Chandra Nalaar, aos onze anos, escalava através de uma chuva de faíscas. Um de seus pais, ou ambos, estavam soldando em algum ponto acima dela no poço da mina e ela sorriu enquanto os pequenos flocos de fogo ricocheteavam em seu cabelo ruivo. Escalava mão sobre mão a teia de andaimes que se agarrava às paredes do túnel. Hoje era finalmente o dia. Seus pais eram inventores, seus avós haviam sido inventores, ancestrais por toda a família de Chandra haviam sido inventores. Hoje era o dia em que ela finalmente abraçaria o que sempre fora seu destino escolhido: tornar-se uma entregadora de recipientes.
Inventar nunca fora o seu forte.
Não era que ela não apreciasse dispositivos. Seu mundo estava cheio de invenções maravilhosas e prodígios de vida artificial movida por engrenagens e cliques. Era apenas que, de alguma forma, sua paciência parecia acabar algum tempo antes de seus projetos terminarem. E, de alguma forma, em algum momento durante a fase de construção, seu punho quase invariavelmente acabava colidindo com o rosto de alguém que merecia.
Era uma falha pessoal. Ela aceitava isso.
Ela tentara outras vocações. Decidira tornar-se uma mestre artista e tinha um quarto cheio de pincéis quebrados e telas rasgadas para provar. Tentara aplicar-se aos trabalhos escolares, até ser enviada para casa com os nós dos dedos machucados e um bilhete do diretor. Nunca encontrara bem o seu lugar em um mundo governado por mecanismos de relógio e cônsules. Mas hoje sua verdadeira vocação começaria.
Talvez Chandra nunca fosse uma metalúrgica como seu pai ou uma artesã engenhosa como sua mãe, mas em um mundo que funcionava com máquinas elegantes, ela poderia fornecer a fonte de energia — o místico Éter — para aqueles que precisavam. O suprimento de Éter era rigidamente controlado pelos cônsules, mas seus pais conheciam maneiras de obtê-lo, e sempre ajudavam aqueles que precisavam de combustível para suas paixões inventivas.
Chandra escalou o parapeito para a plataforma onde seu pai trabalhava em uma de suas próprias criações metálicas. Ele empurrou seus óculos de lentes grossas para o topo da cabeça, deixando uma máscara de guaxinim de pele limpa ao redor dos olhos. "Chandra! Não lhe disse para ficar dentro do parapeito de segurança? Por que eu sequer construí essa coisa?"
"Dá uma escada muito melhor", disse Chandra. Ela abraçou a cintura dele. "Então. Pai querido. Estou pronta para ir. Você sabia que estou pronta para ir? Estou informando você agora. Pronta."
Seu pai revirou os olhos. "Não vou tentar incutir a virtude da paciência em você. Mas não sou a pessoa certa com quem falar. Sua mãe a tem."
Sua mãe desceu com um barulho metálico por uma espiral apertada de escadas, vestindo luvas pesadas e um xale bordado nos quadris. Carregava um recipiente de metal com toda a cerimônia de um bolo de aniversário. "A entrega solo inaugural dela! Oh, olhe para ela, Kiran! Ela vai explodir. Aqui, filha, venha me ajudar a selar isto antes que a remessa exploda — ou você."
A mãe de Chandra pousou o recipiente. A tampa cintilou e sibilou com um fino jato de vapor efervescente. No mesmo tempo em que seu pai levou para arquejar uma palavra — "Cuidado!" — Chandra dera um chute rápido no recipiente com sua bota. A tampa amassou, mas parou de sibilar. Chandra sorriu.
"Já posso dizer que você vai ser a melhor mensageira que esta cidade já viu", disse sua mãe com uma piscadela.
Arte de Tyler Jacobson
Chandra empinou o queixo como realeza de mentira. "Por favor, preparem todas as minhas medalhas e troféus para quando eu voltar. Tentarei me lembrar de todos vocês quando eu for a fora da lei mais importante do mundo."
"Preferimos 'veículos de mudança de base'", disse seu pai. "Mas esta é uma responsabilidade séria, Chandra. Os cônsules têm intensificado as patrulhas. As pessoas precisam do que fornecemos, mas se lhes trouxermos problemas, elas se voltarão contra nossa causa. Sua mãe e eu estamos estendendo a mão para encontrar pessoas em quem possamos confiar."
Chandra colocou o recipiente em sua mochila e a jogou nas costas. "E hoje estamos confiando na velha senhora que mora perto da Fundição."
"A Sra. Pashiri, sim", disse seu pai.
"Ela sempre gostou de você", disse sua mãe. "Lembre-se, ela conhecerá o sinal. Aqueles que conhecem o sinal nos conhecem por quem realmente somos."
"Eu já sei quem eu sou. Chandra, a Melhor Mensageira do Mundo."
Sua mãe deu-lhe um abraço desajeitado, batendo no recipiente em suas costas. "Seu pai e eu acreditamos em você. Você conhece a rota. Você conhece a cidade. Você se sairá bem."
"Só certifique-se de que ninguém a siga de volta para cá", acrescentou seu pai, mas Chandra já estava escalando.
O sol ofuscou seus olhos. A cidade de Ghirapur movia-se como um ser vivo, a arquitetura adaptando-se às necessidades dos artífices de engrenagens, construtores de whirlers, forjadores de relógios e outros inventores e artesãos que fervilhavam por ela. Chandra lutava para abrir caminho na multidão, vestindo uma túnica escolar com os dentes, o recipiente batendo em suas costas.
Arte de Magali Villeneuve
A via principal estava entupida de gente demais. Ela tomou uma decisão e fez uma curva perpendicular em direção ao canal. Duas metades de uma ponte deslizaram para se encontrar com uma série de cliques metálicos, fundindo-se para se tornarem um vão sobre o canal, e Chandra saltou sobre a fresta antes que ela tivesse se fechado completamente. Atravessou em diagonal os portões da Akhara, uma praça enorme e redonda cercada por assentos em patamares, saltando sobre as engrenagens que giravam no calçamento e no estrado elevado no centro, esquivando-se de uma camarilha de eterologistas tagarelas.
Tomou mais duas curvas fora do caminho comum e parou em um muro de argila cozida incrustado com retratos vibrantes em mosaico de azulejos de grandes inventores. A superfície era íngreme e lisa, mas ela colocou a bota em um entalhe acima do nariz de um inventor e escalou, descendo em um caminho pintado com listras diagonais.
Ao atingir o chão, um grupo de soldados, de costas eretas e aparência limpa, barrou seu caminho: forças dos cônsules. Vestiam snapblades padrão presas aos antebraços, e um tinha um lançador de dardos carregado de Éter.
"Onde você vai, pequena?", um deles perguntou. "Este é um corredor restrito." Ele notou o uniforme de Chandra, uma réplica dos que algumas crianças usavam para o Instituto de Construtores. "Não deveria estar na escola?"
"Estou com pressa", disse Chandra. "E meu examinador vai me comer viva se eu me atrasar de novo, então se me dão licença..."
"Como tenho certeza de que você sabe, senhorita, este é um corredor restrito", disse um segundo soldado. A snapblade saltou de seu suporte no antebraço com um clique, seu fio brilhando. "A passagem para pedestres fica no outro lado do pátio."
"E o sino da escola já tocou", disse o primeiro soldado. "Tem certeza de que é uma estudante?"
"Você não estaria transportando mercadorias ilegais, estaria?"
"Entregue a mochila, por favor."
Um calor ardido cruzou a fronte de Chandra. Ela não conseguia esquivar-se por eles, e não podia exatamente sair correndo.
"Se eu ganhar outro demerito, estou ferrada", disse ela, relanceando da lâmina reluzente do soldado para os olhos dele. "Não podem simplesmente me deixar ir?"
Um deles assentiu para o outro. "Pegue o detector de Éter."
Chandra deslocou o peso para longe do que a agarrara, então desferiu uma cotovelada lateral no estômago de outro soldado. Reicocheteou e bateu com o punho na clavícula do primeiro. Isso provavelmente foi uma má ideia, pensou ela um instante após tê-lo feito. Tinha sido a lógica do punho.
Os soldados desabaram sobre ela como uma armadilha. Suas mãos pegaram as dela atrás das costas, de modo que ela só conseguia olhar para a rua. Chutou a canela de um e tentou dar uma cabeçada no peito de outro, mas não conseguiu se libertar. Uma inundação de calor e fúria a lavou, e ela cerrou os dentes.
Os soldados pararam. Outro par de pés aproximou-se.
"Capitão Baral", disse um dos soldados.
Chandra lutou para se levantar e olhou para ele. O Capitão Baral era um monólito de homem, robusto e estatuário, com um rosto que parecia zombar de todos ao seu redor por serem menos atraentes. Os outros soldados permaneciam em silêncio.
"Qual é o problema aqui?", perguntou ele, olhando para Chandra mas não se dirigindo a ela, sua voz um sussurro rouco.
"Não cooperativa, senhor. Possível vadia."
"Dissemos a ela que esta não era a passagem para pedestres."
O Capitão Baral sorriu com desdém para ela. "É preciso usar palavras curtas com estas crianças de rua", sussurrou ele. "Comandos simples. 'Senta'. 'Fica'."
As mãos de Chandra apertaram-se em punhos. A raiva espalhou-se por ela rapidamente, como uma caixa de fósforos acesa, incendiando todos os nervos de seu corpo. O calor desceu pelos seus braços, até as mãos, ainda presas atrás das costas.
"Sei que não é uma estudante", disse Baral. "Deslize a mochila de seus ombros e entregue-a para mim."
"Não."
"Não acho que você entenda, criança. Você já está violando a lei de meia dúzia de maneiras. Obedeça, ou eu a farei obedecer." Pousou a mão no ombro de Chandra — gentilmente, mas sem nenhuma ternura. Era um toque clínico, de algum modo revoltante em seu desapego frio.
Os músculos de Chandra tencionaram-se e ela se desvencilhou brusca, fazendo um som entre os dentes. Queria atacar, gritar, lançar sua fúria contra ele.
E então algo aconteceu que nunca lhe acontecera antes. Suas mãos brilharam por dentro, iluminando os ossos e vasos sanguíneos e as linhas de suas palmas. Crescendo em intensidade, o calor irrompeu através de sua pele até que suas mãos foram envoltas em fogo como duas tochas. Chandra deu um ganido de choque e ficou ali parada, ofuscada, olhando de um lado para outro para suas mãos enquanto queimavam.
Arte de Eric Deschamps
Os soldados recuaram em semicírculo. O Capitão Baral permaneceu imóvel, a surpresa transformando-se em interesse genuíno.
Chandra sacudiu as mãos. Elas não apagaram. Pensou em batê-las contra si mesma, mas pensou melhor. Olhou para os homens, transtornada demais para falar, gesticulando com suas mãos em chamas. Estranhamente, sua pele não estava queimando. As chamas envolviam suas mãos, mas não havia dor.
Baral estendeu a mão para ela novamente. "Deixe-me ajudá-la com isso, criança."
"Fique longe!" Chandra instintivamente afastou o agressor, criando um arco flamejante de fogo no ar. Os homens recuaram. O fogo evaporou, e por um momento, todos apenas piscaram.
Chandra disparou em uma corrida. Deslizou entre dois dos soldados, ambos fazendo um meio movimento inadequado para detê-la, e ela se fora. Atrás dela, ouviu o sussurro rouco de Baral tornar-se um rosnado. "Quero whirlers atrás dela. Agora."
Chandra tomou uma série de curvas pelas ruas, deixando os soldados dos cônsules e um emaranhado de emoções desconcertantes para trás. Continuava a olhar para baixo para as mãos, mas elas pareciam ser nada além de mãos agora. Não havia sinal da loucura de autocombustão de momentos antes. Não era que ela nunca tivesse visto magia; inventores rotineiramente construíam criações que desafiavam explicações, tornadas ainda mais maravilhosas pelo poder do Éter. Mas conjurar fogo sem o uso de um dispositivo — aquilo era novo para ela.
Arte de Lius Lasahido
Correu para uma ponte de volta na direção de casa, mas congelou no meio do caminho. Surgindo quase silenciosamente à vista estavam três whirlers ornamentados, batendo o ar com seus rotores giratórios, cada um com uma grande lente apontada diretamente para ela.
Ela ainda tinha o recipiente. Não tinha certeza se ainda era elegível para o Prêmio de Melhor Mensageira do Mundo àquela altura — imaginou se havia um prêmio para a Pior — e acima de tudo queria muito correr para casa. Mas isso levaria os whirlers até lá, diretamente para sua família. Os espiões voadores relatariam todas as atividades de seus pais, e tinha certeza de que o Capitão Baral viria buscá-los. Não tinha certeza de qual era a punição para o tráfico de suprimentos de Éter. Mas ouvira histórias de sentenças duras e dolorosas executadas na Akhara, diante de multidões de pessoas.
Os whirlers mergulharam e giraram pelo ar em sua direção, mantendo-se logo atrás dela enquanto ela fugia de volta pela ponte. Era difícil escapar a pé de algo que voava; os whirlers subiam facilmente sobre obstáculos que ela tinha que contornar e ela tinha que continuar verificando o que estava diretamente à sua frente. Esquivou-se por becos estreitos e correu por lojas, mas os whirlers curvavam-se agilmente para encontrá-la quando ela saía do outro lado.
Arte de Svetlin Velinov
Aproximou-se de um pináculo familiar: a Fundição dos Cônsules, a fábrica movida a Éter que produzia em massa autômatos para os cônsules. Estava prestes a contorná-la e seguir mais fundo na cidade quando ouviu seu nome.
"Chandra?" Era a Sra. Pashiri, o contato de Chandra e amiga da família Nalaar. Estava saindo das portas principais da Fundição, com um molho de chaves na mão.
"Sra. Pashiri!", gritou Chandra, sem fôlego.
"O que houve, querida? Não deveríamos nos encontrar aqui."
"Estão atrás de mim", disse Chandra, apontando por cima do ombro para os whirlers que se aproximavam. Então hesitou, lembrando dos avisos de seus pais sobre em quem confiar, e observando o anel de chaves da Fundição dos Cônsules. Por reflexo, seus punhos se cerraram.
Mas a Sra. Pashiri fez um círculo com o indicador e o polegar, e os segurou perto da testa, como se estivesse empurrando um par de óculos de proteção. Correspondia ao sinal que os pais de Chandra lhe haviam mostrado. Quando a Sra. Pashiri fez o gesto, fez com reverência, quase como uma saudação. "Eu e os Nalaar temos uma longa história, criança", disse ela.
Chandra vacilou. Ouvia a aproximação dos whirlers. Queria confiar em seu contato, aquela amiga da família que conhecia o gesto correto, mas o molho de chaves significava algum tipo de conexão com os cônsules. Opções giravam ao seu redor.
Os olhos da Sra. Pashiri estreitaram-se ao olhar para além de Chandra e ver os whirlers. Virou-se e destrancou a porta da Fundição novamente. "Entre aqui. Saia pelos fundos. Vou distraí-los."
Era o último lugar que Chandra teria escolhido entrar. Enquanto ela debatia, a Sra. Pashiri produziu um delicado pássaro de cobre de sua túnica. O pássaro ganhou vida, agitando suas asas gravadas com penas, e lançou-se em direção aos whirlers. O pássaro de cobre colidiu com um dos whirlers e explodiu, enviando uma chuva de pedaços para a rua.
"Entre logo", disse a Sra. Pashiri com um aceno firme, produzindo um pequeno morcego de filigrana de prata. "Os maquinistas ainda não chegaram. Vá, querida. Ponha-se em segurança."
Chandra correu para dentro enquanto a Sra. Pashiri começava a gritar insultos aos whirlers.
Arte de Johann Bodin
O interior da Fundição era uma natureza-morta de máquinas silenciosas. Autômatos semimontados pendiam imóveis, suspensos pelos torsos em estações de maquinistas. Pernas e garras ficavam em prateleiras, esperando sua vez de serem rebitadas e tornarem-se mais um servidor produzido em massa. As principais lâmpadas superiores estavam apagadas, e a única luz vinha de uma claraboia circular de vidro no teto abobadado. Um pylon enorme, plantado no centro do espaço, subia até o topo da cúpula. Braços automáticos e manipuladores movidos a engrenagens estavam dobrados contra o pylon como asas de pato.
Chandra rastejou entre estações de montagem e engrenagens de filigrana, procurando a outra saída. Ouviu outra pequena explosão lá fora, e as invectivas da Sra. Pashiri desapareceram na distância. Chandra soltou um longo suspiro de gratidão pela distração.
Ouviu um som de tique-taque lá no alto. No teto, uma série de engrenagens elegantes girou, e a claraboia abriu-se. Um sussurro inconfundível de rotores anunciou o último whirler, que desceu pela claraboia e a encontrou com seu olho.
Uma série de lâmpadas laranjas acendeu por todo o teto da fundição, entrando em ação em um padrão espiralado. Os braços do pylon agitaram-se, estendendo seus membros surpreendentemente longos e garras em forma de gancho. Por todo o chão da fundição, criaturas artefatos soltaram-se de seus suportes e giraram as cabeças em direção a ela sob a luz lúgrubre das lâmpadas.
Uma onda de calor inundou seu corpo. Suas mãos formigaram e começaram a brilhar.
"Não, obrigada", disse ela às suas mãos. "Não de novo. Não, não, não."
Passou por uma pequena criatura artefato e empurrou outra para fora do caminho com o cotovelo. Avistou a saída, mas uma máquina enorme de seis pernas barrou o caminho. Voltou-se para a entrada, mas aquele caminho parecia ainda pior. Autômatos surgiam do nada, marchando ou arrastando os pés em sua direção.
Um constructo humanoide movido a engrenagens estendeu a mão para ela. Em vez de mãos, tinha grilhões de metal, e buscou seus pulsos com suas garras-grilhões. Ela deu um soco, porque aquela era a lógica do punho. Mas, em vez de conectar, seu punho disparou uma rajada de fogo, derrubando o constructo e esmagando-o em pedaços chamuscados no chão. Outra criatura artefato rastejou em sua direção e ela lhe deu um soco de fogo também, a chama irrompendo dela no ponto de impacto. Suas mãos floresceram em fogo novamente. Eram máquinas belas, e ela não tinha nenhum controle sobre sua habilidade com o fogo, mas não havia tempo para parar e pensar. Enfureceu-se em frente com uma progressão de gritos e golpes, chamuscando seus intrincados agressores um por um conforme a cercavam.
Arte de Daarken
Tentou abrir caminho para a saída dos fundos, mas a horda de servidores da Fundição vinha em sua direção rápido demais, e a grande monstruosidade de seis pernas ainda montava guarda na porta. O whirler teve até a audácia de voar baixo, brotar uma garra laminada e atingir suas costas.
Ela girou e gritou com ele. Suas lâminas de rotor de algum modo pegaram fogo e ele inclinou-se, colidiu com o pylon e caiu no chão em uma pilha flamejante.
Chandra lembrou-se de que não havia feito a entrega para a Sra. Pashiri. O recipiente de Éter ainda estava em suas costas. Ao voltar-se para o guardião da porta, uma ideia muito ruim lhe ocorreu.
"Vejamos o que vocês podem fazer, mãos", disse ela. Com os dedos ainda em chamas, arrancou a mochila das costas e arremessou o recipiente contra as portas dos fundos. O recipiente bateu contra o guardião da porta multilegado e atingiu o chão da fundição, soltando a tampa. Um jato de Éter sibilou do recipiente.
Chandra dirigiu toda a sua chama e fúria ao recipiente; não teve tempo de se preocupar se era a coisa certa a fazer.
A escuridão da cabana subterrânea era um consolo frio. Quando Chandra desceu correndo as escadas, sua mãe apagou uma varinha de solda e seu pai levantou os óculos. Viram o olhar em seu rosto e as bordas carbonizadas de sua túnica.
"Eu... tenho uma coisa para contar", disse Chandra.
Eles a abraçaram. "Você está ferida? Está queimada? O que aconteceu?"
"Estou bem", disse ela, tremendo nos braços deles. "Eu fiz... eu fiz fogo."
"Você causou um incêndio? Na entrega?"
"Não. Eu o fiz", disse Chandra, rompendo o abraço de seus pais. "Com minhas mãos. Encontrei uns soldados dos cônsules e fiquei com raiva, e minhas mãos pegaram fogo."
Os olhos de sua mãe arregalaram-se. Agarrou as mãos de Chandra nas suas, e as virou para um lado e para o outro, examinando-as. "Você se feriu? Alguém se feriu?"
"Espere", disse seu pai. "Você encontrou forças dos cônsules?"
"Ninguém se feriu." Chandra sentiu um peso, uma manta ensopada de culpa, diante da perspectiva de que alguém pudesse ter se ferido por causa dela. Seus ombros caíram. Um nó formou-se em sua garganta. "Digo, houve — eu causei — danos. Na Fundição."
"Na Fundição dos Cônsules?"
"A Sra. Pashiri me ajudou a entrar. Mas tive que passar pela porta, e posso tê-la destruído."
"Destruiu a porta?"
"Destruiu a Fundição."
Seus pais olharam-se. Suas bocas abriram-se e fecharam-se como se estivessem tentando dizer algo, mas nenhuma palavra veio. Finalmente seu pai voltou-se para ela.
"Suas mãos pegaram fogo, sem um dispositivo? Espontaneamente?"
Os olhos de Chandra ameaçaram chorar, mas ela limpou-os com o pulso. "Sim."
"E sua pele não queimou?"
"Minha camisa queimou, um pouco, aqui."
"Pode... me mostrar?"
"Não sei se consigo fazer sob comando. Saiu quando eu não queria. O que há de errado comigo?"
"Chandra! Oh, Chandra." Sua mãe envolveu-a nos braços, apertando-a de modo que seu rosto pressionou-se contra o pescoço da mãe.
"Eu sei", murmurou Chandra. Quis abraçar a mãe, mas manteve as mãos ao lado do corpo. Semeou uma lágrima no xale bordado da mãe. "Sou... sou uma aberração."
"Querida, você não é uma aberração", disse a mãe. Rompeu o abraço e manteve as mãos nos ombros de Chandra, olhando para o rosto dela, os lábios cerrados. "Você é uma piromante."
"Se é assim que chamam alguém com fósforos no lugar das mãos, então sou eu."
"Ouça-me", disse a mãe. Seus olhos eram intensos. "Isto é um dom. Você tem algo especial, algo que não se vê há muitos anos."
Chandra ouviu aquilo, mas as palavras não se prendiam a nada em sua mente. Buscou no rosto da mãe algum indício.
"Não entendo."
"Seu fogo", disse a mãe. "É uma forma de magia. Um tipo especial. Mas é algo que os intimida. Se é algo que você pode fazer sem máquinas, sem a necessidade de Éter... você faz do seu próprio jeito, entende? E eles odeiam isso."
"Precisam que as pessoas precisem deles", disse o pai. "E se você não precisa deles, torna-se uma ameaça."
Chandra cerrou os punhos. Como duas mãozinhas podiam causar tanto problema?
"Agora Chandra, tenho que lhe perguntar. Alguém seguiu você até aqui?"
"Acho que explodi tudo o que poderia ter me seguido."
"E os soldados que você encontrou. Eles a identificaram?"
"Podem ter identificado. Não sei. Mas os perdi lá perto da arena. Pai?"
"Sim?"
"Nunca vou ser a Melhor Mensageira do Mundo, vou?"
A mãe pressionou a mão contra os lábios, contendo as lágrimas.
O pai pegou as mãozinhas de Chandra nas suas mãos grandes. "Você é a Melhor do Mundo, minha Chandra. A melhor que qualquer mãe ou pai poderia pedir. Não importa o que aconteça."
Chandra assentiu, e seu pai a abraçou, e sua mãe tocou sua mão. De algum modo, apenas ser ela mesma, apenas ser a filha deles, significava muito para eles. Ela se perguntava o que eles viam, o que ser a Melhor Chandra do Mundo significava.
Veio em sua direção como se murmurado através de melaço, irreal a princípio. Sua consciência agarrou-se à voz e ela a arrastou para cima.
Chandra.
A voz da mãe era suave, mas a mão em seu ombro era firme. "Chandra. Vamos, querida. É hora de levantar."
Seu quarto estava escuro, iluminado apenas pelas luzes de mão dos pais. Estranhamente, a escuridão a acordara muito antes do que a luz da manhã o faria. A escuridão não condizia com a rotina. Escuridão significava que algo estava errado, ainda mais errado que ontem.
Mochilas. Cintos de ferramentas. Braçados de pertences.
"Onde —? Para onde vamos?"
"Pegue uma bolsa e siga seu pai."
"O que está acontecendo?"
A mãe empurrou uma mochila para os braços de Chandra. Subiram as escadas até a pesada porta segmentada que formava a entrada da casa. O pai rolou a porta fechando-a e a mãe a soldou com uma varinha. Saíram para a noite, levando o lar nas mãos, esgueirando-se de sombra em sombra. Não falaram, e Chandra não fez perguntas enquanto subiam na parte traseira de uma carroça à espera e cobriam-se com uma manta.
As aldeias não tinham nomes. Estradas de terra substituíram os pátios de mosaico móveis de Ghirapur. Telhados de palha substituíram torres giratórias. Trabalhadores de campo curvados substituíram retratos inspiradores de heróis inventores. Uma túnica simples e sandálias substituíram a túnica e botas de Chandra. Até sua identidade fora substituída, pois seus pais a instruíram a se apresentar e a eles com nomes falsos. Deram-lhe um lenço azul-marinho para usar sobre o cabelo ruivo, um lenço que ela perdeu prontamente.
Aprenderam a não desfazer as malas. Chandra e seus pais ficavam apenas alguns dias de cada vez, às vezes seguindo para a próxima aldeia após apenas algumas horas de sono.
"Quanto tempo ficaremos aqui?", perguntou Chandra quando chegaram de carroça em uma nova aldeia.
"Não muito", disse o pai. "Nosso lar é a estrada por enquanto. Aconselho você a se acostumar."
"Estamos nos divertindo?", perguntou Chandra, meio brincando.
"É uma aventura, sim", disse o pai em tom monótono.
Sempre que a família cruzava uma elevação, Chandra olhava para trás em direção à cidade, comparando a distância com a última vez que conseguira ver o horizonte. Toda vez que olhava, as estruturas vívidas empalideciam, os pináculos aguçados e as cúpulas de cobre brilhantes da cidade sendo engolidos pela forma ampla da cordilheira ao redor. Ela examinava o rosto do pai nessas horas, procurando algum tipo de confirmação de que aquilo não era difícil para ele, de que não esmagara seu espírito estar longe de sua pequena forja e seus projetos. Estava se adaptando àquele tempo na estrada, até gostando, mas acreditava em seu coração que toda aquela jornada era por causa dela, por causa do problema que causara.
Passava os dias vagando pelas aldeias e os bosques ao redor, afugentando pássaros de seus galinheiros e explorando os caminhos elevados de galhos de árvores entrelaçados. Os aldeões tinham sorrisos gastos nos rostos, e acenavam para ela e a deixavam em paz. A mãe dissera que regras eram apenas palavras usadas por pessoas que queriam algo, e aquelas pessoas não queriam nada dela, então ela se deleitava na liberdade. Coletava sementes e frutas pesadas e outros presentes da floresta, e os deixava nos degraus das portas da aldeia. Pensava em seu fogo às vezes, mas não o buscava, e ele não se mostrava. Pensava em seu poder como um de seus dispositivos descartados lá em Ghirapur — inacabado, não dominado e abandonado.
Num dia brilhante em que não pensara em fogo e quase nada em soldados, encontrou um tesouro nas árvores. Um chifre enorme e corrugado projetava-se de entre dois galhos pesados. Curvava-se de forma sinuosa, com estrias que segurariam bem a tinta — um belo presente para alguém na aldeia. Escalou até o prêmio e o arrancou, deixando o chifre cair no solo.
Quando saltou para o chão, uma manada de feras peludas a surpreendeu. Seus chifres combinavam com o que ela encontrara — estava claramente em seu território. Seus lábios retraíram-se para revelar presas destinadas a rasgar carne. Berraram em seu rosto.
Ela berrou no deles.
Seu fogo veio prontamente, sem pensar, tão natural quanto o impulso de correr. Esculpiu punhados de fogo enquanto corria, unindo as mãos como se estivesse pegando argila no ar, atingindo de leve os rostos das feras com ele e cortando seus caminhos. Atirava chamas sem hesitação, sem queimar suas mangas, sem esforço. Não houve negociação com o fogo desta vez. Ela precisava dele e ele veio a ela.
Arte de Victor Adame Minguez
As feras dispersaram-se apenas com pelos chamuscados ou queimaduras superficiais, deixando Chandra sozinha com sua respiração ofegante e o brilho em suas bochechas. Encontrou uma trilha e caminhou de volta para a aldeia, apertando as mãos com um sorriso secreto no rosto. Não contou aos pais que quase fora morta por uma manada de criaturas da floresta, mas eles notaram que ela mal comera nada no jantar. Não conseguia, com a empolgação causando pequenas explosões em seu estômago.
Naquela noite ela se revirou em seu catre, sem conseguir dormir. Traçou um dedo pelas linhas de uma palma, sentindo os contornos dos ossos em sua mão, depois trocou de mão e traçou as linhas na outra. Havia algo nela que mais ninguém compartilhava, algo que a deixava sem fôlego, como pintar naturezas-mortas ou entregar recipientes nunca conseguira. Ficou acordada por horas, imaginando uma mariposa de fogo esvoaçando dentro de seu peito — uma mariposa feita de fogo, ardendo mas não consumida.
Uma vela em uma redoma de filigrana projetava sombras elaboradas pelas paredes do escritório do Capitão Baral. Uma mensageira fardada entrou, tocando o punho no peito em saudação. O Capitão Baral olhou para cima de sua mesa.
