filha, esquecendo meu rosto só porque caiu no rio." Tinha lágrimas nos olhos e as limpou com o calcanhar da mão. Seus olhos arregalaram-se, então, e ela absorveu o rosto de 'Akhan pela primeira vez.
"'Akhan, o que aconteceu? Quem fez isso com você?"
'Akhan ergueu uma mão e tocou a pele. Padrões em relevo saudaram seus dedos, círculos e espirais de tecido cicatricial. Sentou-se cuidadosamente, afastando-se do aperto de 'Shadi, e perscrutou o rio. Ele não parecia mais brilhar, mas as cicatrizes brilhavam. Refletidas na água, pareciam exatamente com uma máscara.
Ela sorriu um sorriso lento e levantou-se. Algumas mariposas, roçando a superfície da água, voaram e dançaram ao redor de sua cabeça.
"'Shadi? Você a encontrou?"
'Fihad apareceu em uma curva do rio e veio correndo em direção a elas. Quando viu o rosto de 'Akhan, parou bruscamente, lágrimas nos olhos. "Oh, 'Akhan", disse ela, roçando o rosto da filha com as pontas dos dedos. Seu sorriso era aquele sorriso triste, o que falava do pai de 'Akhan e que agora falava também de 'Ran. "Esperava que não perdêssemos você também."
'Akhan ergueu os braços e envolveu 'Fihad em um abraço quente. "Sou Cho-Akhan", sussurrou ela no ouvido de 'Fihad. "Sou Cho-Ran. Sou Cho-Hanni, Cho-Annu e Cho-Biaal. Sou Sia-am-Erh, sepultada sob o bosque. Sou você, Cho-Fihad. E sou Cho-Shadi. Sou nossa família. Sou a família da nossa família."
'Fihad afastou-se e encarou o rosto da filha. Seus olhos estavam cheios de orgulho feroz e tristeza profunda.
'Akhan assentiu e ergueu a cabeça. A força surgiu em seus membros. Sentia o rio em seu sangue, a floresta espalhando-se por toda a extensão de seu corpo. Um coro de vozes cantava em seu coração, Cho-Arrim e as pessoas que deram origem aos Cho-Arrim. Um exército cairia perante ela, sabia ela. Mercadia a contemplaria, e saberia que ela era muitas vozes. Um mosaico de tudo o que seu povo era, e tudo o que poderia ser.
"Mostre-me nosso exército", disse ela para 'Shadi, a mulher que fora sua mãe.
Os mercadianos esperavam encontrar uma única aldeia enfraquecida, cheia de doença e pronta para ser tomada. Não esperavam encontrar cada Cho-Arrim que um dia chamara Rushwood de lar. Não esperavam uma luta.