Oath of the Gatewatch

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

09 de Dezembro de 2015 | Por Kelly Digges

A Ascensão de Kozilek

A tritã Planinauta Kiora fez grandes esforços para defender seu mundo contra os Eldrazi. Ela roubou a arma divina de uma deusa no plano de Theros e a trouxe de volta a Zendikar. Ela se lembrou das antigas histórias dos deuses tritões, e de como o deus trapaceiro Cosi — uma memória distorcida do Eldrazi titan Kozilek, que distorce a realidade — fez de bobo Ula, o deus do mar, que era na verdade o titã Ulamog. Com Ulamog assolando Zendikar, Kiora inspirou-se nas velhas histórias dos truques de Cosi para enfrentar o que ela pensa ser Ula, deus do mar.

Os outros Planinautas que estão lutando contra os Eldrazi pensam que estão prendendo Ulamog, mas Kiora não tem intenção de parar por aí. Ela tem sua arma divina. Ela tem aliados poderosos das profundezas. Seu curso agora é claro.

Sua batalha com um deus está finalmente próxima.

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Kiora desceu suavemente das alturas vertiginosas do Portal Marinho, parada na ponta de um massivo tentáculo com ventosas, segurando o bidente que mataria um deus.

Planinautas deveriam ter visão.

Ela não estava brava. Não de verdade. Não chegara tão longe confiando nos outros para verem as coisas do seu jeito, e não tinha total certeza de por que se dera ao trabalho de tentar convencê-los. Mas o pensamento de enfrentar Ula era tão grandioso, tão inebriante. E ela tinha uma arma que podia fazer o serviço. Certamente alguém iria querer partilhar daquele triunfo!

As guelras de Kiora abriram-se quando o tentáculo do polvo gigante mergulhou sob a superfície. Ali, esperando por ela nas águas rasas que banhavam o Portal Marinho, estava seu próprio exército, aquele que os caminhantes do seco haviam descartado: cinco dos próprios trapaceiros de Cosi e uma legião de monstros marinhos.

"Qual é o plano?", perguntou um dos trapaceiros, na língua peculiar usada pelos tritões sob a água. Shen, era o nome dele.

"Nós nos separamos", disse Kiora. "Não temos tanto tempo quanto pensávamos."

"Algo errado?", perguntou outra dos trapaceiros, Yesha.

"Nada de forma alguma", disse Kiora. "Ula está — Ulamog está vindo para cá."

"Quem disse?", perguntou Shen.

Trapaceiros eram notoriamente céticos, agudamente conscientes de quão fácil é fazer uma afirmação — e quão difícil é provar que uma é falsa.

"Uma mergulhadora de ruínas chamada Jori En", disse Kiora.

"Já ouvi falar dela", disse Shen. "Ela é confiável."

Uma escolha cuidadosa de palavras. Jori poderia ser confiável, mas não era devota de Cosi.

"Fica ainda melhor", disse Kiora. "Vocês se lembram daqueles outros mundos de que lhes falei? Aqueles para os quais posso viajar?"

Os trapaceiros murmuraram afirmativamente. Ela não tinha certeza de quanto daquilo acreditavam, mas era evidente o suficiente que o bidente não viera de lugar nenhum de Zendikar.

"Bem, de acordo com os estudiosos lá na torre, talvez nem precisemos matar Ulamog. Se o ferirmos o suficiente, ele pode deixar Zendikar para trás e perturbar algum outro mundo."

Os trapaceiros não se regozijaram — ela não esperara que o fizessem — embora provavelmente não pelas mesmas razões que a elfa de coração mole lá na torre.

"Se ele pode partir, pode retornar", disse Yesha.

"Se ele partir", disse Kiora, segurando sua arma divina roubada, "eu posso segui-lo".

"Então qual é o plano?", perguntou Shen novamente. Ele era o menos paciente dos cinco, o mais propenso a questioná-la — um adorador verdadeiramente devoto de Cosi. Kiora gostava de Shen.

"O plano deles é atrair o titã para algum tipo de armadilha de hedros", disse Kiora, "e vinculá-lo a este mundo, como ele estava antes. Sem dúvida é uma noção atraente para pessoas que podem arrumar as malas e partir quando terminar".

Os trapaceiros fizeram sons de desgosto.

"Nosso plano é matá-lo se pudermos, e expulsá-lo se não pudermos", disse Kiora. "Felizmente para nós, o plano deles e o nosso são compatíveis... até certo ponto. Vamos atingir Ulamog com força com tudo o que temos, e se isso significar que tiraremos proveito da diversão deles, tanto melhor. Tola, Inash, Runari — vocês ficam aqui. Ajudem os outros caminhantes dos mundos com sua armadilha de hedros, e colaborem em matar Ulamog se eles recobrarem o juízo. Se não... façam o que tiverem que fazer."

Kiora, Mestra das Profundezas | Arte de Jason Chan

Os três trapaceiros assentiram e nadaram para longe. Kiora enviou um comando para metade de seus monstros marinhos, um lembrete gentil de que esses tritões emitiam comandos em nome dela. Ela estimou as chances de isso funcionar em cerca de metade — chances de maré, os tritões chamavam isso, às vezes a favor, às vezes contra. Mas os trapaceiros deveriam estar seguros, ao menos.

Kiora virou-se e nadou para longe do Portal Marinho, em direção ao mar aberto. Shen e Yesha a acompanharam, junto com a outra metade de sua armada. Abriram caminho através da nuvem de proles Eldrazi nadadoras que cercavam Ula, e então estavam livres, com nada além de água à frente deles.

"E quanto a nós?", perguntou Shen. "Para onde estamos indo?"

"Para fora e para baixo", disse Kiora. Fora era um ponto cardeal tritão, sempre para longe da costa mais próxima — embora Kiora às vezes o usasse para descrever aquela direção que apenas ela e os como ela podiam mover-se, para fora do mundo e para longe das margens da realidade.

"Você vai nos dizer por quê?", perguntou Shen.

"É importante o suficiente para afastar Kiora de Ulamog", disse Yesha. "Isso é bom o suficiente para mim."

Aquilo calou Shen, ao menos, mas Kiora conseguia vê-lo pelo canto do olho, com a mandíbula cerrada e olhos sombrios. Os trapaceiros não seguiam Kiora porque ela era uma Planinauta, ou mesmo porque ela era poderosa. Eles a seguiam porque queriam fazer parte da história que ela estava contando, uma história sobre roubar uma arma de um deus e usá-la para derrubar outro.

Nadaram por aquele silêncio carrancudo por um longo tempo, passando pela plataforma continental e saindo sobre águas abertas. Atrás e abaixo deles estavam os monstros marinhos de Kiora, mordendo uns aos outros inquietamente enquanto nadavam. Estavam entediados, prontos para a ação. Kiora não os culpava.

"Aqui já está bom", disse Kiora, e o trio parou.

Shen e Yesha esperaram.

"Por milhares de anos, nós e nossos ancestrais adoramos sem saber os titãs Eldrazi", disse Kiora. "Tenho certeza de que ainda há alguns que o fazem."

Shen resmungou diante disso. Muitos tritões assumiam que se algum de seu povo ainda detivesse os Eldrazi em reverência, os trapaceiros certamente estariam entre eles — quando na verdade nada poderia estar mais longe da verdade.

"Nós que mantivemos a fé de Cosi sabemos que não há nada de especial sobre os deuses. Não existe tal coisa como divindade. Existe apenas poder. E qualquer coisa com poder suficiente, especialmente algo antigo, pode reivindicar o manto da divindade. Roubei esta arma de um ser que se chamava de deusa, e é uma arma digna de um deus. Mas vamos lembrar que os Eldrazi não são as únicas coisas que nosso povo adorou como divinas."

Ela olhou para baixo, para o abismo que se estendia abaixo deles. Os olhos de Shen arregalaram-se.

"Afinal de contas", disse Kiora, "o que mais você chama a um ser que pode ter estado vivo para ver os Eldrazi serem aprisionados para começo de conversa? O que mais você chama àquele cujos movimentos comandam as próprias marés?".

Agora Yesha entendeu, também. Kiora viu em seus olhos.

Kiora segurou o bidente à sua frente e canalizou cada gota de poder que tinha em si. O bidente começou a brilhar — azul, depois branco, até que o brilho da coisa fosse ofuscante. Kiora espalhou-se pelas correntes, as gavinhas de sua percepção estendendo-se como tentáculos contorcidos. Perdeu-se, um grão flutuando em um mar vasto e faminto, e os oceanos de Zendikar abriram-se para ela. Próximo — perto do grão, perto demais — estava Ula, uma grande mancha escura espalhando uma mancha de tinta de corrupção morta e sem sentido.

Ela estendeu-se mais longe, então. Através do mar. As formas dos continentes revelaram-se em espaço negativo, as cristas e vales do leito marinho alcançando entre eles. Em algum lugar lá fora, nadando através do vasto e escuro mar, estavam sua irmã e mais algumas dúzias de tritões, mas Kiora não conseguia distingui-los das baleias e do krill e dos destroços. Passou por eles, então, ou passou por onde esperava que estivessem agora, para as margens distantes de Murasa.

Ali. Encontrou-o, enrolado firmemente nas profundezas, dormente. Adormecido. Kiora nunca ousara chamá-lo — não tivera certeza, para ser honesta, se sequer conseguiria. Mas ela não o estava chamando agora, não exatamente, ou ao menos não sozinha. O bidente estava chamando. Ele responderia.

Na escuridão distante, um olho abriu-se.

Kiora voltou a si, abriu seus próprios olhos. Não tinha ideia de quanto tempo passara, mas sentia-se como se estivesse nadando por horas. O brilho do bidente desvaneceu, mas não se dissipou totalmente, pulsando gentilmente em um ritmo lento e constante.

"O que é isto?", perguntou Shen. "Por que chamá-lo, se Ulamog está tão perto? De que serve o poder se ele está a um oceano de distância?"

"De nada", disse Kiora. "Foi por isso que não o chamei."

A água tornou-se muito fria, e muito parada.

"Eu o convoquei."

Yesha hesitou.

"O que faz você pensar que sequer consegue—"

Então ele estava ali com eles, uma escuridão vasta e turbulenta que bloqueou o pouco sol que filtrava até eles.

Lorthos, o Criador de Marés | Arte de Kekai Kotaki

Lorthos!

Ela convocara, e ele veio! Kiora teria rido, se fosse um pouco menos aterrorizante.

O grande vulto moveu-se, girou, uma paisagem inteira de cracas e cicatrizes e carne arfante e borrachuda passou veloz ao lado deles. Era estonteante, como voar. Finalmente, um bico enorme rolou para a vista, uma bocarra que poderia engolir uma baleia sem mastigar.

Espere! enviou Kiora, segurando o bidente mais uma vez. Canalizou o pensamento através do bidente, mas não foi um comando, não como quando ela exigia que suas feras marinhas menores a obedecessem. Foi um apelo. Há intrusos em seu mar, grande mestre. Você lutará contra eles comigo?

O bico abriu e fechou e abriu novamente, mas o grande polvo não a engoliu inteira.

Não sou fraca, pensou Kiora. Eu o convoquei aqui, e carrego uma arma que pode feri-los. Juntos, você e eu podemos dar a essas criaturas uma lição de humildade.

Aquelas eram construções de civilização, arma e lição e humildade, mas certamente algo dentro de Lorthos sabia que ele era o poder, e o poder deve se defender.

O bico fechou-se, e a vasta complexidade do corpo enorme de Lorthos voou por eles mais uma vez. Por fim, o olho dele rolou para a vista, brilhando em azul, o olho e o bidente pulsando juntos no mesmo ritmo. Quão pequenos três pequenos tritões deveriam parecer para ele! Grãos insignificantes, dançando na escuridão, ousando pronunciar seu nome.

Então ele girou e afundou abaixo deles, expondo o topo de seu manto. A sucção puxou Kiora e seus trapaceiros, e eles nadaram com ela. Suas criaturas marinhas menores recuaram para as bordas de sua percepção, tentando ficar fora do alcance daqueles tentáculos enormes.

"Segurem-se em algo!", disse Kiora. "Isto não vai ser suave."

Shen e Yesha encontraram lugares de descanso entre os sulcos da pele de Lorthos. Cicatrizes profundas o suficiente para se esconderem, cracas maiores que as maiores amêijoas que ela já vira — a escala dele era quase incompreensível. E Ula é ainda maior.

Kiora ocupou seu lugar no topo do manto de Lorthos, seu bidente ainda pulsando em ritmo com o olho dele. Shen ocupou um lugar perto dela, sem dúvida pronto para assumir o bidente caso ela caísse. Ela captou o olhar dele e piscou.

Ainda não.

Então Lorthos subiu, e Kiora subiu com ele.

Ela não precisou dizer a ele para onde ir. Ele sabia, podia sentir a intrusão do titã Eldrazi em seus mares. Ele não poderia saber de outros mundos, provavelmente não tinha ideia do que os Eldrazi eram. Mas ele conhecia o poder — e conhecia um desafio.

Lorthos lançava-se para frente em impulsos, expandindo-se e contraindo-se como um coração maciço. Kiora rangeu os dentes. Viajar por polvo era sempre assim, mas aquilo era pior — ele era tão malditamente grande. Ainda assim, ela não podia argumentar contra os resultados, conforme cada impulso os empurrava centenas de metros para frente.

Lenta mas inexoravelmente, Lorthos e Ula convergiram para o Portal Marinho.

Os monstros marinhos de Kiora espalharam-se ao redor deles, agindo como uma tela contra as ondas de proles. Sua mente era puxada em dezenas de direções ao mesmo tempo, tentando manter o controle sobre esta vasta armada conforme seus membros eram feridos, seus instintos embotados mudando de luta para fuga.

A água tornava-se mais rasa à medida que se aproximavam e logo cada impulso de Lorthos levantava seus passageiros para fora da água, piscando no sol e no ar, apenas para enviar o oceano desabando de volta ao redor deles. Então tornou-se raso demais até para isso, e Lorthos puxou-se com seus tentáculos. Seu manto rompeu a superfície e permaneceu lá, levantando grandes ondas no pequeno porto e dando a Kiora sua primeira visão clara do inimigo.

O plano dos outros Planinautas estava funcionando. Ula estava dentro de um anel de hedros, que brilhavam intensamente com luz vinculante e ofuscante. Seus braços e tentáculos debatiam-se, golpeando seus agressores e sua prisão, mas ele parecia estar preso.

Arte de Craig J Spearing

Olhem para ele! Aquele era o rosto de um deus? Aquela brancura óssea e opaca? Ele parecia tão estúpido, flutuando desajeitadamente como uma lula presa numa armadilha. Por que alguém pensara que aquela criatura patética fosse digna de reverência? Apenas por ser grande? Rá!

Ele era realmente grande, porém.

Ali, tão perto e aproximando-se ainda mais, a enormidade de seu inimigo começou a se assentar. Ele agigantava-se acima da água, quase tão alto quanto o farol, embora estivesse parcialmente submerso. Comparado a um titã Eldrazi, até Lorthos parecia pequeno. Numa luta direta, o grande polvo de Murasa provavelmente não teria chance. Sorte dele que a tinha para ajudá-lo.

Então algo deu... errado. O poder que corria pela rede de hedros tornou-se vermelho, depois preto. Flamejou em um dos hedros, um clarão escuro. Então, um por um, os hedros começaram a cair do céu.

Kiora não sabia o que acontecera, nem como. Talvez os hedros estivessem podres, ou defeituosos, ou o que quer que os hedros ficassem quando você os deixa parados por alguns séculos a mais do que o necessário. Ou talvez ele simplesmente tivesse quebrado a prisão. Qualquer que fosse a causa, o efeito era claro: Ula estava livre de sua prisão.

Adiante! instou ela a Lorthos, embora ele mal precisasse que ela lhe dissesse. Ela sorriu e arriscou ficar de pé, firmando-se com o bidente. Finalmente, puniria Ula pelo que ele fizera ao seu povo e ao seu mundo — pela destruição desde sua libertação, pelos milênios de engano antes dela, por ser a podridão purulenta no coração deste plano por tanto tempo.

"Ula!", gritou ela. "Vire-se e encare-me, seu verme!"

Shen olhou para ela como se tivesse enlouquecido. Foi gratificante.

Ula não se virou para ela, mas para o outro lado, para avançar pesadamente ao longo da muralha marinha, em direção à margem. Covarde!

A água começou a agitar-se, tornando-se picada e violenta. A princípio pensou que pudesse ser sua própria fúria, canalizada inconscientemente através do bidente. Mas não — não, aquilo era algo diferente. Algo mais estava acontecendo e ela não sabia o que era e então ela viu e oh deuses e monstros—

Arte de Lius Lasahido

A forma alienígena que surgia sobre a paisagem era horrivelmente familiar. Uma coroa de lâminas negras como azeviche repousava sobre o nada que deveria ser a cabeça da coisa — impossivelmente planas, impossivelmente pretas, como buracos no espaço. Um manto de carapaça reluzente espalhava-se abaixo delas. Suas mãos enormes estendiam-se, agarrando, duas espadas de obsidiana projetando-se para trás de seus antebraços.

Cosi.

Com um solavanco ele estava na água, enviando uma onda surgindo pela baía. Outro e ele estava diante do Portal Marinho. Ergueu um braço enorme e o brandiu, e a pedra branca e reluzente da muralha marinha pareceu esticar-se sob ele, derreter, fluir para fora e ao redor em quadrados espiralados da cor de óleo sobre água. Kiora observou impotente o Mar de Halimar, seu nível de água mantido alto acima do oceano pelo próprio Portal Marinho, começar a verter pela brecha, caindo em cascata ao redor do braço de Cosi em geometrias impossíveis.

Os dois titãs moveram-se um em direção ao outro, e por um momento insano Kiora pensou que eles poderiam batalhar pelo privilégio de devorar Zendikar. Passaram um pelo outro, lentos e suaves como icebergs. O momento passou.

Cosi virou-se em direção a ela.

O mundo pareceu dobrar-se ao seu redor, como se ele fosse o seu centro. Aqueles fragmentos pretos perfeitos acima de sua cabeça pareciam atrair a própria luz. Ela não conseguia entender a forma deles, nem se eram sequer sólidos. Onde se sobrepunham, pareciam fundir-se. Não eram objetos, nem mesmo formas — eram buracos no espaço, e a cativavam.

Quem a ensinara que deuses podiam ser desafiados? Qual exemplo a levara naquela rota de colisão com um deus — com dois? As histórias de Cosi haviam lhe mostrado que Ula poderia ser enganado, batido, trazido ao chão. Mas havia uma coisa de que ela se esquecera em sua pressa para confrontar Ula, uma coisa que cada história de Cosi tinha em comum.

Cosi sempre vencia. Não os mortais que seguiam seu exemplo. Não os golfinhos que tagarelavam seus louvores. Cosi sempre vencia. Kiora enganara Tassa, pensara em humilhar Ula. Mas Cosi a enganara.

Um movimento pelo canto do olho a trouxe de volta aos sentidos. Shen estava ao seu lado, expressão vazia, olhos pretos. Ao redor de sua cabeça flutuava uma coroa de fragmentos de obsidiana, como a de Cosi.

Ele investiu contra ela.

Kiora tropeçou para trás sobre a pele acidentada de Lorthos. Shen continuou vindo, alcançando-a — sem mente, perdido. O bidente prendeu-se contra uma das cicatrizes do grande polvo, e ela estava presa. Teve apenas um momento para decidir.

O bidente era a arma de um deus, sim. Tinha vasto poder, parte do qual, sem dúvida, ela ainda tinha que ver ao menos um vislumbre. Mas era, no fim das contas, uma arma, e poderia servir como qualquer outra arma serviria.

Ela ergueu o bidente, e suas pontas gêmeas enterraram-se no peito de Shen.

Os olhos de Shen clarearam, e os fragmentos acima de sua cabeça desapareceram. Ele olhou para ela, as mãos agarrando entorpecidamente o bidente. Tentou dizer algo, ou perguntar algo, mas tudo o que saiu foi um tipo de gemido baixo e sibilante. Sangue vazou ao redor das pontas do bidente.

Ela o chutou para longe. O bidente deslizou para fora dele facilmente, sangue vermelho brilhante respingando contra a pele de Lorthos. Shen caiu para longe dela, deslizou, tombou na água e se fora.

Cosi agigantava-se sobre ela agora, seus tentáculos contorcidos e os de Lorthos emaranhando-se furiosamente. Kiora injetou poder no bidente manchado de sangue, reforçando Lorthos para a luta, mas o polvo estava irremediavelmente em desvantagem. Os braços de Cosi giravam impossivelmente, dobrados estranhamente naquele horrível cotovelo duplo. As lâminas de obsidiana que se estendiam de seus antebraços mergulhavam baixo no mar e erguiam-se acima dela, com a água do mar caindo delas em cascata. Aquelas, verdadeiramente, eram as armas de um deus. Comparado a elas, o bidente era uma bugiganga.

Uma lâmina maciça, depois a outra, esmagou o corpo de Lorthos. A segunda errou Kiora por menos de sua largura. Sangue azul, quase preto, brotou ao redor deles.

Kiora olhou fixamente para Cosi, mas Cosi não retribuiu o olhar. Ele não conseguia — sem cabeça, sem rosto, apenas uma presença vasta e alienígena agigantando-se acima dela. Ele atacara Lorthos porque o polvo era o único inimigo remotamente próximo de seu tamanho. Kiora e seu precioso bidente eram insignificantes, abaixo de sua atenção.

Ela entendeu, finalmente, onde errara. Cosi não a enganara. Cosi não tinha entendimento algum da pequena história que ela estivera contando — aquela que escalava os trapaceiros como golfinhos leais e os outros Planinautas como tolos e ela mesma, risivelmente, como Cosi.

Tassa a odiara. Cosi não conseguia sequer vê-la.

Com um som úmido e horrível, Cosi separou seus braços. O corpo de Lorthos estremeceu e partiu-se, fontes de sangue azul escuro espirrando na água. A luz do bidente apagou-se. Kiora perdeu o equilíbrio e caiu, conforme Cosi deixava as duas metades desiguais do mais poderoso campeão do oceano deslizarem de suas lâminas.

Ao cair, o bidente escorregou de seus dedos entorpecidos. Ela observou, impotente, seu maior troféu tombar para longe.

Ela matara Shen. Provavelmente os outros trapaceiros também, e dezenas de seus nobres beemotes do oceano. Lorthos, o criador das marés, talvez a criatura mais antiga e grandiosa dos mares de Zendikar. Ela matara todos eles. Haviam acreditado nela, acreditado em seu pequeno brinquedo, acreditado em suas histórias. E haviam morrido por isso. Ao menos sua irmã a deixara, agradeça aos deuses. Agradeça a quem quer que fosse.

Cosi bloqueou o sol. Não — não Cosi. Kozilek, maciço e impossível, um arremedo distorcido da ideia de deuses.

Ela atingiu a água, e a escuridão a reivindicou.

Arte de Zack Stella
30 de Dezembro de 2015 | Por Kimberly J. Kreines & Nik Davidson

A Retaliação de Ob Nixilis

O plano funcionara. Juntos, Nissa, Jace, Gideon e o exército de zendikari haviam tido sucesso em construir uma enorme prisão de hedros capaz de conter um titã Eldrazi. E há apenas um momento, Nissa havia colocado o último hedro no lugar, prendendo Ulamog, o monstro que devastara seu mundo.

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Parada na rocha flutuante ao lado de Gideon, Nissa estava ao nível dos olhos com a placa facial óssea e maciça de Ulamog. A impossibilidade do que haviam acabado de fazer ameaçava desequilibrá-la, mas os gritos dos zendikari abaixo a sustentavam.

Rede de Hedros Alinhada | Arte de Richard Wright

Por tempo demais, seu mundo estivera à disposição de Ulamog, descendo por um caminho inescapável rumo à destruição — Bala Ged, Sejiri. Mas agora, finalmente e quase inconcebivelmente, era o contrário. Enfim, era a vez de Zendikar fazer a destruição. E Zendikar não demonstraria misericórdia.

"Muito bem, vamos começar a recuar! Mantenham suas linhas!" Gideon gritava ordens para os zendikari abaixo enquanto descia por uma escada de corda em direção ao Portal Marinho. "Mantenham o perímetro seguro!"

Era bom que Gideon estivesse no comando; o povo estaria seguro com ele no leme, o que significava que Nissa estava livre para focar no titã. Um surto de antecipação percorreu seu corpo. Ela olhou através do campo de batalha para Jace. Ao encontrar o olhar dele, ele abriu sua mente para ela. Ele está preso como você queria, disse ela. Agora é hora de destruí-lo.

Sim. Quantos mais hedros havia lá enterrados no despenhadeiro? Jace perguntou. Nissa sentia a excitação na voz dele, mesmo em sua cabeça. Vamos precisar de outro, não, dois na verdade. Nissa, isso vai funcionar! Tenho um plano.

Eu também. Nissa sacou sua espada.

Mas antes que pudesse avançar, Jace direcionou a atenção dela para o anel de hedros. Ele recriara seu diagrama ilusório sobreposto, em tamanho real. Com apenas mais dois hedros para redirecionar o poder que estamos canalizando, acredito que seremos capazes de destruir o titã sem nunca termos que tocá-lo. O risco é mínimo — relativamente falando. Se apenas... Jace continuou falando, mas Nissa parou de ouvir. Ela não queria um ataque calculado e clínico. Ela queria enterrar sua espada no pescoço de Ulamog. Queria estripá-lo. Queria acabar com ele, aqui e agora. Prometera a Jace que não tentaria destruir o titã até que ele estivesse preso; agora ele estava preso.

Ela virou-se para encarar a terra, olhando para o despenhadeiro rochoso, e buscou a alma do mundo. Ela chamou, e Ashaya respondeu. O elemental ergueu-se com uma determinação que Nissa ainda não vira no mundo. Com uma esperança que ela nunca sentira antes. Zendikar emergia pronta, finalmente, para a liberdade.

Ashaya, o Mundo Desperto | Arte de Raymond Swanland

Então algo quebrou. Como um graveto estalando sob os pés, Ashaya rachou e vacilou, pedaços de sua forma esfarelando-se. Confusa, Nissa estendeu-se mais longe, puxando com mais força. Mas Ashaya não respondia; seus galhos convulsionavam e tremiam, e com ela, toda Zendikar estremecia.

A rocha flutuante em que Nissa estava parada balançou, lentamente no início e depois mais rápido, violentamente. Nissa tropeçou, estendendo os braços em busca de equilíbrio. O solavanco e o tremor eram tão severos que parecia que Zendikar ia se despedaçar. Então, tão rápido quanto o tremor começara, ele parou. O mundo acalmou-se, e tudo ficou quieto.

Mas Nissa sabia que era uma falsa calma. Algo estava errado, ela conseguia sentir, algo—

Um ranger áspero rompeu o silêncio. À direita de Nissa, a muralha marinha e tudo sobre ela inchou como uma onda gigante. Nissa observou horrorizada enquanto zendikari e Eldrazi eram lançados ao ar e caíam com estrondo sobre a muralha de pedra dura, apenas para serem lançados de volta conforme tudo se erguia uma segunda vez.

De olhos arregalados e selvagens, Nissa voltou-se para Ashaya. Zendikar irradiava uma inundação de dor e terror conforme o elemental desmoronava em um monte de escombros.

"Ashaya!" Nissa correu para sua amiga, mas foi lançada de joelhos por mais uma ondulação que sacudiu o mundo.

Sobre o mar à sua esquerda, o anel de hedros balançava tão violentamente quanto a terra. As linhas de ley esforçavam-se para manter sua formação enquanto onda após onda de tremores ondulantes rasgavam a baía. A prisão ia se desfazer. Mas não era o sacolejar do mundo que estava colocando pressão sobre ela. Era o contrário. A prisão instável estava colocando pressão sobre o mundo. Ali, acima da prisão, Nissa viu um hedro perdido, um poder sombrio explodindo através dele, destruindo a integridade do alinhamento das linhas de ley. Estava errado. Não deveria estar ali. De onde viera? Ansiosa, buscou Jace.

Nissa, saia daí! O grito de Jace encheu sua mente assim que ele teve sua atenção.

Com um grande estalo ecoante, uma das linhas de ley da prisão rompeu-se. O círculo fora quebrado. O coração de Nissa parou.

Corra, Nissa! Agora!

Mas Nissa não correu. Lançou-se em direção à linha de ley rompida. Aquilo não podia acontecer. Não agora. Era a vez de Zendikar.

Ao aterrissar em uma rocha flutuante perto da brecha, um dos hedros meio libertos inclinou-se, tensionando sua conexão restante até que aquela conexão, também, foi estilhaçada. Por um fôlego, o grande rochedo oscilou, suspenso no último indício do vínculo mágico que o mantivera no lugar, e então despencou em direção ao mar.

Nissa foi encharcada pelo imenso respingo que seguiu o impacto do hedro, mas não parou nem para limpar os olhos. Aquilo não podia acontecer. Ela estendeu a mão para a linha de ley pendente, a que estivera conectada ao hedro caído, e mergulhou seu sentimento no poderoso mana de que a linha de ley era feita até conseguir tocá-lo. No momento em que teve sucesso, um surto inacreditável de poder correu para dentro dela. Sentiu-se mais forte do que jamais se sentira. Mas aquilo não era importante. O importante era para onde ela canalizava aquele poder. Ela o enviaria através de si mesma e para dentro da outra linha de ley pendente; ela completaria o círculo quebrado usando seu próprio corpo. Ela consertaria aquilo.

Estendeu a mão para a outra linha de ley, cavando em seu próprio poço de força para esticar-se em direção à sua magia, despejando tudo o que tinha em seu esforço para fechar o anel. Apenas um pouco mais perto e—

Ela foi lançada longe dos pés.

Nissa só viu o tentáculo grosso e rosado depois que ele a atingira. Ulamog.

Com a integridade da prisão comprometida, ele fora livre para romper sua fronteira.

Ulamog, o Vórtice Infinito | Arte de Aleksi Briclot

Os hedros do anel começaram a balançar, sem equilíbrio. As linhas de ley foram chicoteadas para fora do alcance dela. Ulamog não seria contido por mais tempo.

Não! Nissa saltou, lançando-se para a vinha mais próxima, desta vez com sua espada na mão. Fixou os olhos no titã. Aquilo não podia acontecer. Preso ou não, ela destruiria Ulamog. Aquela era a vez de Zendikar.

Balançando-se em uma vinha, Nissa desceu sua espada sobre um dos tentáculos açoitantes de Ulamog. Sua lâmina não deixou sequer um arranhão, mas ela não se importou. Golpeou novamente. E novamente. E então o restante do anel cedeu. Um por um, os outros hedros despencaram no mar. Onda após onda de água salgada espirrou em Nissa enquanto uma cacofonia de gritos carregados de terror soava atrás dela. Ulamog, livre de seus vínculos, movia-se em direção ao Portal Marinho mais uma vez.

Nissa clamou em angústia. Tão impossível quanto fora seu sucesso inicial em prender Ulamog, esse fim parecia ainda mais impensável.

Este fim?

Seria este verdadeiramente o fim?

Com aquele pensamento, uma onda de fraqueza lavou Nissa, drenando-a. Foi tudo o que pôde fazer para forçar os dedos a se agarrarem à vinha.

Nissa, o que você está fazendo? Você tem que sair daí! A voz de Jace em sua cabeça novamente. Ele estava tão desesperado quanto ela jamais o ouvira, mas ela não conseguia se forçar a se mover. Agora! gritou Jace.

A ansiedade dele não a afetava. Encarava a água chocando-se abaixo. Seria frio se ela caísse.

A prisão está quebrada, Nissa, a voz de Jace estava mais baixa. O demônio a quebrou. Não há mais nada a fazer. Apenas saia. Por favor.

O demônio... Nissa sacudiu-se. O demônio? De uma vez ela o sentiu, sentiu o mal do monstro que ele era. Ele estava aqui. Olhou para cima. Ali estava ele. O demônio que enfrentara lá em Bala Ged, o que arrancara o Coração de Khalni, o que tentara destruir Zendikar. Ele voltara.

Ob Nixilis Reaceso | Arte de Chris Rahn

Subitamente tudo fez sentido. Era dele a escuridão que ela sentira, ele era a coisa que estivera errada. Fora o hedro dele que perturbara a prisão, que fizera a terra tremer. Ele era a causa de tudo aquilo. E agora estava lançando um feitiço, um feitiço tão antigo e poderoso que Nissa não reconhecia mais do que sua forma vaga e sua escuridão completa e consumidora. Com o lançamento desse feitiço, toda a terra de Zendikar clamou de dor.

"Surjam!", gritou o demônio.

E algo surgiu.

Nissa virou-se para ver uma fileira de fragmentos pretos reluzentes, impossivelmente grandes, rasgando o solo. Mesmo antes de o restante do monstro romper a superfície, Nissa soube que estava olhando para um segundo titã. Kozilek. O demônio convocara mais um horror para devastar seu mundo.