"Relatório, soldada", disse o capitão em seu sussurro baixo.
"Temos notícias de um de nossos batedores, senhor", disse a mensageira.
"Viram-na?"
"Todos os três. Os Nalaar fugiram da cidade."
"Você tem uma localização?"
"Apenas aproximada. Estão se escondendo nos arredores, movendo-se de aldeia em aldeia. Whirlers os avistaram uma ou duas vezes."
A boca do Capitão Baral contorceu-se. "Retorne quando tiver detalhes. Está dispensada."
"Mas... senhor? Há outra coisa."
O Capitão Baral apenas ergueu as sobrancelhas para ela.
Ela colocou uma missiva marcada com um selo oficial sobre a mesa. "Senhor, os cônsules recomendam que cessemos a busca. A missiva deles alega que estamos gastando grandes quantidades de Éter para rastrear os Nalaar. Senhor, certamente os prenderemos se tentarem retornar a Ghirapur. Os cônsules simplesmente não os consideram dignos dos recursos para persegui-los."
"Isto não é sobre um par de fugitivos, soldada", disse o capitão, sem elevar a voz acima de um sussurro constante. "É sobre o futuro. Precisamos mostrar ao povo desta cidade que estamos preparados para avançar além da era bárbara do passado, para abraçar o progresso. A garota é um remanescente de um tempo caótico. Um obstáculo. Se vamos seguir em frente, precisaremos que nosso caminho esteja limpo. Os cônsules entenderão isso."
"Sim, senhor", disse a mensageira. "Nós os encontraremos."
"Bom. Quero uma belonave e um destacamento de soldados prontos."
A mensageira hesitou. "Senhor? Estamos preparados para uma luta, caso os encontremos? A magia de fogo da garota — é poderosa."
"Não temos nada a temer dela, pois somos membros de uma sociedade iluminada de construtores e criadores." Baral estendeu a mão para a gaiola de filigrana em sua mesa que continha uma pequena vela, e abriu uma portinha na gaiola. A sombra de sua mão agigantou-se pelas paredes. Baral não tocou na chama, apenas manteve a mão perto dela. A chama diminuiu e apagou-se, deixando uma linha sinuosa de fumaça. "Sabemos que o fogo nunca cria — apenas destrói. No fim, trará nada além de ruína para quem o empunha."
"Queria me ver?", perguntou Chandra, entrando na moradia modesta de sua mais recente aldeia anfitriã.
"Entre", disse o pai, batendo em um banco de madeira. "Sente-se."
Chandra limpou a poeira da túnica em vez de sentar-se. "Espere. Esta é sua voz de 'temos que ter uma conversa séria sobre seu comportamento, mocinha'? Ou é a voz de 'quero que você saiba que sempre estarei aqui por você, filha querida'? Não consigo distinguir."
"Sempre a última. Hoje, um pouco da primeira também. Sente-se."
Chandra sentou-se. "Isto é 'descobrimos que você incendiou umas coisas, e isso é ruim'?"
"Usar seu dom nunca é ruim", disse o pai. "É o que há de especial em você, e isso será sempre uma coisa boa. É apenas que... nem todos veem dessa forma."
"Isto é sobre as feras? Quem contou?"
"É apenas que algumas das pessoas nesta aldeia — elas dependem dos animais da floresta para sobreviver. Estão nos ajudando a nos esconder, porque não se dão bem com os cônsules."
"As forças dos cônsules. São eles que estão atrás de nós."
"Isso mesmo. As pessoas aqui estão se voluntariando para nos manter seguros. Então, quando estamos aqui fora, somos hóspedes deles. Temos que jogar pelas regras deles."
"Mamãe diz que não há regras aqui fora."
"Não tenho certeza de que você esteja captando bem a posição dela. Devemos muito aos nossos anfitriões por sua generosidade. Devemos usar nossos dons de formas que não interfiram nas vidas deles."
"É fogo. Qual é o sentido de dizer que é bom se é contra as regras de todo mundo?"
"Você só tem que ser mais cuidadosa. Tenho uma coisa para você, algo que deve ajudar." O pai entregou-lhe um pequeno mecanismo. Era uma caixa de metal finamente gravada com aberturas em um dos lados. Tinha uma alça de ombro e um cabo flexível que entrava nela.
Chandra girou-o nas mãos. "O que é isso?"
"Chama-se pacote de ventilação. É baseado em uma antiga invenção de muito tempo atrás. Sua mãe e eu fizemos isto para você."
"Deveria estar recebendo isso com ceticismo? Porque estou."
"Experimente."
Chandra levantou-se e passou a alça sobre o ombro. O pacote de ventilação assentou-se na curvatura de suas costas. O pai tocou a extremidade solta do cabo em um ponto de pele nua perto de sua omoplata, e ele aderiu à pele.
"O que ele faz? É pesado." Virou-se para tentar olhar. O metal parecia frio através da camisa. E no ponto onde o cabo tocava sua pele, sentiu uma leve carga elétrica.
O pai levou a mão ao queixo e a observou. "Agora, uma notícia ruim. Receio que você não possa voltar mais à floresta. Nunca mais."
Chandra girou em direção a ele. "O quê? Por quê?"
O pacote sibilou, liberando uma quantidade de vapor.
"Teste bem-sucedido", disse o pai.
Chandra estreitou os olhos. "Seticismo tornando-se desconfiança absoluta, querido pai."
"Sinto muito. O pacote de ventilação converte excesso de energia em vapor. O design é usualmente usado para descarregar com segurança o excedente de energia em coletores de Éter. No seu caso, seu temperamento é uma fonte de energia. Alimenta seu dom. E isto ajudará você a controlá-lo."
Chandra franziu a testa. "Então, quando eu usar isto, não poderei produzir fogo?"
"Deve amortecer seu dom de modo que ele só se manifeste em uma forma mais segura. Não disparará quando você não quiser. E você o usará o tempo todo agora."
O pacote de ventilação sibilou. Pensou na imagem da mariposa de fogo esvoaçante, mas agora a imaginou trancada dentro do pacote de ventilação, sufocando e dissipando-se em fumaça. Talvez a magia de fogo fosse algo que ninguém devesse apreciar. Sentiu-se subitamente infantil.
O pai apertou seu armo. "Isto é para o seu próprio bem, e para a segurança de nossos anfitriões na aldeia."
Chandra suspirou e desabou de volta no banco. "Pai. Estarmos aqui fora. É por minha causa? Por causa do que fiz na Fundição?"
"Chandra, ouça-me." O pai a envolveu nos braços. "Sua mãe e eu estamos muito orgulhosos da pessoa que você está se tornando. Você é a coisa mais importante do mundo para nós. Queremos que você saiba que tudo o que fazemos, fazemos para mantê-la segura, e para tornar o mundo um lugar melhor para nossa família. Nada mais importa."
O pai rompeu o abraço. Ela olhou para ele, e o sorriso dele era quente e real. O canto de metal do pacote de ventilação cutucava suas costas desconfortavelmente, mas ela conteve-se e não comentou.
No dia em que os soldados cercaram a aldeia, Chandra estava explorando na floresta, seu pacote de ventilação batendo em suas costas enquanto caminhava. Não os notou aproximando-se das casas, nem sequer ouviu a belonave descendo. Foi apenas quando ouviu os gritos que correu de volta para a aldeia e os viu.
Vestiam os mesmos figurinos daqueles que a pararam no corredor restrito lá em Ghirapur. Armas estavam afixadas em seus antebraços, e muitos carregavam lanternas acesas, apesar de ser meio-dia. Um deles era alto e confiante, e falava com os outros em um sussurro rouco. Capitão Baral. De algum modo ele os encontrara.
Arte de Daarken
Os soldados criaram uma cerca humana ao redor da aldeia, cruzando os braços e exibindo suas snapblades. Uma mulher da aldeia gritou com eles e, sob o comando do Capitão Baral, os soldados a empurraram.
O pacote de ventilação de Chandra soltou uma baforada de vapor. Ela marchou da floresta em direção a eles. "Ei!", gritou ela. "Estão procurando por mim? Se me querem, aqui estou!"
Os soldados olharam-se. "É a garota Nalaar."
"Meu nome", disse ela, empertigando-se até a altura do peito de um adulto, "é Chandra. Deixem estas pessoas em paz. Não fizeram nada de errado. Levem-me".
"Nós a levaremos", disse o Capitão Baral. Ela esquecera como sua voz baixa soava como pedras sendo moídas em poeira. "Porque você e os seus são um perigo para si mesmos e para o público." Voltou-se para a mulher e os outros aldeões. "Podem ir."
Os aldeões afastaram-se, os adultos conduzindo as crianças para suas casas. Chandra procurou pelos pais, mas não conseguia vê-los na multidão.
"Não sou um perigo", disse ela. "Não mais." Girou seu pacote de ventilação para Baral ver. Um rastro constante de vapor saía de suas aberturas.
"Sua própria existência é um perigo", sussurrou Baral. "Sabe como a encontramos, criança? Estas pessoas finalmente entregaram você."
"Isso é mentira. Meus pais disseram que estavam nos mantendo seguros."
"Os crimes de seus pais são muitos, mas seus crimes são muito piores, piromante. Você é um instrumento de caos e morte. Quantas pessoas você já matou?"
"Ninguém. Só quebrei alguns de seus brinquedos produzidos em massa."
A boca de Baral curvou-se em um dos cantos, revelando os dentes. "Não foi o que ouvi. Ouvi que você foi responsável por dezenas de mortes, nesta exata aldeia." Acenou para os outros soldados. "Façam."
Os soldados usaram suas lanternas para incendiar os telhados de palha dos edifícios da aldeia. Pegaram fogo imediatamente, expelindo uma fumaça espessa e feia.
"Não!" Impulsivamente, Chandra estendeu os braços para atingi-los com fogo, mas nada emergiu. Vapor sibilou de seu pacote de ventilação. Baral sorriu, e algo brilhou em seus olhos.
"Chandra!" O pai veio correndo de trás do edifício. "Chandra, corra! Por aqui!" Arremessou um pequeno orbe de cobre no chão aos pés dos soldados. Ele explodiu em um flash de luz, atingindo os rostos deles com partículas cintilantes. Eles gemeram e levaram as mãos aos olhos.
Chandra correu para dentro da aldeia, com o pai logo atrás. Correu entre as moradias da aldeia, agora consumida por fogo e gritos. Fumaça rolava pelos caminhos de terra, ocultando o caminho de volta para o edifício onde sua família estava ficando. Seguiu em frente, tentando manter o olho em onde o pai estava.
Quando emergiu da fumaça, estava no lado oposto da aldeia. O fogo ardia alto, consumindo edifícios inteiros. Pessoas saíam cambaleantes da aldeia, gritando, rolando na terra para se apagarem. Os soldados de Baral observavam, nada fazendo para ajudar as vítimas. Isso seria culpado nela, percebeu. Ela fora quem assustara as feras da floresta com seu fogo, e então algum aldeão devia ter contatado o Capitão Baral. E agora toda aquela morte ardente estaria em suas mãos, porque ela era a piromante. Fora enganada tão facilmente, e Baral quase declarara isso diretamente em seu rosto.
Os soldados a avistaram. Ela virou-se para correr na outra direção, mas escorregou em algo e caiu. Seu pé enganchara em um pedaço de tecido escorregadio, pisoteado na terra. Pegou-o nas mãos. Era o xale da mãe, o que ela sempre usava ao seu redor, com seu bordado característico. Estava fumegante e chamuscado pelo fogo. Percebeu que estava na frente da moradia onde estavam ficando, e ela estava consumida pelo fogo.
"Mamãe!", gritou ela, subitamente incapaz de levantar-se e correr de novo. "Não!"
Os soldados acionaram as lâminas afiadas em seus antebraços. Abriram caminho para deixar o Capitão Baral aproximar-se dela. Tinha uma adaga simples na mão, e agigantava-se sobre ela. Ela não conseguia forçar-se a mover.
"A arena terá um excelente espetáculo", sussurrou Baral. "Os cônsules gostam de fazer um exemplo dos dissidentes. E a multidão gosta de demonstrações de força, quando não os envolvem."
O pai surgiu de entre a fumaça da aldeia. Lançou-se entre eles, colocando-se entre Chandra e os soldados. "Basta", disse ele, tossindo. "Levem-me. Sou eu quem vocês querem. Eu me rendo."
Baral aproximou-se do pai, pousou uma mão em seu ombro e o esfaqueou no estômago com uma adaga. O pai arquejou e desabou, caindo de joelhos, segurando o estômago com as mãos. Olhou para Chandra por um momento, e ela viu sua última emoção nos olhos dele — não medo, mas decepção por não ter conseguido fazer melhor por ela. Curvou-se, estremecendo, e caiu ao chão.
Arte de Jason A. Engle
Chandra não ouviu o som que fez naquele momento. O mundo tornou-se envolto em vapor e fumaça, e uniformes de soldados. Não sentiu o tilintar dos grilhões ao redor de seus pulsos, os delicados laços de filigrana de cobre que prendiam como ferro pesado. Não sentiu o pacote de ventilação expelindo vapor. Não sentiu a si mesma sendo conduzida para a belonave, atravessando o limiar e sendo colocada em seu assento, agarrando o xale da mãe. E não viu as colunas de fumaça subindo da aldeia enquanto a belonave subia e virava a proa em direção a Ghirapur. Só via o pai desabando na lama, repetidas vezes, e ouvia o suspiro desanimado de seu último fôlego escapando dele.
O carrasco era alto e largo; seu rosto estava oculto por um capuz com uma máscara de filigrana. Mais relevante para a situação de Chandra era que seu antebraço terminava em uma lâmina de corte maciça. Poderia ter sido encaixada sobre uma mão, mas para Chandra parecia enxertada, fundida em toda a vestimenta mortal do papel do carrasco. Ele caminhava em círculo ao redor de Chandra, traçando o perímetro do estrado central da arena. Era a Akhara, o mesmo pátio que Chandra cruzara ao fazer sua entrega fracassada há apenas algumas semanas. Agora os patamares estavam cheios de pessoas reunidas para assistir ao espetáculo sombrio.
Olhou para baixo, para os grilhões delicados que mantinham seus pulsos firmemente no lugar. Suas mãos não pareciam as armas de uma piromante, mas como as mãos comuns de uma criança.
Um locutor atarracado em um robe de seda leu sua sentença em uma voz estrondosa. "Por crimes contra o bem público, destruição da honrada Fundição de Ghirapur, e pelas mortes de três pessoas no incêndio na aldeia de Bunarat, esta cidadã foi sentenciada a encontrar a lâmina da justiça."
Enquanto ele lia, Chandra tentava reunir seu fogo. Mas ele não vinha. Conseguia sentir algo pressionando-a, amortecendo qualquer fogo que pudesse reunir. Ainda usava o pacote de ventilação nas costas, agora repousando logo acima do xale da mãe. O pacote não estava sibilando. Sua raiva se fora, junto com o pai. Chandra buscou na multidão qualquer sinal da mãe — se estivesse viva, sem dúvida estaria ali, tentando impedir aquilo, tentando salvar a filha. Mas nada interrompeu o discurso do locutor, o que tornou claro para Chandra. A mãe devia estar morta também.
Nada lhe restava. Talvez fosse apenas correto que o carrasco tirasse sua vida.
"Hoje todos aprendemos uma lição difícil sobre os limites da compaixão e a importância da vigilância", continuou o locutor. "Hoje aprendemos que, para alguns, nenhuma quantidade de direção, nenhuma quantidade de orientação moral pode ser suficiente. Alguns nascem com a destruição embutida em seu interior e, para o bem de todos nós, estes devem ser eliminados."
Talvez ela não devesse continuar. Talvez nunca tivesse sido destinada a ser a melhor em nada. Talvez fosse apenas uma aberração afinal, um monstro com um "dom" que só causava dor aos que a cercavam. Talvez ninguém pudesse confiar nela, amá-la por quem ela era. Talvez devesse apenas baixar a cabeça e aceitar seu destino.
Algo na multidão chamou sua atenção. Era a Sra. Pashiri, seu contato da fundição. A Sra. Pashiri assentiu para ela na multidão, sua boca uma linha fina e tensa, seus olhos nublados com lágrimas desafiadoras. Lentamente, a Sra. Pashiri ergueu a mão. Seus dedos fecharam-se em um círculo junto à testa — o sinal dos Nalaar, como uma pantomima dos óculos de solda de seu pai, executada como uma saudação.
Os punhos de Chandra cerraram-se. O pacote de ventilação sibilou, depois apitou como uma chaleira de chá. Manteve os olhos fixos na Sra. Pashiri, naquele gesto, naquele respeito por quem ela era. Ela era uma Nalaar. Era Chandra Nalaar.
"A existência contínua desta cidadã coloca todos nós em perigo", disse o locutor. "Então, pelo bem de todos nós, ela cumpre as demandas da justiça. Portador da Lâmina, por favor, dê um passo à frente."
Enquanto o carrasco dava três passos ritualizados em direção a Chandra, a lâmina deslizou para fora de seu braço, dobrando seu comprimento mortal. Todo o corpo de Chandra tencionou-se. O apito do pacote de ventilação tornou-se um borbulhar conforme algo fervia dentro dela.
Arte de Lius Lasahido
O carrasco aproximou seu rosto mascarado do de Chandra. "Sei que você está tentando, piromante", disse ele em um sussurro rouco.
Chandra arrancou os olhos da Sra. Pashiri e olhou diretamente para a máscara dele, com os dentes cerrados. Reconheceu a voz instantaneamente. "Baral."
Conseguia ver os olhos de Baral através da filigrana da máscara, e seu olhar era totalmente frio. Sentia o peso da presença dele sobre ela, a pressão de sua antimagia.
"Você e eu não somos os únicos magos que este mundo já viu", sussurrou ele. "Mas serei o último que você conhecerá." Inclinou-se para trás dela lentamente, deixando a lâmina girar para fora e para cima para toda a multidão ver.
Chandra focou na Sra. Pashiri na multidão. A velha senhora nunca baixou a mão. Os pulsos de Chandra forçavam as restrições, mas ela não conseguia se mover. Aquele era o seu momento final.
Baral ergueu a lâmina ao alto. Chandra ouviu o locutor dar a ordem: "Golpeie".
Cada um de seus músculos tencionou-se. Ela buscou em seu interior, agarrando-se a algo, qualquer coisa — e encontrou a mariposa de fogo, suas asas brilhantes esvoaçando. Era uma fonte de luz minúscula, porém rebelde, inabalável, não apagada. Era ela, percebeu — uma manifestação de seu dom, mas também uma manifestação de si mesma. Ela era o seu fogo, e seu fogo era ela. Sentiu uma pequena parte do que significava ser uma piromante, do que significava estar viva, do que significava ser Chandra.
Num instante lento, a lâmina descreveu um arco no ar em direção ao seu pescoço. Chandra sentiu a sensação de formigamento lavá-la como uma onda de brasas. Sua visão tremulou nas bordas, borrando Baral e o locutor e tudo ao seu redor. A arena e a multidão deformaram-se em uma névoa derretida. Sentiu o vapor borbulhante de seu pacote de ventilação tornar-se um líquido incandescente, mal ciente de que o pacote derretera em escória, gotejando por sua perna e queimando o estrado de pedra.
Arte de Eric Deschamps
Suas mãos pegaram fogo, derretendo instantaneamente as restrições. Seus braços pegaram fogo. Seus ombros e torso pegaram fogo. Ela virou o rosto, mas a chama espalhou-se pela sua face. Seu cabelo tornou-se um incêndio de incandescência. Seus olhos arderam, tornando-se orbes em brasa em suas órbitas.
Ela soltou um grito de fúria, e o grito tornou-se uma explosão. Uma cascata de fogo irrompeu dela, envolvendo o estrado, envolvendo seus captores, envolvendo o mundo inteiro. Tudo o que conseguia perceber estava banhado em fogo.
Segurou seus braços em chamas sobre sua cabeça em chamas, e apertou seus olhos em chamas. Seus ouvidos zumbiram, ensurdecidos e rugindo ao mesmo tempo. Um momento ou uma eternidade passou. Num momento pensou ouvir os gritos de Baral, e no seguinte teve a sensação de ser soprada como uma vela, ou de atravessar um tornado e sair do outro lado.
Quando abriu os olhos, a fumaça de sua explosão ainda encobria o mundo ao seu redor. Suas roupas fumegavam, e seu pacote de ventilação sumira. Quando ouviu vozes de pessoas aproximando-se, preparou mais fogo, pronta para lançá-lo contra seus captores mais uma vez. O fogo veio a ela prontamente, como um aliado de confiança.
A fumaça dissipou-se o suficiente para ela ver as pessoas que se aproximavam. Não pareciam executores dos cônsules, nem como ninguém que ela já conhecera: altos e nobres, vestidos como monges, com cinzas riscadas nos rostos como máscaras ornamentadas. Atrás deles erguia-se o topo de uma colina de rocha toscamente esculpida, com escadas levando a um arco monumental que entrava na montanha. Arquitetura de pedra escarpada florescia da montanha, iluminada por trilhas de fogo sem braseiros, e o ar cheirava a gases quentes e terra assada.
A arena não estava em lugar algum. Toda a cidade, seu mundo inteiro a abandonara — ou ela o abandonara.
Chandra balbuciou de terror. Os monges estenderam as mãos para ela em um gesto calmante, e um deles disse algo em tom suavizante.
Então ela convocou sua vontade e atingiu a todos com fogo. Lógica do fogo.
De algum modo, porém, o funil furioso de chamas não os feriu. Um dos monges ergueu a mão e o fogo dela amainou, atenuando-se e tornando-se um anel brilhante e quente que cercava a ela e a eles juntos. O monge assentiu para ela.
"Saudações, piromante", disse o monge. "Você é bem-vinda aqui."
Arte de Eric Deschamps
17 de Junho de 2015 | Por James Wyatt
A Origem de Liliana: O Quarto Pacto
Arte de Chase Stone
O Presente do Homem Corvo
Um homem morreu em algum lugar próximo — perto demais — gastando seu último fôlego em um grito inarticulado que apenas seu assassino e Liliana Vess puderam ouvir. Liliana apressou-se para longe do som, colocando tantas árvores retorcidas entre si e o assassino quanto pôde.
Ela crescera percorrendo as trilhas e caminhos da Floresta de Caligo e os conhecia tão bem quanto qualquer um — certamente melhor do que qualquer um dos soldados que lutavam e morriam sob seus galhos agora. Mesmo à noite, o bosque parecia um lar para ela, com corujas e rouxinóis chamando suavemente entre os ramos escuros. Mas naquela noite a floresta tornara-se um campo de batalha, e os únicos chamados eram os gritos dos moribundos e o grasnido áspero de corvos brigando pela carne dos mortos.
Arte de Karla Ortiz
Ela parou e ouviu, apurando os ouvidos para qualquer som de perseguição, alguma indicação de que fora detectada. Nenhum soldado humano vinha atrás dela, ela tinha certeza — apenas um corvo saltitando e esvoaçando de galho em galho atrás dela, esperando que ela morresse.
"Não hoje à noite, pássaro", sussurrou ela. "Josu depende de mim."
O pensamento de seu irmão — delirante com febre enquanto jazia à porta da morte na casa de seu pai — apressou seu passo, e logo os sons de batalha desapareceram atrás dela. Se mais ninguém ousaria enfrentar a floresta para encontrar a raiz de esis que o curaria, então Liliana o faria.
"Estou pronta", disse ela ao pássaro. "Vou fazê-lo melhorar, e juntos esmagaremos esses incursores."
O corvo grasnou.
"Não ria de mim." Ela abaixou-se ao chão e pegou um seixo para atirar nele, mas quando ergueu a cabeça o pássaro sumira.
Em seu lugar estava um homem, suas feições ocultas nas sombras de seu casaco com capuz. Ela atirou o seixo de qualquer forma; ele bateu no ombro dele e caiu de volta ao chão. Ele puxou o capuz para trás enquanto Liliana tateava a faca em seu cinto.
Ele era alto e tinha um ar nobre, vestido com um traje de preto e ouro que não mostrava sinais de sua passagem entre as árvores e silvas. Cabelos brancos coroavam sua cabeça, despenteados pelo capuz, mas o cabelo em suas têmporas era preto e puxado para trás sobre as orelhas. Seus olhos — estranhamente dourados, como o bordado em suas roupas — captaram e prenderam o olhar dela.
"Não estou aqui para lhe fazer mal, Liliana Vess", disse o homem.
"Você conhece o meu nome", disse ela, agarrando sua adaga. "De algum modo isso não me inspira confiança."
Ele ergueu as mãos vazias. "Seu pai é nosso senhor e general. É claro que eu a conheço."
"Você esteve me seguindo?"
"Como você, prefiro me esconder no bosque a acabar como um cadáver sem cabeça arrastado atrás dos cavalos dos inimigos de seu pai, minha pele esticada sobre seus escudos e meu crânio dançando entre as árvores."
Arte de Chris Rahn
Enquanto ele falava, Liliana pensou ouvir batidas de cascos à distância. "Tenho que ir", disse ela.
"Mas para onde você irá?"
"A clareira..."
"Onde a raiz de esis costumava crescer?"
Ela franziu a testa. "Como você sabia... espere. 'Costumava crescer'?"
"Você não sabe? Eles a queimaram."
"Os incursores?"
"As bruxas-de-pele deles queimaram. É um círculo de cinzas agora, onde entoam seus ritos e erguem mais soldados para lutar contra seu pai."
"Não", disse Liliana.
Virando as costas para o homem estranho, ela correu, indiferente ao ruído que fazia ao rasgar arbustos e tropeçar em raízes. Sentiu o cheiro de fumaça muito antes de alcançar a clareira, e parou seu ímpeto quando viu a luz de brasas reluzentes.
As asas de um corvo bateram no ar atrás dela, e ela se virou. O homem de olhos dourados estava ali, olhando para o chão.
"Tanta morte", disse ele.
Liliana baixou o olhar e sobressaltou-se em surpresa quando seus olhos encontraram os de um homem morto caído a seus pés. Cadáveres cobriam o chão — soldados com as cores de seu pai, preto e ouro. Alguns apertavam ferimentos horríveis, alguns carregavam queimaduras terríveis, e alguns estavam sem cabeça, sua pele esfolada de sua gordura e músculos reluzentes pela magia negra das bruxas-de-pele. Nem uma única ave carniceira voava entre eles.
"E sem a raiz de esis", disse o homem, "seu irmão será o próximo".
"Não!", gritou ela. "Não vou deixar isso acontecer."
"Não, você não vai." A certeza constante de sua voz apenas exacerbou o pânico que batia no peito de Liliana.
"Tem que haver outro caminho", disse ela. "Mais raiz de esis... outra clareira."
"Você sabe que não existe outra clareira."
"O que você está dizendo?" Liliana lutou contra o impulso de esbofetear o homem enfurecedor. "Você conhece outro caminho para salvar Josu? Qual é?"
O homem apontou na direção da clareira. Ela virou-se e olhou para as árvores, onde um brilho tênue de brasas ardia na escuridão.
A voz dele estava bem atrás dela, seu hálito em sua orelha: "Você sabe".
Mas ela não sabia. Por anos estudara fielmente ao lado de Lady Ana, memorizando as propriedades curativas de raízes e ervas, aprendendo os sinais e sintomas de centenas de doenças e o melhor tratamento para dúzias de tipos de ferimentos. A raiz de esis era a única cura possível. "Você disse que a clareira fora queimada, a raiz sumira."
"Você sabe mais do que isso."
Todos os seus estudos, suas lições, a rotina diária de esmagar ervas e misturar poções — nada mais sugeria uma cura possível.
"A menos que...", murmurou ela.
"Você sabe."
É claro! Ela quase saltou com o pensamento inesperado. Ao longo dos anos, expandira seus estudos além do que Lady Ana podia ensinar, aventurando-se em magia que adotava uma abordagem mais... direta sobre a vida e a morte. Tudo a serviço de seu trabalho como curandeira, é claro. Conhecia magia que poderia transformar até uma raiz de esis queimada e murcha em uma cura para Josu. Ao menos em teoria.
Arte de Bastien L. Deharme
Mas como ele sabia disso?
"Não estou pronta", disse ela. "Tenho muito mais para aprender."
"Tenho certeza de que Josu esperará enquanto você completa seus estudos."
Liliana praguejou violentamente sob a respiração e afastou-se do homem, dando alguns passos mais perto da clareira queimada.
Ele a seguiu, falando diretamente em seu ouvido. "Você não pode se dar ao luxo de esperar, Liliana Vess. Você já sabe o suficiente. Você já é uma grande maga, embora não admita para si mesma. E será ainda maior, uma vez que abraçar seu poder."
Seu pânico estava mudando, transformando-se em um ímpeto inebriante de empolgação. Ela era poderosa, mas sempre escondera seu conhecimento proibido, temendo a censura. Abraçá-lo, que se danem as consequências — ela tinha que admitir que, como outras coisas proibidas, deleitar-se em seu poder parecia divertido.
Ela girou em direção a ele, plantando uma mão no peito dele e empurrando-o para trás. "Como você sabe tanto sobre minha magia?" Ela sentia a magia surgir dentro de si, o calafrio agudo da aproximação da morte.
"Suponho que ambos sejamos mais do que parecemos", disse ele.
Liliana sempre soubera: ela era mais, muito mais do que qualquer um jamais vira nela antes. E agora ela provaria. Sentiu algo dentro de si libertar-se, como uma flor escura desabrochando em um pântano profundo. Feitiços vieram à sua mente, tecendo-se em um plano desesperado e aterrorizante.
"Sim", disse o homem. "Você vê agora. A raiz de esis é uma cura poderosa, mas era o curso seguro. Você conhece um mais poderoso."
Ela conhecia, percebeu com surpresa. Estendendo seus sentidos, sentiu o poder que fermentava em toda a podridão e decomposição do brejo próximo. Atraiu o mana para si com um sorriso sombrio, apenas vagamente ciente de que o homem estranho desaparecera novamente.