Arte de Lius Lasahido

Ela olhou de volta para o demônio, e ele sorriu para ela. Sorriu.

Nissa estremeceu, enjoada, e naquele momento algo dentro dela foi arrancado. Alguma parte dela que reconhecia de há muito tempo, um pedaço de si mesma que tentara temperar, que tentara esquecer. Havia poder naquela parte dela, e agora era aquele poder que corria em suas veias. Não era diferente da sensação do poder das linhas de ley surgindo através dela, mas desta vez ela podia ficar com tudo para si mesma. Aquilo era bom. Sua força retornou dez vezes mais, e ela escalou a vinha mão sobre mão, puxando-se para o topo da rocha flutuante acima.

Ficou ali encarando o demônio. Sabia que deveria afastar-se dele. Sabia que deveria fugir — ou lutar contra os titãs, ou ajudar o povo, ou fazer qualquer coisa exceto o que estava prestes a fazer. Mas se fizesse qualquer uma dessas outras coisas, importaria? Suas ações fariam diferença? Restaria alguma esperança, algum último fiapo de esperança para salvar Zendikar?

Se ela se afastasse do demônio, Nissa teria que responder a essa pergunta. Então não se afastou dele. Em vez disso, olhou direto para ele, a mácula-olhos que roubara a última chance de seu mundo de sobreviver. Por isso, e por tudo o mais, ela acabaria com ele.

Saltou sobre a muralha marinha que se debatia e correu em direção ao demônio, com a lâmina pronta, preparada para golpear. Fora seu erro não garantir que o acabara quando se encontraram pela última vez; não cometeria o mesmo erro novamente.

Enquanto Kozilek surgia, a muralha marinha convulsionava, o mar inchava, a terra sacudia e os zendikari gritavam. Mas tudo aquilo estava acontecendo ao redor de Nissa, fora de sua esfera de foco, além da raiva que a impelia para frente. A única coisa que conseguia ver era o demônio horrível, e a única coisa que sabia era que ele ia morrer.

Arte de Lius Lasahido

Conforme lutava para passar por proles que surgiam e rochas que cediam em direção ao monstro alado, Nissa estava vagamente ciente da influência que Kozilek estava exercendo no mundo ao seu redor. Sentira a influência deste titã antes, quando mais de suas proles povoavam o mundo. Não se importara muito com o caos distorcedor então, e não gostava dos efeitos confusos e emaranhados que ele estava causando nas linhas de ley agora. Os padrões perfeitos que deveriam cobrir o mundo estavam rompidos e quebrados. Tudo estava errado. Cada passo que dava exigia um esforço concentrado para forçar o pé a tocar a terra, para superar a dissecção da realidade, para compensar as distorções gravitacionais. Mas pressionou em frente. Nada a deteria.

E então a terra à sua frente irrompeu. O braço açoitante de Kozilek esmagara a muralha marinha, seu punho enorme atravessando a rocha, enviando o farol ao chão. O impacto lançou Nissa ao ar, junto com estilhaços da muralha marinha e centenas de outros zendikari. O mundo virou de cabeça para baixo enquanto Nissa pendia ali, momentaneamente suspensa. O tempo desacelerou, e uma corrupção preta e iridescente cristalizou-se nos fragmentos de rocha branca pura e nos rostos das pessoas ao seu redor. Era como se estivesse presa em um lago congelado, sufocada pela pressão do gelo ao seu redor.

Então subitamente o tempo recomeçou e a gravidade dobrou ou talvez até triplicou, puxando Nissa de volta para a muralha esfarelada com tal força que o fôlego foi arrancado dela. Tentou levantar-se, mas parecia estar afundando em areia movediça. Tudo ao seu redor estava se transformando em bordas denteadas e padrões geométricos que falavam de coisas não naturais. Piscou, mas não conseguia limpar a visão. Tudo parecia igual; não conseguia mais distinguir entre a muralha, o mar e o demônio.

Caíra no campo de distorção de Kozilek. Cambaleou, sem saber onde seu próximo passo a levaria, sem saber onde estava ou para onde estava indo. Sem saber se sequer estava viva. Teria o fim chegado já?

Não. Não! Não era o fim. Não poderia ser. Não até que o tivesse destruído. O demônio era uma mancha em seu mundo perfeito. A necessidade de removê-lo de Zendikar a impelia. Pressionou adiante, colocando um pé na frente do outro, respirando um fôlego após o outro, até que finalmente rompeu o alcance da distorção.

Libertada, Nissa correu até o fim da rocha branca da muralha marinha e saiu para o despenhadeiro, direto contra o demônio. Mergulhou sobre ele, derrubando-o no chão, sua lâmina em seu pescoço.

"Bom para você." Ele olhou para ela, ainda sorrindo aquele sorriso revoltante. "Finalmente disposta a vencer. Finalmente disposta a fazer o que for preciso."

"Você!" A bile subiu no fundo da garganta de Nissa enquanto ela mergulhava sua lâmina para baixo.

Mas com um movimento rápido o demônio esquivou-se de sua espada e desvencilhou-se, voando para o alto e para longe, ao mesmo tempo enviando uma maré de sua magia de drenagem de essência sobre Nissa. Atingiu-a antes que ela pudesse se levantar, sugando a vida de suas veias, bebendo o ódio que a alimentava.

Ela gritou, buscando a terra, e enviou uma cascata de terra para cima, em direção ao demônio. Mas ela nunca o tocou; a terra girou no ar e disparou de volta contra ela, seguindo um feixe de linhas de ley não naturalmente anudadas e torcidas.

Nissa rolou, tombando pelo chão enquanto os escombros choviam sobre ela — detritos pretos e retorcidos, não naturais e atormentados. Em pânico, observou quatro proles da linhagem de Kozilek esgueirarem-se entre ela e o demônio. Teria ele as convocado?

"Infelizmente", disse o demônio, "meus planos devem ter prioridade. Zendikar cai." Ele deu um leve aceno de cabeça, e as proles fecharam o cerco sobre Nissa, erguendo nacos de rocha ao redor dela. "E Zendikar morrerá."

Arte de Ryan Barger

Uma dor abrasadora rasgou Nissa, e ela urrou em agonia. Embora não pretendesse, seu grito alertou Ashaya. Conseguia sentir a preocupação de Zendikar por ela conforme a terra ao seu redor começava a se erguer; o mundo vinha em seu auxílio. Mas mesmo enquanto o fazia, estava sendo distorcido, quebrado e corrompido. Estava sendo arruinado.

Não. Nissa não podia permitir. Afastou a alma de Zendikar. Para longe daquela distorção, para longe daquela mácula, para longe dela. Afaste-se!

Ashaya não queria ir. O mundo recusava-se a deixá-la, mas Nissa o forçou para longe. Não havia mais nada que qualquer um dos dois pudesse fazer.

Ao soltar-se, sentiu seu último fiapo de esperança contorcer-se em medo sob a influência das proles de Kozilek. Seu ventre contorceu-se. A terra, as linhas de ley, a vida do mundo tornaram-se tão contorcidas e torcidas que não existiam mais.

Enquanto o demônio ria, o último resquício da realidade de Nissa desvaneceu.

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Ri da expressão confusa da elfa, sua realidade desmoronando diante dela. Não pude evitar. Foi engraçado. Algo sobre os olhos.

"Oh, elfinha. Gostaria de ouvir algo divertido? Se você tivesse simplesmente me deixado terminar meu trabalho, eu teria recuperado minha centelha e deixado seu mundo. Não escolhi você como inimiga, mas agora sinto-me obrigado a ser o inimigo que você merece. A distorção de Kozilek permitirá que você experiencie as últimas horas de Zendikar estendidas pelo espaço de mil anos. Sofrendo como eu sofri. Normalmente não me importo com esses tipos de encenações, mas você ganhou uma exceção."

As proles de Kozilek cercaram a Joraga, fatiando o espaço de tal forma que nenhuma linha de ley pudesse alcançá-la, como aranhas tecendo uma teia de realidade quebrada. Ela estava isolada de Zendikar. Impotente.

Minha mente esforçava-se para direcionar as proles. Era possível, mas eu sabia que estava caminhando no fio da navalha. Especialmente com o titã tão perto, eu arriscava loucura ou pior. Mas contanto que não as comandasse a fazer nada a que o titã se opusesse diretamente, não achei que ele se importaria se eu tomasse emprestado algumas proles para cuidar de um inseto que estava se metendo no trabalho dele. Saltei de volta para o céu para examinar o resto do campo. Tornara-se uma debandada. Glorioso.

Agora era hora de deixar este lugar e nunca mais voltar.

Depois de ter garantido que nenhum sobrevivente escapasse do Portal Marinho, é claro, eu deixaria este lugar e nunca mais voltaria.

Na verdade, aquilo não era importante agora. Eu deveria apenas deixar este lugar e nunca mais voltar.

Interessante. Alguém estava na minha cabeça. Inaceitável. Telepatas são o que há de pior. Tive experiência demais com pessoas tentando colocar coisas na minha cabeça que não pertencem lá.

Tinha um vago senso direcional apontando-me para o intruso, escondido entre os soldados em fuga lá embaixo. Lancei-me ao solo como um cometa e afastei os zendikari no impacto com o solo lamacento e encharcado de salmoura. Um rapaz de túnica azul mantinha-se ereto, ileso mas sobressaltado; ele reflexivamente dividiu-se em dúzias de imagens espelhadas. Não foi um truque ruim.

Arte de Victor Adame Minguez

Sussurrei uma palavra: o nome mais verdadeiro para a dor que eu já aprendera. Em uma esfera crepitante ao meu redor, a agonia reinava. Senti-a tanto quanto ele, mas eu era menos estranho à dor que este rapaz. Todas as imagens dobraram-se ao meio, mas apenas uma delas realmente a sentiu. Foi trivial escolher o artigo genuíno. Sorri com sarcasmo enquanto investia contra ele, mas estremeci conforme ele encontrava meu olhar.

Aqueles olhos me atingiram como uma lança. Descartando a sutileza, ele assaltou meus sentidos com toda a força que pôde, mas isso significou apenas que meu punho quebrou sua maçã do rosto em vez de arrancar sua cabeça como eu pretendia. Ele girou para o solo, desabando num monte de vestes salpicadas de lama. Dei um passo à frente para quebrar o pescoço dele e acabar com aquilo.

Algo agarrou minha asa por trás e me lançou para longe dele, retalhando a asa no processo. Aterrissei dolorosamente e olhei para cima para ver meu inimigo. Embora pudesse ter seguido com um segundo golpe antes que eu o visse chegando, ele esperara. Alto, forte, de queixo quadrado e determinado. Um sujeito bem-parecido pelos padrões da maioria. Ri enquanto o avaliava. Ele estava disposto a me atingir por trás para salvar seu amigo, mas não estava disposto a vencer uma luta dessa forma. Gostei dele imediatamente. Um herói.

Inclinei a cabeça para ele ligeiramente. "Ob Nixilis. Um prazer. Agora, eu lhe pediria para gentilmente se afastar e caminhar para casa. Você tem o aspecto de um general, então deve saber que esta guerra está perdida. A defesa aqui foi obra sua? Muito impressionante. Adoraria uma revanche em algum momento. Você escolhe o mundo e os termos. Mas por enquanto..."

Ele me interrompeu com um corte de seu... quádruplo... chicote de metal. Ele estava realmente empunhando um sural? Não via um daqueles há séculos, e nunca em Zendikar. Especialistas em sural tendiam a ser extremamente habilidosos, ou divertidamente de vida curta. Desviei-me do ataque, irritado.

Reproche de Gideon | Arte de Dan Scott

"Estas pessoas estão sob minha proteção, demônio. Afaste-se, ou eu farei você se afastar." Ele realmente parecia falar sério.

"Decepcionante. No meu tempo, se você me permite a expressão, havia uma certa civilidade em tudo isso. Mas acho que os Planinautas não são mais o que costumavam ser. Para começar, morrem muito mais facilmente." Ergui a palma e liberei um jorro contínuo de enervação pura.

E este sujeito apenas ficou parado ali com um sorriso irritante no rosto e um brilho dourado cercando seu corpo. Invulnerabilidade! Aquilo estava se tornando mais interessante do que eu esperava.

"Não tão fácil", ironizou ele, e investiu, retalhando-me com cortes amplos. Ele investiu forte mas não se sobre-estendeu na distância — tinha vantagem de alcance, e não estava me dando uma abertura para fechar num agarrão. Mantive-o à distância com mais rajadas de energia; ele esquivou da maioria, mas algumas atingiram o alvo. A cada vez ele conseguia se firmar com aquele seu brilho dourado. Consideração tática: a proteção dele exigia que ele focasse. Tinha uma experiência fluida com ela, no entanto. Estava tecendo o escudo perfeitamente em sua série de ataques, não me dando aberturas reais. Mais de uma vez, recebi cortes nos meus antebraços, mas os ferimentos eram superficiais e cicatrizavam rapidamente. Ele me mantinha em uma postura defensiva, e não mordia nenhuma de minhas fintas. Lutamos de volta para uma posição neutra; ele conseguira se manobrar entre mim e o telepata novamente.

"Você luta bem, mas não pode me ferir, e não deixarei que fira mais ninguém deste povo. Luto por Zendikar, demônio." Havia muita determinação em sua voz, mas eu via os indícios de dúvida abrindo caminho pelo seu rosto. É assim que sempre começa.

"Nixilis", corrigi. "E você quer dizer... estas pessoas?" Fiz um gesto casual e lancei um raio de energia num grupo de retardatários e feridos. Seis mortos. Ele vacilou como se fosse pressionar o ataque novamente, mas não abandonaria sua posição defendendo o telepata. "Ou você quer dizer ele? Oh, meu amigo. O telepata chegou até você, não chegou? É por isso que você sempre mata os telepatas primeiro. Quão certo você está de que o está protegendo por sua própria vontade? Quão certo está de que ele não andou fazendo um trabalhinho nessa sua cabeça?"

Os olhos dele desviaram-se para o lado — de volta para o telepata — apenas por um momento. Aquele breve instante foi tudo o que foi necessário para a dúvida abrir a fresta um pouco mais. E naquele minúsculo momento no tempo, eu estava investindo para frente e, por aquela fração mínima de segundo, o peso dele estava em seu pé de trás.

Existem momentos como este na batalha, onde o tempo para. Onde a alegria do combate sobrepuja os sentidos e a passagem do tempo. Ele golpeou em minha direção enquanto caía numa postura de luta, mas o golpe foi alto e largo. Quando nossos olhos se encontraram, vi aquele olhar de alegria no rosto dele também. Ele amava a luta tanto quanto eu. Bom. Eu não aceitaria de outra forma.

Ele abaixou-se para enfrentar minha investida, mas eu estava pronto; ele tentou me rasteirar, mas, com uma única batida de minha asa ilesa, saltei por cima dele e o retalhei com uma mão de garras. O escudo dele desviou o golpe, mas o impacto o empurrou trinta centímetros mais longe de mim do que ele queria estar, e ele fechou com uma investida explosiva. Tive tempo de me firmar e acomodar-me em uma postura baixa. Eu tinha peso e força superiores, mas ele era mais rápido, com um centro de gravidade mais baixo. Não conhecia seu estilo de luta exato, mas estava familiarizado o suficiente com o tipo geral para antecipar o que viria a seguir.

Dei-lhe um alvo e ele o aproveitou. Ele travou as pernas contra o meu joelho e começou a pressionar — uma derrubada e chave de articulação perfeitamente executadas. Eu era mais pesado que ele, mas ele ainda assim seria capaz de quebrar o joelho em apenas alguns segundos.

Usei aqueles segundos para ganhar o controle de seu braço direito, travando-o atrás do meu pescoço conforme nos agarrávamos de perto. Chapinhamos na lama, sangue, salmoura, icor e coisa pior, lutando pelo controle — e ele era o melhor lutador. O joelho estalou e um jorro nauseante de dor pulsou pelo meu corpo. O problema para ele, no entanto, era que ele esperava que aquilo fosse o fim da luta, enquanto, na verdade, ter meu joelho quebrado era meramente a terceira pior sensação que eu experienciara na última hora.

Usei minha única perna boa e meu peso superior para prendê-lo. Ele rangeu os dentes, o rosto salpicado com a mesma lama que me cobria, que cobria a todos nós, que cobria este mundo miserável e condenado. Ele canalizou seu foco para evitar que seu ombro quebrasse. Mas eu o tinha. Eu o tinha e ele sabia disso.

Arte de Cliff Childs

"Você luta por Zendikar? Por este monte de estrume quebrado de um mundo? Pois bem, veja como ele recompensa você!" Pressionei o rosto dele com força na água lamacenta. Ele debatia-se e agitava-se, tossia e engasgava, lutando para conseguir apoio. Eu sentia o desespero e o medo conforme suas mãos escorregavam na lama.

Conforme ele batia inutilmente em mim.

Conforme ele começava a se afogar.

A invulnerabilidade provou não ser páreo para dez centímetros de água suja.

"Isto é Zendikar! O sofrimento e o desperdício e a imundície! Isto é Zendikar!" Ele convulsionou mais uma vez, e seu corpo amoleceu.

Segurei-o ali por mais um segundo antes de soltar meu aperto e virá-lo de costas com um respingo.

"Isto é Zendikar", sussurrei. "E sua luta acabou."

06 de Janeiro de 2016 | Por Mel Li

Reivindicação

Os elfos de Zendikar passaram gerações adaptando-se ao ambiente em constante mudança do plano. Resilientes e destemidos contra a destruição do Turbilhão e dos Eldrazi, suas aldeias unidas pareciam crescer novamente com a velocidade das próprias selvas.

Mas com a chegada dos Eldrazi, duas das três grandes nações élficas — os Mul Daya e os Joraga — foram quase eliminadas. Para os Mul Daya, um grupo imerso em tradição e laços familiares, os sobreviventes ficaram divididos entre ficar para morrer com seus Oradores de aldeia nos restos devastados de sua terra ou aventurar-se para longe em busca de assistência. A Tecelã-verde Mina e seu irmão Denn são dois refugiados solitários que viajaram um continente inteiro até Murasa em busca de ajuda e dos meios para reivindicar seu lar caído.

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Dias, semanas haviam passado viajando pela Corrupção. O hálito úmido e pesado das antigas florestas de Guum deu lugar a um sussurro dessecado de planícies expostas por pés que se esgueiravam. Mina mantivera vigilância cuidadosa sobre as passagens do sol, dirigindo-se firmemente em direção a um local de que ouvira falar apenas em murmúrios relutantes ou relatos vagos.

Perto agora, perto. Ela se tranquilizava.

A poeira da Corrupção cobria suas roupas e revestia seus pés descalços. O solo endurecido e ossificado deixava marcas estampadas em solas mais acostumadas aos musgos densos de sua terra natal perdida. Resoluta, mas com os pés doloridos, ela alcançou a ravina que formava os arredores das florestas de Murasa.

Ou o que um dia foram as florestas. A Corrupção era de um branco puro ofuscante e erguia-se em espirais retorcidas que um dia foram árvores, animais, rochas. Os penhascos íngremes estavam imaculadamente em branco, o silêncio reverberando pelo vale. O silêncio pesava sobre ela — desde a infância fora cercada pelos sons de sua terra, seus anciãos, sua família. Sussurros, gritos, comandos, súplicas... seus sons sempre a haviam ancorado a algo, a alguém. Ali ela era um fragmento solitário de cor e ruído, uma afronta ao vazio ao seu redor.

Ela chutou o chão distraidamente, e uma nuvem de poeira branca flutuou obedientemente e caiu de volta em flocos acinzentados. Como neve sem inverno, meditou. O vazio preenchia sua visão e seus ouvidos com o ruído branco e surdo de sentidos desesperados por propósito. Virou-se lentamente, seus olhos vermelhos aguçados examinando o horizonte em busca de sinais de cor, som, vida. As faces brancas dos penhascos a encaravam de volta. Então a Corrupção chegara até ali também.

Arte de Jason Felix

Ancestrais, ela jurou mentalmente. Denn não ficará satisfeito. Estivera convencida de que poderiam encontrar o Bosque dos Tajuru ali, e os dois se separaram ao meio-dia para cobrir mais terreno em sua busca.

Os punhos de Mina cerraram-se ao redor de sua faca longa, o cabo de madeira familiar e o peso dela assentando-se agradavelmente no lugar. Um surto de amargura familiar subiu em seu peito, selvagem e quente, chacoalhando contra suas costelas. Soltou um tom longo e rascante que reverberou de volta para ela da ravina abaixo. Sorriu, satisfeita com qualquer maneira de quebrar o silêncio opressivo.

Da outra extremidade da ravina, algo se mexeu. Uma forma com o dobro do tamanho de Mina arrastou-se para a luz, o toque de apêndices ósseos contra a superfície rígida do solo corrompido. Sua respiração falhou no peito — a criatura não poderia ter vagado muito longe de seu campo de alimentação, talvez houvesse solo novo ainda? Ela virou-se em direção a ela com um sibilado surdo.

Excelente, ela a vira. Mina sorriu, mostrando uma boca cheia de dentes pontudos. Apressou-se ravina abaixo, deixando uma nuvem de poeira e Corrupção despedaçada com o entusiasmo sem graça de um filhote de balote. Alcançando o chão da ravina, investiu em direção à criatura, desembainhando sua faca do cinto enquanto lançava-se para frente em um movimento reflexivo fluido.

A coisa parou, o rosto sem olhos lançando rastreadores em sua direção, pseudópodes brotando de sua pele e eriçando-se ao longo de suas cristas radiais. Um som agudo emanou do topo de seu corpo, talvez em alguma harmonia com comandos que Mina não conseguia ouvir. Mergulhou sob a massa principal dele, agarrando pseudópodes em uma mão e encontrando carne com a outra, a lâmina gravada de sua faca deslizando com facilidade satisfatória, entalhando caminhos na parte inferior da criatura. O sangue latejava nas têmporas de Mina; a carne de suas costas era borrachuda e inesperadamente fria ao toque. Um corte que teria derramado as entranhas de qualquer fera comum produziu apenas um pingo minguado de fluido cinza acre.

Um resultado nada desconhecido para a espécie deles. Acolheu a chance de expressar sua gratidão pelo seu estado empoeirado e de pés doloridos com uma abordagem mais bagunçada.

Esquivando-se da chicotada de um membro sinuoso, agarrou-o ao passar e escalou seu comprimento — eram resistentes como qualquer raiz ou galho, que ela era bem equipada para lidar. Em suas costas, agarrou por trás de sua placa cefálica óssea, perfurando sob ela com sua faca e girando-a com deleite. A coisa desabou imediatamente sob ela, os membros tremendo. Mina saltou de suas costas e ficou de pé, esperou que ela se erguesse.

Permaneceu no chão, nervos fantasmas puxando impotentemente os membros decepados. Mina inclinou-se para a cabeça dele e a puxou em sua direção, encarando seu rosto vacante.

O que você buscava aqui? Por que você fica? A máscara encarava de volta, impassível. Não havia emoção para ler nela, nenhum pânico na morte, nenhum apelo ou negociação, nenhuma piedade. Os elfos sempre foram um povo resiliente, enfrentando a paisagem turbulenta conforme ela mudava e se transformava. Coexistiam com as inconsistências do Turbilhão, deixavam seus mortos em sepulturas rasas sob o aperto protetor das raízes de jaddi. Os anciãos pensaram que a maré de Eldrazi iria, como o Turbilhão, forçá-los a se adaptarem e mudarem. Em vez disso, eles se afogaram.

O debate da criatura desacelerou e parou. Mina deixou-a cair ao chão com um baque surdo.

Das sombras da ravina, duas novas figuras humanoides emergiram, uma delas muito familiar. Como Mina, seu irmão gêmeo Denn estava desarmado, descalço, visivelmente sem armas exceto por suas facas longas entalhadas das madeiras venenosas de Guum.

Em lugar de armadura, marcações semelhantes a vinhas serpenteavam por ambos os braços, mensagens portando as palavras e linhagem de seus parentes — mortos, vivos, não nascidos — seus murmúrios cristalizados na pele. Quando os dois deixaram Bala Ged, levaram consigo os ossos de seus caídos que agora adornavam seus cabelos ruivos escuros.

Atrás de Denn estava uma mulher leve, de capuz, trajada em armadura de couro das espaldeiras às botas com estribo. Sem marcas e solene, ela conduzia sua montaria atrás de si. Não havia como confundir a construção robusta e a mão de obra perita de sua armadura — uma sentinela da nação élfica Tajuru.

Arte de Victor Adame Minguez

Mina correu para encontrar o par, curvando a cabeça para a Tajuru, ansiosa para conversar com a elfa. Mas Denn já notara a polpa do cadáver Eldrazi atrás dela, e a observou severamente.

"Você sabia que eles já haviam passado tão longe em direção a Murasa?" Denn perguntou a Mina com lentidão forçada, sua voz falhando com o pânico crescente.

"Estamos perto. Foi aqui que nos disseram!" Mina lançou-lhe um sorriso imprudente que esperava que mascarasse sua dúvida.

"Isso foi há semanas! Ainda não houve nada desde então?" O rosto de Denn estava obstinadamente solene — ele aprendera os verdadeiros significados das expressões de Mina muitas vezes.

Mina o encarou, desejando ter palavras para lhe dizer. O silêncio pairava entre eles, uma fenda, separando os gêmeos.

Denn desviou o olhar primeiro. "Nosso Orador nunca dissera nada sobre isso."

Foi a vez de Mina olhar para baixo, as mãos fechando-se impotentemente em punhos.

"Mais do que longe o suficiente, com certeza", a estranha respondeu de trás dele em tons Tajuru cadenciados antes que Mina pudesse responder. "Fui enviada para avisar viajantes para longe deste lugar, e encontrei vocês dois em minha patrulha." Ela pausou, avaliando-os. "Sou a Guardiã Tenru, uma das muitas protetoras destas terras Tajuru. Parece que vocês dois se desviaram muito de sua aldeia...?" disse ela, erguendo uma sobrancelha.

Mina limpou sua faca no Eldrazi caído e varreu sua carne morta de seus braços. "Somos Mul Daya."

"'Somos'?", perguntou Tenru, espiando atrás de Mina para o vazio da ravina. "Vocês são batedores? Onde estão os outros?"

Mina suspirou interiormente. Palavras nunca vieram facilmente para ela. Sua cabeça estava sempre tão cheia de som e instinto que as palavras borbulhavam e tropeçavam umas nas outras em vez de deixarem sua boca. Outras simplesmente saíam aos trambolhões antes que ela pudesse dar-lhes forma e significado. Mas aquilo, aquilo era importante, e ela praticara aquele discurso por semanas durante suas viagens.

"Meses atrás, nós Mul Daya ficamos em nossos lares em Guum, tranquilizados por nosso Orador de que nossos Ancestrais insistiam em mantermos nossa posição. As proles chegaram primeiro, e as defesas lideradas por nossos fantasmas das vinhas as repeliram."

Ela assentiu para Denn, cujo silêncio carrancudo não deu sinal de reconhecimento. "Mas conforme as proles deram origem aos seus parentes adultos, as fileiras dos fantasmas das vinhas ralaram e nossas fronteiras encolheram-se tanto a ponto de tocarem as bordas das sepulturas rasas dos anciãos."

Ela pausou, lembrando-se de seus olhos encarando-a de seus leitos lodosos, recordou como sonhara os sonhos deles. Era a essência deles, suas memórias, gerações de história que haviam sido processadas em poeira junto com os bosques em que habitavam.

"Hordas de nós caíram em defesa de nossos lares. Nosso Orador adoeceu e as vozes de nossos Ancestrais silenciaram", continuou ela. Mina sentia-se estranhamente desligada de si mesma, ouvindo sua própria voz. Suas próprias palavras soavam ocas e formais, sem nenhum do peso visceral da vergonha, orgulho, frustração daquela época.

"Os Eldrazi chegaram, conquistaram, alimentaram-se e partiram." Sentiu a mais leve trepidação entrar em sua voz e parou por um segundo para inspirar lentamente. "Tive... uma visão enquanto dormia perto de nossos mortos. Uma visão da destruição de Bala Ged. Peguei meu irmão durante a noite para buscar audiência com as Nações Élficas. Para lhes pedir ajuda, orientação."

"E você?", perguntou Tenru gentilmente. "Como se chama?"

"Meu nome é Mina, Tecelã-verde dos Mul Daya." Enrolou sua manga direita para revelar a insígnia do cargo, entalhada profundamente em tinta cor de vinho em seu antebraço.

Mina viu Tenru avaliar o que tinha certeza de que parecia ser uma bagunça emaranhada, empoeirada e inexperiente à sua frente. Tenru ergueu uma sobrancelha duvidosa, mas assentiu educadamente.

"O conclave não está localizado em nenhum lugar único, mas deslocou-se com as marés de Eldrazi que chegavam", disse Tenru. "Nossos movimentos são agora uma rede estratégica de planejamento e reconhecimento, mantendo-nos perto do que restava do mundo que conheciam, cautelosos para não sermos cercados como... como nossas irmãs."

A mandíbula de Mina cerrou-se involuntariamente.

"Patrulhei as terras de fronteira, trazendo notícias da propagação da Corrupção de volta ao conclave", continuou Tenru. "Sua mais nova onda atingiu subitamente há duas noites, em números maiores do que antecipáramos. Levamos nossos lares e recuamos de volta para o coração do Bosque—"

"O Bosque ainda está de pé?" Mina empertigou-se, olhos brilhando. "Por favor — leve-nos até lá?"

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O bosque de jaddi projetava-se do meio do vale, fendendo a terra e dissolvendo lentamente lajes de rocha sob o aperto implacável de suas raízes. Uma copa densa de folhas perenemente verdes alcançava a linha das nuvens onde a umidade era mais densa. Padrões espiralados de folhas, cada uma com o comprimento de um elfo, adornavam seus muitos ramos. Em tempos mais silenciosos, os interiores ocos de árvores caídas serviram como lares permanentes. Enquanto os Mul Daya haviam feito seus lares entre suas raízes, os Tajuru haviam se acostumado aos alcances superiores dos galhos, escondidos da visão dos Eldrazi ligados à terra. Essa adaptação os mantivera seguros por anos, até que novas ondas de monstros chegaram do próprio ar.

Os três pararam no topo da crista, olhando para baixo para o Bosque. Conforme as nuvens se deslocavam, a luz solar incidia sobre o vale.

Mina ouviu Tenru inspirar bruscamente, o fôlego travando em seus pulmões.

O solo aqui era completamente diferente do nada pálido da ravina. Em seu lugar, uma matriz deslumbrante de cores vibrantes refratava-se das facetas nítidas da rocha. Algumas formações haviam se cristalizado verticalmente, numa imitação distorcida das árvores que outrora estiveram em seu lugar. Um brilho espesso e oleoso vertia da superfície multifacetada como uma ferida aberta, formando uma camada viscosa nos restos da vegetação rasteira.

"O que... é aquilo?" Mina arquejou. Pelo canto do olho, viu Denn balançar a cabeça em assombro horrorizado.

Arte de Raymond Swanland

Abaixo do acampamento, um grupo de Eldrazi reunira-se, probóscides agarrando-se às suas raízes. Um escalara até o primeiro ramo, deslocando as tendas do assentamento de seus poleiros altos e derrubando-as no chão da floresta. Residentes do acampamento haviam recuado para seus lares nos galhos mais altos.

Denn encarou Mina, seu rosto pálido e tenso. "Quando paramos diante do Orador, valorizei nosso sangue acima de minha palavra. Segui você quando nenhum outro o faria, um continente inteiro de distância. Estava pronto para me juntar ao restante de nossa linhagem na terra, nossa terra. E aqui, chegamos tão longe, não chegamos? De uma aldeia assolada a observar esta definhar e perecer... um mundo inteiro de distância."

O rosto de Tenru escureceu com as palavras dele. "Cuidado com o seu tom, Mul Daya — este é o meu lar. Lamento por sua perda, mas nunca pedi sua ajuda. Não temos intenção de sucumbir ao seu mesmo destino."

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Mina rasgou o vale, deslizando sobre as superfícies lisas e planas em direção aos Eldrazi conforme se reuniam para se alimentar. Como seus irmãos em Bala Ged, estes também tinham aglomerados mortais de membros e bocas. Puxavam suas massas pálidas pelos galhos com membros dianteiros poderosos para extrair sustento das árvores e do solo. Mas em vez de placas ósseas, seus corpos eram insetoides e cheios de simetrias impossíveis. Acima de suas cabeças repousavam coroas de placas delicadas de uma pedra preta polida tão escura que parecia ao mesmo tempo absorver e refletir a luz.

Sua faca ainda imunda com a cartilagem fibrosa da prole da ravina, Mina investiu contra seu inimigo mais próximo. Uma coisa volumosa e sinuosa, seu volume estava inchado de alimentação e pressionava contra a casca de seu exoesqueleto. Suas placas lisas eram do mesmo preto sem profundidade de sua cabeça coroada, tudo ângulos e simetria sem espaço para piedade. Suas muitas pernas estavam incrustadas de olhos que brilhavam com formas semelhantes a joias, sem piscar. Ela brandiu a faca para frente, lançando toda a sua força e ímpeto nela, visando abrir qualquer entranha que a criatura pudesse conter.

A arma reverberou com o impacto inesperado na massa externa do Eldrazi, enviando ondas de choque pelo seu braço até os dentes. Ela vacilou, seus dedos entorpecidos deixando cair a faca. Atrás dela, ouviu Denn gritar e correr em sua direção.

Um som surdo, estranhamente familiar, encheu seus ouvidos. Seriam nervos abalados? A força do impacto?

Ela lutou para se levantar, segurando a cabeça com uma mão e tateando em busca de sua faca com a outra. Agarrou algo sólido e olhou para cima...

...direto para as quatro mandíbulas babantes de um Eldrazi de coroa preta. Recuou instintivamente, mas era tarde demais. Cerrou os olhos com força.

Ele gritou. Ou ela pensou que sim. Um coro agudo de tons, mal audíveis ao seu cérebro, vibrou pelo seu crânio. Sentiu algo quente em seu ouvido direito.

Sangue.

A dor floresceu por seu corpo, combinando com as ondas de vibrações que torturavam sua estrutura.

Pânico cego se apoderou dela, e ela rastejou para trás de quatro como um animal caçado. Pelo canto do olho, viu Denn estendendo a mão para ela e girou em direção a ele.

O monstro virou-se para eles, o abdômen distendido com ar, e lamentou.

Arte de Jason Felix

As cores na borda da visão de Mina borram. À sua frente, a forma de Denn desmoronava e reformava-se em ondas, o vermelho de seu cabelo e olhos esvaindo-se de seu corpo e sangrando para as bordas de sua visão. Seu braço estendido foi desviado na direção oposta, dobrando-se em um ângulo impossível. Sua boca abriu-se e as palavras derivaram impotentes de sua boca, sua língua incapaz de formar seus sons, o ar passando inutilmente por seus pulmões. Ficaram suspensas no ar, sem sentido e pequenas, e se dissiparam.

Mina lançou o braço em direção ao dele e sentiu seus músculos cederem inutilmente, seus ossos fluindo como fumaça viscosa pelo ar, impossivelmente devagar. Seus dedos afastaram-se, seus tendões desenrolando-se do osso, veias distendendo-se e emaranhando-se.

Até o solo sob ela transformou-se em líquido viscoso, cedendo e fluindo sob seu peso. Suas pernas estavam impossivelmente pesadas, puxando-a para baixo e para longe de seu braço estendido. Sua outra mão encontrou o punho de sua faca, e lutou para segurá-la conforme ela se desenrolava.

O instinto impeliu a lâmina de sua mão, viajando fora do caminho do lamento do monstro, atingindo-o em um de seus muitos olhos de joia.

Seu lamento parou por um momento, e o corpo de Mina desabou como uma boneca de pano. O impacto enviou-a atravessando a Corrupção enfraquecida abaixo dela.

Quando abriu os olhos, encontrou-se em uma depressão rasa, fôlego arrancado, cabeça latejando. A luz do dia filtrava-se do alto, e ela conseguia ver a parte de baixo da camada fina e quebradiça de Corrupção através da qual caíra, da maneira como uma camada de gelo cobre as águas de um lago de inverno.

O ritmo surdo e familiar retornara. Estava mais alto agora. Lutou para encontrar o fio de som abaixo do estrondo das feras acima dela. Subia e descia como uma respiração, ou seria... uma voz? Tentou formar padrões a partir dele, moldar as frequências em significado. Do que pareciam milhas acima dela, os sons da voz de Denn filtraram-se em sua consciência minguante.

Mi-na. Mi-na.

Ela agachou-se na escuridão, mãos no chão para se equilibrar. Os sons em sua cabeça eram sussurros. Eram as vozes que ouvira em Bala Ged, de seus anciãos, seu jaddi. Sua família. Fundiam-se em algo familiar. O que era que estavam dizendo?

Sua fronte franziu-se, mãos fechando-se involuntariamente ao redor de algo... familiar.

O solo sob sua mão não era a superfície dura da Corrupção. Era terra, os solos espessos e fragrantes de sua juventude. As rodas inexoráveis do tempo pararam para ela, suspensas em uma bolha sinestésica de memórias coletivas. O cheiro daquele mesmo pedaço de solo cozido pelo verão, pisado por botas, manchado por sangue ou verde com novo crescimento primaveril, encheu seus pulmões. Ela o observava com olhos que não eram seus. Os sons voltaram à sua cabeça novamente.

Mina.

"Mina!" A voz de seu irmão cortou seu devaneio, quebrando sua concentração.

Denn!

Uma mão bloqueou a luz sobre a cabeça de Mina, e ela sentiu-se erguida do chão nos braços de seu irmão. Conseguia sentir o cheiro do sangue neles, embora não soubesse de quem era.

Um som sibilante passou logo acima de suas cabeças, e o solo atrás deles inchou e explodiu diante de seus olhos. O impacto do lamento errante deixou um rastro de cratera em seu rastro.

"Denn! Eles estão aqui! Os Ancestrais ainda estão conosco! Existe terra sob a Corrupção aqui!"

"Mina? Vá devagar, você está sangrando, precisamos nos mover—"

Mina esticou-se e embalou a cabeça de seu irmão enquanto o próximo lamento voava direto em direção a eles, e deixou cair o punhado de terra.

As partículas explodiram em vida, cada uma expandindo-se em uma parede de caules grossos, raízes e terra que estremeceu conforme a onda de som a atingiu, os contornos de seu impacto formando uma mancha caleidoscópica em seu centro.

"Ouça!"

Os sons na cabeça de Mina eram ensurdecedores agora. Em múltiplas camadas e tons, misturavam coros de vozes e ruídos de todas as alturas, frequências, volumes. Uma calma desceu sobre ela. Respirou fundo, colocou a mão em concha sobre o ouvido de Denn, e todos eles jorraram de seus lábios como uma represa rompida.

Algumas palavras eram iradas, ternas, carrancudas, uma língua secreta compartilhada com um irmão cuja voz ela sentia como sua. Algumas saíam em reprimenda estrondosa, avisos severos que ouvira há muito tempo. Outras eram uma língua e um tom que sentia mas não conhecia, as rajadas quentes de vento no verão, a dor surda do arrependimento. Era o som de memórias coaguladas no tempo e no espaço. Uma calma desceu sobre Mina, e ela teceu suas palavras ao redor da carne e mãos feridas de Denn.

Os olhos dele arregalaram-se, a surpresa lavando qualquer tentativa de insensibilidade fingida. "Essas são as vozes dos Ancestrais? Onde você aprendeu a falar nas vozes deles? O que eles lhe dizem?"

Mina apenas assentiu, e nada disse.

Outro lamento estilhaçou a parede de vinhas, a terra compactada e os caules grossos e retorcidos caindo em pedaços quebradiços e coruscantes. Mina virou-se lentamente para encarar a criatura, de braços estendidos, e começou a falar.

Num som, falou de seu lar de infância nas selvas fumegantes de Guum, agachada no matagal, ouvindo a chuva. Pilares de terra úmida e rocha irromperam do solo, enviando grandes rachaduras irregulares correndo pela superfície como relâmpagos sobre as facetas da Corrupção, derrubando os monstros de sua face. Os Eldrazi urraram e tropeçaram para recuperar o equilíbrio.

No seguinte, contou histórias que nunca conhecera, mas que sabia serem verdadeiras. Histórias de bravura e sacrifício. Puxou sua segunda faca de seu lugar no quadril. Estava quente e cheirava a folhas úmidas. Inalou profundamente e sorriu para si mesma com zelo selvagem.

Mina e Denn, Nascidos na Natureza | Arte de Izzy

Desta vez, seu corte deslizou facilmente através da carapaça, sua outra mão mergulhando na casca aberta e arrancando o que quer que pudesse encontrar por baixo. Blindada em obstinação fria, entalhou sua faca em círculos lentos através de seu corpo pálido, vertendo poças de sua essência.

Atrás dela, algo roçou seu ombro conforme Denn abatia outro dos monstros, seu corpo chocando-se contra o solo enquanto ele decepava suas pernas insetoides. O riso dele assentou e congelou por um segundo enquanto ela o agarrava e cristalizava em memória. Fazia muito tempo desde a última vez que o ouvira.

Ela alcançou as raízes da jaddi. Os coroados as haviam avistado agora, exalando poder e nova vida, e correram dos ramos em direção a elas como flechas para sua presa. Reuniram-se ao redor dela num frenesi de pés estalantes e mandíbulas abertas.

Mina viu o topo da cabeça de Denn desaparecer no massacre de feras coroadas. Um estrondo profundo irradiou debaixo de seus pés. Raízes grossas rasgaram o solo, envolvendo os corpos blindados dos Eldrazi e puxando-os para dentro através das fendas na terra. Ramos da jaddi serpentearam para frente e puxaram o restante para o corpo da própria árvore, encerrando-os em casca. A superfície do vale estilhaçou-se em placas cintilantes de Corrupção, depois afundou na terra nova e macia que surgiu de sob os pés de Mina e Denn.

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Tenru chegou logo depois, acompanhada por um grupo de uma dúzia de Tajuru pesadamente armados e suas montarias. Atrás de suas fileiras estava uma elfa de cabelos claros, menor em estatura mas com uma calma e gravidade que frequentemente acompanhavam a idade. Sua armadura de couro era intrincadamente gravada, embora duramente castigada por anos de uso. Eles se aproximaram de Mina, que desabara com as costas apoiadas nas raízes da árvore, limpando seus ferimentos.

"Então vocês são nossos parentes de além da água?", a elfa de cabelos claros perguntou. Ela pegou a faca caída de Mina, quase escondida sob a camada despedaçada de Corrupção, e lhe entregou o punho.

"Meu perdão", interveio Tenru, "estes são a Tecelã-verde Mina e seu irmão Denn. Fantasmas das vinhas dos Mul Daya".

A elfa de cabelos claros sorriu gentilmente e inclinou a cabeça. "Nós os recebemos como toda a nossa espécie élfica. Que a distância e as gerações não nos separem. Que notícias vocês trazem de sua linhagem?"

Mina inclinou a cabeça em retorno, firmando-se para falar, embora as palavras viessem facilmente desta vez. "Vim em busca de Nisede, líder dos Tajuru, com o pedido de que aceite ajuda de nós, os... sobreviventes de Bala Ged."

"Sou Nisede. E o seu Orador? Ele enviou você em seu lugar?"

As bochechas de Mina arderam. Quando começou a falar, Denn interrompeu gentilmente. "Nós... não temos certeza. Mas sei que Mina, também, pode falar com as vozes de nossos parentes. Eu ouvi. Nós — pedimos para nos juntarmos a vocês, para que possamos manter seguras as memórias dos Mul Daya."

O rosto de Nisede tornou-se grave e sua fala tornou-se lenta e ponderada.

"Meus elfos continuarão a se adaptar e a se mover, como sempre fizemos. Ouvimos notícias de um acampamento zendikari, perto da Bacia de Halimar. Uma aliança de kor, humanos e tritões surgiu para fazer nossa resistência ou cair tentando. Não posso prometer-lhes um lugar seguro para suas histórias, mas posso prometer que podemos levá-los para dar sua força e suas histórias ao lugar mais forte que conhecemos."

Os outros assentiram solenemente.

"Hoje marchamos para nos juntar a eles. Nossa líder chama-se 'Tazri', uma humana de uma cidade situada na costa do Halimar. A cidade do Portal Marinho."

13 de Janeiro de 2016 | Por Ken Troop

A Corrupção para a Qual Nascemos

Zendikar aproxima-se de suas horas finais. As maquinações de Ob Nixilis, o demônio Planinauta, libertaram o titã Eldrazi Ulamog de sua prisão e convocaram seu companheiro titã Kozilek das profundezas de Zendikar. Ambos os titãs agora assolam a terra com suas inumeráveis ninhadas, e os Planinautas dedicados a deter os Eldrazi — Gideon, Nissa, Jace, Kiora e Chandra — foram derrotados ou estão desaparecidos.

Os remanescentes do exército de Gideon estão agora nas mãos de Tazri, uma soldada humana que serviu como a mão direita do comandante-geral anterior do exército zendikari, Vorik, e vinha servindo a Gideon na mesma capacidade. Tazri foi uma soldada brava e leal, mas foi incapaz de inspirar os zendikari da mesma forma que o forasteiro Gideon Jura. Agora as chances infinitamente pequenas que Zendikar tem após o assalto combinado dos Eldrazi repousam nas mãos de Tazri.

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Sua esperança não pode ser traída quando você não tem nenhuma a perder. Esse pensamento fora o consolo de Tazri por todos esses anos, e especialmente durante a ascensão dos Eldrazi. Cada revés e desastre na longa e lenta derrota fora recebido sem angústia. Qual o sentido de sofrer em uma guerra que você nunca pensou que pudesse vencer?

Mas ela não contara com Gideon. Há apenas alguns minutos, Tazri e suas tropas observaram maravilhados Gideon realizar o impossível. Ulamog, o grande titã da destruição, agora agrilhoado e contido. Será que realmente vencemos? Foi o mais perto que Tazri chegou de sentir deleite em muito tempo, o mais perto que ela conseguia. Vorik estava certo. Ele estava certo em escolher Gideon em meu lugar. Aquele pensamento era doloroso, mas ela ainda estava atônita com os novos e improváveis futuros que se abriam à sua frente. Iam vencer. Zendikar ia sobreviver. Gideon os impelira à vitória.

Até que Kozilek surgira. Até que o deus dos trapaceiros pregasse o maior truque de todos. Ele esperara que Tazri experimentasse a esperança antes de destruir tudo.

Rede de Hedros Alinhada | Arte de Richard Wright

Com a chegada de Kozilek, Ulamog fora libertado. Ambos os titãs estavam agora soltos e em fúria em meio ao exército zendikari. Tazri reuniu seus soldados para longe do colapso do Portal Marinho, uma reação mais reflexiva que estratégica. Vamos morrer aqui. Todos os preparativos, todas as vitórias e sacrifícios, todos os contos que os soldados contavam a si mesmos de esperança e redenção, agora tudo reduzido à verdade nua que conheciam em seus ossos. O fim é sempre mais rápido e sangrento do que se espera. Kozilek surgira, e muitos fins horríveis seguiram seu rastro.

Fugiram pela encosta dessecada fora do Portal Marinho, seus soldados mantendo a mais rala aparência de disciplina em sua devastação e medo. Tazri os direcionou para o abrigo de colinas densamente arborizadas no interior, para se reagruparem e planejar. Hordas de Eldrazi ainda os fustigavam pelo céu, mar e terra, mas as maiores ameaças à existência contínua eram os dois titãs soltos no Portal Marinho.

Um estrondo alto ecoou atrás deles. Tazri e os soldados viraram-se para ver o que o estrondo anunciava. A figura imponente de obsidiana de Kozilek preenchia o horizonte. Impossivelmente gigantesco, o titã devorava a luz do céu. Doía olhar para ele diretamente por mais de alguns segundos, causando uma pontada aguda de dor atrás dos olhos de quem ousasse. Kozilek avançava em ângulo em direção a eles, e Tazri ficou aliviada ao ver que ele passaria a algumas centenas de metros de distância.

Kozilek, a Grande Distorção | Arte de Aleksi Briclot

Mas conforme Kozilek movia-se sobre o horizonte, uma onda cintilante de algo percorreu a terra, uma ondulação pulsante e translúcida emanando para fora em todas as direções a partir do grande titã. A onda correu em direção a eles, e Tazri nem sequer teve tempo de gritar quando ela desabou sobre eles.

O tempo desacelerou. A insanidade floresceu. A pele de Romoe inverteu-se, rasgando e retalhando nas laterais de seu corpo enquanto ele se virava do avesso, gritando apenas por um momento antes de misericordiosamente morrer. Conforme a onda passava sobre Magain, ele visivelmente tornou-se mais jovem, transformando-se em um rapazinho, depois uma criança, depois um bebê e então um pequeno mote antes de desaparecer, tudo no espaço de alguns segundos. Debins virou-se para correr e subitamente o lado esquerdo de seu corpo sumira. Metade dele fora decepada em um quadrado plano pressionado contra o solo, uma mancha sangrenta onde alguma força invisível o esmagara contra a terra nua. A outra metade de Debins flutuava livre no ar, aparentemente não mais ligada ao solo ou à realidade. A metade de seu rosto que não fora esmagada tinha um olhar de profunda surpresa e horror, mesmo enquanto flutuava cada vez mais alto no ar.

Hemorragia de Realidade | Arte de Chris Rallis

A onda atingiu Tazri. O halo do anjo ao redor do colarinho de Tazri brilhou com calor dourado. O tempo, anteriormente desacelerado, agora se esticou. Eventos e ações de seu passado e futuro lampejavam em sua mente, tornavam-se sua mente, tornavam-se o seu agora. Toda a sua vida anterior, lampejando, lampejando na existência. Toda a sua vida futura, lampejando, lampejando na existência. O tempo e o espaço esticaram-se ainda mais, tensionando. Estalando. A realidade parou.

lampejo

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"Alto!" Tazri ergueu a mão, e as carroças na caravana de mercadores pararam com um estrondo. Todos os guardas viram os corvos circulando as colinas a oeste. Mahir iria querer que ela seguisse em frente, mas algo parecia errado. É por isso que ele me paga. Para gritar comigo quando atraso sua carga preciosa. Mahir levantou uma aba de dentro de uma carroça coberta, mas ao ver o rosto dela suspirou e deixou a aba cair. Aquela era sua sétima viagem de caravana com Mahir, e ele já a fizera capitã de sua guarda há duas viagens, embora ela ainda não tivesse completado vinte anos de vida. A mais jovem que ele já tivera, embora é claro que ele não diria isso a ela. Mas ela sabia de qualquer maneira. E sabia desacelerar e prestar atenção quando algo estava errado.

"Golamin, Rillem, cavalguem aberto, norte e sul, um para cada lado. Usem as trompas se algo parecer remotamente estranho e depois direto de volta para cá. Não sejam heróis. Algo está errado. Romoe, você vem comigo." Os homens assentiram e Golamin cavalgou para o norte na trilha enquanto Rillem cavalgou para o sul. Um dos guarda-costas sem nome de Mahir estava conduzindo sua carroça. Tazri nunca conseguia distinguir os gêmeos, e eles não falavam a língua dela de qualquer maneira, então ela apenas apontou para os penhascos altos a leste e gesticulou para vigiar. Nenhum dos gêmeos era o mais brilhante dos homens, mas ela esperava que entendesse o suficiente. Certificou-se de que o restante dos condutores da caravana tivesse suas trompas a postos. Dirigiu-se para o oeste em seu cavalo, Romoe logo atrás dela.

O trecho médio da rota de Tazeem era usualmente a parte fácil. Os tritões majoritariamente mantinham-se isolados e, embora os vampiros fizessem incursões na costa de Tazeem vindos de Guul Draz, raramente vinham tão para o interior. Usualmente a única excitação nessa parte da rota era um balote em fúria ou o solo cedendo em uma caverna. Mas os corvos sabiam que algo excitante estava acontecendo. Ou já acontecera. Tazri ignorou o ácido em seu estômago e seguiu adiante.

Agulhas de Pico | Arte de Jonas De Ro

Depararam-se com o primeiro cadáver após transparem uma grande colina para uma planície gramada e plana. O cadáver fora dividido ao meio longitudinalmente. Um vampiro muito, muito morto. As bordas de cada metade do cadáver estavam irregulares e queimadas. Uma espada, uma espada grande, e presumivelmente em chamas. Tazri não sabia quem ela esperava que tivesse vencido a luta, os vampiros ou o outro lado.

Havia mais cadáveres, e Tazri e Romoe desmontaram, embora ainda segurassem as rédeas. Os cavalos estavam ariscos. Mais cinco cadáveres de vampiros, embora as mortes fossem menos violentas; meras decapitações e sangramentos em vez de cadáveres fendidos, com carne queimada marcando cada corte irregular. Tazri só lutara contra um vampiro uma vez, e teria morrido facilmente se não fosse pelo fato de serem quatro contra um. O vampiro fora mais rápido que ela, e mais forte que ela, e matara com uma facilidade doentia. Ela não queria lutar contra o que quer que fosse capaz de matar seis vampiros com uma espada flamejante.

Ouviram uma voz feminina cantarolando uma melodia estranha antes de verem o corpo ao qual a voz pertencia. O anjo estava deitado contra um alto afloramento de rochas, seu corpo meio virado e contorcido. Ambas as asas de um lado foram arrancadas inteiramente, as outras dobradas e rasgadas. Sangue e um fraco brilho branco jorravam de seu flanco. Era muito sangue. Havia mordidas e cortes em seus braços e torso, e ainda mais sangue vazava de seu pescoço. Mais três vampiros jaziam mortos ao seu redor, um com uma espada gigante atravessada no peito e um com o pescoço quase partido. O anjo virou a cabeça para olhar para eles e, embora cada parte dela estivesse devastada, seu halo ainda brilhava num ouro belo e lustroso.

O anjo tossiu, sangue e mais do brilho branco espirrando de sua respiração em seu peito. Como ela ainda está viva? Tazri nunca antes contemplara um anjo, e observava sua beleza e poder em silêncio atônito.

"Pode... pode me ajudar?" Cada palavra fraca proferida com dificuldade causava mais tosse, mais sangue, mais agonia. Tazri, que matara e vira amigos serem mortos frequentemente em sua jovem vida, que nunca antes derramara lágrimas durante uma luta, começou a chorar.

"Não temos curandeiro." Mahir nunca gastaria com algo tão caro. "Podemos mover você? Pode se curar?" Tazri sabia que a pergunta era ridícula, mas o pensamento de alguém matando nove vampiros era ridículo. Quem sabia do que um anjo era capaz?

O anjo balançou a cabeça. "Estou. Estou morrendo. Pode... dias. Ajude." O anjo encarou a espada ao lado de Tazri, ainda em sua bainha. Não. Não!

"Se você conseguir resistir, podemos conseguir ajuda, podemos voltar para o Portal Marinho ou Coralhelm, encontrar alguém..." Uma, duas, três trompas soaram na distância. Não!

"Tazri..." A voz de Romoe, puxando-a de volta.

"Você pode se curar, podemos encontrar alguém..." A mente de Tazri corria, desesperada por respostas.

A voz do anjo, fraca e rascante, ainda assim a interrompeu. "Os vampiros... voltando. Há mais. Eles têm curandeiros. Eles me manterão... viva, muito... tempo. Por favor. Ajude-me. Acabe. Comigo." O anjo fixou o olhar mais uma vez na espada de Tazri, e depois de volta para Tazri. Seus olhares se encontraram, e Tazri contemplou a dor e o anseio ali. O anseio de estar a salvo do medo e da dor.

As trompas soaram novamente, todas elas.

"Tazri, temos que voltar, certo? Tazri!" O pânico cresceu na voz de Romoe.

Tazri limpou as lágrimas. Sacou sua espada.

"Tazri? Matar um anjo é ruim. Não faça isso. É uma maldição. Todo mundo sabe disso. Tazri, temos que ir. Temos que deixá-la." Romoe soava como a criança que quase era.

O anjo fez uma careta, ainda olhando para ela. Sangue escorria de sua boca. "Ele está... certo. Há um... preço. Matar-me custará... a você. Não posso... não posso impedir. Sinto... muito. Por favor... faça. Por favor, não... abandone."

As trompas, uma terceira vez.

Tazri ergueu sua espada. O halo do anjo brilhou num branco candescente, um brilho ofuscante e abrasador, e Tazri ouviu uma voz bela dentro de sua cabeça, embora não conseguisse distinguir nenhuma das palavras. Então o halo escureceu, e o brilho morreu. A voz dentro de sua cabeça cessou abruptamente.

O punho da espada de Tazri tornou-se frio ao toque, e ela deixou sua espada cravada no peito do anjo. Havia um pequeno e imóvel sorriso no rosto do anjo. O ácido e a ansiedade haviam sumido do estômago de Tazri, mas algo mais sumira também. Algo que ela não conseguia bem nomear. Ela se abaixou para pegar o halo cinza e baço dos olhos do anjo. Ele soltou-se facilmente do cadáver com o seu toque. Todas as coisas belas se rasgam tão facilmente. Tazri e Romoe montaram seus cavalos e deram a volta em meio ao clamor das trompas.

lampejo

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Tazri mantinha a cabeça baixa, esperando ser chamada. Não esperava ficar ali por muito tempo. As notícias se espalhavam rápido pelas estradas de caravana. As últimas tentativas de conseguir trabalho terminaram sem que sequer a deixassem falar. Agora estava reduzida a pedir por uma posição na milícia. Outrora ela teria ficado furiosa com o pensamento. Agora apenas sentava-se no banco e esperava.

"Tazri." Ela olhou para cima ao som da voz profunda. Ele era de estatura média mas com uma constituição larga e forte, com pernas e braços grossos. Uma constituição de lutador. Até a maneira como ele parava indicava um equilíbrio e força naturais que ela associava a bons lutadores. A maioria da milícia com que se deparara era gorda ou velha e só podia sonhar em ser guarda de caravana. Falava bem deste Vorik o fato de ele ter um soldado tão capaz em seu séquito.

"Sim. Estou aqui para ver Vorik." Ela odiava a pontada de desespero em sua voz, odiava estar ansiosa para se juntar a um bando de burocratas sedentários que provavelmente consideravam seus planos para o almoço uma grande aventura.

Mas odiava ainda mais o pensamento de não conseguir o trabalho. De estar sozinha.

Baluarte Fortificado | Arte de David Gaillet

O homem sorriu. Um sorriso largo e fácil que há alguns anos poderia ter acelerado o coração dela. "Sou Vorik. Por que você está aqui, Tazri?"

Ela hesitou, incerta de por onde começar. Até mesmo de como começar. Apenas olhou para ele, e permaneceu em silêncio. Havia outros trabalhos, certamente, certo? Havia outras milícias além da do Portal Marinho. Pensou furiosamente em quem mais conhecia, quem mais poderia...

"Quatro anos atrás, você era a capitã de caravana mais jovem nas estradas de Tazeem, a joia preciosa de Mahir, que tanto cobiça seus trabalhadores talentosos. Você era perversa com a espada..." ele olhou brevemente para o lado dela, "...hum, uma maça? Uma arma brutal, e difícil de manejar bem."

Uma faísca brilhou em Tazri e ela levantou-se para olhar Vorik nos olhos. "Sou perversa com uma maça também. Pode descobrir se desejar. Não uso mais espadas."

"Justo." Houve o sorriso novamente, embora desta vez ela apenas o achasse irritante. Não precisava ser lembrada da vida que tivera, do que perdera.

"E então Mahir demitiu você. Assim como os cinco mercadores seguintes que pensaram estar fazendo um ótimo negócio. A incrível Tazri, que não era mais tão incrível assim. Então, novamente, Tazri. Por que você está aqui?"

Ela queria lhe dizer, eu não sonho mais. Não é que eu não os lembre. Eu apenas não os tenho mais. Eu costumava sonhar com lugares que vira como guarda, com meus pais, com lutas e amores e medos. E agora há um vazio entre quando vou dormir e quando acordo, e o vazio continua lá depois que me levanto. Está lá agora mesmo, está sempre lá, e não sei como preenchê-lo. Como se substitui algo do qual não se sabe mais o nome?

Ela queria dizer todas essas coisas, mas não conseguiu, então não disse. Esperou, em vez disso.

"Acontece que gosto de soldados que não falam muito. E entendo soldados que precisam de tempo para processar as coisas. Todos nós precisamos, Tazri. Eu poderia usar uma lutadora como você. E uma líder como você. Sei o que você pode ser. Pode ser essa líder novamente, Tazri?"

Tazri assentiu com a cabeça, muda. Se ela fosse capaz de chorar, estaria aos prantos. Mas em vez disso apenas continuou a assentir, esperando desesperadamente que pudesse ser aquela pessoa de novo, enquanto uma parte dela sabia que Tazri se fora para sempre.

lampejo

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"...esperança. Tenho esperança de que isso não seja verdade. Tenho esperança de que ainda haja uma chance para Zendikar. Gideon Jura, você me deu esperança."

Cada vez que Vorik proferia a palavra, era como uma espada atravessando seu peito. Esperança. Seria esta a vingança da vida por sua incapacidade de ajudá-lo?

Você me salvou, e agora não posso salvar você.

E ele a salvara. Trabalhara para ele por quinze anos. Quinze bons anos onde subira para ser verdadeiramente sua mão direita. Ela nunca mais seria a líder que fora quando era jovem e tudo era fácil. Antes do anjo. Mas com a ajuda de Vorik, e a paciência de Vorik, e a confiança de Vorik, ela encontrara outras formas de ser valiosa. De ser valorizada.

Médica do Refúgio de Pedra | Arte de Anna Steinbauer

Estava perdida no lamaçal de seu próprio luto quando as palavras de Vorik romperam seu desespero. "...quando eu me for, você liderará este povo. Você reivindicará o Portal Marinho, Comandante-Geral Jura."

"Não." Tazri arquejou, sua mente girando. Sentiu-se traída, por Vorik e por si mesma.

Como você pôde não me escolher como sua sucessora?

Por que não consegui descobrir como ser a pessoa que eu era? Como pude falhar com você, repetidas vezes?

Ambos os pensamentos a atingiram simultaneamente. Vorik continuara falando, mas ela não conseguia processar nenhuma de suas palavras em seu tumulto. Automaticamente sua boca trabalhava independentemente de sua mente, mantendo uma demonstração simbólica de resistência enquanto ela desmoronava por dentro em luto e raiva.

Ele está morrendo. Ele está morrendo e logo se irá. E então o que você terá? Quem você amará?

E então, Zendikar seguirá. Vorik morrerá. Zendikar morrerá. A única pessoa que não morrerá é você. Você morreu há muito tempo. Logo tudo estará vazio e vácuo, exatamente como você.

O pensamento horripilante a aqueceu, preenchendo seu vazio, ainda que apenas por um momento.

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Contorção Espacial | Arte de Daarken

Tazri gritou conforme a realidade desmoronava. Cada memória, não, a vivência real de seu passado estava sendo experienciada agora, todos os momentos ocorrendo simultaneamente, uma exibição caleidoscópica desdobrando-se infinitamente. O halo ao redor de seu pescoço, o halo do anjo, era agora de um branco candescente, e o calor queimava. Mesmo enquanto sua mente buscava refúgio do assalto intermitente do passado, era assaltada pelo futuro...

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Tazri sorriu amplamente enquanto seu mestre segurava Gideon no aperto de seu punho. Gideon gritava, e um escudo dourado lampejou na existência brevemente ao seu redor antes de falhar. Seu mestre era o senhor do tempo e do espaço, e ele não permitiria tais impropriedades.

Chamar as Sentinelas | Arte de Yefim Kligerman

Os cadáveres dos outros intrusos jaziam por perto. Ali haviam decidido fazer sua resistência final, e a resistência fora breve e risível. Ali estavam os restos acinzentados da maga do fogo, consumindo-se a si mesma em uma tentativa fútil de ferir o mestre de Tazri. Ali estava o invólucro drenado da elfa, que buscara fundir sua essência com o mundo e partilhou do destino do mundo como resultado. E ali estava o cadáver mutilado do mago mental. Ele conjurara centenas de ilusões como seu truque final, e só pôde assistir horrorizado enquanto suas próprias ilusões se voltavam contra ele, empunhando suas espadas ilusórias e perfurando seu corpo por inteiro. A cada golpe que desferiam, pronunciavam o nome "Kozilek".

Kozilek. O nome preenchia sua mente, preenchia seu vazio, finalmente a tornara completa. Conseguia mal recordar a onda translúcida e cintilante que a atingira, que matara todos os seus falsos amigos mas a deixara viva, sem lembrar de nada. Tudo o que soubera ao recuperar a consciência fora o nome ressoando como os sinos mais doces em sua mente. Kozilek. Kozilek. Kozilek. Tudo se tornara tão claro. Lutara por Kozilek e observara enquanto o exército de seu mestre varria tudo diante deles, culminando neste dia vitorioso.

Retorno de Kozilek | Arte de Lius Lasahido

Ulamog e os seus não estavam em lugar algum. Talvez tivessem sido abatidos ou partido; não importava. Tudo o que restava no campo de batalha eram os exércitos leais de seu mestre. E o último inimigo. O último invasor estrangeiro a ser eliminado, Gideon Jura.