A cada passo à frente, o poder que se libertara dentro dela parecia desabrochar um pouco mais, solidificando sua determinação. Ele a impelia, instando-a a abraçar sua força. Uma dúzia de passos a tirou do abrigo das árvores e a levou para a clareira.
Era agora um círculo detonado de cinzas com brasas em brasa em um anel ao redor da borda. O terror lutava com a fúria em seu coração ao absorver a cena, lembrando-se da clareira pacífica que um dia fora. Três crones murchas estavam de costas umas para as outras no centro, de olhos fechados enquanto enviavam seus feitiços voando pelo bosque para os campos de batalha nas terras de seu pai. Três sentinelas fantasmagóricas — crânios macabros com pedaços de carne pendentes, luz púrpura doentia brilhando em suas órbitas vazias — flutuavam ao redor da periferia.
Seis inimigos, e Liliana estava sozinha. Mas a vida de Josu dependia dela, e o poder desabrochando em seu interior era mais que suficiente.
"Olá, senhoras", arrulhou Liliana.
Um dos crânios flutuantes balançou em sua direção, um grito fantasmagórico subindo de sua boca escancarada e sem carne. Ela respondeu com um cântico próprio, uma sequência de sílabas baixas que ecoaram no ar morto. Uma faca de negrume absoluto disparou de seu dedo estendido e atravessou o crânio, cortando a energia necromântica que lhe dava o simulacro de vida, e ele tombou ao chão.
As bruxas-de-pele abriram seus olhos brancos como leite e voltaram-se para ela como um só.
Duas vezes mais, Liliana apontou, e os dois crânios restantes caíram nas cinzas, levantando pequenas nuvens onde pousaram.
"Acho que vocês precisam de alguns guarda-costas mais fortes", disse ela. Sua confiança estava crescendo, substituindo seu medo por uma determinação fria. Ela era boa nisso, percebeu. Era tão fácil, uma vez que o abraçava. Muito mais fácil do que seus estudos monótonos com Lady Ana. E a sensação era boa!
As bruxas-de-pele iniciaram um cântico, suas três vozes falando como uma só, e a dor dançou sobre Liliana como garras traçando marcas em sua carne.
Ela gritou.
Mas transformou seu grito em outro feitiço, usando a dor para focar sua mente. O feitiço rolou de sua boca como o dobrar de um sino, e um calafrio mortal suavizou sua pele ardente conforme sua magia tomava forma. Três mãos espectrais flutuaram do solo aos pés das crones, deixando rastros de sombra como braços fantasmagóricos.
Arte de David Palumbo
Agora era a vez das bruxas uivarem de dor conforme as mãos desapareciam em seus peitos e emergiam de suas costas, agarrando motes brilhantes de luz dourada. Seus gritos transformaram-se em gemidos patéticos enquanto afundavam ao chão, agarrando seus peitos com a pouca força que o feitiço de Liliana lhes deixara. Uma bruxa-de-pele estendeu uma mão em direção a ela e murmurou algo que poderia ser um feitiço, mas Liliana nada sentiu.
As três mãos espectrais convergiram num ponto perto dos pés de Liliana e mergulharam de volta na terra com seus prêmios. Com um esgar, Liliana começou a baixar-se, mas o grasnido áspero de um corvo atrás dela a sobressaltou e ela girou. Um dos cadáveres que vira fora da clareira estava de pé agora, vindo em sua direção com passos arrastados.
"Então você lançou um feitiço afinal", gritou ela para a bruxa-de-pele atrás dela. "Um esforço valente, mas acho que foi o seu último."
Com uma respiração profunda, ela focou sua vontade e simplesmente apagou o simulacro de vida que animava a carne do zumbi. Atrás dela, a bruxa soltou um grito sufocado.
Liliana olhou para baixo para o corpo do soldado, sua armadura rasgada e seu uniforme manchado de sangue. "Tanta morte", disse ela. Ergueu os olhos e encontrou o olhar do corvo empoleirado acima dela. "E isto é apenas o começo."
Aos seus pés, um brilho dourado emergiu das cinzas onde as mãos espectrais haviam afundado. Caindo de joelhos, mergulhou sua própria mão na terra e agarrou seu prêmio. Quando ergueu a mão, ela apertava um pedaço murcho e enegrecido de raiz de esis, brilhando suavemente em ouro. Aquilo daria uma poção muito mais poderosa do que o que planejara originalmente, infundida com a vida que roubara das bruxas-de-pele. O homem tivera razão — ela soubera o que fazer. É claro que soubera.
Aninhando a raiz contra o peito, caminhou de volta para a floresta em direção à casa de seu pai.
Sorriu para o pássaro ao passar por ele. "Obrigada, Homem Corvo."
A raiz de esis enegrecida rendeu uma poção que brilhava em ouro como o amanhecer aquecendo a neblina matinal, tranquilizando Liliana sobre o poder vivificador que continha. Ela a embalava nas palmas das mãos enquanto flutuava pelo clamor da casa, contemplando a luz que viera de sua magia negra. Os servos curvavam-se e recuavam conforme ela se aproximava, mas rapidamente retomavam seus gritos e correrias atrás dela.
"Água fria!"
"Linhos novos!"
"Onde está aquele caldo?"
"Água!"
Ela ignorou todos os gritos, convencida de que o elixir que carregava logo traria um fim a toda a preocupação e comoção.
"Lady Liliana retornou!" um servo gritou à frente dela, e finalmente ela olhou para cima.
Estava no corredor do lado de fora do quarto de Josu. Em resposta ao grito do servo, Lady Ana saiu do quarto e colocou as mãos nos quadris, franzindo a testa para o frasco nas mãos de Liliana.
"Isto não é raiz de esis", disse a curandeira.
Liliana parou, sua confiança vacilando diante de sua mestra imperiosa. Mas então ouviu Josu clamar no quarto — "Crânios! Crânios flutuando entre as árvores!" — e lembrou-se do que passara para fazer a poção e do que estava em jogo. Endireitou as costas e encontrou o olhar imperioso de Lady Ana.
"É melhor", declarou ela.
Ana desdenhou. "Eu serei a juíza disso. Como você a fez? Quais são os componentes?"
"Este não é momento para um exame. Josu está morrendo!"
"A administração de curativos não deve ser apressada", disse Ana, cruzando os braços sobre o peito. "Algumas poções podem causar mais mal do que bem." Seus olhos desceram para o frasco nas mãos de Liliana e seus lábios se contraíram.
"As bruxas!", Josu gritou da cama. "Não, não, as chamas!"
"Fiz a partir de raiz de esis", disse Liliana, "mas a aprimorei".
"Aprimorou? Como?"
"O ardor!", Josu estava gritando, e Liliana ouvia o burburinho de servos tentando acalmá-lo, esfriar sua febre, trazer alguma medida de alento ao seu tormento.
"Afaste-se, Lady Ana", disse ela. "Josu precisa beber isto. Agora!"
Ana empertigou-se, o rosto avermelhando. "Uma aprendiza não se dirige à sua mestra dessa forma."
Liliana respirou fundo, firmando-se. Não era apenas poder desabrochando dentro dela — ela estava se abrindo, sua mente expandindo, seu verdadeiro eu vindo à tona. Este era o seu momento. A vida de seu irmão pendia na balança. Sabia o que precisava fazer.
"Então é hora de minha aprendizagem chegar ao fim", disse ela. "Seu poder não é páreo para o meu de qualquer forma."
"Poder? As artes de cura não são sobre poder."
"Você não acha?" Liliana riu. "Fique para trás e observe."
Ela empurrou a curandeira para o lado e entrou no quarto do irmão, caindo de joelhos ao lado de sua cama.
"Fique longe do meu paciente!", Ana disparou.
Por todos os longos anos de sua aprendizagem, aquela voz comandara obediência instantânea, e Liliana quase recuou por puro reflexo. Mas Josu agarrou a mão dela e olhou para ela — não, através dela — e tudo o mais desapareceu.
"Josu?", murmurou ela. "Pode me ouvir?"
"As bruxas", disse ele. Não mais gritando, soava como uma criança assustada. "Elas arrancaram a pele..."
Liliana ergueu seu frasco brilhante, e sua luz dourada cintilou nos olhos de Josu enquanto ele o encarava. "Beba isto, Irmão." Ela o levou aos lábios dele. "Lhe trará descanso."
"Não!", Lady Ana fez um último protesto, mas tarde demais.
Arte de Izzy
A poção encheu a boca de Josu, e uma gota dourada e reluzente escorreu por seu queixo. Por um momento o medo contorceu seu rosto e Liliana temeu que ele pudesse cuspir o líquido precioso, mas então ele engoliu, e novamente, e mais uma vez. Então seus olhos se fecharam e ele acomodou-se em seu travesseiro.
Seu único movimento era o subir e descer lento de seu peito conforme respirava. Liliana afastou o cabelo de sua testa suada, e o esboço de um sorriso surgiu nos cantos de sua boca.
"Liliana", suspirou ele.
Atrás dela, uma das servas soltou um arquejo sufocado. "Ele a conhece!", disse a mulher.
Lady Ana resmungou. "Tudo bem. Você acalmou o sono dele. Agora pode me dizer..."
"Lili!", gritou Josu. Suas pálpebras abriram-se revelando dois orbes negros como azeviche. Por um instante, ela viu seu rosto refletido neles, mas morto — seus próprios olhos apodrecidos, sua pele esticada sobre seus ossos.
Ele ficou rígido, seus olhos vazios encarando o teto. Liliana notou uma mancha enegrecida em seu lábio — onde sua poção escorrera de sua boca. Enquanto observava, ele pareceu encolher. Seus olhos afundaram de volta no crânio e sua pele pálida tornou-se cerosa e tensa. Suas maçãs do rosto saltaram do rosto e seus lábios retraíram-se para longe dos dentes.
"O que você fez, criança?", sussurrou Lady Ana. Ela empurrou Liliana para o lado e inclinou-se sobre a forma imóvel de Josu.
Liliana derivou para o pé da cama, sua mente cambaleando enquanto olhava para baixo para o irmão. O que ela fizera? A poção — sua poção, preparada por sua habilidade e sua magia — não o curara de forma alguma.
O matara. Todos os seus esforços... e o resultado fora pior do que se ela não tivesse feito nada.
Muito pior.
Lady Ana levantou-se da cabeceira, o rosto grave, e começou a enxotar os servos do quarto. Liliana sentou-se na beira da cama ao lado do irmão, apertando sua mão fria e rígida entre as suas como se pudesse restaurar seu calor.
Então a mão dele arrancou-se de seu aperto e agarrou a garganta dela. Unhas afiadas morderam sua pele.
"Tanta dor...", disse Josu.
Ele sentou-se, trazendo seu rosto para junto do dela. "Para onde você me enviou?", perguntou ele.
O ar fétido de seu hálito ardeu em suas narinas enquanto ela lutava para inalar, tentando arrancar os dedos dele de seu pescoço.
"Tanta... dor!", gritou ele, e arremessou Liliana contra a parede. Ela desabou no chão enquanto Lady Ana gritava.
"Josu", sussurrou Liliana, "sinto tanto".
"Sente!", ele cambaleou de pé e investiu contra ela. "Você me amaldiçoou, Irmã!" Encarando-a, ele levou seus dedos em forma de garra ao próprio pescoço. "Amaldiçoou-me ao tormento eterno!" Cravou as unhas no pescoço e no peito, rasgando pele e pano... mas nem uma gota de sangue brotou nos cortes. "Tormento!"
Arte de Izzy
Apoiando-se na parede, Liliana lutou para se levantar, afastando-se dele. Mas apesar da rigidez de seus membros, ele era rápido, e pegou o pescoço dela na mão novamente, pressionando-a contra o reboco.
"Deixe-me ajudá-lo, Josu", implorou ela. "Volte, volte e consertaremos isso."
"Ajudar-me?" A voz dele era um sussurro rosnado em seu rosto. "Estou perdido no Vazio, Lili. Perdido! Então por que ainda permaneço aqui?"
"Não sei, Irmão. Não sei. Mas vamos consertar. Confie..."
Ele apertou o aperto e cortou as palavras dela. "Confiar em você? Confiar em você? Não!"
"Solte-me", grasnou ela.
"O Vazio terá você, Lili. Sua fome nunca morrerá. Terá a nós dois."
"Solte-me", disse ela novamente. Seu terror e luto arderam, deixando apenas raiva fria. Memórias das árvores cobertas de musgo, ar úmido e água fétida no coração de Caligo passaram por sua mente enquanto o mana fluía para dentro dela, gelando seu sangue e eriçando sua pele.
"Nunca a soltarei, irmãzinha. Não mais. Estaremos juntos, você e eu. Unidos nesta agonia eterna!"
"Solte!" A fúria de Liliana irrompeu em uma explosão de negrume vívido entre eles, enviando Josu estatelado sobre a cama enquanto o reboco rachava e esfarelava em suas costas. As sombras dançaram pelo corpo dele e depois desapareceram, infiltrando-se em sua pele pálida. Ele ficou de pé novamente, não tão rigidamente, e a encarou.
"Então minha doce irmãzinha se aventurou na necromancia", disse ele. "E me transformou nisto!" Estendeu a mão em direção a ela, e uma fonte de sombras voou das pontas de seus dedos.
Ela ergueu as mãos para se proteger, e as sombras a perfuraram, dilacerando sua alma e chocando-se contra a parede atrás e ao redor dela. Embora a deixasse amargamente fria, o feitiço de Josu não a feriu tanto quanto danificou a parede. Como o suporte em suas costas virou cinzas, ela tropeçou e caiu em meio aos escombros.
Liliana estava vagamente ciente do caos que irrompia ao redor deles, a equipe da casa gritando, correndo, gemendo de dor ou chorando de luto. Como tudo deu tão errado?, perguntou-se. Ela se deleitara no poder desabrochando em seu interior, mas agora ele parecia colapsar sobre si mesmo, deixando um vazio desolador.
Não, pensou ela. Tenho que consertar isto.
Escalando para trás conforme ele marchava novamente em sua direção, tentou pensar em um feitiço que pudesse desfazer o que fizera, de algum modo pegar seu simulacro retorcido de vida e inflamá-lo em vida verdadeira novamente. No meio tempo, porém, tinha que mantê-lo longe dela. Lançou feitiço após feitiço contra ele, rajadas de negrume e garras de sombra que agarravam. Repetidas vezes ele uivou de dor, lançando um fluxo interminável de invectivas contra ela. Em vez de parar seu avanço, porém, seus feitiços pareciam torná-lo mais forte.
O que fazia sentido, percebeu ela. A magnitude das mentiras que contara a si mesma tornou-se clara. Todo aquele tempo, acreditara que estivera estudando necromancia de seus livros secretos e fazendo pesquisas sombrias para ajudar suas artes de cura. Que poderia voltar o poder da morte para o serviço da vida e da saúde. Que uma curandeira deveria usar cada ferramenta à sua disposição. Mas Josu era o resultado, uma fusão horrível de vida e morte, e todos os seus feitiços destinados a manipular a força vital dos vivos nada podiam fazer para ferir os mortos.
E Josu retribuía cada feitiço com um próprio, esmagando paredes e estilhaçando janelas. Rajadas perdidas, desviadas de seus alvos pretendidos, atingiam servos e murchavam sua carne, derretiam seus ossos ou consumiam suas almas.
Tanta morte, pensou ela. E a menos que eu pense em algo logo, sou a próxima.
O assalto implacável de Josu estava cobrando seu preço. O mana que a preenchia e alimentava sua magia parecia amortecer o efeito dos feitiços dele sobre ela, mas não era um escudo perfeito. Suas mãos estavam frias, seus membros rígidos e seus pensamentos lentos conforme a magia da morte drenava sua força, corpo e alma.
Josu — a coisa que fora Josu — estendeu as mãos e a sombra a engolfou. Garras de negrume a agarraram, erguendo-a do chão e arrebatando os motes de vida e força que restavam em seu corpo. Ela sufocou quando sombras alcançaram sua boca, confiscando o próprio fôlego de seus pulmões. Sentiu-se fria como a própria morte, sufocando como se tivesse sido enterrada viva, presa no aperto de torno do feitiço do irmão.
Ele estava parado bem à sua frente agora, olhando nos seus olhos, suas mãos em forma de garra erguidas como se elas, e não seu feitiço, a estivessem segurando no ar e espremendo a vida dela.
"Junte-se a mim, Lili", disse ele. "Todo o tormento do Vazio será nosso para partilhar para sempre."
Seus olhos imploraram a ele, mas nem um vislumbre de compaixão iluminou seus orbes negros sem vida. Finalmente ela fechou os olhos, incapaz de olhar para o horror que criara. A morte fechou o cerco sobre ela e sua cabeça girou.
Então, em seu momento de desolação absoluta, algo dentro de Liliana pegou fogo, uma centelha de negrume infinito, ao mesmo tempo mais fria que o aperto da morte e mais quente que o sol, escura e infinita como o Vazio mas eternamente viva, uma infinidade de possibilidades, o próprio poder da criação... e da aniquilação. Ela agarrou-se a esse novo poder, agarrando-se a esse último fiapo de esperança.
Sua alma ardeu em agonia deliciosa, e a magia de Josu dissipou-se, incapaz de contê-la mais. Ela abriu os olhos e viu Josu recuando dela, seu rosto encolhido contorcido em choque.
Ela estendeu as mãos para os lados e os cadáveres espalhados pelos escombros levantaram-se, servos sob seu comando mais uma vez. A turba de zumbis lançou-se sobre Josu, engoliu-o e o sobrepujou.
Arte de Izzy
Enquanto Josu lutava contra a pressão da carne morta-viva, algo a puxou por trás. Girando, viu as ruínas da casa de seu pai mudarem. As paredes torceram-se e abriram-se, formando troncos de árvores escuros sob um manto de folhas pretas. Nuvens de poeira tornaram-se neblina ondulante, e o chão coberto de escombros transformou-se em solo pantanoso salpicado de folhas mortas e raízes nodosas. Seus pés não se moveram, mas ela sentiu que estava sendo atraída por eternidades indescritíveis, arrancada do mundo que conhecia e lançada em um mundo inteiramente diferente.
Então seu lar sumira, Josu sumira, os zumbis, tudo o que conhecia sumira, e ela desabou de joelhos no solo pantanoso.
Mais de um século depois, uma velha passou de um mundo para outro. Os anos eram um fardo sobre seus ombros tão pesado quanto seu luto.
"Você está atrasada."
A voz estrondosa a saudou antes que ela tivesse deixado o outro mundo totalmente para trás, e com seu primeiro passo no chão de mármore do grande salão, sentiu-o vibrar com o poder da voz.
"Ainda não", disse Liliana com um esgar. "Nunca estarei, se você puder me ajudar como promete." Encarando à frente a perspectiva da morte — uma morte tão mundana quanto se pudesse imaginar, definhando devido à idade — viera buscar o auxílio do único ser em todos os planos poderoso o suficiente para mantê-la à distância.
O chão tremeu novamente quando o dragão riu baixo, e Liliana virou-se para olhá-lo — virou-se, e ergueu a cabeça, e recuou para ver mais, e ainda assim a enormidade dele preenchia sua visão. Por mais vasto que o salão fosse, os grandes chifres curvados no topo de sua cabeça raspavam o teto e suas asas estendidas alcançavam as paredes de cada lado. Ela suprimiu uma careta — Nicol Bolas estava tentando intimidá-la, lembrá-la de quem detinha a vantagem nas negociações. Pior, estava funcionando.
"Posso ajudá-la, Liliana Vess", disse Bolas. "Mas a imortalidade está fora do alcance de todos nós, agora."
Arte de D. Alexander Gregory
"Diz o dragão de trinta mil anos." Liliana virou as costas para ele novamente, fitando suas mãos. Vincada e manchada pela idade, sua pele pendia frouxa em seus ossos. Mantinha-se tão ereta quanto conseguia, relutante em exibir a fragilidade de seu corpo na frente do poderoso dragão. Mas não era apenas seu corpo — sua alma era uma flor murcha, desprovida de esperança.
"Como caímos", disse ele. "Outrora, fomos deuses, operando nosso caos privado através de planos conhecidos e desconhecidos."
As palavras dele feriram. Eram Planinautas, não deuses, mas naqueles primeiros anos não houvera muita diferença. A centelha que se acendera em seu coração desbloqueara um poder maior do que ela jamais pudera imaginar, tornando-a imortal e virtualmente onipotente, colocando as fileiras intermináveis dos mortos firmemente sob seu comando. Percorrera os inúmeros planos do Multiverso por décadas, exercendo sua vontade, seus caprichos, em mundos que eram impotentes para resistir a ela. Apenas uma coisa, naquelas épocas, parecera fora do alcance de sua magia: desfazer o que fizera a Josu.
Então o Multiverso se remodelou, roubando dela — e de cada outro Planinauta — o poder divino que um dia empunharam. Alguns chamaram de Emenda, como se algo quebrado tivesse sido reparado, mas para Liliana, pareceu o oposto. Quebrou-a além de qualquer esperança de reparo. Passara décadas trabalhando para recuperar até mesmo uma fração do poderio mágico que perdera, e não era suficiente — não o suficiente para manter a morte à distância. Josu prometera que estariam juntos na morte, partilhando sua agonia eterna, e Liliana nunca deixaria que as garras gélidas da morte cumprissem aquela promessa.
"Você não caiu tanto", disse Liliana, incapaz de manter o amargor fora de sua voz.
"Você não me conheceu no meu auge. Perdi mais poder do que você poderia aprender em uma dúzia de vidas."
"Então me dê cem!" Liliana girou em direção a ele. "Olhe para mim, Bolas! Consigo sentir a morte respirando no meu pescoço."
"Talvez seja porque ela tem sido uma companheira tão próxima todos estes anos."
"Não uma companheira, uma ferramenta. Algo a ser infligido aos outros, não abraçado."
"Tenho certeza de que alguns de seus antigos professores discordariam." O chão estrondeou com a diversão do dragão novamente. "Certamente você aprendeu com os vampiros quando foi a Innistrad, estudou com liches — os mestres da necromancia. Eles fariam você abraçar a morte e mover-se além dela, não temer sua aproximação."
Enquanto Nicol Bolas falava, baixou a cabeça para mais perto da de Liliana e virou-se de modo que ela visse seu rosto refletido em um olho enorme e negro — enrugado e abatido, sua beleza desvanecida, o espectro da morte assombrando seus olhos, não muito diferente do que vira nos olhos mortos e negros de Josu todos aqueles anos atrás.
Liliana virou-se. Sou mais do que pareço, lembrou a si mesma.
"Uma rainha não governa seu povo sendo um deles", disse ela. "Se eu quisesse seguir aquele caminho, estaria em Innistrad agora mesmo, não aqui. Então, pode me ajudar ou não?"
"Como eu lhe disse, posso colocá-la em contato com os seres que podem ajudá-la."
"Quatro demônios, você disse. E o custo é minha alma, certo? Pagável após minha morte?"
"Não é tão simples assim."
"É claro que não." Liliana suspirou. "Nada é simples com você, é, Bolas?"
"Pelo contrário, muitas coisas que sua mente nem consegue começar a vislumbrar são bem simples para mim."
Ela bufou. "Sua modéstia é verdadeiramente arrebatadora."
"Uma simples afirmação de fatos, Liliana Vess. Afinal, você é meramente humana."
"'Outrora, fomos deuses.' Preciso desse poder de volta, Bolas. Poder e juventude e força. Mesmo que custe minha alma."
"Bom." O hálito do dragão estava perto, escaldando a nuca dela. "Mas uma alma não é uma bugiganga que você pode entregar a um demônio, ou uma brasa que ele pode agarrar após sua morte. Você entregará sua alma, sim — porque ninguém com um fiapo de alma poderia possivelmente empreender as tarefas que você realizará para pagar sua dívida."
Liliana tentou suprimir um estremecimento.
"Mas por que isso deveria incomodá-la", disse o dragão, "após tudo o que você já fez? Você estudou com os maiores necromantes em todos os planos. Massacrou anjos. E superou aquele que a iniciou neste caminho. Como você o chamava? O Homem Corvo?"
Liliana assentiu distraidamente, pensando em seu primeiro encontro com o Homem Corvo, todos aqueles anos atrás, e nos eventos terríveis que se seguiram. Ela o superara, como o dragão dissera, mas não o matara — ainda não.
"Talvez você já tenha entregado sua alma", disse Bolas.
A perspectiva a incomodava, Liliana percebeu com alguma surpresa. Bolas tinha razão. Desde seu primeiro encontro com o Homem Corvo na Floresta de Caligo, quando abraçara seu poder e o deixara guiá-la, sua vida fora um compromisso moral após outro, um declínio inexorável na escuridão. O que restava que a separasse dos piores vilões no Multiverso?
Apenas este momento, pensou ela, este único instante de hesitação.
Liliana virou-se e encarou o olho fixo do dragão. "Vamos acabar com isso."
Pela quarta vez, Nicol Bolas conduziu Liliana de seu grande salão de mármore a um plano que ela não reconhecia. Após forjar três pactos com três demônios diferentes, o poder corria pelo seu corpo — no entanto, ela ainda era uma boneca de pano nas garras do dragão.
E ela ainda estava velha.
O dragão depositou-a em outro grande salão. Chamas saltitantes enchiam um arco à frente dela, mas conforme Bolas se retirava, as chamas diminuíram e o quarto demônio surgiu — deslizou — para a vista. Em lugar de pernas, tinha uma cauda bulbosa que se arrastava atrás dele para dentro das chamas. Sua cabeça bestial projetava-se de seus ombros volumosos, dominada por um esgar de desdém que mostrava seus dentes afiados. Dois chifres, encimados por um adorno de cabeça elaborado, curvavam-se para os lados a partir de uma juba fulva. Asas coriáceas e esfarrapadas estendiam-se de seus ombros. E seus braços longos arrastavam garras afiadas quase até o chão.
Arte de Tianhua X
"Liliana Vess", disse ele, curvando-se para que seu hálito lavasse o rosto dela. Sua voz era um sussurro áspero, e uma língua de serpente chicoteou entre seus dentes enquanto ele prolongava o final do nome dela. "Sou Kothophed."
"E você conhece o meu nome, então suponho que este seja o fim das nossas gentilezas."
O demônio soltou uma risada curta. "De fato. E entendo que sou o quarto de seus patronos. Seus outros acordos atenderam às suas expectativas?"
"Estou satisfeita." Bolas a avisara para não contar a nenhum dos demônios sobre os outros, e ela tentava manter até o pensamento sobre eles longe da superfície de sua mente.
"Está? Devemos abrir mão de nosso arranjo, então? Você tem tudo o que desejava?"
Ela esgarrou. "Estou satisfeita com o benefício que colhi de cada acordo anterior, e tenho certeza de que estarei satisfeita com este quando estiver concluído."
"Oh, mas serei seu mestre mais exigente, Liliana. Tenho grandes coisas em mente para você. Então, se tiver a mínima hesitação, talvez queira reconsiderar. Você já ganhou uma grande quantidade de poder."
"Não é suficiente", disse ela. Bolas a avisara também de que se tentasse renegar uma barganha, os demônios estariam livres para matá-la, e mesmo com o poder que ganhara, duvidava que fosse páreo para Kothophed. Mana escuro irradiava dele como calor de uma fogueira.
"Tão faminta por imortalidade", disse o demônio, deslizando para frente e ao redor dela. "Mas você ganhou poder suficiente para sustentar sua vida por décadas ao menos, talvez um século. E poderia fazer o que quisesse com o Multiverso nesse meio tempo. Isso não é suficiente?"
"Manter a morte à distância pelo tempo que me resta? Não, não é o suficiente. Quero estar livre de sua sombra."
Como eu era antes de Josu, pensou ela. Jovem e viva e alegremente inconsciente do número de meus dias.
"Mas você já abraçou a morte", disse o demônio, agora atrás dela. "Você a tomou em sua alma, a costurou com sua centelha de Planinauta, a teceu em cada fiapo de poder mágico em seu interior. Ela projeta uma sombra muito longa sobre você, minha querida."
"A morte de todos, menos a minha própria", disse ela, mais para si mesma que para o demônio.
Enquanto falava, a sala derreteu ao seu redor e ela estava em uma planície estéril. Cadáveres cobriam o campo até onde a vista alcançava, e corvos saltitavam de corpo em corpo, escolhendo os pedaços mais saborosos.
"Sou a sua morte", sussurrou Kothophed em seu ouvido. "Mate-me, e você nunca morrerá."
Ela girou, um feitiço formando-se em seus lábios, mas o demônio se fora. Ouviu sua risada curta vindo de trás dela novamente, agora a dez metros de distância.
Liliana estendeu as mãos e pássaros pretos ergueram-se em uma tempestade de asas batendo conforme cadáveres por todo o campo de batalha cambaleavam de pé e se arrastavam em direção ao demônio. Kothophed examinou o campo como se contasse os zumbis, seu sorriso de chacal inabalável.
"Impressionante", gritou ele. Então duas chicotadas da cauda do demônio enviaram corpos — sem vida mais uma vez — voando em todas as direções.
"Apenas um aquecimento", gritou Liliana de volta, tentando esconder o medo. Bolas lhe dissera que os demônios haviam concordado em não matá-la, desde que ela mantivesse os termos da barganha. Mas Kothophed parecia ansioso para quebrar aquele acordo desde o início, e esta batalha não parecia um teste.
Meia dúzia de sombras, fiapos de escuridão irradiando um frio de congelar os ossos, varreram sobre o demônio, passando através de seu corpo mas emergindo de mãos vazias do outro lado. Uma sombra assim poderia matar um homem, capturando sua alma e deixando seu cadáver frio no chão, mas seis não tiveram efeito algum sobre o demônio.