Não gostara de Gideon Jura em sua vida anterior, antes de Kozilek a ter salvo. Mas havia ainda mais razão para odiá-lo agora. A mera presença de sua oposição ofendia. Como poderia um receptáculo tão punitivo e frágil ter a temeridade de desafiar o próprio senhor da realidade? Gideon Jura precisava ser punido.

Kozilek apertou, e nenhuma estrutura mortal poderia suportar tal pressão. Gideon Jura explodiu, e um saco sangrento de carne rompida e ossos quebrados caiu inerte na terra branca de cinzas abaixo, para juntar-se aos cadáveres de seus amigos. Tazri vibrou e saltou, em êxtase por ser testemunha de tal glória.

Um estranho zumbido cresceu nos ouvidos de Tazri. Não vinha do ar, nem através do chão. Vinha de dentro dela. O zumbido cresceu e aprofundou-se, e apenas gradualmente Tazri adivinhou o som.

Soava como risada. A risada de Kozilek.

O zumbido ressoava por toda a esfera. Tazri partilhava da alegria de seu mestre, mas não conseguia perceber a causa de tal mirth. Kozilek ergueu um braço, e houve uma ondulação no espaço, e Gideon Jura apareceu mais uma vez diante deles, inteiro e ressuscitado. Estava mais uma vez apertado no punho de Kozilek, mas em seu terror e gritos era aparente que Gideon Jura lembrava. Lembrava de morrer, e agora ia morrer novamente. Kozilek apertou e Gideon Jura mais uma vez encontrou o abraço da morte.

Tazri deu guinchos de deleite. Agora entendia a alegria de seu mestre. Seu mestre empunhava o tempo e o espaço. Qual a consequência de manipular uma pequena parte de tais materiais para garantir que um inimigo impudente fosse feito sofrer? Novamente, e novamente, e mais uma vez.

Outro espasmo, outra ondulação, e Gideon Jura renascia novamente, e seus gritos aterrorizados eram deliciosos.

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A tempestade rugia. Nuvens de bismuto fractais estilhaçavam hedros encantados, enquanto estrangularidades chuviscavam sobre assimetrias pesadas no topo.

Não estava funcionando. Nada daquilo estava funcionando.

Pelos primeiros dez mil anos após o desaparecimento de Kozilek, Tazri usara seus novos poderes para tentar a reconstrução. Mas Kozilek fora um criador medíocre, nada parecido com seu irmão mais velho, e os dons de Tazri eram uma imitação pálida e estagnada dos de seu mestre.

No início pensara que fosse apenas um problema de talento, de aprimoramento. É claro que não conseguiria recriar cada detalhe de Zendikar na primeira vez. Era impossível. Mas na centésima vez? Na milésima? Se continuasse aprimorando cada vez, eventualmente, inevitavelmente, criaria Zendikar, perfeitamente, totalmente.

Ermos | Arte de Raymond Swanland

E então ele voltaria. Zendikar reformada o chamaria, exatamente como fizera da primeira vez. Tinha que chamar.

Levaria apenas tempo, e todo o tempo que existia era para ela.

Eventualmente ela percebeu a falha em sua lógica. Ainda era humana demais, mesmo após milênios. Embora tivesse passado por transformações profundas de corpo e mente durante o reinado glorioso de Kozilek, demais dela permanecia imperfeito, fraco. No rastro do desaparecimento de Kozilek, seu poder e controle eram imensos, todos os estratos de autômatos eram seus para controlar. Mas é claro que não poderia alcançar sua busca apenas com sua vontade... ela era humana.

Humanos nunca deveriam aspirar a ambições dos deuses.

Esvaziador de Essência | Arte de Chase Stone

Mas e se em vez de buscar dirigir a mudança, ela meramente fornecesse o ambiente correto para a mudança? Se pudesse apenas fornecer as condições iniciais corretas, então eventualmente os materiais se formariam na Zendikar correta, talvez exatamente da mesma forma que a Zendikar original se formara.

Novamente, tudo o que deveria levar era tempo.

Sua última obsessão era com o clima. Mas mesmo suas experimentações mais simples nada faziam como ela esperava. E qualquer incursão que fizesse em sistemas mais complexos rapidamente espiralava em uma aleatoriedade caótica. Não havia padrões, nem beleza, nem chance de Zendikar reaparecer.

Respirou fundo — por que você ainda é tão humana, pare de respirar, você não precisa respirar — e voltou ao trabalho.

Ela o queria de volta. Por que você me deixou? Não fui uma boa soldada? Tínhamos vencido. Onde você está agora? Você sente minha falta? Queria a risada dele novamente, sua presença confortante. Queria que seu vazio fosse mais uma vez preenchido. Continuaria tentando, continuaria aprimorando, continuaria entendendo. Virou o rosto para a chuva estranha, sentindo-a cair em suas bochechas simuladas.

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As estrelas e o sol estavam há muito pretos e mortos, e nada se movia nem agitava.

Tazri jazia nas profundezas da terra, envolta em casulos de energia e padrão. Armazenara toda a energia que pudera bilhões de anos atrás, determinada a esperar o máximo que conseguisse.

Kozilek voltaria. Ela sabia disso. Só precisava estar lá quando ele o fizesse.

Na maior parte do tempo ela dormia, mas precisava acordar por períodos de tempo para reajustar seus casulos e garantir que não pereceria durante seu próximo longo sono. Precisava conservar toda a energia que pudesse; para manter-se entretida, contava histórias a si mesma. Eventualmente decidiu-se por sua história favorita: o dia em que Gideon morreu.

Contaria a história repetidamente, detendo-se nas mortes de cada forasteiro, e então em cada uma das mortes que Gideon sofrera naquele dia quase interminável.

A história levava tanto, tanto tempo para contar, e quando terminava ela a contava novamente. Cada vez que dizia as palavras lembrava-se do calor da risada de Kozilek, de quão completa sua presença a fazia sentir.

Embora não o visse há trilhões de anos, sabia que veria. E então tudo estaria certo.

E no vazio entre, tinha seu sono e suas histórias. Eram tudo o que precisava até que Kozilek retornasse.

"Esta é a história do dia em que Gideon morreu."

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A mente de Tazri estava se desintegrando sob a pressão. Qual mortal poderia suportar um vislumbre do infinito? Uma parte dela, no fundo de sua mente devastada, perguntava-se como ainda não desmoronara, rendendo-se ao vasto vazio.

O brilho do halo do anjo intensificou-se.

Havia algo... suavizante naquele brilho. Algo amortecendo o horror, um bálsamo removendo as picadas mais amargas da insanidade. Não fosse pelo calor e poder do halo do anjo, ela teria mergulhado no abismo balbuciante do qual não há retorno.

O halo ao redor de seu pescoço pulsou e engrossou, sua luz brilhando cada vez mais, uma brancura quase infinita para preencher o vazio.

A luz branca brilhou, e o resto do mundo desapareceu.

Tazri estava parada? Flutuava? Existia. Existia num plano branco sem feições. Todos os seus soldados, todos os Eldrazi, toda Zendikar, todos haviam sumido.

Memórias recuaram de sua mente. Houvera um futuro, algo... horrível. Como um sonho febril do qual não há retorno, sombrio, interminável e terror por toda parte. Tentou segurar o sonho, mas ele se desintegrou conforme ela buscava sua reclamação. Sentiu-se aliviada com a perda.

Uma pequena parte do branco interminável à sua frente enrugou-se, coalesceu. Viu um rosto primeiro, um rosto perfeito, e então abaixo do rosto um corpo formou-se com braços e pernas e quatro asas maravilhosas, duas de cada lado, desdobradas e largas.

Dádiva Angelical | Arte de Josu Hernaiz

Era o anjo que ela matara vinte anos atrás. Uma infinidade atrás, algum pensamento errante sussurrou. Para sua grande surpresa, Tazri começou a chorar.

"Onde estou? Como... nada disso é possível?" ela gesticulou ao redor para a vastidão de branco.

O anjo sorriu, e Tazri banhou-se em seu brilho. Mais horror e memórias recuaram de seu cérebro, derretendo-se no calor e amor daquele sorriso. Embora nem o rosto nem os lábios do anjo se movessem, Tazri ouviu uma voz gentil em sua mente.

"Estamos fora do tempo, Tazri. Fora do domínio de Kozilek. Nos estertores do campo de Kozilek, para você todo o tempo foi comprimido em agora. Foi apenas o movimento mais curto para sair do agora, para estar livre do tempo. Você está segura aqui."

À menção do nome Kozilek, Tazri estremeceu, embora não conseguisse mais lembrar o porquê. O nome tocou uma corda nela, um soar de sinos sombrios que zumbiram não apenas por sua cabeça mas por todo o seu corpo, as partes mais profundas de seus ossos. Ela não conseguia dizer se o sentimento era de grande horror ou grande deleite.

Era ambos. Um abismo ameaçava abrir-se novamente à sua frente, um no qual ela poderia mergulhar e nunca retornar...

O rosto do anjo estava mais uma vez à frente dela, sorrindo, trazendo-a de volta para si mesma.

"Você foi gravemente ferida, Tazri, por muitos anos. É hora de você ser restaurada, passou da hora."

Ela lembrou de seu crime. Estava enterrando a espada no anjo, entregando a morte a uma criatura de tamanha pureza e beleza — como poderia aquilo não ser punido?

"Você deveria ser curada..."

"Não!" A ferocidade da resposta de Tazri a pegou de surpresa. Quando fora a última vez que sentira algo tão claramente, tão fortemente? Tão puramente.

"O sacrifício foi meu para dar! Você me disse que havia consequências, e eu o fiz de qualquer forma. Paguei o preço, e o paguei de bom grado! Você não pode tirar isso de mim!" A imensidade do que Tazri perdera nesses vinte anos tornou-se plenamente percebida. Nunca conhecer a confiança, ou o desejo, ou a alegria. Nunca estar plenamente engajada no presente, lutando por um futuro melhor. Nunca conhecer a esperança.

Perdera tanto. Foi minha escolha fazer!

"Tazri, você sofreu por uma eternidade. Você sofreu o suficiente. Você está perdoada."

"Não preciso do seu perdão!", rosnou Tazri.

"Não o meu perdão. O seu."

Vinte anos atrás, Tazri matara um anjo e algo se quebrara por dentro. Agora algo estava conectando. Reformando. Tornando-se inteiro. Lágrimas fluíram livremente de Tazri, e mais que lágrimas — todas as emoções dormentes por anos voltaram correndo. Ela fraquejou sob o assalto. Como posso sobreviver a isto? Uma pausa, e então, Você sobreviveu a coisas muito piores. Ela tirou força da confiança naquela voz, percebendo apenas lentamente que a voz era a dela.

"O campo de Kozilek está passando através de você, Tazri. O tempo será retomado. Você será retomada."

Tomar Posição | Arte de Magali Villeneuve

A realidade estava começando a infiltrar-se no espaço branco da mente de Tazri. Kozilek. Ulamog. Os titãs soltos e em fúria. Gideon e seus amigos perdidos ou mortos. Como poderia Zendikar vencer? Como poderia Zendikar sobreviver?

"Kozilek pode influenciar o tempo e o espaço, Tazri. Isto é verdade. Este é o seu propósito. Mas tempo e espaço são meramente duas dimensões em toda a panóplia do que é."

A voz estava começando a desaparecer, assim como a luz branca permeando seus sentidos. A realidade, a verdadeira realidade, estava começando a aparecer nos arredores de sua percepção.

"Não entendo. Por favor, ajude-me."

"Kozilek, com todo o seu poder, com todo o seu domínio, nunca poderia fazer o que você fez vinte anos atrás. Tais dimensões são indomáveis, incognoscíveis, para ele e os seus. Mas não para você. Você, que amou. Você, que sacrificou tanto por um ser senciente que nunca conheceu. Você, que teve misericórdia por um anjo moribundo e esteve disposta a pagar o preço. Tempo e espaço são domínios medíocres comparados aos reinos do amor e da misericórdia." A voz era meramente um sussurro agora, e a brancura reduziu-se a uma pequena esfera ao redor delas. A forma do anjo estava se dissipando.

"Você não lembrará muito do seu interlúdio aqui. Não consegue e ainda permanecer inteira. Mas lembre-se disto. Você pode vencer. Você vencerá. Não há outra opção." E então aquela voz bela se fora, e a realidade se reassertou com trovões e chamas.

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Relâmpagos e fogo atingiam do céu as hordas de Eldrazi que cercavam a represa arruinada do Portal Marinho. Em todos os lugares que olhava, Tazri via amigos mortos, cadáveres que há um segundo estavam vivos e correndo; agora estavam espalhados como destroços no rastro de uma tempestade. Tazri não conseguia entender o que acontecera. Estivera fugindo da catástrofe, e virara-se para ver a figura pavorosa de Kozilek... e então houvera um espaço em branco, um piscar momentâneo, e agora seus soldados estavam mortos, e apenas ela estava viva. Procurou por Kozilek, mas ele já estava longe na distância afastando-se deles, como se tivesse de algum modo se teleportado uma grande distância em um instante.

Testemunhar o Fim | Arte de Igor Kieryluk

O fogo e os relâmpagos foram acompanhados por emboscadas de terra, erguendo-se de solo outrora nivelado para esmagar e pulverizar proles Eldrazi. Tazri viu quatro figuras atrás dela, com a figura principal sendo um tritão familiar. Noyan Dar. Noyan erguia seus braços e o fogo canalizado pelo vento de infernos circundantes era dirigido em jatos incineradores contra grandes Eldrazi. Um dos Eldrazi grandes estremeceu e um campo cintilante interpôs-se entre si e a fúria da terra. A terra e o fogo varredores desapareceram no campo cintilante apenas para reaparecerem de outro portal cintilante que surgiu na existência atrás de Noyan e seus magos do turbilhão. Tazri não teve tempo de gritar um aviso conforme o fogo e a terra varreram os magos do turbilhão, obliterando-os.

Fauce de Kozilek | Arte de Daarken

Obliterando a todos exceto um. Um esporão de rocha e terra lançou-se da carnificina, carregando Noyan Dar consigo. Ele o catapultou centenas de metros no ar e, apesar de seus poderes prodigiosos, Tazri não conseguia imaginar nada além de um fim fatal para o seu voo. Ele despencou, debatendo-se, tentando tecer um feitiço final, quando uma figura escura mergulhou e interceptou seu voo perto do chão.

Com a figura escura vieram centenas mais, ondas de tropas voando e correndo, massacrando proles Eldrazi em dezenas. Tazri conseguia distinguir as figuras aterrorizantes de vampiros, mas também humanos, kor, elfos e tritões. Viu Munda e vários outros que reconhecia. E a figura voadora que salvara Noyan era...

Drana, Libertadora de Malakir | Arte de Mike Bierek

Drana. Tazri nunca gostara da rainha vampira. Fria, imperiosa, sua presença lembrava Tazri de um crocodilo. Calma e plácida até que fosse tudo dentes e agressão e você estivesse morto. Tazri não confiava em Drana, mas estava em êxtase por a senhora vampira estar ali agora. Drana soltou Noyan no chão e pousou em frente a Tazri. A raiva em ambos os seus rostos era clara, mas havia algo diferente ali também.

Ambos estavam incertos, hesitantes. Kozilek. Kozilek perturba todo equilíbrio. Tazri não conseguia imaginar ninguém mais sendo atingido pela mesma onda cintilante que a atingira. Caso contrário estariam mortos, presumivelmente de alguma forma horrível, embora Tazri ainda não conseguisse entender como sobrevivera, ou por que não conseguia lembrar de nada sobre a experiência. Mas não era necessário ter estado diretamente no rastro de Kozilek para sentir seu efeito. Toda a realidade tremia diante de Kozilek.

A chegada das tropas de Drana e Munda virara temporariamente a maré da batalha. Pela primeira vez desde que Ulamog quebrara suas correntes, os zendikari não estavam sendo acossados por horrores Eldrazi. Mas a situação ainda era terrível. Estavam quase cercados, e mais de metade deles já perecera. Sem um plano claro, um em cada dez teria sorte se sobrevivesse. Então Zendikar estaria verdadeiramente perdida. Em meio a este caos e perda, alguém precisava assumir o comando.

Houve um breve momento de dúvida. Quem sou eu para ser essa líder? E então a voz duvidosa silenciou, substituída por uma voz de vinte anos atrás, mas intimamente familiar apesar de todo esse tempo. Sou Tazri. Sangrei e batalhei por Zendikar. Treinei sob Vorik por quinze anos, aprendendo a forma e o alcance do alto comando. Estou aqui pelo meu povo e minha terra. Sou Tazri, e isso é o bastante.

Em algum lugar profundo de sua mente ecoou o som de uma voz doce e pura, e Tazri sentiu-se inebriada ao assumir o comando.

"Drana, quantas pessoas lhe restam?"

Drana olhou para ela e nada disse, ou ainda atônita com os eventos de hoje, ou relutante em reconhecer a liderança de Tazri. Talvez ambos.

"Drana!" A voz de Tazri chicoteou, sem raiva, mas com claro comando imperioso. Os olhos de Drana estreitaram-se, e um indício de sorriso predatório retornou, mas ela respondeu. "Mil. Guerreiros fortes, mas lutar contra a prole de Kozilek não é fácil. Poder e força sozinhos não são... suficientes." Aquele mesmo olhar assombrado apareceu nos olhos de Drana novamente, embora o sorriso inquietante não tenha deixado seu rosto.

"Noyan, quantos magos do turbilhão existem?" Se Drana parecia desconfortável, então o poderoso mago Noyan Dar parecia verdadeiramente perdido. "Eles... estão mortos. Quase todos eles. E os que sobrevivem não podem fazer muito. Eu..." Noyan Dar desabou em soluços. Tazri queria chorar com ele, lamentar todos os mortos, mas os vivos precisavam de uma resposta diferente.

"Noyan, você não pode fazer nada por eles agora. Prometo a você vingança pelos mortos e esperança para os vivos. Noyan!" Noyan olhou para cima.

"Sim, Tazri. Sim. O que você precisa de mim?" O luto de Noyan foi substituído por raiva. Raiva e propósito. Perfeito.

"Preciso de uma fenda, uma grande fenda entre nós e os Eldrazi enxameando ao redor do Portal Marinho. Todos os que ainda estão no Portal Marinho estão ou mortos ou morrendo. Não podemos fazer nada por eles. Mas ainda há milhares de nós aqui."

"Sim, posso fazer isso. Mas precisarei de tempo, especialmente fazendo sozinho."

"Você não estará sozinho, mas comece. Munda, prepare as tropas. Vamos sair daqui. Se não podem se mover, vamos deixá-los."

Munda não escondeu sua raiva ou angústia. "Você não pode..."

Reforços Aliados | Arte de Matt Stewart

"Posso. Vou fazer. Se ficarmos aqui, morremos. Os gravemente feridos enfrentam o mesmo destino não importa o que façamos. Precisamos viver. A única esperança de Zendikar repousa conosco." Munda parou, perscrutando-a de perto. Não estava acostumado a uma Tazri vigorosa. Mas ele servira ao lado dela. Ele a conhecia. Assentiu e partiu para preparar todos os outros.

"Drana!" A rainha vampira estivera dando suas próprias ordens aos seus vampiros, mas virou-se lentamente, sorrindo languidamente o tempo todo.

"Envie batedores voadores e veja se há algum grande grupo de lutadores capazes ainda restando. E fique atenta por Gideon. Precisamos dele e dos outros de volta."

"Bah. O guerreiro está morto. Ou estará em breve." A voz de Drana gotejava desprezo.

"Não, ele está vivo. E nós o encontraremos." Vários soldados ao redor dela empertigaram-se, esperança brilhando em seus olhos onde antes houvera desespero. Tazri estava maravilhada com quão confiante estava. Mas tinha certeza de que Gideon estava vivo. Precisava de Gideon para que tivessem uma chance razoável de vencer esta guerra. Portanto, Gideon estava vivo. A lógica a teria atingido como bizarra e falha apenas ontem. Confiança irracional é o maior presente que uma líder pode dar ao seu povo.

"Coloque esses batedores em movimento, Drana."

"Nossa, que generalzinha. Sim, General Tazri, mas é claro! Uma pergunta, porém... por que eu deveria ouvir? Se eu quisesse ouvir opiniões aleatórias, prometo que acho a minha a mais convincente."

General Tazri... dito com desprezo, mas Tazri admitiu que gostou do som. Hora de lançar os dados. Aproximou-se de Drana, colocou os lábios no ouvido da vampira e sussurrou.

"Você é mais poderosa do que eu. Mais poderosa que provavelmente todos nós." O sorriso de Drana tornou-se tímido. "Seu povo fala, Drana. Sabemos o que você fez, o que você pode fazer. Mas você sabe que enquanto os vampiros de Guul Draz seguirem você, o resto de Zendikar nunca seguirá. Há medo demais de vampiros. Medo demais de você. Então eu liderarei. Pense em mim como uma figura de proa se quiser. Podemos nos matar mais tarde, quando todos os Eldrazi estiverem mortos. Mas até que os Eldrazi estejam mortos, eu vou liderar este exército. Preciso da sua ajuda, no entanto. Zendikar precisa da sua ajuda. Por favor." Tazri percebeu que estava prendendo a respiração, e soltou-a lentamente. Chega de medo. Nunca mais.

Drana afastou-se de Tazri e encarou-a, seu sorriso sumira. Nos olhos de Drana Tazri sentiu a presença de algo antigo e alienígena, um olhar intimidante que a teria deixado de joelhos em terror uma hora atrás. Vivi por uma eternidade, pequena vampira. Seu breve interlúdio de existência é o mero orvalho matinal. Tazri não sabia de onde vinha o pensamento, nem sequer entendia o que significava, mas o pensamento a confortou, e ela sorriu.

O rosto de Drana ficou inquieto, e ela desviou o olhar.

Quando Drana olhou de volta, era toda presunção e superioridade novamente, seu sorriso perverso mais uma vez em exibição total. Mas Tazri sabia que era encenação. Hora de pressionar.

"Mais uma coisa, Drana. Preciso que você canalize energia para Noyan Dar. Ele não tem nenhum mago do turbilhão para ajudá-lo, então você precisa ser a fonte de energia dele. Preciso que você faça isso acontecer."

Tazri conseguia sentir a raiva de Drana, conseguia ver a realidade desdobrando-se de muitas maneiras diferentes, algumas delas com fins bastante curtos e sangrentos para si mesma. Mas focou no resultado que queria, o resultado de que precisava.

Após uma longa pausa, quando Drana disse simplesmente, "Conforme o seu comando, General Tazri", ambas sabiam que Drana falava sério. Ao menos por enquanto.

Os Eldrazi estavam começando a se aglomerar novamente ao longo da frente do Portal Marinho. Embora tanto Ulamog quanto Kozilek estivessem ocupados em outro lugar, havia proles suficientes ali para tornar a vida cada vez mais difícil. "Noyan! Preciso desse feitiço agora!"

Ulamog e Kozilek soltos e em fúria. Metade do exército zendikari destruído. O paradeiro de Gideon desconhecido. E Tazri perdera quase metade de sua vida em uma névoa dormente que apenas hoje fora dissipada, tudo devido a um ato de misericórdia que lhe custara quase tudo.

Tazri pensou sobre tudo aquilo, e o descartou. É aqui que quero estar. Isto é o que fui destinada a fazer.

A batalha por Zendikar não fora perdida. A batalha por Zendikar estava agora verdadeiramente começando. E Zendikar ia vencer. Ouviu a voz bela de um anjo cantar, e a General Tazri sorriu.

General Tazri | Arte de Chris Rahn
20 de Janeiro de 2016 | Por Doug Beyer

Em Chamas

Chandra Nalaar chegou a Zendikar exatamente quando o inferno estava se desencadeando. O demônio Ob Nixilis recuperara sua centelha de Planinauta, despertara um titã e causara a destruição do Portal Marinho. Agora dois titãs Eldrazi vagam livres por Zendikar, e os zendikari estão dispersos. Chandra está empenhada em se reunir com seus compatriotas, mas em todo o caos, ela ainda não os localizou — nem ao demônio vingativo.

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Chandra escalou um afloramento rochoso, procurando por dois rostos em particular, mas viu apenas destruição e retirada. Kozilek e Ulamog vagavam pela paisagem agora, abrindo duas ravinas de terra corrompida atrás de si. Não recuavam diante de suas rajadas de fogo, mas ela sentia que eles simplesmente se virariam e a devorariam se ela se tornasse um incômodo grande o suficiente.

Faixas de corrupção cruzavam o campo de batalha, marcando as passagens das proles. Os filhotes de ninhada Eldrazi estavam ficando sem humanoides para perseguir. Muitos dos zendikari haviam fugido quando Kozilek surgiu e a muralha marinha quebrou. Muitos haviam sido consumidos. Não havia sinal dos rostos que Chandra buscava.

Também não havia sinal do demônio cuja interferência levara a tudo aquilo.

"Gideon!", gritou ela uma, duas, três vezes. Mais alto a cada vez, com uma ponta de irritação crescente na voz.

Um som de estalido e chocalhar anunciou um novo enxame de Eldrazi esgueirando-se por uma colina em sua direção. Estariam ali em breve. Muitos para enfrentar sozinha.

Fechou os olhos com força e pensou, "Jace?" o mais alto que pôde. Sentiu-se instantaneamente ridícula.

Não houve resposta, mental ou de outra forma.

Chandra apertou os olhos para o enxame que se aproximava. Tinham joelhos e cotovelos demais, com olhos sem piscar posicionados nas articulações. Relanceou para trás, mas a terra caía num vale cintilante de solo arruinado pelos Eldrazi. Ela manteve-se ereta, com os pés bem afastados, diante do enxame. Ajustou seus óculos sobre os olhos e inclinou a cabeça para um lado de modo que seu pescoço estalou.

Ao assumir sua postura, seu pé tocou algo metálico, e ela olhou para baixo. Era um grande escudo broquel, cravado em uma depressão de lama. Lançou um olhar fulminante para a linha de Eldrazi, e deliberadamente abaixou-se e pegou o escudo sem quebrar o contato visual. Estava amassado, mas ela o reconheceu.

Falange de Gideon | Arte de James Ryman

Engoliu em seco. Pressionou o escudo contra a testa por um momento, e algo ardeu em sua garganta. Apertou o broquel de metal em seus punhos até que as bordas se curvaram.

Por alguma razão os rostos de seus pais lampejaram em sua cabeça. Nunca entendera por que pensava neles em momentos estranhos — eles simplesmente vinham a ela. Nunca envelheciam em sua mente; ainda tinham a mesma idade de quando os vira pela última vez, quando ainda era uma criança em Kaladesh. Não pensava em seus últimos momentos; não via seu pai caindo de joelhos com uma faca no estômago, e não via o xale de sua mãe na lama, suas bordas queimadas conforme a aldeia ardia ao seu redor. Apenas os via olhando para ela com olhos de pais, gentis e orgulhosos.

Rangeu os dentes. Chegara a Zendikar tarde demais.

A voz de uma mulher veio de trás dela, lá embaixo na ravina. "Ei, maga do fogo."

Ela se virou.

"Aquele é o do Comandante-Geral?" Uma mulher alta, de armadura de placas, estava agachada na vala da corrupção de Kozilek. Pressionados contra a parede ao lado dela estava um pequeno grupo de zendikari — majoritariamente batedores e soldados de infantaria, muitos deles feridos.

General Tazri | Arte de Chris Rahn

Chandra observou o enxame invasor novamente, vendo-os esgueirarem-se lentamente em sua direção. Deslizou para dentro da ravina e ergueu o escudo. "É do Gideon. Você viu o que aconteceu com ele?"

"Ele estava batalhando contra o demônio", disse a mulher. "Ele caiu, com força."

Os ombros de Chandra caíram.

"Mas ele está vivo", acrescentou a mulher.

"General Tazri —", um dos batedores começou.

"Ele está vivo", repetiu ela.

"General Tazri", disse Chandra, "é urgente que eu o encontre".

"Nós também precisamos dele", disse Tazri. Rasgou uma tira de bandagem com os dentes e a enrolou na perna de um batedor kor, depois a puxou firme. "O demônio o levou, e dois outros."

"Levou ele? Para onde?"

"Ele estava indo em direção a uma caverna", disse outro dos batedores. Seus olhos e presas o marcavam como um vampiro. Apontou na direção de alguns despenhadeiros rochosos na distância. "A boca é ali, na fenda entre aqueles dois picos. Apenas um punhado de milhas, por ar."

"Obrigada", disse Chandra. Encaixou o broquel em seu braço e agarrou-se aos minerais cintilantes para escalar para fora da ravina.

"Espere", disse Tazri. Inclinou a cabeça em direção ao seu grupo. "Tenho feridos. Não temos condições de liderar um grupo de resgate agora."

Chandra perguntou-se o que exatamente aquilo tinha a ver com ela. "Vou até ele. Fiquem aqui."

"E quanto ao enxame?", perguntou Tazri.

Chandra espiou por cima da borda da ravina. Os Eldrazi ainda faziam uma linha direta em direção a elas. "Vou atraí-los para longe."

Tazri avaliou Chandra de cima a baixo, franzindo a testa. Então produziu uma maça pesada e assentiu. "Cobriremos sua saída. Obrigada."

"Apenas fiquem abaixados, e fiquem seguros."

Chandra saiu da ravina com esforço. Levantou-se, limpou a poeira e incendiou-se toda de uma vez.

Seu cabelo brilhou para a vida, e suas mãos resplandeceram quentes. Uma raiva que tensionava os músculos e instigava socos aqueceu seus membros. A raiva era familiar, confortante, e ela se apoiou nela como em um amigo confiável. Chandra girou o corpo e, em seu giro, o ar ao seu redor pegou fogo. Um ciclone rugidor feito de chamas revoltas girou pelo campo à frente dela, e ela o perseguiu conforme ele rasgava o enxame de Eldrazi. Pedaços de Eldrazi voaram alto no ar, e restos caíram no chão, fumegantes.

O enxame de Eldrazi emitiu um som de efervescência áspera e dobrou-se para orientar-se em direção a ela, em vez de em direção aos soldados de Tazri. Seu pulso acelerou. Seu cabelo ardeu com mais força.

"Isso mesmo", disse Chandra. "Sou um farol glorioso de mana e luz, seus bastardos."

Virou-se em direção aos despenhadeiros. Enquanto corria, a chama de seu cabelo estendia-se atrás dela como um estandarte.

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Saltou sobre cristas e pulou pequenas fissuras, verificando atrás de si sem parar. Daqui conseguia ver que a prole de Kozilek carregava devastação junto com sua nojeira geral perturbadora. Um rastro de ruína espalhava-se atrás do enxame, com padrões quadrangulares anormais onde a terra viva de Zendikar costumava estar.

Guardião de Geometrias | Arte de Jason Felix

Permaneceu quente e continuou correndo, lançando rajadas de fogo atrás de si em jatos furiosos. Ocasionalmente girava, arremessando uma barragem de fogo, abatendo um ou dois mais dos Eldrazi e incitando o restante, atraindo-os para longe dos feridos de Tazri.

Após várias milhas, o enxame estava ficando para trás. Mal conseguia ver suas placas pretas flutuantes na distância, e avançara além de seu rastro grotesco na paisagem. Chandra focou nos dois picos à frente.

Alcançou uma crista, e a terra caiu, descendo em declive para uma enorme cavidade na terra: a boca de uma caverna, cercada por hedros pontiagudos que todos apontavam para dentro, em direção às profundezas da caverna.

Ao aproximar-se, viu que o caminho estava bloqueado. A entrada estava inteiramente coberta por uma crosta recém-forjada, brilhando em padrões espiralados quadrados. Aquela era a caverna para onde o demônio os levara, mas a crosta iridescente bloqueava seu caminho.

O fôlego de Chandra falhou no peito. Na superfície retorcida, viu um reflexo quebrado. Não era de seu próprio rosto, porém, mas de sua mãe e pai. Seus olhos eram ternos. Suas bocas moviam-se e eles assentiam de forma tranquilizadora, mas seus rostos moviam-se estranhamente pelos planos da superfície, e ela não conseguia distinguir o que diziam. Estendeu a mão em direção a eles, mas a imagem quebrou-se em um milhão de ângulos. Sem sua permissão, seu cérebro voltou-se para pensamentos do xale queimado de sua mãe no chão fora de uma aldeia de Kaladesh, e dos olhos de desculpa de seu pai ao cair de joelhos, com as mãos no estômago para conter o sangue—

Rangeu os dentes e pressionou os punhos em suas órbitas oculares. Quando os abriu, a única coisa que viu refletida nas espirais era ela mesma, cercada de fogo, seus olhos como dois carvões em brasa. Voltou-se para a barreira. Relanceou para as mãos. Não eram mãos de criança, como eram quando seus pais morreram, quando sua centelha de Planinauta se acendera pela primeira vez. Eram as armas de uma piromante. Uniu as mãos, entrelaçando os dedos para formar um único punho. Ergueu os braços, reunindo uma bola de fogo branca e quente ao redor das mãos. Nada disse ao encarar as espirais distorcidas e golpeou o próprio reflexo.