À medida que Liliana encontrava o ritmo de sua conjuração, ela se elevou lentamente do chão cercada por uma Aura de sombra. Ela mesma agarrou a energia vital do demônio, tentando extrair poder dele para alimentar sua própria magia. Kothophed deslizou para mais perto dela em resposta à sua atração, e então uma onda de poder surgiu dele e a lançou para trás.
Onda após onda de sombras garras, zumbis cambaleantes e espectros em grandes asas sombrias responderam aos seus chamados frenéticos e investiram contra o demônio ao seu comando, apenas para caírem diante da cauda de Kothophed, suas garras em forma de espada ou suas mandíbulas trituradoras. Mas deram-lhe tempo — tempo para moldar um horror a partir dos ossos e carne dos caídos, um monstro cuspindo veneno com as garras sugadoras de alma de um espectro e a força bruta de um titã.
Por um momento, ela pensou que Kothophed estivesse de fato lutando com a criatura. O demônio lutou com ela, avançando mais perto de Liliana conforme os dois monstros se emaranhavam em uma confusão de membros, garras e presas. Mas conforme o demônio se aproximava, ficou claro quem estava no controle da luta. Kothophed agarrou o horror e arrancou seus membros, depositando-os aos pés dela.
Então ele a agarrou.
O hálito frio do demônio entorpeceu a pele dela. Suas garras morderam sua carne. Ele a segurava em uma mão imensa. Com a outra, desenhou uma garra desde o topo da cabeça dela até os dedos de um pé, cortando fundo, raspando contra o osso. Ela gritou.
Feita a incisão, o demônio descascou sua pele desgastada pela idade, puxando-a como o couro de um coelho. Mas o que Liliana viu por baixo foi um corpo mais jovem, untado de sangue mas flexível e liso. Kothophed a colocou de volta nos pés, e ela sentiu o mármore sólido sob si. O campo de carniçaria derreteu e ela estava novamente no salão colunado do demônio.
Olhou para baixo. Seu vestido preto permanecia no lugar. Mas sua pele, sua forma, sua postura eram as de seu eu mais jovem, bela novamente.
"O que", cuspiu ela, "foi aquilo?".
O demônio riu, longo e alto.
"Se isso era para ser um teste", disse ela, "então claramente eu falhei. Então por que ainda estou aqui? Por que pareço como pareço?".
O demônio sufocou o riso e baixou o rosto até que seus olhos amarelos fitaram os dela. "Não foi um teste. Foi uma lição — uma que confio que você nunca esquecerá."
Ele levou uma garra em direção ao rosto dela novamente e ela estremeceu em antecipação, provocando outra risada curta. "Fique parada", disse ele. "Não terminei minha parte da barganha."
O toque dele foi mais gentil, mas ainda assim agonizante, conforme traçava a garra em espirais pelo rosto dela. "Você é uma Planinauta", disse ele enquanto trabalhava. "Isso a torna especial. Você é também uma das magas mais poderosas em todos os planos, e isso a torna extraordinária."
Arte de Aleksi Briclot
Sim, pensou ela. Assim disse o Homem Corvo.
Terminado o rosto, Kothophed passou para o pescoço e ombros. "Mas perto de mim, você é nada. Seus feitiços mais poderosos mal puderam me tocar. Sua mente meramente humana nunca se equiparará à minha."
Pode continuar pensando isso, pensou ela através da dor. O demônio pretendera esmagá-la, mas o poder dentro dela estava desabrochando novamente, mais brilhante e forte do que nunca. Valia a agonia.
"Se algum dia você tiver a ideia de testar sua força contra a minha", disse o demônio, "eu a abrirei novamente. Mas desta vez, não haverá uma Liliana jovem e bela por baixo".
As linhas traçadas pela garra de Kothophed não sangraram, mas brilharam com luz violeta pálida como se o poder que lhe concediam estivesse transbordando. Apesar da agonia, apesar das ameaças do demônio, sentiu a sombra da morte recuar. Ela estava jovem e poderosa, e permaneceria assim por eras.
Ou até que os demônios viessem cobrar a dívida que ela devia.
Mas uma parte de Liliana sabia que Kothophed era quem deveria estar com medo. Ela era mais do que parecia, e o demônio a subestimara, como tantos outros antes dele. Era seu destino derrubar os demônios que a reivindicavam. Sabia disso, como se o conhecimento fizesse parte de sua carne. Como se Kothophed, sem saber, tivesse tecido esse destino em seu ser.
Sua família vivia quase no topo do anel de mago que os locais chamavam de Travessia de Silmot, em meio a um aglomerado de apartamentos onde os mineradores de mana mais pobres do anel faziam seu lar. Ele e sua família tinham que pagar para usar os elevadores precários ou subir penosamente vinte e três lances de escadas toda vez que voltavam para casa. O dinheiro era escasso, então Jace ia pelas escadas.
Vinte e dois lances de escada para trás. Falta um.
Arte de Chase Stone
Agora que estava tão perto, ele hesitou. Estaria em apuros, provavelmente assim que abrisse a porta, embora ainda achasse que não fizera nada de errado.
Idiota sem juízo.
Um brutamontes passou por ele por trás, empurrando-o.
Jace não pôde deixar de concordar com o sentimento.
Juro, esse moleque Beleren...
Jace finalmente chegou ao topo das escadas. Respirou fundo e entrou no apartamento.
Lar.
Com certeza, lá estava seu pai, sentado à mesa da cozinha, franzindo a testa. Gav Beleren, sujo e calvo, observava Jace com pouco mais do que cansaço.
Queria que ele fosse normal.
Os pensamentos de seu pai traçavam um caminho familiar.
"Recebi uma mensagem da escola."
Jace não se surpreendeu que a notícia tivesse chegado antes dele em casa. Ilusões não precisavam subir escadas, e ele não tivera exatamente pressa. Seu pai gesticulou para que ele se sentasse.
"Pode me contar o que aconteceu?"
Jace sentou-se. Deu de ombros e encarou a mesa.
"Você não quer ser expulso, quer? A educação é seu bilhete de saída daqui, para uma vida melhor."
Uma vida melhor que a minha. Sempre voltava a isso.
"Eu sei", disse Jace.
Você não age como se soubesse.
"Só preciso saber se você fez isso. Quero ouvir de você."
Jace continuou encarando a mesa.
Ele fizera um teste de dinâmica de mana cheio de perguntas que não sabia nem por onde começar a responder. Achara que estudara, achara que estava preparado, mas ao encarar o teste, deu-lhe um branco total. Então as respostas simplesmente... vieram a ele. Sabia as fórmulas. Mostrou o raciocínio. Respondeu perfeitamente, e ele sabia disso.
O fato era que ele estivera certo da primeira vez — estivera preparado para o teste — mas eram perguntas capciosas. Não era para ele saber as respostas. Devia chegar o mais perto que pudesse, para mostrar o que sabia, mas ele soubera demais.
"Não sei", disse ele.
"Você não sabe? Que diabos isso significa? Você colou ou não?"
"Não", disse Jace. "Eu apenas... sabia as respostas."
"Estão dizendo que você resolveu uma equação de pressão de mana de seis nós de cabeça. Se isso for verdade, você deveria estar supervisionando uma equipe de reguladores, não tendo aulas."
Jace deu de ombros novamente. "Talvez eu devesse."
Longe demais. Seu pai bateu na mesa com o punho.
"Vá para o seu quarto. Falaremos sobre isso quando sua mãe chegar em casa."
Jace levantou-se e virou-se para a porta.
"Onde você pensa que vai?"
Por que nunca é fácil com você?
"Sair", disse Jace. E correu, antes que seu pai pudesse detê-lo.
Desta vez correu escadas acima, contornando a curva do anel, até o ápice, acima até mesmo da estação de monitoramento, abrindo caminho na multidão. Os pensamentos deles, altos e ranzinzas, misturavam-se aos seus próprios. Escalou uma escada até um alçapão de acesso — um que os civis no anel nem deveriam conhecer — e saiu no teto da estrutura maciça que chamava de lar.
Arte de Jaime Jones
Estava a centenas de metros acima do fundo do vale, sobre as placas angulares e enferrujadas que compunham a carcaça externa do anel. O vento açoitava seu manto, e ele puxou seu lenço ao redor da cabeça. Ali, longe das partes habitadas do anel, conseguia pensar sem interrupções. Os pensamentos de outras pessoas eram ecos distantes; não ouvia nada além do assobio do vento.
Erguendo-se acima dele estava o aro do anel-guia, com facilmente doze metros de diâmetro mas minúsculo em comparação ao anel em si. Caminhou cuidadosamente pelo revestimento curvo e sentou-se perto da borda do lado do vento. A vertigem o dominou e ele a saboreou, um sentimento ao menos que podia ter certeza de ser seu. Acontecia, ocasionalmente, de pessoas caírem, e geralmente alguém as pegava. Geralmente.
A linha de anéis de mago estendia-se na distância, seguindo uma curva suave. Três anéis adiante, uniam-se a outro e fundiam-se em um único canal: Travessia de Silmot. Os anéis próximos adotaram o nome também. Passada a Travessia, aquela curva suave continuava, cortando a fita prateada do Rio Sparrow, seguindo um conjunto de correntes inteiramente diferente.
Atrás dele, em algum lugar, estavam as enormes estações de coleta de mana que canalizavam energia para a rede de anéis. E ali adiante, à frente dele, além do horizonte, estavam os Estados do Núcleo, situados no meio da rede de anéis, reunindo toda a energia de um continente inteiro para uso da elite de magos — a menos que os Separatistas tivessem sequestrado o fluxo novamente. Os ringers teoricamente deviam lealdade à Liga de Ampryn, mas nunca sabiam quem estava operando os receptores em qualquer dado momento, e não se importavam de verdade. Contanto que o mana continuasse se movendo, ninguém os incomodaria.
O anel-guia acima dele começou a crepitar com lampejos de energia — intermitentemente a princípio, depois mais vigorosamente. Jace estava com sorte. Sorriu e alcançou sua mochila, onde escondera alguns pastéis de carne em antecipação a ser mandado para a cama sem comer. Jantar e um espetáculo.
Sobre o rugido do vento veio o som fraco de sinos tocando muito abaixo. Estava prestes a começar. Deu uma mordida num pastel de carne morno. Nada mal.
Enquanto mastigava, o anel-guia — menor e mais sensível que o primário — reagiu a um pulso de mana que chegava. Todos os ringers do segundo turno correram para a ação muito abaixo dele. Na estação de monitoramento, supervisores mediam a força do pulso de entrada e designavam magos de anel para pontos ao redor do anel para estabilizar o fluxo de mana.
Arte de Jung Park
Sem dúvida os coordenadores na estação de monitoramento estavam calculando furiosamente equações de pressão de mana. O anel deles tinha doze nós de controle de mana, cada um tripulado por meia dúzia de magos de anel, e cada pulso de mana tinha sua própria pressão e rotação e dinâmica interna. Mesmo com tabelas de orientação, a matemática seria exponencialmente mais difícil do que a que estava em seu teste, mas os supervisores sabiam como fazê-lo.
Jace deu outra mordida no pastel. E se alguém pedisse para ele resolver? Descobriria que de algum modo sabia disso também? Mastigou, contemplativo. Talvez. Provavelmente. Parecia que sim.
Num lampejo, o ar abaixo dele encheu-se de energia branco-azulada cintilante. O fluxo de mana descreveu um arco pelo centro do anel, flutuando enquanto os magos de anel canalizavam magia para os nós de mana para alcançar uma pressão consistente.
Era uma visão. Uma obra-prima.
O anel rangeu e estalou conforme o fluxo se fixava no lugar, o poder bruto do fluxo de mana ancorado à estrutura física do anel.
Lá está a aberração.
O pensamento mordaz foi o único aviso que Jace recebeu.
Levantou-se às pressas e girou, mas era tarde demais. Três de seus colegas de escola estavam entre ele e o alçapão de acesso.
Arte de Kieran Yanner
"Ei, Beleren", disse o maior dos três, sua voz estrondosa sobrepujando o vento. Seu nome era Tuck. Aos quatorze anos, era um ano mais velho que Jace, uma cabeça mais alto e robusto como uma doca de carga.
Os outros dois eram Caden, um garoto com o rosto marcado por espinhas que fazia Tuck parecer brilhante, e Jillet, uma jovem raivosa que tinha mais influência sobre Caden e Tuck do que qualquer um dos dois brutamontes percebia. Uma vez, quando estavam na escola primária, ela empurrara Jace de um lance de escadas.
"Eu já estava saindo", disse Jace, movendo-se para deslizar entre Tuck e Jill.
Jill o empurrou de volta ao lugar.
"Não seja rude", disse Tuck. "Só queremos aproveitar a vista com você."
"Preciso ir para casa", disse Jace. Moveu-se para dar a volta no trio inteiramente, mas Tuck disparou um braço musculoso e o agarrou pelo ombro.
"Vamos conversar", disse Tuck. "O instrutor acha que você é um trapaceiro, mas você não é, não é?"
Jace tentou desvencilhar-se do aperto de Tuck, mas não ousou tocar no garoto maior.
"Você é pior que um trapaceiro", disse Tuck. "Você é uma aberração."
Os ossos no ombro de Jace rangeram sob a mão de Tuck.
"Uma aberração metida, sabe-tudo."
Tuck continuou a apertar. Jace encarava o chão, incapaz de mover-se mais.
"Sou uma aberração", disse Jace, mais alto desta vez.
"Viram, rapazes?", disse Jill. "Eu disse que a aberração sabia que era uma aberração."
"Bem", disse Tuck, "o que fazemos com uma aberração?".
Ele deu um soco no estômago de Jace, com força. Jace caiu de quatro... e perscrutou o interior dos corredores denteados e emaranhados da mente de Tuck.
"Deve ter sido muito assustador", disse Jace, falando para o revestimento enferrujado.
"O que você disse?" Tuck puxou Jace para cima.
"Eu disse que deve ter sido muito assustador."
Tuck parou de sorrir. "O quê?"
"Esperar que ele chegasse em casa", disse Jace.
"Quem?", perguntou Jill.
"Saber que ele estava bêbado", disse Jace. "Saber que ele ia bater em você de novo."
"Cale a boca", rosnou Tuck. Agarrou Jace pela garganta.
"Você fingia estar dormindo", arquejou Jace. "Tinha sua faquinha, enfiada na cama com você. E toda vez..."
"Cale a boca!", gritou Tuck. Ele apertou.
"Toda vez... v-você dizia a si mesmo... que ia revidar." A visão de Jace começou a embaçar. Através dos olhos de Tuck, ele parecia borrado.
"Tuck?", disse Caden.
"Mas você nunca revidou", sussurrou Jace.
Cale a boca! Tuck empurrou Jace, enviando-o deslizando pelo revestimento liso e frio do teto do anel de mago — em direção à borda.
Jace arranhou o revestimento, tentando parar seu ímpeto, mas não havia nada onde se agarrar. Jace passou direto, enganchou uma mão na borda do teto e ficou pendurado ali. Seus pés balançavam no ar vazio e seus dedos ficaram instantaneamente entorpecidos.
O vento assobiava.
Abaixo dele, o fluxo de mana zumbia. Se caísse lá dentro, não sabia o que aconteceria. O potencial de mana de centenas de acres de território, capturado e canalizado em um único feixe... ele provavelmente seria vaporizado.
Seus dedos tremeram.
Conseguiu subir a outra mão, mas o parapeito era uma saliência. Não tinha alavancagem. Ia precisar de ajuda.
O rosto de Tuck agigantou-se acima dele, uma máscara de raiva e dor.
"Ninguém sabe disso", sibilou ele. "Ninguém. Não desde que o bastardo morreu."
"Tuck, ele vai cair", disse Caden.
Cãibras percorreram o braço de Jace. Seu aperto estava cedendo.
"Você quer ele escavando na sua cabeça? Contando à Jilly aqui as coisas que você diz sobre ela quando ela não está por perto?"
"Como é que é?", disse Jill.
"Cala a boca, Tuck!", disse Caden.
"Agora você sabe como eu me sinto." Tuck olhou para baixo para Jace. Seus olhos estavam selvagens. "Nunca mais, Beleren."
Ele ergueu uma bota.
Ajude-me.
A perspectiva de Jace deu um solavanco. Estava olhando para baixo para si mesmo, para baixo para Tuck, através dos olhos de Caden.
A mão de Caden moveu-se. Jace a moveu. Não sabia como nem por que nem o que Caden estava vendo agora. Não se importava de verdade.
Arte de Kieran Yanner
Com Caden sob seu controle, Jace agarrou o ombro de Tuck e o arrancou da borda, então estendeu rigidamente a mão para si mesmo.
Quão pequeno ele parecia, pendurado desesperadamente acima do fluxo crepitante de mana. Quão vulnerável ele parecia. Ele odiou aquilo.
De volta à sua própria cabeça, Jace agarrou a mão de Caden e içou-se para cima.
Ficou ali parado, tremendo, o revestimento sólido sob seus pés. Só metade acreditava que ainda estava vivo. Olhou para seus três colegas.
Caden balançava nas pernas, os olhos crepitando com energia azul. Tuck estava vermelho, furioso. Os olhos de Jill estavam arregalados.
O brilho nos olhos de Caden desvaneceu. Seus olhos reviraram na cabeça e ele atingiu o revestimento com um baque surdo.
Jace correu passando pelos rostos horrorizados de Jill e Tuck, passando pelo vácuo da mente de Caden, desceu as escadas e partiu — para qualquer lugar, qualquer lugar menos ali.
Todos os seus pertences estavam empacotados em uma pequena bolsa que repousava ao seu lado na cama. Não havia muito nela — algumas trocas de roupa, um diário, um pouco de carne seca. Agora tudo o que esperava era o cair da noite.
Houve uma batida à porta de seu quarto.
Passara um dia e meio, e ele só se aventurara a sair o tempo suficiente para cuidar das necessidades. Sua mãe deixava comida à sua porta ocasionalmente, mas até agora tivera a decência de não tentar falar com ele. Seu pai tentara, a princípio, até que Jace o cansara.
"Vá embora", disse Jace. "Eu disse que não quero conversar."
De dentro de seu quarto, conseguia quase esquecer o restante do mundo. Roçava as bordas de outras mentes — seus pais, vizinhos, um mago do vento ocasional — mas dessa distância só conseguia sentir impressões, não pensamentos plenamente formados.
"Jace", disse sua mãe através da porta. "Estou preocupada com você."
Ela estava perto, perto o suficiente para que ele pudesse lê-la se quisesse. Não queria. Não queria ver o interior da mente de ninguém nunca mais. Não queria desenterrar seus segredos mais sombrios, não queria controlá-los ou manipulá-los, e acima de tudo não queria ver a si mesmo através dos olhos deles — pequeno, desajeitado, vulnerável.
"Tudo bem", disse ele. "Entre."
Ela abriu a porta apenas uma fresta e sorriu para ele. Sem ouvir os pensamentos dela, não conseguia dizer se o sorriso era genuíno ou forçado. Não conseguia dizer muita coisa.
Sentou-se ao lado dele em sua cama, relanceando para sua bolsa arrumada mas nada dizendo. Ranna Beleren era uma curandeira, sempre de prontidão para emergências. Tinha a paciência terna de quem vira coisas muito piores, mas entendia que toda dor é real.
"O que eles lhe contaram?", perguntou ele.
"Prefiro ouvir de você."
"Tuck tentou me matar", disse Jace. "Mencionaram isso?"
Ela balançou a cabeça.
"Estavam me batendo de novo", disse ele. "Não soube o que fazer então eu... não sei. Eu apenas... descobri um segredo do Tuck e comecei a falar."
"Ele diz que você leu a mente dele."
Jace abraçou os joelhos. "Não sei como faço isso", disse ele. "Eu... ouço as pessoas pensando. Às vezes nem sei se são eles ou eu pensando."
"Você é um telepata?", disse sua mãe. Ela empertigou-se.
Jace via as engrenagens girando. Queria saber o que ela estava pensando, mas conteve-se. Podia esperar.
"Você é um telepata." Desta vez fora uma afirmação, não uma pergunta. "Meu filho que aprende rápido, o menino que sempre sabia quando a mãe precisava de um abraço, precisava de seu amor. Meu filho telepata." Ela estava sorrindo.
"Você não acha que sou uma aberração?"
Ela balançou a cabeça. "Acho que você é perfeito e amo você, não importa o que aconteça."
Jace sabia que aquilo era verdade, embora se por suas habilidades ou não, não saberia dizer.
"Como está o Caden?", perguntou Jace. "Soube de algo?"
Os lábios da mãe contraíram-se. "Ele ainda está apagado", disse ela. "Os curandeiros não sabem bem o que fazer."
Jace saiu para a sala comum, esfregando os olhos. Seu desjejum estava sobre a mesa, frio.
Após a conversa com a mãe, decidira ficar um pouco mais e ver se as coisas melhoravam. Ocasionalmente aventurava-se fora do quarto, partilhando refeições tensas e silenciosas com os pais. Mas ele e o pai mal se falavam, e ele não ousava deixar o apartamento. Fazia três dias.
Devorou três salsichas gordurosas e meio prato de ovos frios antes de perceber que seus pais estavam ambos parados na sala comum à espera dele. Seu pai irradiava impaciência, sua mãe preocupação.
Jace alisou o cabelo, constrangido, e virou-se. "O que está acontecendo?"
O pai de Jace abriu a boca, mas sua mãe falou primeiro. "Há alguém aqui para ver você", disse ela. "Alguém que pode ajudar."
Jace olhou ao redor.
"Lá fora, no deque de observação", disse o pai. "Ele não cabe aqui dentro."
Jace resistiu ao impulso de espiar na mente do pai, para saber que tipo de ajudante encontraram que não cabia dentro do apartamento. Ainda captava vislumbres dos pensamentos dos pais sem querer, e os fantasmas de impressões de transeuntes. Mas não fizera nada de propósito desde o acidente, e tentava não fazer nada de forma alguma.
"Quem é ele?"
"É um árbitro", disse o pai de Jace. "O trabalho dele é negociar o fim da guerra. Mas ele é também um... um mago, hã, como você. Ele sabe como..."
"Ele sabe como ajudar você a controlar suas habilidades", disse a mãe de Jace.
As outras crianças estavam na escola, ao menos, então não estavam lá para encará-lo enquanto Jace e os pais dirigiam-se ao deque de observação. Mas àquela altura todos na Travessia de Silmot provavelmente ouviram o que acontecera. Enquanto subiam, as pessoas o encaravam, ou afastavam-se apressadas, ou sussurravam umas para as outras atrás das mãos.
Como se isso fosse me parar.
Não o odiavam. Tinham medo dele. E deveriam ter, não deveriam? Escavara as memórias de Tuck apenas para encontrar uma forma de feri-lo, e quando sua vida esteve em jogo investira contra a cabeça de Caden sem hesitação.
Ele e os pais subiram o último lance de degraus para o deque de observação, uma seção do anel com uma parede aberta e um conjunto de parapeitos. Ali parado, sobre as ancas, estava uma esfinge.
Arte de Slawomir Maniak
Ele agigantava-se sobre Jace com um rosto barbudo e régio, patas enormes e um manto elaborado de ouro e prata espelhada, suas asas emplumadas dobradas atrás de si.
"Meu nome é Alhammarret. E você, Jace Beleren, é um mago mental de talento incomum."
Aquele pensamento, Jace sabia com certeza, não era seu.
"Como o senhor...?"
"Responda da mesma forma, por favor, se puder," disse a voz estrondosa em sua cabeça.
"Assim?" pensou Jace.
"Precisamente."
"Um 'mago mental'?" pensou Jace. "Mas um mago não lança feitiços? Não conheço feitiço algum."
"O que você faz é lançar feitiços," disse Alhammarret. "Você intuiu os feitiços envolvidos, em vez de ser ensinado."
"Então se estou lançando feitiços, então... o senhor está aqui para me fazer parar?"
Alhammarret sorriu. "Não. Quero treiná-lo, para que você não precise."
"Treinar-me onde?" Jace relanceou para os pais. "Aqui?"
"Não," disse Alhammarret. "A chance de treinar um mago mental promissor é rara, mas não tão rara que eu possa abandonar meus outros deveres. Você viria comigo, como meu aprendiz."
"Por quanto tempo?"
"Anos."
Os olhares suspeitos, os sussurros, o medo. Poderia deixar tudo aquilo para trás — junto com o amor e apoio de seus pais.
"Eles sabem o que o senhor está propondo?" perguntou ele.
"Falei com eles sobre isso, sim. Eles querem o melhor para você. E neste caso, o melhor é tirá-lo deste isolamento provinciano para que possa crescer até seu verdadeiro potencial. O seu é um dom raro. Não o desperdice aqui."
Jace olhou de volta para os pais. A mãe acenou em encorajamento. O pai, ao menos, deve estar aliviado. Educação é o seu bilhete de saída daqui.
Jace nem se deu ao trabalho de se voltar para Alhammarret.
"Estou pronto", disse ele.
Após Jace reunir suas coisas e despedir-se, Alhammarret acomodou-se e assentiu para Jace subir em suas costas. Jace subiu e firmou as pernas contra o manto prateado, esperando que fosse para aquilo que servia.
Jace olhou para baixo para os pais e a multidão reunida. Tuck e Jill estavam lá, de olhares duros. Já as pessoas da Travessia de Silmot pareciam pequenas e distantes.
"Eu voltarei", disse ele aos pais. "Eu prometo."
Encarou Tuck nos olhos. "E se você machucar minha família, desmontarei sua mente, uma memória mesquinha por vez."
Tuck estremeceu.
Os pais de Jace acenaram. Alhammarret levantou-se, espreguiçou-se e lançou-se do deque de observação.
Voo! Ele sofrera alguns tombos nas garras de um mago do vento, mas aquilo não era nada parecido com aquilo. Planavam sobre a paisagem, afastando-se da trilha de anéis de mago em uma direção que Jace nunca se dera ao trabalho de pensar. Seu lar de treze anos recuou, tornou-se um ponto e desapareceu na distância.
"Isso foi cruel," disse Alhammarret.
Jace estremeceu.
"O senhor...?" Ele parou. Alhammarret não lhe dera licença para falar normalmente e, em todo caso, o vento tornava a conversa falada impossível. "O senhor ouviu aquilo?"
"Certamente," disse Alhammarret. "Isso é algo a que você deve se ajustar. Até agora, você foi, na prática, o único mago mental existente. Nunca teve que considerar as implicações de lidar com outro telepata."
"Vou me lembrar disso," disse Jace.
"Vou treiná-lo para controlar seus poderes. Vou ajudá-lo a aprimorá-los, para realizar feitos de telepatia que você nunca sonhou serem possíveis, para colher informações profundamente escondidas... e para fazer tudo isso sem ferir ninguém. Se usar estas habilidades para infligir dano intencional, esse será o fim de seu treinamento... e possivelmente, dependendo da gravidade do dano, de sua vida. Você entende?"
"Plenamente," disse Jace. "Só estava tentando assustá-lo."
"Trilhe esse caminho com cuidado," disse a esfinge. "Com o tempo, você se tornará mais aterrorizante do que pode imaginar. E o medo, uma vez inspirado, raramente pode ser aplacado."
Voaram em silêncio por um tempo. A paisagem abaixo deles mudara, o alto estepe dando lugar a campos ondulantes e pântanos amplos e rasos. Apenas as trilhas de anéis de mago, a dezenas de milhas de distância, pareciam familiares.
"Isto é território Separatista, não é?" perguntou Jace.
"Estas terras são reivindicadas pelos Trovianos, sim. 'Separatista' é um termo politicamente carregado."
"E o senhor é um árbitro?"
"Sou," disse Alhammarret. "Então por que a guerra ainda continua?"
Jace corou. Aquela seria sua próxima pergunta. Mago mental!
"A guerra tem uma geração de idade," disse Alhammarret. "Os árbitros negociam uma paz a cada poucos anos, quando ambos os lados estão exaustos o suficiente para desejá-la. Então um dos lados quebra a trégua, e a guerra continua. Nem nos damos mais ao trabalho com uma paz permanente — é mais simples, e mais justo, se ambos os lados souberem desde o início quando as hostilidades serão retomadas."
"Por que não deixar um dos lados vencer?" perguntou Jace.
"Os Ampryn e os Trovianos lutam pelo controle do Núcleo," disse a esfinge. "Mas apenas um deles o detém em qualquer dado momento, e esse lado colhe os benefícios da rede de anéis de mago. Então por que os anéis de mago estão ilesos? Por que, quando os Ampryn detêm o Núcleo, os Trovianos não destroem os anéis de mago para negar aos Ampryn sua fonte de energia?"
Jace nunca pensara nisso. "Porque... Porque acham que podem tomar o Núcleo, e querem os anéis de mago intactos para seu próprio uso quando o fizerem."
"Precisamente," disse Alhammarret. "E enquanto cada lado pensar que pode vencer, esse equilíbrio se mantém, e os anéis de mago permanecem de pé. Cidades são abandonadas intactas em vez de niveladas. Estradas e pontes são entregues, para serem recapturadas mais tarde. Se isso algum dia mudar — se qualquer um dos lados se encontrar em perigo existencial — então destruirá tudo enquanto recua, para negá-lo ao outro. A civilização em Vryn poderia levar séculos para se recuperar — se é que se recuperaria."
Jace sentiu uma súbita onda de vertigem.
"Isso," disse Alhammarret, "não a mera perda de vidas, é o que os árbitros buscam prevenir. Como sempre, os assuntos não são tão simples quanto parecem."
Paravam à noite, e Alhammarret arranjava alojamentos nos confins efetivamente neutros de um anel de mago. Era diferente do anel natal de Jace — maior, e recentemente reparado. Nenhum dos lados queria ferir os anéis, mas danos colaterais eram inevitáveis.