A crosta explodiu. Uma nuvem de fragmentos e torrões de terra choveu. Ela pretendera abrir um buraco apenas grande o suficiente para sua própria entrada, mas em vez disso desintegrara a barreira inteira, deixando a boca da caverna escancarada.

Lá dentro, a caverna estava entalhada com mais dos padrões de ruína. As entranhas da terra ali haviam sido escuradas, exauridas, transformadas.

Chandra lembrou-se do demônio convocando o titã Kozilek a surgir, rindo friamente para os exércitos abaixo dele, rindo de todo este mundo. Sabia que Kozilek não estava ali. Aquele era o covil de um demônio.

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Chandra, Invocadora de Chamas | Arte de Jason Rainville

Chandra manteve a raiva por perto enquanto subia e descia por passagens sinuosas. As ruínas entalhadas em espiral ao seu redor brilhavam estranhamente na luz de seu fogo.

Ouvia uma voz profunda, sem pressa, entoando na câmara à frente. "...vidas de agonia neste mundo miserável", dizia a voz. "Tenho bem menos tempo para partilhar com vocês, mas asseguro, não menos dor."

Quando emergiu na câmara, viu os três ali parados, suspensos no ar pela magia como marionetes inertes: Gideon, com o queixo caído sobre o peito, com linhas de agonia vincando sua testa. Jace, com a cabeça caída para um lado, seu capuz ocultando seu rosto. E uma mulher elfa, sua trança e braços pendendo inertes, suas pálpebras entreabertas para revelar olhos fendidos e sem visão, verde-no-verde, com uma lágrima escorrendo por sua bochecha até o queixo. Seus corpos balançavam ali no ar, cercados por espirais de magia enervante. Três ou quatro drones Eldrazi da linhagem de Kozilek chocalhavam ali perto, sem sequer virarem suas projeções em forma de lâmina para notá-la.

Punição Impiedosa | Arte de Ryan Barger

"Sinto muito, você ficou com a impressão de que fora convidada?" O demônio, a fonte da voz profunda e ecoante, emergiu de uma passagem lateral. Seu corpo parecia como se tendões pretos brutos tivessem se fundido com fragmentos de armadura, com um calor interno infernal aparecendo pelas emendas. Seus olhos brilhavam com ódio e interesse divertido de algum modo ao mesmo tempo.

"Estou me convidando sozinha", disse Chandra. "Liberte-os ou morra."

"Não sabia que eles tinham um mascote", disse o demônio.

Chandra fechou os dedos num punho e lançou a si mesma e sua magia contra seu inimigo. O demônio desviou seu golpe ígneo com o antebraço, erguendo asas esfarrapadas como um dragão. Sorriu ou fez uma careta, mostrando fileiras de dentes afiados.

Chandra recuperou-se do desvio. Girou, rodopiou e lançou uma saraivada de dardos de fogo no olho do demônio.

O demônio protegeu o rosto com uma asa, ignorando o pior do ataque, mas grunhiu com o esforço. Girou sobre um pé e golpeou Chandra com o dorso da garra.

Chandra chocou-se contra a parede, batendo o crânio contra a pedra. Tossiu, dobrada e lutando por ar. Perto dali, os drones Eldrazi flexionaram suas pinças, mas não avançaram em sua direção.

Cuspiu sangue e recuperou sua postura. Forçou seu fogo a crescer mais, deixando a dor alimentar sua magia. Suas mãos estenderam-se em longos chicotes de fogo. Puxou o braço para trás, reunindo raiva. O calor estalante de seu punho distorcia o ar da caverna.

Saltou, desferindo duas rajadas rápidas de fogo. Desviadas.

Continuou seu salto num ataque físico, golpeando para baixo com o broquel de Gideon como uma arma contundente. Clangou contra a espaldeira do demônio.

Recuperou-se para um lado e girou. Mais duas rajadas de seus nós dos dedos, e um jorro de chama disparou de ambas as palmas. Presas na garra do demônio, e esmagadas a nada.

Ele investiu contra ela e, embora ela esquivasse a cabeça do caminho de sua garra, ainda sentiu uma dor lancinante riscando seu rosto.

Arquejou quando a pele de seu rosto ardeu como ácido. Seu fogo oscilou, e ela sacudiu as mãos como se para sacudir mais fogo nelas.

Não! Mantenha-se acesa. Queime-o até as cinzas. A dor é combustível.

Trouxe os punhos para perto do peito, coletando todo o seu fogo em seu âmago. Lançou tudo o que tinha contra ele, não um único lampejo, mas um jato sustentado de fogo, toda a sua raiva pressurizada e forçada num cone de ar fervente—

WHOOOOSH—

O demônio caminhou através de seu feitiço em direção a ela. O fogo carbonizou o peito dele, mas ele ergueu o braço e agarrou Chandra sob o queixo, erguendo-a pela garganta.

—GLURK.

O feitiço de Chandra quebrou. Ela lutou, agarrando a garra dele, forçando os dedos. "Bastardo", sufocou ela.

O demônio sorria, presas brilhantes. "Nada até agora conseguiu me parar, velinha. E não vai ser você."

Ela forçou os dedos dele, e mordeu a pele da mão dele. Ele a soltou e ela desabou sobre as mãos e joelhos. Forçou-se a erguer a cabeça. "Vai ser eu", murmurou ela. Comandou as pernas a se erguerem, mas uma perna apenas tremeu em vez de obedecer.

O demônio inclinou a cabeça em falsa preocupação. "Mas você está queimando tão rápido, velinha. O que acontece quando você apagar?" Convocou um feitiço e o empurrou para frente com uma garra.

O corpo de Chandra contorceu-se enquanto a magia do demônio a dilacerava. Parecia erosão, como anos de tempo desgastando uma encosta de montanha, mas acelerado num momento horrível. Sentiu-se enervada, como se uma doença debilitante de uma vida inteira a tivesse atingido de uma vez. Seus membros pesavam uma tonelada cada.

A cabeça de Chandra queria muito cair, fazer contato com o chão de pedra. Mas ela não permitiu. Seus braços tremiam, segurando o corpo como colunas quebradiças. Sua visão nadava, e a caverna tornou-se formas e sombras vagas.

A caverna escureceu. Conseguia sentir-se oscilando, diminuindo por graus. Estava se apagando.

NÃO. MANTENHA-SE ACESA.

Concentrou-se nas mãos, as palmas cravadas no cascalho da caverna. Se as mãos não apagassem, ela ainda tinha vida em si. Armas de uma piromante.

Sentiu o demônio aproximar-se muito dela, uma mancha escura perto de sua orelha. "Supõe-se que você seja a resgatadora?" Houve um som de estalo de língua. "Mas — não entendo. De que serventia você seria para alguém?"

Chandra exigiu que seus olhos permanecessem abertos, que sua cabeça permanecesse erguida. Seus músculos estremeceram com o esforço.

"E agora tenho que punir você, também. Eu não desejaria isto. Mas minha mão é forçada. Deite-se."

Chandra virou lentamente o rosto em direção a ele. Mal conseguia ver através dos cílios úmidos, através de sua visão nublada.

A mancha que era o rosto dele alterou-se, tornou-se gentil. Tornou-se familiar.

"Chandra, querida", disse o rosto vago, na voz de seu pai. A voz tinha a gentileza de seu pai, seu calor, sua paciência constante.

Não queria aquilo. Não pedira para vê-lo. Não agora.

"Desista, minha Chandra", disse ele. Chandra estremeceu. "Você já fez o suficiente. Deite-se. Deite-se no chão."

Chandra apertou os olhos para as formas do rosto tênue de seu pai. A gravidade pressionava cada centímetro quadrado dela, drenando sua rebeldia. Seus olhos transbordaram.

"Chandra, minha querida filha", disse o rosto, agora na voz de sua mãe, a voz amorosa e forte como ferro de sua mãe. "Você já fez o suficiente. Você falhou com eles, Chandra. Desista agora. Caia no chão." Chandra estremeceu. Seus cotovelos dobraram. "Você falhou com eles, Chandra. Exatamente como falhou conosco."

O corpo de Chandra queria exalar, queria tossir sua vida para fora do peito, queria soltar. Queria desdenhar do rosto, murmurar uma série de palavrões para ele, mas não conseguia reunir as forças. O mundo fechou-se.

A caverna, o rosto, tudo escureceu. O rosto da mãe desapareceu, e ela só conseguia ver os traços dos olhos infernais e descorporificados do demônio na penumbra.

Seu fogo apagara. Suas mãos estavam extintas. Conseguia sentir o cabelo pendurado ao redor do rosto, úmido de suor.

"Chandra, os...dr...", disse a voz. Tinha um eco estranho agora, não como um sussurro em sua orelha — era, de algum modo, ainda mais perto que aquilo. "Os dr...ones, Chhhandra."

"Não leve sua derrota para o lado pessoal", disse o demônio, sua voz agora sem distorção, com seu tom costumeiro de indiferença. "Costumo despertar o que há de pior nas pessoas."

"Chandra. Hizzz... os drones Eldr...azi dele", disse a voz ecoante. Soava como uma dor de cabeça. Também soava distintamente nada parecida com seus pais. "Explooda os. Drones."

Jace. Jace estava — consciente!

"Com ffff", Jace balbuciou em sua mente. "Ffffo. Fooogo."

Jace estava — um pouco consciente!

"Não consigo", pensou Chandra vagamente.

"Você m-malditamente...", Jace lutava para formar as palavras na cabeça dela tanto quanto ela lutava para absorvê-las. "Você malditamente c-consegue. Levante-se."

"Não", disse Chandra em voz alta. Sua voz real soou estranha aos seus próprios ouvidos. Abafada. Estava provavelmente babando.

"O que foi agora?" o demônio perguntou. "Por favor, não me diga que está prestes a implorar por um adiamento de execução. Isso insulta a nós dois."

"Não... me diga", crocitou ela. Suas mãos tornaram-se punhos, e seus punhos tornaram-se fogo, iluminando a câmara novamente. "Não me diga", repetiu ela, levantando-se cambaleante, oscilando.

A figura do demônio nadava diante dela. Conseguia ver a diversão na maneira como ele balançava a cabeça ligeiramente, e a malícia na maneira como convocava um nó final e escuro de energia em uma garra. "Deite-se, velinha", disse ele.

"NÃO... ME DIGA. O QUE. FAZER."

Chandra deu um solavanco para frente com os punhos. O demônio meramente inclinou a cabeça para evitar o assalto. Mas sua saraivada de projéteis írneos descreveu um arco em direção aos seus alvos pretendidos, chocando-se contra os drones Eldrazi que espreitavam perto de seus amigos. Os drones convulsionaram conforme queimavam, sua pele estalando enquanto sóis em miniatura os consumiam.

Devorar em Chamas | Arte de Svetlin Velinov

Gideon, Jace e a elfa desabaram no chão em um monte. E então desapareceram.

O demônio rosnou diante da interrupção do feitiço de aprisionamento e do desaparecimento de sua presa. Voltou-se para Chandra e preparou-se para desferir seu golpe mortal.

Chandra estremeceu, incapaz de reunir força para esquivar, ou mesmo desabar. Mas quando continuava viva um batimento cardíaco depois, relanceou para o demônio. Ele olhava ao redor, proferindo palavras sombrias em um acesso crescente de fúria.

"Você está invisível, para onde ele consegue ver", disse a voz de Jace em sua cabeça. "Por enquanto".

Chandra cambaleou, encostando-se na parede da caverna enquanto o demônio os buscava.

"Os outros. Estão vivos?" Chandra perguntou em sua mente.

"Mal".

"Teremos que enfrentá-lo. Ao meu sinal. Prontos?"

"Não! Não estamos nem perto de prontos. Não nos resta muito".

Chandra fechou os punhos. "Quanto tempo até ele perceber que ainda estamos aqui? Conseguimos fazer isto."

"Chandra. Fomos — atormentados. Por... não sei quanto tempo. Pareceu... longo".

Chandra não gostou da incerteza nos pensamentos de Jace, da admissão franca de dor. O demônio chutava e batia pelo chão da caverna. Não podia vê-los, mas não estava enganado de que tivessem desaparecido para sempre.

Chandra aprumou os ombros. Fogo lampejou das pontas de seus dedos, crescendo em esferas de calor do tamanho da palma da mão. "Mais um motivo para derrubá-lo".

A resposta hesitante de Jace: "Eles precisam de descanso".

"Jace. Viemos aqui para fazer um trabalho. Esse trabalho não está pronto. Está?"

"Chandra —" pensou Jace.

O fogo de Chandra cresceu. "Está?"

"Chandra, eu não consigo—"

Os outros reapareceram em um flash, o feitiço de ocultamento quebrado. Jace e a mulher elfa haviam se movido mais para o fundo da câmara de onde Chandra os vira pela última vez. Pareciam conscientes mas fracos.

Gideon reaparecera também. O demônio já o segurava pelo pescoço, erguendo-o do chão.

"Gideon!"

O demônio virou-se para encarar Chandra e sorriu amplamente, uma risada surda subindo das profundezas dele. O som carregava a malícia acumulada por estar preso em Zendikar por eras — e a satisfação de finalmente ser recompensado por isso.

"Seus amigos deveriam agradecer a você, velinha", disse o demônio. "Não por lhes dar esperança — aquilo foi, na verdade, bem cruel de sua parte. Mas não, sem você, eles não teriam público para suas mortes." O demônio apertou o pescoço de Gideon, e Chandra ouviu ossos estalando.

Chandra não conseguia se mexer. Sabia que qualquer passo que desse apenas apressaria o fim de Gideon.

Mas viu que Gideon estava lutando. Suas mãos agarraram as do demônio, tentando se libertar, e mesmo em seu estado exausto, faíscas de luz protegiam sua carne. Viu os olhos de Jace brilharem com fumaça azulada, conjurando algum feitiço de perfurar a mente mesmo enquanto lutava para permanecer de pé. E viu o cabelo da mulher elfa voar enquanto ela convocava magia desesperada. Vinhas de mana retorceram-se do solo e fluíram para dentro dela.

Eu não falhei com eles. Não falhamos uns com os outros.

Chandra bateu o pé no chão, e uma trilha de fogo correu de seu pé até o demônio, incendiando o chão da caverna sob os pés dele. Gideon deu cotoveladas nos braços do demônio e chutou o peito dele, libertando-se e rolando para longe exatamente quando o fogo engolfou o demônio.

O demônio emergiu cercado. Gideon agora empunhava seu sural, Jace tinha um feitiço pronto e os olhos da elfa brilhavam com mana.

"Todos juntos!", gritou Gideon, e Chandra soube exatamente o que ele queria dizer.

Todos os quatro atacaram o demônio simultaneamente. Chicotes-lâminas lampejantes, vinhas elementais e magia mental punitiva coincidiram com o surto de fogo de Chandra vindo das entranhas.

Arte de Svetlin Velinov

O demônio fez uma careta, dobrando as asas sobre si mesmo para proteção. Tentou revidar com um feitiço, mas Jace foi rápido demais para ele, e o feitiço do demônio dissolveu-se exatamente quando Gideon o retalhou de outra direção. Ele investiu contra a elfa, mas Chandra o cortou com uma coluna de chamas.

O demônio bateu as asas, repelindo Chandra contra a parede e ganhando tempo para chutar Jace no estômago. Mas Gideon enredou a perna do demônio nas lâminas do sural e puxou, combinando-se com as vinhas de Nissa para derrubá-lo no chão.

Chandra fez contato visual com Gideon enquanto desamarrava o broquel dele de seu braço, e ele assentiu. Ela lançou o escudo para o ar e Gideon o encaixou num movimento só, e desceu o escudo de metal sobre o crânio do demônio prostrado, no exato momento em que Chandra derretia o metal do elmo dele como massa. O estalo foi audível.

O demônio rugiu e saltou de volta aos pés, arremessando Gideon para longe dele, balançando a cabeça ligeiramente. Chandra reuniu uma barragem de fogo para derrubá-lo — mas a agonia surgiu em suas veias.

"Basta", disse o demônio entre os dentes. As batidas do coração de Chandra eram pulsos irregulares de dor, como se seu fluxo sanguíneo tivesse se tornado agulhas.

Jace tornou-se um grupo de quatro Jaces, cada um parecendo perfurar a mente do demônio, enquanto Gideon golpeava o peito do demônio com o ombro. Chandra sentiu a mão da mulher elfa em seu armo e, ao seu toque, o coração de Chandra acalmou-se, recuperando seus ritmos naturais.

"Prepare algo grande", sussurrou a elfa. "Diremos quando." E ela girou para golpear o demônio com um turbilhão de magia viva.

Entre os múltiplos Jaces ilusórios, a destreza física cortante de Gideon e a implacável magia selvagem da elfa, o demônio estava esquivando-se mais do que atacando. Ele fazia caretas, as garras segurando a cabeça, usando os cotovelos e asas para minimizar os ataques enquanto a magia de Jace castigava sua mente.

Com o demônio ocupado, Chandra esculpiu um pequeno ciclone de fogo no ar. Girou com ele, deixando-o crescer conforme alimentava seu fogo, reunindo força. Estava imersa nele, consumida por ele, dançando com os ventos quentes em espiral como parte dele.

"Pronta?" veio a voz de Jace em sua cabeça.

"Pronta!", gritou Chandra em voz alta.

Os outros esquivaram-se simultaneamente, deixando para Chandra um tiro limpo contra o demônio. Ela liberou seu ciclone com um grito, e ele rasgou a câmara, chocando-se contra ele e lançando-o contra a parede.

O feitiço de Chandra dispersou-se. O demônio estava carbonizado, fumegando, apoiando o ombro na parede da câmara. Seus olhos de carvão infernal olharam para cada um deles, um por um. "Bem feito", disse ele. "Bem feito. Vocês escolheram gastar seus esforços para me derrotar, e conseguiram. Mas cada momento que gastaram comigo, permitiram que Zendikar sofresse. Então vocês ainda, é claro, perderam."

Chandra e os outros olharam-se.

"Eu prometo isto a vocês", disse o demônio num rosnado baixo. "Caminharei por cada plano, vasculharei cada mundo patético, até encontrar uma maneira de trazer a punição adequada às suas vidas equivocadas."

O ar dobrou-se sobre si mesmo, engolindo o demônio, e ele se fora.

Chandra parou com os outros. O cabelo de Jace estava despenteado de forma juvenil, desmentindo seu ar habitual de mistério. Gideon parecia surrado, mas tinha um sorriso no rosto que deixava sua barba desalinhada.

"Sabia que você viria", disse ele.

"Mas eu lhe disse que não", disse Chandra com uma sobrancelha erguida.

"Eu sabia", disse Gideon.

"Sou a Nissa", disse a elfa.

"Chandra", disse ela, oferecendo a palma da mão.

Nissa apertou a mão de Chandra com ambas as suas. Seus dedos eram macios, e seus olhos matizados de verde pareciam profundos como poços musgosos. "Obrigada."

Todos ouviram um som ecoante, de arrastar de pés e chocalhar. Viraram-se para olhar para a passagem que levava à câmara. O enxame Eldrazi, a mesma horda que Chandra atraíra para longe do Portal Marinho, chegava esgueirando-se para dentro da câmara, escalando em cada superfície.

Chandra olhou para as proles, e de volta para os outros. Quatro acenos. E como um acorde tocado em harmonia, quatro feitiços estalaram para a vida.

03 de Fevereiro de 2016 | Por James Wyatt

O Juramento das Sentinelas

Chandra juntou-se aos outros Planinautas, resgatando Gideon, Jace e Nissa da prisão de agonia na qual Ob Nixilis os havia prendido. Mas enquanto estavam trancados, Ulamog e Kozilek assolaram a terra, deixando destruição total em seu rastro. Zendikar parece estar à beira do colapso.

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Gideon foi o primeiro a emergir da caverna, marchando para o meio do enxame Eldrazi chocalhante. As criaturas estavam espremidas umas contra as outras na fenda da rocha onde a boca da caverna se abria, tornando-as alvos fáceis para o sural de Gideon — e para as rajadas e ciclones de fogo de Chandra. Cada músculo de seu corpo doía, castigado pelos ataques do demônio e dilacerado pelos feitiços de tormento que haviam suportado. Mas ele caíra mais uma vez no ritmo fácil do combate, fortalecido pelo poder dos outros Planinautas que lutavam ao seu lado.

Logo o suficiente, os Eldrazi foram dispersados, como uma onda quebrando contra uma rocha imóvel. E conforme o último deles se esgueirava para longe, conforme seus gritos cessavam e o fogo de Chandra diminuía e seus passos pesados desaceleravam, foi como afundar na água: silencioso, e estranhamente imóvel.

Como se o mundo tivesse morrido.

Enquanto um último Eldrazi se contorcia aos seus pés, Gideon lançou um olhar ao redor para seus companheiros. Cada um deles encarava uma direção diferente de seu ponto de observação elevado nas montanhas, absorvendo o que certamente fora uma vista impressionante — antes dos Eldrazi chegarem. Seus próprios olhos percorreram a ruína do Portal Marinho e o ermo desolado que se estendia a partir dele, e pararam nos titãs Eldrazi — dois deles agora. Ulamog, que fora preso e estivera à mercê deles, e agora Kozilek, cuja aparição súbita arruinara tudo.

Os titãs rastejavam, não exatamente lado a lado, deixando trilhas gêmeas de destruição em seu rastro. Mas onde Ulamog deixava a poeira gredosa tão familiar atrás de si, o rastro de Kozilek era uma amostra bizarra de pedra reluzente formada em estranhas espirais quadradas, revestida em um brilho doentio de violetas e verdes. É claro que suas proles fervilhavam ao redor deles também, mas Gideon não via outros sinais de vida.

Ruína no Seu Rastro | Arte de Jason Felix

Seu exército sumira. Todo o seu trabalho ao longo dos últimos meses fora desfeito. Não restava nada.

"Gideon", murmurou Jace.

Gideon virou-se, mas Jace assentiu em direção a Nissa.

A elfa desabara de joelhos, horrorizada com a desolação de seu mundo. Gideon deu um passo em direção a ela, mas Jace o puxou pelo braço.

"Espere", sussurrou Jace. "O que você vai dizer a ela?"

"O quê? Eu não —"

"Não faça promessas que não possa cumprir", disse Jace firmemente.

Fosse por sua própria vontade ou com a indução do mago mental, todas as coisas que ele poderia ter dito para confortar Nissa vieram à mente: nós os pegaremos, consertaremos isso, a vitória ainda está ao alcance, este mundo desolado viverá novamente. Platitudes vazias. Jace tinha razão — ele não podia prometer aquelas coisas.

"Acho que temos que considerar seriamente a opção de deixar Zendikar ao seu destino."

Jace sussurrara, mas Nissa claramente o ouviu. Ela levantou-se de um salto e girou em direção a eles, com os punhos cerrados ao lado do corpo e seus olhos verdes brilhando. "Eu não vou a lugar nenhum", disse ela. O chão tremeu bem de leve com suas palavras — o primeiro sinal que Gideon vira de que o mundo ainda vivia.

Jace suspirou. "Nissa", disse ele, "precisamos estar cientes, ao menos, da possibilidade de que o que nos propusemos a fazer seja impossível. Crufix pensou assim, e ele tem mais experiência com os Eldrazi do que jamais teremos".

"Mas você sabe que ele está errado", disse Nissa. "Você viu a resposta. Você foi quem a descobriu."

"Como podemos ter certeza?" disse Jace.

Gideon perdeu o fio da discussão deles. Viu-se olhando para o solo poeirento. Pedaços de armadura e armas esfareladas sugeriam que estavam sobre os mortos, caminhando sobre corpos que se reduziram a poeira ao toque dos Eldrazi. Seu estômago deu um nó.

"Zendikar não é o único mundo que precisa da nossa ajuda", ouviu Jace dizer.

"Zendikar precisa de mim", retrucou Nissa. "O que quer que o restante de vocês decida fazer, eu vou ficar aqui. Vocês podem todos partir se é isso que querem. Eu vou ficar."

Jace silenciou, e Chandra continuou olhando para a distância, traçando o caminho dos Eldrazi com os olhos enquanto o restante dela permanecia estranhamente imóvel. Gideon subitamente percebeu algo notável: nenhum deles partira. Qualquer um deles poderia ter partido. Jace claramente queria.

Mas não sem os outros.

"Você poderia partir", disse ele a Jace. "Você já poderia ter partido, em vez de tentar convencer o restante de nós. Você também, Chandra. Não há nada prendendo você aqui. Poderíamos todos partir."

A mandíbula de Nissa tencionou-se, mas ela não falou.

"Pelo que sabemos, Zendikar está condenada. Poderíamos ser as últimas pessoas neste plano, as últimas de pé entre os Eldrazi e o coração pulsante deste mundo. E o que podemos fazer? O que qualquer um de nós pode fazer contra os Eldrazi — não um, mas dois titãs monstruosos?"

"E quem sabe onde está o terceiro", acrescentou Jace baixinho.

"Talvez não haja nada a ser feito. Talvez um de nós — qualquer um de nós — não consiga fazer nada contra tais monstros."

Chandra fez um som meio sufocado.

"Mas talvez quatro de nós consigam", disse Gideon.

Juramento de Gideon | Arte de Wesley Burt

Jace sorriu, e os olhos de Nissa arregalaram-se.

"Acho que conseguimos", continuou Gideon. "Trabalhando juntos, acho que nós quatro poderíamos resistir a quase qualquer força que o Multiverso resolvesse lançar contra nós. Então talvez devêssemos."

"Mas —" Chandra deixou escapar.

Gideon ergueu uma mão. "Ouçam-me. Olhem para o que já fizemos. Prendemos Ulamog. Derrotamos aquele demônio. Cada um de nós é poderoso, à sua própria maneira. Seu fogo, Chandra — sua fúria é uma força incrível. Nissa, você entende a alma deste plano e o fluxo de sua magia de uma forma que o restante de nós não consegue captar. Jace, eu o subestimei a princípio, mas sua rapidez de raciocínio e previdência me salvaram repetidas vezes. Juntos, podemos derrubar os Eldrazi. Podemos salvar este mundo. E então podemos salvar qualquer outro mundo que precise de nós, não importa quão grande seja a ameaça."

"Você está se adiantando", disse Chandra. "Talvez devêssemos focar na ameaça imediata."

"Não", disse Gideon. "Precisamos focar no porquê de estarmos enfrentando essa ameaça. Não pode ser apenas sobre compensar nossos erros. Não pode ser apenas uma vingança pessoal. Isto é maior que os Eldrazi, maior que Zendikar. Precisamos estar comprometidos —" Viu Chandra estremecer com a palavra, mas ele manteve seu ponto. "Precisamos estar comprometidos, não apenas em tirar os Eldrazi de Zendikar, mas em permanecermos juntos contra todas as forças que ameaçam o Multiverso. Ninguém mais pode fazer isso. Esta é a tarefa que recai sobre nós, devido ao nosso poder. Devido às nossas centelhas."

Ele respirou fundo, e repousou por apenas um momento na certeza de que nunca estivera tão certo sobre nada.

"Eu vi a civilização cair", disse ele. "Quando os Eldrazi destruíram o Portal Marinho, ameaçaram tudo em que acredito. O povo de Zendikar — todo o meu exército — não passava de moscas picadoras em seu caminho."

Ele balançou a cabeça. "Nunca mais."

Os outros o observavam agora. Enquanto falava, encontrou o olhar de cada um de seus companheiros.

"Não apenas os Eldrazi, e não apenas Zendikar. Nunca mais, em nenhum mundo. Isto eu juro: Pelo Portal Marinho, por Zendikar e todo o seu povo, pela justiça e pela paz, eu manterei a vigília. E quando qualquer novo perigo surgir para ameaçar o Multiverso, eu estarei lá, com vocês três ao meu lado."

Jace assentiu lentamente, enquanto Chandra cruzava os braços sobre o peito. Ao menos um deles ainda estava com ele, pensou Gideon.

Mas foi Nissa quem falou em seguida, ajoelhando-se para tocar o solo poeirento. "Eu vi um mundo ser devastado", disse ela. "Enquanto os Eldrazi varrem Zendikar, a terra é reduzida a poeira e cinzas. Se não forem detidos, consumirão a ela e a tudo sobre ela."

Ela levantou-se, com a poeira caindo de seu punho cerrado. "Nunca mais", disse ela. "Por Zendikar e pela vida que ela nutre, pela vida de cada plano, eu manterei a vigília."

Juramento de Nissa | Arte de Wesley Burt

Jace deu um passo à frente, olhando para Chandra. "Gideon tem razão", disse ele. "Nós quatro temos um poder extraordinário. Temos uma oportunidade única — uma responsabilidade, inclusive — de usar esse poder contra ameaças como esta. Os Eldrazi, sim, mas existem outras ameaças que vão além de um único plano. Ouvi dizer que um Planinauta é alguém que sempre pode fugir do perigo. Mas somos também aqueles que podem escolher ficar."

"Diga as palavras", disse Nissa, com o esboço de um sorriso rompendo a máscara de sua raiva.

"O quê?"

"Diga as palavras", repetiu ela. "Como um juramento."

Jace retribuiu o sorriso dela. "Tudo bem. Eu vi..." Sua fronte franziu-se e o sorriso desapareceu de seus lábios. "Eu vi um perigo maior do que eu poderia ter imaginado. Os Eldrazi não ameaçam apenas Zendikar. Se partirmos daqui, se os deixarmos em paz, eles poderiam consumir plano após plano até que mesmo Ravnica seja devastada. Neste momento, Emrakul poderia estar derivando pelas Eternidades Cegas, procurando outro plano para devorar."

Gideon pensou em Theros, em Bant, em Ravnica.

Jace assentiu decisivamente. "Nunca mais. Pelo bem do Multiverso, eu manterei a vigília."

Juramento de Jace | Arte de Wesley Burt

Os olhos de Gideon voltaram-se para Chandra, e viu Jace e Nissa observando a piromante também. Não sabia mais o que esperar dela — exceto o inesperado.

"Sei o que estão pensando", disse ela. "Que eu nunca poderia levar algo assim a sério. Talvez tenham razão."

Ela virou a cabeça e encontrou o olhar de Nissa. "Mas o negócio é o seguinte", disse ela. "Vi o que conseguimos fazer juntos. E Gideon tem razão — nenhum de nós pode lidar com os Eldrazi sozinho. Vai ser necessário que nós quatro em concerto, combinando toda a nossa magia, consigamos derrubá-los."

Respirou fundo e soltou o ar com um sopro. "Todo mundo tem seus tiranos, seguindo seus próprios desejos sem preocupação com as pessoas que pisoteiam. Não são diferentes dos Eldrazi. Então eu direi: nunca mais. Se isso significa que as pessoas podem viver em liberdade, sim, eu manterei a vigília. Com vocês."

Juramento de Chandra | Arte de Wesley Burt

Enquanto Nissa abraçava Chandra e a piromante sub-repticiamente limpava os olhos, Gideon refletiu sobre a Chandra que conhecera em Regatha, que fora sobrecarregada por um compromisso que assumira da boca para fora mas não acolhera com todo o seu coração. Ele tinha o pressentimento de que desta vez era diferente, e sorriu.

"Tudo bem, Gideon", disse Chandra ao se afastar de Nissa. "O que vem a seguir? Você sempre tem um plano."

"Eu não tenho", disse ele. "Preciso de mais informações. Não sei quanto tempo estivemos lá dentro, se algum soldado ainda está vivo —"

"Posso lhe dizer isso", disse Chandra. "Deixei Tazri e um pequeno grupo de soldados algumas milhas atrás naquela direção." Acenou vagamente.

"Tazri. Bom", disse Gideon. "Ela saberá quais recursos nos restam."

"Siga-me", disse Chandra, já caminhando.

"Tenho algumas ideias", acrescentou Jace. "Talvez você possa me ajudar a transformá-las em um plano."

Gideon sorriu e deu um tapa no ombro de Jace. Nissa estava logo atrás de Chandra, e os dois homens partiram atrás delas.

Todo o trabalho de Gideon ao longo dos últimos meses culminara naquilo, percebeu ele. Naqueles quatro Planinautas fazendo uma escolha: a escolha de ficar, como Jace dissera. A escolha de lutar em vez de fugir. Uma escolha — um compromisso, uma promessa. De manter a vigília.

Mesmo que aquilo fosse tudo o que ele tivesse realizado, era o suficiente.