Após alguns dias, alcançaram o destino, uma muralha de rocha que se erguia sobre a planície ondulante. Alhammarret voou mais alto, suas asas poderosas batendo. Pousou em uma ampla plataforma de aterrissagem, sacudiu as asas e ajoelhou-se para Jace desmontar.
Passara dois anos como aprendiz da esfinge, aprendendo todas as habilidades — e limitações — de sua própria mente. Aos quinze anos, era mais alto, e mais inteligente, e mais poderoso do que fora antes. Conseguia descascar os segredos militares da mente de um guarda adormecido sem aprender nada sobre a família do homem, conseguia nublar pensamentos e mudar mentes sem causar dano algum. Esperava que os pais estivessem orgulhosos. Embora aprimorar sua telepatia tivesse sido o foco principal de seu treinamento, Alhammarret não negligenciara outras disciplinas de magia, e Jace crescera como um talentoso ilusionista.
Ele esperara, a princípio, que seu treinamento consistisse principalmente em ir a negociações e aprender o que pudesse das mentes dos embaixadores. E ele de fato acompanhava Alhammarret aos diálogos, e a esfinge de fato lhe perguntava, depois, o que ele aprendera dos pensamentos dos negociadores — o que nunca era nada interessante. Jace perguntara cedo em seu treinamento por que qualquer um dos lados sequer consentia em parlamentar com um telepata.
"Para manterem-se honestos um ao outro," explicara a esfinge com um brilho nos olhos. "Aprenderam há muito tempo a não enviar ninguém que soubesse algo que não quisessem que fosse dito em voz alta."
Havia longas horas estudando teoria mágica na biblioteca da esfinge; sessões de sparring mental na plataforma de aterrissagem; e uma bateria constante de perguntas, desafios, questionários e testes. Havia caixas-enigma e cifras, visitantes reais e ilusórios, até a armadilha ocasional. E Jace não conseguia ler Alhammarret nem um pouco. Pela primeira vez na vida, Jace estava verdadeiramente desafiado por seus estudos. Ele chegara a ter um apagão durante o treinamento de ilusão em certo ponto, suas próprias ilusões sobrepujando sua mente com sua insistência de realidade.
Arte de Yohann Schepacz
Há alguns meses, Alhammarret começara a enviar Jace para coletar informações. Alhammarret as chamava de "missões de treinamento", mas eram bem reais. Sob o manto da escuridão e oculto por ilusões, Jace se esgueirava em um acampamento de um dos lados opostos. Ali, fosse através da telepatia ou de investigação mundana, ele aprenderia sobre os planos de batalha do exército, e retornaria para relatar a Alhammarret.
Ele protestara a princípio, mas a informação que aprendiam nessas missões ajudava Alhammarret a manter a paz. Frequentemente, apenas mencionar planos de batalha em uma reunião conjunta era o suficiente para manter o fronte quieto por um mês ou dois.
Finalmente, com a orientação de Alhammarret, Jace estava usando suas habilidades para ajudar as pessoas. E sua missão mais recente correra particularmente bem.
Subiu os degraus e entrou no estúdio de Alhammarret.
Alhammarret observava pela grande janela circular. Não se virou quando Jace entrou. Raramente se davam ao trabalho de fazer contato visual, e às vezes falavam um com o outro de cômodos diferentes, embora o alcance de Jace ainda fosse muito mais limitado que o da esfinge.
"Bem-vindo de volta," disse Alhammarret. "O que você aprendeu?"
Jace não conseguia ler a mente de Alhammarret e, por cortesia, Alhammarret não lia a dele sem convite, exceto quando praticavam defesas mentais. Jace não era mais indefeso, mas seu mentor ainda conseguia explodir seus bloqueios mentais sem esforço.
Como resposta, Jace abriu um conjunto particular de memórias ao escrutínio de Alhammarret. Jace aprendera com um oficial Separatista de alta patente sobre os planos Trovianos para uma ofensiva surpresa de primavera. Planejavam cruzar os Pântanos de Rime antes do degelo e investir contra o Núcleo Ampryn. Seria uma campanha brutal para ambos os lados, trazendo o combate para territórios civis anteriormente intocados e potencialmente quebrando o domínio Ampryn sobre os Estados do Núcleo. E Jace aprendera isso sem deixar os Trovianos saberem quem ele era ou o que ele colhera deles.
Arte de Cynthia Sheppard
"Excelente trabalho," disse Alhammarret. "Espero que o olhar no rosto do embaixador Troviano quando eu mencionar isso na próxima negociação seja... gratificante."
A esfinge virou-se e caminhou pelos degraus curvos, passando por Jace. "Venha," disse ele. "Quero revisar os mapas enquanto sua memória está fresca, e marcar suas rotas exatas."
A sala não se parecia em nada com a biblioteca mixuruca na Travessia de Silmot, com sua coleção de manuais de dinâmica de mana desgastados, livros de história desatualizados e a ocasional obra de ficção mal escrita. Não havia livros ali, mas prateleiras de esferas cristalinas. As patas enormes de Alhammarret não podiam virar páginas, e sua biblioteca continha mais informação do que poderia caber em um anel de mago inteiro cheio de livros.
Alhammarret acionou vários grandes pedais, como os de um órgão, e alinhou uma das esferas de dados com o projetor. Um mapa dos Pântanos de Rime surgiu no centro da biblioteca.
Jace pintou ilusões sobre o mapa, mostrando os movimentos de tropa planejados. Ao fazê-lo, sua mente divagou.
Inquestionavelmente, ele estava crescendo em poder. Tivera que lutar para sair do acampamento Troviano, mas limpara seu rastro. Conseguira tudo o que fora buscar, ninguém que o vira ia se lembrar dele, e ele não causara nenhum dano permanente. Mesmo há alguns meses, aquele tipo de operação estaria além dele. Logo, seria um mago mental melhor do que...
A esfinge estava distraída, puxando mais mapas e plotando a informação de Jace neles, seguindo o caminho do exército Troviano em direção ao coração da terra.
Jace não testava as defesas de Alhammarret há muito tempo.
Seria pego, é claro. Alhammarret sempre sabia quando Jace tentava lê-lo. Jace poderia argumentar, razoavelmente, que fazia parte de seu treinamento — julgar quando as defesas de um alvo estavam baixas.
Olhou para dentro da mente de Alhammarret.
Os pensamentos da esfinge eram imensos e poderosos, um ciclone fustigante de força mental. As breves explorações de Jace sempre bateram contra aquilo como uma parede. Desta vez, porém, com esforço, ele conseguiu deslizar para dentro do vento...
Uma inundação de sensações, de memórias, o sobrepujou.
Estava olhando para baixo para si mesmo, praticando ilusões, concentrando-se arduamente para controlar alguns fiapos de luz e som. Ele parecia tão jovem.
Algo estava errado. Energia branco-azulada crepitava em seus olhos. As ilusões giravam ao seu redor cada vez mais rápido.
E então
ele começou
a desvanecer...
Dentro das ilusões giratórias, Jace desapareceu inteiramente.
Arte de Ryan Barger
Alhammarret estendeu a mão com uma gavinha de Éter, para o vazio entre os mundos (plural!) e puxou o menino de volta.
Planinauta.
Jace agitou-se. Sentou-se. Perguntou o que acontecera.
E Alhammarret apagou o incidente da mente do jovem.
A biblioteca. Seus próprios olhos. O Alhammarret real o observava, com olhos astutos.
"Jace?"
"Ali," disse Jace, iluminando uma seção do mapa. "Desculpe."
"Você está exausto," disse Alhammarret. "Chega de bravata. Descanse."
Jace foi para o seu quarto e fechou a porta com nenhuma intenção de abri-la. Alhammarret saberia. Se já não soubesse. Quanto tempo até ele apagar a memória de Jace novamente? Teria isso acontecido antes? Havia alguma forma de saber?
Planinauta.
Seja lá o que fosse aquilo, Alhammarret parecia pensar que Jace era um. Que havia mundos além de Vryn. Que Jace podia viajar para eles.
Ele tentou. Nada aconteceu.
Ele despertara como um planinauta, derivara para dentro do Éter. Mas se não conseguia se lembrar... como poderia fazê-lo de novo?
Alhammarret tinha seus melhores interesses em mente. Algum dia a velha esfinge certamente planejava lhe contar, desculpar-se pela decepção, explicar que Jace simplesmente não estivera pronto. Mesmo puramente por interesse próprio, Alhammarret devia cobiçar um aprendiz planinauta.
Enquanto aquela informação estivesse na cabeça de Jace, Alhammarret poderia lê-la. E se Alhammarret pudesse lê-la, apagaria a mente de Jace novamente, e Jace perderia sua chance de algum dia aprender a verdade. Tinha que defender sua mente. Mas qualquer desvio de seu comportamento habitual atrairia suspeitas, e a suspeita atrairia escrutínio, e o escrutínio revelaria seu segredo.
Retirou um pedaço de papel de sua escrivaninha e começou a escrever — em uma letra pequena e apertada que a esfinge poderia não conseguir ler mesmo se encontrasse — o que vira, e como vira. Incluiu tantos detalhes quanto pôde, e avisou a si mesmo o que aconteceria se Alhammarret descobrisse. Quando terminou, escreveu a data no topo, dobrou o papel cuidadosamente e o escondeu na gaveta da escrivaninha.
Então, lenta e muito, muito cuidadosamente, Jace fez a si mesmo esquecer o que vira, esquecer ter escrito, esquecer o esquecimento.
Estava com dor de cabeça.
Encontrou o papel várias vezes ao longo das semanas seguintes. A cada vez, ficava furioso. A cada vez, imaginava o que fazer. E a cada vez, para manter longe de Alhammarret, removia sua memória de tê-lo encontrado.
Mantiam-se na cerimônia. Evitar soldados em treinamento era como passar furtivo por uma estátua. Espie em uma mente, aprenda o cronograma de patrulha, e você poderia entrar direto.
Havia mais soldados do que ele esperava — demais para um posto de comando humilde. Alguém importante estava visitando.
Isso significava mais risco. Deveria retornar a Alhammarret imediatamente, e tentar em outra ocasião.
Mas também significava mais informação, não significava?
Espiou nas mentes de mais alguns soldados até encontrar sua nova caça. Um general estava visitando o fronte, um veterano da guerra grisalho e condecorado. O general trouxera dois esquadrões de guardas de elite com ele, e dois deles guardavam a porta da tenda do general o tempo todo.
Sob o manto da escuridão, enquanto as lâmpadas na tenda ainda estavam acesas, Jace passou por cima das formas adormecidas dos dois guardas da porta.
Arte de Cynthia Sheppard
Havia três pessoas na tenda. Jace enviou duas para os braços do sono e voltou-se para o general, que abriu a boca para berrar por guardas. Nenhum som saiu.
"Olá, General", disse Jace. "Isso levará apenas um momento."
Ele mergulhou.
O general era um homem de vontade forte, resistente à sondagem de Jace até certo ponto, mas não era um mago mental, nem qualquer tipo de usuário de magia. Jace rompeu suas defesas naturais e viu...
Todo o plano de batalha Troviano para a próxima campanha pairava diante dele, um mapa ilusório que combinava com os contornos da terra até o menor detalhe. O plano deles era audacioso... e sem as contramedidas adequadas, ia funcionar.
"Tem certeza de que isto é genuíno?" o general perguntou.
"Positivo," disse a figura encapuzada. "Nossa fonte alguma vez já o enganou antes?"
"Não," disse ele. "Nem os renegados, tenho certeza."
"Certamente," disse a figura. "Quando o seu negócio é informação, a reputação é tudo."
"Certamente," disse ele.
O homem encapuzado — um rapaz, na verdade, magricela e convencido — sabia muito mais do que estava disposto a contar... como a identidade desta fonte. Pelo bem dos Ampryn, ele deveria prender o jovem, torturar o nome desta fonte para fora dele, e...
"Não adiantaria nada," disse o garoto. "Ele não me conta muita coisa." Os olhos do garoto brilharam sob o capuz.
"Tudo bem," disse ele. "Pegue seu pagamento e vá. E diga à sua fonte que há mais de onde isto veio, sempre que ele tiver informações."
"Eu direi," disse o garoto. Ele embolsou o dinheiro e virou-se, e o general captou um vislumbre de seu rosto...
Vagamente, do mundo exterior, Jace ouviu gritos. Levara tempo demais.
Estava preso. Preso em uma mente, preso em uma memória, paralisado, encarando o próprio rosto por trás daquele maldito capuz, em uma conversa cujo contexto inteiro era um mistério para ele.
Ele puxou...
...e estava fora.
O general desabou à sua frente, com olhos vazios.
Passos correndo. A aba da tenda abriu-se. Jace virou-se.
Três guardas. Acenou com uma mão, e ilusões enxamearam ao redor deles.
O general estava respirando, mas sua mente estava em branco.
Sinto muito.
Jace mergulhou para fora da tenda e correu na noite, e continuou correndo até não poder mais.
Quando Jace retornou ao covil de Alhammarret, foi direto ao seu quarto e empacotou suas coisas. Não sabia para onde estava indo. Não se importava.
Enquanto empacotava, encontrou um bilhete, em sua própria letra, avisando-o da duplicidade de Alhammarret, revelando sua própria natureza.
Mais um ultraje. Mais uma mentira.
Jace rabiscou mais algumas linhas no papel, enfiou-o no bolso e apagou sua memória dele novamente. Talvez conseguisse ficar com aquele.
Manteve seus pensamentos trancados o mais firmemente que pôde. Se Alhammarret quisesse saber o que estava em sua mente, a esfinge teria que a arrombar.
Verificou a biblioteca e o estúdio. Vazio.
Poderia partir. Não queria mais parte nos jogos da esfinge.
Mas ele tinha que saber.
Dirigiu-se à plataforma de aterrissagem. Alhammarret estava lá, sentado sobre as ancas, esperando por ele.
"Bem-vindo de volta," disse Alhammarret. "O que você aprendeu?"
"O senhor me diga", disse Jace. Falou, não tendo desejo de dar à esfinge a mínima abertura. Ergueu cada defesa mental que conhecia.
"Ah," disse Alhammarret. "Percebo que você aprendeu algo que o desagradou." A voz da esfinge em sua cabeça estava mais alta agora, insistente.
"De forma alguma", disse Jace. "Mas faz um tempo que não praticamos combate mental, não faz?"
"Faz. Você está mais poderoso agora. Poderia se ferir."
"Ferir o senhor, quer dizer?"
"Improvável," disse a esfinge.
"E se eu caísse nas mãos de um mago mental inimigo? Não podemos ser os únicos, podemos? Teste-me. Ajude-me a encontrar meus limites. Arranque a informação de mim."
Alhammarret levantou-se, e a força total de sua mente atingiu Jace como uma frente de tempestade.
Arte de Yan Li
Jace esperava que parecesse uma invasão, uma força alienígena. Mas era uma presença esmagadora, um ímpeto de pensamento e sensação envolvendo o seu próprio. Alhammarret poderia despedaçar a mente de Jace. Mas para fazer isso, tinha que lê-la, e quando ele a lia, Jace podia fazer o mesmo. Finalmente, viu a forma verdadeira dos últimos dois anos, viu a borda perigosa na qual estivera balançando todo esse tempo.
Alhammarret jogara com ele. Usara Jace como um intermediário, para coletar informações, entregá-las e aprender mais apenas na entrega. E a cada vez, apagara a memória de Jace, pegara o dinheiro para si e mantivera a guerra em andamento. Se o seu negócio era negociar a paz, onde estaria o lucro em realmente alcançá-la?
Agora Alhammarret sabia tudo, e instalou-se nos recessos da mente de Jace para apagar as memórias ofensivas, para salvar este ativo útil se pudesse. E destruí-lo se não pudesse.
Jace golpeou primeiro.
A esfinge era mais poderosa. Mas ali, na cabeça de Jace, ele era também vulnerável, desde que Jace estivesse disposto a danificar sua própria mente no processo. E Alhammarret era arrogante e covarde demais para considerar essa possibilidade.
Jace sentiu-se caindo para trás, para cima, para fora. Não conseguia lembrar do seu lar, do rosto de sua mãe ou do som de seu próprio nome. Mas a esfinge estava pior.
Alhammarret esquecera como respirar.
Ele desabou para frente, arquejando por ar, e o contorno de sua cabeça foi a última coisa que o planinauta viu antes de se quebrar
em
pedaços
e
caminhar...
Arte de Eric Deschamps
Ravnica
Ele atingiu o chão, com força, de costas. Estava claro. E barulhento. E ocupado.
Estava com dor de cabeça.
As formas movendo-se ao seu redor resolveram-se em pessoas, e os sons em vozes, e a dor de cabeça em pensamentos que não eram seus.
"Cuidado", disse uma voz, enquanto seu dono desviava dele.
Deveria reportar você aos Boros por teletransportação imprudente.
Boros?
"Sai da frente!", gritou outra voz, e ele olhou para cima bem a tempo de rolar para fora do caminho de uma carroça puxada por algum tipo de fera peluda e com cascos com chifres largos e curvos.
Veio do nada. Alguma pobre cobaia experimental Izzet, provavelmente.
Levantou-se às pressas. As pessoas o encaravam. Ele parecia tão mal quanto se sentia, suado e pálido e imundo. Puxou seu lenço ao redor do rosto e correu para o lado da estrada.
Não sou uma cobaia experimental. Sou... sou...
Estou em apuros.
Tudo bem. Deixa isso pra lá.
Caminhou o mais rápido que pôde sem parecer estar com pressa. Estendeu-se, cuidadosamente, nas mentes ao seu redor. Era uma cacofonia, um emaranhado louco de vozes, e metade delas nem era humana.
Vagabundo. Ladrão. Pobre garoto. Miserável.
Sua dor de cabeça estava piorando.
Ainda assim, conseguiu captar fragmentos de significado do barulho. Aquele era o distrito das vestimentas, e suas roupas — trajes de ringer, alguma parte enterrada dele disse — pareciam trapos em comparação. Algum feriado chamado Rauck-Chauv estava chegando em breve. Um grupo conhecido como "Orzhov" parecia possuir esta área, ou controlá-la politicamente, ou algo no meio. Centenas de mentes, e nem uma delas estava pensando em nada fora da cidade. Seria aquilo estranho? Talvez as pessoas da cidade fossem assim.
Avistou pelo menos duas agências de aplicação da lei distintas e manteve-se fora da vista delas o máximo possível. Precisava chegar a algum lugar onde atraísse menos atenção. Agarrou-se aos pensamentos mais sujos e encardidos, as mentes que vestiam as roupas que mais se pareciam com as dele, e seguiu-as como um fio.
Em dez minutos estava em outro lugar, um distrito onde os becos eram mais estreitos e as sombras mais profundas, e todos focavam em seus próprios assuntos.
Caminhou adiante, atento a emboscadas, estendendo-se às mentes ao seu redor por qualquer fragmento de informação que pudesse ajudá-lo.
Finalmente, acalentado como um tesouro dentro da mente de uma garota faminta e imunda, ele o encontrou:
A porta abriu-se revelando uma mulher estatuária com orelhas longas e pontudas, vestimenta elegante e olhos brancos como leite. Seus pensamentos eram labirínticos, escondidos profundamente abaixo da superfície.
Ela é linda.
"Se você veio apenas para me admirar", disse ela, "receio não ter tempo".
"Você lê mentes?", disse ele. Arrependeu-se imediatamente.
A elfa sorriu. "Não. Você é um adolescente."
Ele corou, e por um momento viu a si mesmo através dos olhos dela: imundo, desajeitado, de olhos marejados e legível como um livro.
"Sou de..." fora da cidade, quase disse, mas ainda não tinha ideia do que aquilo significava ali, "outro distrito. Preciso de um lugar para ficar. Ouvi dizer que você acolhe pessoas como eu".
"Às vezes. Qual é o seu nome?"
Ele lampejou pelos pensamentos ao seu redor, cavando por um nome local que não soasse conspícuo.
"Berrim", disse ele, após apenas um pouco de tempo demais, colhendo o nome da mente de um servo que passava. "Meu nome é Berrim."
Parecia uma mentira inofensiva, e muito melhor do que admitir a verdade. Pelo que ele sabia, era verdade.
"Entre... Berrim", disse Emmara. "Vejamos sobre conseguir roupas novas para você."
Estava seguro. Estava limpo. Estava alimentado. Finalmente tinha tempo para pensar. Conseguia se lembrar de alguma coisa?
Traçou ilusões no ar, formas aleatórias para ajudá-lo a pensar. Manchas, e linhas, e anéis.
Travessia de Silmot.
O pensamento borbulhou do nada, acompanhado pela imagem de uma construção imponente em forma de anel. A única maneira de ter certeza de que era seu fora que não havia mais ninguém por perto para tê-lo.
Uma forma coalesceu à sua frente — um anel alongado, aberto na parte inferior, com um círculo flutuando no meio. Não tinha ideia do que significava, se é que significava algo.
Jace.
Meu nome é Jace Beleren.
Então havia algo ali dentro, esperando por ele para escavar.
E quem é Jace Beleren? É um bom homem? É gentil?
Afastou a forma com a vontade e sentou-se, sozinho, mais longe de casa do que jamais soubera ser possível.
Teria que esperar para ver.
Arte de Jaime Jones
01 de Julho de 2015 | Por Ari Levitch
A Origem de Gideon: Kytheon Iora de Akros
Arte de Chase Stone
À noite, a escuridão da prisão era completa. Ela se estendia pelas paredes de pedra e infiltrava-se nas roupas esfarrapadas dos prisioneiros, uma mancha de tinta que não saía completamente nem com a luz pálida do dia que conseguia penetrar no interior da prisão através das frestas estreitas no alto das paredes. Quando o vento parava lá fora, a escuridão imóvel tinha um peso sob o qual muitos prisioneiros sucumbiam.
Mas não era isso que atormentava Kytheon, um ladrão de treze anos, passando sua primeira noite na escuridão. Ele estava fixado em um fato particular que subira ao topo de um monte de informações que lhe foram lançadas mais cedo sobre as rotinas da prisão, regras e a ordem geral das coisas. Era algo que ouvira de Drasus, um amigo seu do Bairro dos Estrangeiros, e agora um colega prisioneiro: "Hixus é o carcereiro, mas é Ristos quem manda aqui".
Kytheon deve ter feito uma careta ao ouvir esse detalhe. "Tente entender", Drasus avisara, "Ristos não é como os bandidos que os Irregulares expulsaram do Bairro. Ele se vê como um rei. Ele é um monstro. É por isso que ele está aqui dentro".
"Nós estamos aqui dentro", Kytheon retrucou.
"Você está aqui dentro porque é um péssimo ladrão, que foi pego por roubar vegetais podres e um punhado de moedas. Estou aqui por brigar. Não somos assassinos. Então apenas tome cuidado, é tudo o que estou dizendo." Drasus dera de ombros como se nada pudesse ser feito.
Arte de Zack Stella
Drasus era três anos mais velho que Kytheon, e impetuoso. Fora levado para a prisão há mais de uma estação, e vê-lo fora um reencontro bem-vindo, embora Kytheon não tivesse gostado do que vira naquele dar de ombros. Tentara uma abordagem diferente.
"Você é um dos meus Irregulares, Drasus. Esse Ristos é quem deveria tomar cuidado conosco."
"Você diz isso agora, mas ele é maior que os bandidos lá fora. Estou lhe dizendo, ele é o rei." Com isso, Drasus se afastara antes que Kytheon pudesse argumentar.
Sempre havia pessoas tentando forçar sua entrada no Bairro dos Estrangeiros para estabelecer suas redes de roubo, contrabando e intimidação — brutos como Anthedes do Machado Ensanguentado, ou ardilosos como Crevários, o Venenoso. Kytheon conseguia reconhecer um valentão — passara a maior parte da vida lidando com eles de alguma forma — e mal podia esperar para conhecer Ristos.
Ao amanhecer, os novos prisioneiros foram acorrentados uns aos outros por comprimentos de corrente de ferro e marchados por corredores labirínticos de pedra bruta. Kytheon contou outros seis prisioneiros, dois dos quais pareciam já ter passado por aquilo antes. Um guarda abriu uma pesada porta de madeira e os prisioneiros foram conduzidos a uma câmara cavernosa onde dezenas de prisioneiros nativos pareciam estar trabalhando.
O ar na câmara era viciado, como a cela de Kytheon, mas ao contrário de sua cela, estava impregnado com o cheiro de mofo. No centro da câmara, um poço redondo, com seis metros de largura, fora escavado no chão. Um poço correspondente desaparecia no teto e, entre eles, uma dúzia de cabos carregava barris imensos em ambas as direções.
"Bem-vindos à Cachoeira de Akros", berrou um guarda de costas curvadas, "onde a água corre para cima". Ele riu da própria piada, uma que Kytheon não entendeu mas tinha o pressentimento de que logo entenderia.
Os outros guardas conduziram Kytheon e os novos prisioneiros a uma enorme manivela de seis raios que era movida por prisioneiros que ficavam seis de cada lado em cada raio, girando-a em grandes círculos ao redor de um maciço eixo de carvalho.
"Primeiro grupo! Descansem!", disse um guarda. Os prisioneiros que empurravam um dos raios da manivela saíram, massageando seus músculos doloridos ou limpando o suor que ardia em seus olhos.
Kytheon sentiu um empurrão em suas costas, e tomou sua posição na manivela ao lado dos outros novos prisioneiros. A viga de madeira parecia lisa sob suas mãos, onde inúmeras mãos haviam empurrado contra a resistência constante de infinitos barris de água sendo içados do rio no vale abaixo para a pólis de Akros empoleirada no penhasco acima. Era isso que a prisão significava. Trabalho e cativeiro. Ele seria uma besta de carga. Não era muito diferente do treinamento de hoplita akroano, Kytheon refletiu, sorrindo para si mesmo. Tornar o corpo como mármore, eles chamavam — um regime diário de corrida e transporte de objetos pesados. Mas aquilo foi quando ele seria um soldado. Quando era criança. Aquilo foi antes de ele ser expulso do exército, antes de ser um Irregular, antes de ser um ladrão e antes de ser um prisioneiro.
Arte de Willian Murai
Seus ombros e panturrilhas ardiam enquanto ele trabalhava na manivela. Tentava manter a dor à distância focando em um único barril, seguindo sua jornada desde o momento em que surgia do chão até desaparecer no teto. Não os estava contando, apenas observando-os, forçando-se a seguir apenas mais um, e mais um depois daquele. Havia sempre outro.
No vão entre dois barris ascendentes, Kytheon observou um punhado de prisioneiros reparando barris danificados. Estavam trabalhando, martelando novos anéis de ferro no lugar com marretas de madeira. Esses prisioneiros pareciam mais saudáveis, robustos — bem alimentados.
E então finalmente, "Primeiro grupo! Água!"
Kytheon não lembrava de ter ouvido os outros grupos serem chamados, mas quem era ele para argumentar. Com as pernas vacilantes sem a viga de madeira para suporte, ele se dirigiu a um canto da câmara onde pedaços de alvenaria estavam espalhados como cadeiras improvisadas.
Prisioneiros velhos e quebrados enchiam copos de argila rachados com água de um barril, oferecendo-os aos prisioneiros do primeiro grupo junto com uma ponta de pão amanhecido. Comida escassa não era novidade para Kytheon. O Bairro dos Estrangeiros de Akros não era conhecido por sua opulência ou abundância, e houve muitos dias em que ele, Drasus, o Pequeno Olexo, Epikos e Zenon tiveram que se contentar com tais refeições.
Quando mordeu o pão duro, a textura das migalhas granuladas era familiar. Encontrou um naco de alvenaria e recostou-se nele. Sua superfície fria era um alívio bem-vindo que ele pretendia complementar com um gole de água. Levou o copo aos lábios e entornou a água na boca, deixando o líquido frio borbulhar.
"Tributo!", disse uma voz rouca que interrompeu o momento de contentamento de Kytheon. A voz pertencia a um homem robusto, mal mais alto que Kytheon, que caminhava entre os prisioneiros reunidos do primeiro grupo.
Kytheon observou enquanto todos os prisioneiros por quem o homem passava deixavam cair metade do seu pão, sem protesto, em um saco que ele lhes estendia. Kytheon engoliu a água que estivera saboreando. Ristos?
O homem aproximou-se. Estava nu da cintura para cima, seu torso coberto por pelos grossos e escuros, exceto pelas cicatrizes inchadas e esparsas.
"Tributo!", disse o homem novamente, parando na frente de Kytheon.
"É, tudo bem. O que você tem aí?"
O homem emitiu um som que era algo entre um grunhido e uma risada. "Meu joelho contra a sua garganta se você continuar assim, moleque. O rei exige tributo."
"Rei? Você é o Ristos?"
O homem não respondeu. Kytheon olhou para além dele para onde os barris estavam sendo reparados. Um homem grande, de ombros largos, encontrou o olhar do jovem prisioneiro com o seu. Tinha um rosto emoldurado por uma juba de cabelos cinza-carvão.
"Não, você não poderia ser o Ristos", disse Kytheon, voltando sua atenção para o homem à sua frente. "Me disseram que eu teria medo do Ristos."
"Deveria ter", disse o bandido entre dentes cerrados. Ele jogou seu saco de pão extorquido para o lado mas, antes que atingisse o chão, Kytheon impulsionou-se para fora do bloco de pedra e cravou o pé na canela do outro homem.
Houve um rugido de agonia enquanto o bandido recuava. Num instante, Kytheon estava de pé, lançando uma enxurrada de jabs no rosto do outro homem. Ele dançava fora do alcance do contra-ataque, forçando o bandido a se sobre-estender e expor-se a outra barragem de punhos.
Kytheon sorriu. Uma onda de energia surgiu nele, e ele esqueceu seus músculos doloridos e estômago roncando. Aquele era o seu elemento — a luta.