Chamar as Sentinelas | Arte de Yefim Kligerman
10 de Fevereiro de 2016 | Por Kelly Digges

À Beira da Extinção

Dois titãs Eldrazi agora vagam pela superfície de Zendikar. A rede de hedros de pedra que brevemente aprisionou um deles está irremediavelmente interrompida, e o exército que lutou contra eles está disperso. Mas quatro Planinautas fizeram um juramento: manter a vigília sobre Zendikar e o Multiverso, correr em direção ao perigo em vez de fugir, e permanecer firmes contra seres como os Eldrazi que ameaçam destruir o que as pessoas prezam.

Eles fizeram um juramento. Formaram uma equipe. Agora precisam de um novo plano. E Jace Beleren, com as informações que colheu do dragão espírito Ugin, é a única pessoa que pode ser capaz de bolar um.

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O senso de propósito unificado era mais frágil do que os compatriotas de Jace pareciam perceber.

Ele lutava para ouvir a si mesmo pensar acima do som dos outros conversando, dos outros pensando. Estavam caminhando — querendo correr, poupando suas forças — em direção a uma ravina onde Chandra vira alguns outros sobreviventes. Todos queriam que Jace bolasse um plano. Mas Jace tinha bolado um plano, e ele falhara, e aquilo o deixava improvisando.

Jace odiava improvisar.

"O que quer que você precise que façamos, faremos", disse Gideon, mas para si mesmo acrescentou: se restar algo a ser feito.

"Estou pronta", disse Nissa. "Zendikar está pronta." Mas outro pensamento deslizou pela superfície de sua mente: Como sei que você ficará?

"Vamos!", disse Chandra. "Desembuche!" Desembuche! seus pensamentos ecoavam, meio momento antes — ou talvez meio momento depois. Ela, ao menos, sempre parecia apontar em uma direção a tal ponto que ler sua mente era geralmente inútil.

Eles tropeçaram ravina abaixo, que estava coberta pelo estranho rastro iridescente de Kozilek. Jace sentiu os outros antes de vê-los — meia dúzia de humanos e kor exaustos, a mente sombreada de um vampiro e os pensamentos frios e distantes de dois tritões.

Dobraram uma curva na ravina para encontrar a General Tazri e alguns de seus soldados, o batedor kor Munda, um vampiro amunado que presumivelmente representava os interesses de Drana, a mergulhadora de ruínas Jori En e — oh, maravilhoso. Parada ereta, bidente em punho, sorriso presunçoso ainda no lugar, estava a Planinauta tritã Kiora, parecendo nada pior apesar do desgaste, exceto por algumas nadadeiras rasgadas. Estavam discutindo.

General Tazri | Arte de Chris Rahn

"Atacamos aqui", dizia Tazri, apontando para um mapa. "Os titãs estão em movimento. Vamos cortá-los antes que fiquem muito distantes um do outro."

"Isso é suicídio", disse o emissário de Drana.

Gideon deu um passo à frente.

"Comandante-Geral!", disse Tazri, pondo-se em atenção. Ela irradiava inquietação e alívio em igual medida, seus pensamentos desviando de uma memória recente e denteada que Jace não tentou ler.

Gideon sorriu e a abraçou.

"À vontade", disse ele, recuando e avaliando o grupo. "É bom ver vocês. É bom ver todos vocês."

Gideon apertou o braço de Munda, pousou uma mão firme no ombro de Jori e assentiu para Kiora e o vampiro.

Jace olhou para Jori, depois seu olhar pousou em Kiora.

Ela vai trabalhar conosco desta vez? Jace perguntou, na cabeça de Jori.

Jori estremeceu, levemente. Sim, pensou ela. Provavelmente.

"Kiora", disse Gideon. "Achei que tivéssemos perdido você."

"Achei que tivéssemos perdido muita coisa", disse Kiora. Seu sorriso desvaneceu, apenas por um momento, depois retornou com uma espécie de intensidade feroz. "De qualquer forma. Estamos todos aqui. Qual é o nosso próximo movimento?"

"Nosso próximo movimento?", disse Jace. "Você foi quem saiu furiosa, forçou nossa mão, liderou sua pequena flotilha ao desastre, e agora—"

"Sim", sibilou Kiora. Seus olhos ardiam intensamente, e ela não estava mais sorrindo. "Sim. Tudo isso. E é por isso que estou aqui, agora, perguntando a você o que nós vamos fazer." Ela franziu a fronte. "Por alguma razão achei que você apreciaria um gesto de humildade de minha parte."

"Pelo contrário", disse Gideon, antes que Jace pudesse responder. "É aterrorizante."

Aquilo trouxe o sorriso de volta ao rosto de Kiora, ao menos. Jace conseguia fazer as pessoas fazerem o que ele queria, se tivesse que fazê-lo, mas ele mal entendia a habilidade de Gideon de fazer as pessoas quererem cooperar. Não havia nada de mágico nisso, apenas carisma e integridade pessoal — nenhum dos quais Jace vira necessidade premente de cultivar.

O que significava que sua primeira prioridade, em qualquer situação dada, deveria ser conquistar Gideon. Uma boa coisa a manter em mente, se sobrevivessem a isso.

"Qual é o nosso próximo movimento?", perguntou Tazri. "Temos pessoas espalhadas por toda a bacia. Estou tentando reuni-las, mas ainda há água nas áreas baixas, e os Eldrazi estão em toda parte."

"Jace tem um plano", disse Gideon. "Certo?"

As cabeças giraram em sua direção, olhos cheios de expectativa. Cheios de esperança.

Jace esfregou as têmporas. Fechou os olhos. Abriu-os.

"Tudo bem", disse ele. "Ouçam, porque não temos muito tempo. Eu tinha um plano reserva se nossa armadilha de hedros falhasse, mas ele só contemplava um titã Eldrazi. Agora temos dois em mãos, nossos aliados estão dispersos aos ventos, e eu tenho... chame de metade de um plano. Vou precisar da ajuda de vocês para torná-lo realidade."

Conjurou uma ilusão: o anel de hedros que usaram para prender Ulamog. Enviou-os caindo enquanto falava, mergulhando num mar ilusório, mas deixou o diagrama que os guiara no lugar. O glifo que o dragão espírito Ugin lhe mostrara — a forma que as linhas de ley precisavam assumir para prender os Eldrazi.

Os sons da batalha ecoavam ao redor da ravina. Chandra mexeu em sua manopla e olhou para Gideon. Ele assentiu, e Chandra afastou-se da reunião solene, o cabelo já incendiando. Algumas pessoas não nasceram para ficar paradas, e Jace preferia que ela estivesse explodindo Eldrazi do que se inquietando com um plano cujos detalhes não iam interessá-la. Ela permaneceu na borda do grupo, liberando jatos de chama em pequenos Eldrazi que chegavam perto demais.

"Não é mais possível prender Kozilek e Ulamog", disse Jace. "Não com os recursos que temos. Não temos tempo nem pessoas para construir uma rede de hedros ao redor de ambos. Mas esta forma ainda tem poder."

Indicou o glifo, agora vazio de hedros, um círculo com três projeções equidistantes.

Juramento de Nissa | Arte de Wesley Burt

"Nissa, se os titãs estivessem próximos um do outro e imóveis, se você pudesse se concentrar completamente sem ter que se defender... você acha que conseguiria fazer este glifo usando as linhas de ley de Zendikar? Diretamente, sem nenhum hedro para ajudar?"

Os olhos de Nissa tornaram-se distantes, traçando as curvas de linhas que Jace não conseguia ver. Suas mãos flexionaram-se.

"Sim", disse ela. "Mas sem os hedros para segurarem as linhas de ley no lugar, a contenção durará apenas enquanto eu conseguir mantê-la. E não sei por quanto tempo seria."

"Então não podemos prendê-los", disse Gideon. "O que é que você está tentando fazer?"

Era isso. Sua última chance de recuar do que poderia ser um erro terrível.

Ugin, que era muito mais velho e muito mais esperto que qualquer um deles, dera a Jace duas diretrizes muito claras: Não tente matar os titãs Eldrazi. E não deixe os titãs escaparem para ameaçarem outros mundos.

Mas uma das duas não estava mais na mesa. Os meios para prender um titã Eldrazi estavam agora fora de alcance. Dois deles estavam soltos, e poderiam deixar Zendikar a qualquer momento. As consequências de sua fuga seriam desastrosas, com certeza. Encontrariam outro mundo, um sem o benefício das preparações de Zendikar; eles se alimentariam daquele mundo, e milhares ou milhões morreriam.

Inaceitável.

Isso deixava uma opção. Ugin nunca fora claro sobre por que não queria os titãs mortos — se sua objeção tinha mais a ver com os riscos de tal esforço, ou com as consequências — e agora Ugin não estava ali, no momento da decisão, para esclarecer. Mas ele falara, longamente, sobre o perigo de permitir que os titãs deixassem o plano, um perigo que mal precisava de explicação.

"Não podemos prendê-los, e não vamos deixá-los partir", disse Jace. "Isso deixa uma opção. Vamos matá-los."

Seus companheiros, quatro outros Planinautas e alguns guerreiros ligados ao plano muito bravos... assentiram. Sim. Matar dois seres imensos e insondavelmente antigos usando nada além de suas próprias habilidades e engenhosidade. Aquilo fazia sentido, não fazia?

Azor ajude-me, pensou ele. Eu me aliei a heróis.

Chamar as Sentinelas | Arte de Yefim Kligerman

"Como fazemos isso?", disse Gideon. "Quando falamos antes, você não parecia achar que fosse possível."

"Não achava", disse Jace. "Mas Ugin disse algo no Olho que me fez suspeitar do contrário."

"Isso foi antes de você dizer que tínhamos que prender Ulamog", disse Kiora. "Você não mencionou isso."

"Sim, foi", disse Jace, "e não, não mencionei. Ugin parecia pensar que matar um titã Eldrazi era uma má ideia, e prometi a ele que evitaria se possível".

"Você deu sua palavra?", disse Gideon. Quebrar uma promessa não parecia cair bem para ele, um fato que Jace teria que manter em mente.

"Você escondeu isso de nós", disse Kiora.

"Se possível", repetiu Jace, para Gideon. "Não é mais possível." Voltou-se para Kiora. "E eu escondi de você porque tinha um plano que não exigia sua cooperação. Tenho certeza de que você nunca faria algo assim."

Kiora sorriu.

"E então?", gritou Chandra, de fora da ravina. "Já tem um plano?"

Jace ignorou-a.

"Vamos precisar levar os dois titãs para mais perto um do outro — perto o suficiente para que Nissa consiga prender ambos no mesmo aglomerado de linhas de ley."

"Eles não se importam conosco", disse Kiora. "Não se elevarão ao seu desafio."

"Os titãs são atraídos por concentrações de vida", disse Jace. Voltou-se para Gideon e Tazri. "É aí que o seu povo entra. Posicione-os na bacia com força e engaje diretamente com Ulamog e Kozilek."

"Você quer usar nosso exército como... isca?", disse Gideon.

Jace suspirou.

"Qual é a diferença entre isca e um grupo de emboscada?", perguntou ele.

Gideon esperou, franzindo a fronte, mas Tazri falou.

"Isca não tem escolha", disse ela.

"Isso mesmo", disse Jace. "Gideon, você disse que estas pessoas estão dispostas a dar suas vidas por Zendikar. Bem, chegou a hora."

O franzir de testa de Gideon aprofundou-se.

"Posso reunir quem quer que tenhamos e lhes contar o plano", disse Tazri. "Mas você é quem pode fazê-los acreditar. Diga-lhes o que está em jogo. Dê-lhes uma escolha, Gideon. Quando você disser, não acho que soará como uma decisão muito difícil."

Gideon respirou fundo, para dentro e para fora.

"Reúna as tropas", disse ele. "Vou pegar os detalhes, e depois me junto a você."

Gideon deu um tapinha num dos ombros blindados de Tazri, e ela apressou-se para reunir as tropas.

"O plano", disse ele.

"Certo", disse Jace. "Ugin descreveu cada titã Eldrazi como um homem enfiando a mão num lago, e a armadilha original de hedros como um cravo cravado através da mão. Os titãs que conseguimos ver — esses são apenas as mãos deles. O restante deles está fora do plano, nas Eternidades Cegas. 'Matar' a parte que vemos não faz muito. Nosso homem metafórico afasta-se, sem uma mão... mas livre."

"Eles já estão livres", disse Gideon.

"Sim", disse Jace. "O cravo soltou-se. É por isso que precisamos agir. Mas se apenas os atacarmos — se realmente os ferirmos — então eles tiram as mãos do lago e afastam-se para incomodar algum peixinho menos perigoso. Então temos que ser espertos. Se você tem os meios para cravar um cravo na mão de um homem, o que mais você consegue fazer?"

Percebeu, com irritação, que estava repetindo a mesma metáfora popular que o irritara quando Ugin a usara, incluindo as perguntas indutivas e o tom de misticismo conhecedor.

"Pode puxá-lo para dentro", disse Nissa.

"E então ele se afoga", disse Kiora, com um pouco de entusiasmo demais.

"Exatamente!", disse Jace. "Então, assumindo que a metáfora de Ugin seja amplamente precisa — e francamente, neste ponto, não temos escolha — puxamos os dois titãs para o mundo físico completamente, e então poderemos matá-los."

"Como?", perguntou Gideon.

"Isso", disse Jace, "seria o motivo de eu ter dito que tinha metade de um plano. Não sei".

"Essa é a sua ideia?", disse Kiora. "Puxar o tubarão para o barco, e então, hã...?"

"Não", disse Jace. "Meu plano era apresentar o problema ao meu sortimento multitalentoso de aliados inteligentes e experientes e ver se eles bolariam algo útil."

"Eu consigo fazer", disse Nissa, olhando fixamente para algum horizonte distante.

"Como?"

Ela virou-se, como se não tivesse notado Jace parado ali.

"É complicado", disse ela. "Deixe-me mostrar."

Jace hesitou, lembrando do caos e poder da mente da elfa. Ele não estivera no controle, e aquilo o assustara. Mas que escolha tinha? Fechou os olhos, e abriu os de Nissa.

Novamente, o mundo estava iluminado com fogo verde, uma luz pulsante lançada por linhas flamejantes que cruzavam o céu. Seus amigos eram geleiras, rastejando, enquanto Nissa e Jace comungavam à velocidade do pensamento. E os titãs... os titãs...

Na visão de Nissa, Ulamog era um poço de negrume, e Kozilek um enigma contorcido. As linhas de ley descreviam arcos em direção a eles — retorcidas, desgastadas, gritando em protesto.

Não consig—, disse ele, na mente dela. Não entendo isto.

A última vez que estivera na mente de Nissa, ela o ajudara a ignorar as linhas de ley, a focar no contorno limpo de seu modelo ilusório em vez da realidade vibrante e avassaladora. Tentou retirar-se delas novamente, mas os pensamentos de Nissa pareciam segurar os seus firmemente no lugar. Ele não conseguia — ela não deveria ser capaz de—

Olhe, disse Nissa. Veja.

Não enten—

Veja, insistiu ela.

Ele olhou. Ele viu.

Imagens lampejaram, memórias da rede de hedros como um dia fora, conforme Nissa a vira. Linhas de ley cruzavam o mundo em arcos rasos, guiadas e restritas pela rede de hedros. Eventualmente, através de milhares de milhas, elas faziam laços, cruzavam-se e encerravam os titãs numa prisão de mana puro.

Os hedros pulsavam, ocasionalmente, enviavam surtos de mana selvagem através das linhas de ley. Aqueles surtos ondulavam através da terra, dando origem aos ventos giratórios e rochas caindo do Turbilhão. Nissa não entendera aquilo então, mas entendia agora: os titãs estavam tentando escapar. Os hedros drenavam sua força, dispersando seus esforços para fora na teia de linhas de ley. Pensara que seu mundo estivesse zangado. Não percebera que ele estava lutando por sua vida.

Arte de Michael Komarck

As memórias de Nissa inundaram-no, algumas delas estranhamente familiares. O Olho de Ugin. O sábio vampiro Anowon, jurando que os Eldrazi deixariam Zendikar se fossem libertos. Um homem alto e de cabelos brancos com uma espada, sua voz seca e elegante falando um nome—

Você conheceu Sorin Markov?

—mas o fluxo de imagens continuava. Um dragão de pedra, seus olhos brilhando em azul. Um hedro estalando com fogo branco, a peça central de toda a rede, prendendo a prisão semiaberta no lugar, zumbindo com o esforço. O cajado de Nissa golpeando o hedro. Uma rachadura se abrindo, e um clarão de luz branca pura—

A imagem desvaneceu, substituída por imaginações mais abstratas.

Dentro de um glifo feito sem hedros, os titãs estariam presos por apenas um curto tempo, mas estariam em contato direto com as linhas de ley — as mesmas linhas de ley que poderiam dispersar a energia dos titãs para dentro do próprio plano.

Julgamento de Nissa | Arte de Tyler Jacobson

Os hedros eram amortecedores. Com os hedros no caminho, o glifo não poderia ser usado para matar os titãs. Mas sem os hedros...

Podemos despedaçar os titãs, disse Jace.

Drenar toda a força deles para dentro das linhas de ley, disse Nissa. Para dentro de Zendikar. Para que este mundo possa fazer com eles o que eles vêm tentando fazer com ele. Devorá-los.

Pode ser duro para Zendikar, disse Jace. Se drenar o excesso de energia dos titãs causou o Turbilhão, drenar tudo isso—

Eu sei, disse Nissa. Zendikar consegue.

Um momento de silêncio, então, no espaço entre as mentes.

Você removeu o último sistema de segurança, disse Jace. Você os deixou sair.

Eu os deixei sair, disse Nissa. Porque não confiei em Sorin, e queria ajudar meu mundo. Achei que eles partiriam. Estava errada.

Acontece, disse Jace. Você teve informações ruins.

E eu sabia disso, e agi de qualquer maneira, disse Nissa. Seus pensamentos eram firmes, inabaláveis.

Por que você me deixou ver isso?

Porque não quis me perguntar se você o arrancou da minha mente, disse Nissa. E porque quero que você saiba por que estou fazendo isso. Tenho que consertar as coisas.

Eu entendo, disse Jace. Eu—

Ele hesitou, incerto de como a elfa reagiria.

Eu sou parte da razão pela qual o sistema de segurança foi necessário.

Relutantemente, baixou suas próprias defesas mentais, retirou um conjunto particular de memórias e deixou que ela as experienciasse, no mesmo tipo de fluxo. Anowon guiando-o ao Olho. A luta com Chandra e o orador de dragão. O Olho abrindo...

Você os deixou sair! disse Nissa.

Eu os deixei sair, disse Jace. Chandra e eu. Fomos enganados a fazê-lo, mas isso não importa muito, importa?

Três Planinautas haviam destrancado a prisão dos titãs e permitido que suas proles enxameassem Zendikar. Uma removera o sistema de segurança final de Ugin e abrira a porta. Três desses quatro estavam parados ali, preparados para consertar seu erro.

Não, disse Nissa. Tudo o que importa é consertar as coisas.

Ele retirou-se da mente dela e abriu os olhos, piscando para a luz tênue e constante de um céu sem nuvens.

"E então?", disse Chandra. Segundos haviam passado.

Jace engoliu em seco. A fala parecia desajeitada e indesejada após uma conversa mental prolongada.

"Temos um plano", disse ele. "Puxamos eles para dentro, usamos as linhas de ley para drenar sua essência para dentro de Zendikar e deixamos o próprio plano devorá-los."

"Isso não é tão complicado", disse Kiora.

"Garanto a você, é extremamente complicado", disse Jace. "Mas Nissa e eu achamos que pode funcionar."

"Onde você precisa de nós?", disse Gideon.

"Escolhemos um ponto", disse Jace. "Você e suas tropas atraem os titãs —" Ele sorriu. "— para uma emboscada. Nissa e eu esperamos lá, com um pequeno destacamento de tropas para nos guardar. Quando chegar a hora, Nissa tece as linhas de ley e prende os titãs. O seu trabalho é segurar os Eldrazi pelo tempo que ela precisar."

Voltou-se para a Planinauta tritã, que girava o bidente... avidamente? Ou nervosamente?

"Kiora, você conhece suas capacidades melhor do que eu", disse ele. "Estou aberto a sugestões."

"Isso é... notavelmente inteligente da sua parte", disse ela.

Jace riu.

"Eu teria aceitado 'considerado'."

"Eu limparei a bacia", disse Kiora. "Manterei os enxames de Eldrazi longe das costas de vocês e garantirei que suas tropas tenham solo seco para caminhar."

Kiora, Mestra das Profundezas | Arte de Jason Chan

"E quanto a mim?", perguntou Chandra.

"Vá com Gideon, ou fique conosco", disse Jace. "Incendeie as coisas. Mas não ataque os titãs. Isso corre o risco de afugentá-los e arruinar nossa única chance nisso."

Chandra franziu a fronte, mas assentiu.

"E quanto a você?", perguntou Kiora.

"Eu coordeno", disse Jace. "Onde todos estão, quando iniciar o feitiço de Nissa e o que fazer se as coisas começarem a dar errado."

"Ah", disse Kiora, com desgosto. "Liderança."

"Não", disse Jace. "Liderança é o trabalho de Gideon. Isto é gerenciamento."

"Ainda pior", disse Kiora.

"Mais uma coisa", disse Jace. "Assim que começarmos a fazer isto, os titãs Eldrazi podem... mudar."

"O que isso significa?", perguntou Nissa.

"Há mais nos corpos deles do que vemos agora, e vamos puxar o restante deles para o espaço físico."

Os olhos verdes brilhantes de Nissa arregalaram-se. Ela entendera.

"Significado?", perguntou Gideon.

"Significado que eles podem ficar, hã, maiores", disse Jace.

"Maiores?", disse Chandra, quase com avidez.

"Podem?", cuspiu Kiora. "Que tipo de plano é este?"

"Um plano bagunçado, de última hora e improvisado com variáveis e se-então demais", disse Jace. "É também o único plano que temos. A menos que queira tentar nos impedir, caso em que poderemos todos desperdiçar nossas forças lutando uns contra os outros e deixar os Eldrazi comerem todo o maldito Multiverso."

Kiora encarou-o. Ele permaneceu completamente fora da mente dela — se ela sentisse que ele estava se intrometendo, ela se voltaria contra eles.

"Tudo bem", disse ela. "Faremos do seu jeito. E, mago mental?"

"Sim?"

"Se isso não funcionar, terá que se ver comigo."

"Tenho certeza de que terei", disse Jace. "Mas se isso não funcionar, duvido que precise se preocupar com isso."

"Vencer ou morrer", disse Gideon. "Gosto disso." Elevou a voz. "Temos um plano, e temos a força e a determinação para vê-lo concluído. Vamos."

Kiora e Jori deixaram a ravina. Jori lançou a Jace um último olhar — seria dúvida? — e então ela se fora.

Gideon virou-se para sair, depois voltou-se.

"O que o demônio disse, sobre matar o telepata primeiro..."

"O que tem isso?"

"Eu confio em você", disse Gideon.

Jace colocou dois dedos na têmpora e disse, em sua voz mais sinistra de mago mental: "Eu sei".

Gideon revirou os olhos, deu um tapa no ombro de Jace — o que ele já deveria saber que Jace não apreciava — e saiu a trote. Chandra já partira, e Gideon correu para alcançá-la.

Jace e Nissa escalaram para fora da ravina e encararam os titãs Eldrazi — o que conseguiam ver dos titãs — agigantando-se sobre o fundo da bacia recém-drenada.

"Senhor!", bradou uma voz atrás deles.

Jace virou-se para ver dois esquadrões de soldados liderados por uma mulher humana de rosto severo. Eram irregulares, correndo em formação frouxa em vez de marcharem em fileiras. Pararam em uma linha irregular em frente aos dois Planinautas e puseram-se em atenção.

"Retaguarda apresentando-se para o dever!", disse a capitã.

Levou um momento para Jace perceber que a mulher estava falando com ele. Mesmo sob o disfarce de Pacto das Guildas Vivo de Ravnica, ele não estava acostumado a qualquer grande grau de deferência.

"Oh", disse ele. "Hã, à vontade."

Encaravam-no, com olhos duros.

"Diga algo", sussurrou Nissa.

Diga você algo, Jace pensou para ela.

Não sou eu quem precisa dar ordens a eles assim que a batalha começar.

Jace examinou as tropas — as suas tropas — e o peso do que estavam tentando assumiu uma realidade crua. Ele poderia explicar. Poderia desenhar-lhes um diagrama, ilustrar a metafísica, apresentar suas metáforas e cálculos.

Nada disso os inspiraria a lutar e a morrer. Não da maneira como—

Bem, aquela era uma forma de abordar o problema.

Ele engoliu em seco.

"Pode não parecer", disse ele, "mas em poucos minutos vocês serão as pessoas mais importantes neste campo de batalha. No mundo inteiro, na verdade".

Ele gesticulou.

"Esta é Nissa", disse ele, caminhando ao longo da linha. "Ela estará prendendo os titãs e, no fim, ela será quem os matará. Se ela cair, nada mais importa. Planejem de acordo."

Olhos arregalaram-se, mandíbulas cerraram-se. Entendiam sua tarefa, ele tinha certeza disso. Mas estariam eles realmente preparados para realizá-la?

O que Gideon diria?

Jace sorriu. É claro.

"Por Zendikar", disse ele, erguendo um punho no ar. Pareceu-lhe fraco, carecendo do punho blindado de Gideon, seu grito de guerra barítono, sua convicção de ferro.

Nada disso importava. Os soldados gritaram como uma só voz, erguendo suas armas.

"Por Zendikar!"

Jace virou-se e encarou os titãs. No vale sob suas sombras, em meio a multidões de inimigos, amigos e aliados espalhavam-se, preparando-se para colocar seu plano em ação.

Unidade de Propósito | Arte de Jason Felix
17 de Fevereiro de 2016 | Por Doug Beyer

A Resistência Final de Zendikar

O plano está em movimento, e toda Zendikar está em jogo. Chandra está pronta para fazer sua parte, e o mesmo vale para Kiora — mas se Zendikar for salva, os Planinautas devem executar o plano com perfeição.

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O ar cheirava a algo antigo, desintegrado, como se até os grânulos de poeira do rastro de Ulamog tivessem se desmanchado em pedaços cada vez menores até que a ruína de Zendikar fosse uma película espalhada pelo mundo.

Chandra cortava o ar com os braços em chamas, atraindo a atenção de um titã de trinta metros de altura que consumia a vida. Aquilo era, de fato, proposital. De algum modo, há um número impossivelmente curto de dias, ela fora agraciada com o prestigioso título de Abade do Forte Keral. Ela se perguntava qual seria seu título agora. Algo como Isca, de Primeira Classe.

Chandra trazia a retaguarda de um dos dois grupos de zendikari, o designado para Ulamog. Enquanto a multidão de kor, vampiros, goblins, elfos e outros aliados marchava em direção ao ponto de encontro, mantinham os olhos no titã por sobre os ombros. Ela não podia culpá-los. O plano envolvia ser tão visível e tantalizantemente viva quanto possível, diante de um ser feito para ingerir a vida.

Capitã do Socorro | Arte de Anastasia Ovchinnikova

Na distância, Chandra conseguia ver Gideon à frente da outra metade do exército de isca, vindo da direção de Kozilek. Seu sural brilhava ao sol, um ponto focal para os zendikari que o seguiam. Chandra se perguntava se Kozilek sequer via a arma de Gideon, ou apenas via os bocados de energia que a seguiam.

Diretamente no caminho dos dois titãs estavam Jace e Nissa, como formigas no caminho de dois gigantes pisoteando. Aquilo, também, era proposital. Chandra conseguia apenas ver Nissa, parada em silhueta no topo de uma colina rochosa, trabalhando com Jace para preparar o feitiço que salvaria o mundo.

O aviso de Jace veio antes de Chandra ouvir o chocalhar. "Chandra, nós cuidaremos deles. Mantenha Ulamog em movimento o melhor que puder."

Uma onda de drones Eldrazi esgueirou-se para o caminho do exército de isca. Seu grupo não podia se dar ao luxo de desacelerar para combatê-los, e Chandra não conseguia limpá-los de sua posição na retaguarda. Só podia esperar que Jace estivesse certo. Olhou para cima e ricocheteou duas rajadas espiraladas de fogo na placa facial inquebrável de Ulamog.

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"Kiora, há um contingente vindo do sul. Você pode contê-los?"

Kiora mantinha-se ereta, apertando o bidente com força. Ondas de água do mar fluíam e saltavam ao seu redor como golfinhos, erguendo-a e carregando-a através do Mar de Halimar em direção à terra. Passou pela base da colina onde o mago mental e a elfa estavam, e assentiu para Jace. Apontou o bidente e varreu para cima na planície gramada, enfrentando de frente os drones de coroa de fragmentos e processadores de múltiplas pernas.

O enxame Eldrazi interceptaria o flanco da piromante. A uma inclinação da arma divina, uma parede de água girou ao seu redor como um soco de um deus do mar, arremessando os rastejadores de volta sobre a crista e para dentro de uma ravina. Kiora girou sobre um jato de água do mar para verificar outros agressores dispersos. Por ora, o caminho dos soldados estava livre.

"Contidos", pensou de volta para Jace.

Negação Esmagadora | Arte de Jama Jurabaev

Kiora olhou para cima para uma das massas de terra que flutuavam sobre o continente, uma ilha aérea que vertia uma cachoeira contínua de névoa. Uma sombra passou sobre a massa de terra, e Kiora verificou por sobre o ombro — fora projetada por Kozilek, seu volume massivo roubando a luz do sol conforme ele se aproximava. Ela entendia a natureza deste chamado titã agora. Não era nenhum deus personificado, mas um fenômeno de distorção que se intrometia a partir das Eternidades Cegas. Não passava de uma farsa doentia atuando no tecido do mundo. Não um trapaceiro, mas um truque.

O plano de atração estava funcionando até agora, mas então, aquela era a parte fácil. O mago mental e a elfa tinham o trabalho crucial — reunir as linhas de ley de Zendikar sem o uso de hedros, e prender os titãs com elas para que as próprias linhas de ley os drenassem. Era magia improvisada, não ensaiada e perigosamente intangível.

Kozilek, a Grande Distorção | Arte de Aleksi Briclot

Ainda pior, o próprio ato de puxar um titã Eldrazi totalmente para o plano era sem precedentes. Os outros Planinautas não tinham ideia da magnitude destas forças cósmicas do Multiverso, ou do dano que poderiam causar. Mesmo a elfa, que afirmava ter uma conexão pessoal com Zendikar, não poderia possivelmente captar o impacto que isso poderia ter no mundo. Um palpite estava entre a vitória e a ruína.

Mas Kiora ficaria feliz em se livrar dos Eldrazi para sempre. Ela esperaria, e veria.

Kiora subiu em uma coluna de água para observar o campo de batalha. Na distância, além das ruínas do Portal Marinho, conseguia ver os exércitos zendikari maltrapilhos aproximando-se, e além deles os dois titãs. E abaixo dela, em uma pequena colina com vista para o vale salobro da Bacia de Halimar, estavam o mago mental e a elfa. A elfa que acreditava que poderia ser a chave para tudo.

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Nissa era a chave para tudo, e Chandra sabia disso. Os dois exércitos de isca fundiram-se, cruzando diretamente na frente de Nissa e Jace.

"Chandra, Gideon — já chega. Dispersem o exército. Os titãs estão em posição!"

Testemunhar o Fim | Arte de Igor Kieryluk

Chandra lançou seu punho ao ar, enviando um dardo de fogo sibilando para o céu, onde ele estalou e explodiu bem alto. Quando os zendikari viram o sinal, começaram a se dispersar. Chandra correu ao lado dos outros, lançando mais sinalizadores no céu para garantir. Gideon a alcançou, e correram juntos subindo o lado da bacia enquanto o solo começava a brilhar com uma luz verde suavizante.

Chandra olhou para trás, para o beiral rochoso, para ver Nissa cintilando com magia.

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Os sinalizadores foram refletidos nas cristas das ondas de Kiora, parecendo um mar em chamas. Ela girou para ver os titãs entrando no vale, o local do encontro, a armadilha. E quando a elfa brilhou, Kiora respirou o ar envolto em poeira.

Vinhas de magia brilhante e verdejante tornaram-se visíveis, cruzando a terra de horizonte a horizonte. Enrolavam-se e esticavam-se e rearranjavam-se, coando-se em direção à elfa. O solo sob os pés de Nissa ondulava com luz, e Kiora viu aquela mesma luz brilhando nos olhos da elfa.

Um grande vento aumentou e o céu escureceu. Kiora via o mago mental observando o padrão das linhas de ley formando-se lá embaixo no vale e sob os pés de Nissa. Ouvia sussurros das comunicações telepáticas entre eles, como se estivesse ouvindo por acaso fantasmas conversando urgentemente. Kiora captou palavras indistintas sobre o formato do glifo, o padrão das linhas de ley, um laço inquebrável, um padrão estável de mana intenso—

De uma vez, o padrão caiu no lugar. Um glifo tripartite de trinta metros de largura apareceu no chão do vale em fogo verde feroz. Laços de quilômetros de comprimento de mana puro brotaram do glifo, açoitaram-se ao redor dos titãs e puxaram.

Vínculos de Mortalidade | Arte de Chris Rallis

Kozilek e Ulamog tentaram se afastar, arrancar-se da terra — e não apenas se afastaram, notou Kiora, mas para cima. Os titãs enredados ergueram-se em suas estaturas totais e, por um longo momento, enquanto ventos fustigavam a paisagem, pareceu que eles simplesmente se libertariam das linhas de ley. A folga nos laços de mana desapareceu conforme puxavam cada vez mais alto.

Mas então as linhas de ley esticaram-se e tencionaram. Seguraram firmes, linhas retas ancorando os titãs a Zendikar.

O guincho dos titãs Eldrazi foi tectônico. A terra deslizou, rasgou e ondulou. Rachaduras irromperam no solo e fragmentos de terreno quebrado abriram caminho até a superfície enquanto a terra corcoveava e inchava. O feitiço da elfa conseguira de fato fazer contato com os titãs, e aquela era a resposta deles — o tipo de resposta que quebra mundos.

Ao redor, atacantes Eldrazi apareceram, mandíbulas estalando. Kiora subiu em um novo afloramento de terra e repeliu uma onda de Eldrazi saqueadores com sua própria onda de água do mar. Enquanto o vento açoitava suas nadadeiras, clamou pelo mana para convocar um leviatã para o seu lado, mas sentia a terra resistindo ao seu chamado. Quase cada gota de mana estava sendo absorvida antes que Kiora pudesse extraí-la.

O feitiço da elfa segurava os titãs no lugar, mas ao custo de absorver todo o mana de Zendikar. Deixaria ela a terra ir à ruína para prendê-los?

"Nissa!", gritou o mago mental sobre os ventos. "Puxe-os! Você tem que puxá-los para o glifo, para drená-los!"

Kiora viu a elfa esforçando-se, com os braços estendidos, canalizando as linhas de ley através do feitiço e através de si mesma. Varreu os braços do chão ao céu, e um novo conjunto de linhas de ley açoitou os titãs. A terra deu um solavanco com o esforço.

Algo profundo na terra estalou, mas de algum modo Kiora ouviu o som vindo do alto.

Movimento no céu atraiu a atenção de Kiora. Ao redor dos poderosos titãs, o céu inchou e dobrou-se como uma tempestade se formando. Mas aquilo não era uma tempestade de raios — era algo diferente. A cor dos céus torceu-se do azul nebuloso para magentas e verdes fervilhantes. A luz do sol oscilou, ofuscada por uma textura ondulante, ondulante e semelhante a pólipo que se espalhava. E para o choque de Kiora, ela viu o que estava acontecendo com os titãs—

Dobrando, distorcendo, esticando.

Suas cabeças inflaram e curvaram-se em pescoços alongados que formavam arco-íris pelo céu.

Seus rostos alargaram-se, curvaram-se concavos e desdobraram-se até o horizonte e de volta.

E então começou a chover Eldrazi.

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Isto é novo, pensou Chandra.

O céu de Zendikar tornara-se os titãs. Suas formas haviam envolvido tudo, uma cúpula de carne com cor de hematoma e folhas de osso e fragmentos com bordas de vácuo. Em vez de os titãs serem puxados para dentro de Zendikar, parecia que Zendikar estava agora dentro dos titãs — ou que, de algum modo, a dimensionalidade se inverteu, e agora o exterior de seus corpos enormes estava em cada direção que Chandra conseguia ver.

O torso de Ulamog ainda se erguia sobre o campo de batalha, mas seus membros e tentáculos projetavam-se incongruentemente de vários pontos pelo céu. Uma porção da coroa de Kozilek esticava-se e girava pelo firmamento rústico como uma lua insana. Fronteiras se confundiam e entidades fundiam-se. Tentáculos de outro mundo estendiam-se para baixo dos céus magentas, contorcendo-se e esticando-se, e gotejavam em direção ao solo como nuvens em funil. Eldrazi emergiam e desdobravam-se de cada ramificação, caindo na terra com pousos graciosos ou quedas bagunçadas.

Chandra correu para dentro da nova multidão Eldrazi, retalhando com os antebraços e cortando um caminho quente através deles. Angustiadamente, parecia que a massa de Eldrazi estava toda horrivelmente conectada aos dois titãs. Na verdade, parecia que ela estava tentando cortar duas entidades enormes e coesas que preenchiam o céu, muito mais vastas do que qualquer um dos titãs fora.

Conseguia ver o sural de Gideon cintilando e ouvi-lo comandando os zendikari. Havia rugidos de batalha conforme soldados investiam para repelir esta nova força de Eldrazi, e gritos conforme os soldados eram despedaçados.

Tentáculos Esfoladores | Arte de Slawomir Maniak

Atrás dela, ouviu Nissa clamar.

"Nissa!", gritou Chandra por impulso. Mas foi abafado por vendavais não naturais e pelos sons da batalha.

Os olhos de Nissa haviam ficado cegos com um verde cintilante, e o mana espalhava-se dela em linhas retas para o céu em cada direção. As linhas de ley puxavam o glifo para cima e, no processo, puxavam Nissa. Chandra viu-a elevar-se no ar brevemente, arrastada para o céu cheio de titãs. Ela caiu de volta no chão de joelhos, braços tremendo, dentes cerrados.

"Jace", gritou Chandra, "ela não consegue sustentar isso!".

"Está funcionando!", gritou Jace. "Segurem firme!"

"Funcionando?" cuspiu Chandra. "Como você pode dizer isso?" Ela expeliu de volta alguns intrusos Eldrazi que rastejavam em direção a Nissa.

A terra dobrou-se violentamente. Dezenas de zendikari caíram no chão. Chandra viu rachaduras abrirem-se pela bacia, alargando-se e engolindo a terra, sacudindo o beiral onde Jace e Nissa estavam. Acima, algo novo estava acontecendo aos titãs.

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Kiora olhou para cima para a membrana de tentáculos pendentes em que os titãs haviam se tornado — e conseguia ver as rachaduras espalhando-se pelas suas formas. O feitiço do glifo formara uma conexão entre os titãs e Zendikar, e as linhas de ley os estavam erodindo lenta e gradualmente. Eram seres das Eternidades Cegas, e serem arrastados plenamente para esta realidade estava despedaçando sua própria existência. Os titãs, finalmente, começavam a quebrar.

Mas ao mesmo tempo, a terra de Zendikar estava quebrando também, e muito mais rapidamente. O ar era uma tempestade de vendavais partidos. O mar estava rodopiando em trombas d'água. Kiora sabia que o solo sob seus pés seria o próximo a se dissolver.

Garra do Turbilhão | Arte de Volkan Baga

Kiora apertou o bidente, sentindo seu poder crescer em suas mãos. Sentia o mar subindo, reunindo-se, atendendo ao seu chamado. Mas conseguia sentir sua exaustão ao mesmo tempo. Zendikar estava sendo posta contra os titãs numa competição de consumo — e os titãs foram projetados para consumir.

O mago mental olhou para ela, e ela ouviu as palavras dele ecoando em sua mente. "Agora, Kiora. Use suas ondas e limpe as hordas. Dê a Nissa mais tempo."

Kiora brandiu o bidente de um lado para o outro, e a água do mar chocou-se contra os Eldrazi invasores. Mas guardou um feitiço final para um momento final. Enquanto batalhava contra os enxames, observava a massa de terra flutuando acima dela, a mesma ilha em cascata que vira antes de o feitiço começar. Contanto que as massas de terra, aquelas marcas de seu mundo, permanecessem no alto, ela poderia dar à elfa mais tempo.

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Os dedos de Chandra formigavam. Enquanto a terra se despedaçava sob seus pés, os titãs gemiam e trovejavam acima. Fissuras percorriam suas formas como listras denteadas alargando-se pelo céu. Não pareciam apenas horríveis e abrangentes. Pareciam também, pela primeira vez, vulneráveis.

Captou o olhar de Gideon ao passar correndo, retalhando dois drones Eldrazi em pedaços. Ele relanceou para o céu também. "Se algum dia pudermos feri-los, a hora é agora", disse ele, e saltou passando por ela, em direção ao beiral onde Nissa estava.

As mãos de Chandra tornaram-se punhos. Fizera sua parte como Isca, de Primeira Classe. Era hora de contribuir com algo mais definitivo.

"Jace!", gritou ela. "Deixe-me acabar com eles! Deixe-me queimá-los até as cinzas!"

"Não!" disse Jace para ela, em voz alta e na cabeça de Chandra ao mesmo tempo. "Lembra? Qualquer dano aos titãs ou a Nissa arrebentará as linhas de ley e colapsará o feitiço do glifo. Vamos perdê-los!"

Chandra estendeu uma mão, e ela tornou-se fogo branco e quente. "Não se eu fizer um único feitiço valer."

"Eu disse não", pensou Jace nela. "Apenas mantenha esses Eldrazi recuados!"

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Ao Kiora ver a massa de terra flutuante começar a inclinar-se e afundar no ar, seu coração afundou com ela. Tombou para baixo, girando sua cachoeira em espiral, e colidiu com o mar caótico, rompendo em uma explosão de água branca. Kiora examinou o céu, e viu que outras massas de terra flutuantes também caíam ao seu redor. Caiam em câmera lenta, rolando em cambalhotas assimétricas, chocando-se contra o solo e explodindo plumas cataclísmicas de terra.

Pináculos Elevados | Arte de Florian de Gesincourt

Falhamos, pensou Kiora.

Conseguia ver agora. Os titãs estavam conectados ao destino de Zendikar agora. Sob a magia desta elfa, os titãs só morreriam se Zendikar morresse.

"Revane!", gritou ela para a elfa. "É o fim. Deixe-os ir!"

Nissa moveu a cabeça cegamente. A elfa ainda mantinha o feitiço, mas Kiora percebia que ela a ouvira.

"O quê?" disse Jace. "Não! Kiora, você tem que manter os enxames afastados! Precisamos deixar o feitiço terminá-los!"

"Não vai funcionar", gritou Kiora, apertando o bidente e apontando-o direto para um lado. "Fizemos o nosso melhor. Mas Zendikar perecerá se eles perecerem." Apontou as pontas do bidente para o céu cheio de titãs. "Eles já querem partir. Deixe-os ir. Poderemos lutar contra eles novamente algum dia!"

Nissa balançava a cabeça enquanto seu corpo esticava-se com as linhas de ley, linhas de preocupação vincando sua testa com suor.

O manto de Jace ondulava ao vento fustigante. Seu rosto estava severo. "Eles devem ser destruídos — aqui e agora", gritou ele. "Ou estaremos apenas condenando cada outro mundo, arriscando milhões de vidas."

O pobre mago mental não via. Estava disposto a comprometer-se com seu erro, mesmo que significasse todos eles morrendo. "Estamos prestes a condenar este mundo", disse Kiora. "O mundo está se desfazendo. Logo nós também estaremos."

"Deixe o plano funcionar", disse Jace firmemente.

Ela agarrou o bidente, e ordenou que as águas viessem em seu auxílio. "Se você não vai acabar com isto, Beleren", disse ela, "então eu vou".

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O punho de Chandra estava em chamas e seus olhos fixos no céu. "Jace, deixe-me queimá-los!", guinchou ela.

"Não!", gritou Jace, voltando-se para ela.

Chandra viu a tritã Kiora passando veloz em uma onda de água, segurando sua arma bidente ao alto. "Demos uma lição neles", gritou ela. "Eles não retornarão. É hora de libertá-los."

Gideon estava subindo no beiral para proteger Nissa. "Estou com a Chandra", disse ele, sua voz forte sobre os ventos agitados. "Não podemos deixá-los ir, mas não podemos segurá-los assim. Perdemos vidas a cada momento."

Uma forma de terra quebrada espiralou em direção ao beiral, chocando-se na bacia perto do glifo. O solo rompeu-se.

"Decida... logo...", Nissa conseguiu dizer por entre dentes cerrados.

A tritã Kiora respirava pesadamente. "Você vai soltar o feitiço, elfa", disse ela. Ergueu o bidente bem alto, e Chandra viu uma torre de ondas trovejando a partir do Halimar. "Você os libertará. E se não o fizer voluntariamente..."

Varrer | Arte de Winona Nelson

Uma parede de água de cinco quilômetros de largura subiu ao ar. Rodopiou e entrelaçou-se em uma única massa, uma forma flutuante e cintilante atravessada por plantas marinhas, corais e peixes. Era um globo de água do mar, pairando no alto. Kiora esvaziara todo o Mar de Halimar, e o mantinha através da força de sua vontade. Seu olhar estava fixo no beiral acima de Chandra, na fonte do feitiço — em Nissa.

"Chandra, você consegue fazer isso?" vieram as palavras apressadas de Jace em sua mente.

O punho de Chandra brilhava como um minúsculo sol enquanto ela olhava de um lado para outro entre Nissa e o firmamento Eldrazi. Queria desesperadamente inundar o céu com fogo, liberar sua fúria nas abominações que ameaçariam seus amigos. Mas não tinha certeza se conseguiria criar uma rajada tão singular. Como alguém poderia ter certeza? "Acho que sim!" pensou Chandra de volta.

"Você tem que ter certeza. Diga-me agora."

Chandra viu o rosto de Nissa voltar-se para ela. De algum modo, os olhos verdes e cegos da elfa haviam encontrado Chandra e, mesmo com o caos ao redor deles, Nissa assentiu. De algum modo ela sabia que era possível e, naquele momento, naquele vínculo de confiança, Chandra também soube.

"Tenho certeza", pensou Chandra para Jace.

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Kiora segurou o bidente da deusa do mar para cima, como uma espada pronta para golpear.

"O tempo acabou, Revane."

Ela preparou-se, e a água preparou-se com ela.

E com um único movimento corporal, arremessou todo o mar contra Nissa.

Os olhos de Nissa arregalaram-se.

— Mas o mar dividiu-se em dois, e cada metade dividiu-se em dois, e cada metade resultante dividiu-se e dividiu-se novamente, e a massa de água dissolveu-se e dispersou-se em névoa. A água rugiu para baixo, varrendo criaturas Eldrazi. Vidas marinhas espalharam-se, debatendo-se.

O mago mental estava entre Kiora e Nissa, seus olhos brilhando com poder sob seu capuz, sua mão estendida orlada com magia azul crepitante.

Kiora nada fez por um segundo atônito. Então berrou, não palavras mas sons inarticulados de raiva.

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Era agora ou nunca. Nissa estava a salvo do feitiço de Kiora, mas poderia desabar a qualquer momento. Ou Chandra destruiria cada parte dos titãs com um único feitiço, ou perderiam toda Zendikar, e perderiam os Eldrazi para as Eternidades Cegas no processo.

Chandra deixou a fúria crescer. O fogo subiu de seu punho por um braço e desceu pelo outro. Seu cabelo incendiou.

Pensou em como contemplara Ulamog pela primeira vez, enquanto estava transplanando de volta para Regatha — pensou em como a imagem dele se gravara em sua visão mesmo após ter deixado o plano. Não conseguia limpá-la de sua mente, e não podia descansar enquanto ele ainda estivesse lá fora. Era isso que os Eldrazi eram — horrores sem sentido, colossais, que tornavam a coexistência impossível. Se fossem libertos de Zendikar, seguiriam os Planinautas por onde quer que viajassem, perseguiriam a vida por onde quer que florescesse, e encerrariam tudo. Chandra sabia que era isso que ela e seus amigos haviam vindo encerrar. Aquela era a missão deles. Era o juramento deles.

Suas mãos queimavam brancas de calor. Olhou para as vinhas verdes brilhantes, as linhas de ley de mana ainda puxadas tensas, prendendo os titãs e ligando-os a este mundo. Sabia que as linhas de ley se romperiam quando lançasse sua rajada de piromancia. Comandou-se a ficar mais e mais quente enquanto massas de terra espiralavam em direção à terra, enquanto o solo se quebrava em pedaços, enquanto o mar fervia.

Chandra liberou o feitiço. O fogo jorrou em direção ao céu—

Queda dos Titãs | Arte de Chris Rahn

— e instantaneamente soube que não estava certo.

A torrente de fogo tocou a massa Eldrazi contorcida, mas não era nem de longe suficiente. Seu fogo mal conseguia arranhar os titãs mesmo quando eram seres finitos e discretos. Não poderia queimar sua totalidade épica agora, não mais do que poderia queimar um plano inteiro.

Pelo canto do olho viu uma das ilhas flutuantes despencando do céu, e percebeu com uma minúscula parte de sua mente que ela colidiria direto nela. Simultaneamente, via o glifo brilhar intensamente, lá embaixo na bacia, enquanto o fogo jorrava pelos corpos dos titãs. Estava tudo desmoronando. O glifo expiraria em breve. Sua fúria expiraria em breve.

Todos morreriam em breve.

Estava mal ciente de Gideon saltando do beiral, bloqueando a massa de terra com o próprio corpo, de uma chuva de pedregulhos caindo sobre ela conforme ela se quebrava contra ele. Apenas concentrou-se em arremessar o máximo de fogo que conseguia, mesmo sabendo que não seria nem de longe o suficiente—

Chandra sentiu uma mão repousando suavemente em seu ombro.

E então sentiu o mana de um mundo inteiro fluindo para dentro dela.

Confluência de Mana | Arte de Howard Lyon

As linhas de ley. Nissa fora o foco de toda a fúria de Zendikar, e agora, com o toque de Nissa, aquela fúria vertia em Chandra em vez dela.

Chandra era o foco agora, o nexo que conectava Zendikar aos titãs. Sabia que não conseguiria segurar as rédeas deles como Nissa fizera. Então tentou outra coisa.

Ela gritou.

E em seu grito, comandou toda a fúria de Zendikar através de si mesma, para dentro de seu feitiço, para dentro de seu fogo.

As próprias linhas de ley pegaram fogo, incendiando-se como uma faísca atingindo fluxos de combustível. Chamas espiralaram de Chandra para dentro dos fluxos de mana e ramificaram-se pelo céu, seguindo os caminhos das linhas de ley, envolvendo os titãs.

Ou Chandra ainda estava gritando, ou tudo o mais estava.

O mundo brilhou com um estrondo de laranja apocalíptico, depois tornou-se de um branco ofuscante. As pernas de Chandra cederam, e ela desabou.

Houve um trovão, e uma rajada infernal de calor, e um ruído horrível do céu se rasgando em pedaços. Conforme a consciência de Chandra se esvaía, decidiu que devia ser o som do mundo morrendo.

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Ermos | Arte de Jason Felix

Kiora nada conseguia ver através da fumaça. Pressionou as guelras fechadas, mas ainda sentia o gosto de cinzas. Fogos ardiam na névoa e poças fumegavam. Flocos de cinza caíam, enrolando-se em pequenos laços vindos do cinza acima. Pensou na poeira pálida que Ulamog deixava para trás ao consumir a terra — seria aquilo o que estava vendo? Vagou pelo ar denso e opaco em um silêncio estranho, tropeçando em cadáveres de criaturas Eldrazi e zendikari igualmente.

Não conseguia ter esperança. Não conseguia torturar-se com o questionamento. Buscou no cinza, tocando corpos. Ajudou alguns sobreviventes a se levantarem.

Kiora parou diante de um corpo. Reconheceu este. Era a piromante, estirada na lama, seu cabelo ruivo espalhado pelo gramado. Kiora ajoelhou-se e virou-a de costas.

A piromante jazia ali por um momento, então subitamente encolheu-se de lado em um espasmo, tossindo lama. Quando finalmente ergueu a cabeça, trocaram um olhar, mas Kiora nada disse. Kiora estendeu uma mão para ajudá-la a se levantar, mas quando a piromante a pegou, fez uma careta e agarrou as costas. Kiora soltou-a e deixou-a ali deitada.

Juntas olharam para cima através das cinzas que caíam.

Viram duas formas contra o céu, mas eram imagens residuais feitas de fumaça, como fantasmas de fogos de artifício. Entre as torres que se dissipavam havia uma fresta de céu azul.

Gradualmente, outros apareceram da fumaça. Reuniram-se, caminhando, mancando, arrastando-se uns em direção aos outros. Gideon e Jace. Tazri. Noyan, Drana e Jori.

E a elfa. Nissa cambaleou sobre um monte de terra e sentou-se no chão de uma vez. Seus olhos não olhavam para nada, mas Kiora viu os dedos da elfa cavarem um trecho de terra nua, onde o glifo fora queimado permanentemente nele.

A crosta da terra estava quieta agora. Muitas massas de terra haviam colidido com o solo, mas mais algumas flutuavam silenciosamente na distância, ignorando a gravidade como sempre fizeram.

Kiora observou enquanto os outros sobreviventes lentamente percebiam que acabara. Não houve vivas. Não houve discurso. Nenhum manto de alívio ou alegria se assentou sobre as multidões.

Algumas mãos apertaram ombros.

Alguns olhares de questionamento foram trocados.

Cabeças foram sacudidas, ou assentidas.

Bandagens foram produzidas. Mãos curadoras tocaram os feridos. Grupos de busca improvisados foram organizados. Resgatadores reuniram-se ao redor de buracos ou trincheiras cheias de água do mar. Alguns Eldrazi retardatários foram descobertos e despachados.

Protetor de Affa | Arte de Izzy

Kiora colocou o bidente nas costas. Olhou através dos rostos riscados e manchados dos aliados e virou-se em direção ao horizonte oposto. Deixou as ruínas do Portal Marinho às suas costas e pôs seus pés em movimento — esquerda e depois direita, esquerda e depois direita. E não parou de caminhar por um longo tempo.

24 de Fevereiro de 2016 | Por Ari Levitch, Doug Beyer, Kelly Digges, e Kimberly J. Kreines

Zendikar Ressurgente

Os titãs Eldrazi foram destruídos. O mundo de Zendikar foi salvo. Agora os quatro Planinautas que agiram para que isso acontecesse devem decidir o que virá a seguir.

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Juramento de Gideon | Arte de Wesley Burt

Sua garganta estava cheia de urtigas e sarças quando ele engoliu. Devia estar roncando. No conforto de um saco de dormir, embalado pelo calor de um cobertor de couro de boi, Gideon deixou as pálpebras se abrirem. Ainda estava escuro na tenda, mas ele jogou o cobertor para o lado e, embora o ar estivesse parado, ele picava sua pele com um frescor que pressagiava o mundo além da tenda. Foi o suficiente para arrepiar a pele antes que Gideon conseguisse encontrar sua camisa e vesti-la na escuridão do pré-amanhecer. Espirrou água no rosto de uma tigela de madeira que repousava em uma cadeira ao lado da entrada, e então terminou de se vestir. Um odre de água pendia de uma das vigas de sustentação da tenda. Gideon o retirou e o jogou sobre o ombro antes de afastar uma das duas pesadas abas da tenda.

Ao cruzar o limiar, um brilho de dentro da tenda chamou sua atenção. Ele inclinou a cabeça, e o contorno de seu peitoral tomou forma no canto distante, além de seu saco de dormir. E lá permaneceria, junto com suas grevas, espaldeiras, escudo e sural — ao menos por enquanto. Não precisava deles naquele momento, e de repente percebeu a leveza que sentia ao redor de suas costas e ombros. A sensação era boa.

O frio também. Uma brisa aguda vinha do leste, dissipando o calor restante que ele encontrara sob seu cobertor. Acima do vento, Gideon ouvia a cachoeira que vertia seu conteúdo despencando de massas de terra flutuantes na outra extremidade do acampamento. O púrpura começava a florescer no horizonte, e Gideon inspirou profundamente para saborear o ar da manhã que estava impregnado com o indício mais sutil de fogueiras de cozinha.

Então ele partiu em uma corrida, o odre de água balançando preguiçosamente entre suas omoplatas.

Aquele era o seu ritual, se pudesse ser chamado assim após apenas três dias — acordar antes do nascer do sol, sem o peso de armas ou armadura e livre da logística de manter um exército unido, Gideon simplesmente corria. Podia focar em sua respiração. Que cada passo seguisse o anterior era sua única preocupação.

O caminho de Gideon o levava ao redor do perímetro do que restara do grande acampamento zendikari. O local era uma coleção de ilhas flutuantes cercadas por um enorme hedro abandonado que se inclinava para um lado. Haviam sido todos amarrados por cordas e pontes.

Ilha | Arte de Adam Paquette

Fora ali, no que passara a ser conhecido como Rocha do Céu, que o povo de Zendikar se reunira em números sem precedentes para permanecerem juntos em desafio à destruição que os Eldrazi haviam prometido. Antes de o exército marchar sobre o Portal Marinho, o acampamento inchara tanto que a extensão de terra que desafiava a gravidade não fora suficiente para acomodar a todos, e um acampamento secundário surgiu na sombra abaixo da Rocha do Céu. Mas os números haviam diminuído desde então. Muitos não escaparam de seu fim no Portal Marinho, e agora que os titãs haviam sido destruídos, mais e mais da hoste zendikari estavam se dispersando a cada dia.

Acima dele, nuvens, tornadas laranjas pela aurora, estendiam-se pelo céu tênue. Seguiu seu curso com os olhos em direção ao horizonte, onde o sol ameaçava romper a superfície do mar. Entre ele e o horizonte, o olhar de Gideon encontrou as ruínas do Portal Marinho. Mesmo na luz fraca do início da manhã, Gideon conseguia ver o que fora um dia uma muralha de pedra branca brilhante, encimada por um poderoso farol, agora reduzida a um toco desmoronado de seu antigo eu — um dente podre na boca da baía.

Destroços do Portal Marinho | Arte de Zack Stella

Portal Marinho. Bacia de Halimar. Tudo acontecera ali. Em sua mente, Gideon justapunha a sequência de eventos, completa com a destruição dos Eldrazi, sobre a paisagem. Era assim que Jace devia ver o mundo o tempo todo — uma série de cenários desenrolando-se em algum curso lógico que ele conseguia ver. Jace provara seu valor. Ficara quando outros teriam partido. Fora a pessoa certa para o enigma das linhas de ley. E agora, os dois eram irmãos de juramento.

A mente de Gideon voltou-se para as Sentinelas. Aquele grupo de quatro Planinautas que partilhava sua visão. Junto com Jace, Nissa, uma estranha para ele há apenas alguns dias, estava agora comprometida em ajudar mundos além do seu.

E depois havia Chandra. No fim, ela viera. É claro que viera.

Gideon atravessou a trote uma ponte de corda que unia duas colossais lajes de pedra flutuantes, suas tábuas de madeira balançando violentamente a cada passo pesado. Do outro lado, parou por um momento, retirando o odre de água e inclinando-o para os lábios para beber.

"Lento esta manhã?", veio uma voz de trás. As palavras foram pontuadas por botas nas tábuas de madeira atrás dele, e Gideon girou bruscamente para ver o vulto de uma figura passar correndo, água espirrando da bolsa de couro e encharcando sua camisa.

Tazri. Sorriu e correu atrás dela. "Apenas dando a você uma chance de me alcançar, Comandante-Geral", disse ele. Dessa vez era a vez dele passar por ela. Bombeou as pernas com mais força, rompendo em um galope total. A qualquer momento, seria capaz de lançar alguma piada para ela por cima do ombro. A qualquer momento. Mas por todo o seu esforço, Tazri manteve o passo. E Gideon amou aquilo.

Os dois soldados correram juntos sem falar por um tempo, abrindo caminho pelo acampamento ao som de seus passos constantes e respiração regular.

Logo o acampamento estava despertando. Mais fogueiras de cozinha floresceram, e os sons acompanhantes de um exército vindo à vida logo preencheram o ar. "Vou me dirigir aos voluntários hoje", disse Tazri sem perder o ritmo. Gideon voltou-se para ela, e então seguiu seu olhar para onde o próximo grupo de partidas — uma companhia mista de kor e elfos — estava se preparando para sua jornada para algum canto distante do plano.

Ulamog e Kozilek estavam mortos, mas relatos de suas proles continuavam a chegar. "Quantos você acha que ficarão?", perguntou Gideon.

Tazri soltou um ruído que era algo entre um bufo e uma risadinha. "Sabe, tenho este sentimento persistente de que em poucos dias, você e eu ainda estaremos correndo por este lugar completamente sozinhos."

"Talvez você devesse estar trabalhando no seu discurso, então." Gideon deixou-a ver que estava sorrindo, mas ela estava em outro lugar. Estava na tenda de comando, discutindo com seus generais sobre mapas. Estava organizando suprimentos. Estava no campo, liderando da frente. E estava articulando discursos. O fardo do comando. Agora era dela — Comandante-Geral Tazri. E Gideon não conseguia pensar em uma escolha melhor.

"E quanto a você, Gideon?", perguntou Tazri. "Posso contar com você para ajudar a limpar o restante dos Eldrazi?"

Quando os dois haviam se reunido após sua fuga da caverna do demônio, Gideon notara uma mudança em Tazri. Não fora algo que ele conseguisse definir, ao menos não na época. Mas agora, via como uma calma fria. O turbilhão que vinha com a liderança rodopiaria ao redor dela, mas ela permaneceria inabalável por ele. Estava resolvida a enfrentá-lo pelo tempo que fosse necessário. "Estou sob o seu comando, Comandante", disse Gideon.

"Até...", as palavras de Tazri sumiram.

"Até", confirmou ele. Gideon não era de Zendikar. Viera para cá para fazer o que pudesse contra os Eldrazi. Mas haveria outras ameaças a outros mundos, e ele prometera às Sentinelas intervir onde outros não pudessem.

A corrida deles retomou seu silêncio.

"Bem, até lá", disse Tazri um momento depois, "estou feliz que esteja conosco". Fora a vez dela sorrir e, subitamente, ela acelerou à frente de Gideon, que não conseguiu acompanhar.

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Duas mãos rústicas e calejadas estenderam-se e pousaram sobre o ferro. As mãos estavam majoritariamente limpas do sangue seco do campo de batalha, mas linhas vermelhas permaneciam sob as unhas. O ferro que tocavam não era o pomo de uma espada ou a face curvada de um escudo, mas o ventre de metal frio de um caldeirão robusto. As mãos sentiram o fundo áspero do pote, tocaram as pernas atarracadas e firmes, deslizaram sobre a tampa de alça pesada e a concha de tamanho ridículo pendurada a um lado, e encontraram lugares em ambos os lados do pote. Ali, descansando gentilmente contra o metal, as mãos transmitiram calor. Calor constante fluiu dos dedos e palmas para o ferro preto, e do metal para o caldo frio em seu interior.

O caldo aqueceu-se lentamente e, eventualmente, borbulhou, batendo na tampa e permitindo que aromas confortantes escapassem. Cheiros de ervas e tubérculos substanciais e bulbos doces e maduros — eram uma receita de conveniência, os ingredientes reunidos numa surtida de meio de manhã por alguns dos soldados de Tazri. Fora preparado no local, no mesmo lugar onde titãs surgiram e titãs caíram — o campo de batalha que agora era apenas um campo.

Juramento de Chandra | Arte de Wesley Burt

Chandra retirou as mãos das laterais do pote e usou os braços para mudar de posição em seu assento improvisado não-muito-confortável. Pegou a concha excessivamente grande em uma mão e abriu a tampa com a outra. Teve que se esticar ligeiramente para alcançar o topo do pote, e seus óculos embaçaram quando apenas passaram pela borda. Mergulhou fundo e colheu generosamente o cozido, para pegar os pedaços bons que haviam assentado, e ergueu uma porção transbordante.

Serviu tigelas cheias de café da manhã de seu assento até que a fila terminou. E quando os batedores de Tazri encontraram mais raízes e ervas e encheram o pote com mais caldo, ela o aqueceu também, e ela e outros serviram repetições para todos, e alguns aceitaram uma terceira vez.

Os músculos de Chandra estavam cansados de ficar sentada, e o objeto que ela escolhera para descansar não estava fazendo uma impressão muito boa de móvel. Mas ela não tivera muita escolha no assunto.

Conforme os soldados levavam o caldeirão de onde Chandra estava sentada, Nissa apareceu, carregando uma pilha de cobertores. Chandra sorriu um sorriso torto para ela enquanto Nissa despejava os cobertores, camada após camada de lã grossa e fragrante, no colo de Chandra. Os olhos de Nissa eram quietos e pensativos, verde tocando verde. Chandra gostava da maneira como os movimentos dela eram gentis, suas mãos bondosas.

Chandra olhou para a pilha de cobertores. Fechou os olhos e centrou-se. Abraçou os cobertores subitamente, o rosto enterrando-se na lã. E conforme seu corpo os envolvia, conforme suas palmas (majoritariamente limpas de sangue) pressionavam contra a trama rústica, os cobertores aqueceram.