Arte de Eric Deschamps
O capanga de Ristos era um brigão experiente, Kytheon percebia por sua experiência lutando com Drasus. Esse cara era um saco de carne que aguentava pancada, mas era previsível e, como todos os bandidos que Kytheon enfrentara nos becos de Akros, este era falastrão.
"Vou beber vinho no seu crânio!", ameaçou ele.
Outro golpe de peso, seguido por mais uma das esquivas de Kytheon, e outra sequência de seus socos que conectaram com as costelas e a mandíbula.
Continue tagarelando, pensou Kytheon enquanto circulava seu oponente. Para Kytheon, lutar era reflexivo — intuitivo, instintivo. Quando criança, descobrira que era também a fonte de sua magia.
Os outros prisioneiros observavam a luta, mas não faziam movimento algum para intervir. Kytheon aproveitou um momento para examinar os prisioneiros reunidos em busca de Ristos, que ele viu que se aproximara e ainda estava observando.
Então, de uma vez, a borda da visão de Kytheon explodiu.
Ele subestimara a velocidade do bandido. Viu-se no chão, olhando para o outro homem que já estava sobre ele, fazendo chover socos. Os primeiros conectaram. Um atingiu Kytheon no nariz com um estalo nauseante e causou outra explosão em sua visão.
Ele precisava se reagrupar. Precisava focar.
O punho do homem ergueu-se, mas antes de descer novamente, a superfície da pele de Kytheon brilhou com incontáveis faixas de luz que ondulavam com energia.
O punho desceu. Quando atingiu Kytheon abaixo do olho, ele não sentiu dor. Em vez disso, foi preenchido por uma explosão de energia que lançou num soco próprio, conectando com a mandíbula do homem, que estalou sob a força. A ação foi pontuada pelo ganido do homem ao tombar de cima de Kytheon.
O rapaz levantou-se, faixas de luz ainda ondulando pelo seu corpo.
A câmara estava silenciosa, exceto pelo gemido do bandido que jazia num monte, segurando sua mandíbula estilhaçada.
Sangue escorria do nariz de Kytheon, pelo queixo e na sua veste de trama rústica. Ele cuspiu um globo de vermelho na pedra, alcançou o saco de pão abandonado e retirou um pedaço. Todos os olhos estavam nele, mas Kytheon apenas encarou Ristos e começou a rasgar um naco de pão com os dentes.
Ristos fez um movimento, e meia dúzia de prisioneiros emergiu do restante, cercando Kytheon.
O rapaz limpou o sangue da boca com as costas da mão, espalhando-o pela bochecha. Olhou cada um dos capangas de Ristos nos olhos, voltou-se para o chefe deles e sorriu.
Não demorou muito para que os guardas abrissem caminho pela multidão de prisioneiros, mas Kytheon não precisou de muito tempo. Quando os guardas chegaram, encontraram Kytheon, com o rosto ensanguentado e punhos ensanguentados, esmurrando o último dos homens de Ristos.
Quando o garoto de treze anos viu os guardas descendo sobre ele, desabou no chão, gasto, exausto e inteiramente satisfeito.
Kytheon estava diante do carcereiro, com os pulsos acorrentados, um sorriso satisfeito estampado no rosto. Hixus acenou com a mão e os dois guardas que escoltaram o jovem prisioneiro viraram-se e deixaram Kytheon e o carcereiro sozinhos.
Arte de Chris Rallis
Hixus recostou-se casualmente em uma mesa de madeira que estava repleta de várias pilhas de documentos. O carcereiro era largo de ombros e vestia um peitoral com a facilidade de um soldado experiente. Encarou Kytheon, aparentemente estudando seu rosto. Após um momento, passou os dedos pela sua barba espessa e grisalha e falou: "Você está aqui há menos de dois dias". Respirou fundo. "Dois dias de uma sentença de dez anos. Uma briga no sistema hídrico, sete prisioneiros na enfermaria e um motim... tudo por sua conta."
Aos ouvidos de Kytheon, soava como uma lista de conquistas.
"Ah sim", acrescentou Hixus, "e me disseram que você tentou escapar enquanto era transportado para cá ontem".
"Pode me culpar?"
"Existe mais alguém?"
Kytheon não respondeu.
"Por curiosidade minha", continuou o carcereiro, "se sua fuga tivesse funcionado, você não teve medo do que aconteceria com você uma vez que fosse capturado novamente?".
"Eu aguentaria. Além disso, você não passou muito tempo no Bairro dos Estrangeiros, passou? Se eu chegasse lá, os Irregulares me protegeriam. Vocês nunca mais me pegariam."
Foi a vez do carcereiro sorrir. "Ah, os Irregulares. Protetores do Bairro. Os Irregulares de Kytheon."
Arte de Mark Winters
"É."
"Um séquito bastante leal. E muitos deles acabam passando tempo aqui. Seu amigo, Drasus, é um representante atual dos Irregulares aqui dentro, não é? Agora você também. Sabe, há muitos prisioneiros aqui que têm palavras e coisas piores para você e seus Irregulares, e no entanto você insiste em fazer mais inimigos."
"Ristos?" Kytheon não pôde evitar rir. "Minha mãe chamava pessoas como ele de fracas porque a força delas vem de como os outros as veem. 'A força vem da ação', ela dizia. Ristos é fraco. Vi isso imediatamente. Agora todos os outros aqui sabem disso também."
O Carcereiro riu baixo. "Entendo. Nesse caso, não deve surpreendê-lo que ele esteja com seus homens na enfermaria."
"Nunca toquei nele."
"É como você disse, no entanto. A força dele evaporou no momento em que um garoto derrotou seus homens na frente dos outros prisioneiros e ele fugiu para se proteger. Quando você foi trancado ontem à noite, um motim eclodiu — iniciado por Drasus, vejam só. Estavam fartos de Ristos e deixaram-no saber disso. Nem todos têm o seu dom de ignorar ataques."
"Ele mereceu."
"Talvez. Ele é um bruto, isso é verdade. Mas algumas coisas têm valor além de sua aparência superficial. Mau como era, ele ajudava a manter a ordem." O carcereiro ergueu as mãos. "Agora, o que eu faço?"
"Não posso lhe dizer como fazer seu trabalho, Carcereiro."
"Não, não pode. Mas talvez possa me ajudar. Você é o meu próximo Ristos?"
"Sou melhor que o Ristos."
"É mesmo? Prove."
"Provar? Ele está na enfermaria, e eu mal tenho um arranhão."
"E agora? Você tomará o lugar dele? Substituí-lo não o torna melhor. Torna-o igual."
"Nunca saberemos. Não planejo ficar."
Com um movimento tão rápido que assustou Kytheon, Hixus pegou o pesado anel de chaves que pendia de seu cinto e o jogou sobre a mesa. O ferro tilintou na madeira e, antes que o som desaparecesse, Hixus tinha uma adaga na mão. Kytheon deu um passo atrás, ergueu os punhos defensivamente e a luz irrompeu sobre seu corpo em ondulações frenéticas.
"Não se sinta ameaçado", disse Hixus. "Pelo que dizem, tentar feri-lo fisicamente seria inútil." Girou a adaga habilmente na mão de modo que segurava a lâmina, e a ofereceu a Kytheon. "Pegue."
Kytheon hesitou apenas por um momento. Seus dedos fecharam-se ao redor do punho.
"Ofereço-lhe sua liberdade", disse o carcereiro. "Tudo o que tem a fazer é pegar as chaves, e a fuga é sua."
"Você simplesmente me deixaria sair?"
"Não. Terá que me matar pelas chaves. E se os boatos sobre sua habilidade de luta forem verdadeiros, não tenho muita chance."
O orgulho inchou em Kytheon. Ele sempre gostara de lutar. Era bom nisso.
Kytheon apontou a adaga para o carcereiro por um longo momento. Nenhum dos dois desviou o olhar do outro.
"Não vou matá-lo", disse Kytheon finalmente. Baixou o braço ao lado do corpo, deixando a adaga tilintar no chão.
"Porque você não é um assassino. Você não é um Ristos."
"Sinto muito decepcioná-lo."
"Pelo contrário, sinto-me encorajado por este desfecho. É o que eu esperava. É no que eu acreditava ser verdade. Você está aqui, um ladrão, condenado por roubar. Mas o que você roubou foi comida, para ajudar a alimentar seus amigos e suas famílias. Você faz o que acha correto."
Kytheon olhou para baixo para a corrente que pendia entre seus tornozelos. "O que você quer de mim?"
"Da maioria dos meus prisioneiros, quero serenidade e obediência. De você? Quero que aceite minha oferta. Quero treiná-lo, Kytheon."
Embora Kytheon não tivesse concordado com o treinamento, seu protesto fora amplamente ignorado. Foi acordado antes do sol na manhã seguinte e arrastado para o modesto ginásio da prisão. Era um trecho redondo de terra batida cercado por paredes altas. Hixus estava parado no centro do círculo semelhante a uma arena. Jogou seu anel de chaves na terra.
"Ainda não vou matá-lo", disse Kytheon.
"Espero que não", disse o carcereiro. "Apenas venha pegá-las." O canto de sua boca curvou-se em um sorriso de sarcasmo. "Tenha sucesso, e elas são suas."
Kytheon investiu.
Horas depois, Kytheon lamentou, não ganhara terreno algum. Cada uma de suas investidas fora abreviada por correntes de energia branca brilhante que irrompiam do solo para agrilhoar seus membros, ou por açoites de magia luminescente que empurravam seus membros o suficiente para interromper seu passo e enviá-lo estatelado à terra. Não poderia haver progresso. As chaves estavam infinitamente longe de seu alcance e, a cada esforço infrutífero, distanciavam-se ainda mais.
Arte de Chris Rallis
Então, sem uma palavra, Hixus recolheu as chaves e deixou o ginásio. Kytheon caiu de joelhos na terra, frustrado e cheio de rancor.
Os dias que se seguiram transcorreram de forma muito parecida com o primeiro: Hixus oferecia as chaves, Kytheon tentava recuperá-las mas falhava, Hixus partia com as chaves e Kytheon fervilhava com o jogo cruel.
Numa manhã cinzenta após uma tempestade punitiva, Kytheon lutava para erguer-se da lama viscosa em que o ginásio se transformara, pela centésima vez, ao que parecia. Quando sua força falhou, desabou de volta no lodo.
Com os olhos vermelhos, gritou para o carcereiro: "Eu não consigo!".
"Por que isso? Não é bravo o suficiente?"
Kytheon virou o rosto.
Hixus continuou: "Não é forte o suficiente? Ou rápido o suficiente?".
O carcereiro agigantou-se sobre Kytheon, olhando para baixo para o rapaz que retribuía seu olhar com olhos que se enchiam de lágrimas e desprezo.
"Não sou eu! É você! Você nem me deixa chegar perto", disse Kytheon.
Com isso, Hixus ajoelhou-se na lama ao lado dele. "Agora você entende."
Era comum chamar a hieromancia de "magia da lei", mas Hixus dizia que aquilo era uma simplificação excessiva. "Leis são criadas por pessoas, e leis podem mudar, mas leis são criadas em reação a comportamentos específicos. Uma pessoa rouba, e leis são postas em prática para evitar mais roubos. Este é o ponto de partida para a hieromancia como prática."
"Cada ação tem uma resposta que pode contra-atacá-la", continuou Hixus. "Um mestre da hieromancia pode adaptar-se a qualquer cenário e virá-lo a seu favor. A vitória em qualquer disputa irá para aquele que tiver o controle da situação."
Meia dúzia de tentativas de fuga depois, Kytheon aceitou o treinamento. Ele complementava seu talento natural para ler os outros em combate, intuindo sua posição e linguagem corporal para entender o que fariam a seguir. A hieromancia deu a Kytheon uma ferramenta para desestabilizar oponentes e pressionar sua vantagem.
Toda manhã, Kytheon, o aluno, era acordado antes do amanhecer para juntar-se a Hixus no ginásio, e toda tarde, os ferros que prendiam seus pulsos eram recolocados e Kytheon, o prisioneiro, reunia-se aos outros na Cachoeira de Akros. Ele beneficiava-se de ambas as atividades. A hieromancia fortalecia sua mente, e girar a grande manivela fortalecia seu corpo.
Arte de Chris Rallis
Ele entrou em um ritmo e, por quatro anos, confiou na estrutura para carregá-lo através de seus dias. Até que, numa manhã, seu ritmo foi interrompido.
Os olhos de Kytheon abriram-se bruscamente ao som perfurante de um grito agudo. Levantou-se de um salto, alerta. Estava mais tarde que o usual, percebeu. Onde estavam os guardas?
Mais gritos soaram, unindo-se em um coro crescente e terrível.
Harpias. Ele não sabia como sabia, mas sabia. Embora nunca tivesse encontrado uma, Kytheon as conhecia das histórias — horrores alados que se banqueteavam com os mortos e carregavam crianças.
Pôs-se de pé e esforçou-se para olhar pela janela. As harpias estavam se aproximando vindo de cima do rio. Seus gritos implacáveis eram respondidos pelo toque profundo dos sinos, chamando os soldados para seus postos nas muralhas do Kolophon, a poderosa fortaleza akroana. A correria em pânico acima significava que nenhum estratiano ou cavaleiro oromai chegara com um aviso.
Kytheon observava através de sua fresta estreita de janela enquanto a horda descia sobre a fortaleza como moscas sobre um cadáver maduro. As harpias eram intermináveis, e ele não conseguia desviar o olhar da nuvem negra de penas e garras e fome.
Através do ruído terrível, Kytheon ouviu batidas na porta de sua cela. Viu o rosto de Hixus na janela gradeada da porta.
"A pólis está sob ataque", disse Hixus.
"Harpias."
"Em números sem precedentes."
O ferrolho da porta estalou, e a porta abriu-se. O carcereiro preenchia o batente. Vestira sua armadura completa — seu peitoral banhado a bronze, grevas combinando e elmo com crista de metal. Empunhava sua espada desembainhada em uma mão e segurava um saco rústico sobre o ombro na outra.
"Quer ganhar sua liberdade?", disse Hixus, jogando o saco aos pés de Kytheon.
Kytheon ergueu uma sobrancelha. Ajoelhou-se e alcançou o interior do saco e, quando retirou a mão, ela estava envolta no punho de uma espada akroana embainhada. O restante do conteúdo completava os armamentos de um hoplita: peitoral, grevas e escudo redondo. Kytheon sorriu.
Pouco tempo depois, Kytheon encontrava-se, armado e blindado, no cavernoso sistema hídrico da prisão, entre pouco menos da metade dos prisioneiros. O Carcereiro Hixus estava no topo de um bloco de alvenaria e dirigiu-se aos criminosos reunidos.
"Como vocês sabem, uma hoste de harpias ataca a pólis antes de quaisquer batedores. Não sabemos o porquê, e isso não importa. Recebi ordens para abrir minhas celas e oferecer liberdade àqueles que lutarem para defender a pólis. Vocês aqui são os dispostos. Apesar do que veio antes, Akros é a pólis de vocês. O que vocês fizerem hoje moldará o futuro dela, e o lugar de vocês nele. Se morrerem em batalha, será entre heróis. Façam por merecer!"
Kytheon e Hixus correram do Arco dos Campeões para as areias brilhantes da arena à frente da milícia de prisioneiros. À aproximação deles, harpias dispersaram-se no ar de sobre os cadáveres dos guardas akroanos dos quais se banqueteavam antes de girarem para atacar o que viam como carne fresca.
Tantas, pensou Kytheon.
As criaturas aladas giravam acima da pólis, uma massa ondulante e voraz... então caíram sobre os prisioneiros.
Prisioneiros dispersaram-se, repelindo o que podiam. Uma harpia mergulhou contra Kytheon, que teve apenas tempo suficiente de erguer seu escudo para desviar o peso dela. A harpia agarrou a borda do escudo com suas garras, mas Kytheon inclinou-se sobre ela, conseguindo prender o monstro sob o escudo. Seus olhos escuros a faziam parecer quase humana até que ela entreabriu seus lábios coriáceos para revelar dentes pontudos destinados a perfurar carne humana. A harpia gritou, tentando se desvencilhar, mas silenciou quando Kytheon cravou sua espada em seu pescoço.
Outra harpia chocou-se contra as costas de Kytheon antes que ele pudesse retirar sua lâmina. Garras afundaram fundo no músculo de seu braço esquerdo. Kytheon cerrou os dentes e deslocou seu peso para a direita para rolar para longe do novo atacante, trazendo seu escudo para atingir a harpia nas costelas, forçando-a a recuar.
Preparou-se para um contra-ataque.
A harpia circulou Kytheon e agachou-se baixo, usando os braços como suporte. Kytheon circulou com ela. A harpia empertigou-se, ergueu suas asas de penas pretas e guinchou.
Kytheon investiu contra ela.
Com um golpe descendente de suas asas, a harpia saltou no ar para evitar o ataque enquanto outra harpia investia contra Kytheon. Harpia e akroano tombaram na areia da arena.
Mais harpias desceram sobre Kytheon, abutres convergindo para limpar seus ossos.
Dentes cerrados penetraram na carne de seu braço superior.
Kytheon gritou de dor, mas o grito tornou-se um rugido. Envolveu a harpia que roía sua carne com ambos os braços e a prendeu contra si. Usando-a como escudo contra as outras, rolou para longe. Arremessou a harpia para o lado e levantou-se às pressas. Ganhara um momento.
Antes que a harpia pudesse se levantar, Kytheon convocou do solo um conjunto de correntes brancas brilhantes para prender o monstro.
Arte de Igor Kieryluk
Mais inimigos enxameavam de todas as direções. Tudo ao seu redor era um borrão de penas pretas, e todo som era abafado pelos guinchos agudos das harpias.
Uma explosão súbita de energia branca irrompeu no céu acima da arena, enviando ondas em anéis concêntricos. Passou através da massa de harpias. Elas começaram a voar erraticamente, colidindo umas com as outras.
Hixus. Kytheon encontrou seu mentor nos degraus na base da coluna de Iroas no centro da arena. Seus olhos brilhavam num branco intenso enquanto ele canalizava energia para o céu.
Onde as harpias desorientadas caíam na areia, Kytheon convocava correntes brancas e brilhantes para agrilhoá-las.
"Isso não vai segurá-las para sempre", trovejou Hixus, sua voz infundida com magia que permitia que suas palavras fossem ouvidas acima das harpias. "Formem posição ao redor da coluna no centro. Costas contra ela, escudo com escudo!"
Kytheon apanhou sua espada e correu para Hixus, onde os prisioneiros sobreviventes já estavam se enfileirando em um anel ao redor da coluna. Travaram seus escudos, com espadas e lanças projetando-se para fora. Tornaram-se uma única entidade, uma falange no Templo do Triunfo, resistindo a uma hoste de inimigos.
Muitas harpias caíram, e mais recuaram.
Kytheon ergueu sua espada em saudação. "Hoplitas das Correntes Quebradas!", declarou ele, e foi respondido com um rugido coletivo e crescente.
O alívio desvaneceu tão rápido quanto começara. "Ciclope!", veio um grito da muralha do Kolophon.
"E outro!", gritou uma segunda voz.
"Aqui também!"
Kytheon virou-se para Hixus: "Carcereiro, as muralhas!".
Acima da arena, as harpias estavam se reagrupando. Dezenas voaram para as muralhas em busca de presas mais fáceis.
"Indefensáveis se as harpias alcançarem os guardas", disse o carcereiro, "e talvez fútil se os ciclopes forem mais do que uns poucos".
"Permita-me reunir os Irregulares. Se você conseguir manter as harpias longe de nós, nós manteremos os ciclopes fora das muralhas."
Kytheon sentiu o peso do olhar de Hixus. Encarou-o, esperando uma lição, mesmo no meio de tudo aquilo, mas seu mentor apenas assentiu.
Um momento depois, Kytheon estava abrindo caminho pelo topo da muralha que cercava a pólis. Harpias passavam por ele conforme convergiam para o Templo do Triunfo. Quando se virou para seguir seu curso, viu uma hélice branca e brilhante atingir o céu. Pulsos brilhantes subiam pelas fitas paralelas e sinuosas, e Kytheon entendeu.
As harpias estavam sendo atraídas para a fonte, e convergiram mais uma vez sobre o Templo do Triunfo. Ele não sabia por quanto tempo o carcereiro e os outros seriam capazes de resistir, mas se não lhes ganhasse tempo suficiente para lidar com os ciclopes, a pólis estaria perdida.
Correu em disparada, passando por grupos esporádicos de soldados lutando contra ciclopes. Cada golpe contra as muralhas reverberava por toda a pólis, ecoando no mármore e na pedra.
Finalmente, chegou ao Bairro dos Estrangeiros, onde a muralha antiga virava para dentro, marcando as fronteiras originais da pólis. A muralha fora estendida para incluir o Bairro dos Estrangeiros, mas não era nem tão alta, nem tão formidável ali. De onde estava, conseguia ver três dos ciclopes pesados investindo contra a muralha. Deixados sozinhos, eles a derrubariam.
Da muralha antiga, Kytheon saltou para a Lança de Pedra, uma passarela elevada construída na muralha que permitia acesso rápido ao redor do Bairro. Enquanto corria, foi saudado pelos cheiros pungentes e familiares do Bairro. Abaixo dele estavam ruas familiares que ele conhecia e amava, ruas que não vira desde que fora arrancado delas pelos guardas akroanos. Estivera fora por quatro anos. Estivera fora quando o ataque veio. Mas agora estava ali. Estava em casa.
Kytheon seguiu a Lança de Pedra até a portaria fortificada do Bairro, o ponto por onde os não akroanos entravam pela primeira vez na pólis. Ao se aproximar, viu um homem dirigindo pessoas que carregavam vigas enormes destinadas a reforçar o portão. Kytheon riu alto. Conhecia o homem, um Irregular chamado Zenon, um setessano que sempre insistia em fazer apostas em qualquer forma de disputa. Seu cabelo crescera desgrenhado, mas ele usava o mesmo manto verde que trouxera da pólis florestal anos atrás quando viera para Akros pela primeira vez. Kytheon chamou seu amigo lá embaixo.
"Não acreditei quando me disseram que os prisioneiros foram libertados", disse Zenon.
"Quanto você apostou que eu ainda estaria vivo?"
"Quem disse que apostei que estaria vivo? Além disso, ainda não é hora de coletar." Sua boca abriu-se em um sorriso que teria parecido cruel se Kytheon não o conhecesse. "Agora então, caso você não tenha notado, um punhado de ciclopes quer entrar na pólis. Dá uma mãozinha?"
Kytheon desceu para a rua para ajudar a carregar uma das vigas. A muralha atrás deles estrondou e depois gemeu conforme um ciclope lançava seu peso contra ela.
"Vai cair!", gritou Zenon.
Kytheon voltou-se para o amigo. "Então temos que abrir o portão."
"O quê?" Zenon lançou-lhe um olhar.
"Confie em mim", disse Kytheon, correndo em direção ao portão. Ele entendia a hesitação de Zenon; apenas alguns anos antes seu rosto teria a mesma expressão confusa, ou mais provavelmente ele teria investido contra a muralha sob estresse sem sequer um pensamento. Mas, aquilo não fora há alguns anos. Adapte-se, vire a situação a meu favor, garanta a vitória.
Kytheon lançou seu peso confiantemente contra uma das vigas que mantinha o portão fechado.
Os grandes portões de madeira gemeram conforme suas dobradiças cediam ao poder das manivelas que os moviam. O som não passou despercebido. Como Kytheon esperava, os ciclopes desviaram sua atenção para a abertura na muralha, e investiram em sua direção. Kytheon e um punhado de Irregulares marcharam pelo portal e entraram na calçada.
"Selem!", gritou Drasus para os soldados na portaria.
O primeiro ciclope veio investindo pela calçada conforme os portões começavam a ranger fechando-se. Era uma coisa de raiva bruta e fome implacável, seu único olho fixo no portão atrás dos Irregulares. Tinha uma boca desproporcionalmente grande que espumava enquanto corria, enviando glóbulos de saliva espumosa em todas as direções. Aquela era uma boca que poderia engolir uma pessoa inteira.
Arte de Raymond Swanland
Os Irregulares formaram posição para receber a investida, lanças preparadas, com Kytheon no ápice da formação. Quando o ciclope ergueu um de seus braços imensos para afastar o estorvo com as costas da mão, Kytheon convocou do solo comprimentos de corrente forjados de magia e prendeu seus pulsos.
"Prontos agora, Irregulares!", disse Kytheon.
O ciclope esforçou-se contra o grilhão, mas mais correntes seguiram-se. Enfurecido, o ciclope lançou-se para frente em uma tentativa de se libertar. Kytheon cessou o feitiço, e o ímpeto do monstro o enviou tropeçando em direção aos defensores. Os Irregulares encontraram seu ímpeto de frente, deixando o peso dele impeli-lo contra meia dúzia de lanças. O ciclope soltou um bramido que desvaneceu num gurgle enquanto o sangue borbulhava em sua garganta, antes de desabar na calçada entre Kytheon e os Irregulares.
Antes que Kytheon pudesse reunir-se aos seus camaradas, o segundo ciclope estava sobre ele. Zenon, o setessano, atirou sua lança para Kytheon, que a apanhou a tempo de esquivar-se lateralmente do alcance do ciclope. Kytheon girou, plantou os pés e cravou a lança na lateral da perna do bruto. A ponta da lança rasgou o músculo antes de emergir do outro lado.
O ciclope tentou golpear Kytheon. Deu um passo para girar. Ao trazer sua outra perna ao redor, ela enganchou no cabo da lança, e ele caiu de joelhos com um estrondo.
Kytheon observou o sol despontar sobre os topos das montanhas que se erguiam acima de Akros. Parou de escalar por um momento para deixar a luz do sol lavar seu rosto.
Drasus apressou-se para alcançá-lo. "O que você está fazendo?"
Kytheon olhou para baixo em direção a Akros. "A prisão é o último lugar em Akros a ver o sol, você sabia disso?"
"Não me surpreende."
"Bem, hoje nós somos os primeiros", disse Kytheon, fechando os olhos e enchendo os pulmões com o ar fresco.
"Bem merecido, eu diria. Olhe." Drasus apontou para a calçada em frente ao portão principal da pólis, onde contou mais de vinte akroanos puxando cordas amarradas ao cadáver sem vida de um ciclope que estavam arrastando para longe. Outros dois ciclopes jaziam sem vida na calçada.
"Bem merecido", concordou Kytheon.
Os dois Irregulares viraram-se para retomar a subida da montanha. Examinaram a área circundante em busca de outra onda de monstros, de qualquer sinal de que o ataque não terminara.
Mais adiante em sua ascensão, Kytheon e Drasus separaram-se. Drasus deveria fazer o reconhecimento ao norte, enquanto Kytheon seguia para o sul.
Por mais de uma hora, Kytheon percorreu seu caminho por uma trilha de pedra esfarelada que o levava cada vez mais alto na encosta da montanha. Não era um escalador experiente, mas confiava em seus reflexos para manter o equilíbrio. A trilha o levou à borda de um desfiladeiro profundo que descia até um rio que serpenteava das montanhas em direção a Akros. Cruzando o desfiladeiro havia uma ponte de rocha que de algum modo parecia ao mesmo tempo natural e moldada. O olhar de Kytheon seguiu o comprimento da ponte. O outro lado estava banhado pela luz do dia, apesar das sombras que ainda envolviam as rochas circundantes.
Kytheon cruzou a ponte.
Para sua surpresa, um homem o saudou do outro lado. O homem tinha uma estrutura poderosa que estava envolta em um tecido dourado e fluido. Cabelos pretos e grossos caíam sobre seus ombros e, acima de sua cabeça, flutuava um louro de folhas douradas. A lança que ele segurava era pontuada por uma filigrana dourada brilhante que cercava um orbe luminoso. Atrás do homem erguia-se uma estátua de mármore imensa, tão brilhantemente iluminada que Kytheon era incapaz de distinguir suas feições.
"Kytheon Iora de Akros", o homem chamou em uma voz que parecia vir de todas as direções. "Sua tarefa ainda não terminou."
"Certamente não, se você se coloca no meu caminho." Imediatamente, faixas de luz branca ondulavam pela superfície da pele de Kytheon. "Quem é você?"
O homem baixou a ponta de sua lança ao chão e a mudança na luz revelou o detalhe da estátua, que Kytheon reconheceu como uma réplica em mármore do homem.
Arte de Raymond Swanland
Tudo o que Kytheon pôde articular foi: "Heliod".
"Deus do Sol", trovejou Heliod.
Diante disso, Kytheon baixou a cabeça.
"Foi-lhe dada a tarefa de defender sua pólis. Os monstros que a atacaram não o fizeram por malícia. Estavam fugindo diante de algo muito pior. Meu irmão, Érebo, Deus do Mundo Inferior, recrutou um titã cruel que agora espreita as terras além destas montanhas. Em sua missão, ele passará por Akros."
"Que missão? O que ele fará?"
"Ele está encarregado de reivindicar aqueles que escaparam do Mundo Inferior. Todos os que se colocam em seu caminho nada significam para Érebo, que vê apenas a inevitabilidade de que todos os mortais acabarão no Mundo Inferior."
O Deus do Sol estendeu a mão e a pousou sobre o ombro de Kytheon. "Você provou seu valor como guerreiro no ataque à sua pólis, mas é hora de provar-se digno de ser o meu campeão." Ele estendeu a mão para o céu ensolarado, e a luz coalesceu ao redor de seu punho. Ela se alongou e tomou a forma de uma lança que assemelhava-se à própria arma do deus.
"Com esta lança, destrua o titã. Esta é a tarefa que lhe dou. Esta é a sua provação."
Kytheon ficou boquiaberto, tanto com a lança quanto com a tarefa que o deus colocara diante dele.
Kytheon estava correndo. Sob seus pés, a terra rachada e estéril passava voando. Seu peito arfava e seus pulmões queimavam, mas suas pernas continuavam bombeando. Se dependesse de Kytheon, suas pernas o carregariam até a colina baixa à frente, onde ficava uma formação de rochas esfareladas açoitadas pelo vento. E ali ele não estaria sozinho.
Passos pesados, um para cada meia dúzia dos seus, sacudiam o chão atrás dele, levantando nuvens de poeira. Matar um titã não era tarefa fácil, mas Kytheon claramente causara uma impressão no servo de Érebo. Kytheon relanceou para o sangue preto e pegajoso que se agarrava à ponta de sua lança tocada pelo sol, e arriscou um olhar sobre o ombro. Sua visão foi preenchida pela estrutura do titã.
Arte de Peter Mohrbacher
O titã estava trajado em uma armadura de escamas confeccionada a partir de dezenas de máscaras douradas daqueles que escaparam do Mundo Inferior. Naquele momento os olhos vazios de cada máscara pareciam estar encarando diretamente Kytheon.
Uma sombra riscou o céu acima. Kytheon viu a cabeça do maciço mangual do titã caindo como um meteoro em sua direção. Rolou para longe enquanto ele se chocava contra o chão ao seu lado.
Quando Kytheon alcançou as rochas, continuou correndo. Ao passar por dois pilares em ruínas, o mangual do titã pulverizou um à sua esquerda. Ele explodiu em uma chuva de estilhaços de pedra.
Kytheon tombou no chão. A parte de trás de sua cabeça parecia quente e, quando a tocou, sua mão voltou suja de sangue. Descuidado, pensou Kytheon. Deveria ter previsto aquilo. O tilintar de correntes disse a Kytheon que o titã estava recolhendo seu mangual para outro golpe. Tinha que continuar se movendo.
O titã soltou um rugido baixo e estrondoso, e o fedor de mofo e podridão emanou de sua boca. Sem fôlego, Kytheon engoliu o ar fétido e, embora parecesse agarrar-se ao interior de sua boca, foi o suficiente para ele esquivar-se da tentativa do titã de esmagar o pretenso campeão de Heliod até virar polpa.
O titã desferiu um golpe com as costas da mão. Kytheon o antecipou. Ele recebeu o golpe, ileso e imóvel, sua magia protetora absorvendo o impacto. Agarrou um dos dedos colossais do titã, plantou os pés e recusou-se a soltar. Só precisava de um momento.
"Agora!", gritou Kytheon.
Um batimento cardíaco depois, Drasus veio investindo de trás de outro pilar de rocha. "Irregulares", chamou ele, "derrubem-no!".
Três Irregulares emergiram do esconderijo para juntar-se a Drasus. Tinham cordas que terminavam em ganchos de escalada rústicos. Apenas mais um valentão no Bairro, pensou Kytheon, sorrindo em meio ao caos.
Olexo, o mais jovem entre eles, lançou sua corda sobre o antebraço grosso do titã, e o gancho afundou na carne pálida. Os outros seguiram seu exemplo e, quando o titã libertou-se do aperto de Kytheon, os Irregulares puxaram suas cordas. O titã balançou, sem equilíbrio. Enfurecido, girou seu mangual acima da cabeça, claramente ansioso para se livrar de tais estorvos.
Arte de Karl Kopinski
Cada ação tem uma resposta. A ideia preencheu a mente de Kytheon. Cada ação tem um ponto de inflexão que, se reconhecido, pode ser aproveitado como magia para ganhar o controle de uma luta. Viu sua abertura.
Enquanto o mangual de ferro preto orbitava a cabeça do titã, Kytheon valeu-se da magia hieromântica para conjurar uma cunha etérea de energia que atingiu o titã na parte interna do cotovelo, de modo que seu armo dobrou na articulação. O ímpeto na cabeça do mangual o enviou descrevendo um arco sobre o ombro do titã, atingindo-o nas costas. Ele desabou de joelhos, erguendo a cabeça para bradar em agonia e raiva.
Aquilo era tudo o que Kytheon precisava. Saltou parte do caminho subindo um dos pilares, apenas para girar e lançar-se contra o titã, lança na mão. A luz do sol atingiu a ponta da lança, ofuscando o titã durante sua aproximação, até que ele enterrou a lança profundamente no peito dele, separando as máscaras dos Ressurgidos. Sangue escuro brotou ao redor da lança, e o titã deu mais uma respiração estremecida antes de desabar na poeira.
Kytheon rolou de cima do titã caído. A Provação está terminada, pensou ele. A tarefa de Heliod foi cumprida. Akros está segura.
Recuperou sua lança e voltou-se para os Irregulares. Ali estavam eles, um bando de garotos do Bairro dos Estrangeiros. Juntos, haviam quebrado o domínio de lordes do crime no Bairro, defendido Akros de hordas de monstros vorazes e destruído um titã a serviço de um deus em nome de outro deus. Eram seus companheiros, sua família e seus termos para aceitar a Provação do Deus do Sol. Sozinho, ele era forte e habilidoso. Mas junto com seus Irregulares, o que eram as querelas dos deuses?
Em sua visão periférica, Kytheon viu o horizonte mover-se. Quando olhou, viu dois fiapos de fumaça subindo ao céu, sua fonte um par de olhos escuros. Érebo, Deus dos Mortos, agigantava-se sobre a paisagem, testemunha da derrota de seu servo. Vapor negro como tinta subia dos olhos escuros do deus que estavam cravados em seu rosto sem emoção.
Kytheon puxou sua lança para trás. Ele era o campeão de Heliod, o Deus do Sol. Se Érebo era a causa de todo esse problema, então ele teria que responder por isso. Kytheon deixou a lança voar. Sentiu o poder dela ao soltá-la, e a lança voou pelo ar em direção ao Deus dos Mortos.
Sem emoção, Érebo deu um simples estalo com um pulso emaciado. Do horizonte, seu chicote desenrolou-se, parecendo assumir vida própria. Quando encontrou a lança do campeão em voo, Érebo estalou o pulso uma segunda vez. O chicote estalou, desviando a lança de volta para Kytheon em velocidade ofuscante.
Kytheon permaneceu desafiador contra o contra-ataque e os Irregulares fecharam o cerco ao redor dele. Estrias de luz cintilaram para a vida em sua pele, e ele convocou toda a magia e força que pôde enquanto observava a ponta da arma aproximar-se.
Quando a lança chocou-se contra ele, explodiu em um flash de luz intensa que lavou Kytheon, tornando tudo branco.
A luz permaneceu por um tempo e, quando diminuiu, levou um momento para os olhos de Kytheon se ajustarem. Seus ouvidos zumbiam e ele achou difícil focar.
A cor lentamente infiltrou-se de volta aos seus arredores. Olhou para baixo, inspecionando onde a lança fizera contato. Sem dano, mas notou salpicos de vermelho. Moveu uma mão para limpá-los e viu que as costas dela estavam salpicadas de vermelho também — ambas as mãos estavam. Mas se não era o seu sangue...
Arte de Winona Nelson
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Não.
Ele girou bruscamente.
Seus olhos passaram por quatro corpos sem vida.
Não.
A terra estremeceu e Kytheon lutou para manter-se de pé. Cambaleou entre seus Irregulares caídos, de boca aberta. Seus pensamentos voltaram-se para a lança, atirada por sua própria mão.
Com os punhos cerrados, Kytheon começou a tremer. Sua magia explodiu para a vida mais uma vez, e faixas de luz moveram-se cada vez mais rápido sobre seu corpo. Sua pele lançava arcos de luz que ondulavam dele com intensidade crescente. O céu acima dele girou.
Enquanto a luz branca continuava a jorrar dele, a paisagem ao seu redor começou a mudar, dobrar e esticar.
Dela, planícies ondulantes emergiram.
E o céu crepuscular deu lugar a um azul vibrante.
Nada mais fazia sentido; parecia que o mundo inteiro estava chegando ao fim.
Com os olhos vermelhos e o rosto contorcido em angústia, Kytheon inclinou o olhar para o céu, onde brilhava um sol radiante. Fechou os olhos e ajoelhou-se ali, incapaz de se forçar a sair daquele lugar.
O tempo passou. Kytheon não tinha como medir quanto. Uma dor surda e contínua entorpecia seu interior.
Os pelos na nuca dele ficaram em pé. Estou sendo observado, pensou ele. Érebo? Heliod? Que seja. Deixe que olhem.
Então sentiu uma baforada de ar quente acompanhada por um rosnado baixo e estrondoso. Seus olhos abriram-se bruscamente e uma massa enorme e sombria, silhuetada contra o sol, preencheu sua visão.
Um rosto.
Suas pupilas ajustaram-se à luz.
O rosto de um leão.
Kytheon tropeçou para trás diante da revelação, erguendo os braços defensivamente. O leão não fez movimento algum e, após um momento, Kytheon baixou os braços. Viu que o leão estava blindado como um cavalo de guerra e, sobre uma sela, sentava-se uma cavaleira envolta em uma armadura como nenhuma que Kytheon já vira. Ela a cobria da cabeça aos pés e, onde captava o sol, emitia um brilho radiante.
Arte de Anastasia Ovchinnikova
Embora sua garganta estivesse seca, Kytheon conseguiu forçar palavras de sua boca. "Onde estou? Quem é você?"
"Sou Moukir, capitã dos Cavaleiros da Estrada do Peregrino. Você está perdido na nação Bant de Valeron. Você não parece bem." Enquanto a cavaleira falava, Kytheon percebeu que ela não estava sozinha. Um punhado de outros cavaleiros formara posição atrás de sua capitã. "Qual é o seu nome, andarilho?"
"Kytheon", articulou Kytheon com dificuldade.
"Gideon?", Moukir tentou confirmar.
Antes que pudesse corrigir a cavaleira, Kytheon foi dominado por uma onda de serenidade que subitamente brotou em seu interior. Seus olhos foram atraídos para o céu.
Além dos cavaleiros, viu uma mulher descendo pelo ar, mantida no alto por duas asas de penas brancas. Havia um senso de nobreza nela que era ao mesmo tempo calmante e inspirador. Ela parou, pairando à frente dele, um anjo trajado em armadura de placas como a dos cavaleiros.
Naquele momento, Kytheon soube que deixara Theros, seu lar, para trás. Seus Irregulares se foram — uma dor que carregava consigo. Sua provação apenas começara.
Arte de Willian Murai
08 de Julho de 2015 | Por Kimberly J. Kreines & Adam Lee
A Origem de Nissa: Lar
Nissa Revane viu-se tecida em um fluxo interminável de luz viva.
Era um lugar que ela nunca queria deixar, pois a envolvia e cuidava dela. Enrolava-se ao seu redor e sustentava seus membros, dando-lhe a sensação de leveza.
Após um momento atemporal, porém, o fluxo começou a se desenredar. Como ela odiava vê-lo partir.
Enquanto ele flutuava por ela, percebeu que era na verdade composto de centenas de milhares de minúsculos filamentos. Era um rio cintilante de joias. Deslizava tão perto que ela podia estender a mão e tocá-lo. Deixou as pontas dos dedos correrem por ele e, conforme os minúsculos filamentos passavam, sentia cada essência individual, todas únicas. Sob tudo, sentia um grande senso de contentamento. Queria ficar assim, conectada ao fluxo, para sempre.
"Ai!"
Algo atingiu Nissa por trás, na nuca. Ela levou a mão para esfregar.
"Ah!"
Novamente. Desta vez nas costas. Forte.
Ela virou-se.
O fluxo estava preso nela, preso porque havia um nó — um grande nó negro que impedia o fluxo, contendo o rio.
Ele chocou-se uma, duas, e novamente contra o braço de Nissa. Doeu.
Ela tentou empurrá-lo para longe, tentou mudar seu curso, mas ele recusou-se a ser dissuadido.
Fazia sons estranhos, sons como contorcimentos e rangidos, sons horríveis perto demais de seu ouvido. Estava escurecendo e crescendo. Logo seria maior que ela.
Nissa tentou correr, tentou nadar para longe.
Ela buscou a luz, mas tudo o que restava era a escuridão.
Ela a consumiu.
Ela a sufocou.
Ela a encerraria.
Arte de Chase Stone
Nissa acordou com um sobressalto, gritando e arquejando por ar.
Levou três piscadas de olhos para perceber: "Lar, estou em casa."
Sua respiração desacelerou enquanto ela olhava para o teto de madeira familiar, traçando o padrão de vinhas que o prendiam. Conhecia bem o padrão, pois aquela não fora a primeira vez que acordara em sua cama após uma visão de escuridão.
Ao deslizar mais para dentro desta realidade, seus outros sentidos retornaram também. Conseguia sentir o aroma do ensopado de sua mãe. Devia estar aquecendo sobre o fogo. Teria ela perdido o jantar novamente?
Sentia a umidade da noite no ar, uma umidade trazida pela chuva, que ela ouvia tamborilar no telhado. O som da chuva era gentil e calmante, mas havia algo turbulento sob ele: duas vozes, sussurradas e tensas. Ela se empertigou para sentar e pressionou sua longa orelha de elfa contra a parede.
"Ela não estava gritando de novo agora mesmo?" Este era Numa, Chefe dos Joraga. "Gritando sobre uma escuridão maligna?"
Ele estava falando sobre a visão dela! Isso significava que ele ouvira. Nissa amaldiçoou-se por gritar tão alto; sabia o problema que isso causaria.
"O que faremos quando ela vier à procura dela, de nós?", perguntou Numa.
"Nada está procurando por ninguém." Esta era sua mãe, Meroe. "Nunca buscou nada além de destruição aleatória."
"Aleatória? Seu povo irritou Zendikar e pagou o preço. Há uma razão pela qual você é a última dos animistas."
Nissa estremeceu, a umidade em sua pele tornando-se fria.
"Zendikar não é vingativa", argumentou sua mãe.
"Se você acredita nisso, você é cega. Você e sua filha estão colocando todos nós em risco. Não posso permitir isso."
Nissa puxou seu cobertor ao redor de si. Aquela não fora a primeira vez que ouvira sua mãe e Numa discutirem sobre suas visões, mas nunca ouvira Numa falar em um tom tão duro.
"Você entende que devo colocar a tribo em primeiro lugar", continuou ele. "Devo proteger meu povo."
"Você está... você está nos mandando embora?" O tom de sua mãe era de descrença.
"Não tenho escolha, Meroe. Não posso arriscar a retribuição de Zendikar. Sinto muito. Sinceramente." As palavras de Numa foram seguidas pelo som de seus passos recuando. Os passos apressados de sua mãe seguiram-no.
Nissa agarrou o canto de seu cobertor, esfregando a parte macia repetidas vezes. Sua mente girava. Numa ia expulsá-los do acampamento Joraga. Para onde iriam? O que fariam? Mais ainda, como ele poderia fazer isso com sua mãe depois de tudo o que Meroe passara? O coração de Nissa doía ao pensamento de sua mãe sofrendo.
Queria odiar Numa, mas não podia culpá-lo por proteger seu povo. Ele tinha razão. Ela era um perigo, a última dos animistas e a única restante que ainda tinha visões.
Sua mãe lhe dizia que as visões eram um dom. Dizia que eram a maneira de Zendikar falar com Nissa. Mas sua mãe não entendia. Meroe nunca vira a escuridão, nunca ouvira o contorcer e o ranger, nunca sentira a pressão sufocante, então não podia saber.
Por muitas luas agora, Nissa acreditara que Zendikar a estava caçando, e agora as palavras de Numa confirmavam seus medos. Suas visões não eram um dom, eram um aviso. Zendikar estava falando com ela e sua mensagem era clara. Teria sua retribuição. Terminaria o que começara com os animistas. O nó escuro estava vindo para Nissa, e isso significava que qualquer pessoa perto dela estava em um perigo terrível.
Nissa esgueirou-se para fora de casa antes que sua mãe retornasse.
A escuridão era completa, as estrelas ocultas pelas nuvens que ainda borrifavam a terra com chuva. Empacotou o essencial — seu cajado-espada, arco, flechas, saco de dormir e algumas provisões — caçaria pelo caminho. A única outra coisa que trouxera foram os fragmentos de magia da natureza que conhecia, que de algum modo pareciam menos impressionantes agora enquanto ela se esgueirava pela escuridão sozinha.
Quando seus pés queriam voltar, ela lembrava a si mesma por que estava partindo; não levaria o horror para aqueles que amava. Quando ele viesse por ela, encontraria apenas ela.
Nissa não parou nem desacelerou até ver o primeiro indício de luz azul profunda através das árvores. Mantivera tal passo que estaria à frente de quaisquer rastreadores Joraga por pelo menos meio dia, e isso apenas se conseguissem encontrar seu rastro. Mas não conseguiriam. Ela vinha usando sua magia da natureza para cobri-lo, colocando cada última lâmina de grama de volta ao seu lugar. Relanceou por cima do ombro para se tranquilizar. Seu feitiço funcionara perfeitamente; não havia sinal de que ela viajara por ali. Nem o mais habilidoso rastreador seria capaz de encontrá-la.
Arte de Wesley Burt
À medida que a realidade daquele pensamento se assentava, a boca de Nissa ficou seca. Respirou fundo, forçando para baixo o sentimento de pavor, e virou-se para frente para prosseguir.
"O que é...?" Nissa apertou os olhos para o chão. Seria um truque da luz?
Protegeu os olhos da penumbra do pré-amanhecer. Ainda estava lá. Um fluxo cintilante estendia-se à sua frente. Nissa arquejou. Era exatamente como o rio de luz de sua visão.
"Não." Seu estômago apertou. Estava acontecendo já — o fluxo levaria o nó escuro direto para ela.
Deu um passo atrás.
Ele moveu-se com ela.
"Fique longe de mim!" Nissa chutou o fluxo e disparou em uma corrida na outra direção.
Mas lá estava ele à sua frente novamente.
Deu uma cambalhota e mudou de curso.
Após dois passos ele estava apontando para ela mais uma vez.
Virou-se uma terceira vez e saltou sobre um tronco.
Desta vez ele estava lá antes que seu primeiro pé pousasse.
Quando a sola de sua bota tocou o chão, o fluxo brilhante subiu em espiral para encontrá-la. Antes que pudesse virar novamente, antes que pudesse correr, ele a envolveu como um casulo.
Aconteceu tão rápido que as lutas de Nissa foram inúteis. Tentou alcançar sua espada, mas sua mão da espada estava envolvida em uma gavinha cintilante, flutuando sem peso como seus outros membros.
Tentou contorcer-se para fora, tentou entrar em pânico, mas nada funcionou. O abraço era tão confortante, tão calmante que ela não pôde evitar suavizar-se nele. Estava dizendo-lhe que não a machucaria, que não era mau. Mas era; ela sabia que era... não era?
Sua confusão transformou-se em admiração conforme o fluxo a envolvia completamente.
Naquele momento, nas profundezas da floresta Joraga, Nissa Revane conectou-se com Zendikar.
Ela entendeu então. O fluxo brilhante de luz e vida era a alma da terra. E era a coisa mais bela, mais maravilhosa que Nissa já tocara.
Ele a conduziu para dentro de uma visão, guiando-a gentilmente em seus pensamentos, suas memórias e suas esperanças.
Arte de Chris Rahn
O fluxo rodopiava ao redor dela, cada uma de suas joias cintilando, mas Nissa entendeu que eram mais do que apenas joias; cada centelha era um ser vivo. Todas as feras, plantas e raças de Zendikar faziam parte do fluxo interminável.
Mais do que isso, o fluxo não era apenas um fluxo, era a terra. Eram os contornos e as depressões. Era cada lâmina de grama, cada seixo de terra, cada grão de areia. Era tudo, e tudo estava conectado.
As criaturas brilhantes brincavam ao redor dela, entrando em foco conforme passavam por seus olhos. Ela observou o balote rugir, a grande árvore jurworrel agitar-se ao vento, a longa e esguia serpente de néctar deslizar pelo chão, e o pássaro barutis pairar no céu. E então viu uma elfa, uma elfa que parecia muito familiar.
Era uma versão perfeita e cristalina dela mesma.
A Nissa brilhante caminhava pela terra fluida. Cada passo que dava enviava lampejos através da alma de Zendikar. Seguia o fluxo pela floresta, ganhando velocidade conforme avançava, correndo cada vez mais rápido, saltando e depois voando. Cruzou um deserto, um pântano, uma cordilheira de montanhas, e depois cem outros lugares que passaram voando rápido demais para Nissa reconhecer.
Finalmente o fluxo desacelerou e a Nissa brilhante parou para descansar. Estava em um parapeito rochoso, olhando para cima para o pico de uma montanha.
Dentro da montanha, Nissa ouvia o contorcer e o zumbido horrendos, e sentia o nó escuro. Recuou, o medo surgindo em seu interior. Teria sido tudo um truque?
Mas a Nissa brilhante não parecia estar assustada. Ela manteve sua posição. Ergueu as mãos, as palmas voltadas para a escuridão. Seus lábios moveram-se, mas Nissa não conseguiu ouvir o que ela proferia.
E então, subitamente, uma luz brilhante explodiu por toda a visão, consumindo tudo — a montanha, o nó e a Nissa brilhante.
Quando Nissa acordou, o casulo sumira. Estava no chão, e olhava para cima para o que parecia ser um par de olhos.
"Nissa?"
E uma boca.
"Nissa?" A boca formou o nome dela novamente.
Levou mais um momento antes de Nissa reconhecer a voz. "Mazik?" Nissa lutou para se sentar.
"Você está bem?"
"Sim, estou bem. Eu... espere." Nissa piscou para o amigo. "O que você está fazendo aqui? Estava me seguindo?" Levantou-se de um salto, as orelhas movendo-se em busca de sinais de aproximação.
"Não se preocupe, não há mais ninguém aqui."
"Eles sabem que você veio?"
"Apenas sua mãe. Tive que contar a ela quando vi você partir."
"Mazik!"
"Não fique brava. Ela ficou feliz por você ter ido para a floresta. Acha que suas visões serão mais claras aqui fora."
"Ela disse isso?"
Mazik assentiu. "E disse que quer que você as siga. Meu pai e eu também. Acreditamos nos caminhos animistas. Acreditamos que suas visões são importantes. Você acabou de ter outra, não teve?"
"Você estava me observando?" Nissa corou. "A luz... você, você a viu?"
"Vi..." Mazik apressou-se antes que Nissa pudesse repreendê-lo. "Mas não se preocupe, não estou com medo. Acho que é incrível." Os olhos de Mazik eram tão esperançosos que Nissa relaxou um pouco. "O que esta lhe contou?"
Nissa olhou para seu rosto familiar, um rosto que achara que poderia nunca mais ver, e decidiu confiar no amigo. "Oh, Mazik, tudo o que eu pensava estava errado. Zendikar não está atrás de mim. Não está atrás de nenhum de nós. Não é má ou vingativa. É magnífica. Mas está sofrendo. Algo horrível a está machucando." Estremeceu ao pensamento do nó escuro. "E acho, acho... oh, deixa pra lá, não sei o que penso."
"Você acha que Zendikar quer sua ajuda para salvá-la."
"Como você soube disso?"
Mazik apontou para os pés de Nissa. O fluxo brilhante de luz voltara. Rodopiava pelas pernas dela de forma brincalhona como um animal de estimação ansioso.
O coração de Nissa elevou-se ao vê-lo novamente. "Olá, Zendikar", disse ela.
O fluxo trinou de empolgação e disparou para cima, girando ao redor dela e de Mazik como uma nuvem em funil. Soprou o cabelo deles para o alto e encheu-os de uma sensação de encantamento. Antes que o cabelo deles tivesse chance de assentar, a luz estava puxando seus pulsos, pedindo para que seguissem.
Arte de Howard Lyon
Nissa olhou para Mazik.
O fluxo puxou novamente.
"Tudo bem, tudo bem, estamos indo", riu Mazik.
Juntos, seguiram o fluxo de luz brilhante mais fundo na floresta.
Concordaram sem precisar discutir que viajariam juntos. O fluxo de luz, ao que parecia, não aceitaria de outra forma. Mazik conseguia vê-lo contanto que Nissa estivesse perto. Se ele se afastasse para caçar ou forragear, relatava que perdia o rastro, mas assim que retornava ao lado dela, o caminho brilhava para ele novamente.
Como uma criança empolgada, mostrava-lhes todos os segredos e belezas da floresta: alcovas escondidas, árvores que se retorciam tão alto no céu que seus topos se perdiam nas nuvens, vinhas que dançavam e riachos murmurantes que cantavam doces canções. Era como se estivessem em uma terra nova, uma terra de prodígios.
Nissa sentia que ela, também, era nova. O vínculo que fizera com a alma de Zendikar crescia mais forte a cada passo, e sua magia também. Quando lançava feitiços, mesmo simples, irrompiam com vigor. As nozes jaddi que ela encantava para iluminar o caminho à noite organizavam-se como as estrelas, formando formas de animais para guiá-los. Quando encontraram um espreitador das árvores furioso, bastou um leve movimento do pulso dela para mudar seu curso e livrá-los da preocupação. Movia as folhas das árvores para protegê-los da chuva, e extraía o doce néctar das flores para elevar seus espíritos quando ficavam cansados.
Mas mesmo em meio a todo o prodígio, Nissa não conseguia afastar inteiramente o sentimento premonitório que rastejava pelos cantos de seu estômago. Com cada passo que davam, aproximavam-se da escuridão. E quando chegassem à montanha, teria que enfrentar o nó, pois fora o que a Nissa brilhante fizera. Mas como?
Após dois dias no santuário encantado, Nissa e Mazik alcançaram a borda da floresta. O mundo além abria-se em um deserto de rochas vermelhas, árvores secas e mesas fustigadas pelo vento. Ao saírem, pareceu a Nissa que estava deixando o lar novamente. Mas era para lá que o fluxo de luz ia; era para lá que a guiava.
Os elfos não estavam acostumados ao calor intenso do sol. Sua pele delicada estava tão habituada à proteção da copa da floresta que tornou-se quente e vermelha em poucas horas. Beberam quase todas as gotas da água que carregavam antes do primeiro anoitecer, e seus pés doíam de caminhar no solo endurecido.
No segundo dia, Nissa começou a se preocupar. Não queria acreditar que a alma de Zendikar os levaria ali para a morte, mas se não conseguissem água fresca logo, seus destinos estariam selados. "Para onde você está nos levando?", perguntou ao fluxo. "Estamos com sede."
Ele apenas cintilou em resposta, guiando-os pelo desfiladeiro.
Ao meio-dia do quarto dia, Nissa estava com tanto calor e sede que, quando transpuseram uma colina e viram uma vasta terra pantanosa abaixo, soltou um grito de pura alegria.
Os elfos correram colina abaixo em direção ao pântano, ajoelhando-se à beira de um brejo salobro. Nissa usou sua magia para extrair fluxos de água pura e fresca. Beberam até seus ventres estarem cheios, e então lancharam cogumelos selvagens que cresciam ao longo da margem, e beberam mais um pouco.
Nissa estava inteiramente satisfeita até Mazik falar.
"Agora temos que cruzar aquilo?", perguntou ele, apontando para frente. Era uma pergunta retórica; ele conseguia ver o fluxo cintilante tão bem quanto ela, e ele ia claramente direto pelo pântano.
"Ao menos há água...", ofereceu Nissa. Tentou parecer animada, mas sua voz estava tingida de cansaço. "Não havia outro caminho?", sussurrou para o fluxo brilhante.
Ele trinou e cintilou e a puxou adiante como se estivesse completamente alheio ao dilema atual deles. E talvez estivesse, pensou Nissa. Era a alma da terra, afinal; de toda a terra, não apenas parte dela. O brejo era tão parte de Zendikar quanto a floresta era. Com aquele pensamento veio um senso de compaixão, e os olhos de Nissa abriram-se novamente.
À medida que avançavam mais fundo na terra pantanosa, Nissa formou uma conexão com ela. Via a beleza nas árvores cobertas de musgo, sentia a magia nas névoas que subiam das águas salobras e balançava ao som do enxame de moscas-leão que os cercava. Nunca teria acreditado que um brejo tivesse tanto a oferecer.
Arte de Tianhua X
"Hã, acho que deveríamos sair daqui." A voz de Mazik veio de trás.
Canalizando seu novo senso de amor pelo pântano, Nissa correu as pontas dos dedos pela superfície de uma samambaia próxima. "Está tudo bem Mazik, se você apenas se abrir para ele, verá..."
"Não, Nissa, temos que ir... AGORA!"
Nissa girou ao grito de Mazik. Ao fazê-lo, captou um aroma pungente no ar: óleo, unguentos, morte.
Vampiros.
Mazik agarrou o braço dela e a puxou, caminhando a passos largos pelo lodo.
"Onde eles estão?" Nissa olhava ao redor freneticamente enquanto corriam.
"Não sei." Mazik farejou. "Em toda parte!"
Um sibilado atrás fez ambos se virarem.
Cinco horrores vampíricos os perseguiam. O maior, um macho sem camisa manchado de sangue, liderava a investida.
"Temos que sair do pântano! Ajude-nos!" Nissa gritou enquanto corriam.
A alma de Zendikar respondeu à sua necessidade. O fluxo de luz traçou um novo caminho pelo brejo, um que Nissa sabia que os levaria à segurança.
Correu como uma flecha ao longo do fluxo brilhante, mais rápido do que jamais correra. A conexão que fizera com o pântano permitia que ela se movesse por ele como fazia na floresta; saltava de tronco em tronco e balançava em vinhas baixas para cruzar uma ravina escura.
Sentiu a presença dos vampiros recuar antes mesmo de romper uma linha espessa de árvores e sair em uma clareira.
Arquejando, agarrou os joelhos. O fluxo de luz reuniu-se ao redor de seus pés, que estavam agora em solo firme, fora do pântano, novamente. "Foi... por pouco", disse entre grandes goles de ar. "Viu os dentes daquele grande, Mazik?"
Quando ele não respondeu, Nissa olhou para cima. "Mazik?"