Parecia estranho agora, usar este humilde pedaço de piromancia, mas era bom. Um feitiço de calor bom e simples, conjurado com um fio comum de mana — após ter sido o conduto humano, por um breve momento, do mana de um mundo inteiro. Chandra sentia-se esticada de algum modo, tencionada em algum músculo abstrato que não conseguia flexionar, e isso, por contraste, parecia...

Mínimo. Despretensioso. Certo. De volta a fiapos de mana e feitiços de calor diretos. De volta à normalidade, quase.

Tênues vestígios de vapor subiram da lã. Chandra soltou-os, e Nissa os recolheu nos braços novamente. Chandra observou sua nova — aliada? Parceira de equipe? Não, amiga é como chamamos aquelas pessoas que nos ajudam a sobreviver. Observou Nissa caminhar entre a convalescença de tendas e camas improvisadas, carregando as pilhas de cobertores aquecidos magicamente. Nissa os deitava um por um sobre ombros doloridos ou sobre peitos trêmulos, enquanto os curandeiros e clérigos de campo zendikari faziam suas rondas.

Jace não veio dizer olá. Chandra o viu parado ao lado de um hedro do tamanho de um rochedo, seu manto envolto firmemente ao seu redor. Ele permanecia imóvel, mas parecia estar passeando de algum modo, talvez vagando pelos eventos dos últimos dias em algum lugar profundo dentro de sua própria cabeça.

Finalmente Gideon aproximou-se, guardando seu sural na cintura. Vestia armadura mínima naquela manhã, mas ela via que ele ainda examinava o solo esburacado ao redor deles, verificando as tendas, vigiando as amarras da Rocha do Céu — sempre vigilante, pensou ela, na guerra ou na recuperação. Ele parou ao lado de onde ela estava sentada, ao seu ombro. "Fiz uma varredura com Tazri. Ainda há retardatários lá fora, mas a maioria foi abatida. Achamos que acabou."

Chandra bateu no bíceps dele. "Bom trabalho, Lorde-Comandante-Cavaleiro-Geral."

Ele enganchou os polegares nas alças de seu peitoral. "É apenas Gideon, de novo. Essa coisa é minimamente confortável?"

Chandra empurrou com os braços para mudar de posição em sua cadeira improvisada. Deu de ombros. "Eu pedi para sentar nele."

Ele assentiu distraidamente. "Você vai voltar para Regatha?"

"Falei sério o que disse antes. Levantei a mão e tudo."

"Eu sei. Mas você ainda pode retornar, se tiver compromissos lá."

Chandra riu. "Você está me dando permissão?"

"O que quero dizer é que terminamos aqui, por enquanto. Você fez sua parte. Podemos nos reunir novamente quando formos necessários."

Chandra deu uma cotovelada nas costelas dele. "Estou nessa, Gideon. Sou parte das Sentinelas agora."

Ele propositalmente não olhou para baixo para ela. "Como estão as pernas?"

"Humpf", grunhiu ela. As mãos de Chandra foram involuntariamente aos seus joelhos. Conseguia sentir a sensação nas pernas, mas apenas mal, como se tivesse apenas posse parcial delas. Bateu os pés no chão para provar que conseguia mexê-los. "A sensibilidade está voltando. Os curandeiros disseram que era algo sobre o feitiço, o grandão — usei reservas que não deveria. Disseram que eu ficaria bem em alguns dias. Mas estou pensando em horas. Tente me impedir de dançar."

As sobrancelhas de Gideon contraíram-se desigualmente por um instante, um gesto que ele não conseguiu esconder totalmente. O homem vestia a preocupação como uma roupa de baixo, escondida sob camadas de força e aço.

"Se você não tivesse vindo...", começou ele. Balançou a cabeça.

"Bem, se você não tivesse pedido", disse Chandra. E deu um soco no braço dele.

Gideon apenas permaneceu ereto, tentando encontrar algo no horizonte para olhar.

"Ei", disse Chandra. "Ajudamos as pessoas. E faremos de novo."

"Fique com esses feitiços menores por um tempo", disse ele, apertando o ombro dela. "Não se esforce demais. Vou para..." Ele olhou ao redor. "Vou fazer outra varredura." Ele se afastou.

Chandra usou as mãos para puxar as coxas e cruzar as próprias pernas. Recostou-se contra a "cadeira", que parecia muito com osso carbonizado pelo fogo, mas, de perto, não parecia exatamente com osso. Perguntou-se que parte do crânio de Ulamog fora aquela — talvez fosse da parte de trás, onde a musculatura espinal do titã explodira em fragmentos de nada. Esperava que fosse da frente, entre as estruturas de suas mandíbulas, a placa facial que se voltara para ela ao ser consumida em fogo. Recostou-se contra ela e colocou as mãos rústicas e calejadas atrás da cabeça.

Juramento de Jace | Arte de Wesley Burt

Jace estava parado ao lado de um enorme hedro caído, afastado da multidão de zendikari ocupados. Daquele ponto de observação ele conseguia ver onde o glifo de linhas de ley de Nissa se gravara no chão do vale, brilhando com uma luz verde e saudável. Perguntava-se se ele desapareceria com o tempo.

Observou enquanto Gideon se aproximava de Chandra, que ainda estava confinada ao seu ridículo trono de campo de batalha, ainda incapaz de caminhar após canalizar o mana de um mundo inteiro em uma única grande rajada de fogo. Jace perguntava-se se aquilo desapareceria com o tempo também. Asseguraram-lhe que sim.

Ela estivera curvada, focando intensamente na delicada piromancia de calor sem fogo. Assim que viu Gideon, ela sorriu, seus ombros relaxaram, e aquelas suas mãos sempre inquietas ficaram paradas. Quando terminaram de falar, ela estava sentada um pouco mais ereta. A história de Gideon com Chandra era quase idêntica à de Jace, pelo que ele pudera colher. Como Jace, Gideon fora enviado atrás dela para recuperar um pergaminho roubado. Agora ela saudava Gideon calorosamente, mas ainda olhava para Jace com desconfiança.

Talvez houvesse magia no que Gideon fazia, mas Jace não achava. Observara o Comandante-Geral mover-se entre suas tropas após a batalha — dizendo algumas palavras rápidas, pondo uma mão firme nos ombros, ajoelhando-se silenciosamente ao lado de túmulos e ouvindo as lembranças dos falecidos. Por onde passava, o alívio e a esperança criavam raízes. Liderança. Jace perguntava-se se funcionaria com ele da mesma forma que funcionava com os outros.

Jace deveria ser capaz de replicar o efeito com telepatia, descobrir pelos pensamentos das pessoas a coisa certa a dizer ou fazer para lhes dar alento e conforto. Para fazer as pessoas confiarem nele. Mas Gideon não era um telepata, e todos sabiam disso. Gideon apenas sabia o que dizer. Talvez fosse por isso que funcionava. Talvez Jace devesse deixar o carisma para os carismáticos e focar em armar Gideon com as melhores informações possíveis para tomar aquelas suas decisões honestas e diretas. Jace sentiu uma pontada de culpa, já fazendo planos para conquistar Gideon em alguma discussão futura imaginária para convencer os outros. Mas afinal, era isso o que Jace estava sempre fazendo. Fazendo planos.

Aquele era o que o incomodava na situação atual. Nenhum plano. Dois titãs Eldrazi estavam mortos — verdadeiramente mortos, ao que parecia, de acordo com os cálculos de Jace, a intuição de Nissa e o puro volume de vísceras Eldrazi espalhadas pela bacia. Aquilo deixava um titã à solta — talvez ainda à espreita em Zendikar, mas mais provavelmente não. Os aliados desaparecidos de Ugin, Sorin Markov e Nahiri a Litoformadora, ainda não haviam aparecido, e o próprio Ugin ainda não fizera uma aparição na cena da queda dos titãs.

Seus novos amigos pareciam satisfeitos em ajudar os zendikari enquanto eles se reuniam com suas famílias, limpavam a bagunça prodigiosa e caçavam os vampiros enfeitiçados e adoradores de Eldrazi e as poucas proles que sobreviveram à conflagração. Tudo louvável, com certeza. Mas essas eram tarefas que os habitantes locais poderiam empreender por conta própria. Os aliados de Ugin, o paradeiro do terceiro titã, outros problemas iminentes como o Véu de Corrente... essas eram ameaças que só poderiam ser lidadas por Planinautas. Pelas Sentinelas. Aquele era o ponto, não era?

Um grito das sentinelas quebrou seu devaneio, um padrão de pios trêmulos que indicava um inimigo voador. Jace examinou o horizonte por um momento de pânico — ali, mal visível contra o céu azul claro, estava uma forma alada luminosa, batendo as asas lentamente.

Ugin.

"Não ataquem!", gritou Jace, levantando-se de um salto. "É um aliado!"

Espero que ele esteja se sentindo aliado, de qualquer forma. Não havia, na verdade, garantia alguma do humor atual de Ugin, mas Jace certamente não ia permitir que seu lado iniciasse as hostilidades.

Outros captaram o grito de Jace. Bestas foram baixadas e bolas de fogo nascentes foram permitidas a se dissiparem enquanto Ugin mergulhava baixo sobre o vale... vindo direto para Jace.

Gideon, Chandra e Nissa entenderam. Gideon chegou correndo, Nissa pareceu derreter-se de entre a vegetação rasteira, e Chandra puxou-se instavelmente aos pés, quase desabou, e mancou até lá usando um longo pedaço de osso carbonizado como bengala. Todos os três estavam com ele no momento em que o corpo de doze metros de comprimento de Ugin chocou-se contra o solo denteado em frente a Jace, suas garras levantando estilhaços de pedra distorcida.

Ugin, o Dragão Espírito | Arte de Raymond Swanland

"O que vocês fizeram?" bramiu o dragão espírito. Uma rajada de calor lavou Jace, os fogos internos de Ugin atiçados pela raiva.

Apesar dos protestos de Jace, soldados zendikari aglomeraram-se ao redor de Ugin. Eles eriçaram-se diante de seu tom furioso, lanças e espadas em riste. Ugin pareceu não notá-los, o que era provavelmente uma estimativa precisa de sua capacidade de feri-lo.

"Salvamos Zendikar", disse Nissa.

"O que você fez?", perguntou Chandra. "Ultimamente, quero dizer."

Jace deu um passo à frente.

"Ugin, o plano foi meu. Os outros são culpados apenas de confiar em mim. Se você se ofende com o que fizemos, pode tratar disso comigo e somente comigo."

"Nem pensar que ele vai", disse Gideon.

"Todos matamos os titãs", disse Nissa. "Todos seremos responsáveis por isso."

"Na verdade, eu matei os titãs", disse Chandra conspiratoriamente. "Mas eles ajudaram."

"Beleren", disse Ugin. "Explique."

"Operei com as informações que tinha", disse ele, tentando manter o tremor fora de sua voz. Sábio, antigo e inteligente Ugin poderia ser, mas ele ainda era um dragão, com o tamanho e temperamento de um dragão. E dentes. "Fizemos um esforço concentrado para prender Ulamog, como você e eu havíamos concordado, mas fomos interrompidos por um Planinauta renegado seguindo uma antiga vingança. Acho que todos podemos ser perdoados por não prevermos isso."

As mãos de Nissa apertaram-se em seu cajado. Ob Nixilis escapara, e Jace sabia que aquilo pesava sobre ela. Conte isso entre suas obrigações extraplanares, então.

"Concedido", disse Ugin. "Prossiga."

"A outra surpresa foi que Kozilek ainda estava em Zendikar", disse Jace. "Um fato que você ou não sabia ou não relatou. Respeitosamente, não acho nenhum dos cenários especialmente confortante."

"Com a rede de hedros em seu estado esfarrapado, minha habilidade de rastrear os titãs estava prejudicada", disse Ugin.

"Então o terceiro poderia estar em qualquer lugar?", perguntou Gideon.

"Posso lidar com isso, Gideon", disse Jace.

"Sua pequena escapada fez este plano soar como um sino", disse Ugin. "Fui capaz de fazer uma pesquisa minuciosa usando os... ecos. Emrakul se fora, e há algum tempo."

Jace estava incerto se ficava aliviado ou horrorizado.

"Independentemente disso, Kozilek nos pegou desprevenidos", disse ele. "Tivemos dois titãs para lidar, nenhum tempo para nos preparar e nenhuma ideia de quanto tempo permaneceriam em Zendikar. Você mesmo disse que não deveria ser permitido que eles partissem."

"Você não tinha razão para acreditar que o fariam imediatamente", disse Ugin. "Deveria ter tentado prendê-á-los novamente."

"Pelo contrário", disse Jace. "Tive razões para acreditar que os defensores de Zendikar poderiam agir precipitadamente e afugentá-los, apesar dos meus esforços para convencê-los do contrário. No fim, uma de nossas aliadas tentou fazer exatamente isso. Não tivemos tempo de construir uma nova armadilha de hedros. Mas temos entre nós uma animista, capaz de moldar as linhas de ley de Zendikar diretamente, sem o uso de hedros. Dado isso—"

"Sim, sim", disse Ugin. "Tudo se segue. Você poderia segurá-los usando o glifo, mas sem os hedros para drenar a energia e manter as linhas de ley no lugar, suas únicas opções eram deixar os titãs irem ou puxá-los totalmente para o espaço físico e destruí-los."

Jace piscou.

"Você disse que aquilo não era possível."

"Disse que não era possível para você", disse Ugin. "E você me levou a crer que não ia tentar, então poupe-me de sua hipocrisia."

"Espere", disse Nissa. "Você sabia que os titãs podiam ser mortos? Sabia disso quando os prendeu aqui?"

Ugin ergueu-se em duas pernas, agigantando-se sobre eles como um professor de escola.

"Vocês mataram duas criaturas vivas que eram mais velhas que mundos", disse Ugin. "Sem conhecer seu propósito, seu papel, o impacto de suas vidas ou de suas mortes — vocês arriscaram este plano inteiro e consequências desconhecidas além dele para matá-los. Porque podiam."

No silêncio que se seguiu, apenas Chandra falou: "Pode apostar que sim".

Ugin caiu de volta sobre as quatro patas com o que pareceu um suspiro.

"Não há força em todo o Multiverso mais perigosa ou caprichosa que os Planinautas", disse ele, balançando sua cabeça chifruda.

"O que acontecerá agora?", perguntou Jace.

"Desconhecido", disse Ugin. "Até onde sei, ninguém jamais matou um titã Eldrazi antes. Tenho teorias sobre o que os Eldrazi são, e o que pode acontecer agora que dois deles estão mortos. As consequências podem não se acumular até muito depois de todos vocês estarem mortos, então podem considerar isso uma vitória, se quiserem. Eu, de minha parte, estudarei seus restos e me prepararei para o futuro."

Os amigos de Jace fizeram ruídos de desgosto.

"Deixe-me trabalhar com você", disse Jace. "Conte-me suas teorias sobre os Eldrazi. Juntos—"

"Você, Jace Beleren", disse Ugin, "provou ser um parceiro extremamente arrogante e pouco confiável. Se você ainda insiste em me ajudar, faria melhor partindo. Imediatamente."

"E quanto aos seus antigos aliados?", perguntou Jace, incrédulo. "E quanto a Bolas?"

"Não o impedirei de investigar esses assuntos", disse Ugin. "Embora eu o inste a ter em mente que Sorin Markov e Nicol Bolas serão muito menos complacentes com sua interferência."

Ugin acenou com uma mão, um gesto que abrangeu os zendikari que o cercavam e o vale cheio do que restava dos titãs.

"Diga ao seu povo para não interferir no meu trabalho. Se eu quiser um pedaço de uma das carcaças, eu o terei. Se eu quiser algo deixado onde está, ele fica."

Chandra moveu-se para ficar entre Ugin e a porção do crânio de Ulamog que estivera usando como cadeira.

"Você terá que tratar disso com eles", disse Gideon.

"Duvido que queira que eu faça isso", disse Ugin, soprando uma baforada de calor abrasador. "Adeus, matadores de titãs. Que nos encontremos novamente em circunstâncias mais harmoniosas — ou de forma alguma. Qualquer uma delas me serviria."

Com isso, o enorme dragão saltou em direção ao céu, circulando sobre a Bacia de Halimar recém-esvaziada.

"Aquilo correu bem", disse Chandra.

Jace enterrou o rosto nas mãos.

Gideon gesticulou, e Chandra, Nissa e os outros zendikari lentamente se viraram e voltaram ao que estavam fazendo. Então ele sentou-se em uma rocha ao lado de onde Jace estivera parado.

Jace olhou para baixo para Gideon, depois sentou-se ao lado dele.

"Parece que nossos problemas não acabaram", disse Gideon. Sentado, era apenas um pouco mais alto que Jace.

"Não acabaram", disse Jace.

Ele informara Gideon sobre o dragão Planinauta Nicol Bolas, que aparentemente arquitetara a libertação dos Eldrazi. Sobre Sorin Markov e Nahiri a Litoformadora, que haviam ajudado a prender os Eldrazi há muito tempo e que Ugin parecia pensar que ambos ainda estavam vivos em algum lugar.

"Sei que não terminamos aqui", disse Jace. "Mas—"

"Aqueles juramentos que fizemos", disse Gideon. "Eles não foram todos iguais, porque não somos todos iguais."

Aquele fato não escapara a Jace. Era uma forma de um juramento vincular quatro pessoas muito diferentes — até que "justiça e paz" e "pelo bem do Multiverso" não se alinhassem. Mas poderiam lidar com isso quando chegasse a hora.

"Preciso ficar aqui até saber que as pessoas aqui estão seguras", continuou Gideon. "Imagino que Nissa ficará até ter certeza de que a vida continuará. Chandra... bem, não presumo falar por ela." Ele riu baixo.

"Mas, em última instância, precisamos saber sobre a próxima ameaça", disse ele. "Não apenas limpar a bagunça da última."

"Sim!", disse Jace. "Você entende o valor de coletar inteligência."

"Absolutamente", disse Gideon. "Qual você acha que deveria ser nossa primeira prioridade?"

"Bolas é aterrorizante", disse Jace, balançando a cabeça. "Eu preferiria não ficar face a face com ele até saber muito mais sobre o que está acontecendo. E não temos como rastrear este terceiro titã ou adivinhar para onde ela possa ter ido. Isso deixa os aliados de Ugin, Sorin e Nahiri. Irei a Innistrad e encontrarei Sorin. Não tenho certeza de que ele será de mais ajuda do que Ugin tem sido, mas não pode ser muito menos."

Gideon assentiu lentamente.

"Confio no seu julgamento", disse ele, olhando Jace nos olhos. "Quando pode estar pronto para partir?"

"Hoje", disse Jace. "Preciso reunir suprimentos e obter alguma inteligência sobre Sorin, e então estarei pronto."

"Bom", disse Gideon. "Estaremos aqui."

Ele levantou-se, sem o tapinha no ombro que costumava administrar após dar ordens às pessoas, e se afastou.

Dando ordens às pessoas... Jace não se sentiu sob comando. Teria ele acabado de—

Puxa vida, pensou Jace. Funcionou com ele também.

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Juramento de Nissa | Arte de Wesley Burt

A escuridão tornou mais difícil para Nissa bolar uma distração adequadamente viável. Ela conseguira adiar o reconhecimento do peso em seu bolso pelo tempo que o sol estivera pendurado no céu. Entre entregar cobertores aquecidos aos zendikari, juntar-se a Gideon em uma de suas muitas varreduras de perímetro e lavar os pratos rústicos nas cataratas próximas — e houvera a interrupção bem-vinda, embora inquietante, fornecida pelo dragão espírito. Não tivera que parar de se mover desde que acordara. Mas agora a noite reivindicara a consciência da maioria das pessoas na Rocha do Céu, o fluxo natural de atividade cessara, e o fluxo confortante e constante de sussurros baixos fora substituído pelo silêncio. Não era o silêncio das noites em Zendikar de que Nissa lembrava de sua juventude. Naquela época, uma noite era silenciosa apenas em comparação a um dia. Embora os ruídos dos elfos em seu acampamento cessassem na maior parte do tempo à noite, parecia ser apenas com o propósito de abrir caminho para os sons das criaturas que estavam apenas começando a acordar. Mas neste mundo, a Zendikar do tempo após os titãs, não havia criaturas apenas começando a acordar. Em vez disso, havia montes de corrupção gredosa. Não havia árvores com galhos para o vento assobiar; em vez disso, havia espaços negativos, buracos forrados com padrões repetitivos e não naturais gravados num brilho oleoso. Nesta Zendikar, o silêncio da noite era muito mais completo. E era aquele silêncio que ressoava nos ouvidos de Nissa quando ela finalmente parou de se mover.

Era a primeira vez que ela ia ao glifo desde o momento em que fora gravado no solo. Os outros o haviam visitado. Vira Jace estudando-o, observara Gideon caminhar ao longo dele, traçando a curvatura das linhas com seus passos, perdido em pensamentos. Muitos dos zendikari também haviam passado por ali, deixando pequenos tokens ao longo de suas bordas, tirando seus sapatos antes de pisarem na grama que brilhava suavemente. E a alma de Zendikar estava ali também. Nissa conseguia senti-la. Estivera ali, esperando por ela o dia todo. Ela só precisava estender a mão. Mas não o fez. Ainda não.

Em vez disso, cuidadosa para não pisar nas linhas do glifo, fez seu caminho até o ponto mais central. Parada no triângulo de terra limpa, enrolou as mangas. Uma tensão drenou de seus ombros enquanto ela se ajoelhava na terra, cercada por todos os lados pelo brilho verde e quente. Era a hora. Nissa começou a cavar.

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Quando terminou, havia quatro buracos. Um para cada uma das sementes que o vampiro lhe dera o que parecia ser eras atrás. Nissa havia planejado os buracos com cuidado, medindo e planejando para o tamanho de cada planta. A árvore Jaddi precisaria do maior espaço para crescer. Sua copa um dia se estenderia por toda a largura do glifo ou mais além. Forneceria sombra acolhedora a viajantes cansados em sua juventude, e um dia seu emaranhado expansivo de galhos poderia se tornar o lar de uma tribo de elfos. Ou, Nissa emendou, talvez uma tribo de zendikari — elfos, kor, goblins e humanos juntos. Poderiam viver na Jaddi e comer o fruto do bosque de kolya, pois certamente haveria um bosque. A semente de kolya se alimentaria do poder do mana aqui no glifo — seria a primeira a romper o solo. O tronco delgado da árvore cresceria em direção ao sol e suas flores rapidamente se transformariam em frutos tenros e ácidos que alimentariam o povo de Zendikar. E a beleza perigosa do mangue vermelho manteria o ecossistema, e o povo, em xeque. Então havia a sarça-sangrenta. O fôlego de Nissa travou num ponto sensível em seu interior. A sarça-sangrenta de Bala Ged. Uma planta de seu próprio lar. Talvez a última de sua espécie. Quantas outras ela dera por certo em sua juventude? Agora tudo se resumia a esta única. Esta seria encarregada de proteger toda a outra vida que subsistiria aqui com suas vinhas de urtigas, da mesma forma que outras de sua espécie haviam oferecido proteção aos Joraga por eras.

Nissa conseguia ver esta nova floresta tomando forma mesmo agora enquanto segurava a bolsa de sementes na mão. Um dia seria tudo o que ela sonhara que fosse. Um dia seria vasta e abrangente. Um dia seria luxuriante e cheia de poder. Um dia seria protegida por espinhos tenazes. Mas quem a protegeria até aquele dia? Quem guiaria Zendikar do que era agora para o que um dia seria?

"Pelo que vale, sei que vai ser difícil para você partir." A voz de Chandra sobressaltou Nissa; estivera tão perdida em pensamentos que não ouvira Chandra se aproximar. Aquilo era estranho. Nissa não costumava ser pega desprevenida. Mais estranho ainda era a maneira como as palavras de Chandra alcançaram a camada mais profunda da consciência de Nissa, tocando o sentimento que estava presente mas relutante em se manifestar totalmente. Chandra era a piromante, não uma telepata.

Nissa olhou para cima, encontrando os olhos de Chandra. Eram orbes âmbares amplos de sinceridade e, naquele momento, Nissa sentiu que podiam ver direto em sua alma. Estava desacostumada a que outros conseguissem captar sua percepção das coisas, muito menos entender como ela se sentia. Chandra fizera ambas as coisas em questão de momentos. Talvez por isso Nissa respondeu tão honestamente. "Não sei se consigo partir." Com as palavras fora da boca, Nissa prendeu a respiração.

Mas Chandra não disse nada imediatamente. Em vez disso, baixou-se ao chão ao lado de Nissa. Sentaram-se ali em meio aos buracos que Nissa cavara mas ainda não enchera, cercadas pelas linhas brilhantes do glifo, as linhas que só estavam ali por causa do que Chandra fizera. Se não fosse pela poderosa piromante, refletiu Nissa, não apenas o glifo não estaria ali, mas a terra na qual o glifo fora gravado teria sido completamente obliterada. Chandra interviera no momento em que Nissa sentira o mundo se despedaçando. Chandra estendera a mão para Nissa e elas se conectaram de uma forma que Nissa nunca se conectara a outro ser, nem mesmo à alma de Zendikar. Juntas, as duas combinaram seus poderes em algo que fora suficiente para destruir os titãs Eldrazi. Por pouco. Ambas ficaram terrivelmente fracas após o fim, Chandra incapaz de caminhar e Nissa, por um tempo, incapaz de ver ou de impedir que seus membros tremessem. Mas agora estavam aqui, estavam se curando. E Zendikar também. Apenas levaria muito mais tempo para o mundo do que levara para Nissa e Chandra. Talvez Chandra entendesse aquilo. Nissa olhou para a piromante, que ainda não proferira uma palavra. "Está extremamente frágil agora", começou Nissa, uma tentativa de explicar. "Esteve tão perto de se fraturar. Ainda há tanto que poderia dar errado, tantos perigos. O que quer que aconteça a seguir o moldará, ajudará a torná-lo o que quer que ele venha a ser."

"Aposto que vai ser incrível." Chandra sorriu e deitou-se no tapete de crescimento macio, com as mãos atrás da cabeça.

"Não quero perder isso", disse Nissa, surpresa consigo mesma por admitir aquilo em voz alta. "Quero estar aqui quando acontecer."

"Eu consigo entender isso", disse Chandra.

"E", acrescentou Nissa porque sentia que devia, "não quero apenas observar. Quero vigiar. Alguém deveria estar por perto. Para protegê-lo. Para ajudá-lo a seguir. Eu consigo fazer isso. Eu deveria fazer isso."

Sentaram-se em silêncio, Nissa correndo os dedos pelas dobras da bolsa de sementes. Pensou no dia em que as segurara pela primeira vez, no peso que sentira, muito mais do que quatro pequenas sementes. Na responsabilidade. E no medo de que falharia. Mas ela não falhara com elas. Ao menos, não falhara ainda. Havia mais para fazer. Não havia? Nissa quebrou o silêncio que se assentara entre ela e Chandra. "Se eu ficar aqui em Zendikar—"

"Você tem que fazer o que tem que fazer", disse Chandra. "Não vou guardar rancor."

Nissa limpou a garganta. "E quanto aos outros? Você acha que eles entenderão?"

"Gideon e Jace?", disse Chandra. "Claro que sim. Nunca fariam você partir."

Nissa exalou — aquilo era bom. Estivera preocupada. Cada um fizera um juramento.

"Também não me fizeram deixar Regatha", disse Chandra. "Mas no fim, escolhi vir para cá de qualquer forma."

Nissa olhou para Chandra. Não conseguia imaginar o que teria acontecido se Chandra não estivesse ali em Zendikar; não queria imaginar. "Fico feliz que tenha vindo. Obrigada."

"Eu quase não vim. Tinha muitos alunos lá, sabe. Era a chefe de toda a escola. Abade."

Nissa ergueu as sobrancelhas, impressionada.

"Eu sei que soa loucura me colocarem no comando."

"Não soa loucura", disse Nissa. "Sei desde a primeira vez que a conheci que você tem uma conexão natural com grandes quantidades de poder."

Chandra sorriu. "E é exatamente por isso que parti." Apoiou-se nos cotovelos. "Poderia ter ficado e ensinado aqueles alunos a serem piromantes talentosos. Teria feito um bom trabalho, também. Ao menos todos eles saberiam como criar um vácuo de fogo autossustentável realmente incrível."

Nissa riu, e então percebeu que rir era algo que não fazia há algum tempo. Ela apreciava a maneira como a natureza de Chandra conseguia tão facilmente fazê-la sorrir e rir.

"Mas a Mãe Luti e os outros vão ensiná-los bem também", disse Chandra. "Todos eles se tornarão piromantes, talvez não com tanta habilidade em vácuos quanto eu teria transmitido, mas ficarão bem. Havia algo mais que eu tinha que fazer, algo que a Mãe Luti e os outros não podiam fazer. Algo que mais ninguém podia fazer. E isso era vir para cá. Acho que era a isso que Gideon estava chegando quando disse toda aquela coisa sobre termos centelhas e poder e o que isso significa. Sabe?"

Nissa sabia exatamente do que Chandra estava falando: o discurso que Gideon fizera quando saíram da caverna de Ob Nixilis e viram o mundo à beira da destruição. As palavras de Gideon voltaram a Nissa: "Precisamos estar comprometidos... em permanecermos juntos contra todas as forças que ameaçam o Multiverso. Ninguém mais pode fazer isso. Esta é a tarefa que recai sobre nós, devido ao nosso poder. Devido às nossas centelhas."

"Ninguém mais pode fazer isso", disse Chandra, mais uma vez fazendo parecer que conseguia ler a mente de Nissa. "Mas você pode. Nós podemos. Juntos. Além disso", acrescentou maliciosamente, "você não quer ver quanto tempo leva até que Jace não consiga aguentar outro tapinha no ombro de Gideon e simplesmente exploda?"

Nissa riu novamente. Ela queria vê-los, Gideon e Jace, não necessariamente ver Jace explodir, mas seria — engraçado? Sim, engraçado, decidiu ela. As coisas ao redor de Chandra, Jace e Gideon seriam interessantes, muito provavelmente empolgantes, e às vezes engraçadas. Percebeu que uma separação dos outros três Planinautas seria tão dolorosa quanto uma partida de Zendikar. Aquela revelação a surpreendeu. Fazia muito tempo desde que Nissa sentira uma conexão profunda com algo que não fosse a alma do mundo. Mas não havia como negar que agora ela sentia mais três vínculos. Novos, mas fortes. Havia mais três almas que contavam com ela, e milhões mais que contavam com os quatro juntos.

"Vou começar a aquecer as coisas para o desjejum", disse Chandra, levantando-se. Nissa não percebera que o sol começara a nascer enquanto estiveram sentadas ali no glifo. "Quer que eu lhe traga algo?"

"Não", Nissa respirou o ar matinal de Zendikar. Ela queria estar lá pessoalmente. "Subirei para pegar em um minuto."

"Tudo bem", Chandra afastou-se. "Vejo você lá."

"Chandra", chamou Nissa. Chandra olhou para trás. "Obrigada."

Chandra sorriu e deu de ombros. "Não demore muito para pegar um bocado, ou Gideon comerá tudo."

Nissa não esperaria. Não esperaria o mundo se curar; ele se curaria e cresceria com ou sem ela ali para observar. E haveria outros que estariam lá. Pensou em Tazri, em Munda, em Seble e em Kiora.

Desdobrou a camada superior da bolsa de seda, revelando as quatro pequenas sementes. Uma por uma, plantou-as nos buracos que cavara. Ao fazê-lo, sussurrou para elas sobre seus sonhos para a floresta em que um dia se tornariam. Contou-lhes sobre o mundo de onde vieram, como Zendikar fora, e pelo que passara. E então contou-lhes sobre a piromante, o telepata e o líder destemido que vieram salvá-las, que fizeram deste mundo um lugar seguro para que pudessem crescer.

Com um último fôlego, Nissa pressionou a palma no chão e alcançou a terra; havia mais uma coisa a fazer. Roçou a alma de Zendikar. Disse-lhe para cuidar das sementes. Mas antes que pudesse responder, antes que pudesse puxá-la para dentro, envolvê-la e segurá-la perto, ela ergueu a mão, e com ela sua alma. "Eu verei você novamente", disse ela. "Eu prometo." Então levantou-se, afastando-se do mundo que conhecera e em direção ao que a aguardava.

Zendikar Ressurgente | Arte de Chris Rallis

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No meio do caminho para a fogueira de cozinha, Nissa foi emboscada por um fluxo de consciência apressado e impaciente. Nissa! Preciso falar com você. O telepata surgiu em vista, perseguindo seu fio de pensamento. Você tem que me contar tudo o que sabe sobre Sorin Markov.

O coração de Nissa elevou-se. Sim, refletiu ela, era isso que ela deveria estar fazendo agora, parecia certo. Olhou nos olhos de Jace, sorrindo. Acho que seria mais fácil se eu lhe mostrasse em vez disso. Sem hesitação, Jace saltou para dentro de sua mente.