O coração acelerado de Nissa despencou. "Mazik!" Seu chamado caiu vazio contra o pântano espesso.
Virou-se para o fluxo brilhante. "Onde ele está?"
Subitamente um grito agudo e tenso soou das árvores.
"Não!" Nissa disparou de volta para o pântano. Fizera-o sem pensar, mas alguns passos depois, seus pensamentos alcançaram seus pés; estava muito certamente correndo em direção à sua morte. Sacudiu os dedos frios que tentavam puxá-la de volta. Não voltaria atrás, não sem seu amigo.
Havia dez deles agora. Os horrores fedorentos e gritantes cercavam uma das árvores mais altas. Nissa olhou para cima para os galhos. Mazik estava agarrado precariamente a um poleiro torto, seu braço ensanguentado.
Com um sibilado, dois dos vampiros mais próximos saltaram em sua direção, garantindo apoios para as mãos nos galhos mais baixos.
"Afaste-se dele!"
Arte de Igor Kieryluk
Nissa não percebera que ia gritar. O som de sua voz assustou os vampiros também. Voltaram-se como um só e, vendo-a, seus olhos famintos fixaram-se em sua nova presa.
Nissa teve apenas o espaço de alguns batimentos cardíacos para reagir. Seus instintos assumiram o controle. Alcançou a terra, Zendikar, canalizando seu poder. Esperava arrancar algumas raízes, o suficiente para fazer uma barricada, o suficiente para ganhar tempo para correr. Mas em vez de raízes, arrancou o que pareceu uma árvore inteira. Embora, conforme emergia, percebesse que não era uma árvore de forma alguma, era a própria terra.
Ergueu-se em uma onda, crescendo do lodo e assumindo forma. Era tão alta quanto um balote. Investiu contra os vampiros, com dentes rangendo e pernas agitando-se.
Derrubou os dois primeiros apenas chocando-se contra eles. Não foi até sentir o puxão nas pontas dos dedos que percebeu que o elemental estava sob seu controle. Direcionou-o a um grupo de três vampiros. Ele golpeou com sua pata maciça, lançando-os ao chão em uma explosão de luz verde.
Restavam cinco. Nissa voltou seu elemental contra eles.
Um tentou correr, o grande, o líder.
"Ah, não você." Nissa convocou as vinhas pendentes e dançantes do pântano. Elas se tencionaram em atenção, tornando-se lanças, e perfuraram o vampiro direto no coração.
"Nissa? Nissa!" Mazik desceu da árvore e correu até ela com os braços abertos.
Nissa aceitou o abraço dele. Permaneceram assim por um longo tempo, seus corações batendo um contra o outro.
"Você salvou minha vida", disse Mazik finalmente, afastando-se o suficiente para olhar nos olhos dela. "Obrigado."
"Não mencione isso." Nissa tentou rir, mas saiu mais como um soluço.
"Então, sim, você realmente..." Mazik apontou para os vampiros caídos. "E então você..." Gesticulou para a terra.
"É, o que foi aquilo?", refletiu Nissa.
"Aquilo", disse Mazik, "é como você vai salvar Zendikar".
Saíram do pântano pouco antes do amanhecer. Nissa sentiu falta dele mais do que pensara que sentiria. Apegara-se ao lodo e às árvores caídas e ao musgo que cobria cada superfície. Agora estavam nos sopés de Akoum, mais uma parte nova da terra para aprender.
Mazik encorajou Nissa a praticar o uso de seus novos poderes. Ela concordou; parecia a coisa certa a fazer. Para aprimorar suas habilidades, reuniu os detritos que cobriam o solo e os elevou para formar uma cobertura flutuante que os sombreava, enviando mineradores de fendas e gigantes de trincheiras em debandada para longe. Moveu rochedos enormes que bloqueavam o caminho, e fez escadarias e pontes a partir da terra para cruzarem os desfiladeiros profundos.
Arte de David Gaillet
Mazik estava convencido de que a magia de Nissa era a chave para destruir a escuridão. Repetia para ela o que ela lhe contara sobre sua visão mais recente, citando a maneira como a Nissa brilhante erguera a mão e murmurara o que ele achava que devia ter sido um feitiço.
Nissa queria acreditar nele; queria confiar que estaria pronta quando chegassem à montanha, que seria forte o suficiente, poderosa o suficiente para enfrentar o nó escuro. Queria acreditar que poderia derrotá-lo, porque precisava; Zendikar contava com ela, conseguia sentir isso em sua alma.
Aconteceu nas profundezas das montanhas florestais de Akoum logo após Nissa ter acalmado a fúria violenta de uma hurda em investida. Ela parou bruscamente.
"O que houve?", perguntou Mazik.
Nissa não respondeu. Examinou as árvores à sua frente, procurando, mas sumira. O fluxo brilhante sumira.
"Nissa?", insistiu Mazik.
"Não sei — eu o perdi — você o vê?"
Mazik voltou os olhos para o chão, procurando junto com ela. "Estava aqui há apenas um momento."
Nissa ajoelhou-se, tateando em busca de sua conexão, da alma brilhante, mas não havia rastro algum.
"Acha que deveríamos voltar?", perguntou Mazik. "Talvez tenhamos tomado um caminho errado."
"Acho que não, eu..." As palavras de Nissa foram cortadas quando a terra deslocou-se sob ela. O deslocamento foi sutil a princípio, mas muito rapidamente a sensação instável de vertigem cresceu junto com um estranho senso de incoerência.
Nissa percebeu no mesmo momento em que Mazik disse: "O Turbilhão! Está acontecendo!". Ele correu para o abrigo de um afloramento rochoso que era protegido por uma grande árvore e Nissa o seguiu.
Arte de Sam Burley
Nissa ouvira histórias do Turbilhão, a força de Zendikar que consumia tudo em seu caminho. As histórias não pareciam exageradas. Rochas choviam ao redor deles e a terra tremia e ondulava como as ondas violentas de um oceano.
Os elfos perderam o equilíbrio e tombaram ao chão. Nissa buscou a mão de Mazik e juntos esgueiraram-se para baixo do abrigo. O mundo ao redor virou de cabeça para baixo. Árvores retorciam-se e dobravam-se, projetando-se do solo em ângulos estranhos. Rochedos saltavam alto no ar e chocavam-se, rachando e partindo e então pairando como longos dentes denteados. Uma força imensa esgueirava-se e serpenteava através da própria terra como um louco cego; raízes, rochas e solo deformavam-se e dobravam-se à sua vontade.
"Nissa, você tem que fazer algo!" Mazik olhava para ela como se ela guardasse o segredo, como se soubesse o que fazer. Mas não sabia. Sua conexão com Zendikar sumira. Estava com tanto medo quanto ele.
Uma rocha esmagou o solo a meros passos à frente deles e lascas voaram em seus rostos. Mazik protegeu os olhos. "Por favor", implorou ele. "Faça parar. Apenas tente."
Outra rocha choveu e depois outra. Se não fizesse algo, seriam enterrados vivos.
"Tudo bem, sim, tudo bem, vou tentar." Nissa disse as palavras mais para si mesma que para Mazik. Colocou as palmas na terra. "Venha", sussurrou ela. "Preciso de você. Por favor." Enviou sua própria alma para fora, buscando sua conexão, mas não havia nada lá. Mergulhou mais fundo, estendendo seu alcance o máximo que pôde. "Zendikar."
E então, de uma vez, ela veio a ela, uma inundação avassaladora. Era fria e opressiva; era medo. Nissa encontrara sua conexão, encontrara a terra, e a terra estava aterrorizada.
Conseguia ver então; o Turbilhão não era uma força estranha; o Turbilhão era a reação de Zendikar ao nó escuro. Era a terra empinando como um cavalo assustado. Tão horrorizada estava da escuridão que se perdera no medo.
Arte de Izzy
"Calma", disse Nissa. "Fique em paz."
Mas a terra não respondia. Se é que algo acontecia, ela corcoveava ainda mais.
"Não está funcionando!", gritou Mazik.
Rochedos chocaram-se contra o abrigo acima de suas cabeças, enviando pedaços de rocha chovendo sobre eles. Não resistiria por muito mais tempo.
"Nissa, o que fazemos?" A voz de Mazik estava cheia de pânico.
Nissa fechou os olhos. Fez a única coisa que pôde pensar em fazer: começou a cantarolar. Era uma música animista, a melodia que sua mãe cantarolara para ela tantas vezes. Demorou-se em cada nota, infundindo-a com paz, conforto e tranquilidade.
Quando a música terminou, tudo ficou imóvel e silencioso.
Nissa abriu os olhos. A terra parara de se mover no meio de uma onda. Árvores estavam presas inclinando-se para fora como cotovelos. Rochas estavam paralisadas na metade de sua trajetória, e rastros de terra pendiam como estrelas no céu noturno. Era como se o tempo tivesse parado.
E ali à sua frente estava o fluxo brilhante.
"Você voltou", sussurrou Nissa. Ofereceu sua mão.
Tentativamente, ele subiu para encontrar seu toque.
Unir-se a Zendikar era tudo.
Nissa não percebera quão vazia se sentira sem ele até que ele retornou a ela. Agora estava inteira novamente; agora estava em casa.
"Sei que você está sofrendo", disse ela. "Mas prometo que ajudarei."
O fluxo aqueceu em agradecimento.
"Preciso que me mostre, no entanto. Preciso que me mostre para onde ir."
O fluxo rodopiou pelos dedos dela e então, com um movimento rápido, mergulhou na terra.
Nissa temeu tê-lo assustado de novo, mas um batimento cardíaco depois, a terra começou a estalar e tremer. Chamou a si todos os pequenos pedaços soltos: folhas, grama, gravetos, terra e pedra. Vieram de toda parte, correndo em direção a um único ponto como se não pudessem chegar rápido o suficiente.
Primeiro uma cabeça emergiu com um longo focinho esculpido em rocha, depois um pescoço seguido por duas pernas robustas.
Nissa deu um passo atrás enquanto um elemental plenamente formado saía da terra.
"Nissa?"
Nissa piscou ao som da voz de Mazik e, com sua piscada, o tempo foi retomado. Mas o caos não. A terra acalmou-se, as árvores e as rochas voltaram ao lugar, e o vento soprou novamente.
O elemental estava diante deles. Seu nariz brilhava; Nissa reconheceu o brilho como a luz do fluxo. Zendikar viera até ela. Mesmo aqui, mesmo neste lugar tão perto do nó que temia, mesmo estando assustada — viera para guiá-la.
Nissa e Mazik seguiram o elemental exatamente como haviam seguido o fluxo brilhante. Ele os guiou para o alto das montanhas e através dos picos altos e irregulares conhecidos como os Dentes de Akoum. Nissa sentia que estivera ali antes. Certas formações rochosas pareciam familiares e imagens de suas visões passavam diante dela. Estavam chegando perto.
Por dias atravessaram a paisagem montanhosa, fazendo pausas apenas para o necessário — para caçar e forragear, para comer, principalmente lesmas, para reabastecer seu suprimento de água e, raramente, para dormir. Não conseguiam dormir muito e, quando dormiam, ambos tinham pesadelos, pesadelos de escuridão dolorosa e contorcida.
Nissa preocupava-se com Mazik. Seus passos haviam desacelerado e sua respiração tornava-se mais pesada a cada dia. Mantinha um olho atento nele, pois parecia que o nó o estava machucando mais do que a ela.
Cedo em uma noite, justo quando o sol mergulhava sob os picos mais altos e os nighthawks de cauda-funda começavam a se agitar em seus poleiros, o elemental parou. Bateu a pata no chão ansiosamente e empinou a cabeça, acenando para uma alta coluna de rocha.
"O que houve?", perguntou Nissa, aproximando-se da curva.
O elemental recuou. Nissa espiou ao redor da rocha e seu fôlego falhou.
Pedras imensas em forma de diamante flutuavam no ar, pairando em uma quietude inquietante, cada uma espaçada com uma perfeição não natural e mantida ali por o que devia ser uma força mágica imensa. O sol refletia nas marcas estranhas em seus lados planos. Formavam um anel ao redor do pico mais alto de Akoum.
"Chegamos", disse Nissa. Conhecia bem o pico de sua visão; era ali que o nó escuro estava.
"Nissa." A voz de Mazik estava fraca. Ela virou-se para vê-lo vacilar e cair.
"Mazik!" Correu até ele.
"Algo está errado. Não sei..." Ele levou uma mão ao rosto enquanto sangue escorria de seu nariz.
"É o nó escuro." Nissa puxou Mazik de volta para trás da curva. "Temos que tirar você de perto dele."
"Não." Mazik ergueu uma mão trêmula. "Não, Nissa. Você finalmente chegou. Tem que ir. Tem que ajudar."
Nissa olhou de Mazik para o elemental que corcoveava e tremia. Estava claro para ela que nenhum dos dois poderia ir mais longe. O que quer que fizesse a seguir, teria que fazer sozinha. Seu coração partiu-se ao pensamento de deixá-los.
"Tudo bem, Nissa." Mazik falou em um tom que dizia que entendia. "Quero que você vá. Eu ficarei bem. Ficaremos bem." Repousou a mão na perna grossa e rochosa do elemental e seu tremor diminuiu.
"Você ficará bem", concordou Nissa.
Ajudou Mazik a subir nas costas do elemental e pousou as mãos em ambos os amigos. "Fiquem seguros", disse ela, enviando-lhes um fluxo calmante de magia.
"Seja forte, Nissa Revane", sussurrou Mazik.
O nariz do elemental brilhou conforme ele se afastava pela trilha. Para impedir-se de segui-los, Nissa voltou-se para a montanha e deu seu primeiro passo em direção à escuridão.
Após o primeiro passo, não parou mais. Não podia se permitir uma pausa ou temia não reunir a coragem para continuar. Aproximou-se do anel de pedras brilhantes e então apressou-se para sob elas, esquivando-se de suas sombras. Uma vez lá dentro, desacelerou e olhou para o pico imponente, o pico mais alto de Akoum.
Era ali; chegara. O nó escuro estava ali esperando por ela.
Zumbia e contorcia-se, fazendo ruídos que arranhavam o interior de seus ouvidos. Odiava-o então. Odiava-o pelo que fizera a Zendikar, pelo que fizera aos animistas e pelo que fizera a Mazik.
Circulou o pico, subindo ligeiramente mais alto a cada passo. Estava sentindo o nó, planejando seu ataque. Embora não houvesse muito o que planejar. Decidira dias atrás que quando a hora chegasse, faria exatamente como a Nissa brilhante fizera. E assim o fez.
Encontrou o lugar, o mesmo parapeito onde a Nissa brilhante estivera, e plantou os pés no chão.
"Clamo por você agora, Zendikar", disse ela. "Estou aqui para livrá-la desta escuridão." Com isso, alcançou o fundo da terra. Sabia que o fluxo não seria fácil de encontrar ali, que não habitaria tão perto do nó que temia, mas também sabia que ele viria ao seu chamado.
Pareceu entender a importância do momento, pois ela não teve que alcançar tão fundo quanto pensara para encontrá-lo. Uma vez que se conectou com Zendikar, extraiu seu poder. Puxou-o para dentro de si, tanto poder quanto conseguia conter... e depois mais um pouco. Não parou até que seu peito parecesse que ia explodir.
Então ergueu as mãos, opressivamente pesadas de poder, e enviou uma rajada tão grande que o céu inteiro encheu-se da energia que convocara. Gritou com o esforço e tropeçou para trás, esforçando-se para manter as mãos erguidas enquanto o poder fluia dela.
Quando o último resquício da magia drenou de suas pontas dos dedos, sugou uma respiração longa e olhou para a montanha. Esperava ver um pico arruinado, uma fenda de onde a escuridão escorreria; esperava enfrentar seu inimigo, e para isso estava preparada. Mas não precisou estar. A montanha estava imaculada e a escuridão ainda se contorcia em seu interior; era como se seu feitiço nada tivesse feito.
"Como?"
O nó escuro contorceu-se e gnou de uma forma que soava como uma risada maligna. O cacarejo rascante pulsou em uma onda de choque de loucura que atingiu Nissa, perfurando seus olhos e queimando sua psique. Mostrou-lhe tudo. Viu o que estava dentro da montanha, viu o que ele queria, viu o que fizera.
Viu o monstro.
Nissa gritou novamente, desta vez de terror, e desabou de joelhos conforme onda após onda de loucura monstruosa a lavavam.
Justo quando pensou que não sobreviveria a outra onda, algo dentro dela estalou, como um ovo abrindo-se, e uma força quente, espessa e oniconsumidora derramou-se da rachadura. Surgiu através dela com uma intensidade inigualável, maior que a loucura do monstro — capaz de rasgá-la por dentro, capaz de rasgar a própria estrutura de Zendikar.
Acabara então. Aquele era o fim para ela. Não destruíra a escuridão; ela a destruíra.
O que aconteceu a seguir foi impossível para Nissa entender. Uma dor excruciante a atravessou e Nissa foi enviada lançada em um vácuo. Viu luz e energia, espirais e buracos. Não havia em cima ou embaixo. Não havia terra ou céu. Estava preto e depois estava brilhante. Estava tombando, mas não havia como parar; não havia nada onde se agarrar. Se aquele era o seu fim, queria apenas que acabasse. Não queria sofrer mais. Apertou os olhos e encolheu-se em uma bola, apertando as pernas contra o peito.
E então, subitamente, houve solo sólido sob ela. Viera do nada. Teria aterrissado de volta na montanha?
Quando seu coração acalmou-se ligeiramente, arriscou abrir um olho, o direito.
O esquerdo abriu-se apenas um momento depois do direito; havia demais para apenas um olho ver. As cores eram vívidas e sem precedentes, em tons que nunca vira antes. As formas das plantas e árvores eram também estrangeiras, suas folhas e a textura de sua casca inidentificáveis. E então houve o cheiro. Era ao mesmo tempo mais doce e mais pesado que qualquer perfume que já conhecera.
Não estava na montanha. Estava em uma floresta, mas não era uma floresta em Zendikar. Algo dizia-lhe que estava muito, muito longe de Zendikar.
Houve um frisson de alívio que acompanhou a percepção; não estava no mesmo lugar que o monstro. Escapara da loucura sombria e nodosa, escapara da dor. Mas o alívio foi seguido de perto por um senso de fracasso. Quebrara sua promessa a Zendikar. Enfrentara a escuridão, e perdera.
"Não!" Nissa bateu com o punho no chão em raiva. Quando o fez, a terra reagiu. Algo dentro dela saltou para encontrá-la e a puxou para dentro.
Ela caiu nesta nova terra. Lorwyn, chamava-se a si mesma. Não era nada parecido com Zendikar. A única coisa que os dois mundos compartilhavam era que ambos eram mundos, além disso eram tão diferentes quanto dois flocos de neve, cada um com suas próprias marcas, seus próprios caminhos, seus próprios habitantes. Onde Zendikar a envolvia, esta terra era distante. Onde Zendikar era brincalhona, esta terra era sombria.
Mas ambas estavam sofrendo.
Como? Nissa perguntou-se. Como poderia haver tanta dor, tanta escuridão, tanto mal?
O mal nesta terra não estava longe sob a superfície. Estava borbulhando, pronto para libertar-se; mil aranhas sombrias haviam crescido e agora roíam seus casulos de ovo de seda.
"A Grande Aurora traz a noite... conforme a Morte revela sua porta... sombras obscurecem rápido a luz... libertando Shadowmoor."
As coisas-aranhas sibilavam.
Nissa estremeceu. "Recuem." Afastou as sombras com um gesto.
"Não voltaremos. É a nossa hora. Estamos vindo. Logo tudo será nosso."
Uma onda de escuridão rastejante lavou Nissa.
Nissa acordou com um círculo de rostos carrancudos e percebeu que estivera gritando, novamente. Os rostos eram de elfos, mas os seres tinham chifres crescendo em suas cabeças e cascos em vez de pés. Suas espadas e lanças estavam apontadas para ela.
Arte de Lius Lasahido
O grupo murmurava enquanto olhava para Nissa com uma mistura de suspeita e curiosidade.
"Sem chifres?"
"Sem cascos."
"Olhem para os olhos dela!"
"Os olhos dela brilham!"
"Afaste-se." Esta voz era firme e forte e vinha de uma fêmea alta e segura de si, claramente a líder. Brandia sua espada, a ponta chegando a centímetros de esfaquear o nariz de Nissa.
Nissa sobressaltou-se e soltou um pequeno guincho.
"Já chega de ruídos", disse a elfa estranha. "Quer arruinar nossa caçada?"
"S-sua caçada?", perguntou Nissa, confusa.
"A caçada à mácula. Aquelas criaturas horrendas fugirão se você continuar gritando como uma banshee."
"Sim!" Nissa levantou-se de um salto. "Vocês também sabem da mácula! Eu as vi. Estão vindo. Disseram que iam tomar conta de tudo."
"Há! Disseram, foi? Acham que poderiam resistir a nós?"
"Vocês não vão deixar?"
"Você não é daqui, é, pequena elfa? Esta é a nossa terra, a minha terra. E não deixaremos aqueles horrores envenenarem sua beleza. Você caça?"
"Eu... eu caço, mas não sei..."
"Mácula-olhos na direita!", um dos elfos gritou de trás da líder.
"Agora é sua chance, criatura estranha, bela e de olhos verdes", disse a líder para Nissa. "Pegue sua lâmina e prove seu valor." Com isso, investiu contra o matagal de árvores à direita.
"Minha lâmina." Nissa desembainhou sua espada. "Sim." Algo parecia tão certo sobre aquilo, sobre a investida e a caçada. Era o que deveria acontecer quando uma terra era ameaçada.
Correu para as árvores atrás dos elfos de cascos de Lorwyn.
Um elfo macho, não muito mais velho que Nissa, captou seu olhar ao entrar. Ergueu a mão e fez sinal para que ela se movesse para a borda das árvores. Ela o fez sem emitir um som.
Juntos, esgueiraram-se pelo perímetro do matagal. Nissa ouvia um som de grunhido e ganido como de porcos selvagens ou goblins.
"Estão perto." O elfo sorriu com sarcasmo. "Sou Galed, a propósito."
"Nissa", disse Nissa.
"Prazer em conhecê-la. Parece que você atraiu o olhar de Dwynen. Ela não costuma convidar elfos estranhos para sua caçada premiada. Mas vejo por que a deixou vir junto. Você é uma das criaturas mais belas que já vi." Galed inclinou-se enquanto falava e inalou o perfume de Nissa.
Nissa estremeceu com a proximidade dele. Havia algo inebriante no momento — aqueles elfos, este lugar, a caçada ao mal. De certa forma, sentia que estava finalmente onde pertencia.
"Ali está!", disse Galed. Um batimento cardíaco depois ele saltou de entre as árvores e estocou com sua lança.
Nissa saltou atrás dele, aterrissando ao seu lado bem a tempo de vê-lo cortar a garganta de uma pequena criatura que guinchou de medo.
"Há mais! Peguem-nos!" Galed apontou.
Nissa mergulhou sobre outra criatura pequena, sua lâmina erguida, pronta para golpear. Mas algo a parou.
Aquela não era uma das criaturas-aranha malignas do casulo em sua visão. Era uma criatura atarracada com pele cinza-esverdeada toda nodosa e verrugosa. Dois olhos saltavam da cabeça em um arremedo de sapo, e sua boca abria e fechava enquanto tentava emitir um som.
Nissa estava paralisada, seu instinto de caçadora detido pelo olhar nos olhos dela.
"N-n-não mate", a pequena criatura gaguejou. "P-p-por favor."
Não havia como Nissa massacrar aquela criatura inocente. Saltou de cima dela e ela saiu correndo. "Galed!", gritou ela. "O que você está fazendo? Estes não são o mal!"
Galed não ouviu uma palavra; estava perdido no fervor do derramamento de sangue, despachando uma criatura após outra.
"Galed! Pare!" Nissa correu em direção a Galed conforme ele encurralava mais uma.
Arte de Igor Kieryluk
A pequena criatura guinchou por misericórdia.
"Não a machuque!", gritou Nissa.
Mas era tarde demais, a lança dele afundou no peito da criatura.
"Não!" Nissa caiu de joelhos ao lado do pequeno corpo. A criatura piscou para ela, os olhos úmidos e perdidos.
As mãos de Nissa agitavam-se ao redor dela, incertas de onde se mover ou o que fazer. Não havia nada a fazer. Repousou a palma na testa dela. "Sinto muito", disse ela. E naquele momento conectou-se com a estranha criatura. Sentiu seu lugar no fluxo brilhante da vida que era a alma de Lorwyn. Sentiu suas esperanças e sonhos, seu medo; sentiu sua dor e sofrimento. E então sentiu-a morrer.
"Por quê?" Nissa levantou-se de um salto e girou. Galed estava parado tão perto que ela sentia seu hálito quente em suas bochechas. Devia estar observando-a. Bom. "Por que você a matou?"
"Porque os boggarts são uma mácula."
"Não são uma mácula. São seres vivos. São parte desta terra. Você é um elfo! Um elfo!"
"E você é louca." Galed olhou para baixo para o peito.
Nissa seguiu os olhos dele e percebeu que sua lâmina cutucava a veste dele exatamente sobre o coração. Ela via, mas não a baixou. "Existe tanto mal", disse ela. "Tanta escuridão já. Eu a vi. Vi tudo. É horrível. É pavoroso." Lágrimas encheram seus olhos ao pensar em sua preciosa Zendikar. "No entanto, você insiste em adicionar mais."
"Afaste-se dele!" A voz de Dwynen cortou o bosque. Ela marchou até Nissa. "O que você está fazendo?"
Arte de Johannes Voss
"O que você está fazendo?" Nissa retrucou. Voltou-se de Galed para Dwynen. "Você não pode matar estas criaturas inocentes. Não deixarei."
Dwynen puxou a corda de seu arco. "Como você ousa?", disse ela. "Como ousa vir à minha floresta e me dizer o que posso fazer?" Ela assentiu e Galed lançou-se sobre Nissa.
Nissa esquivou-se e girou para longe do ataque. Ergueu sua lâmina para bloquear um segundo golpe, mas ele nunca veio.
Tanto Galed quanto Dwynen permaneceram chocados, olhando para frente, com as bocas abertas.
Nissa virou-se lentamente, temendo o que veria. Seus piores medos foram realizados.
Uma parede imensa de noite retorcida e contorcida aproximava-se deles. Conforme movia-se pela terra, deixava destruição sombria em seu rastro.
"Shadowmoor", a escuridão sibilou.
"Não!", arquejou Dwynen. "Não a minha Lorwyn. Não a minha bela Lorwyn!" Convocou sua magia e disparou um feitiço contra a escuridão que se aproximava. Galed fez o mesmo.
Nissa deu um passo à frente ao lado deles, buscando sua própria magia.
"O que você está fazendo?" Dwynen olhou furiosa para Nissa.
"Estou ajudando você!"
"Não está ajudando. Isto é tudo culpa sua! Bruxa!" Em um movimento, Dwynen jogou Nissa no chão e aterrissou com o joelho no peito de Nissa.
"Não fui eu que fiz isso", conseguiu dizer Nissa. "Deixe-me ajudar, por favor. Talvez juntos possamos..."
Dwynen pressionou uma flecha ajustada contra a garganta de Nissa. "Você destruiu o meu mundo!" Moveu-se para soltar a corda do arco, mas justo quando o fez, a parede de escuridão a tocou.
Dwynen ficou paralisada, capturada na Grande Aurora de Shadowmoor. Ela mudou diante dos olhos de Nissa, escurecendo e endurecendo.
Antes que a parede escura pudesse tocá-la também, Nissa deslizou de sob a ponta da flecha de Dwynen, saltou de pé e correu.
"Onde você vai, elfinha bonita?" a voz sombria sibilou em sua mente.
Nissa não olhou para trás. Apenas continuou correndo — continuou correndo e pensando em Zendikar.
"Ah, quer ir para casa, quer? Mas o que fará quando chegar lá? Você é impotente contra o mal que assombra Zendikar."
Os passos de Nissa desaceleraram, mas apenas por um batimento cardíaco. Forçou-se a prosseguir; estava apenas escapando por pouco da parede de sombra.
Arte de Sam Burley
"Zendikar, Zendikar, Zendikar", ela entoava.
Sentia a centelha dentro dela, a mesma que sentira em Akoum antes de ser lançada no vácuo. Incendiara-se novamente e a estava despedaçando por dentro.
"Você se arrependerá se for", disse a voz. "Você falhará. Novamente."
Não. Encontraria um caminho. Só tinha que chegar lá. Nissa investiu através da dor em direção ao lugar onde sentia o mundo abrindo-se para deixá-la sair.
"Fique aqui, pequena andante da centelha, fique e junte-se a mim. Eu a tornarei mais poderosa. Darei a você o que precisa para salvar sua preciosa Zendikar."
O vácuo abrira-se. Estava bem à sua frente, e Nissa estava no limiar. Conseguia ver as eternidades rodopiantes do outro lado. Tudo o que tinha a fazer era atravessar. Mas hesitou.
"Fique, Nissa, fique comigo para sempre."
Aquilo era o ponto, não era? Se ficasse, nunca mais sairia. Seria poderosa, sim, mas perderia a si mesma, e perderia sua conexão com sua terra. Se ficasse, perderia Zendikar.
No momento de clareza de Nissa, um fio estendeu-se diante dela. Era como o fluxo brilhante de luz que passara a conhecer tão bem, mas muito mais brilhante e espesso. Subiu para encontrá-la.
Aquele era o seu caminho. Era a exata coisa que ela estivera procurando por toda a vida. Estendeu a mão trêmula e agarrou-o. Ele a puxou com grande força através do rasgo no tecido de Lorwyn e para fora no vácuo.
Conforme tombava no vasto espaço, viu seu caminho desenrolar-se através das eternidades. Levaria ela a muitos lugares, mas por agora a levaria para casa.